O desafio da juventude cristã brasileira

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Não é preciso grande capacidade intelectual para se observar que o Brasil está longe de ser um “país cristão”. Por mais que muitos hoje se declarem cristãos, há pouca (ou nenhuma) evidência de mudança por aqui. Na verdade, é justamente o contrário. Infelizmente, em nossa nação impera uma forte cultura anticristã. Continuamos sendo um povo imoral, dominado pela lascívia, dado à imoralidade. Em nosso sangue está impregnado o “jeitinho brasileiro”; e em muitos corações tupiniquins Deus é negado veementemente. Penso que o Brasil vive um pouco do que Agostinho relatou no passado:

Aquele nosso inimigo era leão quando se enfurecia abertamente; agora é dragão quando ocultamente arma ciladas.[...] Como a nossos pais era necessária a paciência no combate contra o leão, assim precisamos da vigilância contra o dragão. No entanto, a perseguição, seja do leão, seja do dragão, nunca cessa para a Igreja; e é mais temível quando engana do que quando se enfurece. Naquele tempo queria forçar os cristãos a negarem a Cristo; agora ensina os cristãos a negarem a Cristo; então coagia, agora ensina. Então introduzia violências; agora, insídias. Aparecia então furioso, agora mostra-se insinuante e dificilmente aparenta o erro.” [1]

Assim como na época descrita, as pessoas hoje são ensinadas a negarem a Cristo. Parece que em todas as esferas da sociedade foi criada uma aversão à fé cristã. Por exemplo, nossa política deposita suas esperanças de salvação no Estado, dando a ele a soberania sobre as demais esferas da sociedade, papel esse que deveria ser de Deus.[2] E o mais incrível é que essa insistência cega permanece frente as diversas provas da falibilidade dessa visão, o que evidencia, ainda, um paradoxo estranho: sabemos que boa parte de nossos políticos são corruptos, mas insistimos em esperar que eles resolvam nossos problemas, como se fossem verdadeiros agentes messiânicos.[3] Nossas escolas, por sua vez, parecem mais preocupadas em formar militantes do que indivíduos de boa formação intelectual. E, ao fazerem isso, frequentemente defendem bandeiras que não estão alinhadas com a fé cristã, como a desvalorização do casamento, a ideologia de gênero, a abolição da família, entre outros. 
Outra esfera afetada pela aversão ao cristianismo é a ciência, que  é dominada pelo materialismo filosófico. Este, parte do pressuposto da inexistência de Deus para assim afastar completamente a possibilidade de diálogo entre a “razão” e a fé.[4] Nossa cultura é composta de uma complexa mistura religiosa envolvendo ocultismo, panteísmo e gnosticismo, revelando, na verdade,  uma ausência de identidade que somente encontra sua unidade na rebelião contra Deus e a fé cristã.[5] E, infelizmente, mesmo em algumas igrejas (ou seitas que são chamadas de igrejas), o Cristo é negado. 

Sim, o cenário é caótico e desanimador, mas eu acredito sinceramente que Deus pode mudar essa situação, se Ele assim desejar. Acredito ainda que podemos, pela graça e providência de Deus, ser instrumentos do Soberano para transformar a nossa nação em todas as esferas. E só faremos isso se em todos os aspectos de nossas vidas, nós dermos a primazia ao Eterno; se, de fato, nós vivermos para a honra e glória Dele.

No meu último texto escrevi sobre o que os jovens cristãos podem fazer para enfrentar o ambiente hostil de uma universidade anticristã. Dessa vez, pretendo explorar 5 pontos nos quais os jovens cristãos, em minha opinião, deveriam investir para que tenhamos um futuro mais promissor para o nosso país.

1) Ao invés de ser um “treteiro” de Facebook, procure conhecer e sistematizar a sua fé

Como a grande maioria dos jovens de minha geração, eu me considero uma pessoa conectada. Isso quer dizer que acompanho com frequência as redes sociais, sobretudo o Facebook, a fim de me informar a respeito do que anda acontecendo no Brasil e no mundo.

Não nego a importância da internet em nosso tempo e, por isso, não acredito que devamos negligenciá-la. No entanto, tenho visto uma postura crescente, principalmente em meio aos jovens cristãos, de resumir a fé reformada a “tretas” e “memes”, que mais parecem ter o intuito de chamar atenção do que contribuir de alguma forma para a edificação do reino de Deus. Veja bem, reconheço o poder que um “meme” tem de “viralizar” uma mensagem, mas me preocupo quando ele é o principal meio para que muitos formem suas opiniões. De igual forma, me preocupo com os “debates” virtuais, que muitas vezes são marcados por mera troca de ofensas e pouquíssima argumentação séria. Uma fé baseada em  “memes” e “tretas” do Facebook é uma fé superficial e frágil.

A respeito disso, considere comigo um ponto importante. A forma como vemos e interpretamos a realidade ao nosso redor é baseada em nossos pressupostos. Esses são verdades tão óbvias a ponto de não serem passíveis de questionamento. Ou como Ferreira & Myatt (2007) escrevem:

“Pressupostos são as proposições básicas, tomadas como verdade, sem prova anterior, que formam a base para determinar todas as demais proposições que fazem parte da interpretação de mundo daquela cosmovisão.” [6]

Por exemplo, qualquer pessoa que vá interpretar um texto bíblico considera seus pressupostos ao fazê-lo. Se esses pressupostos não são firmados em boa teologia, há uma chance considerável de má interpretação, principalmente se o contexto e a ideia central do texto forem ignorados. De igual forma, é deveras inocente acreditar que alguém consegue interpretar qualquer coisa nessa vida em posição de total neutralidade.


Ora, se os nossos pressupostos são importantes ao ponto de impactarem fortemente nossas conclusões, é fundamental que os conheçamos bem e estejamos bem firmados neles. Caso contrário, cairemos no problema que Ferreira e Myatt (2007) também destacam:

“...não seria exagero dizer que a maioria das pessoas não tem consciência de seus próprios pressupostos e, por isso, são controladas por ideias que nunca chegaram a entender. O resultado é que as pessoas fundamentam a sua interpretação da vida sobre um alicerce equivocado, sem ter a menor noção de que há algo errado.”[7]

Esse cenário pode ser visto com grande clareza no Brasil em vários temas. Podemos observar, por exemplo,
crentes socialistas, feminismo evangélico, teologia da libertação e teologia da missão integral e universalismo cada vez mais presentes, em maior ou menor escala, em nossas igrejas, até mesmo nas mais tradicionais, o que mostra um desconhecimento dos pressupostos básicos da fé cristã reformada.

Enfim, precisamos resgatar uma cosmovisão cristã sólida e estarmos bem firmados nela. É fundamental que, ao invés de buscar aprender teologia por meio do Facebook, busquemos estudar com seriedade essas doutrinas fundamentais da fé cristã e da tradição reformada, a fim de que possamos nos proteger dessas heresias. Como nos alerta D.A. Carson, não podemos cair na mentira de que o dogma não importa.

“...é pior que inútil os crentes falarem sobre a importância da moralidade cristã, a não ser sobre os fundamentos da teologia cristã. É mentira dizer que dogma não importa; importa tremendamente. É fatal deixarmos que as pessoas tenham a impressão de que o cristianismo é apenas um modo de sentir; é virtualmente necessário insistir que é primeira e principalmente uma explicação racional do universo. É inútil oferecer o cristianismo como uma aspiração vagamente idealista da natureza simples e consoladora; muito pelo contrário, é uma doutrina dura, firme, exigente e complexa, calcada num realismo drástico e intransigente. É fatal imaginar que todo mundo sabe muito bem o que o cristianismo é e que só precisa de um pouquinho de estímulo para pô-lo em prática. O fato brutal é que neste país cristão nem uma pessoa em cada cem faz a mais nebulosa ideia do que a Igreja ensina sobre Deus, ou o homem, ou a sociedade, ou a pessoa de Jesus Cristo.” [8]

2) Tenha um relacionamento real com Deus


Já falei um pouco sobre isso aqui. Por isso, me limitarei a comentar brevemente um excelente parágrafo do Dr. Lloyd-Jones onde ele aborda a relação entre oração e conhecimento de Deus, que são, a meu ver, os dois pilares de um relacionamento real com Deus.

“A nossa posição fundamental como cristãos é provada pelo caráter da nossa vida de oração. É mais importante que conhecimento e entendimento. Não fiquem imaginando que estou diminuindo a importância do conhecimento. Passo a maior parte da minha vida procurando mostrar a importância de se ter conhecimento e entendimento da verdade. Isso é vitalmente importante. Há só uma coisa mais importante, a oração. Como a teologia é, em última análise, o conhecimento de Deus, quanto mais teologia eu conhecer, mais ela me levará a buscar conhecer a Deus. Não apenas saber algo 'sobre' Ele, mas conhecê-lo! O grande objetivo da salvação é levar-me ao conhecimento de Deus. Posso falar doutamente acerca da regeneração, todavia, que é a vida eterna? É 'que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste' (João 17:3). Se todo o meu conhecimento não me leva à oração, há algo errado nalgum lugar. É o que lhe cabe fazer. O valor do conhecimento é que me dá tal entendimento do valor da oração que eu dedico tempo à oração, e o faço com prazer. Se o conhecimento não produz estes resultados em minha vida, há algo errado e espúrio em torno disso, ou então eu o estou conduzindo erradamente.” [9]

Se, por um lado, acusei acima que nosso conhecimento da fé reformada é muito superficial e deveríamos nos preocupar com isso a ponto de estudarmos (muito!) mais, por outro preciso reiterar que o real conhecimento nos aproxima de Deus e não nos faz cair em uma postura arrogante e altiva. Portanto, se você está descobrindo agora a fé reformada e/ou o calvinismo, não se porte como se você fosse um doutor em todos os assuntos ou como se você tivesse autoridade de juiz para condenar quem pensa diferente de você só porque você leu um punhado de livros. A nossa intelectualidade também pode se transformar em um ídolo. Lembre-se que o verdadeiro conhecimento de Deus te aproxima d'Ele e vem sempre acompanhado de humildade.

3) Vá além do estudo teológico

Francis Schaeffer, no seu clássico livro O Deus que intervém, explica logo no primeiro capítulo como chegamos ao mundo bizarro de hoje. De acordo com ele, mudanças graduais nos levaram ao estágio atual, iniciando-se com a filosofia e atingindo, por fim, a teologia. Ele nos apresenta uma escada, um passo a passo chamado por ele de “linha do desespero”, para mostrar como isso se sucede:

Figura 1: a famosa linha do desespero de Schaeffer. [10]

Você já parou para se perguntar por que as obras de arte da atualidade são horrendas, salvo raras exceções? Ou, por que a música atual tem qualidade, tanto poética quanto harmônica, cada vez menor? Ou, ainda, por que nosso país se torna cada vez mais imoral? Por que a ciência se rebelou contra Deus? Por que a teologia liberal, em todas as suas vertentes, conquistou o coração das massas com tanta facilidade em nossa nação? Tudo isso tem a ver com os pressupostos. Se negarmos, por exemplo, a existência de Deus e fizermos disso um pressuposto, poderemos negar também a existência de absolutos, o que significa que não há mais padrão objetivo para a beleza de uma obra de arte ou música, não há mais um padrão objetivo para julgar a moralidade, a Bíblia e os dogmas centrais da fé cristã perdem a sua força e qualquer um pode crer no deus que bem entender, até mesmo em um deus que vai salvar todo mundo, pois a verdade já não existe mais. 

Penso que uma boa formação cristã precisa abordar todos esses pontos citados por Schaeffer, principalmente a filosofia, e relacioná-los com a teologia. Isso é relevante, tanto para a defesa de nossa fé, quanto para a formação de uma sociedade calcada em uma cosmovisão cristã. Quem sabe se começarmos a investir em nossa cultura hoje, poderemos, no futuro, servir a Deus com boa literatura, boa música, boa poesia, boa política, boa ciência? Não podemos nos omitir em nenhum desses setores.

4) Se preocupe com ação social

A ação social é um valor importantíssimo para os cidadãos e para a igreja. Bem diferente do que diz o marxismo, que faz do Estado o grande benfeitor social, a palavra de Deus nos estimula a termos o protagonismo nessa área, fazendo “o bem a todos, principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10).

Dessa forma, atribuir ao Estado essa função é simplesmente deixar de cumprir uma ordenança bíblica. O descuido nesta área, inclusive, abre ainda mais espaço para o avanço da ideologia marxista, visto que a igreja e os cristãos não tem cumprido o seu papel como deveriam.

Falando sobre como os puritanos viam a ação social, Ryken escreve:

“A ação social puritana era baseada numa teologia do pacto, que requeria das pessoas que buscassem o bem comum da comunidade e que via as boas obras como um ato inevitável de gratidão pela salvação de Deus... A ação social puritana era principalmente voluntária e pessoal, em vez de governamental ou institucional.” [11] (grifo meu)

Os puritanos viam a ação social sob a ótica do que chamavam bem comum. Isso incluía, além da caridade direta, a geração de empregos e a capacitação do mais pobre. Richard Baxter, por exemplo, empreendeu com sucesso um programa para capacitação dos mais pobres ao trabalho têxtil [12] e Richard Stock afirmou:

“Esta é a melhor caridade, aliviar os pobres ao fornecer-lhes trabalho. Beneficia ao doador tê-los a trabalhar; beneficia a comunidade, que não sofre parasitismos, nem nutre qualquer ociosidade; beneficia aos próprios pobres.” [13]

Dessa forma, seja prestando auxílio direto (financeiro ou material), na geração de empregos ou na capacitação dos mais pobres, a ação social é nossa responsabilidade, enquanto indivíduos e enquanto igreja. Não devemos terceirizar isso ao Estado.


5) Seja um exemplo de dedicação e honestidade em seu trabalho

Jovens estão, no geral, ingressando no mercado de trabalho. E é bem provável que enfrentemos situações que nos pressionarão ao erro, ao famoso “jeitinho brasileiro”. O cristão deve ter postura santa também no seu trabalho (e em todas as esferas de sua vida), executando bem a sua função e procedendo com honestidade e honra. Veja o que dizem, respectivamente, Cotton Mather e John Cotton a respeito disso:

“Um cristão deveria ser capaz de prestar boa conta não somente do que é sua ocupação, mas também do que é na sua ocupação. Não é bastante um crente ter uma ocupação; ele deve cuidar de sua ocupação como convém a um crente.” [14] (grifo meu)
“Um homem, portanto, que serve a Deus no serviço aos homens... faz seu trabalho como na presença de Deus, como quem tem uma ocupação celestial em mãos, e, por isso, confortavelmente, sabendo que Deus aprova seu caminho e trabalho.” [15]

Precisamos resgatar essa visão puritana a respeito do trabalho e coloca-la em prática em nossa nação. Ser um funcionário (ou patrão) honesto, honrado e que dá o seu melhor é também uma forma de glorificar e honrar a Deus.


Conclusão

O caminho para uma transformação em nosso país passa, a meu ver, por esses cinco pontos. Há outros, claro, e você pode citá-los nos comentários, se desejar, mas acredito que honrar a Deus nesses cinco seja o grande desafio para nós, jovens cristãos brasileiros. 

Que Ele nos abençoe.

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Referências:
[1] Agostinho de Hipona, apud Ferreira (2016), Contra a idolatria do Estado, p. 125.
[2] Para maiores detalhes ver Dooyeweerd (2014), Estado e Soberania; e Koyzis (2014), Visões & Ilusões Políticas.
[3] Para maiores detalhes ver Garschagen (2015), Pare de acreditar no governo.
[4] Para maiores detalhes ver Dembski e Witt (2012), Design inteligente sem censura
[5] A obra de Ferreira e Myatt (2007), Teologia Sistemática, traz uma boa análise das várias religiões presentes na cultura brasileira.
[6] Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 6, 2007, editora Vida Nova.
[7] Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 7, 2007, editora Vida Nova.
[8] D.A. Carson, Teologia bíblica ou teologia sistemática?, p. 93-94, 2001, editora Vida Nova.
[9] Dr. D.M. Lloyd-Jones, Orando no espírito, p. 10.
[10] Francis Schaeffer, O Deus que intervém, p. 17.
[11] Leland Ryken, Santos no mundo, p. 308.
[12] Para maiores detalhes ver Ryken (2013), Santos no mundo.
[13] Leland Ryken, Santos no mundo, p. 302.
[14] Leland Ryken, Santos no mundo, p. 64.
[15] Leland Ryken, Santos no mundo, p. 66.

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Autor: Pedro Franco
Divulgação: Bereianos
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Sendo um jovem cristão em uma universidade anticristã

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Há alguns anos atrás assisti uma palestra do Rev. Augustus Nicodemus na qual ele citou um dado alarmante vindo de uma pesquisa feita nos EUA. Segundo ele, somente 3 de cada 10 jovens cristãos americanos continuavam firmes na fé após a sua saída da faculdade. Isso me chamou muita atenção e fiquei imaginando se no Brasil a situação não seria semelhante ou até mesmo pior.

Desconheço a existência de uma pesquisa como essa feita em solo brasileiro, mas, ainda assim, acredito que nossa situação não seja muito diferente. Baseando-me em minha própria vivência em uma universidade pública e observando relatos de amigos a respeito de suas experiências, percebi que nossos jovens, em sua maioria, não estão preparados para lidar com o ambiente acadêmico principalmente de universidades públicas, que é muito hostil ao jovem cristão.

Por conta disso, decidi escrever esse texto com algumas orientações pessoais aos jovens cristãos que irão ingressar ou já ingressaram em uma universidade. Meu propósito é tão somente ajuda-los a manterem sua fé durante o seu tempo de graduação.

1) Busque a Deus, pois é Ele quem te sustenta e guarda do mal.

A cruz e o pecado – uma resposta a André Valadão

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Recentemente o pastor e cantor gospel André Valadão postou uma foto nas redes sociais afirmando o seguinte: “a cruz não é a revelação do nosso pecado, é a revelação do nosso valor”. Confesso que ao ver tal imagem circulando na rede me assustei, tamanho o absurdo da afirmação. 

Qualquer cristão que tenha estudado um pouco a sua Bíblia sabe que a cruz de Cristo é justamente a exposição máxima do nosso pecado. A Bíblia sistemática e categoricamente afirma que a humanidade foi inteiramente afetada pelo pecado, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23), que “não há um justo, nem um sequer” (Rm 3.10), que somos como um vale de ossos secos, mortos espiritualmente (Ez 37.1-14), que somos como a pior das esposas, que após ter sido resgatada da morte pelo marido, cuidada e criada como uma princesa, vai e se entrega a todos os outros homens, sendo pior do que as meretrizes porque a elas “se dá a paga, mas tu dás presente a todos os teus amantes; e o fazes para que venham a ti de todas as partes adulterar contigo” (Ez 16.33). A Bíblia não “pega leve” quando fala do nosso pecado e nem deveria. Nas palavras de Paul Washer, “o pecado é uma ofensa infinita contra um Deus infinitamente santo” e na Queda houve uma completa separação entre o homem e Deus. 

Então, como assim, “a cruz revela o nosso valor”? Isaías diz que “todas as nações são perante ele [no caso, Deus] como cousa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” (Is 40.17). E o profeta continua, agora exaltando a majestade de Deus: “com quem comparareis a Deus? Ou que cousa semelhante confrontareis com ele?” (Is. 40.18). Um pouco acima, Isaías diz: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai dum balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta. Nem todo o Líbano basta para queimar, nem os seus animais, para um holocausto” (Is 40.15-16). De novo eu pergunto, qual é mesmo o nosso valor?

Ainda, grandes homens na Bíblia reconheceram continuamente a sua insignificância. Paulo disse “desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Ao reconhecer sua completa ausência de valor, ele humildemente dá graças a Cristo pela cruz: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.25). 

Em outra ocasião, Paulo, para muitos o maior pregador da história da igreja, afirma ser o principal dos pecadores: “...que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1.15). Ele ainda se considerava o menor dos apóstolos: “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado de apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1 Co 15.9). E, por fim, o apóstolo ainda disse: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6.14). Diante de tudo o que Paulo afirma, cabe novamente a pergunta, qual é mesmo o nosso valor?

Davi, o maior rei de Israel, talvez na maior crise de sua vida, humildemente disse: “...pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim... eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu a minha mãe... não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com Espírito voluntário” (Sl 51. 3, 5, 11-12). 

Daniel, um dos servos mais fiéis relatados na Bíblia, por diversas vezes reconheceu a sua insignificância e exaltou a majestade de Deus. Vejamos duas ocasiões em especial.

Quando ele interpretou o sonho de Nabucodonosor, disse: “mas há um Deus no céu, o qual revela mistérios... E a mim me foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes...” (Dn 2. 28, 30). A reação do rei diante da declaração de Daniel foi a seguinte: “certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério” (Dn 2.47).

Na época do rei Dario, Daniel foi salvo por Deus da cova dos leões e ao explicar o ocorrido ao rei, ele disse o seguinte: “o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano...” (Dn 6.22). E qual foi a reação do rei? Esta: “Faço um decreto pelo qual, em todo o domínio do meu reino, os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo e que permanece para sempre...” (Dn 6.26). 

Vemos, portanto, que por duas vezes Daniel foi usado grandemente por Deus, mas se manteve humilde, atribuiu toda a glória ao Pai e por conta disso, dois reis ímpios glorificaram ao Senhor. Diante de mais esses exemplos, eu insisto na pergunta: qual é mesmo o nosso valor?

Ora, a missão de Cristo foi justamente assumir o nosso papel na aliança com Deus e se sacrificar por nós, os que cremos nele, como o cordeiro santo e sem mácula justamente porque não há valor algum em nós - toda honra e toda glória sejam dadas a Deus!

A cruz é, portanto, o sinal máximo do quanto a humanidade é pecaminosa. O cordeiro santo, o primogênito de Deus, o Verbo encarnado precisou se oferecer como sacrifício para expiar os pecados do mundo. Na cruz ele recebeu a punição pelos nossos pecados, tendo que provar do cálice da ira de Deus. E por que Deus fez isso? Por que Ele nos salvou em Cristo? Ele o fez para o louvor de sua glória, para que o Seu nome seja glorificado, para demonstrar a sua graça; não por conta do “nosso valor”. 

Não há embasamento bíblico para esse “evangelho autoajuda”, que exalta o homem como se ele tivesse alguma importância. O louvor ao homem é feito pelo Humanismo e não pelo Cristianismo. A fé cristã trata do louvor e da glória exclusivos de Deus. 

Soli Deo Gloria

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Sobre o autor: Pedro Franco, 23 anos, é estudante de farmácia pela UFRJ e diácono na Igreja Presbiteriana Adonai (RJ).
Divulgação: Bereianos
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Inconformados

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Um fenômeno curioso tem tomado as redes sociais com certa proeminência nos últimos 2 anos. Tenho visto muitos jovens se interessarem pela fé reformada e, por consequência, se interessarem por alguns assuntos teológicos complexos como pré-milenismo, aminelismo e pós-minelismo.


Se por um lado o debate teológico buscando a máxima fidelidade à Santa Escritura é extremamente positivo, ele também pode ser destrutivo quando feito pelas motivações erradas. Algumas dessas questões difíceis foram estudadas e discutidas durante séculos por grandes mentes cristãs, capazes e, principalmente, maduras. No meu entender, para falar de certos assuntos, experiência e maturidade cristã são fundamentais (elas não vem somente com idade, é claro, mas esse geralmente é o caso).

Não por acaso, no afã de ganhar uma discussão na rede e ter o ego massageado por aplausos ou likes, muitos têm condenado (até mesmo ao inferno!) aqueles que apresentam opiniões contrárias e promovendo um circo de discussões bizarras nas redes sociais, que não contribui para o avanço do reino de Deus. Se questionados quanto a essa conduta, respondem afirmando que precisamos de uma geração de inconformados, que fará a diferença e salvará a igreja brasileira (ok... houve um pequeno exagero da minha parte, mas você entendeu). 

Tendo apresentado o cenário, gostaria, então, de estabelecer o objetivo deste texto que será justamente falar a respeito do que considero um inconformismo bíblico, utilizando por base o texto de Romanos 12:1-2.

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” Rm 12.1-2

Esse texto é amplamente conhecido e já o vi sendo utilizado em sermões diversas vezes. No entanto, considero que essa passagem, apesar de parecer fácil de compreender, carrega dentro de si alguns ensinamentos muito profundos e pertinentes. O resumo do texto é: Paulo roga aos cristãos que façam duas coisas: (1) apresentem os seus corpos a Deus como um sacrifício vivo, santo e agradável, o que seria o seu culto racional; e (2) não se conformem com este século, mas se transformem por meio de uma renovação das suas mentes. A pergunta que precisamos fazer é: “o que Paulo quis dizer com isso tudo?”.


Inicialmente, precisamos compreender o significado de “apresentar nossos corpos como sacrifício”. João Calvino, ao comentar esse trecho do versículo, diz que o fato de sermos sacrifícios de Deus nos diz que pertencemos totalmente a Ele, que nenhuma parte de nosso ser é nossa ou de qualquer outro que não seja Deus. Além disso, o Rev. John Stott acrescenta: “o apelo evangelístico tradicional é que entreguemos nossos corações a Deus, não nossos corpos. Mas nenhum culto é agradável a Deus se for só interior, abstrato e místico; precisa se expressar em atos concretos de serviço executados por nossos corpos”. 

Portanto, quando Paulo fala de apresentar nossos corpos como sacrifício, ele está falando de negar o nosso eu e viver para a glória de Deus; de abandonar as nossas vontades e desejos egoístas e dedicarmo-nos para a obra de Deus; de abandonar os nossos desejos pecaminosos e nos voltarmos para Deus; ou seja, nos entregarmos sem reservas, por inteiro. Nas palavras de Cristo:

“... Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quer salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” Lc 9.23-24

A primeira coisa que precisa ficar clara, portanto, irmãos, é que o evangelho requer de nós uma entrega completa. Não há como viver o evangelho e continuar praticando as obras do velho homem. Não há como adorar a Deus e ao mundo. Ou você serve Cristo, ou você serve o sexo e a pornografia. Ou você serve a Cristo, ou você serve a embriaguez. Ou você serve a Cristo, ou você serve a mentira, a esperteza. Não é possível viver o evangelho liberal que tanto tem sido pregado por aí. Nós devemos apresentar nossos corpos, todo nosso eu, como sacrifícios a Deus. A entrega é completa e não, parcial.


Outro ponto que precisamos compreender é o caráter desse sacrifício, que segundo Paulo deve ser “vivo, santo e agradável a Deus”. Bom, Calvino nos auxilia novamente a responder essa pergunta. Segundo ele, Paulo utiliza o termo sacrifício vivo para enfatizar o que já mencionamos, a respeito do cristão entregar-se por inteiro à Cristo. 

Continuando, para compreendermos o caráter santo do sacrifício, precisamos entender a importância da santidade no caráter de Deus. Nas palavras de R.C. Sproul,

“Em diversas ocasiões, a Bíblia repete algo por 3 vezes sucessivamente. Mencionar algo 3 vezes seguidas é eleva-lo a categoria de superlativo... Somente uma vez nas Escrituras sagradas um atributo de Deus é elevado ao terceiro grau. Somente uma característica de Deus é mencionada três vezes seguidas. A Bíblia diz que Deus é santo, santo, santo. Não diz que Ele é meramente santo, ou santo, santo.” R.C. Sproul

Por Deus ser santo, ele requer um sacrifício santo. E isso ocorre ao longo de toda Bíblia. No AT eram os animais perfeitos, separados para tal causa. No NT foi o homem justo e perfeito, o primogênito de Deus, separado para limpar o pecado dos filhos de Deus. Aqui vale dizer que nossa entrega como sacrifício não visa a expiação. Isso já foi feito por Cristo na cruz do calvário. Porém, a vida do cristão regenerado deve ser marcada por uma constante busca por santidade. Como a palavra de Deus nos diz, a graça não nos dá um passe livre para a libertinagem. Como Paulo diz:

Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?...Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros de seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei e sim da graça” Rm 6.1,2; 12-14

O teor do apelo de Paulo tanto no capítulo 6 quanto no capítulo 12, onde ele roga aos seus irmãos, é de quem apela ao coração dos leitores. A meu ver, Paulo se utiliza aqui do desejo que deve haver em todo cristão genuinamente convertido de querer agradar a Deus, que é santo, santo, santo. É por esse motivo que o cristão busca uma vida santa mesmo sabendo que já foi salvo em Cristo. Ele deseja tão somente agradar o santo, santo, santo por amor e gratidão a Ele. 


Assim, queridos, a segunda coisa que precisa ficar clara aqui é que o fato de termos sido salvos em Cristo pela graça de Deus não nos habilita a viver uma vida de libertinagem. Pelo contrário, agora que fomos regenerados devemos buscar a santidade em cada área de nossas vidas. Porém, não por medo da condenação do inferno ou por desejo de obter salvação por nossas boas obras, mas por amor a Deus, por sabermos de sua santidade e por desejarmos do fundo de nosso coração agrada-lo. Se dedicarmos nossas vidas a esse propósito, podemos ter a certeza de que estamos sendo um sacrifício agradável a Deus e prestando aqui o que Paulo chamou de culto racional. 

Porém, para chegarmos, enfim, ao inconformismo precisamos questionar ainda uma última colocação de Paulo. Esta é a transformação por meio da “renovação da nossa mente”. No meu entender, a transformação a que Paulo se refere aqui é o “nascer de novo”, essa mudança radical no curso de nossas vidas. E essa mudança ocorre por meio dessa renovação da mente. Isso nada mais é do que o processo de santificação, que é conduzido pelo Espírito Santo de Deus e tem por objetivo nos conformar a cada dia com a pessoa de Cristo; nos fazer a cada dia mais parecidos com ele. Nas palavras de Jesus,

“...quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as cousas que hão de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” Jo.16.13-14

Portanto, somente conseguiremos essa transformação por meio do conhecimento de Deus que nos é dado pelo Espírito Santo a cada vez que, por exemplo, meditamos na Bíblia. Essa é uma função vital do Espírito Santo, que é muitas vezes negligenciada. Ele nos enche com o conhecimento de Deus para que possamos ter assim nossas mentes renovadas e, por consequência, vidas transformadas. Ou seja, o correto conhecimento acerca de Deus produzirá uma renovação em nossas mentes que, por consequência, transformará os nossos atos, a nossa conduta.


Assim, outro ponto importante que eu gostaria de estabelecer aqui é que as devocionais e o estudo bíblico sério são imprescindíveis ao cristão porque eles são o principal meio utilizado por Deus para mudar uma vida, para santificar um filho Seu.

Não me entendam mal. É maravilhoso ler livros sobre Deus, sobre o evangelho, sobre teologia reformada, sobre homens de Deus do passado e etc. O problema é que quando lemos, segundo Arthur Schopenhauer, “outra pessoa pensa por nós. Repetimos apenas o seu processo mental”. Isso significa que repetir grandes frases (e até sermões) de homens como Jonathan Edwards e Charles Spurgeon não garante que tenhamos, de fato, interiorizado suas mensagens. É, portanto, fundamental gastar tempo meditando nas Escrituras e orando para que o Espírito de Deus nos conceda um conhecimento tal que se interiorize em nós a ponto de modificar nossos atos. 

Como disse acima, meu objetivo com essa exposição da palavra é falar sobre inconformismo. E há um pequeno vocábulo que é fundamental para que possamos fazer isso. Paulo utiliza o vocábulo “mas” entre o não conformar-se com este século e o ser transformado pela renovação da mente, dando uma ideia de completa e explícita oposição entre as duas coisas. Isso significa que a única maneira de se inconformar com o mundo, com a moralidade caída da humanidade, com o pecado reinante em nossa época é se conformar com a imagem de Cristo. 

R.C. Sproul em seu livro “God is holy and we are not” menciona que o que mais incomoda o ímpio é o santo (e eu concordo com ele). Logo, se você deseja ser, de fato, um grande inconformado, alguém que luta pelo evangelho e que faz a diferença, o conselho que a Palavra te dá é: concentre sua luta primeiramente contra o seu próprio pecado; negue a si mesmo; busque a santidade; busque corrigir os seus atos; olhe primeiro pra si, para dentro do seu coração; se volte para a vontade de Deus; busque verdadeiramente cumprir a Sua vontade e os Seus estatutos. 

Eu sei que é difícil para nós, jovens, o lidar com a ansiedade de querer ser relevante e ser parte de uma grande batalha. Acreditem quando digo que com meus 24 anos ainda sofro muito com isso. Por isso, gostaria de dizer para nós, jovens, que não deixemos de lutar pelo evangelho, mas tenhamos a noção de que a melhor maneira de um jovem cristão gastar seu tempo é trancado no seu quarto, meditando na palavra de Deus e orando em busca de santidade. Saiam um pouco das redes sociais, das grandes discussões, busquem a Deus e trabalhem, por exemplo, para mudar a realidade de suas comunidades locais. E no tempo certo, Deus te fará conhecer o seu chamado, em qual área você vai batalhar pelo reino de Deus e como você poderá ser ainda mais relevante. 

Portanto, se você deseja ser um inconformado e verdadeiramente fazer a diferença, antes de tudo, seja santo porque Deus é santo (1 Pe 1.16).

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Referências:
- The complete biblical commentary collection of John Calvin, John Calvin.
- God is Holy and we are not, R.C. Sproul.
- Romanos, o poder do Evangelho, John Stott.
- A arte de escrever, Arthur Schopenhauer.

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Autor: Pedro Franco, 24 anos, é estudante de farmácia pela UFRJ e diácono na Igreja Presbiteriana Adonai (RJ).
Divulgação: Bereianos
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O soberano Deus que ama seus filhos

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Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós” Gn 45.5

Introdução

De início, gostaria de fazer um breve resumo sobre a história de José do Egito. No entanto, acredito ser importante lembrar alguns pontos da história do pai de José, Jacó. Creio que todos se lembram que ele precisou sair fugido de sua cidade porque havia roubado o direito de primogenitura e a bênção de seu irmão, Esaú. Ele foi, então, morar na casa do primo de sua mãe, Labão. Depois de algum tempo lá, Jacó se encantou pela filha mais moça de Labão, Raquel. Para poder se casar com ela, ele fez um trato com Labão: trabalharia por sete anos nas terras do primo. 

Apaixonado, ele cumpriu fielmente a sua parte no trato. Porém, Labão o enganou, trocou Raquel por Lia, sua irmã mais velha, e a deu em casamento a Jacó, que consumou a união sem ter percebido a troca. Por conta disso, Jacó se sujeitou a trabalhar por mais sete anos para se casar com sua amada, Raquel. Após 14 anos, enfim, ele conseguiu seu objetivo.

Se sentindo preterida, Lia usava seus filhos para zombar de Raquel, uma vez que essa era estéril. Por conta disso, Raquel muito se entristecia, assim como se entristecia Jacó. Então, depois de orar a Deus, Raquel finalmente deu luz a dois filhos, José e Benjamin.

Por ser o primogênito de Raquel (que falecera após o nascimento de Benjamim), José tinha certa preferência do pai e, por consequência, o ódio e inveja dos irmãos. Um dia, José começou a ter sonhos esquisitos, nos quais ele governava sobre seus pais e irmãos. Esse foi o estopim para que seus irmãos, movidos por inveja e rancor, planejassem sua morte.

Todavia, Rúben, um dos irmãos de José, o livrou convencendo os demais a joga-lo numa cisterna, ao invés de tirar-lhe a vida. Ao verem uma caravana passando, decidiram vende-lo como escravo. Depois, José foi levado ao Egito, onde foi comprado por um homem importante, Potifar. O jovem, então, passou a servir fielmente na casa desse homem. Não demorou muito para que ele se destacasse e ganhasse a confiança de seu senhor. Porém, a esposa de Potifar buscava constantemente o seduzir e uma vez a situação saiu do controle. Ela o agarrou e retirou suas vestes. Diante dessa difícil situação, José saiu correndo, mas deixara suas vestes ainda com a mulher. Essa, mentindo, disse que ele tentara agarra-la a força.

O jovem, então, foi mandado para a prisão. Lá, ele ganhou a confiança do carcereiro e passado algum tempo interpretou corretamente os sonhos do copeiro e padeiro real. Conforme José havia dito, o copeiro real retornou ao palácio. Contudo, ele se esqueceu da promessa feita a José ainda na prisão.

Somente quando o Faraó teve um sonho que ninguém pudera interpretar, o copeiro se lembrou do rapaz. Esse o interpretou corretamente e, por conta disso, foi colocado como o segundo homem mais importante do Egito.

Quando a região experimentou um período muito duro de escassez, os irmãos de José foram até o Egito para buscar algum alimento. E acabaram se reencontrando com José. Na primeira vez, José não se revelou aos seus irmãos. Na segunda, porém, ele não resistiu e lhes contou sua identidade. O momento em que José se revela é justamente retratado aqui no texto que lemos. 

1) O Deus soberano

O que veremos nesse texto (Gn 45.1-8), irmãos, pode ser bem resumido no versículo 5. Ao olhar para ele, eu vejo José revelando duas verdades importantíssimas para nós. A primeira é a soberania de Deus. José estava plenamente convencido de que Deus era o responsável por toda a cadeia de eventos que o levara até aquela posição. José acreditava verdadeiramente na plena soberania de Deus. Ele não tinha dúvidas quanto ao “Deus me enviou adiante de vós” (Gn 45.5b)!

É natural que tenhamos certa resistência à ideia da soberania de Deus. Em nós reside o pecado, que é uma vontade de se rebelar contra Deus, de rejeitar sua soberania, de querer ser independente, ser o senhor do próprio destino. Não foi exatamente isso que levou o primeiro homem a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal? Por conta desse sentimento de independência, o ser humano tem a extrema dificuldade em aceitar que Deus está no controle de tudo o que existe e acontece. A grande verdade é que estamos acostumados a uma cosmovisão antropocêntrica e não teocêntrica. 

Porém, ao olharmos para a Bíblia vemos que a soberania (e majestade) de Deus é um ponto pacífico. Não há discussão acerca disso! Nas palavras de A.W. Pink:

A Bíblia nos ensina que Deus criou todas as coisas, e que Ele exerce um controle completo e soberano sobre tudo o que fez. A vontade de Deus não pode ser mudada. Ele é o Rei soberano sobre todas as coisas e nunca pode ser surpreendido por nada do que acontece. Ele reina sobre tudo, fazendo com que todas as coisas operem juntas para o bem de todos aqueles que O amam e que têm sido chamados por Ele para ser Seu povo.

Como Pink menciona, a Bíblia revela a soberania de Deus em diversos momentos, tanto no A.T. como no N.T. Vejamos alguns versículos:

Teu, SENHOR, é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, SENHOR, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos.” 1 Cr 29.11
Pois Tu, SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado acima de todos os deuses.” Sl 97.9
Excelso é o SENHOR, acima de todas as nações, e a sua glória, acima dos céus.” Sl 113.4
Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste”. Cl 1.16-17
Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as cousas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade...” Hb 1.3
nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade...” Ef 1.11
... dele, por meio dele e para ele são todas as coisas”. Rm 11.36

Podemos ver a soberania de Deus, ainda, em algumas histórias relatadas na Bíblia. Por exemplo, quando o povo de Israel estava perante Faraó, Deus fez valer a sua vontade soberana e subjugou o império mais poderoso da terra para que seu povo pudesse ser livre. Deus usou o seu poder para derrubar as muralhas de Jericó. Deus usou o seu poder para derrotar Golias. Quando Daniel encarou a morte certa, Deus interviu e fechou a boca dos leões para que a Sua santa vontade prevalecesse. Quando os amigos de Daniel enfrentaram a fornalha ardente, Deus enviou seu anjo para impedir que eles fossem consumidos.

O nosso Deus é soberano sobre a terra, Ele é o senhor dos céus e do universo! Como A. Kuyper disse certa vez: “não há um só centímetro quadrado em todo o universo sobre o qual o Cristo ressurreto não declare: ‘é meu’”! Deus é soberano na maneira como usa o seu poder. Ele o usa quando quer e da forma que deseja. Ele é soberano na maneira como mostra sua misericórdia. Ele é soberano na maneira como mostra a sua graça. 

Não há nada que fuja do controle de Deus. Portanto, precisamos compreender, assim como José compreendeu, que Deus está no controle até das mais difíceis situações que venhamos a enfrentar. E precisamos aprender a encontrar conforto nessa verdade.

O Deus amoroso

Esse conforto tem relação direta com outro ponto relatado por José no versículo 5. Na visão dele, Deus permitiu que diversas coisas ruins acontecessem em sua vida para que mais tarde ele pudesse salvar os seus irmãos e muitos outros da morte. O que José defende aqui é uma das verdades mais belas acerca de Deus. Ele nos ama! E faz com que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Paulo coloca da seguinte forma:

Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” Rm 8. 28-29

Talvez nesse ponto você esteja pensando “Pedro, você não tem ideia do que eu estou passando” ou “você não faz ideia do que eu passei. Não é justo que você venha aqui e me diga que tudo coopera para o meu bem”. E, bom, eu acho que, de alguma forma, você tem razão em dizer isso. Verdadeiramente eu desconheço suas dores, as marcas e cicatrizes que podem fazer parte do seu passado. Eu não tenho como conhecer o mais íntimo e profundo do seu coração.

No entanto, o Espírito Santo, por meio da palavra de Deus, pode toca-lo porque ele o conhece no seu íntimo e tem poder para sarar as suas feridas. Então, eu te peço que considere o que a palavra de Deus fala a respeito disso e, eu oro para que ela traga descanso ao seu coração. 

Primeiramente, eu queria olhar para a história de José do Egito. Assim como fez José, quando olhamos para trás fica fácil perceber que Deus tinha tudo planejado. Quando nós conhecemos o fim da história, fica mais fácil perceber qual era o plano de Deus nisso tudo. E foi assim não somente com José do Egito, mas com Jó, com Daniel, com Sansão, com Elias, com Davi, com Paulo e com todo servo de Deus que passou por momentos de tribulação. Olhem o que relata o profeta Isaías:

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” Isaías 55.8-9

Assim, a primeira coisa que devemos buscar frente a uma situação de dor, dificuldade ou complexidade extrema é o conforto na verdade de que os caminhos de Deus são mais elevados; e mesmo que não entendamos no momento (ou nunca venhamos a entender) o motivo de nossas dores, Ele é soberano e nos ama. Além disso, o confiar em Deus nas tribulações pode nos levar a aprofundar o nosso relacionamento com Ele. Como Paulo diz:

... E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado.” Rm 5.3-5

Vejam que coisa maravilhosa! A esperança gerada pelo Espírito Santo no meio das tribulações não confunde por conta do amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo! Irmãos, eu sei que é muitas vezes difícil acreditar que tudo coopera para o nosso bem quando vemos nosso mundo desabar*. Porém, a palavra de Deus nos manda buscar forças n'Ele para perseverar e a garantia que temos de Paulo aqui é que essa perseverança nos conduzirá à experiência e, por fim, à esperança. E todo esse processo será regado por muito amor, com muito cuidado da parte de Deus. Como a palavra também nos confirma:

... lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” 1 Pe 5.7
Confia os teus cuidados ao SENHOR, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado.” Sl 55.22

Um dos motivos, portanto, para descansarmos na soberania de Deus é que Ele nos ama e cuida de nós!

Buscando esperança na eternidade

A segunda coisa que a Bíblia nos manda fazer é pensar nos céus, na eternidade, na Glória. Isso nos ajudará a lidar com os sofrimentos do presente. Vejam o que Pedro e Paulo dizem sobre isso:

... nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações,..., obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma.” 1 Pe 1.3-6 e 9
Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas cousas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” 2 Co 4.16-18

Deus é bom, irmãos! E por mais que o amor de Deus seja tão banalizado hoje em dia, ao buscarmos nas Sagradas Escrituras a verdade a respeito desse assunto, encontraremos descanso, consolo e conforto, porque não há amor maior do que o amor de Deus. Ele, sendo o criador e sustentador do universo, enviou o seu primogênito para morrer por nós, para tomar sobre si as nossas dores e a nossa culpa, para assumir o nosso lugar na Aliança, para ser nosso representante e advogado fiel! Como o profeta Jeremias coloca, essa é a promessa de Deus para nós:

Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim. Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem; plantá-los-ei firmemente nesta terra, de todo o meu coração e de toda a minha alma. Porque assim diz o Senhor: Assim como fiz vir sobre este povo todo este grande mal, assim lhes trarei todo o bem que lhes estou prometendo.” Jr 32.40-41

Portanto, se a soberania de Deus não for capaz de trazer conforto ao seu coração por conta do seu cuidado e amor para conosco, pense, no ato maior de amor de Deus; pense na cruz de Cristo; pense na promessa do TODO PODEROSO; pense na plenitude de alegria que experimentaremos no céu! Que a alegria da salvação seja o combustível para reaquecer o seu coração (Sl 51.12).

Conclusão

Assim, irmãos, para todo aquele que lê esse texto e enfrenta um momento difícil em sua vida ou carrega consigo profundas dores e cicatrizes, procure consolo e conforto na soberania de Deus, sabendo que; (1) Ele te ama e cuida de você e que (2) o amor Dele é tão infinitamente grande que Ele se fez homem para um dia te levar ao céu, onde não mais haverá choro e ranger de dentes; onde encontraremos plenitude de alegria Nele.

Alegra o teu coração, pois o Deus soberano, criador e sustentador de todo universo, te ama, cuida de ti e vai te levar um dia ao céu!

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Referência:
Deus é soberano, A.W. Pink.

* Um dos motivos de não acreditarmos que tudo coopera para o nosso bem é uma compreensão inexata do que significa “bem” nessa passagem. No entanto, esse é um assunto para um próximo texto. 

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Sobre o autor: Pedro Franco, 23 anos, é estudante de farmácia pela UFRJ e diácono na Igreja Presbiteriana Adonai (RJ).
Divulgação: Bereianos
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Sê fiel até a morte

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Escreve ao anjo da igreja em Esmirna: Isto é o que diz o primeiro e o último, aquele que foi morto e reviveu: Conheço tua tribulação e tua pobreza, apesar de seres rico, e a blasfêmia dos que dizem ser judeus, mas não são; pelo contrário, são sinagoga de Satanás. Não temas o que hás de sofrer. O Diabo está para colocar alguns de vós na prisão, para que sejais provados; e passareis por uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. O vencedor de modo algum sofrerá a segunda morte.” (Ap 2.8-11)

No primeiro texto dessa série que agora chega ao fim, prometi tratar de três tipos de crente: (1) o crente insensível ao pecado; (2) o crente “cult”; e (3) o crente fiel e verdadeiro. Porém, acho que só agora me dei conta do imenso desafio que tenho pela frente ao tentar descrever o perfil de um cristão genuíno. Não me entenda mal. Seria simples chegar aqui e escrever tudo o que sempre ouvimos sobre o padrão de vida cristã, i.e. friamente dizer que devemos apresentar todas as características do fruto do espírito (Gl 5.22-23) e vagamente dizer que devemos ser como Jesus Cristo. Mas que utilidade teria isso? Acaso não estamos cansados de saber superficialmente tudo isso? Portanto, aviso que tratarei desse assunto em um formato completamente diferente do que utilizei nos textos anteriores. Meu objetivo, mais do que nunca, é ser sincero e falar diretamente ao seu coração, assim como esse texto (Ap 2.8-11) falou e fala ao meu.

Inicialmente quero falar de Esmirna. Ela era considerada a flor da Ásia devido a sua beleza. Lá ficava um importante porto, o que fazia dela uma cidade comercial e próspera. Em Esmirna eram realizados jogos atléticos anuais em que o vencedor ganhava uma coroa de louros. O monte Pagos era coberto de templos e belas casas. Era um lugar da realeza e de magnífica arquitetura com templos dedicados a Cibele, Zeus, Apolo, Afrodite e Esculápio. E como se não bastasse, de todas as cidades orientais era a mais fiel a Roma [1]. Porém o cenário da igreja era diametralmente oposto. Cristo, por exemplo, diz que ela enfrentava tribulação, pobreza e blasfêmia. Isso parece algo natural, não é mesmo? Afinal de contas, vemos isso na Bíblia algumas vezes. Mas para entender isso da maneira devida precisamos dar vida a essas palavras.

De início vamos falar da idolatria ao imperador. Quem não se prostrasse perante o imperador deveria morrer. Logo, muitos cristãos, por não se prostrarem e por não negarem a sua fé, eram mortos em praça pública. E se os cristãos não morressem assim como medida de disciplina, eles provavelmente morreriam de fome. A igreja era formada em sua maioria por escravos e os poucos livres tinham dificuldade de conseguir empregos por conta da difamação (blasfêmia) que era levantada contra eles. A perseguição chegava ao ponto de os cristãos terem seus bens saqueados [1]. Em suma, era como se eles não pudessem sair nas ruas sem que um olhar de pesar caísse em seus ombros. Eles provavelmente não frequentavam as festas ou as rodas de amizade. Eles possivelmente eram vistos como leprosos naquele local. Uma igreja perseguida fisicamente, socialmente e economicamente. Esse era o cenário.

Eu não sei você, caro leitor, mas eu não faço a menor ideia do que seja viver em um ambiente assim. Eu estou acostumado a viver em uma cultura que ainda minimamente respeita o cristianismo, que ainda me permite ser cristão mesmo nos setores mais difíceis como no ramo científico e que possivelmente me permitirá trabalhar e sustentar minha família sem ser sabotado por razão de minha fé. Eu sei que caminhamos a passos largos em direção contrária ao cristianismo, mas é impossível negar que estamos distantes do quadro aqui demonstrado – e é por isso que devemos lutar agora para que não cheguemos a essa situação.

O que eu espero deixar claro é que ser cristão em Esmirna significava literalmente abrir mão de tudo para seguir a Cristo. E aqui cabem algumas perguntas que sempre me faço quando reviso este texto: “seja sincero, você seria capaz de se declarar cristão em um cenário desses? Perderia tudo por amor a Cristo? Sujeitaria a sua família a fome e miséria por amor a Cristo? Abriria mão de seus luxos e do glamour por amor a Cristo? Perderia até os seus direitos mais básicos por amor a Cristo? Viveria uma vida horrível por amor a Cristo? Entregaria sua vida por amor a Cristo?”. Eu não quero parecer sensacionalista e muito menos um fanfarrão, mas precisamos ser honestos com relação a isso. Paul Washer costuma dizer que indivíduos que se declaram crentes nesse tipo de ambiente já “provaram” que são cristãos porque automaticamente ao declararem “eu sou de Cristo” sentenciam sua morte [2]. Me utilizando mais uma vez da sabedoria de Washer, parafraseio um de seus questionamentos: Cristo é tudo na sua vida ou é somente mais um acessório dela? [3].

Espero não estar sendo mal entendido. Eu não estou dizendo que a única possibilidade de ser um cristão de verdade é viver em tamanha perseguição. Isso seria ir contra, por exemplo, a história da igreja que viu um homem como Jonathan Edwards crescer em lar cristão, estudar em universidade cristã, fazer uma tese de mestrado sobre a fé cristã e conduzir um dos mais famosos avivamentos que se tem notícia [4]. Isso seria ainda entender erroneamente o ensino bíblico contido na parábola do jovem rico (Mt 19.16-22) ou na declaração de Paulo em Filipenses (Fp 3.7-8) ou ainda ignorar o próprio exemplo de Jó que ao mesmo tempo era “o maior de todos os do Oriente” (Jó 1.3) e um “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1.1). Portanto a extrema perseguição vista antigamente em Esmirna e atualmente em lugares como China e Coréia do Norte somente evidencia uma característica importantíssima de todo cristão.

Cristo a coloca da seguinte forma: “Sê fiel até a morte”. Bom, eu só enxergo uma única forma de cumprir o conselho de Cristo e quem nos conta isso é Paulo: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as cousas e as considero como refugo, para conseguir Cristo e ser achado nele...” (Fp 3.8-9). Ou seja, somente podemos ser fiéis até a morte se assim como Paulo entendermos que Cristo é tudo o que temos. Se entendermos que somos completamente incapazes de obter justiça própria advinda da lei (Fp 3.9) e que estaríamos eternamente mortos se não fosse pela graça de Deus manifestada em Cristo. Somente estimaremos Cristo como devemos se entendermos que é Ele quem nos livra da santa ira daquele “que depois de matar, tem poder para lançar no inferno” (Lc 12.5). 

Talvez você esteja espantado com o que está lendo. E eu não esperaria nada diferente. Se você como um bom cristão é sincero consigo mesmo sabe que está muito distante de estimar Cristo de tal forma. Permita-me contar-lhe um segredo: eu também estou. Quando olho pra mim, pro mais íntimo canto do meu coração, que em minha falibilidade sou capaz de enxergar, me espanto com minha maldade e meu pecado e, por isso, agradeço imensamente a Deus por ter decidido me apresentar sua graça e me salvar. Agradeço imensamente a Deus porque ele prometeu me dar um coração de carne (Ez 11.19; 36.26) para ser sensível à sua palavra e porque “aquele que começou boa obra em vós há de completa-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). 

Ser fiel até a morte não significa ser perfeito a partir de sua conversão. Antes, significa crescer no conhecimento de Cristo e viver a jornada de sua vida, buscando conhece-lo mais e mais. É viver a sua vida como quem corre, luta e se disciplina, buscando viver para Cristo (1 Co 9 24-26). É buscar ser santo em todo o nosso procedimento simplesmente por que quem nos chamou assim o é (1 Pe 1.15). É, literalmente, lutar contra nossa carne e mortificar os seus frutos, como escreve John Owen [5]. Em outras palavras, é enxergar Cristo como absolutamente tudo o que temos, o nosso bem mais precioso e por amor a Ele moldar toda a nossa vida e existência.

“Deixem os seus corações irem em direção a Ele em carinhosa união. Jesus é o Seu nome de morte: “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”, foi escrito na Sua cruz. Esse é o Seu nome de ressurreição. Esse é o nome de Seu Evangelho que pregamos. É o nome que Pedro pregou para os gentios, quando ele disse: “Este é Jesus de Nazaré, por quem é pregada a vocês a remissão dos pecados”. E este, amados, é o Seu nome Celestial! Eles cantam a Ele lá como Jesus! Veja como Ele conclui a Bíblia. Leia Apocalipse! Leia seus louvores e veja como eles adoram a Jesus, o Cordeiro de Deus! Vamos e contemos sobre esse nome! Meditemos continuamente sobre ele! Vamos amá-lo a partir de hoje e para sempre! Amém.” Charles H. Spurgeon [6].

Que Deus desperte os nossos corações!

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Referências:
[1] Hernandes Dias Lopes. Ouça o que o Espírito diz às igrejas, 2010. Editora Hagnos.
[2] Paul Washer. Esquecemos que o caminho é apertado – Seja um verdadeiro Discípulo. Vídeo disponível em http://voltemosaoevangelho.com/blog/2015/07/esquecemos-que-o-caminho-e-apertado-paul-washer-serie-um-verdadeiro-discipulo/.
[3] Paul Washer. O chamado ao evangelho e a verdadeira conversão, 2014. Editora Fiel.
[4] Dr. Stephen J. Nichols. Conteúdo disponível em: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2015/05/conheca-jonathan-edwards/
[5] John Owen. Para vencer o pecado e a tentação, 2011. Editora Cultura Cristã.
[6] Charles H. Spurgeon. Sermão número 1434: Jesus!

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Autor: Pedro Franco
Divulgação: Bereianos
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