Cristo morreu por nós ou por Deus? - John Piper

.
Autor: John Piper

“A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:25-26)

Introdução

Uma das razões que torna difícil comunicar a realidade bíblica às pessoas modernas e seculares é que a mentalidade bíblica e a mentalidade secular se movem de pontos de partida radicalmente diferentes.

O que eu quero dizer por mentalidade secular não é necessariamente uma mentalidade que rejeite a Deus ou que negue em princípio que a Bíblia seja verdadeira. É uma mentalidade que começa com o homem como a realidade básica no universo. Todo o seu pensar começa com a suposição de que o homem tem direitos básicos, necessidades básicas e expectativas básicas. Então, a mente secular se move a partir deste centro e interpreta o mundo, com o homem, seus direitos e necessidades, como a medida de todas as coisas.

O que a mentalidade secular vê como problemas são vistos como problemas por causa de como tais coisas se ajustam ou não com o centro - o homem e seus direitos, necessidades e expectativas. E o que esta mentalidade vê como sucessos são vistos como sucessos porque eles se ajustam ao homem e seus direitos, necessidades e expectativas.

Esta é a mentalidade com a qual nascemos e que toda a sociedade secular reforça virtualmente em cada momento de nossas vidas. O Apóstolo Paulo chama esta mentalidade de “a inclinação da carne” (Romanos. 8:6-7), e diz que este é o modo que a “pessoa natural” pensa (1 Coríntios 2:14, tradução literal). Ela está tão arraigada a nós que dificilmente sabemos que está lá. Nós apenas temos sua presença como certo - até que colida com outra mentalidade, a saber, a exposta na Bíblia.

A mentalidade bíblica não é uma que simplesmente inclui Deus em algum lugar no universo e afirma que a Bíblia é verdadeira. A mentalidade bíblica começa com um ponto de partida radicalmente diferente, isto é, Deus. Deus é a unidade básica no universo. Ele estava lá antes que nós viéssemos à existência - ou antes que qualquer outra coisa existisse. Ele é simplesmente a realidade mais absoluta.

E assim, a mentalidade bíblica começa com a suposição de que Deus é o centro da realidade. Todo o pensamento começa com a suposição de que Deus tem direitos básicos como o Criador de todas as coisas. Ele tem metas que se adequam à sua natureza e caráter perfeito. Então a mentalidade bíblica se move deste centro e interpreta o mundo, com Deus, seus direitos e objetivos, como a medida de todas as coisas.

O que a mentalidade bíblica vê como problemas básicos no universo não são normalmente os mesmos problemas que a mentalidade secular vê. A razão para isto é que o que faz algo ser um problema não é, primeiramente, o fato dele não se ajustar aos direitos e necessidades humanas, mas sim o de não se adequar aos direitos e objetivos divinos. Se você começa com o homem, seus direitos e vontades, em lugar de começar com o Criador, seus direitos e objetivos, os problemas que você verá no universo serão muito diferentes.

O enigma básico do universo é como preservar os direitos humanos e resolver seus problemas (diga-se, o direito de autodeterminação, e o problema de sofrimento)? Ou é: como um Deus infinitamente digno, em completa liberdade, pode exibir a plenitude de suas perfeições – o que Paulo chama de “riquezas da sua glória” (Romanos 9:23) - sua santidade, poder, sabedoria, justiça, ira, bondade, verdade e graça?

Como você responde a tal pergunta irá afetar profundamente o modo como você entende o evento central da história humana – a morte de Jesus, o Filho de Deus.

Eu introduzi nosso texto (Romanos 3:25-26) com esta longa meditação sobre o poder de nossos pontos de partida, porque o mais profundo problema ao qual a morte de Jesus foi designada para resolver é virtualmente incompreensível à mentalidade secular. É por isso que esta verdade a respeito do propósito da morte de Cristo é raramente conhecida, para não dizer apreciada, como parte da devoção evangélica cotidiana. Nossa mentalidade cristã é tão tendenciosa e marcada pela centralização do homem natural e secular que dificilmente podemos compreender ou amar a centralidade em Deus da cruz de Cristo.


“O Significado Profundo da Cruz”

Nosso enfoque está muito limitado. Nós iremos afundo no assunto de justificação, reconciliação e perdão como o início e a fundação de tudo isso. E.B. Cranfield chama “o significado profundo da cruz” (The Epistle to the Romans, Vol. 1, I.C.C., Edinburgh: T.&T. Clark, 1975, p. 213).

O que você deve compreender ao ler este texto é o problema no universo que a mentalidade bíblica (a mentalidade de Deus) está tentando resolver por meio da morte de Cristo. Como isto difere dos problemas que a mentalidade secular diz que Deus tem de resolver?

“A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” (Romanos 3:25)

Reduza isso ao problema mais básico ao qual a morte de Cristo se propõe a resolver. Deus propôs Cristo (ele lhe enviou para morrer) para demonstrar sua retidão (ou justiça). O problema que carecia de uma solução era que Deus, por alguma razão, parecia ser injusto, e quis exaltar e limpar seu nome. Este é o tema base. A retidão de Deus está em jogo. Seu nome, reputação ou honra devem ser vindicados. Antes que a cruz possa ser por nossa causa, deve ser por causa de Deus.

Mas o que criou aquele problema? Por que Deus enfrentou o problema de precisar dar uma demonstração pública de sua retidão? A resposta está na última frase de versículo 25: “por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”.

O que isso significa? Significa que durante séculos Deus continuou fazendo o que o Salmo 103:10 diz: “[Deus] Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui segundo as nossas iniqüidades”. Ele tinha ignorado milhares de pecados. Ele os tinha perdoado, lhes permitindo continuar, não os castigando.


Como o Davi Desprezou Deus

O Rei Davi é um bom exemplo. Em 2 Samuel 12, ele é confrontado pelo profeta Natã por cometer adultério com Bateseba e matado seu marido. Natã diz: “Por que desprezaste a palavra do SENHOR?” (2 Samuel 12:9).

Davi sente a repreensão de Natã, e no versículo 13 diz: “Pequei contra o Senhor”. A isto Natã responde: “Também o SENHOR traspassou o teu pecado; não morrerás” (ARA). Apenas isso! Adultério e assassinato são “ignorados”. É quase incrível. Nosso senso de justiça urge: “Não! Você não pode apenas o deixar ir assim. Ele merece morrer ou ser aprisionado por toda sua vida!” Mas Natã não diz isso. Ele diz: “Também o SENHOR traspassou o teu pecado; não morrerás”.


Por que o Perdão é um Problema?

Isso é o que o Paulo quer dizer em Romanos 3:25 com por deixar de lado os pecados cometidos. Mas por que isso é um problema? É percebido como um problema pela mentalidade secular - que Deus é bondoso para com os pecadores? Quantas pessoas fora do escopo da influência b íblica lutam com o problema de um Deus santo e íntegro que faz o sol nascer para maus e bons, e envia chuva para justos e injustos (Mateus 5:45)? Quantos lutam com a aparente injustiça de Deus ser indulgente para com os pecadores? Quantos dos cristãos lutam com fato de ser seu próprio perdão uma ameaça à retidão de Deus?

A mentalidade secular não consegue avaliar as situações do modo como a mentalidade bíblica o faz. Por que isso? Porque a mentalidade secular inicia seu pensamento de um ponto de partida radicalmente diferente da bíblico. Não começa com os direitos de Criador inerentes a Deus - o direito de ostentar e exibir o valor infinito de sua retidão e glória. Ela começa com o homem e assume que Deus se moldará aos nossos direitos e desejos.


O Pecado é um Depreciador da Glória de Deus

Veja o versículo 23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. O que está em jogo em meio ao pecado é a glória de Deus. Quando Natã confronta Davi, ele cita Deus como que dizendo: “Por que você me desprezou?” Nós poderíamos imaginar Davi respondendo: “O que você quer dizer com ‘eu o desprezei'? Eu não o desprezei. Eu nem mesmo estava pensando em você. Apenas me interessei por esta mulher e então me apavorei com a possibilidade de outros descobrirem. Seu nome nem mesmo foi citado”.

E Deus teria dito: “O Criador do universo, o arquiteto do matrimônio, a fonte da vida, aquele que a tua existência, aquele que te fez rei - sim, eu, o Senhor, não estava nem mesmo na cena! Está certo, Davi. Isso é exatamente o que eu quero dizer. Você me desprezou”. Todo o pecado é um desprezo a Deus, antes mesmo de ser um dano ao homem. Todo o pecado é uma preferência aos prazeres passageiros do mundo à alegria perpétua do companheirismo de Deus. Davi rebaixou a glória de Deus. Ele depreciou o valor de Deus. Ele desonrou o nome do Senhor. Esse é o significado de pecado – o erro de não amar a glória de Deus acima de tudo mais. “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.

Portanto, o problema quando Deus ignora o pecado é que ele parece concordar com esses que desprezam seu nome e depreciam a sua glória. Ele parece estar dizendo que é uma questão indiferente que sua glória que seja menosprezada. Ele parece tolerar a baixa estipulação de seu valor.


O Insulto de Absolver os Anarquistas

Suponhamos um grupo de anarquistas com o intuito de assassinar o Presidente dos Estados Unidos e todo o seu gabinete, e quase tenham sucesso. Suas bombas destroem parte da Casa Branca e matam algumas pessoas, mas o Presidente por pouco consegue escapar. Os anarquistas são presos e o tribunal os condena. Entretanto os anarquistas dizem que estão arrependidos, e assim, o tribunal suspende sua sentença e os liberta. Agora, o que tal atitude comunicaria ao resto do mundo a respeito do valor da vida do Presidente e de seu governo? A mensagem transmitida seria que eles são de pouco valor.

É isso que o ignorar dos pecados comunica: a glória de Deus e seu íntegro governo são de valor ínfimo, ou mesmo de nenhum valor.

Aparte da revelação divina, a mente natural – a mente secular - não vê ou sente tal problema. Que pessoa secular perde seu sono pela aparente injustiça de ser Deus benigno para com os pecadores?

Mas, de acordo com Romanos, este é o problema mais básico que Deus resolveu pela morte de seu Filho. Leiamos novamente: “ara manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente...” (vv. 25b-26a) Deus seria injusto se ele ignorasse os pecados como se o valor de sua glória fosse nulo.

Deus viu a sua glória sendo desprezada por pecadores (como Davi) - ele viu seu valor depreciado e seu nome desonrado por nossos pecados - e em lugar de vindicar o valor de sua glória matando seu povo, ele vindicou sua glória matando o seu Filho.

Deus poderia ter quitado o débito condenando todos os pecadores ao inferno. Isto teria demonstrado que Ele não minimiza nossa carência da sua glória - nosso depreciar de sua honra. Mas Deus desejou nos destruir. “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:17).


Nós Conhecemos (e Partilhamos!) a mais profunda paixão de Deus?

Isso verdade, nós bem sabemos. Sabemos que Deus é por nós. Sabemos que nossa salvação é o objetivo da vinda de Jesus. Mas nós conhecemos os alicerces de tudo isso? Sabemos que há um objetivo ainda mais profundo no envio do Filho? Sabemos que o amor de Deus para conosco depende de um amor ainda mais profundo, isto é, o amor de Deus por sua glória? Sabemos que a paixão de Deus para salvar os pecadores reside em uma paixão ainda mais intensa, isto é, a paixão de Deus para vindicar sua própria retidão? Nós temos consciência de que a realização da nossa salvação não está centrada em nós, mas na glória de Deus? A vindicação da glória de Deus é o fundamento de nossa salvação (Romanos 3:25-6), e a exaltação da glória de Deus é o objetivo de nossa salvação. “Cristo foi feito ministro da circuncisão ... para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia” (Romanos 15:8-9).


Pode a auto-exaltação ser um Ato de Amor?

Alguém poderia perguntar: “Como pode ser amoroso Deus se auto-exaltar na obra da cruz? Se ele está realmente exaltando sua própria glória e vindicando a própria retidão, então como a cruz é realmente um ato de amor por nós?”.

Temo que a pergunta esteja presa a uma mentalidade secular comum, com o homem no centro. Ela assume que, para que sejamos amados, Deus tem que nos tornar o centro. Ele tem que destacar nosso valor. Se nosso valor não é acentuado, então não somos amados. Se nosso valor não é a base da cruz, então não somos estimados. A suposição de tal questionamento é que a exaltação do valor e da glória de Deus acima do homem não tem a mesma essência que o amor de Deus para com o homem.

Porém, a mentalidade bíblica afirma o exato oposto. A cruz é o apogeu do amor de Deus para com os pecadores, não porque demonstra o valor dos pecadores, mas porque vindica o valor de Deus para alegria dos pecadores. O amor de Deus pelo homem não consiste em fazer do homem o centro, mas de tornar a si mesmo centro para o homem. A cruz não dirige a atenção do homem para seu próprio valor, mas para a retidão de Deus.

Isto é amor, pois a única felicidade eterna para o homem é a felicidade focada nas riquezas da glória de Deus. “Na tua presença há plenitude de alegria; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmo 16:1 1). A auto-exaltação de Deus é amor, porque nos preserva e nos oferece o único Objeto de desejo capaz de nos satisfazer por completo - o Deus todo-glorioso, o Deus todo-justo.


Por que a Cruz é Loucura?

A razão primária do porquê a cruz é loucura para o mundo é que ela significa o fim da auto-exaltação humana, e um compromisso radical para com a exaltação divina. Não – “compromisso” não é exatamente a palavra certa. Antes, a cruz é um chamado à “exultação” radical na exaltação de Deus. A cruz é a morte da nossa demanda para sermos amados e feitos o centro. E ela é o nascimento da alegria em fazer de Deus o centro.


Como a Cruz é sua Alegria?

Teste a si mesmo. Qual é a sua mentalidade? Você começa com Deus, seus direitos e objetivos? Ou você começa com você mesmo, seus direitos e desejos?

E quando você olha para a morte de Cristo, o que acontece? Sua alegria realmente brota a partir de uma tradução desta impressionante obra divina num incentivo para a auto-estima? Ou você é tomado para fora de si mesmo e se enche de reverência e adoração ao ver aqui, na morte de Jesus, a declaração mais profunda e clara da estima infinita de Deus por sua glória e por seu Filho?

Aqui está um grande fundamento objetivo pra a plena certeza da esperança: o perdão dos pecados está fundamentado, finalmente, não em meu trabalho ou valor finito, mas no valor infinito da retidão de Deus - a inabalável determinação de Deus em sustentar e vindicar a glória do seu nome.

Eu imploro a você, com todo meu coração, permaneça nisto. Baseie sua vida sobre isto. Alicerce sua esperança nisto. Você será livre da mentalidade fútil do mundo. E você nunca cairá. Enquanto a exaltação divina de Deus em Cristo for sua alegria, isso nunca lhe conduzirá ao fracasso.

Fonte: [ O Cristão Hedonista ]
Via: [ Tome a sua cruz e siga-me ]

Caricatura do Evangelho

.
Certa noite assistindo um programa de televisão do gênero evangelístico o tele-evangelista usou o termo “genuíno evangelho”, algo deveras pomposo para uma igreja tida como charlatã e inescrupulosa, de onde provinha o evangelista. É interessante notar que a pretensão supra mencionada não é característica apenas de seitas pentecostais dos nossos dias, foi também com outras no decorrer do cristianismo e que com o tempo foi demonstrada a sua heterodoxia.

Todas as vezes que se deseja referendar um segmento apela-se para a ratificação de que o evangelho deve ser aquele pregado por determinado grupo em crescimento. Até nos parece que o evangelho pregado pelo Senhor Jesus Cristo é um evangelho com pontos difíceis de se distinguir. Ora, esta não é a verdade, certamente. O evangelho é claríssimo e em ponto algum ele é obscuro ou incerto. O problema existente atualmente é a relevância que se dá a determinados conceitos do evangelho ou manifestações deste que são realçados como pontos essenciais nestes dias.

Dessa forma alguns enfatizam mais os dons carismáticos, como profecias, curas e línguas, enquanto outros enfatizam uma libertação social, além de haver aqueles que enfatizam a posição exclusivista auto denominando-se grupo distinto por ser considerado mais velho, mais influente ou mais relevante. Não há dúvidas de que tais discussões são necessárias para que se mostre retumbante o verdadeiro evangelho de Cristo, só que não podemos jamais esquecer que o evangelho em sua essência é simples e ainda que profundíssimo tem o objetivo de ser mais pedagógico do que todos os pensamentos e filosofias dos mais hábeis eruditos.

Este fenômeno existente na igreja brasileira do “evangelho aprovado” não tem levado em consideração algo que é axiomático, principalmente aos herdeiros da reforma ou aos evangélicos que é a aprovação escriturística. De tal forma que nada pode ir além do que está escrito no texto sacro. Ir além disso faz descambar para o misticismo e fanatismo o que é deveras prejudicial.

O crescimento do culto à personalidade nestes dias só tem trazido prejuízos a este desgastado cenário religioso em solo pátrio. Temos os mais variados estilos, desde padres do show bussines, até “apóstolos” bonachões. Estes e não as idéias são priorizadas e instituições inteiras são formadas baseadas neste princípio, a ênfase sobre a personalidade. Não se pode negar que quando a personalidade de um ícone se sobressai, naturalmente vemos seguidores tentando perpetuar a imagem de sucesso, baseados no anseio de também vencer, assim na religião bem como na vida como um todo. Só que o que vemos atualmente não é algo salutar, presenciamos talvez um momento ímpar na história da igreja, onde padrões morais estão sendo reduzidos a quinquilharias do passado e a história de integridade do cristianismo está sendo jogada na latrina.

Qual deve ser o posicionamento do povo de Deus nestes dias? Será sucumbir e entregar-se passivamente aos tempos modernos, ou levantar-se profeticamente contra tudo isso? Certamente a segunda opção é mais atrativa. Nada pode ser mais danoso ao evangelho do que sua imitação forjada que mais lembra uma caricatura satânica, do que as antigas e sutis armas do inimigo. Hoje até mesmo as armas do adversário têm sido no intuito de envergonhar a causa, apresentando uma meia dúzia de patéticas figuras que não tem idéia de suas cômicas existências. O crente fiel ao evangelho deve, portanto, discernir, pois está claro aos olhos exercitados que estes são marionetes de um pseudo evangelho que nada tem a ver com o do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, tão claramente revelado nas páginas das Sagradas Escrituras.

Autor: Rev. Fabiano Ramos Gomes
Fonte: [ Evangelismo e Reforma ]

.

Decifrando os mistérios da Bíblia - 1 Co 13:12

.

Hermes Fernandes

“Agora vemos em espelho, de maneira obscura; então veremos face a face. Agora conheço em parte então conhecerei como também sou conhecido” (1 Coríntios 13:12).

Naquela época, os espelhos não eram tão polidos quanto hoje. A imagem refletida no metal era distorcida pela sua superfície irregular. Por isso, era necessário que se buscasse uma posição de onde se pudesse ver com mais precisão.

As Escrituras Sagradas nos servem como espelho através do qual podemos ter um vislumbre de Deus.

O que podemos ver num espelho? Qualquer coisa para o qual ele esteja voltado. Assim é com as Escrituras. Ao lê-las, podemos enxergar através delas nossas próprias deformidades. Suas páginas revelam a ambigüidade da natureza humana, capaz de proezas e crueldades, virtudes e vícios.

A Bíblia não esconde nem maquia as vicissitudes de seus heróis. O mesmo Davi que derrota Golias, se rende ao encanto da mulher alheia, e acaba cometendo adultério seguido de homicídio. O mesmo Abraão que se dispõe a oferecer o próprio filho em sacrifício a Deus, omite do rei do Egito a informação de que Sara era sua esposa. Podemos nos ver em cada personagem bíblico. Cada situação que enfrentamos em nosso cotidiano encontra paralelo em suas histórias.

Por isso, Tiago nos exorta:

“Se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla no espelho o seu rosto natural e, depois de se contemplar a si mesmo, vai-se e logo se esquece de como era” (Tg.1:23-24).

Portanto, ler a Bíblia é encontrar-se consigo mesmo. É enxergar sua silhueta emergindo de suas páginas.

Mas quando posicionamos o mesmo espelho na direção de Cristo, vemos Sua glória nele revelada. É como posicionar um espelho na direção do sol. Toda a glória do astro rei pode ser refletida num caco de vidro.

A melhor maneira de se ler o texto sagrado é mantendo os olhos em Jesus. Ele é a nossa Pedra de Roseta*, a chave interpretativa das Escrituras. Tudo aponta para Ele. Desde os sacrifícios exigidos pela Lei, passando pelas festas instituídas por Deus, aos acontecimentos épicos narrados no Antigo Testamento, tudo tem o objetivo de nos revelar a figura central das Escrituras: JESUS CRISTO. Portanto, deve-se ler a Bíblia a partir de Jesus.

Não são as Escrituras que são perfeitas, mas a imagem que elas se propõem refletir. Se fizermos uma leitura crítica, poderemos encontrar dados não tão precisos, como por exemplo, onde o morcego é classificado como ave. Mas se nos posicionarmos corretamente diante deste espelho, poderemos ver claramente a perfeição d’Aquele que a inspirou, ao mesmo tempo em que perceberemos nossas debilidades.

Não há como isolar uma imagem num espelho, apagando o seu background. Quando fitamos nele, vemos também o pano de fundo, o ambiente à nossa volta. Da mesma forma, ao lermos uma passagem escriturística, devemos considerar seu contexto histórico. Não basta ler suas linhas; temos que investigar suas entrelinhas. Não é em vão que Jesus nos orienta a investigá-las. Uma leitura superficial é incapaz de revelar-nos o Deus que Se oculta nas entrelinhas.

Se cremos numa revelação progressiva como acreditavam os reformadores, temos que supor que esse espelho vai ficando cada vez mais polido, até encontrar seu auge nas páginas neo-testamentárias. O que antes era obscuro, agora está mais límpido e claro. As sombras, os ritos e os tipos do Antigo Testamento cedem lugar à realidade revelada pela luz de Cristo Jesus (Cl.2:17; Jo.1:17).

Não vá às Escrituras como quem vai a uma cartomante, ou quem consulta ao horóscopo. Abri-la aleatoriamente não nos trará qualquer benefício. Também não vá em busca de dados científicos precisos. Abra suas páginas em busca de Cristo, e você o encontrará. "São elas que testificam de mim", garantiu Jesus.


* A Pedra de Roseta (foto acima) é um bloco de granito negro encontrado no Egito em 1799 por soldados do exército de Napolão Bonaparte. A sua importância se deve ao fato de que, à época de seu estudo, no século XIX, proporcionou aos investigadores um mesmo texto escrito em hieróglifos (escrita egípcia antiga), em egípcio demótico e em grego clássico. Como o grego era uma língua então bem conhecida, a pedra serviu como chave para decifração dos hieróglifos egípcios, que por séculos se mantiveram como uma incógnita. Por causa desta importante achado, milhares de textos egípcios puderam ser interpretados, decifrando a história desconhecida do antigo Egito, e muitas vezes comprovando a acuridade dos textos bíblicos.


Autor: Hermes C. Fernandes
Fonte: [ Genizah ]

.

No início era a dúvida...

.
Era um garoto de apenas oito anos de idade, que não conseguia aprender nada na escola, por ser muito confuso da cabeça.

O professor e reverendo Engle, por diversas vezes, chegou a perder a paciência com esse menino agitado e perguntador, de cabelos eternamente despenteados, que se recusava a decorar as lições, diferente dos demais alunos de sua classe, e ainda por cima ouvia mal.

Naquele ano de 1855, o pastor era o único professor da única sala de aula da cidadezinha de Milan, no estado americano de Ohio, perto da fronteira com o Canadá. “Cabeça oca” ─, foi o terrível diagnóstico dado por seu impaciente mestre, o que, de certa forma, contribuiu para que a criança abandonasse a sua carreira de estudante tão cedo. No entanto, à medida que ela crescia, a inquietude, a vontade de saber e o excesso de curiosidade o dominavam cada vez mais.

Lia a Bíblia com avidez incomum. Ficava por longo tempo extasiado com o Livro da história da criação (Gênesis), principalmente a parte que se referia à criação da luz, quando Deus disse: “Haja luz, e houve luz”. Tinha pavor à escuridão, e à noite, em sua cidadezinha, sentia-se incomodado com a fraca luz dos lampiões de gás, que deixava o seu mundo numa penumbra mais triste e melancólica do que as manhãs nubladas da estação de inverno

Um belo dia, lá estava o rapazote com a velha Bíblia de seu pai a tiracolo, imóvel como uma estátua, mal piscava os olhos que se encontravam fixos em Hebreus 11, 1: “Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem”.

Não sabia ele, que a fé iria brotar do imenso território de dúvidas do seu ser. Não sabia que, da dúvida entre aceitação passiva da pequenez do seu mundo e a não conformação com o estado de sua cidadezinha pobre em iluminação, nasceria algo de extraordinário em benefício de toda humanidade. Diariamente, a dúvida ─ sua insistente e inseparável companheira ─ assomava-lhe a alma deixando-o perplexo e mentalmente carregado de pensamentos paradoxais, como as duas correntes elétricas opostas de Faraday. Nas cordas do seu coração reverberava as vozes da ambivalência, sob a forma de gritos: “Posso, não posso? Devo, não devo? Crio, ou não crio algo para clarear a tristonha penumbra em que minha cidade encontra-se mergulhada em suas longas noites?”

A eterna dúvida consumia o seu juízo, deixando-o insone por muitas noites, Às vezes, nesse constante movimento pendular da mente, ficava perguntando para si mesmo: “Nesse meu intento de querer que a noite vire dia, não estarei eu, contrariando o que Deus fez como imutável?"

De tanto pensar em inventar algo que iluminasse o seu mundo noturno, ele uma noite sonhou. Sonhou que a sua pequena cidade tinha se tornado uma metrópole, e que nela não havia noite, pois ao por do sol, várias bolotas incandescentes como que soltas no ar, iluminavam-na de tal maneira, que se permitia encontrar até um alfinete no chão de pedras da rua.

O terceiro versículo da primeira página do livro de Gênesis, junto com o que lera na carta aos Hebreus, dera-lhe ânimo incomum para seguir no seu projeto, naquilo que seria sua mais audaciosa invenção. Agora sim, sentia-se imbuído daquela fé, de que o autor do livro dos Hebreus escrevera. O enlevo, que o fazia sonhar acordado, imprimira-lhe no seu espírito a certeza de que não demoraria muito a realização do seu maior intento, tudo era uma questão de tempo. De experimento em experimento, ele chegaria um dia, a criar algo que pudesse resistir à tensão entre o pólo positivo e o pólo negativo da eletricidade, algo que unisse esses dois condutores aparentemente paradoxais, sem provocar explosões ou destruição.

O dia ansiado e sonhado chegara. Surgiu, quase que por acaso, um resistente filamento de carbono que tinha o poder de segurar e controlar a força dos dois elementos contrários e, finalmente, transmitir o clarão que transformaria suas noites de trevas, em dias iguais aos de sol de verão.

Antes de batizar com o nome de “Resistência”, o filamento incandescente da lâmpada, o inventor tinha lido e refletido sobre o que estava escrito e grifado em sua Bíblia, lá em Efésios 6, 13: “Portanto tomai toda a armadura de Deus, para que possais “resistir” no dia mau e, havendo feito tudo ficar firmes.”

Por um tempo, continuou folheando o Livro Sagrado, até que, num ato repentino, pegou de um lápis e escreveu a palavra “lâmpada”, riscando o termo “lamparina” que estava escrito no livro dos Salmos. “Lamparina para os meus pés é a Tua palavra [...]”, ficou assim, na sua nova versão: “Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra [...]”.

No intuito de rever ou percorrer com a mente todos os seus passos até a grande descoberta, deixou rabiscado na contra capa de sua gasta Bíblia a seguinte oração: “Do escorregadio e minado campo da dúvida, nasceu a FÉ, que me fez ver o amanhã com os olhos do coração, que por meio das aflições dos experimentos infindáveis, infundiram em mim a paciência para que eu perseverasse pelo tempo que fosse necessário, nas mãos de Deus, como um instrumento Seu na consecução de uma dádiva que seria para toda humanidade”.

P.S.: A invenção da lâmpada por Thomas Edison, entre suas muitas descobertas, completou 130 anos no dia 21 de outubro do corrente ano.

"A todo cientista minucioso deve ser natural algum tipo de sentimento religioso, pois não consegue supor que as dependências extremamente sutis por ele vislumbradas tenham sido pensadas pela primeira vez por ele. No universo incompreensível revela-se uma razão ilimitada. A opinião corrente de que sou ateu baseia-se num grande engano. Quem julga deduzi-la de minhas teorias científicas, mal as compreendeu. Entendeu-me de forma equivocada e presta-me péssimo serviço..."

(Albert Einstein (1879–1955), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1921)

Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de dezembro de 2009
Fonte: [ Ensaios & Prosas ]

.

Conspiração

.
Por: Karl Heinz Kienitz

Com excessiva frequência somos confrontados com vigorosos ataques contra a fé cristã e com escândalos morais de toda ordem. A percepção de que há algo errado têm sido expressa nas mais diversas ocasiões. Max Ziegelbauer, por exemplo, bispo (emérito) da diocese católica romana de Augsburg, Alemanha, formulou recentemente1:

“Vivemos numa época de ideologias, frequentemente militantes. Pontos de vista parciais na 'qualidade' de hipóteses são elevados ao todo e absoluto. Um mito qualquer está contra o mistério, uma alegação contra o Evangelho, a instituição de um novo mundo com uma sociedade livre de Deus contra a salvação em Cristo. Temperamentos calmos talvez perguntem: por que tal rispidez, tal pessimismo? A vigilância infelizmente precisa concordar: 'O objetivo estratégico é a erradicação da religião'”. Semelhantemente Kurt Gödel, um dos maiores matemáticos do século 20, externava em 1961 a preocupação de que “noventa por cento dos filósofos contemporâneos consideram que sua principal tarefa é destruir a religião na mente das pessoas”.2

A ligação entre desenvolvimentos nas esferas moral e espiritual permanece muitas vezes subentendida e pode ser paradigmaticamente ilustrada com Bertrand Russell (1872-1970), brilhante matemático, apaixonado defensor do ateísmo, pioneiro do matrimônio aberto (sem compromisso de fidelidade sexual), autor do livro “Por que não sou cristão”, e profundo conhecedor de técnicas de manipulação social. Sobre (parte de) sua motivação o próprio Russell escreveu3:

“Há um ódio feroz em mim, um ódio que é igualmente uma fonte de vida e energia – cessar de odiar não seria realmente bom… eu costumava estar receoso de mim mesmo e do lado escuro de meu instinto, [mas] agora não estou”.

Há muitos que veem em tal estado das coisas um prenúncio do fim dos tempos. Mas a Bíblia menciona ateus debochados e sociedades imorais e injustas desde a Antiguidade. Podemos ainda recordar o pântano moral das fases mais negras do Império Romano; a vida frívola em muitas cortes europeias do passado; ou a Viena de meados do século 19, onde mais da metade dos nascimentos ocorriam fora de casamentos.

É certo que nossa sociedade possui distintivos inéditos, como a invasão facilitada da privacidade pela mídia, por exemplo. Mas a raiz do problema continua sendo a mesma: “o mundo inteiro jaz no maligno”.4 As evidências que se manifestam são mais conspiratórias do que apocalípticas; e sabemos quem é o conspirador. Por incrível que pareça, o próprio Bertrand Russell admite a possibilidade de sua existência, mas afirma não se importar, alegando motivos filosóficos:

“Também não posso provar que Satã seja uma ficção. E o Deus cristão pode existir, assim podem os deuses do Olimpo... Eles estão fora da região de conhecimento provável e por isto não há razão para considerá-los”.5

A essência de posicionamentos deste tipo é questionada por intelectuais de renome como Gödel e Einstein, que sempre relutaram em restringir o que existe àquilo que se pode conhecer usando o método científico.6 A atitude expressa na última frase da citação obviamente é um tiro que no cotidiano tipicamente sairia pela culatra. Mesmo não conhecendo os imprevistos de amanhã, por exemplo, nem sua probabilidade, o ser humano prudente prepara-se de alguma forma: financeiramente, emocionalmente etc. Além disto, escolher nivelar com mitos gregos a revelação de Deus ao longo da história, especialmente a revelação por meio do Jesus da história, só é possível com supressão de evidência. Está configurada, pois, uma questão de vontade e não filosófica. A ela Jesus se refere quando diz aos céticos do primeiro século: “Mas não quereis vir a mim para terdes vida!”.7

Quem observa sucessores de Russell – por exemplo Richard Dawkins, autor do bestseller “Deus, um Delírio” – constata que a estratégia de seduzir a humanidade a “não querer” não mudou: oratória, carisma, plausibilidades, endoutrinamento, deboche, enfim qualquer coisa para desestimular o contato do grande público com o Evangelho. Tudo isto acompanhado de uma avalanche de lixo cultural e moral que apela aos sentidos; tudo para blindar o indivíduo contra o Evangelho. Felizmente este objetivo é inalcançável, pois “não é a minha palavra como fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?”.8 São abundantes as biografias que confirmam isto.

Mesmo assim, às vezes o desânimo com o estado das coisas ameaça se impor. Para estes casos Ruy Barbosa deixou-nos um exemplo de reorientação. Em certa situação escreveu a um amigo:

“Nunca senti pelas vilanias humanas mais enjoos e pela sorte de nossa terra mais desânimo. Felizmente a fé em Deus se me vai acendendo, à medida que se me apaga a confiança nos homens. No meio de tantos desconfortos e iniquidade tenho me entregado estes dias exclusivamente à leitura do Evangelho, a eterna consolação dos malferidos nos grandes naufrágios”.9

Ruy Barbosa apropriou-se de nova perspectiva lendo o Evangelho, onde Jesus diz:

“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”.10

Mais tarde João ensinaria que “todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?”.11 Esta perspectiva vitoriosa é, pois, a perspectiva cristã conclusiva em qualquer cenário, inclusive no enfrentamento de conspirações fadadas ao fracasso final.

Notas
1. No prefácio para "Wilhelm Overhoff - Welt ohne Gott?" Norderstedt, 2006.
2. Paul Yourgau – "A world without time – the forgotten legacy of Gödel and Einstein", Basic Books, 2005, como citado em P.M.G. Ferreira – "A fé em Deus de grandes cientistas", Loyola, 2009.
3. D. J. Peterson - "Revoking the moral order: the ideology of positivism and the Vienna circle", Lexington Books, 1999.
4. João 5:19
5. D. J. Peterson, id.
6. Paul Yorgau, id.
7. João 5:40
8. Jeremias 23:29
9. Como citado no documento "Discurso no Colégio Anchieta", Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, 1981.
10. João 16:33
11. João 5:4-5



• Karl Heinz Kienitz é doutor em engenharia elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, em 1990, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. www.freewebs.com/kienitz

Fonte: [ Ultimato ]

.

O neurotizante "poder" dos líderes religiosos de massas

.

Por: Levi Bronzeado

A obra do sociólogo Gustave Le Bon ─ “Psicologia das Massas” (1895), que ainda é muito lida hoje em dia e foi traduzida em numerosas línguas, descreve muito bem a noção de multidão e o papel de seus líderes na sociedade moderna.

A instituição eclesiástica é a mais sólida e antiga instituição humana que não sobrevive sem o poderoso desejo dos fiéis por um líder que leve sobre si os seus anseios mais prementes.

Le Bon admite que o desamparo, as incertezas, o desemprego e o estremecimento entre as culturas levam as multidões a reclamar por um mestre que os comandem com firmeza. As multidões querem um chefe que forneça referenciais, que diga claramente quem é amigo e quem é inimigo.

Para os antimodernistas, a salvação da humanidade estaria numa estrutura religiosa autoritária. Acontece que nossas capacidades criadoras e inquietas, nosso poder de invenção nascido com o “Iluminismo” possibilitou a saída para a maioridade do homem. O homem passa a se servir do seu próprio entendimento. Um sujeito novo nasceu com Descartes, em que a dúvida é a condição de uma verdadeira certeza.

Tanto a igreja como o exército são instituições baseadas na fidelidade a hierarquia, na disciplina e na ameaça de exclusão.

O líder religioso de massas “ama” aos seus seguidores ou comandados, e, em resposta, os fiéis “amam-se” como irmãos na fé. A importância do líder está em ocupar esse lugar à frente da multidão de servos que o veem como mestre (a quem entregam o comando de suas vidas). Foi assim, que os Alemães abdicando de suas próprias consciências, entregaram-se de corpo e alma à sanha do seu sanguinário e neurótico líder (Hitler), o qual via no povo Judeu a encarnação do próprio diabo.

Há grupos religiosos que mantém uma estreita dialética com o seu líder, da seguinte forma: cada indivíduo permite o aumento de sua submissão à emoção transmitida pelo pastor; ao mesmo tempo, experimenta a diminuição no controle da razão. E isso se dá por “sugestão”, que é confundida com manifestação do poder Divino. O Pastor ou líder carismático, diante das massas, se comporta como um hipnotizador, e pela sugestionabilidade permite o afrouxamento dos impulsos instituais do grupo. O que se vê então são fenômenos arcaicos aflorando através das mais bizarras reações, fenômenos esses, que estariam reprimidos há muitos anos num grande e oculto porão chamado “Inconsciente”.

O magnético líder religioso revestido de “todo poder” atribuído a Deus, cuida de desenvolver estratégias de sedução e de defesas, impondo ao homem as suas pretensas “verdades eternas”. O fiel como receptáculo da energia exalada de seu chefe espiritual, encontra o seu gozo ao identificar-se com a “alegria” ou sintomas neuróticos do seu comandante.

Os grupos religiosos, na verdade, anseiam pela glória de Deus na pessoa do seu pastor, esquecendo o que disse Lutero: “O Deus “absconditus” não pode ser encontrado, pois Ele se dá somente, de agora em diante, como Deus “revelatus”, isto é, Deus em PALAVRA”. Este Deus não pode ser alcançado diretamente, e, portanto, “possuído” num esforço legalista, místico ou especulativo.

Mas o que finalmente conseguem as massas empolgadas e seus líderes?

Conseguem apenas descarregar a libido reprimida, através de manifestações grotescas, próprias da neurose coletiva, semelhantes em tudo aos distúrbios do pensamento e da conduta, de que trata a medicina psiquiátrica. Infelizmente, toda essa manifestação doentia das massas regida pela batuta do magnético líder é rotulada indevidamente de poder Divino e religioso.

Autor: Levi F. bronzeado
Fonte: [ Ensaios & Prosas ]

.

O que aprendi lá no Éden

.

Por: Levi Bronzeado

O Éden não é uma metáfora, muito menos uma alegoria ou parábola. Metáfora não é, senão no sentido trivial em que todos os nomes são metafóricos.

No meu Éden imaginário se situam versões utópicas de religião, de poesia e de psicanálise. Na verdade, para mim, essas utopias são gazuas que servem para arrombar as janelas da realidade.

Eu estava lá na pele daqueles dois seres angelicais, transformados em criaturas humanas pelo egoísmo de lutar até a morte pelos seus interesses.

Para os Egípcios, o mundo acabou com Alexandre. Para os Bizantinos, com o saque dos Cruzados. Para os Incas e os Astecas, com os espanhóis. No entanto, o meu Éden é herdeiro daquilo que não acaba em cada fim de mundo. Nele se encontra o que se perdeu na realidade comum, ou o que nem chegou a haver. O meu Éden está nas memórias do “não ser” de minha mais remota infância.

A lógica no meu Éden não objetiva proibir inferências falsas. Não é uma lógica restritiva, mas uma lógica produtiva. Foi a outra criatura, tirada de dentro de mim, que me abriu os olhos para ver o diferente, que me fez do “não ser” um “ser”. Surgira ali a diferença do inesperado que pela primeira vez me fez pensar, investigar e duvidar.

Do dia-a-dia de minhas dimensões edênicas, uma via se abriu para superar a relativa paralisia em que me encontrava, quando estava só. Enveredamos agora, eu e a minha “costela encurvada”, pelo caminho dos resultados imediatos. Com o feminino tirado de mim, aprendi que cada um se faz no outro; cada um se vê no outro. Juntos, descobrimos o “verbo” que significa ação. Surgiu então o primeiro diálogo humano sob a forma de uma audácia transgressora que cuidava modelar um novo rosto contemporâneo de nosso Criador, com nossa própria carne e sangue. Porém, Deus não é um alvo abstrato, nem uma necessidade lógica, tampouco um alto edifício em que se harmonizem nossos silogismos e nossas fantasias. Deus não é um destilado inodoro e neutro; nem o feminino nem o masculino de nosso cérebro.

Saímos eu e minha costela arfante e falante, do ritmo da marcha de Deus, para se ajustar ao ritmo de nossa própria vida, pequena e fugaz. Queríamos conhecer o efêmero, vibrante e misterioso prodígio da existência, com olhos novos, com ouvidos novos, com paladar e olfato renovados pelo desvairado desejo de ser como o Criador.

Expulsos do Éden descortinou-se a nossa frente o belo e fascinante espetáculo de um mundo anárquico e hedonista.

O Criador vendo o Éden vazio vaticinou que um dia resgataria o homem. A desobediência do homem não seria obstáculo, porque um dia, a Sua palavra escrita em nossos corpos se converteria em Sagrada Escritura.

A saudade do Éden nos persegue invisível por trás dos fenômenos, querendo nos levar de volta àquele lugar vibrante e sobrenatural onde fomos forjados.

Em meio a anarquia desabalada do mundo, a saudade do Éden nos faz afundar nos subterrâneos de nossas almas, numa tentativa inócua de reaver o “não ser” do Paraíso perdido.


DEUS

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

(Fernando Pessoa)


Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de outubro de 2009

Fonte: [ Ensaios & Prosas ]

.

Ser ou não ser Pedro - eis a questão

Por: Levi B. Santos

Momentos antes de sua prisão, e logo após a sua última ceia, Cristo presenciou uma forte bate-boca entre os discípulos, que discutiam quem entre eles seria o maior. Foi nessa ocasião que o Mestre deu uma grande lição aos seus pupilos, ao dizer: “o maior entre vós, seja como o menor; e quem governa seja como quem serve”.

Os últimos instantes do Mestre junto aos seus discípulos, narrados por Lucas, nos dá a impressão de que Pedro estava meio alheio ante a gravidade dos fatos que estavam prestes a acontecer, quando Cristo, veementemente, o chamou por duas vezes para transmitir-lhe uma notícia não muito boa. Disse Cristo: “Simão, Simão, Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo. Mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu quando te converterdes, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22: 31 – 32)

O quanto se torna difícil entender que Pedro não era um convertido, quando se sabe que lá no começo de sua caminhada cristã ele tinha dado provas de sua extraordinária convicção, ao responder enfaticamente diante do Mestre dos mestres: “Tu És o Cristo, Filho do Deus vivo!” (Mateus 16: 16)

Quem poderá imaginar o que deve ter passado pela cabeça de Pedro ao ouvir da boca do Mestre (lá atrás no começo de Seu Ministério) essa grandiloquente declaração: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mateus 16: 19). Um presente como esse, para quem não era ainda um convertido, no mínimo deve ter levado o EGO desse apóstolo às alturas, e ao mesmo tempo deve ter deixado os outros discípulos em um conflito interno movido por pitadas de inveja. Ao serem tomados por este sorrateiro e sutil sentimento, quem sabe, se os outros apóstolos não confabularam entre si, dizendo o correspondente a frase comumente usada hoje: "Esse é o cara?"

À primeira vista, a confrontação das passagens de Mateus com as de Lucas, pode nos levar, racionalmente, a entender que Pedro era um convencido e não um convertido.

Mas afinal: Quem somos nós? Somos ou não somos convertidos?

Isto nos leva a refletir sobre o dilema de Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão”.

Mas, os pressupostos do cristianismo sinalizam que o “ser” ou “não ser” não é uma questão. Se, somos seres em movimento e não entidades estáticas, podemos “ser” e “não ser”. Em nossa caminhada diuturna, a luz do sol clareia pela manhã um lado do nosso corpo, parte do corpo que mais tarde, será tomado pela escuridão da sombra. É impossível fugir da rotina fatigante, que é o mal de cada dia.

O meu eu transcendental que diz que sou um convertido, ignora o sol de minha individualidade e de minha realidade. Tenho momentos de fé e de contemplação, mas, também, tenho momentos de dúvidas e de descrenças.

Sobre a noção de que o SER é uma substância intemporal e imutável como pensava Parmênides e Platão, eu contraponho o conceito de Heráclito e Hegel de que a vida é um processo e não algo determinado, como uma substância. A vida é um eterno “transformar-se” e isto implica mudanças, em que o que temos como a verdade de hoje, não necessariamente, será a verdade de amanhã. A renovação do nosso entendimento implica transformações (é Bíblico). As notas musicais são as mesmas, apenas mudamos a posição das mesmas na pauta, para que se possa solfejar um cântico novo.

Sou humano, por isso, não nego que ora em minha caminhada tenho sido o "Pedro "de Mateus 16: 16, e em outros momentos tenho me sentido como o "Pedro" de Lucas 22: 31. Às vezes, sinto-me resplandecente ante a glória dos céus, como ocorreu com Pedro lá no monte da transfiguração; outras vezes, sinto-me triste e acabrunhado quando Cristo sussurra ao meu ouvido, dizendo que ainda não sou um convertido, como aconteceu com o Pedro narrado em Lucas.

Quem me livrará desse terrível paradoxo, que me faz, às vezes, ser o Pedro com as chaves do reino dos céus nas mãos, e outras vezes ser o Pedro envergonhado por negar a Cristo, três vezes seguidas, mesmo tendo sido alertado antes, que o diabo queria com ele cirandar.

Não! Decididamente, não posso aplicar aqui, o conceito Shakespeareano do “Ser ou não ser, eis a questão”

Fico com o filósofo Paulo de Tarso que disse: “pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço”. No momento em que digo: “sou” fraco, Ele diz és forte. No momento que penso “ser” forte, Ele me mostra o contrário.

Que me perdoe Shakespeare, mas com o advento de Cristo não há mais questão a ser resolvida, pois o ideal do “ser” é sustentado pela esperança de vida eterna. Quanto ao “espinho na carne”, símbolo da fraqueza do “querer ser” quando não se “pode ser” ─ a Graça Divina me basta, pois é ela que preenche a lacuna do meu vazio existencial. É justamente ela, que me faz entender que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza do “não poder ser”.

Sendo assim, o “ser convertido” e o não “ser convertido” são apenas instâncias ou momentos na vida do crente; são as faces opostas de uma daquelas monumentais pedras a que Cristo se referiu, quando falou que sobre ela construiria a sua Igreja. Em outras palavras, Ele quis dizer que, sobre as vicissitudes e faces paradoxais do homem (loucura para os sábios), se assentariam as bases da mensagem Divina, que busca incessantemente, através da Graça, o “que não é”, para confundir o que “é”.

Porque não dizer que nós somos este Pedro paradoxal?

Porque negar o Pedro que temos dentro de nós, quando sabemos que a pedra (com suas faces opostas) a que Cristo se referiu, é uma das maiores metáforas existenciais que, indubitavelmente, simboliza o nosso ser ambivalente com todo o seu corolário de afetos contraditórios?

Sofreremos muito enquanto não atentarmos para essa grande verdade: a de que as faces da PEDRA que habita em nós, jamais poderão estar do mesmo lado. Esta pedra tem faces que apontam para cima, para baixo e para as laterais. O grande espinho na nossa carne é o não querer carregar esta cruz de muitos lados.


“E foi me dado um espinho na carne [...] afim de não me exaltar” (II Coríntios 12: 7)

Ensaio por: Levi B. Santos
Fonte: [ Ensaios & Prosas ]

.