Você não é a menina dos olhos de Deus! A Igreja é!

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Hoje em dia é comum nos depararmos com a seguinte cena:

Um indivíduo qualquer, falando de si mesmo, diz: “Eu sou a Igreja!” Isso está errado! Trata-se de uma manifestação clara do espírito da nossa época que supervaloriza o individualismo. Uma pessoa só não é a Igreja. Em seu Catecismo Maior, o puritano John Owen apresenta uma excelente definição do que é a Igreja de Cristo: “A completa companhia dos eleitos de Deus, chamados de Deus, pela Palavra e pelo Espírito, da sua condição natural à dignidade de seus filhos e unidos a Cristo, seu cabeça, pela fé, no vínculo do Espírito”.[i] Um indivíduo apenas não é a Igreja. Ele faz parte da Igreja, como um de seus membros. A Igreja é a “completa companhia dos eleitos de Deus. é uma coletividade. É um corpo específico de pessoas.

Digo isso, porque outra forma muito comum de se afirmar tal individualismo é olhar para uma pessoa em específico e dizer: “VOCÊ é a menina dos olhos de Deus!” Eu até tento compreender a intenção por trás desta fala, mas também tenho aprendido que, ao lidarmos com proposições temos de nos esforçar ao máximo para sermos precisos naquilo que queremos expressar. Teologia é isso!

A Bíblia não ensina que uma individualidade é a “menina dos olhos” de Deus. Esta expressão aparece 5 vezes na  Bíblia, todas elas no Antigo Testamento. Em Provérbios 7.2 a Sabedoria faz um pedido a um jovem, para que ele guarde a lei como se guarda a menina dos olhos: “Guarda os meus mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos”. A única ocorrência em que a expressão está relacionada a um indivíduo é uma oração, uma súplica do salmista Davi: “Guarda-me como a menina dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas” (Salmo 17.8). Davi não afirma ser a menina dos olhos de Deus. Ele suplica a Deus que o proteja como se ele fosse a menina dos seus olhos. Davi toma a expressão por empréstimo de Deuteronômio 32.10: “Achou-o numa terra deserta e num ermo solitário povoado de uivos; rodeou-o e cuidou dele, guardou-o como a menina dos olhos”. De quem Moisés está falando neste texto? O verso 9 nos dá a resposta: “Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança”. No caso, a menina dos olhos de Deus neste texto é o povo de Israel, é a comunidade da aliança, a coletividade. O mesmo pode ser visto em outras duas passagens do Antigo Testamento: “O coração de Jerusalém clama ao Senhor: Ó muralha da filha de Sião, corram as tuas lágrimas como um ribeiro, de dia e de noite, não te dês descanso, nem pare de chorar a menina de teus olhos!” (Lamentações 2.18); “Pois assim diz o SENHOR dos Exércitos: Para obter ele a glória, enviou-me às nações que vos despojaram; porque aquele que tocar em vós toca na menina do seu olho” (Zacarias 2.8). Em Lamentações o povo deve chorar por causa da ruína de Jerusalém. Já em Zacarias o povo é declarado ser a menina dos olhos de Deus.

O salmista Davi, ao orar ao Senhor, pede para si o mesmo cuidado, a mesma proteção que o Senhor tem pelo povo de Jerusalém. Davi estava enfrentando perigos. Perversos o oprimiam e inimigos o assediavam de morte (Salmo 17.9). Então, lembrando da maravilhosa declaração do Senhor acerca do seu povo, Davi pede para si o mesmo cuidado e a mesma proteção. Acredito ser esta uma oração válida. E eu também acredito que o Senhor tem um cuidado especial por cada um dos membros do seu povo. Todavia, isso não quer dizer que podemos afirmar, de maneira categórica, que cada um de nós, individualmente, é a menina dos olhos de Deus. Da mesma forma, é o povo de Deus, a Igreja, que é “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1Pedro 2.9). É o povo, a sua coletividade, de Deus que é a sua delícia: “Nunca mais te chamarão Desamparada, nem a tua terra se denominará jamais Desolada; mas chamar-te-ão Minha-Delícia; e à tua terra, Desposada; porque o SENHOR se delicia em ti; e a tua terra se desposará” (Isaías 62.4). Deus está falando de Sião. É por amor de Sião que ele diz estas palavras. Deus diz isso de todo o seu povo. Temo que no afã de exaltar o ego humano acabemos direcionando ao indivíduo uma alcunha que pertence ao povo da Aliança.

A Igreja é a menina dos olhos de Deus. Se você está em Cristo Jesus de verdade, então, você faz parte da sua Igreja. E se você faz parte da Igreja de Cristo, bem, então, você é alvo do cuidado do Senhor para contigo. Você faz parte daquela que é a menina dos seus olhos.

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Nota: 
[i] John Owen. “The Greater Catechism”, In: Works of John Owen: The Glory of Christ. Vol. 1. Edinburgh, UK: The Banner of Truth Trust, 2008. p. 485.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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As obras de Deus e os decretos divinos em geral

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(1) Até agora Deus foi considerado em si mesmo. Agora ele também precisa ser considerado em suas obras.

1. Isto inclui tanto as obras essenciais como as pessoais.

2. As obras essenciais são aquelas que são realizadas por toda a Santíssima Trindade operando como sendo apenas um Ser.

3. As obras pessoais são aquelas que são peculiares a uma pessoa em particular.

4. Tanto as obras essenciais como as pessoais incluem aquilo que afeta Deus somente [ad intra] e aqueles efeitos são percebidos fora de Deus [ad extra].

5. A primeira espécie não tem outro objeto [terminus] além de Deus. [A esta espécie pertencem] tais assuntos como a inteligência pela qual Deus conhece a si mesmo, a geração do Filho e a procedência do Espírito Santo.

6. As obras da segunda espécie têm alguns outros objetos além da Santíssima Trindade. Tais como a predestinação, criação e coisas semelhantes que concernem às criaturas como objetos externos a Deus.

PROPOSIÇÕES

I. A mesma obra externa é tanto pessoal como essencial de diferentes pontos de vista. Assim, a encarnação de Cristo, em seu aspecto eterno [inaugurativo] é uma obra essencial, comum à toda a Trindade; em seu aspecto histórico [consumativo] ela é uma obra pessoal apenas do Filho. Embora o Pai e o Espírito sejam causas da encarnação, somente o Filho tornou-se encarnado. Do mesmo modo, embora a criação, redenção e santificação são obras de toda a Santíssima Trindade, todavia, de um ponto de vista, elas podem ser chamadas de pessoais. O Pai é chamado criador, porque ele é, como era a origem [fons] da operação da Trindade, e o Filho e Espírito Santo agem pelo Pai. O Filho é chamado redentor, porque ele consumou a obra da redenção assumindo a natureza humana. O Espírito Santo é chamado santificador, porque ele é enviado pelo Cristo como um confortador e santificador.

II. As obras externas são indivisíveis ou comuns a todas as pessoas. Desta proposição segue do que foi declarado acima; uma vez que a essência é comum a todas as pessoas, as obras essenciais também precisam ser comuns a todos os três.

III. Toda obra específica sempre preserva o mesmo princípio essencial, causa eficiente e efeito.

(2) As obras de Deus que tem a sua realização fora dele são tanto imanente e interna, como exposta e externa. As obras imanentes e internas de Deus são aquelas que recebem lugar dentro de sua divina essência, e deste modo são os decretos de Deus.

PROPOSIÇÕES

I. Nem todas as obras cujo objeto é fora de Deus [ad extra] é uma obra externa. Um decreto de Deus é ad extra naquilo que se refere à criatura ou alguma coisa além de Deus, mas ela é interna naquilo que ela permanece em toda a essência de Deus.

II. As obras imanentes e internas de Deus são as realidades [res] não diferem da essência de Deus. Tudo o que estiver em Deus é Deus, como apresentamos acima como uma consequência da simplicidade da essência divina; e como essência e ser [essentia et esse] não são diferentes em Deus, assim, em sua vontade e o ato da vontade não são realidades [realiter] diferentes.

(3) Um decreto é um ato interno da vontade divina, pelo qual ele determina, da eternidade, livremente, com absoluta certeza, aqueles assuntos que acontecerão no tempo.

PROPOSIÇÕES


I. Os decretos são chamados “o plano definitivo” (At 2:23), “a mão e plano de Deus” (At 4:28), “o beneplácito de Deus” (Ef 1:9), e a eterna providência de Deus. Eles são chamados de “eterna providência” em distinção da atual providência que não é outra senão que a execução dos decretos de Deus.

II. Eles também são chamados de vontade de Deus, e o que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti]. Na realidade, o decreto é a própria vontade de Deus; mas, para o propósito de ensino a vontade é tratada como a causa eficiente, e o decreto como o efeito. Outra nomenclatura acerca da vontade pode ser adotada para vários propósitos e várias distinções são feitas pelos teólogos; a distinção entre o que Deus intenta fazer e o que ele nos quer fazer [voluntas beneplaciti et signi], entre vontades antecedente e consequente, absoluta e condicional, oculta e revelada. Estas não são divisões reais, ou partes da vontade divina de Deus, pois de fato, ela é propriamente chamada àquilo que Deus intenta fazer [voluntas beneplaciti] porque pela sua completa liberdade e beneplácito, ele decretou tudo que acontecerá. O mesmo é “antecedente” porque ele existiu antes das coisas criadas, e foi contado com Deus desde a eternidade. Ele é chamado “absoluto” porque se baseia unicamente na boa vontade de Deus e não de nada no tempo, e finalmente, ele é chamado de “oculto” porque nem anjos, ou homens entendem-no sem auxílio [a priori]. Mas como está numa cantiga popular “Ele comanda e ele proíbe, permite, divide e completa” possa ser vagamente chamado pela designação da vontade divina. Assim como os editos de um magistrado são chamados de sua vontade, do mesmo modo a designação da vontade pode ser dada aos preceitos, proibições, promessas e bem como aos fatos e eventos. Assim, a divina vontade também é chamada daquilo que Deus quer fazer [voluntas signi], pois ela significa o que é aceitável a Deus; o que ele quer fazer a nosso favor. O decreto é chamado de “consequente” porque ele segue aquela vontade que antecede a eternidade; ele é “condicional” porque os mandamentos, proibições ou desobediência estão ligados a ele. Finalmente, ele é chamado de “revelado” porque é o modo explicado na palavra de Deus. É necessário observarmos que esta espécie de discussão não postula outra realidade diversa, ou contraditória, como se fossem vontades de Deus. 

III. Ao lado da vontade de Deus não há causas que podem ser contrárias a sua vontade. De fato, muitas coisas podem ser contrárias àquilo que Deus quer [voluntas signi], no entanto, elas se conformam ao plano divino [voluntas beneplaciti]. Deus não criou o pecado do homem, pelo contrário, mais estritamente ele o proibiu. Contudo, ao mesmo tempo ele o decretou de acordo com a esta vontade [beneplaciti] como um meio de revelar a sua glória.

IV. Tanto o bem como mal, entretanto, resultam do decreto e vontade de Deus; primeiro ele causa, e depois ele permite.

V. Contudo, o decreto e vontade de Deus não têm o mesmo sentido como causa do mal ou do pecado, embora tudo o que Deus decreta assume a posição de necessidade. Desde os males que são decretados, não efetivamente, mas permissivamente, o decreto de Deus não é a causa do mal. Nem são os decretos de Deus a causa do mal sobre a explicação da inevitabilidade de seu resultado, ou mesmo que eles conduzam os resultados não por uma necessidade coerciva, mas meramente por algo imutável.

VI. A inevitabilidade [necessitas] dos decretos de Deus não destrói a liberdade nas criaturas racionais. A razão é que a necessidade não é uma necessidade da coerção, mas da imutabilidade. Que a queda de Adão aconteceu pela necessidade com respeito a um decreto divino; todavia, Adão pecou livremente, nem ordenado, nem coagido, ou influenciado por Deus; de fato, ele teve a mais estrita advertência para não pecar.

VII. A inevitabilidade dos decretos de Deus não destrói a contingência das causas secundárias. Muitos eventos que acontecem pela necessidade com respeito aos planos de Deus são contingentes com as causas secundárias. 

VIII. Não existe uma causa ativa [causa impulsiva] além da absolutamente livre vontade e prazer de Deus capaz de determinar os decretos divinos.

IX. O propósito [finis] dos divinos decretos é a glória de Deus.

X. Um decreto de Deus é singular e simples em si mesmo; nele não existe algo que seja anterior ou posterior.

XI. Com respeito a todas as coisas decretadas, deve ser especificado que na ordem em que ocorrem, Deus diz ter decretado quais deveriam ocorrer.

Tais questões como se Deus primeiro decretou isto ou aquilo, ou se ele decretou primeiro e o fim, ou os meios, são tolice. Desde que um decreto de Deus é em si mesmo um ato absolutamente simples, não há nele nem antecedente ou posterior; apenas com respeito às coisas decretadas podem ser especificadas. Com este entendimento podemos dizer que Deus decretou (1) criar o homem, (2) dar-lhe a sua imagem, mas de um modo que pudesse se perder, (3) permitir a queda, (4) e deixar alguns dos caídos entregues a si mesmos, mas eleger outros e preservá-los para a vida eterna. 

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Autor: Johannes Wollebius
Fonte: Traduzido de Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977).
Tradução: Rev. Ewerton B. Tokashiki
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Guerras! Uma perspectiva cristã

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Introdução

Com o recente ataque terrorista contra a França e as contínuas ameaças do Estado Islâmico, a sociedade como um todo, e principalmente aqueles que professam a fé cristã, devem começar (se já não começaram!) a ponderar sobre a temática da Guerra. A proposta desse breve artigo é oferecer uma opinião sólida e coerente sobre o assunto dentro da cosmovisão cristã, isto é, de acordo com as Escrituras.

Como em qualquer outro assunto, principalmente os polêmicos como esse, sempre há extremos, assim também ocorre em relação a guerra. Iremos expor de forma breve a visão ativista e a pacifista, ambas com a tendência de extremar e de não ser totalmente satisfatória. Por fim, apresentaremos uma via média, conhecida como seletivismo, que acreditamos estar mais de acordo com a vontade revelada de Deus nas Escrituras. 

1. Ativismo radical

In nuce, esse ativismo ensina que é sempre correto participar de uma guerra. O principal fundamento desse princípio talvez seja a obediência irrestrita ao governo, pois o mesmo é ordenado por Deus. Portanto obedecer a um é obedecer ao outro. As guerras narradas no Antigo Testamento servem como ilustração desse princípio, e também são usados alguns textos descontextualizados do Novo Testamento.

O problema gritante dessa posição (que os pacifistas imediatamente apontam) é o fato de que em uma guerra, ambos os lados reivindicam estarem certos. O ativista é forçado pela lógica a concordar que nem sempre ambos os lados podem estar certos. Porém o ativista se ilude ao se convencer que não importa quem esteja certo, devemos lutar em obediência ao Governo para evitar o caos social anárquico, e esperar que no fim, a justiça triunfe.

2. Pacifismo

No outro extremo temos o pacifismo que advoga nunca ser correta participar de qualquer guerra.

O pacifista edifica seu princípio fundamentado na ideia de que matar é sempre intrinsecamente mal/errado, (o que vai contra inúmeras passagens bíblicas). Além do mais (eles dizem), a guerra é sempre motivada pelo ódio, o que contraria o princípio bíblico do amor, é sempre baseado no mal que advém da ganância e guerras sempre geram mais guerras e muitos males resultam nesse processo.  

3. Seletivismo

Uma via média entre os dois extremos acima é a posição conhecida como Seletivismo, que afirma ser correto participar de algumas guerras. 

O patriotismo cegamente inconsequente de alguns ativistas que atribuem infalibilidade inexorável ao seu país, luta pelo mesmo não se importando com o certo e o errado. O pacifismo de alguns deixaria homens como Hitler cometerem genocídio sem o menor esforço de resistência. Ambas as posições geram insatisfação. O seletivismo que afirma que algumas guerras são justificadas e outras não está em harmonia com a ética cristã.

Tanto o ativismo como o pacifismo se apoiam em algumas partes das Escrituras. Um afirmando que as guerras são sempre justas e o outro que as guerras nunca são justas. Em resposta ao ativismo, a Bíblia ensina que nem sempre é correto obedecer ao governo, principalmente quando este contraria os mandamentos éticos de Deus. 

O pacifismo apela para um mandamento do decálogo que diz “não matarás” (Ex. 20.13). Uma melhor tradução desse mandamento é “não assassinarás”. Matar é sempre tirar a vida de alguém, mas nem sempre tirar a vida de alguém é assassinato. Tanto a pena de morte como o matar em legítima defesa não são assassinatos. Nas palavras de Francis Schaeffer, em um mundo caído, algum tipo de força será necessária¹. Portanto, a fim de restringir ações perversas de pessoas más, o uso de violência é inevitável.

A teoria do seletivismo, ou “guerra justa”, foi primeiramente formulada dentro da ética cristã pelos teólogos Agostinho de Hipona (354-430 dC) e Thomas de Aquino (1225-1274 dC). Suas principais bases são:

1. Deve haver uma causa justa para a guerra:
  • Guerras devem ser travadas apenas em resposta a graves e duradouros danos causados por um agressor.
  • O motivo da guerra deve ser evitar o mal e avançar o bem.
  • O objetivo final da guerra deve ser trazer a paz.
  • Vingança, revolta ou desejo de prejudicar, dominar ou explorar e coisas semelhantes não são justificativas para a guerra.
2. Todo cenário possível de solução pacífica do conflito deve ser exaustivamente considerado primeiro.
3. O sucesso deve ser seriamente considerado, pois derramamento de sangue sem esperança de vitória não pode ser justificado.
4. A guerra deve ser declarada por uma autoridade legítima.
5. A guerra não deve causar um mal maior do que o mal que está sendo eliminado.
6. Os não-combatentes (civis) não devem ser intencionalmente prejudicados.
7. Prisioneiros e povos conquistados devem ser tratados de forma justa.

4. Conclusão


Existem pontos positivos tanto no ativismo como no pacifismo. O ativismo está correto ao afirmar que devemos obediência ao governo e o pacifismo está correto ao dizer que devemos buscar a paz e não a guerra. Mas ambas as visões são insuficientes. O seletivismo está correto ao colocar Deus acima do governo ao mesmo tempo em que afirma que devemos obedecer ao governo. Contudo, ele preserva o direito de consciência de discordar de quaisquer ordens opressivas.²

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Notas:
[1] Francis Schaeffer, A Christian Manifesto, p. 107.
[2] Norman L. Geisler, Ética Cristã: Opções e questões contemporâneas, p. 290.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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Sobre a participação dos cristãos nas manifestações

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Romanos 13.1-7, os cristãos e os protestos contra o governo. 

Romanos 13.1-7 é um texto bíblico usado e abusado para justificar o silêncio e a omissão por parte dos cristãos, mesmo diante de governos autoritários ou totalitários.

Mas deve-se levar em conta os seguintes pontos:

1. Na Carta aos Romanos o poder pertence exclusivamente a Deus. As “autoridades do governo” nunca são chamadas de “poder” ou “poderes”, como se convencionou chamar na linguagem política contemporânea. Na carta, o único que tem poder é Deus, que vem a nós através do evangelho, que é Jesus Cristo morto e ressurreto, o único Senhor, e Senhor de todos. Já que o Deus todo-poderoso estabelece toda autoridade, essa tem um poder derivado e, por isso, limitado.

2. Romanos 13.1-7 trata da autoridade legítima ideal e a define: (a) esta é serva de Deus (“diakonos” [13.4], que pode ser traduzida como ministro, administrador ou empregado; e “leitourgos” [13.6], que designa o servo do Estado, aquele que faz um serviço para o povo) para o bem dos cidadãos; (b) recompensa o bem que é feito pelos que estão sob o seu governo; (c) e detém o poder da espada, sendo agente de punição contra quem pratica o mal – e por cumprir tais prerrogativas ordenadas por Deus, os cristãos se sujeitam “por causa da consciência” a tal autoridade e pagam tributos e impostos.

3. Quando as autoridades deixam de servir aos cidadãos, enaltecer o bem e punir o mal, DEIXAM DE SER AUTORIDADE LEGÍTIMA.

4. Logo, não são mais ordenadas por Deus. Se tornam a besta que surge do mar (Ap 13.1-10), tentando ser o idolátrico “Estado total”, que exige culto e submissão. E devem ser resistidas de toda forma legítima pelos cristãos, inclusive por meio da desobediência (como os apóstolos e cristãos mártires fizeram a partir do último quarto do século I d.C.; cf. At 5.29) e protestos (e.g. 1Rs 12.3,4; At 16.37; 21.37-39; 22.25-28; 23.17-22; 24.10,11,24-26; 25.8-12; 25.11; 26.1-32).

5. Duas citações de R. C. Sproul, que resumem o ensino global das Escrituras sobre a relação do cristão com o Estado, reforçam o que aqui é exposto:

“...Aqueles que se escondem atrás da ideia de que a igreja nunca deve falar sobre questões políticas esqueceram um princípio das Escrituras que podemos chamar de crítica profética. Pode ter sido politicamente incorreto o fato de Natã confrontar Davi sobre o seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias (2Sm 12.1-15a). Pode ter sido politicamente incorreto o fato de Elias enfrentar Acabe por seu confisco pecaminoso da vinha de Nabote (1Rs 21). Pode ter sido politicamente incorreto o fato de João Batista desafiar o casamento ilícito de Herodes, o tetrarca (Mt 14). Nesses e em outros exemplos das Sagradas Escrituras, vemos que os representantes da igreja não tentavam tornar-se o Estado, mas ofereciam uma crítica profética ao Estado — apesar das possíveis consequências. A igreja não é o Estado, mas é a consciência do Estado, e essa é uma consciência que não pode se dar ao luxo de tornar-se cauterizada e silenciosa.”
“A Igreja é chamada a ser um crítico do Estado, quando este falha em obedecer ao seu mandato debaixo da autoridade de Deus.”

6. Portanto, Romanos 13.1-7 não pode nem deve ser usado para justificar passividade ou omissão diante daqueles que traíram seu chamado e perderam a legitimidade de fazer parte da autoridade e ordem que vem de Deus.

Em países em que estes pontos foram compreendidos nunca houve ditaduras.

Para os cristãos que participarão dos protestos contra o governo no domingo:

1. Para aqueles que guardam o domingo como dia santo e para aqueles que entendem todo dia como “santo ao Senhor”, a direção é: “Uma pessoa considera um dia mais importante do que outro, mas outra julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente convicto em sua mente.” (Rm 14.4-5; cf. Gl 4.10-11; Cl 2.16-17). Que um e outro se abstenham de julgar o outro, pois tal postura nega o senhorio de Cristo. E que todos orem pela nação, em mútuo respeito, “não para debater opiniões”, pois cada um terá de prestar a Deus contas de si mesmo. De toda forma, este assunto não é central para a mensagem evangélica; “portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu, para glória de Deus” (Rm 14.1,12; 15.7).

2. A maioria das manifestações está marcada para o horário da tarde. Deste modo, que os cristãos aproveitem o tempo de culto pela manhã para suplicar para que Deus perdoe nossos muitos pecados e tenha misericórdia de nosso país, e se agrade de usar os acontecimentos desta época para mudar os rumos da nação. Um importante motivo de oração é que governantes e governados tenham real respeito e apreço pelos valores cristãos, pelo decoro e pelos princípios justos presentes nas leis e Constituição do Brasil. Tal mudança não se dará “por força nem por poder”, mas pelo “Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4.6).

3. Durante o protesto, permaneçam em oração. Se em grupo, aproveitem para orar juntos pelo país, portando-se como “o sal da terra” e “a luz do mundo” (Mt 5.13-14).

4. E manifestem-se pacificamente, sem responder a eventuais provocações e repudiando toda violência, para que sejam reconhecidos como “filhos de Deus” (Mt 5.9).

Pois foi assim que as reuniões de oração realizadas na Nikolaikirche, em Leipzig, contribuíram para derrubar o comunismo na República Democrática da Alemanha, no ano de 1989.

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Autor: Franklin Ferreira
Fonte: Página do autor no Facebook
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Cessacionismo, sim; incredulidade, não!

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Cessacionista é a pessoa que crê que os dons extraordinários do Espírito Santo (cura, falar em línguas, etc.,) cessaram porque foram dados especificamente aos apóstolos no nascedouro da Igreja Cristã, com o propósito de autenticar a mensagem revelada pelo Espírito Santo que é o Novo Testamento. Assim como no passado, no Antigo Testamento houveram épocas específicas em que Deus dotou com Seu poder Seus servos para que realizassem milagres justamente na ocasião em que a Palavra de Deus estava sendo revelada, da mesma forma ocorreu no Novo Testamento.

Em seu livro O Caos Carismático, o Dr. John MacArthur Jr., faz um comentário esclarecedor ¹ :

A maioria dos milagres registados na Bíblia ocorreu em três períodos relativamente curtos: Moisés e Josué, durante os ministérios de Elias e Eliseu e no tempo de Jesus e seus apóstolos. Nenhum desses períodos estendeu-se por mais de cem anos. Cada um desses períodos testemunhou a proliferação de milagres em outras eras. Entretanto, mesmo nesses períodos, os milagres não eram a norma para o dia a dia. Os milagres realizados diziam respeito a homens que eram mensageiros extraordinários enviados por Deus – Moisés e Josué, Elias e Eliseu, Jesus e os apóstolos. À parte desses três períodos, os acontecimentos sobrenaturais registrados nas Escrituras foram incidentes isolados (pág. 145).

O cessacionista não é alguém que duvida do poder de Deus; tal pessoa é incrédula. Em vez disso, o cessacionista é alguém que crê que Deus pode fazer milagres ainda hoje, porém, não na mesma intensidade dos dias de Moisés e Josué, de Elias e Eliseu, ou de Jesus e os apóstolos, não porque Deus mudou – para o cessacionista Deus é imutável. Na verdade, o que mudou não foi o caráter de Deus, mas, sim, as razões pelas quais os milagres foram tão intensos nas três épocas mencionadas a pouco. Hoje Deus não precisa mais autenticar Sua Palavra revelada, até mesmo porque tudo o que Ele queria ter revelado, já o fez plenamente na pessoa de Seu Filho Jesus Cristo (cf. Hb 1.1-4).

O cessacionista é alguém que crê na soberania de Deus, e, por isso mesmo, quando ora demonstra sua confiança na vontade de Deus para a sua vida, razão pela qual não se revolta contra Deus quando a resposta às suas orações é diferente do que ele esperava que fosse. O cessacionista descansa na fidelidade de Deus, pois, sabe que por não faltarem lutas e dores na sua vida, também não falta o cuidado de Deus e a alegria do Senhor Deus que é a sua força (cf. Ne 8.10).

Diferentemente daqueles que o insultam e o questionam (porque pensam que ele é um incrédulo que tenta colocar Deus num limite humano, ou um simplório que não consegue entender a Bíblia), o cessacionista vive a cada dia enfrentando as lutas em vez de “rejeitá-las”, e em nome de Jesus vive na dependência de Deus sabendo que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (…) de serem conformes à imagem de Seu Filho” (Rm 8.28,29).

Ele não é um masoquista que gosta de sofrer, mas, sente profunda alegria em seu coração porque sabe que até o sofrimento em sua vida é propósito de Deus.

Para o cessacionista Deus não mudou. Ele continua sendo hoje o mesmo Deus de ontem e o será para todo o sempre, isto é, o Deus Todo-Poderoso que pode fazer tudo o que bem quiser, mas, que nem sempre quer fazer tudo o que pode.

O cessacionista tem profundo amor pela Palavra de Deus e, por este motivo, não anda em busca de novidades “reveladas” pelos ditos “profetas” contemporâneos. Para o cessacionista, as profecias de Deus se cumprirão, inclusive aquelas que dizem que no fim dos tempos surgirão muitos falsos cristos e falsos mestres, dizendo que estão agindo em nome de Deus, realizando sinais e prodígios no céu e na terra para enganar, se possível, os eleitos (Mt 24.24). Por esta razão, o cessacionista anda pela Palavra de Deus e não se deixa levar por ventos de doutrinas (Ef 4.12) que não passam de mentiras forjadas no inferno e engendradas nos corações arrogantes.

O cessacionista não se deixa levar pela emoção, mas, também não é uma pedra de gelo diante da ação de Deus quando Ele quer realizar um milagre. O cessacionista se emociona, se impressiona, e se rende ante ao poder de Deus e por isso mesmo teme afastar-se da Sua Palavra porque sabe que é terrível coisa cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31).

Podem me chamar do que quiserem, mas, como um cessacionista que sou, eu sei em quem tenho crido e sei que é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia (2Tm 1.12). Minha fé é histórica, e não está baseada em movimentos que vem e vão com o tempo.
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Nota:
¹ MACARTHUR Jr, John> O Caos Carismático. Formato em e-book, Editora Fiel da Missão Evangélica Literária; São José dos Campos (SP).
           
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Autor: Rev. Olivar Alves Pereira
Fonte: Noutesia
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Teologia Reformada é Teologia do Pacto

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A teologia reformada é frequentemente associada como "teologia do pacto." Se você ouvir atentamente, você vai ouvir muitas vezes pastores e professores que se descrevem como "reformado e pactual". Os termos "reformado" e "pactual" são utilizados em conjunto tão amplamente que cabe a nós entender por que eles estão conectados.

A teologia do pacto refere-se a uma das crenças básicas que os calvinistas têm mantido sobre a Bíblia. Todos os protestantes que se mantiveram fiéis à sua herança afirmam o Sola Scriptura, a crença de que a Bíblia é a nossa autoridade suprema e inquestionável. A teologia do pacto, no entanto, distingue a visão reformada da Escritura de outras perspectivas protestantes, enfatizando que os pactos divinos unificam os ensinamentos da Bíblia inteira.

Desenvolvida anteriormente no seio Reformado, a compreensão pactual da Escritura chegou a um ponto alto na Inglaterra do século XVII com a Confissão de Fé de Westminster (1646), a Declaração de Savoy (1658), de Londres, Confissão Batista de 1689, e cada uma representando diferentes grupos de ingleses - calvinistas. Com apenas pequenas variações entre estes documentos, eles dedicam um capítulo inteiro à administração das alianças de Deus com a humanidade revelando a unidade do todo que a Bíblia ensina.

Por exemplo, a Confissão de Fé de Westminster fala de Deus condescendendo para revelar-se à humanidade por meio de um pacto. Em seguida, ela divide toda a história da Bíblia em apenas dois pactos: o "pacto de obras" em Adão e o "pacto da graça" em Cristo. O pacto das obras foi arranjo de Deus com Adão e Eva antes da queda no pecado. O pacto da graça governa o resto da Bíblia. Neste ponto de vista, todas as fases do pacto de graça eram de mesma substância. Eles diferem apenas como Deus administrou Seu único pacto de graça em Cristo de várias maneiras ao longo da história bíblica.

Nessa mesma linha, uma série de teólogos reformados mais recentes têm afirmado a unidade pactual da Escritura, relacionando particulares alianças bíblicas para o que o Novo Testamento chama de "o reino de Deus". Jesus indicou a importância do reino de Deus nas palavras de abertura do Pai Nosso: "Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mateus 6: 9,10). As palavras de Jesus primeiro indicam que o principal objetivo da história é a glória e honra de Deus. No entanto, suas palavras indicam também que Deus receberá esta glória através da vinda de Seu reino à terra assim como no céu. O objetivo de Deus sempre foi de receber o louvor eterno de cada criatura, estabelecendo Seu glorioso reino na Terra. Pegando emprestado o louvor bem conhecido de Apocalipse 11:15, no fim da história "o reino do mundo [irá] tornar-se o reino de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre."

Recentes descobertas arqueológicas mostraram como às alianças de Deus sem relacionavam com o Seu reino terrestre. Nos dias da Bíblia, muitos reis das nações ao redor de Israel administravam a expansão de seus reinos através de tratados internacionais. Os estudiosos da Bíblia notaram semelhanças notáveis entre esses tratados antigos e as alianças bíblicas com Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi, e Cristo. Essas similaridades indicam que a Escritura apresenta os pactos como a maneira de Deus administrar a expansão do Seu reino na terra.

Alianças bíblicas enfatizam o que era necessário em fases específicas do reino de Deus, promovendo os princípios de alianças anteriores. Com Adão, Deus começou a revelar sua própria realeza, o papel da humanidade, e o destino que Ele havia planejado para a terra (Gn. 1-3). Estes princípios foram avançando, em diante, Deus promete estabilidade na natureza para o serviço da humanidade no pacto com Noé (Gn. 6,9). Deus reforça seus pactos anteriores, prometendo que os descendentes de Abraão se tornariam um grande império e espalhariam as bênçãos de Deus para todas as outras nações (Gn 15, 17). Deus fez esses pactos para abençoar a Israel com a sua Lei nos dias de Moisés (Êx. 19-24). Cada aliança anterior foi levada a novas alturas quando Deus estabeleceu a dinastia de Davi e prometeu que um de seus filhos iria governar com justiça sobre Israel e sobre o mundo inteiro (Sl. 72;. 89; 132). Todos os pactos do Antigo Testamento foram então promovidos e cumpridos em Cristo (Jr. 31:31; 2 Co. 1: 19-20). Como o grande filho de Davi, sua vida, morte, ressurreição, ascensão e retornar eternamente garantiram a transformação de toda a terra em glorioso reino de Deus.

Muitos cristãos evangélicos hoje acham difícil acreditar que tudo na Escritura após Gênesis 3:15 diz respeito ao reino de Deus administrado através do desdobramento de um pacto de graça. A maioria dos evangélicos americanos visualiza a Escritura como dividida em períodos de tempo regidas por, substancialmente, diferentes princípios teológicos. Quando os cristãos seguem esta abordagem popular com as Escrituras, não demora para que eles se convençam de que o novo pacto de nossos dias está, na verdade, em desacordo com muitos aspectos do Velho Testamento.

Pelo menos três questões muitas vezes passam para o primeiro plano: obras e graça, fé corporativa e individual, e preocupações terrenas e espirituais. Em primeiro lugar, muitos evangélicos acreditam que a ênfase do Antigo Testamento em boas obras é incompatível com a salvação pela graça mediante a fé em Cristo. Em segundo lugar, o relacionamento corporativo de Israel com Deus como comunidade parece ter sido substituído por um foco sobre as relações pessoais dos indivíduos com Deus. Em terceiro lugar, muitos evangélicos acreditam que o Antigo Testamento chama para estabelecimento de um reino terreno de Deus este em contraste com a ênfase do Novo Testamento sobre um reino espiritual em Cristo.

A teologia do pacto permitiu aos teólogos reformados a percepção de que o Novo Testamento é realmente muito semelhante ao Velho Testamento nessas três áreas. Primeiro, nessa visão a salvação pela graça mediante a fé em Cristo é a única forma de salvação em ambos os Testamentos. Toda a Bíblia chama para boas obras, porque a fé salvadora sempre produz frutos de obediência a Deus. Em segundo lugar, teologia da aliança nos ajuda a ver que ambos os Testamentos falam sobre relacionamentos individuais e corporativos com Deus. Todas as alianças de Deus lidam com pessoas em ambos níveis. Em terceiro lugar, a teologia do pacto mostra que o reino de Deus sempre foi terreno e espiritual. O Antigo e Novo Testamento se concentram em nossos serviços em ambos os reinos. Nesses e em outros aspectos, a teologia do pacto tem muito a oferecer a comunidade evangélica.

Ao mesmo tempo, há também uma necessidade crescente de que teologia do pacto seja fortemente reafirmada em círculos reformados contemporâneos. Nas últimas décadas, muitos defensores mais recentes da teologia reformada têm negligenciado a teologia do pacto.

Cada vez mais, vemos que a teologia reformada está sendo reduzida para o que costumamos chamar de, as doutrinas da graça - crenças essenciais como depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Claro, devemos valorizar essas verdades da Escritura, mas quando deixamos de salientar a estrutura maior que a teologia da aliança oferece, a nossa compreensão da Bíblia em breve começa a sofrer nas três áreas mencionadas.

Em primeiro lugar, as doutrinas da graça destituídas da teologia do pacto levam alguns a acreditar que a teologia reformada está principalmente preocupada em ensinar que a graça de Deus sustenta a vida cristã do início ao fim. Claro, com certeza isso é verdade. No entanto, as alianças de ambos os testamentos consistentemente ensinam que Deus sempre exigiu determinado esforço de seu povo em resposta à sua graça, e que Ele recompensará a obediência e punirá a desobediência.

Em segundo lugar, separadas da teologia do pacto, muitas pessoas em nossos círculos parecem pensar que nossa teologia é sempre sobre como encontrar maneiras exclusivamente reformadas para as pessoas aprimorarem suas relações com Deus. Em nossos dias, uma série de caminhos para a santidade pessoal e devoção foram tratados como as características centrais da teologia reformada. Tão importante quanto os indivíduos na Bíblia, a teologia do pacto, também, destaca o nosso relacionamento corporativo com Deus. Nenhuma aliança bíblica foi feita com apenas uma pessoa. Eles também envolvem Deus estabelecendo relacionamentos com grupos de pessoas. Por esta razão, ambos os testamentos nos ensinam que as famílias dos crentes são comunidades de aliança, em que a misericórdia de Deus é passada de uma geração para outra. Além disso, a igreja visível em ambos os testamentos é a comunidade da aliança em que recebemos o evangelho e os meios comuns de graça.

Em terceiro lugar, as doutrinas da graça facilmente nos passam a impressão de que a teologia reformada só está preocupada com assuntos espirituais. Muitas pessoas em nossos círculos estão profundamente preocupadas com a transformação interior por meio de uma verdadeira compreensão das Escrituras. No entanto, muitas vezes negligenciam os efeitos naturais e sociais do pecado e da salvação. A teologia do pacto dá-nos uma visão muito maior e mais convincente de nossas esperanças como cristãos. Em ambos os testamentos, os crentes expandem o reino de Deus, tanto para a esfera espiritual quanto terrena. Devemos ensinar o evangelho de Cristo a todas as nações para que as pessoas possam ser transformadas espiritualmente, mas essa renovação espiritual é por uma questão de estender o senhorio de Cristo a todas as facetas da cultura em todo o mundo.

Tudo isso é para dizer que a teologia do pacto tem muito a oferecer todos os cristãos. Então, quando nos perguntamos: "O que é a teologia reformada?" isto nos servirá de boa resposta: "a teologia reformada é teologia do pacto."

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Autor: Richard Pratt Jr.
Fonte: Ligonier Ministries
Tradução: Pedro Paulo
Via: Electus
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Expiação: universal ou limitada?

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Cristo não veio ao mundo e morreu na cruz para possibilitar a salvação dos homens e sim salvar os homens de seus pecados, sendo estes pecados o motivo de nossa destituição do Reino de Deus (Rm 3.10-12,23).


Não é difícil notar, no entanto, que as doutrinas humanistas não enxergam isso por pura dureza, porque nenhum ser humano consegue admitir que a sua "salvação depende exclusivamente da volição divina [de Deus] e não com suas próprias forças humanas". Se a salvação possui nossa participação, voltamos então para as heresias pelagianas e semi-pelagianas do Catolicismo Romano, isto é, da graça merecida, sendo que o dom de crer se torna uma "boa obra".

Cristo veio para salvar somente o seu povo, não encontro no texto de Mateus 1.21 a ideia de "possibilidade de salvação", o texto está "afirmando" um desígnio. E em Efésios 5.25,26, afirma que o próprio Cristo se entregou por sua noiva e verteu o seu sangue na cruz para salvá-la e redimi-la de seus pecados, para apresentá-la pura e imaculada. Portanto, o povo que Cristo veio salvar, este também que é conhecido como A noiva do Cordeiro, o Corpo de Cristo e Igreja, estes que compõem o "corpo", nada mais são do que aquelas pessoas que foram agraciadas com o dom da Fé para que possam crer, e isso não vem de nós mesmos, mas vem de Deus (Ef 2.8-10, cf At 13.48).

"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12,13)

Torno novamente a dizer que "Cristo não morreu para possibilitar a salvação para o mundo," e sim, para salvar pecadores ímpios dignos de condenação, para que tenhamos agora paz com Deus e que passemos a estar firmes na graça. Não é difícil entender isso, está na Bíblia, basta ter acesso a ela (Romanos 5.1,2,7-11).

Cristo não veio para aplacar os pecados do mundo, mas para aplacar os pecados dos eleitos (pessoas de várias etnias, raças, tribos e nações) para que, em tempo oportuno, viessem a crer; o oposto da fé é a incredulidade, e se o sangue de Cristo serve para aplacar a ira de Deus contra o ímpio, por que ainda se prega o Evangelho, sendo que Cristo morreu por todo o mundo e, muitos não creem? Se Cristo levou sobre si os nossos pecados, e segundo os sinergistas "os pecados do mundo", sendo que também a incredulidade é um pecado, por que ninguém é salvo? 

Não consigo ver consistência nas doutrinas humanistas do "Livre-Arbítrio" sinérgico quando comparo tal declaração de "possibilidade salvífica ao mundo" a um pecado chamado incredulidade. Analisando Isaías 53.4-7, não consigo cogitar uma doutrina que faz caso do "Livre-arbítrio" humano, mas não toleram a liberdade de Deus quando quer escolher pecadores para serem salvos. Mas espere: ao tratar de salvação, o homem possui Livre-arbítrio e Deus “não”? E se o homem e Deus possuem o atributo de Livre-arbítrio (um juízo de escolha 100% livre de qualquer ação, influência e inclinação de outro agente externo) por que há a diferença de Deus, anjos e homens, criaturas, Reino Celestial e inferno? O Livre-arbítrio não deve ser respeitado quando homens não querem ser salvos e, quando os mesmos, mesmo na incredulidade, não querem ir ao inferno? Se há Livre-arbítrio, ele deve ser considerado em seu todo, se não seria prática de barganhas e infidelidades, uma dualidade divina inescrupulosa!

Portanto, fico com esta afirmativa; que Deus em seu amor e misericórdia, de seu bel prazer e soberana vontade, resolveu salvar pecadores e justifica-los em seu filho Cristo Jesus, e pecadores foram preteridos para o Juízo. Esse ato é a realização da misericórdia de Deus em seu infinito amor e, a execução do ato da justiça e a merecida punição do culpado. Não vejo acepção quando o mesmo Deus salva e condena "pecadores iníquos de mesma proporção".

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Autor: Klarystone P. Leal
Divulgação: Bereianos
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Resgatando nossa confessionalidade e reafirmando sua importância em nossos dias

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De onde viemos e para onde vamos? Essa pergunta não diz respeito somente à nossa origem conquanto seres vivos e pensantes. Ela também aplica-se à questão da nossa confessionalidade.

Essa palavra (confessionalidade), que originariamente veio do meio acadêmico, aos poucos está se tornando mais e mais conhecida e empregada em nosso dia a dia, especialmente nas questões da nossa fé. Daí daremos o enfoque a essa palavra no nosso contexto presbiteriano, e falaremos aqui sobre a “confessionalidade presbiteriana”.

Vejamos primeiramente:

I – A essência da nossa confessionalidade

Olhando para as nossas origens destacamos que a nossa confessionalidade é: puritana, confessional e reformada (e tudo isso é sinônimo de “bíblico”).

A Igreja Presbiteriana em seu nascedouro é puritana. Os puritanos ingleses do século XVI eram homens piedosos que buscavam uma igreja pura, que não fosse influenciada e dominada pelo Estado. Para isso tiveram de lutar contra os vestígios remanescentes do catolicismo romano e expurgar do ministério e do meio da congregação todos aqueles que se comportassem como incrédulos e ímpios. Daí receberam o nome de “puritanos”. Não deveríamos nos esquivar dessa identificação, ainda que em nossos dias ela tenha uma conotação pejorativa da parte dos ímpios. Deus nos chama à pureza, e o crente deve amar a pureza que Cristo lhe conquistou na cruz.

Foram esses homens que produziram a Confissão de Fé de Westminster, os Catecismos Maior e Breve e um Diretório de Culto para instrução da Igreja na Assembleia que foi convocada em 12 de junho de 1643, em Londres. Muitas igrejas de confissão reformada adotaram esses Símbolos de Fé, inclusive a nossa amada IPB.

Por séculos as igrejas reformadas que adotaram esses Símbolos de Fé prevaleceram enquanto tantos modismos e pragmatismos devastaram outras denominações. Estes Símbolos de Fé são instrumentos de “fiel exposição das Escrituras Sagradas”. Não visam substituí-las, mas, sim, conduzir-nos no estudo e aplicação das Escrituras Sagradas ao nosso coração.

II – Resgatando a confessionalidade

“Mas, pastor, lá vem o senhor com doutrina de novo! Nós precisamos de ensinamentos que sejam atuais, que nos ajudem a enfrentar as questões do nosso cotidiano!”. Quase todos (senão todos) pastores que são zelosos pelo ensino e pregação doutrinária já ouviram esse tipo de comentário; e provavelmente, sucumbiram a ele.

É muito comum encontrarmos pastores que evitam ensinamento doutrinário nas igrejas, preferindo assuntos “do dia a dia”. Mas, queridos irmãos e colegas de ministério, definitivamente, esta não é a hora de cedermos a esses comentários. A Igreja de Cristo deve ser alimentada com a Sã Doutrina da Palavra de Deus. Não devemos ter medo de nos debruçarmos sobre esses assuntos, de transformá-los em algo prático (essa é a função daqueles que ensinam) para que as nossas Igrejas entendam que somente a Sã Doutrina sustentará seus corações quando as tribulações, provações e ataques vierem sobre nós.

Neste sentido, os nossos Símbolos de Fé são ferramentas imprescindíveis. Eles são riquíssimos, profundos e refletem com segurança o que a Palavra de Deus ensina. Por isso, faz-se necessário que os estudemos em nossas Escolas Dominicais, nos Estudos Bíblicos durante a semana, ou em outras reuniões da Igreja. Nós pregadores devemos saturar nossas exposições bíblicas citando trechos ou perguntas dos Símbolos de Fé explicando-os; devemos despertar a curiosidade das nossas ovelhas para conhecê-los, e, assim, amá-los. Devemos incentivar nossas crianças a memorizarem o Breve Catecismo, e os adultos, o Catecismo Maior, tal como era feito nas Escolas Dominicais, quando os professores davam a “tarefa da semana” que era a memorização de uma ou duas perguntas.

III – A importância da confessionalidade

A confessionalidade de uma igreja está diretamente ligada à sua estabilidade e crescimento. Alguém disse que as igrejas de hoje dão muita atenção à porta da frente, mas, pouca à porta dos fundos, ou seja, estão ansiosas para ver mais e mais pessoas entrarem na igreja, mas, não se preocupam em mantê-las. Daí tais igrejas serem comparadas a rodoviárias, pois, estão sempre cheias de pessoas, mas, a rotatividade destas faz com elas não permaneçam nas igrejas.

As nossas Igrejas que estão se empenhando para resgatar a nossa confessionalidade e identidade bíblica e reformada estão experimentando um crescimento consistente e constante; estão vendo pessoas entrando e permanecendo porque encontraram alimento real para os seus corações. Em dias como os nossos em que o descartável é a característica dos objetos, relacionamentos e das “programações” das igrejas, aqueles que bebem da Sã Doutrina e nela deleitam-se não saem atrás de “ventos de doutrinas”. Crentes que são alimentados com a Palavra de Deus e com pregação e ensino que refletem a autoridade da Palavra jamais se satisfarão com eventos e métodos carnais.

Numa época em que a identidade de tudo e de todos está sendo não só questionada, mas, desconstruída, nós, presbiterianos reformados e confessionais, devemos ser firmes e zelosos pela Palavra de Deus. Ele sabe recompensar os fiéis, “Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos” (Hb 6.10).

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Sobre o autor: Rev. Olivar Alves Pereira é Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.

Fonte: Noutesia
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Abusar das Escrituras, Abusar de Deus

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Os evangélicos cristãos baseiam suas vidas na Bíblia. Acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus e que esta, portanto, é uma autoridade para nós em questões de fé e prática. A Bíblia indica as grandes verdades de quem Deus é, como nos relacionamos com ele, como entendemos a nós mesmos e o mundo. Resumidamente, a Bíblia contém as palavras da vida. Crentes a usam para guiá-los no discernimento da vontade de Deus, do fundamental ao corriqueiro. Nós a lemos a fim de tanto obtermos esperança, quanto colhermos verdades. A Bíblia afeta nossas crenças, atitudes e comportamentos. Resumidamente, a Bíblia é a nossa conexão com os céus; sem esta, estamos à deriva, desprotegidos em uma terra hostil. 

Primeira Razão: Falta de Respeito

Um dos curiosos fenômenos da atualidade é como os cristãos têm usado a Bíblia. Ao invés de reconhecer que ela é um livro feito de sessenta e seis livros, cada um escrito para um povo específico, por uma razão específica, tendemos a arrancar versículos fora dos seus contextos, porque as palavras concordam com o que já acreditamos. Às vezes crentes dizem coisas ingênuas como: “Deus me deu um versículo hoje”. O que há de errado como isto? Duas coisas: primeiro, esta abordagem das Escrituras não honra a autoria divina das Escrituras. Deus deu o versículo há pelo menos 1.900 anos atrás. Talvez você só tenha descoberto o versículo hoje, mas ele estava lá o tempo todo. Dizer que Deus deu um versículo hoje é realmente uma afirmação existencial, como se a Bíblia não se tornasse viva até nós a lermos de um determinado jeito. Mas a revelação cessou. Está tudo lá no Livro. Esta forma de falar soa quase como se a revelação continuasse. Mas, o trabalho do Espírito hoje, decididamente não é a nível cognitivo; ele não nos está trazendo uma nova revelação. Seu trabalho em relação à Bíblia é primariamente no âmbito da convicção; ele ajuda a convencer da mensagem da Bíblia, uma vez que ela seja devidamente compreendida. Segundo, esta abordagem (i.e., o dito método “Deus me deu um versículo hoje”) das Escrituras não honra a autoria humana da Bíblia. Quando Paulo escreveu aos Gálatas, ele escreveu uma mensagem coerente, holística. Ele nunca teve a intenção de que alguém, dois milênios mais tarde, roubasse versículos do seu contexto e os utilizasse como melhor achasse! É certo que temos o direito de citar versículos, mas não temos o direito de ignorar o contexto, ou fazer com que os versículos digam o que a língua não pode dizer. Do contrário, alguém pode vir e dizer: “Judas enforcou-se”; “Vá e faça o mesmo!” Conseqüentemente, uma razão do abuso das Escrituras é a devida falta de respeito pela Bíblia como uma obra divina e humana. A abordagem acima a torna um livro de mágico de encantamento – quase que um livro de provérbios de biscoitos da sorte sem nexo!

Segunda Razão: Preguiça

Algo típico deste abuso das Escrituras é a preguiça. Isto é, a maioria das pessoas simplesmente não dão o devido trabalho de ler o contexto ou examinarem os significados bíblicos. E mesmo quando estas pessoas são confrontadas com evidências convincentes contrárias a suas posições, elas freqüentemente respondem descaradamente: “Esta é apenas a sua interpretação”. Este tipo de resposta soa como se todas as interpretações fossem arbitrárias, como se todas as interpretações fossem igualmente plausíveis. Esta visão é claramente falsa. Veja a seguinte sentença como exemplo: “Minha mãe gosta de manga”. Uma interpretação destas palavras não é tão válida quanto uma outra qualquer. Esta sentença não pode significar “Meu pai é um mecânico de automóveis”. “Mãe” não significa “Pai”; “gostar” não significa “ser”; “manga” não é um sinônimo de “mecânico de automóveis”. A língua não pode ser distorcida desta forma. Agora, sem um contexto, há contudo, duas opções distintas para a sentença em vista. Ou “Minha mãe gosta do fruto da mangueira” ou “Minha mãe gosta de vestimenta que não deixa os ombros (ou, os braços) expostos”. Qual é a opção certa? A única forma de saber é observar o contexto da afirmação, ou perguntar ao autor da sentença! Ambas opções são feitas na interpretação bíblica. Algumas vezes o contexto resolve o problema, outras vezes, quanto mais conhecermos a respeito do autor, mais capazes seremos para determinarmos o seu significado. Mas uma receita certa para perder o sentido do texto é ter muito descuidado com ele. Afinal de contas, Paulo não disse a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado”?

Terceira Razão: Desonestidade

Outra razão para distorcer as Escrituras é simplesmente a desonestidade. Pedro relembra a sua audiência de que Paulo escreveu coisas que são difíceis de compreender, as quais os instáveis e perversos distorcem para sua própria destruição (2 Pedro 3:15-16). Eu temo que esta abordagem das Escrituras represente a atitude de um número demasiadamente alto de indivíduos, e não apenas de hereges. Com freqüência, pregadores tornam-se presas da tentação: “Isto dá uma boa pregação?” ao invés de seguirem a convicção: “É verdade?” Anos atrás, eu estava trabalhando numa igreja, preparando uma mensagem para os solteiros. O pastor estava preparando um sermão para toda a congregação. Era um sábado à noite. Ele veio ao meu escritório e me perguntou como eu entendia uma certa palavra. Eu lhe disse quais as opções que eu pensava que o texto grego permitia, dando-lhe razões em favor da minha preferência particular. A resposta dele foi: “Então, você não acha que isto significa ‘X’?” Eu lhe respondia que ‘X’ não era uma das opções; o grego não poderia ser distorcido para dar tal sentido. Aí ele disse: “Que pena. Eu já preparei meu sermão, e em um dos pontos principais, eu me baseio tomando o sentido ‘X’. É tarde demais para mudar agora”. Eu fiquei chocado. Eis aí um homem que iria subir ao púlpito no dia seguinte sabendo que iria pregar algo que não era verdade! Sem dúvida, professores da Palavra não têm todas as respostas. Há muitas coisas para as quais temos perguntas no meio do nosso ensinamento. (Tenho há muito tempo defendido que, quando não sabem, uma das coisas que professores da Bíblia devem ser é exemplos de humildade. É geralmente aí, contudo, que mais se bate no púlpito!) Mas isto é bastante diferente de saber que estamos no erro e pregar o erro de qualquer jeito. Cruzar esta linha ética traz certas conseqüências. Não foi Tiago que escreveu: “não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo”?

Nem sempre podemos adivinhar as razões pelas quais algumas pessoas usam a Bíblia de tal forma que ela nunca teve a intenção de ser usada. Mas, temos a responsabilidade de ser bons administradores da Palavra. Não deve ser a nossa atitude a mesma dos Bereanos? Quando os Bereanos ouviram o evangelho que Paulo pregou, Lucas nos conta que eles eram mais nobres de mente do que os de Tessalônica, porque receberam as coisas que Paulo disse com alegria, mas também buscaram nas Escrituras para confirmar as coisas pregadas (Atos 17:11)! Devemos ouvir a Palavra sendo pregada com um ouvido crítico e um sorriso no rosto.

Nos meses que se seguem, estarei explorando alguns versículos que com freqüência têm sido distorcidos. Esses ensaios terão a intenção de ser bem abreviados. Embora seja verdade que parte de nosso propósito é corrigir alguns maus ensinamentos, esses textos seletos geralmente têm um ponto profundo, o qual precisa ser ouvido. No entanto, com freqüência não escutamos suas mensagens, porque fomos instruídos na interpretação popular por tanto tempo, que somos incapazes de reconhecer o verdadeiro significado do texto. Vamos encerrar com um exemplo. Freqüentemente em casamentos, um versículo do livro de Rute é citado: “Aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1:16 ARA). As palavras são faladas pela esposa ao seu marido. É um belo sentimento, que todo marido se alegraria em ouvir sua esposa pronunciar. Mas Rute não falou estas palavras para Boaz. Ela as falou para Noemi, sua sogra! Ler estas palavras em um casamento é distorcê-las de seu contexto. Fazer tal coisa pode até ser por uma boa causa, uma expressão de um sentimento romântico, mas ainda assim é uma distorção das Escrituras.

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Autor: Daniel Wallace
Fonte: Bible.org
Tradução: Marcelo Berti
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