Níveis Causais

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Por Paul Helm


Fundamental para qualquer tentativa de obter compreensão sobre o relacionamento entre a atividade de Deus e as ações humanas que ocorrem dentro da ordem da providência divina é o reconhecimento do fato de que Deus é o Criador e que os agentes humanos são criaturas. Nenhum modelo da atividade divina e da ação humana pode ignorar esse fato e permanecer fiel ao ensino bíblico. O problema surge não com o reconhecimento desse fato, mas com a construção de uma forma de compreensão que faça justiça tanto a esse fato quanto à visão da providência isenta de risco.

Uma forma pela qual certos teólogos abordam o problema da agência divina e da agência humana é distinguir entre duas ordens de atividade, a ordem divina e a ordem humana. Tomás de Aquino, por exemplo, expõe essa distinção nos seguintes termos:

Deus age suficientemente dentro das coisas como o agente causador primário, e isso não significa que a atividade das causas secundárias seja supérflua. Uma ação não resulta de dois agentes do mesmo nível. Nada há, contudo, contra uma e a mesma ação resultando de uma causa primária e de uma causa secundária. Deus não somente dá forma às coisas, mas conserva sua existência, aplica-lhes suas ações e é o fim de todas as ações, como nós já afirmamos. [1]

Aquino se refere a níveis. Uma ação, digamos, a ação de digitar essa página, resulta de dois agentes: resulta de Deus e resulta de mim. Mas essas forças causais não competem nem entram em conflito uma com a outra, porque são ordens diferentes. A causa divina primária assegura a realização da ação de digitar essa página, do ponto de vista da ordem divina, enquanto minha própria força causal assegura a realização dessa ação em um nível secundário.

Entre os Reformadores, João Calvino faz uma afirmação semelhante:

Essa diferença de causas, sobre a qual eu já me estendi, não deve ser esquecida – que uma causa é próxima e a outra é remota. A observação cuidadosa dessa distinção é indispensável para que nós compreendamos quão sábia e quão importante é a distinção entre a justa e equitativa Providência de Deus e a turbulenta impetuosidade dos homens. Nossos adversários nos enchem de calúnias mesquinhas e escandalosas, quando colocam em nossos lábios que nós fazemos de Deus o autor do pecado ao afirmar que sua vontade é a causa de todas as coisas que são feitas. Pois quando um homem age injustamente, incitado pela ambição, ou pela avareza, ou pela luxúria, ou por qualquer outra paixão depravada, se Deus, por seu justo e secreto juízo, realiza suas obras por meio dessas mãos, a menção de pecado ao pode ser feita com referência a Deus, em seus justos atos. [2]

O sol se levanta dia após dia, mas é Deus quem ilumina a terra com seus raios. A terra produz seus frutos, mas é Deus quem dá o pão e é Deus quem dá força pela nutrição desse pão. Em uma palavra, como toda causa inferior e secundária, vista em si mesma, cobre como cortinas a glória de Deus de nossa vista (o que acontece muito frequentemente), o olho da fé deve olhar mais alto, e contemplar a mão de Deus agindo através de todos esses seus instrumentos. [3]

É pelo uso dessa distinção entre Deus, a causa primária, e as causas secundárias que Calvino (por exemplo) é capaz de distinguir entre (a) o propósito e a intenção humana e (b) o mais elevado propósito e intenção de Deus em ordenar a ação da causa secundária.

Aquelas coisas que são vaidosas e injustamente feitas pelo homem são, correta e justamente, as obras de Deus! [4]

Quando Deus expõe seu poder através de meios e causas secundárias, esse poder nunca deve ser separado desses meios ou causas inferiores. É o excesso de um beberrão dizer: “Deus decretou tudo o que deve acontecer, e tudo deve acontecer; portanto, interpor qualquer cuidado ou estudo, ou esforço nosso, é supérfluo e vão”. Mas já que Deus prescreve a nós o que nós devemos fazer, e deseja que nós sejamos os instrumentos da operação de seu poder, julguemos ilegal nos separarmos naquelas coisas que ele faz junto conosco. [5]

E um escritor moderno, James Ross, escreveu:

Empregando o princípio de Aquino, de que Deus é o produtor suficiente de todos os eventos finitos, nós sabemos que em algum sentido ele é a causa tanto dos sofrimentos quanto dos atos imorais dos homens. Apesar disso, nós não podemos pensar que ele provoque esses eventos de tal forma que os atos dos homens deixem de ser imorais e os eventos deixem de causar sofrimento. Deus pode ser a causa de minhas ações pecaminosas de tal forma que eu ainda faça o que eu não deveria fazer com pleno conhecimento, previsão e responsabilidade... Qualquer interpretação da relação de Deus com o mundo que entre em conflito com essa suposição é obviamente falsa e contrária às doutrinas cristãs às quais a análise é primariamente relevante... nossa solução envolve uma proposição tal como a de Aquino: que para o mesmo evento duas correntes de suficiência causal e de necessidade causal estão simultaneamente presentes, e são simultaneamente requeridas. [6]

O teólogo anglicano Austin Farrer argumentou que:

Nós entramos em sua [i.e., de Deus] ação simplesmente por agir, que seja a ação um movimento de pensamento ou um movimento da mão. Nós cremos e até mesmo afirmamos encontrar, que sua ação sustenta ou inspira as nossas, mas a assistência divina é experimentada simplesmente em seus efeitos. [7]

A articulação causal (podemos dizer) entre as ações finitas e infinitas pode ou não tomar parte em nossa preocupação com Deus e sua vontade. [8]

Tanto as ações humanas quanto as ações divinas permanecem reais e, portanto, livres na relação entre si. Não conhecendo a modalidade da ação divina, não podemos posicionar o problema de sua mútua relação. [9]

Dois agentes para o mesmo ato é algo impossível, se ambos os agentes tiverem o mesmo sentido e estiverem no mesmo nível. [10]

Farrer afirma a existência de um duplo nível de causalidade, mas não oferece explicação sobre isso, já que o exato relacionamento entre o nível mais alto e o nível mais baixo de causalidade é oculto a nós.

Como explicado por Vernon White, [11] isso significa que Deus organiza e ordena a realidade de tal forma que, seja qual for a intenção da criatura, ela implica a intenção divina em um contexto mais amplo. Dessa forma, a intenção de Judas de trair Jesus tem um sentido dentro da intenção de Deus diferente da intenção do próprio Judas. Isso é benéfico, mas nós não podemos dizer (para preservar os dois níveis de causalidade rigorosamente) que seja o que for que Judas planeje, isso está colocado por Deus em um esquema mais amplo de significado, mas que de alguma forma Deus causa a intenção específica de Judas, e acrescenta o próprio nível causativo inferior do evento.

A proposta de dois níveis parece ser uma solução engenhosa e persuasiva. Ela certamente tem o mérito de preservar a disparidade entre a ação do Criador e a ação de suas criaturas, pois é totalmente apropriado que essas duas ações sejam consideradas como ações de diferentes ordens.

Se nós olharmos um pouco mais de perto, contudo, certas dificuldades emergem. Precisamente qual é a força causal primária da qual minha ação deriva? “Deriva” em que sentido? Claramente não é adequado entender essa derivação em termos da provisão de Deus das condições necessárias para a minha ação, pois enquanto a provisão das condições necessárias permitiria ou tornaria possível minha ação, essas condições não assegurariam que minha ação fosse realizada. Para assegurar a ocorrência dessa ação, as condições divinas, condições de ordem primária, teriam que ser tanto necessárias quanto suficientes.

Mas se essas condições são tão necessárias quanto suficientes para a realização da ação, então elas asseguram que a ação aconteça. Mas se existem causas divinas que asseguram que essa ação aconteça, então que parte tomam os desejos e as razões (e o que mais nós ordinariamente pensamos que produzem nossas ações) da pessoa?

De acordo com essa visão, o que Deus provê, por sua atividade causativa de primeira ordem, não pode ser meramente que eu existo e possuo certos poderes. Em vez disso, Deus age de tal forma que eu realmente emprego esses poderes na realização de uma ação definida. Se eu tenho meu poder (independente do que Deus possa fazer) para realizar a ação, então a causalidade divina, primária, pode ser somente a provisão das condições necessárias para essa ação, nunca uma condição suficiente.

Em resumo, é difícil ver que possa haver dois conjuntos separados de condições necessárias e condições suficientes para a mesma ação, mesmo que um desses conjuntos seja de condições primárias e o outro seja de condições secundárias. Chamar certas condições de primárias e outras de secundárias não resolve o problema por si mesmo.

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Notas:
[1] Summa Theologiae vol. 14, trad. T. C. O’ Brien (Londres: Eyre and Spottiswoode, 1975), Ia. 105.5.
[2] A Defence of the Secret Providence of God, p. 251.
[3] Ibid., p. 231
[4] Ibid., p. 233.
[5] Ibid., pp. 235,236.
[6] Philosophical Theology (Indianápolis: Bobbs-Merrill, 1969), pp. 252,253. Veja também Kathryn Tanner, God and Creation in Christian Theology: Tyranny or Empowerment? (Oxford: Blackwell, 1988).
[7] Austin Farrer, Faith and Speculation, (Londres: Black, 1967), pp. 64,65. Veja também Vernon White, The Fall of a Sparrow (Exeter: Paternoster Press, 1985).
[8] Austin Farrer, op. cit., p. 65.
[9] Austin Farrer, op. cit., p. 66.
[10] Austin Farrer, op. cit., p. 194.
[11] Vernon White, op. cit., p. 116.

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Fonte: HELM, Paul, A Providência de Deus (Série Teologia Cristã), ed. Cultura Cristã, cap. 7, ps. 158-162
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O que é Molinismo?

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por Paul Helm


Nos últimos meses e anos, uma antiga controvérsia sobre a natureza do conhecimento de Deus tem sido reacesa em certos círculos cristãos. A doutrina no centro dessa controvérsia é chamada de "conhecimento médio" - também conhecida como Molinismo. Com o objetivo de auxiliar os nossos leitores a entender melhor os assuntos em jogo, convidamos o Dr. Paul Helm para escrever uma introdução a este assunto importante.

O Conhecimento de Deus

Na discussão teológica sobre o conhecimento de Deus, fora comum por anos, até a chegada da Reforma e inclusive nela, distinguir entre o conhecimento necessário de Deus e Seu conhecimento livre. A distinção é óbvia e natural. O conhecimento necessário de Deus inclui muitos tipos de verdades. Este é o conhecimento de matérias como as verdades da matemática - por exemplo: 2 + 2 = 4.  Este também é o conhecimento de verdades como, o todo é maior do que a parte, e nenhum círculo é um quadrado. O conhecimento necessário de Deus também inclui o conhecimento de todas as possibilidades, tais como pessoas possíveis, as possíveis vidas que elas poderiam ter e toda a gama de mundos possíveis. Deus conhece estas coisas de forma imediata e intuitiva.

O conhecimento livre de Deus, por outro lado, é o Seu conhecimento do Seu decreto - daquilo que, em Sua sabedoria, Deus, de forma livre e imutável, ordenou que acontecesse. Aquilo que Deus decreta é obviamente um subconjunto de todas as possibilidades que Ele conhece. Seu decreto também tem sua fonte exclusivamente em Sua mente e vontade.

Conhecimento Médio

No final do séc. XVI, um novo tipo de conhecimento foi proposto por dois pensadores jesuítas ibéricos, Luis de Molina (1535-1600) e Pedro da Fonseca (1528-1599). O conhecimento médio - ou 'Molinismo' como veio a ser chamado mais tarde - foi a sua contribuição a uma controvérsia na igreja Católica Romana sobre graça, livre arbítrio e predestinação. Em nosso próprio tempo, o Molinismo tem sido proposto por Alvin Plantinga e por outros com respeito a relação de Deus com o mal. Creio que é justo dizer que ao passo que teólogos católicos romanos têm discutido por muito tempo o conhecimento médio em seus livros, o interesse atual nele é devido a Plantinga e sua discução do tópico em seu livro Deus, a Liberdade e o Mal.

O que é o conhecimento médio? No centro deste interesse atual está o conhecimento de Deus das possibilidades envolvendo a escolha humana - as "contingências da liberdade" como têm sido chamadas. Porque esta inovação? O seus proponentes estão preocupados em preservar o que consideram ser duas crenças vitais. A primeira é a providência e total presciência de Deus. A segunda é a ideia que os seres humanos têm, em um sentido indeterminista, uma liberdade que não pode ser suprimida. Quando falamos de liberdade indeterminista, queremos dizer que qualquer ser humano, em um dado conjunto de circunstâncias, tem o poder para escolher A ou para escolher não-A. O problema é óbvio. Como isto pode ser consistente com o governo providencial universal de Deus e seus propósitos de redenção?

A forma dos Molinistas tentarem manter a coesão entre todas estas doutrinas foi sugerir que existia, ao lado do conhecimento natural de Deus e seu conhecimento livre, um terceiro tipo de conhecimento. Eles argumentaram que Deus também tinha "conhecimento médio" - entre os outros dois. O que isto significa pode ser brevemente explicado. Dado todo um conjunto de mundos possíveis - os quais Deus conhece -, dados mundos nos quais homens e mulheres fossem livres no sentido indeterminista apropriado, Deus saberia o que eles livremente escolheriam em toda circunstância possível. Deus tem conhecimento de todas estas consequências possíveis. Se for colocado em um conjunto de circunstâncias, Deus sabe o que Jonas iria livremente escolher. Isto é verdade em relação a todas as pessoas possíveis e todas as circunstâncias possíveis. Deus tem este conhecimento médio por examinar todas as possibilidades que o livre arbítrio que cada pessoa pode escolher.

Em Seu poder e sabedoria, Ele escolhe aquele mundo possível, aquela combinação total de indivíduos e circunstâncias, cujas expressões de livre arbítrio irão melhor servir Seus propósitos. Assim, a onisciência de Deus é preservada e o livre arbítrio humano é preservado. O mal moral que acontece neste mundo escolhido não é a direta responsibilidade de Deus mas daquelas criaturas que exercitam suas escolhas de uma forma malevolente.

Quais São as Implicações do Molinismo?

Precisamos enfatizar que a visão de livre arbítrio sustentada pelos molinistas tanto antigos quanto modernos é frequentemente chamada de "libertarianismo" ou "indeterminismo". Em contraste seus oponentes, na Igreja Católica Romana e nas igrejas da Reforma, têm sustentado visões da liberdade humana que são deliberadamente consistentes com o decreto divino em relação a todas as coisas que acontecem e com a irresistibilidade de Sua graça.

Há Argumentos Bíblicos para o Molinismo?

À medida que seus proponentes buscaram suporte bíblico evidente para o conhecimento médio, eles usaram o exemplo de Davi em Queila registrado em 1 Samuel 23. A este ponto na narrativa bíblica, os Filisteus estavam atacando Queila. Davi perguntou ao Senhor se deveria ir à Queila para guerrear com os Filisteus e o Senhor disse que ele deveria. Os companheiros de Davi estavam com medo e então Davi perguntou uma segunda vez. Em Queila, com medo de que Saul o atacaria lá, Davi perguntou ao Senhor se Saul iria à Queila. A esta altura, lemos a seguinte conversa: "E o Senhor lhe disse: 'Ele virá'. E Davi, novamente, perguntou: 'Será que os cidadãos de Queila entregarão a mim e a meus soldados a Saul?' E o Senhor respondeu: 'Entregarão'. Então Davi e seus soldados, que eram cerca de seiscentos, partiram de Queila, e ficaram andando sem direção definida'" - 1Sm 23v11-13.

Na concepção dos Molinistas, o incidente demonstrou o conhecimento médio na prática, pois mostra que o Senhor sabia o que aconteceria se certa ação livre acontecesse - eles suporam que Davi e os outros participantes estavam agindo com livre arbítrio no sentido libertariano. Deus sabia que se Davi escolhesse ficar em Queila, então os cidadãos de Queila escolheriam o entregar. Então Davi escolheu tomar uma ação evasiva e Saul escolheu desistir da expedição contra Davi quando soube o que Davi tinha feito. Deus sabia de tudo isso - e também muito mais - por Sua presciência.

O Que Há de Errado com o Molinismo?

Dado que os reformados sustentavam que tudo o que acontece é decretado por Deus de forma incondicional e que os homens e mulheres são responsáveis por suas ações, eles não viam como necessário um terceiro tipo de conhecimento divino, um conhecimento médio, que dependesse da previsão divina do que possíveis pessoas fariam de forma livre em certas circunstâncias. Os reformados interpretavam o incidente de Queila de forma diferente. Deus não apenas viu que Saul faria. Ele ordenou que Saul desceria à Queila se Davi permanecesse lá. Ele ordenou que Davi sairia de Queila depois de ouvir o que Saul faria. E Ele ordenou que Saul mudaria de idea.

O conhecimento médio não é apenas desnecessário para um Deus que tudo conhece e decreta, mas a concepção molinista de livre arbítrio torna impossível que Deus exerça controle providencial sobre sua criação. Porquê? Porque os homens e mulheres seriam livres para resistir o Seu decreto. Deus apenas pode fazer com que as ações de agentes livres aconteçam através do seu conhecimento médio daquilo que eles livremente fariam se...

Além disso, tendo em mente a visão molinista de liberdade, é impossível que Deus cause a conversão de certa pessoa pelo exercício de Seu chamado efetivo, pois na opinião dos Molinistas um indivíduo tem sempre a possibilidade de resistir a graça de Deus. Homens e mulheres têm que cooperar de forma livre com aquilo que Deus diz e faz se querem tornarem-se cristãos. A graça de Deus é sempre resistível. Cristãos reformados não têm razão alguma para aceitar o conceito especulativo de conhecimento médio e têm fortes razões para rejeitá-lo.

Conclusão

Concluindo, podemos dizer que há algo de interessante e enigmático em relação ao Molinismo, mas a resposta reformada tem sido – e deveria continuar sendo – que não há apenas dificuldades sem resolução na ideia do próprio conhecimento médio, mas que este também é uma especulação desnecessária. A Escritura quase nunca menciona algo que possa ser usado para dar suporte ao Molinismo, ao passo que ensina de forma perfeitamente clara que Deus age em todas as coisas, até mesmo as ações más de pessoas que agem com completa responsabilidade, de acordo com o conselho de Sua própria vontade.

Para saber mais sobre Molinismo, leia a seção relevante no livro do Dr. Helm, A providência de Deus.

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Fonte: 
Ligonier Ministries
Tradução: David Cecilio
Via: Fireland, sob o título: Molinismo Para Iniciantes.
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A Soberania de Deus e o Evangelismo


Por Paul Helm


Muitas pessoas lutam com a soberania de Deus na eleição, porque acreditam que ela exclui a prática do evangelismo. Elas se perguntam: se as pessoas são ou não eternamente eleitas, que bem fará a pregação? Que diferença fará? No entanto, como a Escritura ensina, a soberania de Deus na eleição e a prática do evangelismo não são inimigas, mas amigas. O evangelismo está enraizado na eleição, e enquanto o homem planta e rega a semente do evangelho, Deus traz o crescimento.

Os Meios e os Fins

A soberania de Deus na salvação é mais clara e nitidamente vista no ensino da Escritura sobre a eleição. A eleição é "incondicional", isto é, a escolha de Deus não se baseia em nada de bom ou meritório do escolhido, algo louvável que tencione ou influencie Deus em sua escolha. Ao invés disso, a escolha de Deus é feita exclusivamente com base na Sua boa vontade.

Pode parecer que essa escolha faz qualquer atividade humana desnecessária. Como poderia uma criatura afetar algo? Mas considere este simples exemplo: suponha que Deus quer eternamente que você receba uma carta minha. Para que isso ocorra, outras coisas devem acontecer primeiro. Obviamente, eu devo escrever a carta, e em seguida dar um jeito de entregar a carta para você. Essas atividades - a escrita e o envio da carta - não acontecem à parte da vontade e propósito do Deus Todo Poderoso, mas como parte de Sua vontade e propósito. Elas são meios para o fim: você receber uma carta minha.

O que isso mostra? Mostra que nos desígnios divinos, meios e fins estão conectados. Talvez, ao eleger pessoas "em Cristo", Deus poderia ter imediatamente os glorificado. Mas de acordo com a Escritura, Ele não escolheu fazer isso. Em vez disso, ele usa meios. Ele nos apresenta as boas novas da salvação. Como Ele faz isso? Ele com certeza poderia ter feito isso transmitindo as boas novas de forma imediata à mente de alguém através de um sonho ou um "sussurro". Mas, na verdade, Ele o faz pela dupla ação da "Palavra" e do "Espírito".

A Escritura tem várias maneiras diferentes de deixar isso claro. Nos Evangelhos, tem a parábola do semeador: "Eis que o semeador saiu a semear". A semente é a Palavra, os vários tipos de solo são os diferentes tipos de corações. "Quanto ao que foi semeado em boa terra, este é aquele que ouve a palavra e a compreende. Ele dá fruto" - Mt 13v23. Portanto, existe a semente semeada, e existe fruto, de acordo com o tipo de solo. E isso representa ouvir a Palavra, entendendo-a, e sendo frutífero. Ninguém pode "entender" a Palavra sem ela ter sido "semeada" primeiro.

Aqui está um segundo exemplo. Vejamos as palavras da Grande Comissão encontrada no final do evangelho de Mateus: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo que eu vos tenho mandado" - Mt 28v19-20. Jesus instrui ou ordena à Seus onze discípulos para "fazerem discípulos". E como eles farão isso? "Ensinando-os [as pessoas de todas as nações] a observar tudo o que vos tenho ordenado". Discipulado vem através do ensino que Cristo ordenou a Seus primeiros discípulos.

Paulo usa uma linguagem muito semelhante a de Cristo na parábola do semeador quando descreve seu ministério, tanto a importância quanto as limitações deste, ele escreve: "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento" - 1Co 3v6. O que ele está dizendo aqui? Que ele semeou a semente e seu companheiro o pregador Apolo acompanhou e - por meio do que ele ensinou - "regou" o que Paulo havia semeado. Mas quem fez crescer? Só Deus, através do Seu Espírito, deu vida - entendimento, fé e obediência - àqueles que se tornaram crentes em Corinto.

Da mesma forma, outras coisas que Paulo escreve ecoam o ensino da Grande Comissão de Jesus. Por exemplo, em Romanos capítulo dez, Paulo discute a relação entre invocar a Cristo, a confiar nele, e pregar a necessidade de rogar pelo Salvador:

"Como, pois, invocarão aquele em quem não creram?E como crerão naquele de quem não ouviram falar?E como ouvirão, se não houver quem pregue?E como pregarão, se não forem enviados?" - Rm 10v14-15.

As perguntas de Paulo respondem a si mesmas: sem a fé não haverá súplica; sem o ouvir não haverá fé; sem a pregação não há como ouvir e sem o envio não haverá pregação.

Todas estas passagens têm uma coisa em comum. Elas revelam a conexão, conexão estabelecida na sabedoria de Deus, entre comunicar o evangelho através da pregação - semeando, ensinando, chamando e regando - e a crença - fé e invocação do Senhor, a conversão a Cristo em seus diversos aspectos. Portanto, sob circunstâncias normais, a pregação e o ensino são os meios indispensáveis ​​do Senhor para trazer homens e mulheres à fé em Cristo. É claro que apenas a pregação não é suficiente. O próprio Deus deve preparar o coração, e pelo Seu Espírito só Ele pode "dar o crescimento". Mas Ele normalmente o faz "pela Palavra" proclamada pelos ministros do evangelho.

Eleição

Há uma passagem que acima de todas as outras na Bíblia claramente estabelece o âmbito desta interação entre meios e fins, a eleição de um lado e a glorificação de outro. Em Romanos capítulo oito, Paulo ensina que o propósito final de Deus para o Seu povo é a sua conformidade à imagem de Seu Filho. Como devemos entender isso?

A resposta de Paulo leva primeiramente o leitor de volta para "aqueles que são chamados segundo o seu propósito" (v. 28). Estes, segundo ele, são pré-conhecidos por Deus. Isto é, Ele sabe antes de nascerem quem são essas pessoas, pois Ele os escolheu. E Ele os predestina para serem conformes à imagem de seu Filho, Jesus Cristo (v.29). E o que esta predestinação envolve?

"E aos que predestinou, também os chamou, e aos que chamou, também os justificou, e aos que justificou, também os glorificou" (v. 30). Em poucas palavras, o apóstolo leva o leitor de eternidade a eternidade. Para enfatizar a certeza e a plenitude desse processo, Paulo usa o verbo no passado, como se todos os santos já estivessem desfrutando da glorificação. Mas para o nosso objetivo, precisamos destacar duas palavras que são essenciais e importantes: chamou e justificou. Elas salientam a necessidade do eleito de ser glorificado através da ação do Espírito de tirá-los da escuridão espiritual - o novo nascimento - e a necessidade deles mudarem sua condição, uma vez que seus pecados foram perdoados e a justiça de Cristo é imputada a eles.

Quando essas mudanças, regeneração e justificação, ocorrem? A resposta é: durante a vida terrena dos homens e mulheres. Por quais meios? Pela comunicação e apresentação do evangelho através da pregação e do ensino. Além disso, essas mudanças ocorrem pela ação soberana de Deus, o Espírito Santo, que abre os olhos para a compreensão, renova a vontade, concede o arrependimento e a fé que justifica, e permite o crescimento da virtude cristã, isto é, a santificação.

Vendo por Outro Lado

Assim, a pregação é normalmente um meio indispensável para chamar os eleitos de Deus. De forma paralela, ouvir e fazer esforço para compreender a pregação do evangelho é indispensável. Não faz sentido algum dizer: "Ou eu sou eleito ou não sou. De qualquer maneira, não há porquê ouvir uma boa pregação. Pois, se eu sou eleito, de um jeito ou de outro Deus vai me levar para o céu. E se eu não sou, eu posso encontrar maneiras melhores de gastar o meu tempo do que indo à igreja". Jesus, por exemplo, destacou a importância de ouvir com atenção: "Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça" - Mt 13v43. O que Jesus queria dizer? Que devemos ouvir atentamente, com o objetivo de adquirir "entendimento". Depois de Sua ressurreição, Jesus passou um tempo abrindo o entendimento dos discípulos para compreenderem a Escritura (v. Lc 24v45). Se estamos confusos e perplexos, devemos continuar a examinar a Escritura com todas as nossas forças - uma vez que que a Escritura interpreta a Escritura - e rogar a Jesus por entendimento. Paulo conta como os cristãos de Tessalônica vieram a fé em Cristo da seguinte forma: "Quando você recebeu a palavra de Deus, que de nós ouvistes, a recebestes, não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, a palavra de Deus" - 1Ts 2v13.

A linha de raciocínio que diz: "Ou eu sou eleito ou não, de qualquer forma, é inútil atentar à Palavra de Deus", comete o mesmo erro da crença de que a eleição eterna de Deus faz a pregação desnecessária. Eles separam o fim da eleição - a renovação na imagem de Cristo - dos meios de comunicar o evangelho através da pregação e as outras maneiras que Deus ordenou. Isso divide o que Deus tem, de fato, unido. "O que Deus uniu não separe o homem".

Traduzido por: Lidiane Cecilio
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