O Evangelho de Satanás

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O evangelho de Satanás não é um sistema de princípios revolucionários, nem ainda é um programa de anarquia. Ele não promove a luta e a guerra, mas objetiva a paz e a unidade. Ele não busca colocar a mãe contra sua filha, nem o pai contra seu filho, mas busca nutrir o espírito de fraternidade, por meio do qual a raça humana deve ser considerada como uma grande "irmandade". Ele não procura deprimir o homem natural, mas aperfeiçoá-lo e erguê-lo. Ele advoga a educação e a cultura e apela para "o melhor que está em nosso interior" - Ele objetiva fazer deste mundo uma habitação tão confortável e apropriada, que a ausência de Cristo não seria sentida, e Deus não seria necessário. Ele se esforça para deixar o homem tão ocupado com este mundo, que não tem tempo ou disposição para pensar no mundo que está por vir. Ele propaga os princípios do auto-sacrifício, da caridade, e da boa-vontade, e nos ensina a viver para o bem dos outros, e a sermos gentis para com todos. Ele tem um forte apelo para a mente carnal, e é popular com as massas, porque deixa de lado o fato gravíssimo de que, por natureza, o homem é uma criatura caída, apartada da vida com Deus, e morta em ofensas e pecados, e que sua única esperança reside em nascer novamente. 

Contradizendo o Evangelho de Cristo, o evangelho de Satanás ensina a salvação pelas obras. Ele inculca a justificação diante de Deus em termos de méritos humanos. Sua frase sacramental é "Seja bom e faça o bem"; mas ele deixa de reconhecer que lá na carne não reside nenhuma boa coisa. Ele anuncia a salvação pelo caráter, o que inverte a ordem da Palavra de Deus - o caráter como fruto da salvação. São muitas as suas várias ramificações e organizações: Temperança, Movimentos de Restauração, Ligas Socialistas Cristãs, Sociedades de Cultura Ética, Congresso da Paz estão todos empenhados (talvez inconscientemente) em proclamar o evangelho de Satanás - a salvação pelas obras. O cartão da seguridade social substitui Cristo: pureza social substitui regeneração individual, e, política e filosofia substituem doutrina e santidade. A melhoria do velho homem é considerada mais prática que a criação de um novo homem em Cristo Jesus; enquanto a paz universal é buscada sem que haja a intervenção e o retorno do Príncipe da Paz.

Os apóstolos de Satanás não são taberneiros e traficantes de escravas brancas, mas são em sua maioria ministros do evangelho ordenados. Milhares dos que ocupam nossos modernos púlpitos não estão mais engajados em apresentar os fundamentos da Fé Cristã, mas têm se desviado da Verdade e têm dado ouvidos às fábulas. Ao invés de magnificar a enormidade do pecado e estabelecer suas eternas consequências, o minimizam ao declarar que o pecado é meramente ignorância ou ausência do bem. Ao invés de alertar seus ouvintes para "escapar da ira futura", fazem de Deus um mentiroso ao declarar que Ele é por demais amoroso e misericordioso para enviar quaisquer de Suas próprias criaturas ao tormento eterno. Ao invés de declarar que "sem derramamento de sangue não há remissão", eles meramente apresentam Cristo como o grande Exemplo e exortam seus ouvintes a "seguir os Seus passos". Deles é preciso que seja dito: "Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus" (Rm 10:3). A mensagem deles pode soar muito plausível e seu objetivo parece muito louvável, mas, ainda sobre eles nós lemos: "Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras" (2 Co 11:13-15).

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Autor: Arthur W. Pink (1886-1952)
Fonte: www.pbministries.org
Tradução: Pr. Walter Campelo
Via: Jornal Reforma Hoje, 2ª edição 2012, página 03.
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Culto Familiar

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Existem algumas ordenanças exteriores e meios de graça muito importantes que estão nitidamente implícitos na Palavra de Deus – mas para a prática destes nós temos pouco, quando algum, direcionamento e preceitos positivos; mas, nos é dado a obtê-los a partir do exemplo de homens santos e a partir de diversas circunstâncias secundárias. Uma importante finalidade é respondida por este arranjo: desta forma é feito o julgamento do estado de nossos corações. Isto serve para fazer evidente, se por um comando expresso não possa ser exigido o seu cumprimento, cristãos professos negligenciarão um dever claramente implícito. Deste modo, mais do estado real de nossas mentes é revelado, e isto torna manifesto se temos ou não um amor ardente a Deus e ao Seu serviço. Isto se aplica tanto ao culto público quanto ao familiar. Ainda assim, não é de todo difícil comprovar a obrigação da piedade doméstica.

Primeiro considere o exemplo de Abraão, o pai da fé e o amigo de Deus. Foi através de sua piedade doméstica que ele recebeu a bênção do próprio Jeová, “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo” (Gênesis 18:19). O patriarca nisto foi elogiado, por instruir seus filhos e servos nos mais importantes de todos os deveres, “o caminho do SENHOR” – a verdade sobre a Sua Gloriosa Pessoa, Seu direito Supremo sobre nós, o que Ele exige de nós. Observem bem as palavras “para que [ele] ordene”, ou seja, ele usaria a autoridade que Deus lhe dera como pai e cabeça de sua casa, para aplicar os deveres da piedade familiar. Abraão também orou com, bem como instruiu a sua família – Aonde quer que fixasse a sua tenda, ali ele “edificou um altar ao Senhor” (Gênesis 12:7; 13:4). Agora, meus leitores, bem podemos perguntar-nos, somos nós a “descendência de Abraão” (Gálatas 3:29) – se nós “não fazemos as obras de Abraão” (João 8:39) e negligenciamos o importante dever do culto em família?

Os exemplos de outros homens santos são semelhantes ao de Abraão. Considere a piedosa determinação de Josué, que declarou a Israel, “porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15). Nem mesmo a elevada posição que ocupava, nem a urgência dos deveres públicos que o pressionavam, distraíram sua atenção do bem-estar espiritual de sua família. Novamente, quando Davi trouxe de volta a arca de Deus para Jerusalém com júbilo e ações de graça, depois do exercício dos seus deveres públicos, ele voltou “para abençoar a sua casa” (2 Samuel 6:20). Além destes eminentes exemplos, podemos citar os casos de Jó (1:5) e de Daniel (6:10). Limitando-nos à somente um [caso] do Novo Testamento, lembramos da história de Timóteo, que foi criado em um lar piedoso. Paulo trouxe à memória a “fé sincera” que havia nele, e acrescentou: “a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice”. Há aqui uma admiração tal que o apóstolo poderia dizer “E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras” (2 Timóteo 3:15)!

Derrama a tua indignação sobre as nações que não te conhecem e sobre os povos que não invocam o teu nome!” Jeremias 10:25. Nós imaginamos quantos de nossos leitores tem ponderado seriamente nestas temíveis palavras! Observem que terríveis ameaças são pronunciadas contra aqueles que negligenciam o culto familiar! Quão inefavelmente grave é descobrir que as famílias que não oram são aqui comparadas aos pagãos, que não conhecem ao SENHOR. Mas, isto não deve nos surpreender. Por que, existem muitas famílias pagãs que se reúnem em adoração aos seus falsos deuses. E eles não envergonham milhares de cristãos professos?

Quão ruidosamente estas palavras deveriam falar a nós. Não é suficiente que oremos individualmente em nossos quartos; também é exigido de nós que honremos a Deus em nossas famílias. A cada dia, todos os familiares devem estar congregados juntos para curvarem-se diante do Senhor – para confessar seus pecados, para dar ações de Graças pelas Misericórdias Divinas, para clamar por Seu auxílio e bênção. Nada deve ser permitido interferir neste dever: todos os demais compromissos domésticos devem ser submetidos a este. O chefe da família deve ser aquele que dirige as devoções – mas se ele estiver ausente – ou gravemente enfermo – ou se não for convertido, então a esposa pode substituí-lo. Sob nenhuma circunstância o culto familiar deve ser omitido. Se pretendemos desfrutar das bênçãos de Deus sobre nossa família – então, façamos com que os membros reúnam-se diariamente para louvar e orar. “Honrarei aqueles que me honram” é a Sua promessa.

Um antigo escritor bem disse, “Uma família sem oração é como uma casa sem telhado, aberta e exposta a todas as tempestades.” Todo o nosso conforto doméstico e misericórdias temporais, emanam da Benignidade do SENHOR. O melhor que podemos fazer em retribuição, é reconhecer agradecidos juntos, Sua bondade para com a nossa família. Desculpas contra o cumprimento deste dever sagrado – são indolentes e inúteis. De que servirá, quando nós prestarmos contas a Deus quanto à mordomia de nossas famílias – dizer que nós não tínhamos tempo disponível, trabalhando muito da manhã até a noite? Quanto mais urgentes são os nossos deveres temporais – maior é a nossa necessidade de buscar auxílio espiritual. Nem tão pouco cristão algum pode alegar que não estava capacitado para tal serviço – dons e talentos são desenvolvidos pelo uso – e não pela negligência.

O culto familiar deve ser realizado reverente, sincera e simplificadamente. Para que então, os pequeninos recebam as suas primeiras impressões e formem a sua concepção inicial a respeito do Senhor Deus.

Precisa-se ter grande cuidado para não dar a eles uma falsa ideia sobre o Caráter Divino, e para isto, deve-se preservar o equilíbrio ao comunicar sobre a Sua Transcendência e imanência, Sua Santidade e Sua Misericórdia, Seu Poder e Sua Ternura, Sua Justiça e Sua Graça. O culto pode ser iniciado com breves palavras de oração invocando a Presença e bênção de Deus. Pode-se seguir com uma pequena passagem da Sua Palavra, com breves comentários sobre a mesma. Dois ou três versos de um Salmo ou hino podem ser cantados. Encerra-se com uma oração de entrega nas Mãos de Deus. Ainda que possamos não ser capazes de orar com eloquência, podemos orar sinceramente. As orações breves são as que geralmente prevalecem. Cuidado para não cansar os mais jovens.

As vantagens e bênçãos do culto familiar são incontáveis.

Primeiro, o culto em família prevenirá muitos pecados. Ele gera temor na alma, transmite um senso da majestade e autoridade de Deus, determina solenes verdades diante da mente, e derrama bênçãos de Deus sobre o lar. Piedade pessoal no lar é um meio mais influente, abaixo de Deus, para estimular a piedade aos pequenos. Crianças são, em grande parte, criaturas de imitação, dedicando-se a copiar o que observam nos outros.

Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos.” (Salmo 78:5-7).

Atualmente, quanto das terríveis condições moral e espiritual das multidões, poderiam ser provenientes da negligência de seus pais neste dever? Como estes que negligenciam o culto a Deus em suas famílias – esperam por paz e conforto nelas? Oração diária em casa é um abençoado meio de graça para dissipar aquelas tristes corrupções das quais nossa ordinária natureza é sujeita.

Finalmente, a oração em família obtém para nós a presença e a bênção do Senhor. Aí está uma promessa de Sua Presença que é particularmente aplicável a este dever, “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.” Mateus 18:20. Muitos têm encontrado no culto familiar, aquele auxílio e comunhão com Deus os quais eles têm buscado, com menor eficácia, na oração particular.

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Autor: A. W. Pink
Fonte: Eternal Life Ministries
Tradução: Camila Rebeca Almeida
Revisão: William teixeira
Via: O Estandarte de Cristo

O Blog Bereianos recomenda o site O Estandarte de Cristo, o qual disponibiliza periodicamente excelentes artigos traduzidos de autores clássicos reformados. Inclusive este artigo de A.W. Pink você poderá baixar gratuitamente em PDF aqui!
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O Significado de “Kosmos” em João 3:16



Por Arthur W. Pink


Pode parecer para alguns de nossos leitores que a exposição que demos de João 3:16 no capítulo sobre “Dificuldades e Objeções” é forçada e não natural, na medida em que nossa definição do termo “mundo” parece estar fora de harmonia com o significado e escopo desta palavra em outras passagens, onde, fornecer o mundo de crentes (os eleitos de Deus) como uma definição de “mundo” parece não fazer sentido. Muitos têm nos dito: “Certamente, ‘mundo’ significa mundo, isto é, você, eu, e cada pessoa”. Em resposta dizemos: Nós sabemos por experiência quão difícil é pôr de lado as “tradições de homens” e chegar a uma passagem que temos ouvido explanada de um certo modo muitas vezes, e nós mesmos estudá-la cuidadosamente sem preconceito. Todavia, isto é essencial se desejarmos aprender a mente de Deus.

Muitas pessoas supõem que elas já conhecem o simples significado de João 3:16 e, portanto, concluem que nenhum estudo diligente é requerido delas para descobrir o ensino preciso deste verso. É desnecessário dizer, que tal atitude impede a entrada de qualquer luz adicional que de outra forma eles poderiam obter sobre a passagem. Além disso, se alguém pegar uma Concordância e ler cuidadosamente as várias passagens nas quais o termo “mundo” (como uma tradução de “kosmos”) ocorre, ela rapidamente perceberá que para se averiguar o preciso significado da palavra “mundo” em qualquer passagem, não será nem um pouco fácil como é popularmente suposto. A palavra “kosmos”, e seu equivalente em português “mundo”, não é usada com um significado uniforme no Novo Testamento. Extremamente longe disso. Ela é usada em um número de formas absolutamente diferentes. Abaixo nos referiremos a algumas poucas passagens onde este termo ocorre, sugerindo uma tentativa de definição em cada caso:

"Kosmos" é usado para definir o Universo como um todo: Atos 17:24 – “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra”.

"Kosmos" é usado para definir a terra: João 13:1; Efésios 1:4, etc., etc.- Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. “Passar deste mundo” significa, deixar esta terra. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”, Esta expressão significa, antes da terra ser fundada – compare Jó 38:4, etc.

"Kosmos" é usado para definir o sistema mundial: João 12:31, etc. “Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo” – compare Mateus 4:8 e 1 João 5:19.

"Kosmos" é usado para definir toda a raça humana: Romanos 3:19, etc. – “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”.

"Kosmos" é usado para definir a humanidade menos os crentes: João 15:18, Romanos 3:6. “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim”. Os crentes não “odeiam” a Cristo, de forma que “o mundo” aqui deve significar o mundo de descrentes em contraste com os crentes que amam a Cristo. “De maneira nenhuma! Doutro modo, como julgará Deus o mundo?”. Aqui é outra passagem onde “o mundo” não pode significar “você, eu, e cada pessoa”, porque os crentes não serão “julgados” por Deus, ver João 5:24. De forma que aqui, também, deve ser o mundo de descrentes que está em vista.

"Kosmos" é usado para definir os Gentios em contraste com os Judeus: Romanos 11:12, etc. “E, se a sua (Israel) queda é a riqueza do mundo, e a sua (Israel) diminuição, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude (de Israel)!”. Note como a primeira cláusula em negrito é definida pela última cláusula colocada em negrito. Aqui, novamente, “o mundo” não pode significar toda a humanidade porque ele exclui Israel!

"Kosmos" é usado para definir somente os crentes: João 1:29; 3:16,17; 6:33; 12:47; 1 Coríntios 4:9; 2 Coríntios 5:19. Nós deixaremos nossos leitores se voltarem para estas passagens, pedido-lhes notar, cuidadosamente, exatamente o que é dito e relacionado com “o mundo” em cada lugar.

Assim, pode ser visto que "Kosmos" tem pelo menos sete significados diferentes claramente definidos no Novo Testamento. Pode ser perguntado: Deus tem usado então uma palavra assim para confundir e embaraçar aqueles que leem as Escrituras? Nós respondemos: Não! nem tem Ele escrito Sua Palavra para pessoas preguiçosas que são tão negligentes, ou tão ocupadas com as coisas deste mundo, ou, como Marta, tão ocupadas em “servir”, que não têm tempo e nem coração para “examinar” e “estudar” as Escrituras Sagradas! Poderia ser ainda perguntado: Mas como é que um examinador das Escrituras sabe qual dos significados acima o termo “mundo” tem em alguma determinada passagem? A resposta é: Isto pode ser averiguado por um estudo cuidadoso do contexto, diligentemente notando qual é a relação de “o mundo” em cada passagem, e em total oração consultando outras passagens paralelas àquela que está sendo estudada. O principal assunto de João 3:16 é Cristo como o Dom de Deus. A primeira cláusula nos diz que Deus foi movido a “dar” Seu Filho unigênito, e isto por Seu grande “amor”; a segunda cláusula nos informa para quem Deus “deu” Seu Filho, e é para “todo aquele (ou, melhor, ‘cada um’) que crê”; enquanto a última cláusula faz conhecido porque Deus “deu” Seu Filho (Seu propósito), e isto é para que todo aquele que crê “não pereça mas tenha a vida eterna”. Que “o mundo” em João 3:16 refere-se ao mundo de crentes (os eleitos de Deus), em distinção com “o mundo dos ímpios” (2 Pedro 2:5), é estabelecido, inequivocadamente estabelecido, por uma comparação com outras passagens que falam do “amor” de Deus. ”Mas Deus prova o seu amor para CONOSCO” – os santos, Romanos 5:8. ”Porque o Senhor corrige o que ama” – todo filho, Hebreus 12:6. “Nós o amamos porque ele NOS amou primeiro” – os crentes, 1 João 4:19. Do ímpio Deus tem “piedade” (ver Mateus 18:33). Para os ingratos e maus Ele é “bom” (ver Lucas 6:35). Os vasos de ira Deus suporta “com muita paciência” (ver Romanos 9:22). Mas “os Seus”, Deus “ama”!

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Nota do tradutor: O presente artigo é um dos apêndices (o terceiro) do excelente livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink. Este livro foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”. Contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação” e nenhum dos quatro apêndices, os quais podem ambos ser lidos aqui no site Monergismo.com.

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Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Monergismo
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O Quarto Mandamento



Por Arthur W. Pink


“Lembra-te do dia de Sábado (Shabbath),[1] para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os seus trabalhos, mas o sétimo dia é o Sábado (Shabbath) dedicado ao SENHOR, teu Deus, nesse dia não farás trabalho algum” (Ex 20:8- 10). Esse mandamento denota que Deus é o SENHOR soberano do nosso tempo, o qual deve ser usado e aproveitado por nós exatamente como Ele aqui especificou. Deve ser cuidadosamente notado que ele consiste de duas partes, que estão interligadas. “Seis dias trabalharás (e não ‘poderás trabalhar’)” é tão divinamente exigido de nós quanto “lembra-te do dia do Shabbath para o santificares”. É um preceito que requer de nós diligência para cumprir aquela vocação e estado de vida na qual a divina providência nos colocou, para desempenhar seus ofícios com cuidado e consciência. 

A vontade revelada de Deus é que o homem trabalhe, não passe o seu tempo a toa; que ele trabalhe não cinco dias na semana (por isso organizou o trabalho antes agitado), mas seis. Aquele que nunca trabalha está incapacitado para a adoração. O trabalho serve para abrir caminho para a adoração, assim como a adoração nos prepara para o trabalho. O fato que qualquer homem possa escapar à observância desta primeira metade do mandamento é uma triste reflexão sobre a nossa ordem social moderna, e mostra quão longe nos distanciamos do plano e ideal divino. Quanto mais diligentes e fiéis formos ao desempenhar os deveres dos seis dias, mais valorizaremos o descanso do sétimo. Assim será visto que a indicação do Shabbath não foi qualquer restrição arbitrária sobre a liberdade do homem, mas uma provisão misericordiosa para o seu bem: que ele foi planejado como um dia de alegria e não de melancolia. É a dispensa graciosa do Criador  nos livrando da nossa vida de labuta mundana por um dia em sete, concedendo-nos um antegozo daquela vida futura e melhor  diante da qual a presente não é mais que uma provação, quando podemos nos voltar inteiramente daquilo que é material para aquilo que é espiritual e, portanto, sermos equipados para pegar com nova consagração e renovadas energias o trabalho dos dias seguintes.

Deveria ser assim bastante evidente que essa lei para regulamentação do tempo do homem não era uma lei temporária, criada para alguma dispensação, mas é contínua e perpétua no propósito de Deus: o Shabbath foi feito “para o homem” (Marcos 2:27) e não simplesmente para o judeu; ele foi feito para o bem do homem. O que foi mostrado acima sobre as duas partes desse estatuto divino recebe clara e irrefutável confirmação na razão dada para o seu reforço: “pois em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, o mar e tudo que neles existe, mas no sétimo dia descansou” (v. 11). Observe bem o duplo desdobramento disso: o augusto Criador dignou-se em apresentar um exemplo diante de Suas criaturas em cada aspecto: ELE trabalhou por “seis dias”, e Ele “descansou no sétimo dia”! Dever- se-ia também ser apontado que a indicação do trabalho para o homem não é a consequência do pecado: antes da Queda, Deus o colocou “no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gn. 2:15).

A permanente natureza ou perpetuidade desse duplo mandamento é também evidenciada pelo fato que nas razões acima mencionadas para seu reforço nada havia que fosse particularmente pertinente à nação de Israel, pelo contrário, fala com voz de trombeta a toda a raça humana. Além disso, a esse  estatuto não foi dado um lugar na lei cerimonial de Israel, que era para ser deixada quando Cristo tivesse dado cumprimento aos seus tipos, mas na Lei Moral, que foi escrita pelos dedos do próprio Deus sobre tábuas de pedra, para nos dar o significado de sua natureza permanente. Finalmente, deve-se mostrar que os próprios termos desse mandamento deixam inequivocamente claro que ele não foi designado somente para os judeus, pois era igualmente obrigatório para qualquer gentio que habitasse entre eles. Mesmo não estando eles em aliança com Deus, nem debaixo da lei cerimonial, deles era exigido que guardassem o santo Shabbath – não farás trabalho algum… nem os estrangeiros que morarem em suas cidades” (v. 10)!

O sétimo dia é o Shabbath do SENHOR  teu Deus”. Note bem que não é dito (aqui, ou em qualquer outro lugar das Escrituras) “o sétimo dia da semana”, mas simplesmente “o sétimo dia”, ou seja, o dia seguinte aos seis de trabalho. Para os judeus era o sétimo dia da semana, a saber, o sábado, mas para nós ele é – como o “outro dia” que Hebreus 4:8 claramente declara – o primeiro dia da semana, porque o Shabbath não apenas comemora a obra da criação, mas agora também celebra a ainda maior obra da redenção. Assim, o SENHOR dispôs as palavras nesse quarto mandamento de modo a se ajustarem a ambas as dispensações, e desse modo afirmar a sua perpetuidade. O Shabbath cristão vai da meia noite de sábado à meia noite de domingo: está claro a partir de João 20:1 que ele começa antes do nascer do sol e, portanto, podemos concluir que começa na meia noite de sábado; enquanto de João 20:19 aprendemos (a partir do fato que ele não é ali chamado “a noite do segundo dia”) que durante a noite, e que a nossa adoração também deve continuar.

Mas embora o Shabbath cristão não comece até a meia noite de sábado, a nossa preparação para ele deve começar mais cedo, ou de que outra maneira poderemos obedecer sua exigência expressa: “nele nem uma obra farás”? No Shabbath deve haver um completo descanso durante todo o dia, não apenas de recreações naturais e de fazer o nosso próprio prazer (Is 58:13), mas de toda a atividade mundana. A esposa necessita de um dia de descanso tanto quanto o marido, sim, sendo a “parte mais fraca”, ainda mais. Coisas tais como mingau e sopa podem ser preparadas no sábado e aquecidas no Shabbath, de modo que possamos estar inteiramente livres para nos deleitarmos no SENHOR e nos entregar completamente à Sua adoração e serviço. Vejamos que não trabalhemos nem fiquemos acordados até tarde na noite de sábado, para não transgredirmos o dia do SENHOR ficando até tarde na cama ou nos fazendo de sonolentos para os santos deveres.

Esse mandamento deixa claro que Deus deve ser adorado no lar, o que, sem dúvida, inculca a prática do culto doméstico. Ele é dirigido mais especificamente que qualquer dos outros nove mandamentos aos chefes de famílias e empregadores, porque Deus requer que eles vejam que todos que estão sob seu encargo observem o Shabbath. Para eles, mais imediatamente Deus diz: “lembra-te do Shabbath para o santificares”. Ele é para ser estritamente posto de lado para a honra do Deus três vezes santo, gasto no exercício de santa contemplação, meditação e adoração. Porque é o dia que Ele fez (Sl. 118:24), não podemos fazer nada para desfazê-lo. Esse mandamento proíbe a omissão de qualquer dever exigido, um desempenho descuidado do mesmo, ou enfado neles. Quanto mais fielmente guardarmos esse mandamento, mais preparados estaremos para obedecer aos outros nove.

Três classes de trabalho, e somente três, podem se encaixar no “Shabbath Santo”. Trabalhos de necessidade, que são aqueles que não poderiam ter sido feitos no dia anterior e que não podem ser relegados para o dia seguinte – tais como cuidar do gado. Trabalhos de misericórdia, que são aqueles que a compaixão requer que desempenhemos para com outras criaturas – tais como ministrar aos doentes. Trabalhos de piedade, que são o culto a Deus em público e em privado. Precisamos vigiar e lutar contra as primeiríssimas sugestões de Satã para corromper os nossos corações, desviar as nossas mentes ou nos perturbar nos deveres sagrados, pedindo sinceramente em oração por ajuda para meditar sobre a palavra de Deus para reter o que Ele nos dá. O SENHOR faz a sagrada observância do Seu Dia de benção especial; e contrariamente, Ele visita a profanação do Shabbath com especial maldição (veja Ne. 13:17-18), como a nossa terra culpada está provando agora do seu amargo custo.

“Um Shabbath bem gasto, traz uma semana contente E fortalece para os labores do amanhã; Mas um Shabbath profanado, o que quer que possa ser ganho É um certo precursor de desgraça”.

[1] Shabbath (hebraico) significa “descanso do labor”. Essa é a palavra que é traduzida como sábado no Antigo Testamento, nas nossas versões da Bíblia em português (por exemplo, Ex. 16:23, 25, 26, 29; Ex. 20:8, 10, 11; Ex. 31:14-16, etc.). A versão do autor traz o original Shabbath ao invés de Saturday (sábado em inglês), evitando assim possíveis confusões por parte do leitor. (N. do R.

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Fonte: Extraído e traduzido do excelente livro The Tem Commandments, de Arthur Walkington Pink.
Tradução: Claudino Batista Marra
Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto 
Via: Monergismo
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A Vontade de Deus

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Por Arthur W. Pink


Ao tratar da Vontade de Deus alguns teólogos têm diferenciado entre Sua vontade decretiva e Sua vontade permissiva, insistindo que há certas coisas que Deus tem positivamente pré-ordenado, mas outras coisas que Ele meramente tolera existir ou acontecer. Mas tal distinção não é uma distinção de maneira alguma, na medida em que Deus somente permite o que está de acordo com Sua vontade. Nenhuma distinção teria sido inventada, tivesse esses teólogos discernido que Deus pode ter decretado a existência e atividades do pecado sem Ele mesmo ser o Autor do pecado. Pessoalmente, nós preferimos adotar a distinção feita pelos antigos Calvinistas entre a vontade secreta e revelada de Deus, ou, para expressar de uma outra forma, Sua vontade dispositiva e preceptiva.

A vontade revelado de Deus é feita conhecida em Sua Palavra, mas Sua vontade secreta são Seus próprios conselhos encobertos. A vontade revelada de Deus é o definidor de nosso dever e o padrão de nossa responsabilidade. A primária e básica razão pela qual eu devo seguir certo curso ou fazer certa coisa é por causa da vontade de Deus, a Sua vontade sendo claramente definida para mim em Sua Palavra. Que eu não deveria seguir um certo curso, que eu devo me abster de fazer certas coisas, é porque elas são contrárias à vontade revelada de Deus. Mas suponha que eu desobedeça a Palavra de Deus, então, eu não contrario Sua vontade? E se é assim, como pode ainda ser verdade que a vontade de Deus sempre é feita e Seu conselho consumado todas as vezes? Tais questões fazem evidente a necessidade de se defender uma distinção aqui. A vontade revelada de Deus é frequentemente contrariada, mas Sua vontade secreta nunca é frustrada. Que é legítimo fazermos tal distinção concernente à vontade de Deus, é clara a partir das Escrituras. Tome esta duas passagens: "Porque esta é a vontade de Deus, a saber, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição" (1 Tessalonicenses 4:3); "Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?" (Romanos 9:19). Pode um leitor pensativo declara que a "vontade" de Deus tem precisamente o mesmo significado em ambas dessas passagens? Nós seguramente esperamos que não. A primeira passagem refere-se à vontade revelada de Deus, a última à Sua vontade secreta. A primeira passagem concerne a nosso dever, a última declara que o propósito secreto de Deus é imutável e deve acontecer não obstante a insubordinação das Suas criaturas. A vontade revelada de Deus nunca é perfeitamente ou completamente realizada por alguém de nós, mas Sua vontade secreta nunca falha na consumação até mesmo no mais minucioso detalhe. Sua vontade secreta concerne principalmente a eventos futuros; Sua vontade revelada, nosso dever presente: uma tem que ver com Seu irresistível propósito, o outro com Seu agrado manifestado: uma é elaborada sobre nós e realizada através de nós, a outra é para feita por nós.


A vontade secreta de Deus é Seu eterno, imutável propósito concernente a todas as coisas que Ele fez, para produzir certos meios para seus fins apontados: disto Deus declara explicitamente: "Meu conselho subsistirá, e farei toda Minha vontade" (Isaías 46:10). Esta é a absoluta, eficaz vontade de Deus, sempre efetuada, sempre realizada. A vontade revelada de Deus contêm não Seu propósito e decreto, mas nosso dever, - não o que Ele fará de acordo com Seu eterno conselho, mas o que nós deveríamos faze se quiséssemos agradá-LO, e isto é expresso nos preceitos e promessas de Sua Palavra. O que quer que Deus tenha determinado consigo mesmo, seja para Ele próprio fazer, ou para fazer pelos outros, ou tolerar que seja feito, enquanto isto está em Seu próprio seio, e não foi feito conhecido por algum evento na providência, ou por preceito, ou por profecia, é Sua vontade secreta. Tais são as coisas profundas de Deus, os pensamentos de Seu coração, os conselhos de Sua mente, que são impenetráveis para todas criaturas. Mas quando estas coisas são feitas conhecidas, elas tornam-se Sua vontade revelada: tal é quase todo o livro do Apocalipse, no qual Deus tem feito conhecido a nós "coisas que brevemente devem acontecer" (Apocalipse 1:1 - "deve" porque Ele eternamente propôs que deveriam acontecer).

Tem sido objetado pelos teólogos Arminianos que a divisão da vontade de Deus em secreta e revelada é insustentável, pois ela faz com que Deus tenha duas vontades diferentes, uma oposta a outra. Mas isto é um engano, devido a falha deles em ver que a vontade secreta e revelada de Deus dizem respeito a objetos inteiramente diferentes. Se Deus requeresse e proibisse a coisa, ou se Ele decretasse que a mesma coisa aconteceria ou não, então Sua vontade secreta e revelada seria contraditória e sem propósito. Se aqueles que objetam à vontade secreta e revelada de Deus como sendo inconsistentes, fizessem a mesma distinção neste caso que eles fazem em muitos outros casos, a aparente inconsistência imediatamente desapareceria. Quão frequentemente os homens traçam uma astuta distinção entre o que é desejável em sua própria natureza, e o que não é desejável considerando todas as coisas. Por exemplo, o pai carinhoso não deseja simplesmente considerar punir seu filho ofensivo, mas, considerando todas as coisas, ele sabe que este é o seu dever obrigatório, e assim corrige seu filho. E embora ele conte ao seu filho que ele não deseja castigá-lo, mas que ele está certo que isto é o melhor ao fazer considerando todas as coisas, então um filho inteligente verá que não há inconsistência entre o que o pai diz e faz. Exatamente assim o Criador Todo-sábio pode consistentemente decretar acontecer coisas que Ele odeia, proibir e condenar. Deus escolhe que algumas coisas existem que Ele odeia completamente (na intrínseca natureza delas), e Ele também escolhe que algumas coisas, todavia não existam, as quais Ele ama perfeitamente (na intrínseca natureza delas). Por exemplo: Ele ordenou que Faraó deixasse Seu povo ir, porque isso era justo na natureza das coisas, todavia, Ele secretamente havia declarado que Faraó não deveria deixar o Seu povo ir, não porque era justo em Faraó recusar, mas porque era melhor considerando todas as coisas que ele não os deixasse ir - isto é, melhor porque favoreceu um propósito mais amplo de Deus.

Novamente; Deus nos manda sermos perfeitamente santos nesta vida (Mateus 5:48), porque isto é justo na natureza das coisas, mas Ele decretou que nenhum homem será perfeitamente santo nesta vida, porque é melhor, considerando todas as coisas, que ninguém seja perfeitamente santo (experimentalmente) antes de deixar este mundo. Santidade é uma coisa, o acontecimento da santidade é outra; assim, pecado é uma coisa, o acontecimento do pecado é outra. Quando Deus requer santidade, Sua vontade preceptiva ou revelada considera a natureza ou excelência moral da santidade; mas quando Ele decreta que a santidade não ocorra (completa e perfeitamente), Sua vontade secreta ou decretiva considera somente o evento de que ela não ocorre. Assim, novamente, quando Deus proíbe o pecado, Sua vontade preceptiva ou revelada considera somente a natureza ou o mal moral do pecado; mas quando Ele decreta que o pecado ocorrerá, Sua vontade secreta considera somente sua real ocorrência para servir o Seu bom propósito. Portanto, a vontade secreta e revelada de Deus considera objetos inteiramente diferentes.

A vontade do decreto de Deus não é a Sua vontade no mesmo sentido como Sua vontade de mandamento é. Portanto, não há dificuldade em supor que uma possa ser contrária à outra. Sua vontade, em ambos sentidos, é Sua inclinação. Tudo que concerne a Sua vontade revelada é perfeitamente de acordo com Sua natureza, como quando Ele ordena amor, obediência, e serviço de Suas criaturas. Mas o que concerne a Sua vontade secreta tem em vista Seu fim supremo, para o qual todas as coisas estão agora operando. Portanto, Ele decreta a entrada de pecado no Seu universo, embora Sua própria natureza santa odeie todo pecado com infinita repulsa, todavia, porque este é um dos meios pelos quais Ele apontou o fim para ser alcançado, Ele tolera a entrada dele. A vontade revelada de Deus é a medida de nossa responsabilidade e o determinante de nosso dever. Com a vontade secreta de Deus nós não temos nada para fazer: esta é de Sua incumbência. Mas Deus, sabendo que falharemos em fazer perfeitamente Sua vontade revelada, ordenou Seus eternos conselhos consequentemente, e estes eternos conselhos, que aconteça Sua vontade secreta, embora desconhecida para nós, embora inconscientemente, cumprida em e através de nós.

Se o leitor está preparado ou não para aceitar a distinção acima na vontade de Deus, ele deve reconhecer que os mandamentos das Escrituras declaram a vontade revelada de Deus, e ele deve também aceitar que algumas vezes Deus não quer impedir a quebra daqueles mandamentos, porque Ele na realidade não o impede. Que Deus quer permitir o pecado é evidente, porque Ele o permite. Certamente ninguém dirá que o próprio Deus faz o que Ele não quer fazer.

Finalmente, deixe-me dizer novamente que, minha responsabilidade em relação à vontade de Deus é medida pelo que Ele fez conhecido na Sua Palavra. Ali eu aprendo que é meu dever usar os meios de Sua providência, e humildemente orar para que Ele possa Se agradar em abençoá-los para mim. Recusar assim fazer sobre o fundamente de que eu sou ignorante do que possa ou não possa ser Seus conselhos secretos concernentes a mim, não somente é um absurdo, mas também o ápice da presunção. Nós repetimos: a vontade secreta de Deus não nos diz respeito; é Sua vontade revelada que mede nossa responsabilidade. Que não há conflito entre a vontade secreta e revelada de Deus é claro a partir do fato que, a primeira é realizada pelo meu uso dos meios registrados na última.

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Fonte: Monergismo     
Tradução:
Felipe Sabino

Nota do Tradutor: O presente artigo é um dos apêndices (o quarto) do excelente livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink. Este livro foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”. Contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação” e nenhum dos quatro apêndices, os quais podem ambos ser lidos aqui no site Monergismo.com.
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O dever de pregar o Evangelho.

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Por Arthur W Pink


Existem aqueles que representam erroneamente a doutrina da eleição desta maneira:

- "Aqui estou eu, sentado à mesa com minha família para o café. É uma noite fria de inverno e lá fora na rua estão alguns pobres mendigos famintos e crianças." 

Eles vêm, batem na porta e dizem:

- "Nós estamos com tanta fome Senhor. Oh, nós estamos com tanta fome e frio, estamos famintos, você não nos daria algo para comer?".
- "Dar à vocês algo para comer? Não! Vocês não pertencem a este lugar, saiam daqui".

Hoje em dia as pessoas dizem que isto é o que eleição significa. Deus serviu o banquete do evangelho e alguns pobres pecadores conscientes de sua profunda necessidade, vêm para Deus e dizem: "Tenha misericórdia de nós"; e o Senhor responde: "Não, vocês não estão entre os Meus eleitos".

Agora meus amigos, este não é o ensino da Escritura, nem sequer algo parecido com isso. Absolutamente, esta é uma falsa representação da verdade de Deus. Eu não acredito em nada semelhante meus amigos, e eu não os insultaria pedindo-lhes que viessem noite após noite para escutar algo similar a isto.

1. Compele-os a Entrar

Então agora, aqui está a verdade. Deus serviu o banquete, mas o fato é que ninguém está com fome, ninguém quer vir para o banquete e todos dão uma desculpa para se manterem longe do banquete. E quando eles são convidados a virem, eles dizem: "Não, nós não queremos" ou "Nós não estamos prontos ainda". Ora, Deus sabia disso desde o princípio, e se Deus não tivesse feito nada além de servir o banquete, cada cadeira à sua mesa ficaria vaga por toda eternidade!

Eu não tenho nenhuma hesitação em dizer que não há nenhum homem ou mulher nesta igreja hoje à noite, se não aqueles que deram desculpas, vez após vez, antes de se achegarem pela primeira vez a Cristo. Vocês são apenas como os outros. Vocês deram desculpas, assim como eu. E se Deus não tivesse feito nada além de servir o banquete, todas as cadeiras estariam vazias; por conta disto, o que vocês lêem na parábola de Lucas 14? Porque o banquete não estava cheio de convidados, Deus enviou Seus "servos". Oh, coloquem seus óculos. Não diz "servos", diz Deus enviou Seu "servo" e ordenou-Lhe que os "compelisse" a entrar, a fim de que Seu banquete estivesse cheio de convidados. Não existe nenhum homem ou mulher nesta igreja nesta noite, ou em nenhuma outra igreja, que algum dia se assentaria às bodas do Cordeiro, a não ser que tenha sido compelido a entrar - compelido por Deus.

Bem - você dirá - o que você quer dizer por "compelir"?

Eu quero dizer que Deus teve que subjugar a resistência da sua vontade. Deus teve que vencer a relutância de seu coração. Deus teve que sobrepujar seu amor pelos prazeres, os quais você amava mais do que a Deus, e seu amor pelas coisas deste mundo, as quais você amava mais do que a Cristo. Eu quero dizer que Deus teve que usar o Seu poder e trazer você.

Se qualquer um de vocês sabe alguma coisa de grego ou tem uma concordância Strong¹, observe o verbo no grego para "trazer" em João 6 verso 44: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia", isto significa "usar violência". Isto significa arrastar à força. Não existe um erudito em grego na face da terra, que possa contestar esta definição - no sentido de sustentá-la com provas. Essa é a mesma palavra do grego que é usada em João 21 quando eles arrastaram a rede para a praia quando cheia de peixes (v. 11). Eles tiveram de puxar com toda a força que tinham porque a rede estava cheia de peixes. Eles tiveram que arrastá-la, sim, meu amigo, e é assim que você foi trazido para Cristo.

Você pode não ter se conscientizado disto. Você pode não ter entendido dentro de si mesmo o que estava acontecendo. Mas cada um de nós era um rebelde contra Deus, lutando contra Cristo e resistindo a Seu Espírito Santo. Deus teve de aplicar força e derrotar esta resistência para trazer-nos aos nossos joelhos. E se qualquer um de vocês contestar esta forte linguagem, então eu estou aqui para te dizer que você não acredita no ensino da Escritura sobre a absoluta depravação do homem.

O homem está perdido, e o homem está morto em delitos e pecados, por natureza. Ouçam, não é simplesmente que o homem está doente e precisa de um pouco de medicamento. Não é simplesmente que o homem é ignorante e precisa de  um pouco de ensino. Não é simplesmente que o homem está fraco e precisa de um pouco de esperança. O homem está morto, morto em seus delitos e pecados, e somente um imenso poder vindo do céu, poderá ressuscitá-lo e trazê-lo da morte para a vida. Este é o evangelho em que eu creio, e eu não prego o evangelho porque eu creio que o pecador tem poder em si mesmo para responder à ele.

Bem - você dirá - então qual é a utilidade da pregação do evangelho se o homem está morto? Qual é a utilidade em pregá-lo?

Eu lhes contarei. Ouçam! Aqui estava um homem com uma mão mirrada, paralisada, e Cristo disse: "Estende a tua mão" - Lc 6v10. Esta era a única coisa que ele não poderia fazer! Cristo disse para ele fazer uma coisa que era impossível em si mesma.

Bem - então você dirá - por que Cristo falou para ele estender a mão?

Porque o poder divino acompanhou a própria palavra que ordenou-lhe fazer isto! Poder divino  tornou isso possível. O homem não poderia ter feito isto por si mesmo. Se você pensa que ele poderia, você está prestes a ir parar no hospício. Eu não me importo quem você seja. Qualquer homem ou mulher aqui, que pensa que este homem era capaz de esticar seu braço paralisado pelo esforço de sua própria vontade, está prestes a ir parar no hospício!

Como pode o paralítico mover-se?

Bem, eu lhes darei algo mais forte do que isto. Vocês precisam de algo forte hoje, vocês precisam mais do que um leite fraco. Vocês necessitam de um alimento forte, um alimento sólido, se de alguma forma vocês querem ser edificados, crescerem e se tornarem fortes no Senhor e na força de Seu poder.

Aqui está um homem que está morto e enterrado, seu corpo já está em decomposição de modo que está cheirando mal. Lá estava ele na sepultura e então alguém veio na entrada da cova e disse: "Lázaro, sai para fora" - Jo 11v43. Se aquela pessoa fosse qualquer outra a não ser o próprio Deus manifestado em carne, ela provavelmente estaria lá até agora chamando: "Sai para fora". Qual, na face da terra, seria a utilidade de falar para um homem morto vir para fora? Nenhuma, a não ser que Aquele que proferisse esta palavra, tivesse o poder para fazer dela uma palavra útil.

Neste momento então meus amigos, eu prego o evangelho para pecadores, não porque o pecador tem algum poder em si mesmo para responder. Até mesmo porque, eu não acredito que algum pecador tenha capacidade em si mesmo. Mas Cristo disse: "As palavras que eu lhes disse são espírito e vida" - Jo 6v63. Pela graça de Deus, eu vou adiante pregando esta Palavra, porque esta é uma palavra de poder, uma palavra do Espírito, uma palavra de vida. O poder não está no pecador, está na Palavra, quando Deus, o Espírito Santo, deseja usá-la. E meus amigos, eu lhes digo com toda a reverência, se Deus me falasse neste Livro para ir e pregar para árvores - Sim Senhor; eu iria!

Deus uma vez disse a um de seus servos para ir e pregar para ossos, e ele foi. Eu me pergunto se você teria ido! Sim, este ato teve uma aplicação local como também uma futura interpretação profética.

2. Pregue o Evangelho a Toda Criatura

Neste momento a questão surge novamente: Por que nós devemos pregar o evangelho para toda criatura, se Deus elegeu apenas um determinado número para ser salvo?

A razão é porque Deus nos ordenou que o fizesse. Bem - você dirá - mas isto não me parece sensato visto que não tenho nada a ver com isso. Sua obrigação é obedecer a Deus e não discutir com Ele. Deus nos ordenou que pregássemos o evangelho a toda criatura, isto significa o que diz - Toda criatura -  e isto é algo sério.

Cada cristão nesta sala hoje à noite, ainda terá que responder a Cristo, o porquê de não ter feito tudo o que estava ao seu alcance para transmitir este evangelho a toda criatura! Sim, eu acredito em missões - provavelmente mais do que a maioria de vocês - e se eu pregasse para vocês sobre missões, provavelmente eu os acertaria com mais força do que eu os acertei até aqui.

A grande maioria do povo de Deus que professa acreditar em missões, está apenas brincando. Eu ouso dizer de nossas denominações evangélicas de hoje em dia, que nós estamos apenas brincando de missões - essa é a verdade. Pense nisto, neste séc. XX, quando viajar é tão fácil e barato, existem bíblias impressas em quase todas as línguas debaixo do céu; por que meus amigos - enquanto nós estamos sentados aqui nesta noite - quase metade da raça humana, nunca ouviu falar de Cristo? E nós  teremos que responder a Cristo por isso também²!

Você terá que responder e eu também. Oh sim, eu acredito na responsabilidade do homem. Eu não acredito no “livre-arbítrio” do homem, mas eu acredito na responsabilidade humana, e na responsabilidade dos cristãos em dobro. Creio que cada um de nós nesta noite, terá de encarar Cristo e olhar para seus olhos como uma chama flamejante e Ele nos dirá: "Eu confiei a você Meu evangelho. Este lhe foi confiado como uma 'responsabilidade' - v. 1 Ts 2v4 - É exigido dos mordomos que cada um se encontre fiel.

Oh meus amigos, nós estamos brincando com as coisas. Nós não temos levado a religião a sério, nenhum de nós. Nós professamos acreditar na vinda de Cristo e professamos acreditar que a razão do porquê Cristo não voltou ainda, é porque Sua igreja, Seu corpo, ainda não está completo. Acreditamos que quando Seu corpo estiver completo Ele voltará. Meus amigos, Seu “corpo” nunca, nunca estará completo até que o último de Seus eleitos seja chamado, e Seus eleitos são chamados por meio da pregação do evangelho, pelo poder do Espírito Santo. Se você verdadeiramente anseia que Cristo volte logo, então você deveria estar mais atento às suas responsabilidades em relação a levar ou transmitir o evangelho aos pagãos!

A palavra de Cristo - e esta é a palavra de Cristo para nós - é “'Ide' por todo o mundo e pregai o evangelho”. Ele não diz: “Envie”. Ele diz: “Ide”. E você terá que responder a Cristo também, o porquê você não foi!

Bem - você dirá - você quer dizer que todos nós aqui, nesta noite, deveríamos ir para o campo missionário?

Eu não disse isso, eu não sou o juiz dos homens. Muitos de vocês aqui, nesta noite, tem uma boa razão que satisfará a Cristo do porquê vocês não foram. Ele lhes deu um trabalho para fazerem aqui. Ele os colocou em uma posição aqui. Ele os deu responsabilidades para serem executadas aqui. Mas cada cristão que é livre para ir, mas não vai, terá que responder à Cristo por isto também.

“Ide por todo o mundo”.

Bem - então você dirá - onde eu devo ir?
- "Oh, isto é muito fácil".
- "Você disse fácil?"
- "Sim, eu quis dizer que é muito fácil!"

Nada é mais fácil no mundo do que saber onde você deve iniciar o trabalho missionário. Você tem esta resposta em Atos 1 verso 8: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, - que é a cidade onde eles estavam - em toda a Judéia - que é o estado onde a cidade se encontrava - e Samaria, - que é o estado vizinho - e até os confins da terra".

Se vocês desejam começar o trabalho missionário, vocês precisam começar em sua cidade³. Meus amigos, se vocês não  estão interessados na salvação dos chineses em Sidney, então vocês realmente não estão interessados na salvação dos chineses na China. E estão apenas enganando a si mesmos se pensam estar! Oh, eu estou dando nome aos bois esta noite.

Se vocês estão aflitos com relação as almas dos chineses na China, então vocês estarão igualmente aflitos com relação aos chineses aqui em Sidney. E eu me pergunto quantos neste prédio hoje, já fizeram algum esforço real para alcançar a China em Sidney com o evangelho.

Então eu me pergunto... Eu me pergunto quantos aqui, nesta noite, tem ido à Casa da Bíblia em Sidney e dito ao gerente: "Você tem algum Novo Testamento em chinês?" ou, "Você tem alguns evangelhos de João em chinês?" "Quanto custa a dúzia? E o cento?" Eu me pergunto quantos de vocês compraram mil ou cem, e então foram até as casas do bairro chinês e disseram: "Meu amigo, este é um pequeno presente que fará bem a sua alma se você lê-lo".

Ah, meus amigos, nós estamos brincando de missões, isso não passa de uma farsa, isso sim!

"Ide" é a primeira ordem.
- "Ir onde?"
- "Àqueles ao meu redor."
- "Ir com o quê?"
- "O evangelho!"

Bem - você dirá - mas por que eu deveria ir?
- "Porque Deus lhe ordenou!"

Bem - você dirá - qual é a utilidade de fazer isso se Ele escolheu apenas alguns?
- "Porque o evangelho é o meio que Deus usa para chamar Seus próprios eleitos. Este é o porquê!"

Você não sabe, eu não sei, ninguém na terra sabe quais são os eleitos de Deus e quais não são. Eles estão espalhados pelo mundo, portanto nós devemos pregar o evangelho para toda criatura, para que o evangelho alcance aqueles que Deus selecionou entre suas criaturas.

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Por Arthur W Pink, em Novembro de 2012.
Traduzido por Thiago McHertt | Original aqui.

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1 João 2:2 - A redenção de Jesus é universal?

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Por Arthur W. Pink


“E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”.

Esta é uma passagem, mais do que qualquer outra, a qual é apelada por aqueles que crêem em uma redenção universal, e que à primeira vista parece ensinar que Cristo morreu por toda a raça humana. Decidimos, então, dar a esta passagem uma detalhada examinação e exposição.

Nossa meditação na ira de Deus.

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Por A. W. Pink


A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que Ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: "...pensavas que (eu) era como tu" (Sl 50:21). Se não nos alegramos "...em memória da sua santidade" (Sl 97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração suma­mente gloriosa da Sua ira, tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda permanecemos em nossos pecados, rumo às chamas eternas. 

"Jubilai, ó nações (gentios), com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança..." (Dt 32:43). E ainda lemos: "E, depois destas coisas, ouvi no céu como "que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia..." (Ap 19:1 -3). Grande será o regozijo dos san­tos naquele dia em que o Senhor irá vindicar a Sua majestade, exercer o Seu domínio formidável, magnificar a Sua justiça, e derribar os orgulhosos rebeldes que ousaram desafiá-lO.

Fonte: Os Atributos de Deus, A. W. Pink.
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Consolo nas aflições, sofrimentos compensados.

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Por A. W. Pink

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”. (Romanos 8:18)

 Ah, alguém diz, que essa passagem deve ter sido escrita por um homem que não conhecia o sofrimento, ou por alguém familiarizado com nada mais do que as leves irritações da vida. Não é isso. Estas palavras foram escritas sob a direção do Espírito Santo, e por alguém que bebeu profundamente do cálice do sofrimento, sim, por alguém que sofreu aflições em suas formas mais intensas. Veja o seu próprio testemunho: "Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;  Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez"(2 Coríntios 11:24-27). “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”.

Esta, então foi a firme convicção, não de alguém "favorito da sorte", não de alguém que encontrou na jornada da vida um caminho atapetado, rodeado com rosas, mas, ao contrário, de alguém que foi odiado por seus parentes, que foi muitas vezes espancado, que sabia o que era ser privado não só do conforto, mas também das necessidades básicas da vida. Como, então explicar o seu alegre otimismo? Qual foi o segredo da sua dignidade sobre seus problemas e provações?

A primeira coisa com a qual o apóstolo penosamente provado consolou-se era que os sofrimentos do cristão são de curta duração - que estão limitados ao "tempo presente". Isto está em nítido e em solene contraste com sofrimentos dos que rejeitam a Cristo. Seus sofrimentos serão eternos: para sempre atormentados no Lago de Fogo. Mas muito diferente é para o crente. Seus sofrimentos são restritos a esta vida na Terra, que é comparado a uma flor que sai e é cortada, a uma sombra que foge e não permanece. Uns poucos anos no máximo, e vamos passar deste vale de lágrimas para aquele país abençoado, onde lamentos e choros nunca mais serão ouvidos.

Em segundo lugar, o apóstolo olhou além, com os olhos da fé para "a glória". Para Paulo "a glória" era algo mais do que um sonho lindo. Era uma realidade prática, exercendo uma poderosa influência sobre ele, consolando-o nas horas mais críticas e difíceis da adversidade. Este é um dos verdadeiros testes da fé. O cristão tem um sólido suporte na hora da aflição, quando o incrédulo não tem. O filho de Deus sabe que na presença do Pai "háfartura de alegrias", e que à sua mão direita "há delícias perpetuamente". E a fé se apodera deles, apropria-se deles, e vive na alegria reconfortante deles até agora. Assim como Israel no deserto foi encorajado por uma visão do que os esperava na terra prometida (Nm 13:23,26), assim, aquele que hoje caminha pela fé, e não por vista, contempla o que os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, mas o que Deus pelo Seu Espírito Santo tem revelado a nós (1 Cor. 2:9,10).

Em terceiro lugar, o apóstolo se regozijou "com a glória que em nós há de ser revelada". Tudo isso significa que ainda não somos capazes de ter uma compreensão plena dessas coisas. Mas mais do que uma dica foi concedida a nós. Haverá:

(a) A "glória" de um corpo perfeito. Naquele dia esta corrupção se revestirá da incorruptibilidade, e isto que é mortal, da imortalidade. O que foi semeado em ignomínia será ressuscitado em glória, e o que foi semeado em fraqueza será ressuscitado em vigor. Assim como trouxemos a imagem do terreno, devemos trazer também a imagem do celestial (1 Coríntios. 15:49). O conteúdo dessas expressões é resumido e amplificado em Filipenses 3:20,21: "Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”.

(b) Haverá a glória de uma mente transformada. "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (1 Cor 13:12). Oh, que envolvimento de luz intelectual com que cada mente será glorificada! Que faixa de luz vai envolvê-la! Que capacidade de entendimento vai deleitá-la! Então todos os mistérios serão desvendados, todos os problemas resolvidos, todas as discrepâncias reconciliadas. Então cada verdade da revelação de Deus, cada evento de Sua providência, cada decisão de seu governo, ficará ainda mais transparentemente clara e resplandecente como o próprio sol. Você, em sua busca presente pelo conhecimento espiritual, lamenta a escuridão da sua mente, a fraqueza de sua memória, as limitações de suas faculdades intelectuais? Então nos regozijemos na esperança da glória que está para ser revelada em você - quando todos os seus poderes intelectuais serão renovados, desenvolvidos, aperfeiçoados, de modo que você conhecerá como você é conhecido.

(c) Melhor de tudo, haverá a glória da santidade perfeita. A obra da graça de Deus em nós, então, será completada. Ele prometeu que aperfeiçoará "o que me toca" (Salmo 138:8). Então será a consumação de pureza. Fomos predestinados para sermos "conformes à imagem de Seu Filho" (Rm 8:29), e quando O veremos "seremos semelhantes a ele" (1 João 3:2). Então, nossas mentes não serão mais contaminadas por imaginações do mal, nossas consciências não serão mais manchadas por um sentimento de culpa, nossas afeições não serão mais enganadas por objetos indignos. Que perspectiva maravilhosa é esta! A "glória" que será revelada em mim agora dificilmente pode refletir um raio solitário de luz! Em mim - tão desobediente, tão indigno, tão pecador, vivendo tão pouco em comunhão com Aquele que é o Pai das luzes! Pode ser que em mim esta glória seja revelada? Assim afirma a infalível Palavra de Deus. Se eu sou um filho da luz por estar "nele", que é o resplendor da glória do Pai, mesmo que agora habite em meio a tons escuros do mundo, um dia irei ofuscar o brilho do firmamento. E quando o Senhor Jesus retornar a esta terra ele deve ser "admirável naquele dia em todos os que creem" (II Tes. 1:10).

Finalmente, o apóstolo aqui pesa o "sofrimento" do tempo presente em oposição a "glória", que deverá ser revelada em nós, e como ele declarou que uma "não é digna de ser comparada" com a outra. Uma é transitória, outra é eterna. Como, então, não há proporção entre o finito e o infinito, não há comparação entre os sofrimentos da terra e a glória do céu. Um segundo de glória superarão uma vida de sofrimento. O que são os anos de labuta, de doença, de lutar com a pobreza, de tristeza em qualquer forma, quando comparados com a glória da terra de Emanuel! Beber do rio da vida na mão direita de Deus, uma respiração no paraíso, um instante em meio ao sangue lavado ao redor do trono, será mais do que compensador do que todas as lágrimas e gemidos da terra.  “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada”.

Que o Espírito Santo permita que tanto o escritor quanto o leitor se agarrem a isso e apropriem-se com fé e vida na posse presente e gozo disso para o louvor da glória da graça divina.

Da obra "Comfort for Christians" de A.W. Pink – Consolo nas Aflições, sofrimentos compensados, capítulo 3 - Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira – Li em: Discernimento Bíblico.

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