O uso da apologética numa perspectiva reformada

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O presente artigo trata da necessidade de se usar de argumentos apologéticos de uma perspectiva reformada na apresentação da fé cristã. Após cinco séculos do movimento reformacional, percebe-se hoje em dia a necessidade de se partir dos pontos da ortodoxia bíblica para o diálogo com a cultura. A apologética pode servir para que a Igreja continue se reformando e possa reformar sua sociedade.

No ano que marca 500 anos de Reforma Protestante, é salutar a reflexão sobre esse movimento que mudou o curso da história mundial. Considerando que muito já foi escrito sobre esse momento da história, este artigo busca defender a natureza da Reforma como sendo apologética, em defesa da fé cristã esposada na Bíblia, e sua contribuição para a reflexão atual por parte dos cristãos que dialogam com a cultura.

É notável que as Escrituras Sagradas podem alcançar homens e mulheres, e transformar toda uma sociedade. Por isso, nesses tempos, marcados por crises institucionais e eclesiásticas, o resgate do Evangelho e a reflexão sobre o mesmo podem contribuir para a teoria e ação cristã.

A Reforma Protestante foi um movimento de defesa da fé cristã, seus princípios e sua cosmovisão bíblica, de modo a oferecer aos crentes em Cristo um caminho interpretativo reformado e relevante para uma constante busca de se reformar, como cristão individual e como Igreja local, assim como transformar a cultura que esses estão inseridos.

A Reforma Protestante: um movimento apologético

Os séculos anteriores ao XVI foram tempos, minimamente, instáveis. Doenças, a exemplo da Peste Negra, instabilidade política e social, radicais mudanças nas concepções filosóficas, crises de governabilidade pela Europa, e desencontro religioso.

Nessa última esfera, emergiram algumas tentativas de Reforma interna à Igreja Católica: John Hus e John Wycliffe, por exemplo, tornaram-se proponentes de mudanças radicais. Além disso, como explica George (1993, p. 26), “essa sensação de mal-estar, essa expressão de que o tempo estava fora dos eixos, aliada à crescente onda das expectativas religiosas, produziu uma época de excepcional ansiedade”. De modo ilustrativo, as obras de arte da época refletiam o anseio do povo.

Para além disso, havia o movimento escolástico que buscava uma síntese intelectual entre o pensamento aristotélico e o ensino bíblico, o que gerava interpretações mais filosóficas do que escriturísticas. George (1993) ainda aponta a presença de interpretações estritamente místicas da Bíblia, assim como, humanísticas.

Diante desse quadro, o pensamento dos reformadores protestantes tinha uma natureza de uma crítica externa à instituição Católica Romana e às sínteses filosóficas seculares com a Bíblia, ou seja, tais teólogos, entendendo a doutrina das Escrituras à parte da pregação eclesiástica institucionalizada e ouvindo à ansiedade do povo, apontaram incoerências presentes nos discursos dos domínios filosóficos e romano-religioso.

Com isso, a natureza da Reforma Protestante foi apologética. Buscou defender a doutrina das Escrituras a partir de um método crítico-gramatical que interpreta a Bíblia pela Bíblia, pressupondo um ensino todo e coerente. Em sua essência, esse movimento reformacional defendia a verdadeira fé e a tradição escriturística, constituindo-se, segundo George (1993, p. 34), como “uma continuação da busca pela igreja verdadeira que havia começado muito antes que Lutero, Calvino ou os padres de Trento entrassem na lista”.

A importância e a necessidade de uma apologética reformada

Segundo McGrath (2013, p. 13), o termo apologia “se refere a uma ‘defesa’, um arrazoado que prova a inocência de um acusado no tribunal, bem como a demonstração de que uma crença ou argumento é correto”. Nesse sentido, na teologia cristã, a apologética busca apresentar uma explicação razoável e racional para as verdades cristãs.

Nas palavras de McGrath (2013, p. 9), “a apologética tem por objetivo converter crentes em pensadores e pensadores em crentes”. Nesse sentido, o mesmo autor elucida que o exercício apologético abrange: o conhecimento das doutrinas e cosmovisão bíblica, e a transmissão eficaz desse saber.

Com efeito, é importante que o cristão aprenda a defender sua fé para demonstrar a amplitude e a profundidade intelectual, moral, imaginativa e relacional de sua crença para os fiéis de dentro da Igreja, e para os incrédulos de dentro dela e de fora. Ajuda, com isso, como coloca Craig (2012, p. 17), a “criar e manter um ambiente cultural em que o Evangelho possa ser ouvido como uma opção intelectualmente viável”.

Uma salutar observação a ser feita é que “o Evangelho só deve causar dificuldades por sua natureza e conteúdo intrínseco, não pela maneira em que é anunciado” (MCGRATH, 2013, p. 14). Isso quer dizer que a reflexão e exercício apologético deve ser feito de modo respeitoso, paciente, generoso, inteligente e simpático (I Pe 3:15-16), a fim de evidenciar o conteúdo da mensagem cristã, e não a suposta superioridade do cristão que debate.

A maior dificuldade nesse sentido, por vezes, é a correta tomada de um ponto de partida relevante e bíblico. Para tanto, a tradição reformada contribui no estabelecimento de uma reflexão e cosmovisão que busca coordenar uma fiel exegese bíblica em diálogo com a cultura a seu redor, ressaltando pontos positivos e contraditando os negativos.

Nessa esteira, a apologética reformada busca questionar ideias falsas sobre o Evangelho e a realidade, e apontar para a Revelação das Escrituras como uma via razoável e digna de confiança, sempre consciente de que os argumentos não podem converter, mas podem preparar um ambiente para a pregação do Evangelho.

Desse modo, a tradição reformada pode servir como um Organon, conjunto de ferramentas de interpretação e reflexão lógico-filosófica, para que o cristão extraia da Bíblia princípios, regras, aplicações para o debate que se apresente. Ou seja, o resgate de doutrinas bíblicas feito pelos reformadores são o fundamento a ser defendido por meio da argumentação lógico-racional.

A necessidade de uma Reforma permanentemente apologética

A Reforma Protestante do século XVI possui um significado permanente para a Igreja de Cristo. “Ela desafia a igreja a ouvir reverente e obedientemente aquilo que Deus disse de uma vez por todas (Deus dixit) e de uma vez por todas fez em Jesus Cristo” (GEORGE, 1993, p. 307).

Nesse caminho, a Igreja deve sempre estar se reformando, já que, composta por pecadores, nunca ficará perfeita até a volta de Cristo. Essa noção é estritamente apologética, no sentido de estar sempre voltando às Escrituras, defendendo-a e se desprendendo das ideias e práticas que lhe ameaçam constantemente.

Ideologias, filosofias seculares, Estadolatria, engenharia social, esfacelamento da linguagem, relativização dos valores, secularismo, ingerência estatal nos assuntos eclesiásticos, ceticismo, teologias liberais são algumas das principais ameaças contra a Igreja hodierna. Contra tais investidas, os cristãos, a exemplo dos Reformadores, devem refletir e sempre voltar: à Bíblia como a revelação fidedigna de Deus ao homem, aos atributos de Deus e a sua imanência na história, à doutrina da criação do homem e de sua queda, à obra, à morte e à ressurreição de Cristo, ao papel e chamado da Igreja, e à esperança de um novo céu e nova terra.

A Reforma permanente deve ser sempre apologética, defendendo a fé e apresentando-a como mais razoável que as propostas seculares. A dizer, os temas principais e basilares do movimento reformacional devem sempre ser preservados, defendidos, ensinados e pregados na Igreja e fora dela.

A atual crise, em várias esferas sociais, vivenciada nos dias de hoje cristaliza o anseio por novas mudanças. Após 500 anos de Reforma, é preciso que se note a necessidade de se reformar de modo razoável e bíblico, oferecendo respostas aos anseios do povo de Deus que sofre nesse mundo, e a uma sociedade que não tem identidade. “Ecclesia reformata semper reformanda”: “Igreja reformada, sempre se reformando”, e reformando ao seu redor.

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Referências bibliográficas
CRAIG, William Lane. Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã. – 2. Ed. – São Paulo: Vida Nova, 2012.
GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1993.
MCGRATH, Alister. Apologética pura e simples: como levar os que buscam e os que duvidam a encontrar a fé. São Paulo: Vida Nova, 2013.

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Sobre o autor: Anderson Barbosa Paz é seminarista do Seminário Teológico Betel Brasileiro. Bacharelando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Congrega na Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados em João Pessoa-PB. Atua na área de Apologética Cristã, debatendo e ensinando.
Divulgação: Bereianos
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Apologética Reformada e a Heresiologia – qual a vantagem?

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Por Luciano Sena


A defesa da fé no arraial Reformado está voltada para duas áreas mais especificas. No debate doutrinário com arminianos; A natureza da eleição, depravação total, etc, faz com que os que defendem o sistema Reformado se envolvam muito nesse debate. Depois, o Reformado discute no campo filosófico, aí voltado mais para o ateísmo, gira em torno se é de fato verdadeira a negação de Deus por parte dos ateus. No mais, especialmente no Brasil – os Reformados não se preocuparam muito com as seitas e falsas religiões no decurso dos anos. Com a raríssima exceção de trabalhar contra as práticas sincretistas do neopentecostalismo, os Reformados no Brasil dependem muito do trabalho de apologistas de outros segmentos evangélicos. Os pentecostais tradicionais produziram farto material a respeito das seitas, e institutos para-eclesiásticos quase que assumiram essa guerra nas últimas décadas.

Apesar de que desde o advento da internet muitos Reformados tenham trabalhado bem com a defesa da fé, vez por outra confrontando os movimentos heréticos tradicionais, ainda notamos que o material é dependente de pesquisas de outros, ou mesmo o conteúdo não reflete tanta pesquisa quando comparado com a defesa dos cinco pontos do calvinismo.

A Teologia Sistemática de Franklin Ferreira e Alan Myatt é uma raridade que deve ser apreciada. Em quase todos os capítulos, os autores (parece que Myatt seja o autor especifico dessas partes) interage o foco doutrinário com o que as seitas e falsas religiões ensinam a respeito. Não é incomum a citação das principais seitas, como Adventismo, Jeovismo, Mormonismo e Espiritismo (e também suas versões afros), receberem atenção específica. Além de religiões animistas, orientais, bem como o Catolicismo e o Islamismo. Fora essa obra erudita, percebemos que o material a respeito de como trabalhar com as seitas, tendo uma perspectiva Reformada, é algo escasso em nosso território nacional.

Qual a diferença?

Visto que os problemas com as seitas são no campo ortodoxo histórico - em contrapartida com todas as denominações cristãs, que diferença há entre ser munido de uma apologética Reformada? Existe uma vantagem significativa, não necessariamente no esquema geral, mas nas bases, os pressupostos, que levam a formar o conteúdo, a sua eficácia e qualidade. Vou citar alguns exemplos para que você entenda o que estou querendo dizer, usando assuntos selecionados.

1º Profetismo/Apostolado/Papismo: O Apologista Reformado leva o “somente a Escritura” até as suas últimas consequências, quer essas sejam latentes ou patentes. Com base na Bíblia (II Tm 3.15-17), sabemos que ‘cessaram aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade’ (CFW cap. I). Portanto, nosso debate com os Mórmons, Adventistas, Católicos, Tabernáculo da Fé, é na base fundamental da heresia, não em seus efeitos ou evidências. Um apologista pentecostal precisará, evidentemente, sofrer com decepções proféticas dentro de seu movimento, pois existe em ambos os sistemas falsas profecias e acertos. Depois, ele ainda terá que perceber que seus argumentos serão semelhantes a respeito do chamado ‘graus de inspiração’ – que algumas seitas usam também, onde diz que a inspiração atual é menor que a Bíblia! Para o Apologista Reformado, se certa profecia de um líder herético deu certo ou não, não resolverá finalmente a questão, já que para ele, não é isso que está em jogo, mas sim a suficiência da Escritura.

2º Salvação/Méritos/Sacramentos: Nesse caso, o Apologista Reformado está em evidente segurança, pois não há nada, na construção confessional Reformada, que dependa de alguma ação humana para ser salvo – nem mesmo o sim do pecador ou a sua perseverança, que infelizmente, acaba desbocando em alguma impressão de virtude no indivíduo. Nem mesmo o fato de estar em uma Igreja Reformada, determina ao Apologeta Reformado se certo individuo está ou não salvo. O salvo deve estar em Cristo, e o que assegura isso é a eleição, não a decisão humana, méritos, decisões, etc (Rm 11.6). Assim, quando um Mórmon diz para um reformado que ele deve receber o batismo para ser salvo, essa afirmação está inócua e prejudicada, pois a Bíblia ensina outra coisa - anteriormente, no tempo e no espaço quem decidiu a salvação ou não dos que seriam batizados, se eles estão em Cristo é por decisão soberana* (Ef 1.1-11). Isso eleva a questão da Igreja Invisível a um patamar real e verdadeiro. ‘Deus sabe os que lhe pertence’, pois os introduziu em Cristo. Insistir com um Reformado a respeito de uma igreja verdadeira visível, é chover no molhado, visto que o Reformado sabe que a Igreja verdadeira é algo invisível, e está no rol de membros do céu, os tais foram lavados por Cristo de fato e de verdade. O que piora o discurso herético, é que a fé Reformada reconhece que todas as igrejas fieis possuem erros, mas esses erros não podem ser de caráter essencial, pois assim, deixam de ser ‘igrejas verdadeiras’ e passam a ser seitas, sinagogas de Satanás.

[*As seitas são racionalistas, em sua maioria esmagadora. E como tal, não raro, preferem caminhar com o livre-arbítrio como pressuposto. Na verdade, nem todas podem ser classificadas como “arminianas clássicas”, flertam mais com o semi-pelagianismo do que com o arminianismo. E não é incomum rejeitarem a doutrina da imputação da Queda.]

3º Deus/Atributos: O Deus Bíblico é Trino, e ninguém mais que os Reformados preservam a doutrina da Trindade, conforme delineada nos credos históricos, como o Reformado. Outros podem até ser semelhantes, mas melhor compreensão da Trindade não existe:

Pergunta 8: “Há mais de um Deus? Resposta: Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro (Dt. 6. 4; Jr 10. 10; I Co8. 4).”
Pergunta 9: “Quantas pessoas há na divindade? Resposta: Há três pessoas na divindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo; estas três pessoas são um só Deus verdadeiro e eterno, da mesma substância, iguais em poder e glória, embora distintas pelas suas propriedades pessoais” (Mt 3. 16-17; Mt 28.19; II Co 13. 13; Jo 10. 30).”  
(Catecismo Maior de Westminster) 

Percebemos que o modelo reformado reflete os Credos Históricos da Trindade.

Com isso, o Apologeta Reformado já sabe que os Mórmons, Testemunhas de Jeová, etc, não falam com o mesmo Deus em mente, causando assim um descompasso total na avaliação de quem É Deus e de tudo que revelou de Si na Escritura. O Reformado sabe que os tais oferecem um falso deus. Além disso, com a perspectiva correta da doutrina da trindade, o Apologeta Reformado vai rapidamente identificar caricaturas, e não uma definição exata.

O Deus Bíblico - da Fé Reformada - também é um ser ilimitado no conhecimento, no domínio, no tempo e no espaço, e mesmo assim a Fé Reformada diz que Deus é “simples” e pessoal. Neste ponto, as seitas deixam de lograr disputa. Um deus que não sabe de tudo, como é dos Testemunhas de Jeová; um deus complexo como o é dos Espíritas; três espíritos corporalmente distintos sendo Deus como ensina o Adventismo; três deuses sendo que dois tendo corpo e um não, como ensinam os Mórmons, não pode ser o Deus da Escritura. A Fé Reformada ensina como diz a Bíblia:

Pergunta 07: “Quem é Deus? Resposta: Deus é Espírito (4.24), em si e por si infinito em seu ser (I Rs 8.27), glória, bem-aventurança e perfeição (Ex 3. 14); todo-suficiente (At 17.24, 25), eterno (Sl 90.2), imutável (Ml 3.6), insondável (Rm 11.33), onipresente (Jr 23.24), onipresente (Ap 4.8), infinito em poder, (Hb 4.13), sabedoria (Rm 16.27), santidade ( Is 6.3), justiça ( Dt 32.4), misericórdia e clemência, longânimo e cheio de bondade e verdade”( Ex. 34.6).”
(Catecismo Maior de Westminster)

4º Vida Cristã: em um quarto campo está o debate a respeito de como a vida cristã é exercida. Mais uma vez o Apologeta Reformado tem uma vantagem. Quando dizemos o lema protestante que “A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática”, isso é verdadeiro em nosso caso. A Bíblia inteira, e não o apenas o Novo Testamento! Claro, é o Novo que interpretou e cumpriu o Velho, mas não estamos reféns como estão os dispensacionalistas, que cedem campo considerável para algumas seitas, especialmente os Adventistas, a criticarem virtualmente essa posição. O Novo Testamento usou os Dez Mandamentos, expandindo, melhorando, substituindo, mas nunca rejeitando. O Espírito Santo demonstrou isso quando várias vezes usou o decálogo e/ou o VT, como fonte de instrução para a Igreja na Nova Aliança (Ef 6.1, 2, 3). Com a mesma certeza, para o Apologeta Reformado o Novo Testamento revelou luz maior - notamos que o Senhor Jesus substituiu Moisés e Arão, os apóstolos substituíram os profetas, A Igreja substituiu Israel, o Batismo substituiu a Circuncisão, a Santa Ceia substituiu a Páscoa e o domingo substituiu o sábado, o culto simples substituiu as cerimônias do VT. Nesse sentido, não abandonamos o Velho Testamento, e podemos dizer que a Bíblia é a nossa regra em seus 66 livros, enquanto interpretados pela Nova Aliança.

Conclusão

A melhor apologética contra as heresias é um bom domínio da Dogmática Reformada, isso sem via de dúvidas. Nossos irmãos de outras tradições cristãs, embora tenham feito bom trabalho, ainda sim podem estar labutando em pontos prejudicados por causa de alguns pressupostos. A cadeia de doutrinas defendidas pela fé reformada, como aponta Van Til, serve como um diagnóstico e execução (veja aqui), para identificar uma seita e destruir sofismas, pois nossas armas não são carnais mas poderosas em Deus (II co 10.5).

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Sobre o autor: Luciano Sena é evangelista na Igreja Presbiteriana do Brasil, fundador do MCA - Ministério Cristão Apologético, palestrante sobre o tema seitas e heresias e autor do livro A Conspiração Adventista.

Fonte: MCA - Ministério Cristão Apologético
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O compatibilismo 4/4

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Por Rev. Heber Carlos de Campos


Compatibilismo defendido

Não podemos entender exatamente as relações entre as duas grandes verdades até aqui ensinadas. Não conhecemos bem a Deus, porque a sua essência escapa ao nosso entendimento, pois ele é supremamente transcendente, indo além das limitações do espaço e do tempo, que são eminentemente categorias da criação. Todavia, quando ensinamos o compatibilismo nós reduzimos em muito a dificuldade de tentar explicar o inexplicável em Deus, porque não podemos compreender Deus. Não sabemos explicar como um Deus bom usa as suas criaturas, ou causas secundárias, para fazer as coisas moralmente más. Não cabe a nós explicar essas coisas no seu sentido mais profundo, mas cabe-nos afirmar a necessidade do compatibilismo, pois ele está evidente nas Escrituras. Ele nos ajuda a conciliar verdades que são irreconciliáveis porque não podemos compreender a natureza divina.

Todavia, o compatibilismo é negado em vários círculos de pensamento. Freqüentemente são sinergistas os que negam o compatibilismo porque este tenta juntar duas coisas que por si mesmas, na conta dos sinergistas, não podem ser juntadas.

Os que crêem no chamado “livre arbítrio” não vêem possibilidade de compatibilismo, justamente por causa do seu conceito de liberdade, que implica necessariamente na possibilidade que todos os homens ainda possuem de escolha contrária, não importando a natureza que possuem. A soberania divina ensinada pelos reformados, segundo eles, torna os seres humanos marionetes, eliminando o livre-arbítrio que tem a ver com o poder de escolha contrária, isto é, com a capacidade de fazer algo que é contrário à natureza do homem. Quem crê no livre arbítrio se opõe ao compatibilismo, porque o conceito de liberdade ensinado pelos sinergistas impõe limitação à soberania divina do modo como a entendemos.

Os que crêem no chamado “livre arbítrio” não aceitam o compatibilismo por causa do seu conceito de presciência. A presciência, segundo eles, é a capacidade que Deus tem de antever os atos futuros que os seres humanos farão e, com base nesse conhecimento antecipado, faz as suas determinações. Portanto, a escolha divina está baseada no conhecimento que ele tem das cousas futuras que os seres humanos farão livremente. Eles tomam o texto de Romanos 8.29 e fazem com que Deus seja conhecedor de antemão dos atos dos homens, quando o texto diz que Deus conhece de antemão pessoas, não coisas que elas haveriam de fazer, como fé ou arrependimento. Esse tipo presciência tira de Deus a absoluta soberania dele, porque ele fica dependendo dos atos futuros dos homens para selar o destino deles. Uma soberania condicionada à vontade futura do homem. Neste caso, o compatibilismo cai por terra porque afirma a liberdade que o homem tem de escolher livremente no futuro, mas nega a determinação soberana dos atos divinos.

O compatibilismo deve ser defendido por todos os genuínos cristãos porque ele está contido nas Escrituras nos muitos exemplos que ainda vamos estudar. Carson afirma de maneira firme que devemos ver “não somente que o compatibilismo em si mesmo é ensinado na Bíblia, mas que ele está ligado intimamente à natureza de Deus; por outro lado, sou direcionado a ver que minha ignorância a respeito de muitos aspectos da natureza de Deus é precisamente a mesma ignorância que me instrui a não seguir os caprichos de muitos filósofos contemporâneos que negam que o compatibilismo seja possível.”

Compatibilismo exemplificado

O aspecto mais notável dos textos que vamos analisar abaixo, é que eles mostram evidentemente que em nenhum ponto o agente humano é descartado de sua responsabilidade pelo fato de Deus estar por detrás de cada ato do homem. Não há como fugir de um compatibilismo sadio, que faz justiça aos textos da Escritura.

Há uma tremenda base bíblica para o compatibilismo que estuda a ação cooperativa de Deus com os homens, em todos os atos, obedecendo a seguinte ordem:

          Atos bons dos homens bons
          Atos bons dos homens maus
          Atos maus dos homens bons
          Atos maus dos homens maus

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Fonte: O Ser de Deus e as suas obras: A Providência e a sua realização histórica. Heber Carlos de Campos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, págs. 205-206.

Leia também: 
O compatibilismo - 3/4

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O compatibilismo 3/4

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Por Heber Carlos de Campos


O Compatibilismo Justificado

1) Assumindo que o compatibilismo é uma realidade ensinada nas Escrituras, vamos tentar mostrar, até onde isso é possível, como ele se processa. A primeira afirmação nesta parte do capítulo é que não sabemos exatamente como as duas grandes verdades ensinadas acima se encaixam perfeitamente, devido à limitação de nossa visão de Deus e por causa da dificuldade de definição de termos usados, especialmente a idéia de liberdade. Essas duas verdades não se excluem e nem são contraditórias entre si. Todavia, a despeito de serem compatíveis entre si, permanece um elemento misterioso que não podemos explicar porque a parte mais profunda dessa matéria foge à nossa capacidade de entendimento.

 2) Assumindo que o compatibilismo é uma realidade nas Escrituras, temos que aceitar que, mesmo sendo o sumo bem, Deus está por detrás do bem e do mal, mas de um modo diferente em cada um deles. Deus não está por detrás do mal do mesmo modo que está por detrás do bem. A Escritura afirma que Deus está por detrás do bem dando o desejo de coisas santas e realizando as coisas santas nos cristãos. Paulo chama isso “querer e realizar” (Fp 2.13).

Todavia, Deus não está por detrás do mal da mesma forma. Para que o mal seja executado, Deus usa a instrumentalidade das causas secundárias. Deus decreta a existência do mal, excita os seres racionais para que o mal aconteça, mas a execução do mal não é uma obra feita pela Causa Primária. Deus não pode ser acusado de praticar o mal. Somente as causas secundárias é que devem ser acusadas pelo mal, pois são elas que o praticam. Todavia, temos que nos lembrar de que o mal não foge da esfera da soberania humana. O próprio Deus assume a responsabilidade pela presença do mal no universo, embora os seres racionais sejam responsabilizados pela prática dos atos maus, pois eles são livres agentes. Este é o compatibilismo de que estamos falando.

Carson sumariza este ponto da seguinte forma:

“Se eu peco, talvez eu não possa pecar fora dos limites da soberania divina (ou os muitos textos citados não têm sentido algum), mas eu sozinho sou responsável por aquele pecado — ou talvez eu e aqueles que me tentaram... Deus não deve ser culpado. Mas se eu faço o bem, é Deus operando em mim o querer e o fazer segundo a sua boa vontade. A graça de Deus foi manifesta neste caso, e ele deve ser louvado.” [Carson, How Long, O Lord?, 213.]

3) Assumindo que o compatibilismo é uma realidade ensinada nas Escrituras, então temos que enfatizar a responsabilidade moral dos homens. A tendência dos adversários do compatibilismo é esta: Se Deus é soberano absoluto, o homem não pode ser responsável pelos seus atos. Esse raciocínio, de ranço arminiano, é nascido no conceito de liberdade de autonomia ou de independência. Esta liberdade é incompatível com a soberania absoluta de Deus. Todavia, não é desta liberdade que estamos tratando. O conceito de liberdade é um dos mais difíceis de serem definidos.

O espaço aqui é pequeno para um tratado sobre a matéria.

Daremos atenção a este assunto de forma resumida, mas a mais clara possível, dentro de nossas limitações.

A responsabilidade dos homens é resultante do fato de Deus criá-los com liberdade de agência, como já afirmamos anteriormente. Os seres humanos fazem escolhas o tempo todo: eles obedecem, rebelam-se, crêem, permanecem incrédulos, mas sempre são contados por Deus como responsáveis pelos seus atos, mas isto nunca acontece fazendo com que Deus seja contingente dos atos humanos.

Deus é apresentado na Escritura com soberano e, ao mesmo tempo, como Deus de bondade. Carson nos adverte muito sabiamente de um perigo: "Deus nunca é apresentado como cúmplice do mal, ou como secretamente malicioso, ou como permanecendo por detrás do mal como exatamente ele permanece por detrás do bem." [D. A. Carson, How Long, O Lord?, (Grand Rapids: Baker Book House, 1990), p. 205.] A grande dificuldade é colocar estas duas coisas juntas, sem fazer injustiça ao Deus da Palavra. Mas isto que Carson disse é absolutamente a expressão da verdade.

Ninguém pode negar estas duas verdades apresentadas na Escritura com vários exemplos que serão analisados logo abaixo. Essas duas verdades são absolutamente compatíveis. Todos os teólogos que sustentam que estas duas verdades podem estar perfeitamente juntas, são chamados "compatibilistas".

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Continua nos próximos dias...

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Fonte: O Ser de Deus e as suas obras: A Providência e a sua realização histórica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, págs. 203-205.


Leia também: 
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O compatibilismo 2/4

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Por Heber Carlos de Campos


O Compatibilismo definido

A ideia da coexistência da soberania divina e da liberdade responsável do seres humanos é regularmente chamada de compatibilismo. Essas duas grandes verdades não se excluem. A Bíblia as ensina e delas não podemos escapar, mesmo que não as entendamos completamente: 

A Verdade de que Deus é soberano 

A soberania de Deus atinge todos os níveis e todas as suas criaturas. Ela é extremamente abrangente nos ensinos da Escritura. Portanto, não é de se estranhar que encontremos nas páginas da Escritura Deus participando claramente nos atos maus dos homens e relacionado com coisas que nunca imaginaríamos que um Deus como o nosso pudesse estar. 

Deus faz vir desgraças sobre as famílias. Assim entendeu com razão Noemi, pois foi uma mulher que sofreu muito da parte do Senhor (Rt 1.13, 20); o profeta Amós faz uma pergunta que, ao mesmo tempo, é uma expressão da sua fé: “Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?” (Am 3.6); Mesmo que não seja com alegria no seu coração Deus entristece os filhos dos homens (Lm 3.33); tudo o que acontece no mundo, seja mal ou bem, procede de Deus (Lm 3.37-38); o mesmo Jeremias entendeu muito claramente que os caminhos dos homens, sejam retos ou tortuosos, não são governados nem determinados, nem dirigidos pelos próprios homens (Jr 10.23); um salmista afirmou categoricamente que Deus mudou o coração dos egípcios para que eles odiassem o povo de Israel (Sl 105.25). Deus faz todas as coisas, mesmo as mais espantosas como o mal (Is 45.6-7), afirmou Isaías. Ele endurece o coração das pessoas conforme lhe apraz (Rm 9.18) e pode incliná-lo para o mal, porque o coração das pessoas está nas suas mãos (Pv 21.1). É por isso que Paulo diz que Deus mandou a operação do erro para que os homens não cressem na verdade de Deus (2 Ts 2.11). 

Esse é o Deus das Escrituras Sagradas, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não é o deus da imaginação das pessoas, nem aquele que é projeção dos próprios homens. Ele possui o controle sobre todas as coisas, porque ele reina sobre o seu universo, faz sempre e inalteravelmente a sua vontade. 

Essa é a primeira grande verdade e uma das mais importantes pressuposições da Escritura — Deus é soberano. 

A verdade de que o homem é um agente livre. 

A segunda grande verdade é que a soberania de Deus nunca exclui ou minimiza a liberdade responsável dos seres racionais. Estas duas verdades andam juntas e nem sempre podemos abarcar a totalidade desta verdade, e também porque pensamos que as duas coisas são excludentes. Nos textos citados logo acima os seres humanos têm participação ativa. Eles não são excluídos porque Deus é soberano. 

Definição de Liberdade de agência 

A liberdade da qual vamos tratar aqui não inclui a idéia comum de escolha contrária, que é comum nos círculos humanistas, semi-pelagianos e arminianos, nem a idéia de uma liberdade de autonomia. A liberdade dos seres humanos que a fé reformada ensina não é fictícia ou ilusória. Ela é real e verdadeira. Ela diz respeito aos atos voluntários que os seres humanos praticam. A liberdade da qual falamos tem a ver com a capacidade que os seres humanos possuem de fazer qualquer coisa que quiserem, de fazer o que lhes agrada, de fazer as coisas pelas quais eles têm predileção. Todavia, nunca eles haverão de fazer nada que seja contrário à sua natureza. Berkhof chama essa liberdade de livre agência, que é a capacidade de fazer qualquer coisa “de acordo com as disposições dominantes da natureza”.

Eles são livres para fazerem as coisas conforme as disposições morais e espirituais dos seus corações. Eles agem obedecendo os seus impulsos interiores. É importante observar que esses impulsos interiores são os impulsos que os levam a participar dos atos que foram iniciados decretivamente por Deus. 

Ilustração de Liberdade de agência 

Sobre a relação entre a soberania de Deus e a liberdade humana vamos falar quando tratarmos da Primeira Causa e das causas secundárias, mas daremos apenas um exemplo como ilustração da ação livres e voluntárias dos homens.

Tome o texto de Atos 4.23-28 e leia-o cuidadosamente. Então, você vai perceber que todas as pessoas mencionadas no verso 27 – Herodes, Pilatos, gentios e povos de Israel fizeram exatamente o que queriam fazer. Alguns detalhes da traição de Cristo foram até planejados cuidadosamente, como é o caso da ação dos fariseus e membros do Sinédrio. Nenhum deles fez coisa alguma contrária à sua natureza. Eles fizeram tudo o que estava de acordo com as disposições dominantes da alma deles. O prazer deles foi cuspir em Jesus, dar-lhe bofetadas, zombar dele, prendê-lo, açoitá-lo, sentenciá-lo à morte e, por fim, serem os instrumentos malignos da sua execução na cruz. Além disso, zombavam de sua divindade, dizendo: “Se tu és Filho de Deus, desce da cruz”. Todas essas coisas foram feitas voluntariamente, sem serem forçados por nada de fora a fazerem o que fizeram. Simplesmente, eles deram ouvidos à sua própria natureza. 

Eu não posso dizer que eles eram absolutamente livres, ou que a liberdade deles era de autonomia, porque eles não podiam fazer nada contrário ao que fizeram. Por que? Porque, ao fazerem voluntariamente o que fizeram, eles estavam cumprindo um decreto divino determinado de antemão. O verso 28 diz que as pessoas mencionadas acima fizeram tudo “o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”. A liberdade de independência não existe nos seres humanos. Existe, sim, a liberdade de agência, mencionada acima, porque fizeram exatamente o que queriam fazer, mas não possuíam a liberdade de autonomia, justamente porque estavam debaixo de um plano previamente determinado. A soberania divina estava sobre eles e fazendo o que fizeram acabaram cumprindo um decreto divino. 

Relação de Liberdade de Agência com Responsabilidade

Os seres humanos não são eximidos de responsabilidade porque Deus age soberanamente em suas vidas. Deus não anula a responsabilidade dos homens porque ele os criou agentes livres. A responsabilidade de um ser humano está vinculada à sua liberdade de agência. Os seres humanos são considerados culpados pelas transgressões que cometem contra a lei de Deus porque eles fazem todas as coisas conforme eles querem, porque agem voluntariamente como livres-agentes que são, sem serem forçados por nada externamente.  

Veja o exemplo de Davi quando decidiu fazer o censo de Israel. Ele o fez porque quis fazer e, por isso, se tornou responsável por ele, vindo a pedir perdão a Deus por ter feito o que fez e do modo como o fez (2 Sm 24.10). Todavia, ele fez despertado pela soberania de Deus, que se irou contra os israelitas (2 Sm 24.1). Davi fez o quis fazer, foi culpado pelo que fez e pela forma como fez, mas por detrás do seu ato estava a soberania divina. Este é apenas um exemplo de tantos outros que veremos à frente. Todos os exemplos que se seguirão neste livro evidenciam a noção compatibilista que a Escritura apresenta das duas grandes verdades operando juntas: a soberania divina e a liberdade responsável dos seres humanos.
 


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Fonte: O Ser de Deus e as suas obras: A Providência e a sua realização histórica. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, págs.. 201-203

O compatibilismo - 1/4

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Por Rev. Heber Carlos de Campos


O compatibilismo do concursus

Não obstante a dificuldade patente que existe de compatibilizar a soberania de Deus e a liberdade humana, podemos ter certeza de que as duas coisas coexistem e podem ser compatibilizadas. Elas não são mutuamente excludentes. Mesmo que não expliquemos todas as relações existentes entre essas duas verdades, elas são claras na Escritura. Todavia, afim de clarearmos um pouco essa difícil matéria, vamos a um procedimento que R. C. Sproul usou no tratamento desse assunto.

Segundo esse grande escritor reformado, uma das maiores dificuldades da teologia cristã é a solução do mistério que existe entre a obra soberana providencial de Deus e aquilo que realmente a criatura faz livremente. Antes de entrar no tratamento dessa relação, temos que distinguir dois termos muito importantes: mistério e contradição.

Uma contradição é entendida pela simples aplicação do uso das regras básicas da lógica. Algo que existe não pode ser ao mesmo tempo não existente. Isso é uma contradição. Quando afirmamos que Deus é soberano e que o homem é livre, não estamos tratando de uma contradição. Ambas as coisas podem coexistir perfeitamente. Todavia, se eu afirmo que Deus é soberano e o homem é um ser autônomo, então estou afirmando uma contradição. Estas duas coisas são excludentes. Se Deus é soberano, nada escapa ao seu controle e os seres humanos não poder ser autônomos. Se, entretanto, os homens são autônomos, a soberania de Deus é deixada de lado. A existência de um anula ou outro.

Pode-se conceber a ideia de um Deus absolutamente soberano. Os calvinistas creem assim. Pode-se conceber a ideia de seres humanos como autônomos. Os humanistas em geral creem assim. Todavia é impossível concebê-los como coexistindo simultaneamente. É impossível conceber o relacionamento da providência soberana de Deus com a autonomia humana. Ou aceitamos uma ou outra. Quem afirma uma nega o outra. É uma impossibilidade lógica aceitar ambas.

A razão pela qual existe uma impossibilidade lógica entre a soberania absoluta e a liberdade de autonomia é porque este último termo significa liberdade absoluta. Soberania absoluta e liberdade absoluta podem existir num mesmo ser. Deus pode ser tanto soberano como autônomo, mas isto não pode ser dito das criaturas, porque não pode haver dois soberanos, nem dois autônomos.

Para ser honesto, a liberdade absoluta não existe nem para Deus, porque ele não pode fazer nada contrário à sua natureza. Contudo, ele é livre no sentido de fazer qualquer coisa sem ter que dar satisfação a quem quer que seja. Ele não está sob a autoridade de ninguém. Nesse sentido ele tem liberdade de autonomia, mas não liberdade absoluta. Apenas age de acordo com a sua própria natureza.

Os seres humanos possuem liberdade, mas não a liberdade de autonomia. É uma liberdade limitada às suas condições de finitude, que são agravadas pela presença do pecado na raça humana. Não podemos permitir que a liberdade do homem diminua a soberania divina. Entretanto, é perfeitamente correto aceitar que a soberania divina limite a liberdade humana. É dessa liberdade dentro de limites que vamos tratar ainda neste capítulo. Ela será chamada de liberdade natural ou liberdade de agência.

A palavra mistério deve ser distinta da ideia de contradição. Não existe contradição entre a soberania absoluta de Deus e a liberdade de agência dos homens. Elas podem coexistir pacificamente porque elas não são excludentes. Todavia, não podemos penetrar todos os meandros dessa coexistência. Como Deus age soberanamente ao mesmo tempo em que o homem faz o seu trabalho realmente, é difícil de entender. “Um mistério pode ser definido como alguma coisa que é verdadeira que não podemos entender.” A soberania absoluta de Deus é verdadeira. A liberdade do homem (da forma como vamos apresentá-la) também é verdadeira. Contudo, não podemos compreender a maneira como essas duas verdades podem ser relacionadas. Permanece um mistério o fato de que, ao mesmo tempo, num ato praticado, Deus se manifesta soberano e o homem livre e responsável. Todavia, é possível a coexistência dessas duas verdades. Os que a defendem são chamados de compatibilistas.


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A cosmovisão cristã, a cosmovisão ateísta e a lógica

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Por Matt Slick


Pode uma ateísta apresentar uma razão lógica de como sua cosmovisão pode dar satisfações para as abstratas leis da lógica? Eu penso que não. Mas, a cosmovisão Cristã pode. A cosmovisão cristã declara que Deus é o autor da verdade, lógica, leis físicas etc. Ateístas mantêm que leis físicas são propriedades da matéria, e que a verdade e lógica são convenções relativas (princípios consentidos). Isto é logicamente defensável? Apresento este esboço na esperança de esclarecer o assunto e apresentar, o que eu considero, um problema insuperável da cosmovisão ateísta. Eu hesito declarar que isto seja uma prova que Deus existe, mas eu creio isto seja uma evidência da absoluta natureza de Deus. Este argumento é adaptado do Argumento Transcendental defendido por Greg Bahnsen.

Como os cristãos descrevem as Leis da Lógica?

A cosmovisão cristã declara que Deus é absoluto e o padrão da verdade.

Então, as leis absolutas da lógica existem porque refletem a natureza absoluta de Deus. 

Deus não criou as leis da lógica. Elas não foram trazidas à existência, desde que elas refletem os pensamentos de Deus. Desde que Deus é eterno, as leis da lógica também são. [1]

O Homem, ser criado à imagem de Deus, é capaz de descobrir essas leis da lógica. Ele não as inventou.

Então, o Cristão pode declarar a existência das leis da lógica por reconhecer sua origem em Deus e que o Homem é único capaz de descobri-las.

Apesar disso, o Ateísta pode dizer que esta resposta é simplista e conveniente. Pode ser, porém, pelo menos a cosmovisão cristã pode explicar a existência da lógica e si mesma.

Exemplos da Leis da Lógicas

Lei da Identidade – algo é o que é. As coisas que existem tem uma natureza definida.
Lei da Não Contradição – algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo, na mesma forma e no mesmo sentido.
Lei do Terceiro Excluído – uma proposição ou é verdadeira ou falsa. Assim, a declaração “uma proposição ou é verdadeira ou falsa” é verdadeira ou falsa.

Como o Ateísta descreve as Leis da Lógica.

Se o Ateísta declara que as leis da lógica são convenções (mutuamente combinada sob conclusão), então as leis da lógica não são absolutas porque elas são sujeitas ao “voto”.

As leis da Lógica não são dependentes das mentes de pessoas diferentes, desde que pessoas são diferentes. Então, elas não podem ser baseadas no pensamento do homem, pois os pensamentos dos homens são frequentemente contraditórios.

Se o Ateísta declara que as leis da lógica são derivadas por observar princípios naturais encontrados na natureza, então ele está confundindo a mente com o universo.

Nós descobrimos leis da física por observar e analisar o comportamento das coisas em nosso redor. As leis da lógicas não são resultados de comportamento observável dos objetos ou ações.

Por exemplo, na natureza não se ver nada que seja e não-seja ao mesmo tempo.

Por que? Porque nós só podemos observar fenômenos que existem, não um que não existe. Se algo não é, então não existe. Como pode, então, as características de algo não existente serem observadas? Elas não podem.

Então, nós não descobrimos a lei da lógica pela observação, mas pelo pensamento.

Ou, onde na natureza nós observamos que alguma não pode trazer em si mesma à existência se ela não já existe?

Você não pode fazer observações sobre como alguma coisa que não ocorre se ela não existe. Você não deveria, principalmente, observar coisa alguma, e, como pode qualquer lei da lógica ser aplicada ou derivada, nada observando?

As leis da lógica são realidades conceituais. Elas apenas existem na mente e elas não descrevem o comportamento físico das coisas porque comportamento é ação, e leis da lógica não são descrições de ação, mas de verdade.

Em outras palavras, leis da lógica não são ações. Elas não são declarações sobre conceituais de pensamentos padrão. Embora alguém pudesse dizer que a lei da física (i.e, o anglo da reflexão é igual ao anglo da incidência) é uma declaração que seja conceitual, isto é uma declaração que descreve um ato físico e comportamento observável. Mas, lógica absoluta não é observável e não descreve comportamento ou ação das coisas, desde que ela reside completamente na mente.

Nós não observamos as leis da lógica ocorrerem na matéria. Você não observa um objeto trazendo à existência se ele não existe. Então, nenhuma lei da lógica pode ser observável por não vê-las.

Se o Ateísta apela para o método cientifico para explicar as leis da lógica, então ele está usando uma argumentação circular porque o método científico é dependente da lógica; ou seja, raciocinou pensando aplicar a observação.

Se a lógica não é absoluta, então nenhum argumento lógico para ou contra a existência de Deus pode ser levantado, e o Ateísta não tem nada a fazer com isso.

Se a lógica não é absoluta, então a lógica não pode ser usada para provar ou negar o que quer que seja.

Ateístas usarão a lógica para negar a existência de Deus, mas fazendo isto eles estão assumindo o absoluto das leis absolutas e emprestando da Cosmovisão Cristã.

A cosmovisão cristã mantém que as leis da lógica são absolutas porque elas vêm de Deus, que é absoluto em si mesmo.

Mas a cosmovisão ateísta não tem um Deus absoluto.

Então, perguntamos, “como pode leis absolutas, conceituais, abstratas serem derivadas de um universo de matéria, energia e movimento?”

Em outras palavras, “como pode um ateísta com uma pressuposição naturalista explicar a existência da lógica absoluta quando lógica absoluta é conceitual por natureza e não física, energia ou ação?”

Conclusão

A cosmovisão teísta cristã pode explicar as leis da lógica por afirmar que elas foram criadas por Deus.

Deus é transcendente; quer dizer, Ele está além do universo material, sendo seu criador.

Deus deu origem às leis da Lógica porque elas refletem sua natureza.

As leis da lógica são absolutas.

Elas são absolutas porque existe um Deus absoluto.

A cosmovisão ateísta não pode explicar as leis da lógica/absolutas, e deve pegar emprestado da cosmovisão cristã a fim de argumentar racionalmente.

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Nota:
[1] Há, entre os Apologetas e Filósofos Reformados, divergências quanto a esta questão. Alguns, de fato, acreditam que as Leis da Lógica são criadas por Deus(p.e. Herman Dooyeweerd). Aguarde a tradução do artigo do Richard Pratt “Does God Observe the Law of Contradiction? . . . Should We?” (Third Millenium Ministries). Também é preciso afirmar que há, entre os estudiosos da lógica, divergência acerca da Lei da Não-Contradição. Como demonstra Pratt, a visão de Aristóteles tem sido desafiada por inúmeros pensadores modernos como Frege, Ayers, Russell, Einstein, Whitehead, Heisenberg, Lukasiewicz, Zadeh e Kosko. Veja o post anterior.(Nota do tradutor)

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Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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Deus e a lógica: comprimindo Deus ou divinizando a razão?

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Por Luciano Sena


Esse assunto ocupa um espaço nos debates Apologéticos, Cristãos e Reformados. Dentro no arraial cristão grupos digladiam-se - 'entre família'-, gastando energias (e outras coisas mais) para expor se um movimento será mais ou não... é... bíblico e/ou lógico? Bem é difícil até mesmo definir o real motivo da divisão.

Alguns destacariam que a lógica é tão importante, que mesmo uma postagem de um leigo não seria inteligível se não existisse lógica – quando as coisas não são bem explicadas, as coisas ficam sem lógica! Tal é a importância da lógica.

Precisamos ter algumas reservas quanto ao poder da lógica/razão; não em ser a lógica a conclusão necessária de toda proposição, mas como meio instrumental de receber, ou mesmo 'entender', Deus. Quando Deus usou a lógica para nos comunicar coisas (A Bíblia), não significa que tal instrumento, a lógica/razão, pode ser um veículo na nossa busca de Deus.

O Rev. Cleverson, professor de Teologia Sistemática no IBEL disse certa vez: “Deus é suprarracional.” Ele quis dizer que Deus está acima da lógica. Alguns poderiam sobrepor dizendo: “Como ele sabe disso? Não seria usando a lógica?” Simples: Reconhecendo que testaremos algumas doutrinas até certo ponto com a nossa capacidade. Mas ela não é o cânon para finalizar o exame.

Outros poderiam também destacar: “para Deus 1 + 1  é = 2???”  Bem, deve ser, visto que eu dei números e a 'regra matemática'!. Mas se Deus perguntasse algo de seu mundo para mim, ou mesmo algo em relação a como ele trabalha no tempo tendo todas as coisas diante de si desde toda a eternidade, lanço-me em terra e só posso repetir as palavras de Romanos 11.33-36.

Quando leio sofisticados argumentos filosóficos para provar a existência de Deus, fico impressionado com ‘tanta epistemologia’. Mas bem pouco de Evangelho que é o poder de Deus (Rm 1.16) – e segundo a lógica, poder é Poder!

"Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu ['religioso?'], e também do grego ['intelectual?']."

Não, por favor, não estou dizendo que são inúteis, só estou dizendo que tais argumentos sem o Evangelho pode convencer mas não converter! Você no máximo produzirá um teísta condenado ao inferno, mas não um pecador perdoado e regenerado para o céu, obra que o Espírito Santo só faz por meio da Palavra de Deus.

Para mim, leigo obviamente, o problema vai mais longe do que dividiu Clark de Van Til, mais fundo do que Sproul de Frame protagonizam. O grande problema é usar nossa limitação e não a revelação, achando que poderíamos chegar a alguma conclusão segura, sem o pleno conhecimento bíblico.

O mesmo pastor que citei, também disse: “O limite da lógica é a Escritura.*”

Meu pensamento é que Apologética é Evangelização. Eu não me identificaria com as linhas apologéticas que existem, embora todas são ótimas. Acredito que deveríamos ter um tipo de apologética adaptada, ao contexto e ao indivíduo que estamos evangelizando.

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*Veja parte de um estudo do Reverendo Cleverson Gilvan AQUI

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