Os Puritanos e o Quarto Mandamento

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Por J.I. Packer

O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. (Mc 2:27)

Neste ponto, os puritanos iam à frente dos reformadores. Estes últimos tinham seguido Agostinho e o ensino medieval em geral, negando que o domingo fosse, em qualquer sentido, um dia de descanso. Eles afiançavam que o sábado, prescrito pelo quarto mandamento, era um mandamento tipicamente judaico, prefiguração do “descanso” da relação da graça-fé com Cristo.

Eis a explicação de Calvino:


“...é extremamente apta a analogia entre o sinal externo e a realidade simbolizada, visto que a nossa santificação consiste na mortificação de nossa própria vontade... Devemos desistir de todos os atos de nossa própria mente a fim de que, operando Deus em nós, possamos descansar nEle, conforme ensina o apóstolo (Hb.3:13;4:3,9). Mas agora que Cristo já veio, o tipo foi cancelado, e seria um erro perpetuá-lo, tal como seria um equívoco continuar a oferecer os sacrifícios levíticos.”

Calvino apelava aqui para Colossenses 2:16, que ele interpretava como alusão ao dia semanal de descanso. Ele admitia que, além e acima de sua significação típica, o quarto mandamento também ensina o princípio que deve haver adoração pública e privada, além de servir de dia de descanso para os servos e empregados, pelo que a plena interpretação cristã seria:


Primeiro, por toda a nossa vida podemos ter por alvo um descanso constante de nossas próprias obras, a fim de que o Senhor possa operar em nós por meio do Seu Santo Espírito; segundo, cada indivíduo deveria se exercitar com diligência em meditação devota nas obras de Deus, e... todos devem observar a ordem legal determinada pela Igreja para que se ouça a Palavra, administrando as ordenanças e a oração pública; terceiro, devemos evitar oprimir àqueles que nos estiveram sujeitos.

Mas Calvino falava como se isso fosse tudo quanto aquele mandamento agora prescreve, nada encontrando no mesmo, em seu sentido cristão, que proíba trabalho ou diversão no domingo, com prejuízo do tempo de culto. A maior parte dos reformadores falava no mesmo tom. O que há de notável é que suas declarações, em outros contextos, mostram que “os reformadores, como um grupo, defendiam a autoridade divina e a obrigação de se observar o quarto mandamento, requerendo que um dia em cada sete fosse empregado na adoração e serviço de Deus, admitindo somente as obras de necessidade e de misericórdia, em favor dos pobres e aflitos”. É um quebra cabeça, porém, porque eles nunca perceberam a incoerência entre afirmar isso, em termos gerais, ao mesmo tempo em que defendiam a exegese de Agostinho sobre o domingo cristão. Podemos apenas supor que isso se deve ao fato que não queriam entreter a idéia de que Agostinho poderia estar enganado, razão que os cegava para o fato que estavam montando dois cavalos ao mesmo tempo.

Os puritanos, contudo, corrigiram essa incoerência. Eles insistiam, de forma virtualmente unânime que, embora os reformadores estivessem certos ao enxergarem apenas um sentido típico e temporário em algumas das prescrições detalhadas no sábado judaico, contudo, eles também percebiam o princípio de um dia de descanso, para efeito de adoração pública e privada a Deus, no fim de cada seis dias de trabalho, como uma lei da criação, estabelecida em benefício do homem, e, portanto, obrigatória para o homem, enquanto ele viver neste mundo. Também destacavam que, figurando entre nove leis indubitavelmente morais e permanentes do decálogo, o quarto mandamento dificilmente teria uma natureza apenas típica e temporária.

De fato, eles viam esse mandamento como parte integral da primeira tábua da lei, que aborda sistematicamente a questão da adoração: “O primeiro mandamento fixa o objetivo, o segundo, o meio, o terceiro, a maneira, e o quarto, o tempo”. Também observaram que o quarto mandamento começa com as palavras “lembra-te...”. E isso nos faz recuar até antes da instituição mosaica. Observaram que o trecho de Gênesis 2:1 ss. representa o sétimo dia de descanso como o próprio descanso de Deus, terminada a criação, e que a sanção atrelada ao quarto mandamento, em Êxodo 20:8 ss., olha de volta para aquele fato, retratando o dia como um memorial semanal da criação, “para ser observado para a glória do Criador, como dever que temos de servi-Lo, e como um encorajamento para confiarmos naquele que criou os céus e a terra. Por meio da santificação do sábado, os judeus declaravam que eles adoravam ao Deus que criou a terra...”. Assim falou Matthew Henry, exegeta de um período posterior aos puritanos, mas que os representou em sua própria época ao comentar sobre Êxodo 20:11. Henry também frisou que o mandamento afirma que Deus santificou o sétimo dia (ou seja, apropriou-o para Si mesmo) e o abençoou (isto é, “injetou bênçãos no mesmo, encorajando-nos a esperar bênçãos da parte Dele, na observância religiosa daquele dia”); e também frisou que Cristo, embora tivesse reinterpretado a lei sobre o sábado, não o cancelou, mas antes, firmou-o, observando-o Ele mesmo, e mostrando que esperava que seus discípulos continuassem a observá-lo (cf. Mt.24:20).

Tudo isso, argumentavam os puritanos, mostra que o descanso do sétimo dia, era mais que um mandamento judaico; antes, era um memorial da criação, parte da lei moral (primeira tábua que prescreve a adoração apropriada ao Criador), e, como tal, era perpetuamente obrigatória para todos os homens. Assim, quando o Novo Testamento diz-nos que os cristãos se reuniam para adorar no primeiro dia da semana (ver Atos 20:7; cf. I Co.16:1), guardando aquele dia como “o dia do Senhor” (Ap.1:10), isso só pode significar uma coisa: por preceito apostólico, e, provavelmente, de fato, por injunção dominical durante os quarenta dias antes da ascensão, esse tornara-se o dia em que os homens, doravante, deveriam guardar o dia de descanso prescrito pelo quarto mandamento. Os puritanos notavam que essa mudança, do sétimo dia da semana (o dia que assinalara o fim da antiga criação) para o primeiro (o dia da ressurreição de Cristo, que assinala o início da nova criação), não excluía pelas palavras do quarto mandamento, meramente determina que “devemos descansar e guardar, como descanso, cada sétimo dia... mas... de modo algum determina onde deve começar a sequência de dias... Não há no quarto mandamento, qualquer orientação sobre como computar o tempo...”. Portanto, coisa alguma impede-nos de supor que o Novo Testamento parece requerer que foram os apóstolos que fizeram a alteração. Nesse caso, tornara-se claro que a condenação (em Cl.2:16) do sabatismo judaico nada tem a ver com a observância do dia do Senhor. Essas, em esboço, eram as considerações feitas pelos puritanos, com base na doutrina do dia do Senhor, a qual é bem sintetizada na Confissão de Fé de Westminster (XXI: vii-viii):

vii. Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção do tempo seja destinada ao culto de Deus, assim também em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado Domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão. Ref. Ex. 20:8-11; Gen. 2:3; I Cor. 16:1-2; At. 20:7; Apoc.1:10; Mat. 5: 17-18
viii. Este sábado é santificado ao Senhor quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia. Ref. Ex. 16:23-26,29:30, e 31:15-16; Isa.58:13.

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Fonte: Revista Os Puritanos. Ano XVII: Nº 4: 2009. Págs.: 11,12

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Expiação Limitada – J. I. Packer

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Por J. I. Packer

“Você falou em redescobrir o evangelho”, diz nosso questionador, “e isso não significa apenas que você quer que todos nós nos tornemos calvinistas”?

Essa indagação presumivelmente gira não em torno da palavra calvinista, mas da coisa em si. Pouco importa se nos chamamos calvinistas ou não; o que importa é que compreendamos biblicamente o evangelho. Mas, isso, conforme pensamos, na realidade significa compreendê-lo conforme o tem feito o calvinismo histórico. A alternativa consiste em compreendê-lo mal e distorcê-lo. Dissemos antes que o evangelicalismo moderno, a grosso modo, tem deixado de pregar o evangelho à moda antiga; e francamente admitimos que o novo evangelho, naquilo em que se desvia do antigo, parece-nos ser uma distorção da mensagem da Bíblia. E agora podemos perceber o que tem sido erroneamente exposto. Nossa moeda teológica tem sido depreciada. Nossas mentes têm sido condicionadas a pensar sobre a cruz como uma redenção que faz menos do que redimir, e a pensar sobre Cristo como um salvador que faz menos do que salvar, e a pensar sobre a fé como a ajuda humana de que Deus necessita para cumprir os seus propósitos. Em resultado disso, não mais somos livres para acreditar no evangelho bíblico ou para anuncia-lo. Não podemos acreditar no mesmo, porque os nossos pensamentos são arrebatados nas circunvoluções do sinergismo. Somos perseguidos pela noção arminiana de que se a fé e a incredulidade tiverem de ser atos responsáveis, terão de ser atos exclusivamente humanos. E, daí deriva-se a ideia que não somos livres para crer que somos salvos inteiramente pela graça divina, através de uma fé que é dom de Deus e que chega até nós por meio do Calvário. Ao invés disso, ficamos envolvidos em uma estranha maneira de dúbio pensar, acerca da salvação, pois, em um momento, dizemos a nós mesmos, que tudo depende de Deus, para, no momento seguinte, dizermos que tudo depende de nós. A confusão mental daí resultante priva Deus de grande parte da glória que lhe deveríamos atribuir como autor e consumador da salvação, e a nós mesmos do consolo que poderíamos extrair do conhecimento daquilo que Deus fez por nós.

E então, quando passamos a pregar o evangelho, nossos falsos preconceitos nos fazem dizer exatamente o oposto daquilo que tencionávamos. Queremos (e com toda a razão) proclamar Cristo como nosso Salvador. Não obstante, terminamos dizendo que Cristo, após ter tornado possível a nossa salvação, deixou que fôssemos nossos próprios salvadores. E tudo termina dessa maneira. Queremos magnificar a graça salvadora de Deus, bem como o poder salvador de Cristo. E assim declaramos que o amor remidor de Deus abarca todos os homens, e que Cristo morreu para salvar todo homem, e proclamamos que a glória da misericórdia divina deve ser medida através desses fatos. Mas então, a fim de evitarmos o universalismo, somos forçados a depreciar tudo aquilo quanto vínhamos exaltando, passando a explicar que, afinal de contas, nada daquilo que Deus e Cristo fizeram pode salvar-nos, a menos que acrescentemos algo – o fator decisivo que realmente nos salva é o nosso próprio ato de crer. O que dizemos, portanto, resume-se nisto: Cristo salva-nos com a nossa ajuda. E o que isso significa, depois de passar pelo crivo de nosso raciocínio, é o seguinte: salvamo-nos a nós mesmos, com a ajuda de Cristo.

Esse é um anticlímax vazio de significado. Porém, se começarmos afirmando que Deus tem um amor salvífico para todos, e que Cristo morreu para salvar todos, ao mesmo tempo em que repudiamos tornarmo-nos universalistas, nada mais restará para dizermos. Portanto, sejamos claros sobre o que temos feito, após ter exposto a questão dessa maneira. Não temos exaltado a graça divina e nem a cruz de Cristo; antes, temo-las tornado baratas. Teremos limitado a expiação muito mais drasticamente do que o faz o calvinismo. Pois, ao passo que o calvinismo, assevera que a morte de Cristo salva a todos quantos foram predestinados para a salvação, teremos negado que a morte de Cristo, como tal, seja suficiente para salvar qualquer pessoa ímpios e impenitentes pecadores, ao assegurar-lhes que eles têm a capacidade de arrependerem-se a crer, embora Deus não possa dar-lhes essa capacidade. Talvez também tenhamos transformado em coisas triviais o arrependimento e a fé, a fim de tornar-se plausível essa certeza (“é tudo muito simples – apenas abra o seu coração para o Senhor…”). Por certo, teremos negado da maneira mais eficaz a soberania de Deus, além de havermos solapado a convicção básica da religião cristã – o fato que o homem está sempre nas mãos de Deus. Na verdade, teremos perdido muita coisa. Assim sendo, não admira que a nossa pregação tanto se ressinta de falta de reverência e humildade, e que os nossos professores convertidos mostrem-se tão autoconfiantes e tão deficientes quanto ao conhecimento de si mesmos, bem como nas boas obras que as Escrituras consideram fruto do verdadeiro arrependimento.

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Trecho do livreto: “O Antigo Evangelho”, reeditado pela Editora Fiel em Julho de 2013
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A Natureza da Fé Bíblica



Por J. I. Packer

Em primeiro lugar, o que é fé? Vamos aclarar a questão. A idéia popular a respeito é que se trata de um certo otimismo obstinado: a esperança tenazmente assegurada, face à adversidade, de que o universo é fundamentalmente amigável e de que as coisas podem melhorar. Diz a Sra. A. à Sra. B.: "Você precisa ter fé". Mas, tudo quanto ela quer dizer é: "Coragem, não desanime se as coisas vão mal". Isso, porém, é apenas a forma da fé, sem seu conteúdo vital. Uma atitude confiante que seja divorciada de um objeto que corresponda a essa confiança não é a fé no sentido bíblico.

Em contraste, a noção histórica da Igreja Católica Romana acerca da fé tem sido de mera confiança e docilidade. Para Roma, a fé é apenas a crença naquilo que a Igreja Romana ensina. De fato, Roma distingue entre fé "explícita" (a crença em algo que foi compreendido) e fé "implícita" (o assentimento incompreensível de qualquer coisa, seja o que for que a Igreja Romana assevere). A Igreja Romana diz que somente esse último tipo de fé, que na realidade é apenas um voto de confiança no ensino da igreja e que pode manifestar-se lado a lado com a total ignorância da doutrina cristã, é requerido dos leigos para a sua salvação! E evidente que a fé, na concepção da Igreja Romana, quando muito, é apenas o conteúdo da fé, sem sua forma apropriada; pois conhecimento, pouco ou muito, divorciado de qualquer correspondente exercício de confiança, não é a fé, no total sentido bíblico. O exercício da confiança é precisamente o que se faz ausente na análise da Igreja Romana. Segundo Roma, fé consiste em confiar nos ensinos da igreja. Mas, de acordo com a Bíblia, fé significa confiar em Cristo como Salvador, e isso é algo totalmente diferente.

Na Bíblia, ter fé ou crer (no grego, o substantivo é pistis; o verbo é pisteuõ) envolve tanto confiança como entrega da vida. De várias maneiras o objeto da fé é descrito como sendo Deus (Rm 4.24; 1 Pe 1.21), Cristo (Rm 3.22, 26), as promessas de Deus (Rm 4.20), o caráter de Jesus como Messias e Salvador (1 Jo 5.1), a realidade da ressurreição (Rm 10.9), o evangelho (Mc 1.15) e o testemunho dos apóstolos (2 Ts 1.10).

A natureza da fé, porém, é invariável. É uma apreensão responsiva de Deus e de sua verdade salvadora; é um reconhecimento da resposta dada por Deus à necessidade humana, que doutro modo jamais seria atendida; é a compreensão de que o evangelho é a mensagem pessoal de Deus, bem como o convite pessoal de Cristo ao seu ouvinte; é o mover-se confiante da alma em direção ao Deus vivo e ao seu Filho.

Isso se torna claro através da mais comum das construções gramaticais no Novo Testamento grego — o verbo pisteuo com a preposição eis, ou, ocasionalmente, com a preposição epi, com o objeto direto no acusativo — cujo significado é "confiar para dentro de" ou "confiar sobre". Esta construção jamais aparece no grego clássico e raramente na Septuaginta. Trata-se de uma nova expressão idiomática, desenvolvida no Novo Testamento, para expressar a idéia de um movimento de confiança que se dirige ao objeto da confiança e que descansa no mesmo.

Esse é o conceito bíblico e cristão de fé. Os reformadores frisaram esse conceito, afirmando que a fé não é apenas fides (crença), mas também fiducia (confiança). Nas palavras do bispo Ryle:

A fé que salva é a mão da alma. O pecador é como um homem que está se afogando, prestes a afundar de vez. Ele vê o Senhor Jesus Cristo oferecendo-lhe ajuda. Ele a aceita e é salvo. Isso é fé (Hb 6.18).

A fé que salva é o olho da alma. O pecador é como um israelita picado por uma serpente venenosa no deserto e que está à morte. O Senhor Jesus lhe é oferecido como a serpente de bronze, levantado para sua cura. O pecador olha para Ele e é curado. Isso é fé (Jo3.14, 15).

A fé que salva é a boca da alma. O pecador está definhando por falta de comida e sofrendo de uma doença dolorosa. O Senhor Jesus lhe é apresentado como o pão da vida e o remédio universal. Ele O recebe e fica bem de saúde e forte. Isso é fé (Jo. 6.35).

A fé que salva é o pé da alma. O pecador é perseguido por um inimigo mortal e teme ser vencido. O Senhor Jesus lhe é apre¬sentado como uma torre forte, um refúgio e um esconderijo. O pecador corre para Ele e fica em segurança. Isso é fé (Pv 18.10)". {Old Paths — Caminhos Antigos — pp. 228 e 229).

Por todo o Novo Testamento, de fato, esse é o conceito normal de fé. As únicas exceções são as seguintes:

1. Algumas vezes, "fé" exprime o conjunto das verdades em que cremos (Jd 3 e 1 Tm 4.1, 6, etc).

2. Algumas vezes, "fé" significa um mais estrito exercício de confiança, que opera milagres (Mt 17.20, 21; 1 Co 13.2). Mesmo nos dias do Novo Testamento, porém, a fé salvadora nem sempre era acompanhada pela "fé que opera milagres" (cf. 1 Co 12.9) e vice-versa (cf. Mt 7.22, 23).

3. Em Tiago 2.14-26, "fé" e "crer" denotam mero assentimento intelectual à verdade, sem a correspondente resposta de uma vida de obediência confiante. Mas, parece que Tiago estava simplesmente imitando o uso da palavra "fé" daqueles a quem procurava corrigir (cf. v. 14), e não precisamos supor que ele normalmente a usasse em um sentido tão limitado (por exemplo, a sua alusão à fé, no verso 5, claramente envolve um sentido muito mais amplo).

Fonte: [ Josemar Bessa ]
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O que é Alegria Cristã?

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Por J. I. Packer

Nossa primeira tarefa é discernir o que a alegria cristã realmente é, e o primeiro passo para isso é pôr em foco nossas idéias sobre a natureza da alegria. Muitos parecem tropeçar nesse ponto; por isso começo com algumas afirmações negativas para abrir o caminho.

Negação número um: A alegria não é igual a divertimento e jogos. Muitas pessoas "se divertem", como dizemos, buscando e encontrando prazer, sem achar alegria. Você pode até "se alegrar" no sentido de "se divertir" sem ficar alegre. A busca irrequieta, implacável do prazer (em sexo, drogas, bebida, mecanismos, entretenimento, viagens) é muito característica de nossa época, pelo menos onde há dinheiro, e indica claramente a falta de alegria. Os cristãos que conhecem a alegria do Senhor descobrem que com ela vem muito divertimento, mas alegria é uma coisa e divertimento é outra. Em contraste, Paulo na prisão não teve divertimento (parece seguro dizer isso), contudo teve muita alegria. Você pode ter alegria sem divertimento, assim como pode ter divertimento sem alegria. Não há nenhuma correlação imprescindível entre as duas coisas.

Negação número dois: Alegria não é a mesma coisa que jovialidade, isto é, não é o exuberante entusiasmo da pessoa que é sempre animadora da festa, aquela de quem se depende para contar piadas e de quem dizem que quando está presente não há chatice. Alguns cristãos são assim, outros não são e nunca serão, mas isso é questão de temperamento que nada tem que ver com alegria. Alguém poderá ter um temperamento entusiasta e ainda assim não ter alegria, e outro, a quem ninguém chamaria de jovial, poderá ter um temperamento calmo e quieto com um quê de melancólico, mas ter alegria de sobra. É bom isso, porque se a alegria dependesse de ter um temperamento jovial, a metade de meus leitores, eu inclusive, teríamos de concluir que seríamos desqualificados e barrados da alegria para sempre. Contudo, a verdade é que por mais que nossos temperamentos possam divergir, a vida de "alegria no Senhor" está disponível a todos nós.

Lembro-me de quando eu era um rapazinho cristão ter ouvido um venerável veterano de púlpito insistir, com ênfase, que os bons cristãos têm rostos de bule de chá em vez de bule de café. Os bules de chá costumam ser esféricos, e o rosto de bule de chá é redondo, com um sorriso de dez centímetros. Os bules de café, em comparação, são mais alongados e finos, e o rosto de bule de café é assim e parece sério e sombrio. Muito impressionado com isso, fiquei bastante deprimido quando, depois disso, me olhei no espelho! Mas refleti que o pregador estava falando era de estrutura óssea, e a estrutura óssea não será mudada enquanto Deus não nos der nossos novos corpos, e assim, logicamente, meu rosto de bule de café seria assim a vida toda. Será que isso significava que eu não poderia experimentar ou expressar alegria cristã? De maneira alguma! O ponto principal do pregador, que todo cristão deve irradiar a alegria, estava certo, mas seu argumento ia por um caminho errado. (Talvez o que o traía era seu próprio rosto bem redondinho de bule de chá, quem sabe?) De qualquer modo, o importante é que embora algumas pessoas nunca vão ser joviais e fazer brincadeiras como outras pessoas, tanto as exuberantes quanto as quietas poderão conhecer a alegria que é o dom de Deus.

Negação número três: Alegria não é o mesmo que despreocupação. Propagandas que retratam jovens adultos atraentes espraiando-se pelas Bahamas buscam nos persuadir de que tirar férias "deixando tudo para trás" é a receita da alegria. Muita gente concorda. Mas se é assim, logo que as férias terminam e você retorna às responsabilidades e encargos, e motivozinhos de irritação da vida — o local de trabalho deprimente, as companhias chatas, os desapontamentos repetidos — a alegria vai acabar porque você não estará mais despreocupado. Alegria, nessa ótica, só estará à nossa disposição durante nossas poucas semanas de férias anuais! É a idéia escapista da alegria; deveríamos agradecer o fato de que não é verdadeira.

Na noite em que foi traído e preso, talvez doze horas antes de sua crucificação, Jesus, que já dera indicação de saber o que o esperava, disse a seus discípulos: "Tenho vos dito estas coisas [i.e., que a obediência vos guardará em meu amor] para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo" (Jo 15.11). Essas palavras nos dizem que ele tinha alegria naquele momento, embora não estivesse despreocupado. Semelhantemente, Paulo na prisão, convivendo com a possibilidade de uma execução sumária, não estava despreocupado, mas tinha alegria abundante. Alegria apesar de pressão esmagadora foi realidade para Jesus e Paulo. Já foi realidade para dezenas de milhares de cristãos desde então, e poderá ser realidade para nós também.

O que é alegria? Já vimos o que ela não é. Então já passa da hora de dar uma definição positiva. Embora a alegria espiritual seja nosso interesse especial neste estudo, compreenderemos melhor o assunto se primeiro focalizarmos a alegria de forma genérica. Aqui está minha definição: a alegria é uma felicidade do coração, ligada a bons sentimentos de uma espécie ou outra. A palavra alegria cobre todo o espectro do que pode ser chamado o enlevo, desde a dor extrema do êxtase até o arrepio quieto do contentamento. O dicionário Webster a define assim: "Excitamento de sentimento aprazível causado pela aquisição ou expectativa do bem... deleite; exultação; hilaridade de espírito". Alegria é uma condição experimentada, mas é mais do que uma emoção; é, antes de tudo, um estado de espírito. A alegria, podemos dizer, é um estado do homem todo em que pensamento e emoção combinam para produzir total euforia. A preciosidade da alegria, o lugar integral da alegria na vida ideal, e o dó que inspira a falta de alegria, são aparentes pela própria definição.

Os Puritanos e a certeza inabalável do Espírito

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Algumas vezes, os Puritanos falavam sobre a segurança da salvação como fruto da fé, e, outras vezes, como uma qualidade da fé; falavam sobre a segurança proveniente da fé assim como sobre a fé que cresce mediante a segurança. Para eles, a segurança era a fé amadurecida e bem desenvolvida; poderia haver fé sem segurança, mas onde a segurança fizer-se presente, ela estará presente como um aspecto da fé, organica-mente relacionada a ela, não como algo distinto e separado dela. Assim sendo, precisamos iniciar este estudo revendo aquilo que os Puritanos ensinavam sobre a natureza da fé em geral.

A fé, diziam os Puritanos, começa na mente, com a crença na veracidade da mensagem do evangelho. Resulta da iluminação espiritual. Na iluminação, o Espírito aclara a mente, capacitando o homem a receber as realidades espirituais, e imprime sobre a mente a realidade objetiva daquelas coisas sobre as quais a Palavra de Deus dá testemunho. O conhecimento das realidades espirituais, assim dado, é tão imediato e direto como o é o conhecimento das coisas materiais que obtemos através dos sentidos físicos; tal conhecimento produz uma convicção imediata, análoga àquela que a percepção dos sentidos nos traz. A Bíblia alude ao processo, utilizando termos emprestados dos sentidos — visão, audição, paladar (Jo 6.40; Ef 4.21; Hb 6.5) — e diz-nos que isso produz a "forte convicção do entendimento" (Cl 2.2). Essa apreciação espiritual das coisas espirituais é dada ao homem, como um ser que pensa, por meio da exposição raciocinada das Escrituras e da reflexão racional sobre as mesmas. O homem não pode conhecer qualquer objeto espiritual salvo através do uso de sua mente; mas o conhecimento espiritual vai além da razão. Não se trata de mera conjectura lógica ou imaginativa e certamente também não é uma certeza derivada de alguma inferência, extraída de premissas mais certas; antes, sua certeza origina-se da conscientização imediata e do contato com a realidade conhecida. Não é um instável "conhecimento imaginário e flutuante" de segunda mão. E um conhecimento "real" e "sólido", produto de uma direta percepção, por meio do senso espiritual das coisas conhecidas. A operação divina mediante a qual essa percepção é dada é aquilo que Calvino e seus sucessores chamaram de testimonium internum Spiritus Sancti — testemunho interno do Espírito Santo. Paulo refere-se a isso, em 1 Coríntios 2.4, como a "demonstração do Espírito".

Goodwin apresentou o assunto desta forma: "O Espírito Santo, quando opera em nós a fé... faz duas coisas: Primeira, Ele... nos dá um novo entendimento... 1 João 5.20... uma nova visão para contemplarmos a Cristo... Segunda, Ele mesmo torna-se uma luz sobre essa nova compreensão", conferindo assim "visão" espiritual acerca das realidades espirituais.1 Esse conhecimento espiritual é, de fato, mais certo do que qualquer outra coisa. Ele pode ser obscurecido pelas tentações; aquele que o possui pode ficar tão fora de contato consigo mesmo por um longo tempo, ou tão confuso e deprimido interiormente que chega a duvidar e a negar o mesmo; mas no fim será um fator predominante, e, a longo prazo, o efeito desses lapsos pode levá-lo a compreender quão inabalável e completamente seu coração está convicto desse conhecimento espiritual. Tal é o conhecimento das coisas divinas, dado a todos os verdadeiros crentes; e é a qualidade da certeza vinculada ao conhecimento que garante que os crentes não se desviem. Esse testemunho do Espírito quanto à verdade objetiva do eangelho é o fator fundamental da fé pessoal, e essa "forte convicção do entendimento" sobre o evangelho, conferida pelo Espírito, é requisito prévio para a segurança pessoal acerca da salvação.

Naturalmente, a fé é mais do que a iluminação mental. Estende-se da cabeça ao coração, expressando-se naquilo que Baxter chamava de "confiança prática" em Deus, por meio de Cristo. O homem volta-se da autoconfiança e do pecado para descansar a sua alma em Cristo e em suas promessas. Por meio disso, tanto exprimiu quanto estabeleceu o hábito da fé em sua alma; e a fé, uma vez estabelecida, impõe-se como a dinâmica de uma nova vida. A fé gera a esperança, atua pelo amor, mantém-se numa firme paciência, manifesta-se em boas obras, faz a alegria e a paz surgirem natural e espontaneamente no coração. "A fé é a roda mestra; ela põe em funcionamento todas as demais graças". "A fé é a mola de relógio que põe em ação todas as rodas douradas do amor, da alegria, do consolo e da paz" . Assim, a fé é reputada como aquilo que contém, dentro de si, uma certa quantidade de segurança, desde o começo; o crente espera, ama, serve e regozija-se porque crê que Deus teve misericórdia dele.

Mas essa ainda não é a segurança "firme e bem fundamentada" que os Puritanos pensavam ser a única segurança digna do nome. Um novo convertido, em casos excepcionais, pode desfrutar de um forte e contínuo senso de segurança; usualmente, porém, tal segurança não é conferida enquanto a fé ainda não for testada e amadurecida, enquanto não for aperfeiçoada e fortalecida, mediante o conflito com as dúvidas e com as flutuações dos sentimentos. Os Puritanos suspeitavam um pouco, quando excessos de alegria acompanhavam a primeira profissão de fé; eles nunca esqueciam que, em uma parábola de Jesus, os ouvintes de solo pedregoso é que recebiam a Palavra com súbita alegria. Convertidos autênticos, sãos e completos, afirmavam eles, geralmente não começam desse modo.


Uma "plena segurança" é uma bênção rara, mesmo entre os crentes adultos na fé; é um grande e precioso privilégio, que não é dado indiscriminadamente. "O senso de segurança é uma misericórdia boa demais para os corações da maioria dos homens... Deus só a confere para seus melhores e mais queridos amigos". "A segurança é a beleza e o ápice da glória cristã nesta vida. Usualmente faz-se acompanhar pela mais forte alegria, pelos consolos mais doces, pela mais intensa paz. É uma coroa... que poucos usam..." "A segurança é carne para os adultos na fé; poucos bebês, se é que há algum, são capazes de recebê-la e digeri-la".

A segurança não é normalmente desfrutada exceto por aqueles que primeiro labutaram e procuraram por ela, tendo servido fiel e pacientemente a Deus, ainda que passando algum tempo sem ela.

A segurança vem como uma recompensa à fé... A fé deve lutar primeiro, realizando uma conquista, e então a segurança é a coroa, o triunfo da fé... e o que prova a fé mais do que as tentações, os temores, as dúvidas e os raciocínios contra a condição da própria pessoa? Essa triunfante segurança, Romanos 8.37,38... vem após um teste, pois ninguém é coroado enquanto não tiver se esforçado.

Segurança desse tipo não é essencial à fé; antes, conforme disse Brooks, deriva-se da fé experiente, e não somente da existência da fé. De fato, trata-se de um aspecto da fé que aparece somente quando a fé já atingiu elevado grau de desenvolvimento, muito além de seu mínimo exercício salvífico. Goodwin falava sobre a segurança como "um ramo e apêndice da fé, uma adição ou complemento da fé" e também como "a fé elevada acima de seu nível normal". E disse: "As Escrituras referem-se à segurança como algo distinto da fé (embora fundida a esta, pois ambas formam uma só coisa)". Esse era o conceito geral da segurança de salvação, por parte dos Puritanos.

É evidente que, para os Puritanos, a "segurança de salvação" era algo muito diverso daquela "segurança" geralmente dada aos convertidos, durante o diálogo de cinco minutos, no gabinete pastoral ("Você crê que João 1.12 diz a verdade e que você recebeu a Cristo? Então você é um filho de Deus"). Os Puritanos jamais teriam chamado de segurança a uma afirmação desse tipo. Profissões de fé, diziam eles, precisam ser submetidas a teste antes de serem acreditadas, até mesmo por aqueles que as fazem. Pois, de qualquer forma, para o Puritano, a segurança era mais do que uma simples inferência humana; antes, era a convicção, outorgada por Deus, de que um crente está firmado na graça, uma convicção selada pelo Espírito em sua mente e coração, tal como a verdade dos fatos do evangelho foi selada sobre a sua mente quando nasceu a fé, trazendo consigo a mesma certeza imediata. Explicou Brooks: "A segurança é o ato que reflete de uma alma agraciada, por meio do

qual ela se vê claramente em uma condição graciosa, abençoada e feliz; é um sentimento sensível e um discernimento experimental de que a pessoa está no estado de graça". As palavras-chaves, neste caso, são sensível e experimental. A segurança é o fruto consciente de uma iluminação sobrenatural, não podendo existir enquanto Deus não achar por bem proporcioná-la. A posição de um recém-convertido é, realmente, esta: à medida em que ele crê e obedece, irá experimentando novas medidas de paz e alegria, pois a verdadeira confiança produz verdadeiro consolo ("ninguém pode contemplar a Cristo sem sair dali mais animado"; "há uma voz do Espírito de Deus que sussurra paz para o seu povo, quando eles crêem"). O crente pode pensar e esperar, com razão, que ele é filho de Deus. Mas não pode dizer, no mesmo sentido absoluto da primeira epístola de João, que ele reconhece a sua filiação enquanto o Espírito não implanta essa certeza no fundo de seu coração. De qualquer modo, enquanto o Espírito assim não o fizer, no sentido dado pelos Puritanos, faltará esse senso de segurança; e, no dizer dos Puritanos, assim parece acontecer com a maioria dos crentes.

Quando raia essa segurança sobrenatural, ela transforma toda a vida cristã de uma pessoa. "Trata-se de uma nova conversão", disse Goodwin. "Isso faz um homem diferir de si mesmo quanto àquele que ele era antes, quase da mesma maneira como a conversão fê-lo diferir de quando ele ainda não era convertido. Há uma nova edição de todas as graças". Isso soa estranho, mas Goodwin queria dizer o que disse e passou a elaborar a idéia. Ele nos diz que o senso de segurança aumenta a fé (a fé "recebe um outro nível"); e esse revigoramento da fé resulta em uma nova liberação de poder, em cada ponto da vida cristã de uma pessoa.

Primeiro, a segurança aprofunda a comunhão do crente com o Deus triúno, quando ele medita sobre o "plano" do amor remidor.

Na segurança... a comunhão e o diálogo de um crente é... algumas vezes com o Pai, outras com o Filho, e outras com o Espírito Santo; algumas vezes o seu coração é impelido a considerar o amor do Pai em escolher, então o amor do Filho em redimir, e, por fim, o amor do Espírito Santo, que perscruta as coisas profundas de Deus, revela-as a nós, e mostra grande cuidado por nós...

Mas isso não é tudo. O aparecimento do senso de segurança reaviva o entendimento espiritual; por meio do senso de segurança "é fortalecido o olho da alma, para que veja mais profundamente as verdades; todas as verdades passam a ser mais claramente conhecidas". Isso faz um homem tornar-se ousado e poderoso em oração. Fá-lo tornar-se mais santo, embora já o fosse antes; "toda legítima segurança de salvação... santifica o homem"; "coisa alguma faz o coração do crente amar, estudar, praticar e crescer tanto na santidade quanto esse glorioso testemunho do Espírito.

Autor: J. I. Packer
Fonte: [ Josemar Bessa ]
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Eudemonismo

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Eudemonismo é uma palavra incomum pela qual eu talvez deva pedir desculpas. Eu a uso porque é a única palavra que eu conheço que serve. Não tem nada a ver com demônios. Vem da palavra grega para "feliz", eudaimon, e Webster a define como "o sistema de filosofia que faz da felicidade humana seu objeto mais alto". Uso a palavra como rótulo para a ótica da felicidade, significando a presença do prazer, e o livrar-se de tudo que é desagradável.

O eudemonismo diz que, já que a felicidade é o valor supremo, podemos confiantemente olhar para Deus aqui e agora para nos proteger de coisas desagradáveis em cada circunstância, ou então, se as coisas desagradáveis aparecerem, livrar-nos delas imediatamente, pois nunca é da vontade dele que tenhamos que conviver com elas. Este é um princípio básico da religião da banheira quente. Infelizmente, entretanto, é um princípio falso. Perde de vista o lugar do sofrimento na santificação, por onde Deus treina seus filhos para compartilharem de sua santidade (veja Hb 12.5-11). Tal erro pode provocar uma ruína.

A felicidade, no sentido em que a definimos, será gozada no céu. Apocalipse 7.16-17 nos mostra isso. Quando formos glorificados com Cristo, nossa condição será de alegria consciente e deleite completo em tudo que nos cerca (o mais alto grau de felicidade), e não simplesmente de quieto contentamento com o modo como as coisas são (felicidade em seu grau mais baixo). Mas há um perigo. O céu é um estado de santidade que somente pessoas com gostos santos apreciarão e no qual somente pessoas de caráter santo podem entrar (Ap 21.27; 22.14ss). De acordo com isso, o propósito presente de Deus é operar santidade — isto é, a semelhança de Cristo — em nós, para nos adequar ao céu. É precisamente o interesse de Deus em nossa felicidade futura que o leva a concentrar-se aqui e agora em nos tornar santos, pois "sem santidade ninguém veráaDeus"(Hb 12.14).

A santidade não é um preço que pagamos para a salvação final; é, antes, a estrada pela qual nos aproximamos dela, e a santificação é o processo pelo qual Deus nos guia por essa estrada. O Novo Testamento nos mostra que na escola da santificação muitas modalidades de dor têm seu lugar — desconforto físico e mental, e pressão, desapontamento pessoal, restrição, mágoa e aflição. Deus usa essas coisas para ativar o poder sobrenatural que opera nos crentes (2Co 4.7-11); para substituir a autoconfiança com confiança total no Senhor que nos dá forças (1.8ss; 12.9s.);e para dar continuidade a seu trabalho santo de nos transformar daquilo que somos por natureza na semelhança moral de Jesus "de glória em glória" (2Co 3.18). Assim ele nos prepara para aquilo que já havia preparado para nós, confirmando a afirmação de Paulo de que "Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade ... para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo" (2Ts 2.13-14; cf.Ef 5.25-27; Tt2.11-14; 3.4-7).

Crianças que fazem o que querem e são constantemente protegidas de situações em que poderiam sentir-se magoadas, nós as descrevemos como crianças estragadas. Quando dizemos isso, estamos expressando que a paternidade superindulgente não só as deixa malcomportadas hoje como também não as prepara para as exigências morais da vida adulta amanhã — dois males pelo preço de um. Mas Deus, que tem sempre os olhos no amanhã enquanto trata conosco hoje, nunca estraga seus filhos, e o curso de treinamento em vida santificada em que nos matricula, e que dura a vida toda, propõe-nos desafios e testa-nos até o máximo repetidas vezes. Os hábitos de agir e reagir à semelhança de Cristo — em outras palavras, o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, generosidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22s.) — ficam cada vez mais arraigados à medida que aprendemos a mantê-los através de experiências de dor e desagrado, que em retrospecto parecem ter sido o formão de Deus para esculpir nossas almas. A santificação é mais do que isso, mas não menos. "É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos)", escreve o autor de Hebreus. "Pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos" (Hb 12.7-8). Filhos bastardos reconhecidamente passam sem cuidados, mas para vocês que crêem, o escritor afirma, não será assim. Seu Pai celeste tem amor suficiente para instruí-los no viver santo. Apreciem o que ele está fazendo e estejam dispostos para as asperezas que o programa dele para vocês inclui.

Assim, visto que Deus realmente nos ama, qualquer forma da idéia de que ele deva ter a intenção de isentar-nos, ou então imediatamente livrar-nos, de todas as dificuldades que ameaçam — problemas de saúde, isolamento, família desfeita, falta de dinheiro, hostilidade, crueldade, ou o que quer que seja — precisa ser descartada como totalmente errada. Os crentes fiéis irão experimentar ajuda e livramento em tempos de angústia muitas e muitas vezes. Mas nossa vida não vai ser de bem-estar, conforto e prazer de fio a pavio. Serão abundantes os carrapichos debaixo da sela e os espinhos na cama. Ai do adepto da religião do “prazer materialista” que fizer vista grossa para esse fato.

Autor: J. I. Packer
Via: [ Josemar Bessa ]

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Antinomianismo [Definição]

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NÃO SOMOS LIVRES PARA PECAR
Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele [Cristo] ê justo.
(1 João 3:7)

Antinomianismo, que significa ser "antilei", é um nome aplicável a diversas opiniões que têm negado que a lei de Deus, na Escritura, deve controlar diretamente a vida do cristão.

O antinomianismo dualístico aparece nos gnósticos he­réticos, contra os quais Judas e Pedro escreveram (Jd 4-19; 2 Pe 2). Esta corrente considera que a salvação é somente da alma, e o comportamento do corpo é irrelevante, seja no inte­resse de Deus ou da saúde da alma, de modo que podemos agir dissolutamente sem qualquer implicação negativa.

O antinomianismo centrado no Espírito coloca tal confian­ça na ação inspiradora do Espírito Santo a ponto de rejeitar qualquer necessidade de ensino da lei sobre como viver. A libertação da lei como meio de salvação é admitida para trazer consigo a libertação da lei como guia de conduta. Nos primei­ros 150 anos da Reforma, esta espécie de antinomianismo ameaçava freqüentemente, e a insistência de Paulo de que uma pessoa verdadeiramente espiritual reconhece a autori­dade da Palavra de Deus por meio dos apóstolos de Cristo (1 Co 14:37; cf. 7:40) sugere que a igreja de Corinto, obcecada pelo Espírito, estava sob domínio da mesma obstinação.

O antinomianismo centrado em Cristo argumenta que Deus não vê pecado nos crentes, porque eles estão em Cristo, que cumpriu a lei por eles, e, portanto, o que eles fazem realmente não faz nenhuma diferença, contanto que continuem crendo. Mas 1 João 1:8-21 (explanando 1.7) e 3:4-10 apontam para uma direção diferente, mostrando que não é possível estar em Cristo e, ao mesmo tempo, admitir o pecado como um meio de vida.

O antinomianismo dispensacional sustenta que não é neces­sário, em nível algum, que os cientes guardem a lei moral, considerando que já vivemos sob a dispensação da graça, não da lei. Mas Romanos 3:31 e 1 Coríntios 6:9-11, mostram clara­mente que a observância da lei é uma obrigação contínua dos cristãos. "Não [estou] sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo", diz Paulo (1 Co 9:21).

O antinomianismo dialético, como em Barth e Brunner, nega que a lei bíblica seja mandamento direto de Deus e afir­ma que as declarações imperativas da Bíblia ensejam a Palavra do Espírito, a qual, quando vem, pode ou não corresponder exatamente ao que está escrito. E evidente aqui a inadequabilidade da visão neo-ortodoxa da autoridade bíblica, que explica a inspiração da Escritura em termos da instrumentalidade da Bíblia como canal para os pronunciamentos de Deus a seu povo na atualidade.

O antinomianismo situacionista diz que um motivo e inten­ção do amor é tudo o que Deus requer agora dos cristãos, e os mandamentos do Decálogo e outras partes éticas da Escritura, por mais que sejam atribuídas diretamente a Deus, são meras regras e métodos de amar, regras que o amor pode a qualquer momento rejeitar. Porém Romanos 13:8-10, texto ao qual esta visão recorre, ensina que, sem o amor como motivo, estes mandamentos específicos não podem ser cumpridos. Vem à tona, mais uma vez, uma visão inaceitavelmente fraca da Escritura.

Deve ser ressaltado que a lei moral, cristalizada no Decálogo e reiterada no ensino ético de ambos os Testamentos, é uma lei coerente, dada para ser um código de prática para o povo de Deus em todas as épocas. Além disto, o arrependimento significa a decisão de, doravante, buscar a ajuda de Deus ao guardar essa lei. O Espírito é dado para capacitar a obediência à lei e tornar-nos cada vez mais semelhantes a Cristo, o arquétipo cumpridor da lei (Mt 5:17). Esta observância da lei é de fato, o cumprimento de nossa natureza humana, e a Escritura não oferece nenhuma esperança de salvação para qualquer um que, seja qual for sua profissão de fé, não procura mudar do pecado para a justiça (1 Co 6:9-11; Ap 21:8).

J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa – Pgs. 169-170
Via: [ Reforma & Razão ]

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