Cristianismo, Comunismo e o Papa

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"São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade” [1].

Poucas afirmações, em toda a história da humanidade, poderiam ser tão perturbadoras como essa, que foi proferida pelo papa (sic.) Bergoglio em entrevista publicada no jornal italiano La Repubblica.

Na verdade, se essa fala tivesse sido ventilada por algum ditador comunista ou psicopata alucinado - que são mais ou menos a mesma coisa - ela não deixaria de ser ofensiva e indigesta, todavia, não seria um produto diferente do que normalmente se deve esperar de ambos. Mas não. Ela foi pronunciada por um dos maiores representantes institucionais do cristianismo no mundo, o que faz qualquer indivíduo com razoável senso de realidade desvanecer em assombro diante de tão abjeta e pervertida apresentação dos fatos.

Vejamos se realmente comunistas pensam como cristãos e se, no pensamento cristão, um suposto grupo desfavorecido é que deve ditar as diversas políticas em uma sociedade. 

Metafísica

A "metafísica" dos comunistas ou marxistas é, com efeito, ontologia. Uma vez que sua visão é essencialmente materialista, para eles, não existe nada além do universo físico. Causas e arranjos inteligentes são apenas ordenações felizes de átomos, moléculas, formas e elementos.

A metafísica dos cristãos começa e termina com o ser eterno, puro, simples, absoluto e pessoal do Deus-Trindade, que é distinto do universo. Este é resultado de deliberada e teleológica criação. Além disso, o universo é movido e sustentado por uma ação imanente e exaustiva de Deus.

Filosofia da História

A filosofia da história dos comunistas ecoa muito bem seus pressupostos metafísicos, ou seja, não existe um ordenamento inteligente e proposital na história. A história é apenas uma sucessão de eventos no espaço-tempo sem significado objetivo algum.

A filosofia da história dos cristãos também deriva de sua metafísica. O mesmo Deus que criou o universo com um propósito específico conduz a história em seus mínimos detalhes para uma consolidação específica.

Epistemologia

A epistemologia dos comunistas é um assustador mosaico de ideias conflitantes e asserções injustificáveis. Ela, em seus melhores dias, se baseia no método científico da lógica indutiva e do empirismo. E, nos maus dias, quando se dá conta de que a indução e o empirismo não podem promover qualquer conhecimento real, afunda no niilismo.

A epistemologia dos cristãos parte de um ponto único e central, auto-autenticável e de amplo alcance filosófico, que é a Bíblia. A partir da Bíblia, todo o sistema de pensamento é construído por lógica dedutiva em um sistema racional redimido pela Escritura, inspirada por Deus.

Ética

A ética dos comunistas é uma ética arbitrária relativista, que não encontra nenhum fundamento mais sólido do que o próprio homem ou, em termos mais amplos, do que sociedades particulares. O certo e errado não são mais "certo e errado" do que se convenciona em dada cultura. Além disso, sua ética é situacionista e utilitarista, o que significa que os princípios morais estabelecidos pelos agentes éticos variam conforme as circunstâncias. O errado de hoje pode se tornar o certo de amanhã, sem problema algum.

A ética dos cristãos baseia-se em sua metafísica, de tal modo que se pode falar em uma metaética. Os valores éticos são absolutos pois partem de Deus - de seu caráter e revelação. Eles também são objetivos porque têm o seu locus fora do homem.

Antropologia

A antropologia dos comunistas é materialista. O homem, em última análise, não é mais do que matéria. Não existe no homem nada que o torne especial senão sua inteligência superior. Essencialmente, homens e plantas não são diferentes.

A antropologia dos cristãos afirma que o homem é um ser especial, pois foi criado por Deus à sua imagem. O homem, mesmo nascendo em pecado e, portanto, merecedor da condenação divina, ainda assim é considerado por Deus como um ser distinto cuja vida e propriedades têm um valor especial.

Sociologia

Na sociologia comunista, o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade. Os indivíduos não são realmente culpados por suas transgressões, antes, essa culpa é abstraída no coletivo, segundo o interesse do momento para o Estado. Os grupos minoritários é quem dão a tônica para certas políticas econômicas e de segurança, ao menos até que o Estado esteja fortalecido o suficiente para não precisar mais do artifício tático de separar os cidadãos em grupos e instigá-los ao conflito.

Na sociologia cristã, o homem nasce mau, corrupto e com ódio de Deus. Uma sociedade má é assim porque é constituída de indivíduos maus. Os indivíduos são culpados por suas transgressões e devem ser punidos por elas. Crimes que envolvem assassinato devem ser punidos com pena de morte. Os grupos minoritários não ditam nada. Nem tampouco os majoritários. A sociedade deve ser regida por leis que espelhem os valores divinos para sociedades, valores sempre baseados no indivíduo, no valor da vida humana, na propriedade privada e no livre comércio.

Política

Na estrutura política dos comunistas o valor da propriedade privada é questionado em função de uma suposta necessidade de igualdade social. A concentração de poder é outorgada ao Estado que deve se encarregar de cuidar dos cidadãos. Assim, a segurança dos cidadãos cabe ao Estado. A educação dos cidadãos cabe ao Estado. As posses dos cidadãos cabe ao Estado. As relações comerciais são controladas pelo Estado. O coletivo é posto como prioridade.

No pensamento político cristão a propriedade privada é, no sentido popular do termo, sagrada. Não deve haver igualdade social porque não é essa a vontade de Deus visto que, no sistema cristão, a pobreza não é necessariamente ruim, desde que o pobre tenha a dignidade do alimento e de uma estrutura básica para sobreviver. Quem distribui as riquezas é Deus e Ele o faz outorgando responsabilidades para o rico (para que faça um uso caridoso e responsável de suas posses) e para o pobre (para que confie na providência de Deus - que vem por intermédio do rico - e busque Nele sua esperança). Não há concentração de poder. O Estado é mínimo! A segurança dos cidadãos cabem, em primeira instância, a eles mesmos e, em última, ao Estado. A educação dos cidadãos cabem a eles mesmos e é desenvolvida no seio familiar. As posses dos cidadãos são suas. As relações comerciais devem ser livres. O indivíduo é posto como prioridade.

Diante do exposto, pergunto: Em que universo os pensamentos do comunismo e do cristianismo poderiam convergir para um ponto, qualquer ponto, em comum? Em que universo o cristianismo afirma que os pobres e "excluídos" devem ser os ditadores das asserções políticas?

Não há sequer um ÚNICO ponto de congruência entre as cosmovisões cristã e comunista.

A posição de Bergoglio acerca do cristianismo redefine o conceito de absurdo e nos constrange à oração: oração pelo Ocidente, oração pela consolidação do Reino de Deus e oração para que a graça divina alcance as principais autoridades intelectuais do mundo com discernimento e justiça.

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Notas e referências:

1. EFE. Papa diz que "comunistas pensam como cristãos", 2016. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/mundo/papa-diz-que-comunistas-pensam-como-os-cristaos/>. Acesso em 12 de nov. 2016

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Autor: Paulo Ribeiro
Fonte: Teologia Expressa
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12 proposições sobre um entendimento cristão de economia

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Infelizmente, muitos cristãos americanos sabem pouco sobre economia. Além disso, muitos cristãos assumem que a Bíblia não tem absolutamente nada a dizer sobre isso. Mas uma cosmovisão bíblica, na verdade, tem muito a nos ensinar sobre assuntos econômicos. O significado do trabalho, o valor da mão-de-obra e outras questões econômicas são todos parte da cosmovisão bíblica. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a cosmovisão cristã não exige ou promove um sistema econômico específico.

Por causa disso, os cristãos devem permitir que os princípios econômicos encontrados na Escritura moldem nosso pensamento, embora reconhecendo, ao mesmo tempo, que podemos agir à luz desses princípios em qualquer cenário econômico, cultural ou geracional.

1. Um entendimento econômico cristão tem a glória de Deus como seu maior objetivo.

Para os cristãos, toda teoria econômica começa com um objetivo de glorificar a Deus (1 Coríntios 10.31). Temos uma autoridade econômica transcendente.

2. Um entendimento econômico cristão respeita a dignidade humana.

Não importa o sistema de crenças, aqueles que trabalham manifestam a glória de Deus, quer saibam ou não. As pessoas podem acreditar que estão trabalhando por seus próprios motivos, mas elas estão, na verdade, trabalhando a partir de um impulso pelo que foi colocado em seus corações pelo Criador para a Sua glória.

3. Um entendimento econômico cristão respeita a propriedade privada e a posse.

Alguns sistemas econômicos tratam a ideia de propriedade privada como um problema. Mas a Escritura nunca considera a propriedade privada como um problema a ser resolvido (ver, por exemplo, os Dez Mandamentos). A visão da Escritura de propriedade privada implica que este é o galardão pelo trabalho e domínio do indivíduo. O Oitavo e Nono Mandamentos nos ensinam que não temos o direito de violar as recompensas financeiras do diligente.

4. Um entendimento econômico cristão leva plenamente em conta o poder do pecado.

Levar o ensino bíblico sobre os efeitos penetrantes do pecado plenamente em conta significa que presumimos que coisas ruins acontecem em todos os sistemas econômicos. Um entendimento econômico cristão tenta atenuar os efeitos do pecado.

5. Um entendimento econômico cristão defende e recompensa a retidão.

Todo sistema econômico e de governo vem com incentivos embutidos. Um exemplo disso é o código tributário americano, que estimula procedimentos econômicos desejados. Se ele funciona ou não é uma questão de interminável recalibragem política. Contudo, na cosmovisão cristã, essa recalibragem deve continuar defendendo e recompensando a retidão.

6. Um entendimento econômico cristão recompensa a iniciativa, o empreendimento e o investimento.

Iniciativa, empreendimento e investimento são três palavras cruciais para o vocabulário econômico e teológico do cristão. A iniciativa vai além da ação. É o tipo de ação que faz a diferença. O empreendimento é o trabalho humano feito corporativamente. O investimento é parte do respeito pela propriedade privada encontrado na Escritura.

O investimento, pelo que se constata, é tão antigo quanto o Jardim do Éden. Aquilo que agrega valor é respeitável, e o impulso para agregar esse valor também. Assim, uma teoria econômica cristã culpa qualquer um que não deseja trabalhar, não respeita a propriedade privada e não recompensa o investimento.

7. Um entendimento econômico cristão busca recompensar e incentivar a moderação.

Em um mundo caído, dinheiro e investimento podem rapidamente ser distorcidos para fins idólatras. Por esse motivo, a moderação é um item muito importante na cosmovisão cristã. Em um mundo caído, a fartura de um dia pode se transformar em escassez no próximo. A moderação pode ser aquilo que vai possibilitar a sobrevivência em tempos de pobreza.

8. Um entendimento econômico cristão defende a família como a unidade econômica mais básica.

Quando pensamos sobre a teoria econômica embutida no início da Bíblia, o mandato de domínio é central, mas assim é a instituição divina do casamento. O padrão de deixar e dividir descrito em Gênesis 2 é fundamental para o nosso entendimento econômico.

Adão e Eva foram a primeira unidade econômica. Disto, conclui-se que a família (biblicamente definida) é a mais básica e essencial unidade da economia.

9. Um entendimento econômico cristão deve respeitar a comunidade.

A maioria dos pensadores seculares e economistas começam com a comunidade e, então, passam para a família. No entanto, pensar a partir das unidades econômicas maiores para as menores não somente não funciona na teoria, mas também não funciona na prática. Começar com a unidade da família e então evoluir para a comunidade é uma opção muito mais inteligente. A doutrina da subsidiariedade – que surgiu a partir da teoria da lei natural – ensina que o significado, verdade e autoridade residem na menor unidade significativa possível.

Se a unidade da família é deficiente, governo algum consegue fazer frente às necessidades de seus cidadãos. Quando a família é forte, o governo pode ser pequeno. Quando a família é fraca, contudo, o governo precisa compensar o prejuízo. Ao focar na família, respeitamos e aperfeiçoamos a comunidade.

10. Um entendimento econômico cristão recompensa a generosidade e a mordomia apropriada.

Os cristãos que estão comprometidos com a economia do Reino e com o bem da geração seguinte devem viver com uma perspectiva financeira orientada pelo futuro. Cada um de nós tem a responsabilidade, quer tenhamos muito ou pouco, de entender que nossa generosidade perdura muito além de nossa expectativa de vida.

Uma generosidade viva, a qual é tão evidente na Escritura, é essencial para uma cosmovisão econômica cristã.

11. Um entendimento econômico cristão respeita a prioridade da igreja e sua missão.

Os cristãos devem abraçar prioridades econômicas que o restante do mundo simplesmente não vai entender. Eles devem investir em igrejas, seminários e missões internacionais. Esses são compromissos financeiros cristãos distintivos. Nosso compromisso financeiro último não é para conosco mesmos ou nossos investimentos particulares, mas para o Reino de Cristo. Assim, os cristãos deviam sempre estar prontos a experimentar reviravoltas em suas prioridades e esquemas econômicos, pois as questões urgentes do reino podem intervir a qualquer momento.

12. Um entendimento econômico cristão foca no juízo e promessa escatológicos.

A vida e suas riquezas não podem proporcionar a alegria última. A cosmovisão cristã nos lembra que devemos viver com a ideia de que prestaremos contas ao Senhor pela administração de nossos recursos. Ao mesmo tempo, os cristãos devem olhar para a promessa escatológica dos Novos Céus e Nova Terra como nossa esperança econômica derradeira. Devemos juntar tesouros no céu, não na terra.

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Autor: Albert Mohler
Fonte: Site do autor
Tradução: Leonardo Bruno Galdino
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Os termos não vêm dos termos

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Vern Poythress escreveu um livro sobre a validade da multiplicidade de perspectivas – é o must! De forma sucinta ele lida com questões da linguagem e demonstra como esta revela que há uma perspectiva, tendo em vista que os termos são utilizados pelo que os utiliza a partir de seu entendimento ou arcabouço de significado. Segundo ele, há uma grande dificuldade na definição de termos, pois, em regra, eles não têm apenas um significado e, na teologia, a dificuldade vem do fato de que nenhum termo da sistemática equivale ao termo bíblico.[1] 

O fato é que os termos são utilizados de modo elástico nas Escrituras e de modo estrito na Sistemática. A Bíblia estabelece o sentido do termo pelo contexto, a Sistemática tem o objetivo de reproduzir um grande conteúdo com um termo. A coisa piora, ao meu ver, quando tentamos abarcar a terminologia extrabíblica, querendo enxergar conceitos e pressupostos na Escritura, advindos da filosofia, psicologia, história, sociologia e por ai vai.

Um belo exemplo disto é a liberdade. Liberdade ligada a arbítrio tem, para alguns, o sentido mais pleno da palavra nos conceitos filosóficos e históricos. É aquele atributo de algo que é livre de influências, com a possibilidade de ir a qualquer direção, sem qualquer pré-arranjo. Seria algo totalmente definido pelo ente que a possui, sem “externalidades”.

Bom, quando vejo esse tipo de proposição penso: - “cadê Deus?” Mesmo Nietsche reconhecia que, se Deus existe, tudo muda. Nesse sentido, o que muda em nossos termos, se considerarmos que estamos numa realidade criada? O que será da liberdade, amor, responsabilidade, graça, paz e tudo mais, no caso de Deus existir?

A existência de Deus nos dá um pressuposto único para nossas definições. Partimos de que tudo que vivemos é criado. Todo e qualquer termo, seja uma representação de aspectos concretos ou abstratos da vida, devem ser definidos a partir desta premissa. Sendo assim, olhemos novamente para a liberdade, agora, com a ajuda de Jesus.

Em João 8.32 nosso Redentor arrumou um problemão com os judeus. Mesmo sob o domínio dos romanos, os judeus se viam livres, afinal, eram filhos de Abraão. A verdade é que eles eram tão prisioneiros que não sabiam a verdade sobre si e sobre o discurso de Cristo. Jesus não estava falando de cadeias e de liberdades civis, mas sobre nossa natureza. Sua resposta à indagação dos judeus apontou o problema do entendimento do termo: “Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado.” (Jo 8.34)

Se conhecer a verdade liberta, a conexão correta não é entre os termos liberdade e possibilidade, mas entre os significados de conhecer, verdade e liberdade. Justamente esse foi o ponto de Poythress: qual a perspectiva do escritor, locutor, narrador, enfim? No caso, como é possível ver em João 14.6, a perspectiva do Mestre sobre a verdade é que ele é a verdade. Ainda, sob a perspectiva bíblica, evidenciada por Jesus em Mateus 7.23, conhecer infere relacionamento. Portanto, o conhecimento da verdade é um relacionamento com Cristo. Se há relacionamento com o Filho, você tem a verdade e ela lhe liberta. John Frame elucida mais o assunto:

…todas as coisas estão sob o controle de Deus, e, como veremos, todo conhecimento é um reconhecimento das normas divinas para a verdade; é um reconhecimento da autoridade de Deus. Daí, conhecer alguma coisa, qualquer coisa, é conhecer Deus.[2]

Daí, liberdade não está ligada a possibilidades, mas a estado. É seu estado em relação a Deus que lhe define como livre ou não. 

Para entendermos melhor, voltemos ao pressuposto de que somos criados. Salmo 19 demonstra que a criação existe para revelar seu criador; é uma voz silenciosa e presente em todo canto. A forma como fomos criados, à imagem de Deus, aponta para o fato de que nossa existência não foge a esse propósito. Sendo assim, nossos atributos ou capacidades não existem como uma expressão de nós, mas como uma expressão da forma como Deus nos criou. Portanto, nossa vontade estará sendo plena em existência e capacidade, quando for inclinada para Deus.

O ponto é que o conceito de liberdade em geral está mais ligado à “Liberté, Egalité, Fraternité”, do que a Deus. O sonho de autonomia ou é um levante revolucionário contra o opressor, ou é um coringa lançado para resolver a relação do Criador com a criatura – neste caso, afastando o Criador de sua criação, um deísmo ocasional. O problema é que esta autonomia não tem respaldo bíblico, mesmo que se queira citar aqueles textos que descrevem escolhas humanas.[3]

De fato, nunca se afirmou que as escolhas não existem - essa discussão nunca esteve em pauta nas Escrituras. O ponto é o que torna as escolhas possíveis; como elas se relacionam com a soberania de Deus; o que é uma escolha verdadeira e o que mais vier nessa linha. Conforme Jesus expõe no texto de João 8, nossa liberdade de fazer escolhas está ligada à nossa relação com Deus e não numa relação nossa com as possibilidades. Como bem explicou Matt Pierman:

As muitas passagens na Bíblia onde nos é dito escolher certas coisas não interessam a esse assunto, por elas não dizerem como é que nós fazemos as escolhas que fazemos. Tudo o que eles dizem é que fazemos escolhas. Com isso, predestinação concorda. Mas os textos não dizem que nós temos autodeterminação. Eles não lidam com o assunto de se Deus é ou não a causa última atrás de nossas escolhas. Para esse assunto, nós devemos nos voltar para outros textos das Escrituras, que nós vimos que claramente ensinam o controle de Deus sobre todas as coisas. Assim, nós devemos concluir que humanos fazem, realmente, genuínas escolhas. Mas Deus é a causa última que determina o que nós iremos escolher.[4]

A existência criada nos dá um conceito de liberdade que se fundamenta numa existência dependente de um criador. Portanto, nossa liberdade foi definida por Cristo como sendo algo próprio da existência plena de um ser humano: quando está em comunhão com seu criador. O inverso, ser escravo, prisioneiro, não foi descrito como impossibilidade de escolha, mas estar debaixo do pecado, afastado do Criador.  

Em Efésios 2, Paulo parece ir na mesma linha, ao tratar das inclinações humanas. O morto, alguém incapacitado, é descrito como sendo de natureza ímpia, inclinada para a carne, isso é, pecado, andando segundo o curso do mundo e Satanás. Depois, o apóstolo descreve aquele que poderá andar nas boas obras preparadas de antemão como sendo alguém vivo, ativo, crente, ou seja, com as inclinações para Deus. Isso significa que, a questão da liberdade não se trata de uma possibilidade, mas de estado.

De um lado, quanto mais autonomia, mais liberdade. Do outro, quanto mais comunhão, mais liberdade. Poderíamos acrescentar, seguindo João 8, conceitos e entender que: quanto mais relacionamento com Cristo, quanto maior conhecimento de sua revelação, quanto mais verdade, mais liberdade.

Resumindo: os termos não vêm dos termos, mas de Deus. As definições bíblicas são teoreferentes e não mutuamente referentes, portanto, nossas definições deveriam seguir nesta direção. A dificuldade reside em possuirmos uma perspectiva não bíblica da linguagem e lermos as Escrituras a partir desta perspectiva. Buscando uma adaptação em nossa linguagem, então, aqueles que pensam em termos de autonomia e possibilidades deveriam olhar para os termos bíblicos prisão, escravidão, morto – e similares –, como seus sinônimos.

Diante disto, faço a pergunta: você quer ser livre? Creio que não mais da mesma forma. Isso nos lembra a pensarmos melhor os termos e a procurarmos melhor os pressupostos de nossa linguagem. 

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Notas:
[1] POYTHRESS, Vern. Teologia Sinfônica. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 92.
[2] FRAME, John. A doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 34. O DITNT, São Paulo: Vida Nova, 2000, pp. 397-399, aponta para um ganho de significado na comunicação entre cristãos judeus que escreveram os textos neotestamentários com os gentios convertidos, porém, reconhece a perspectiva veterotestamentária do termo gnosko, apontando para uma ordem de conhecimento que infere ligação, intimidade, sexualidade, pessoalidade, relacionamento.
[3] Poythress ressaltou que “Os perigos também existem porque algumas perspectivas trazem consigo pressupostos anticristãos que passam a condicionar toda a investigação posterior.” Op. cit., p. 14.
[4] PEARMAN, Matt. A consistência da soberania e da responsabilidade humana. Arquivo eletrônico. Tradução livre.1

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Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Fonte: Alegria Indizível
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A lógica perversa da imoralidade sexual

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Sem uma anatomia do pecado não podemos pregar a graça. Quando nos preocupamos em não ser negativos para agradar o mundo, não podemos dar o primeiro passo para a “boa notícia” do Evangelho.

Paulo começa anunciar o evangelho dando o primeiro passo inevitável, uma anatomia do pecado (Romanos 1.18-32). O pecado é, na sua essência, uma supressão da verdade.

Essa supressão da verdade segue uma progressão lógica: 

A rejeição a Deus: Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” - Romanos 1:19-21

A rejeição a Deus leva a adoração da criação: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis” - Romanos 1:22-23 – O homem corruptível passou a ser a medida de todas as coisas.

Em seguida vem a degradação sexual: “Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” - Romanos 1:24-27

Um sentimento perverso reina em cada homem pelo desprezo da Verdade: “E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade”. - Romanos 1:28-29

A família entra em colapso: “Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães”. - Romanos 1:30

Temos então loucura, infidelidade, crueldade e desumanidade: “Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia”. - Romanos 1:31

Depois, há a supressão definitiva da verdade: a promoção descarada dos pecados cometidos por outros: “Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem”. - Romanos 1:32

À primeira vista, porém, essa progressão lógica pode parecer um pouco arbitrária. A imoralidade sexual, por exemplo, realmente leva as pessoas a aprovar a insensibilidade sobre outras pessoas e crueldade?

Essa é uma lógica perversa, o homem finge não vê-la – Muitos defendem a imoralidade sexual e o valor do ser humano – mas isso, na prática, se mostra uma realidade oposta.

Num programa de debates recente, grandes intelectuais da atualidade estavam discutindo as várias revoluções sexuais ocorridas na sociedade ocidental desde o Iluminismo no século XVIII até hoje. Sem perceber, esses intelectuais começaram a dar um tiro no próprio pé do liberalismo sexual que defendiam.

A discussão acabou chegando no ponto em que a “liberdade” sexual geralmente tem um efeito desastroso sobre as crianças. Os intelectuais reconheceram que as crianças sempre são as “vítimas” das revoluções sexuais. Eles afirmaram que as crianças sofrem “emocionalmente” as aventuras sexuais de seus pais, que na verdade, no século XVIII, por exemplo, um grande número de filhos ilegítimos foram expostos a uma existência vil ao serem abandonados para morrer em orfanatos mal equipados onde, sofrimento, abusos, crueldade, morte... eram o comum. Russeau, considerado um dos principais filósofos do iluminismo, encheu esses lugares com um grande número de seus próprios filhos ilegítimos... 

Os próprios intelectuais no debate chegaram a conclusão que as revoluções sexuais sempre machucam incontáveis pessoas, destrói a família, leva a insensibilidade  com a vida, como por exemplo o aborto... E tudo isso deriva de uma noção equivocada ocidental de que o sexo é apenas um assunto de interesse privado do indivíduo.

Mas no fim do debate daqueles intelectuais, houve uma mudança rápida de tom. Isso aconteceu porque eles perceberam que estavam indo contra a liberalidade que eles mesmos defendiam. Contra a evidência que eles mesmos mostraram, foram para o lado oposto. Porque eles, na verdade, tinham o propósito de dizer que “revoluções sexuais” eram coisas boas. Então tiveram que dizer no fim que apesar do grande dano feito a sociedade, aos mais fracos como as crianças, a família, a destruição do tecido social... os “revolucionários” sexuais eram louváveis porque promoviam “mudanças” e “alargavam fronteiras”. Eis a declaração final deles contra a própria conclusão lógica que haviam chegado: “Apesar disso tudo acho que a liberdade sexual é melhor do que a repressão sexual”.

Qual é o resumo dessa lógica absurda? É a “liberdade!” O que mais importa, segundo eles, segundo a mentalidade de nossa sociedade hoje, é que temos liberdade para dar curso aos nossos desejos. Liberdade para fazer o que quisermos. Liberdade das normas sociais, e acima de tudo, liberdade para viver como se Deus não existisse. Isso significa que o sofrimento é o preço que achamos justo. As pessoas mais vulneráveis irão sofrer, outros serão terrivelmente afetados, emocionalmente e de todas as formas possíveis, crianças serão abortadas, crianças crescerão sem lar... nossos filhos carregarão ao longo da vida cicatrizes emocionais, crianças serão abandonadas para morrer, a sociedade terá que arcar com o custo social daquilo que diziam ser algo privado e não da conta de ninguém. Mas, assim seja. Esse é o preço da nossa “liberdade”. 

Agora vemos que a progressão bíblica é real e não arbitrária. A pergunta se a imoralidade sexual, por exemplo, realmente leva as pessoas a aprovar a insensibilidade sobre outras pessoas e a crueldade, está respondida pelos próprios intelectuais modernos defensores das “revoluções sexuais”.

Agora ouça Paulo novamente:

Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia; Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem”. - Romanos 1:30-32

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Autor: Josemar Bessa
Fonte: Site do autor
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Um pequeno ensaio sobre o Sola Scriptura

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Em comemoração aos 499 anos da Reforma Protestante, neste vídeo Erving Ximendes ilustra um pequeno ensaio sobre o Sola Scriptura. Assista:


Transcrição:

Em 2016 completamos 499 anos de Reforma Protestante. No entanto, ainda hoje existem controvérsias relacionadas aos princípios que os reformadores resgataram. Dentre eles, o Sola Scriptura é provavelmente o mais debatido e boa parte disso se deve, na verdade, a definições errôneas do Sola Scriptura.

Sola Scriptura literalmente significa “Somente as Escrituras”. Isso não quer dizer que consideramos as Escrituras como algo isolado da obra do Espírito de Deus dentro da Igreja.  Nada poderia estar mais longe da verdade pois sabemos que a Palavra é divina, e o Espírito que a deu não irá separá-la de sua obra-prima. Até mesmo as verdades mais claras contidas na Bíblia, que para a mente renovada e para o coração regenerado parecem tão convincentes, continuam sendo “loucura” e “pedra de tropeço” para aqueles que não tiveram a obra regeneradora do Espírito Santo em seus corações.

Sola Scriptura mais precisamente significa que “Somente as Escrituras são a única regra de fé infalível para a Igreja” e por “regra de fé” entendemos aquilo que governa e guia o que acreditamos assim como as razões pelas quais acreditamos.

É muito fácil entender o porquê as religiões dos homens negam essa verdade, pois o corolário do Sola Scriptura é que tudo aquilo que uma pessoa precisa acreditar para ser um crente em Jesus está contido na Bíblia (e em nenhuma outra fonte). Logo, se as Escrituras nos foram dadas pelo Espírito Santo, então elas são obrigatórias ao coração e à consciência do crente. Nós não podemos escolher aquilo que vamos ou não acreditar. Como bem afirma a Confissão de Fé Batista de Londres de 1689, uma das muitas Confissões Reformadas que são extremamente claras sobre o assunto:

“A autoridade da Sagrada Escritura, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas provém inteiramente de Deus, sendo Ele mesmo a verdade e o seu autor. A Escritura, portanto, tem que ser recebida, por ser a Palavra de Deus”. (CFBL 1689 1:4)

Ou seja, uma vez que sabemos que Deus é Seu Autor, não existe autoridade mais alta que possa atestar a verdade das Escrituras. Afirmar a necessidade de uma autoridade terrena para estabelecer tanto a veracidade quanto o conteúdo da Bíblia é como dizer que o testamento de um homem só é legítimo se tiver o consentimento de seus filhos. No entanto, sabemos muito bem que o fator determinante naquilo que se trata da legitimidade de um testamento não é a recepção do documento por parte de seus filhos, mas sim a assinatura do homem em questão.

Sendo um pouco mais específica sobre o princípio do Sola Scriptura, a Confissão prossegue dizendo:

“A Sagrada Escritura é a única regra suficiente, certa e infalível de conhecimento para a salvação, de fé e de obediência. A luz da natureza, e as obras da criação e da providência, manifestam a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, de tal modo que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar conhecimento de Deus e de sua vontade que é necessário para a salvação. Por isso, em diversos tempos e por diferentes modos, o Senhor foi servido revelar-se a si mesmo e declarar sua vontade à sua igreja. E para a melhor preservação e propagação da verdade, e o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja, contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazer escrever por completo todo esse conhecimento de Deus e revelação de sua vontade necessários à salvação; o que torna a Escritura indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos em que Deus revelava sua vontade a seu povo”. (CFBL 1689 1:1-4)

Essas palavras foram escolhidas com muito cuidado, então preste muita atenção: suficiente, certa e infalível. Três atributos das Sagradas Escrituras que nada mais nesse mundo pode possuir. Teste qualquer outro candidato ao trono de fidelidade da igreja, e você vai descobrir que ele não é suficiente em seu âmbito e matéria, não é certo em sua natureza e conteúdo nem é infalível em sua consistência e autoridade.


A confissão também reconhece a existência de uma revelação geral presente na natureza, mas, ainda assim, ela corretamente afirma que tal revelação é insuficiente para transmitir o evangelho e que ao invés disso Deus escolheu colocar sua verdade na escrita. Porquê? “para a melhor preservação e propagação da verdade, e o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja”.

Esteja também atento ao que a Escritura é suficiente para revelar: o conhecimento para a salvação, de fé e de obediência. Obviamente, aqui não estamos afirmando que a Bíblia é o depósito completo de todo o conhecimento humano e divino. Ela é manifestamente limitada a partir do lado divino, uma vez que “as coisas encobertas pertencem a Deus” (Deut. 29:29), assim como do lado humano, isto é, a Bíblia não contém tudo o que é necessário saber para realizar uma cirurgia cerebral ou para entender física quântica. Logo, os argumentos que demonstram que a Bíblia não é capaz de fazer essas coisas não são argumentos contra o Sola Scriptura mas contra um espantalho criado por seus oponentes.

Outro argumento feito pelos opositores desse princípio é pronunciado mais ou menos da seguinte maneira:

“Existe apenas uma igreja verdadeira: a Igreja Católica Apostólica Romana! Agora, eu desafio você a olhar para o protestantismo e contar quantas denominações existem. Não parece óbvio que o Sola Scriptura só causou confusão?”

O problema nesse argumento é que ele falha miseravelmente em cada nível possível. Em primeiro lugar, como é que o apologista católico romano pode demonstrar que o
Sola Scriptura é a real causa dessas divisões? Por exemplo, quando vemos divisões nas diversas classes da igreja romana, encontramos fortes divergências em relação a questões-chaves. Será que podemos concluir então que o magistério romano é o culpado pelas diferenças de ponto de vista? Creio eu que não. Como é que se pode então chegar à conclusão de que um abuso das Sagradas Escrituras pode ser usado como um argumento contra sua suficiência? Isso não é nem um pouco lógico. As Escrituras podem ser perfeitamente suficientes, mas ainda assim os homens são pecadores. Ainda assim os homens são imperfeitos. Ainda assim os homens ainda são ignorantes. E, mais importante, ainda assim os homens possuem tradições.

Talvez isso fique um pouco mais claro com uma ilustração. Se você tem alguns anos de experiência com computadores, provavelmente já passou pela experiência de trocar de impressora. A maioria de nós apenas abre a caixa, lê as primeiras frases do manual e começa a conectá-la para ver se funciona. Uma vez impresso o primeiro documento, assumimos que ela funcionará da mesma maneira que nossa impressora antiga. O problema é que mais cedo ou mais tarde iremos nos deparar com situações complicadas. E isso tudo porque assumimos que nossa experiência era suficiente para fazer a impressora funcionar corretamente e porque não deixamos o manual falar por si mesmo.

De maneira semelhante, ir até as Escrituras com nossas tradições é como transferir nossa experiência com a impressora antiga para a nova. O fato de você assumir que a impressora funcionaria de uma determina maneira obviamente não torna o manual de instruções culpado. Tampouco ele seria responsável por esses problemas se você escolhesse a dedo as seções do manual que iria ler. Ou seja, é possível ter um manual de instruções perfeitamente claro e conciso e ainda assim haver consumidores que utilizem a impressora incorretamente. E aí está o cerne da questão, quem professa o Sola Scriptura sabe que Deus escreveu o manual de instruções com clareza. Os que abraçam uma autoridade externa à Bíblia não. E isso e bem refletido nas seguintes palavras do escritor católico Gilbert Chesterton, “a Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo”.

Em segundo lugar está a observação (dolorosamente óbvia) de que apenas uma pequena porcentagem das igrejas “protestantes” de hoje conscientemente se interessam em professar a doutrina do Sola Scriptura. Para falar a verdade, um grande número de igrejas não-católicas abraçam diversos tipos de conceitos que claramente violam o Sola Scriptura. Alguém que consistentemente se professa como Protestante acredita não somente que Deus falou através dos profetas e apóstolos mas também que Ele falou com suficiência e clareza. No momento em que alguém abandona um desses pontos, esse alguém não pode ser considerado um protestante coerente. O alto número de denominações existentes não se dá por causa do Sola Scriptura, mas apesar dele. Sendo assim, como é que se pode responsabilizar o princípio pelas ações daqueles que sequer acreditam nele? Obviamente, não podemos! Na realidade, as igrejas que procuram de fato professar, confessar e aplicar o Sola Scriptura são significativamente mais próximas em sua teologia do que aquelas igrejas que procuram uma fonte externa e inspirada de interpretação e revelação.

Tendo em vista tudo o que temos dito até então, eu espero que esse curto ensaio venha a ser um pequeno passo em direção a um melhor debate sobre a natureza, suficiência e necessidade das Escrituras dentro da comunidade cristã brasileira. 

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Autor: Erving Ximendes
Fonte: Olhai e Vivei
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Minhas impressões sobre a Reforma Protestante

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Hoje, 31 de Outubro é celebrado o Dia da Reforma Protestante pela maioria dos cristãos espalhados pelo mundo. A Reforma resgatou valores e trouxe um impacto profundo sobre os aspectos políticos, econômicos, sociais, literários e artísticos da sociedade. Foi, sobretudo, uma batalha pela fé e a redescoberta das doutrinas esquecidas ou ignoradas das Escrituras. A reforma nos deu a Bíblia, agora disponível em nossas próprias línguas; a liberdade religiosa e de consciência, o Estado de Direito. Ao mesmo tempo, os reformadores lutaram pelos princípios que somente a Escritura é nossa autoridade final, que somente Cristo é o cabeça da Igreja, a justificação é pela fé e tão somente graça de Deus nos méritos da obra consumada por Cristo na cruz do calvário. Os sacrifícios feitos pelos reformadores, o impacto de longo alcance e a aplicação corajosa da Bíblia para cada área da vida são frutos da obra divina.

O legado da Reforma nos inspira. Mais escolas e universidades foram levantadas pelos cristãos do que por qualquer outra religião, nação ou grupo. A elevação das mulheres e a luta contra a exploração degradante da poligamia e da discriminação fez parte da reforma. Os reformadores e missionários conseguiram trazer a abolição da escravatura, canibalismo, o sacrifício de crianças e queimação de viúvas. A verdade é que a influência da igreja tem, ao longo da história, contido a desumanidade do homem. Países que gozam as liberdades civis são geralmente mais aqueles onde o Evangelho de Cristo penetrou mais profunda e poderosamente.

A Reforma Protestante, ainda que não imune a erros, mudou a história do mundo e a vida da própria igreja. Oro para que Deus nos conserve fiéis ao genuíno evangelho e seus valores e, que os clamores da Reforma - Somente a Escritura, Somente a Graça, Somente Cristo, Somente pela Fé e a Deus toda Glória – sejam ouvidos, defendidos e proclamados nas igrejas evangélicas do nosso Brasil.

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Sobre o autor: Marcos Sampaio é teólogo e pastor da Igreja Batista da Caputera, Angra dos Reis-RJ.
Divulgação: Bereianos
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O que a circuncisão tem a ver com batismo?

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Gravado na Semana Teológica do Seminário JMC, neste vídeo George Lucas do Canal Geolê entrevista o Rev. Daniel Piva sobre a seguintes questões: Batismo é para nós o que foi a Circuncisão para os Judeus? Como se dá essa relação? Crianças devem ser batizadas? Assista:


Transcrição:

Geolê: Reverendo, por que estudar sobre circuncisão? Isso não é coisa do Antigo Testamento e atualmente apenas uma preocupação de judeu? 

Daniel Piva: Essa é uma pergunta importante. Parece só uma questão cultural ou talvez história para curiosidade, mas na verdade não. 

Nós, reformados, entendemos que o Cânon Bíblico é composto de Antigo e Novo testamento, não como uma mera aproximação; eles são uma unidade orgânica! Para eu entender o AT eu preciso olhar para o NT e perceber como aquelas coisas se ampliaram, plenificaram e aplicaram. E quando estou no NT e quero saber as bases (e não é porque é base que é menor. Afinal, sem base as coisas não funcionam), então me reporto ao AT, e entendo muito melhor. Isso também se chama Hermenêutica Canônica, isto é, eu caminho entre os dois Testamentos e entendo a Verdade Bíblica, que é uma só. 

Então para se falar de batismo, necessariamente eu preciso falar de circuncisão, pois entendemos que é uma em decorrência da outra. Eu também não poderia, por outro lado, estudar apenas circuncisão e não olhar para o NT e como ela foi ampliada, plenificada e aplicada. 

Geolê: E agora olhando para o NT, nós não temos não texto que traga expressamente “Batize crianças”. Então porque a gente entende que crianças, e de maneira mais específica os filhos dos crentes, devem ser batizadas? 

Daniel Piva: Está mais uma vez relacionada com a questão do AT e do NT. Se nós entendemos que é o mesmo Deus, o criador da Aliança; o mesmo Mediador, Cristo; e ainda as mesmas pessoas de todos os tempos, isto é, não apenas do povo judeu, mas dos eleitos, nós entendemos que as coisas não mudaram. Tanto os participantes quanto as alianças, todos vão se complementando, e não se anulando, conforme a nova chega; elas vão se ampliando.

Então é necessária toda essa transposição do AT para o NT para eu entender essa decorrência. Sim, de fato não há nenhum texto no NT que diga para batizar crianças, assim como há tantas coisas no NT que não extinguiram as coisas do AT, mas continuam em decorrência essencial mudando apenas a forma. O mais clássico que os evangélicos conhecem é o sacrifício. No NT temos os sacrifícios, no NT temos O Sacrifício, Cristo. Então a circuncisão vem, mas em um momento ela cessa, mas a Aliança não cessou, o Mediador não cessou, Deus não mudou. Então aquela marca tem de continuar. Como? De nova forma com o batismo. Circuncisão nas crianças, então batismo nas crianças. 

Geolê: E para quem quiser se aprofundar e entender um pouco mais sobre esse assunto, que bibliografia o senhor recomenda? 

Daniel Piva: Existem as literaturas específicas, mas para porta de entrada o melhor seriam as literaturas básicas. Confissão de Fé de Westminster, Catecismo Maior de Westminster, Breve Catecismo de Westminster, e dois teólogos bastante conhecidos no meio reformado. O principal, obviamente, João Calvino que em suas Institutas tem uma parte para sacramentos, uma parte específica para ceia, uma parte específica para batismo, e nesta ele fala desta questão das crianças. Ele mesmo faz uma espécie de debate consigo mesmo respondendo às perguntas que normalmente surgem. E em Teologia Sistemática, Louis Berkhorf. 

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Fonte: Geolê
Palestra completa do Rev. Daniel Piva, disponível aqui!

Livros Citados: 

Confissão de Fé de Westminster - Editora Cultura Cristã. (Não encontrado)
Catecismo Maior de Westminster - Editora Cultura Cristã
Breve Catecismo - Editora Cultura Cristã. (Não encontrado)
As Institutas - João Calvino. Editora Cultura Cristã
Teologia Sistemática - Louis berckof. Editora Cultura Cristã
What is Baptism? - R. C. Sproul
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O que eu perco quando perco o culto?

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Você pode imaginar a sua vida sem culto? Você consegue imaginar a sua vida sem se reunir regularmente com o povo de Deus, para adorá-lo em conjunto? O culto corporativo é um dos grandes privilégios da vida cristã. E talvez ele seja um daqueles privilégios que, ao longo do tempo, tomemos como certo. Quando eu paro para pensar a respeito, não consigo imaginar a minha vida sem culto. Eu nem mesmo desejo pensar nisso. Mas eu acho que vale a pena considerar: O que eu perco quando eu perco o culto?

Vivemos numa cultura consumista onde temos a tendência de avaliar a vida através de meios muito egoístas. Fazemos isso com o culto. “Hoje o sermão não falou comigo. Eu simplesmente não consegui apreciar as canções que cantamos nesta manhã. A leitura da Escritura foi demasiado longa”. Quando falamos dessa maneira podemos estar dando provas de que estamos indo à igreja como consumidores, como pessoas que desejam ser servidas em vez de servir.

No entanto, o ponto primário e o propósito de cultuar a Deus é a sua glória, não a satisfação das nossas necessidades sentidas. Nós adoramos a Deus, a fim de glorificar a Deus. Deus é glorificado no nosso culto. Ele é honrado. Ele é magnificado à vista daqueles que se juntam a nós.

Dessa forma, o culto rompe completamente com a corrente do consumismo e exige que eu cultue por amor da sua glória. Tenho ouvido dizer que o culto “é a arte de perder o ego na adoração de outro”. E é exatamente este o caso. Eu esqueço de tudo sobre mim e dou toda honra e glória a Ele.

O que eu perco sem o culto? Eu perco a oportunidade de crescer através de ouvir um sermão e de experimentar alegria por meio do cântico de grandes hinos. Eu perco a oportunidade de me unir a outros cristãos em oração e para recitar grandes credos com eles. Mas, mais que isso, eu perco a oportunidade de glorificar a Deus. Se eu parar de cultuar, estarei negligenciando um meio através do qual eu posso glorificá-lo.

Você vê? O culto não é sobre você ou sobre mim. O culto é sobre Deus. E, realmente, isso muda tudo.

Quando vejo o culto como algo que, em última análise, existe para o meu bem e para a minha satisfação, fica fácil tirar um dia de folga e pensar que a minha presença não faz nenhuma diferença. Mas quando eu venho para glorificar a Deus, eu entendo que ninguém mais pode tomar o meu lugar. Deus espera o levantar das minhas mãos, o erguer do meu coração e o levantar da minha voz a Ele.

Quando vejo o culto como algo que é todo sobre mim, fica fácil pular de igreja em igreja e estar sempre à procura de algo que se ajuste melhor a mim. Mas quando eu vejo a igreja como algo que é verdadeiramente sobre Deus, me pego procurando por uma igreja mais pura e melhor em adorar do modo exato como a Bíblia ordena – Eu procuro por uma igreja através da qual eu possa glorificá-lo cada vez mais.

Sem dúvida, o culto é um privilégio. Mas também é uma exigência, uma responsabilidade. E a maior responsabilidade, bem como o maior privilégio no culto, é trazer glória a Deus.

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Autor: Tim Challies 
Fonte: What Would I Lose if I Lost Worship?
Tradução: Rev. Alan Renê Alexandrino Lima
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Os Dez Mandamentos e a Ética Cristã

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Antes de tudo, é necessário termos uma coisa em mente: a lei de Deus, os Seus dez mandamentos são divididos em duas tábuas. A primeira diz respeito ao relacionamento do homem com Deus; a segunda nos guia no nosso relacionamento com o próximo. Como os cristãos devem se portar na sua vida diária? O que fazer com as escolhas morais? Como fazê-las e baseada em quê será nossa decisão? Essas são perguntas que, de forma geral, tentaremos responder ao longo do texto. Como os dez mandamentos são bastante extensos e grandemente profundos, não será possível esgotar, de maneira nenhuma, este assunto aqui neste ensaio. A minha intenção, então, será analisarmos a importância deste tema para o cristão, assim como observarmos o mandamento “Não terás outros deuses diante de mim.”

A lei é o reflexo da santidade de Deus, da sua perfeição. Através dela podemos ver o que Deus é, e o que nós somos. Aquele (o decálogo) é o padrão pelo qual o caráter de Deus é composto, e pelo qual o nosso é julgado. Nessas dez regras temos conceitos simples, mas abrangentes. Pequenos, mas complexos. Devemos nos achegar à revelação divina da Sua vontade para o nosso dia a dia de forma humilde, sabendo que nada somos e que Deus nos revelará o que lhe apraz nos momentos certos. Podemos ler dez, vinte ou até trinta vezes o decálogo, mas nunca ele será esgotado. O próprio Cristo, no sermão do monte, desenvolve os dez mandamentos e aplica-os ao povo e a nós, através das Escrituras. Devemos então nos curvar de forma humilde, reconhecendo a grandiosidade e santidade do nosso Senhor descrita no Decálogo.

Tiago Santos coloca sabiamente a definição da palavra “ética cristã”, ele diz: “é o 'modus vivendus' do povo de Deus.” Ou seja, o modo pelo qual o povo de Deus deve se guiar. Salmo 119:105 afirma que a palavra de Deus é lâmpada para os pés e luz para o caminho. Precisamos entender que é extremamente necessário e de tamanha importância que o cristão saiba como viver. A primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster diz: “Qual o fim supremo e principal do homem?” imediatamente ele responde: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre [Rm 11:36; 1Co 10:31; Sl 73:24-26; Jo 17:22-24].” A pergunta é: como viveremos para glorificar e alegrar-se em Deus? Observando a Sua Santa Palavra e vivendo de acordo com a Sua Santa vontade [o modus vivendus do homem].

Podemos também observar o texto de Romanos 12:2, que diz: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Como cristãos, devemos não apenas fazer o correto, mas pensar correto. Não devemos nos moldar ao modelo deste mundo, e muito menos às regras morais deste mundo. Pelo contrário, não podemos nos deixar ser influenciados e nem nos conformar com este mundo, mas devemos renovar nossa mente, dia após dia, para que possamos viver de modo bom, agradável e perfeito, de acordo com a vontade de Deus. Esse é objetivo do homem!

Outro fator importante que devemos saber é que o cumprimento do decálogo não salva, pelo contrário; ele condena! Ele nos mostra quem somos. Essa é uma diferença central do cristianismo bíblico para as outras religiões. A maioria, senão todas as outras religiões, são movidas por boas obras. As pessoas, para alcançarem o “céu” precisam fazer boas obras e etc. Esse é o pensamento que gira no mundo a respeito do homem. Porém, isso não é o que as Escrituras falam. O homem é impuro, corrupto, miserável, condenado, pecador, manchado, depravado, e tudo mais. Por isso, ele não tem a capacidade de cumprir todo o mandamento do Senhor. O cristão não cumpre a lei de Deus para ser salvo, mas por amor! [João 14:23] O que nos move e capacita a cumprir a lei de Deus é o Santo Espírito. Ele, apenas Ele, pode nos capacitar a fazê-lo.

Não terás outros deuses diante de mim.”

Aqui temos um mandamento tão conhecido, e ao mesmo tempo tão negligenciado. Deus diz ao povo de Israel que não tolera diante da Sua face qualquer outro Deus, pois Ele é o único. No contexto da época, o povo estava rodeado de religiões pagãs, onde cada uma reivindicava o seu próprio deus. Na verdade, nesse exato momento, o povo tinha acabado de sair de uma cultura onde vários deuses eram cultuados. Cada um na sua “área”. O sol, o rio, a natureza, a vida, e por aí vai. Cada área do ser humano era governada por um deus diferente. Essa era a ideia.

O povo de Israel, o povo escolhido e separado por Deus, precisava entender que o Deus deles, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó era o Deus verdadeiro, hoje e sempre. Infelizmente, essa ideia não ficou presa àquela época. Hoje, não só pagãos, como também cristãos, acreditam “mesmo que sem querer” num deus compartimentado; o qual não é o Deus das Escrituras. Michael Horton coloca da seguinte forma: “Podemos ver em nossos próprios círculos cristãos traços dessa mudança de ideia de um Deus Soberano que revelou-se num tempo e espaço reais na História, para a noção de deidades locais que gerenciam os compartimentos separados de nossa vida, garantindo o sucesso e a felicidade em suas esferas respectivas. Isso é raramente declarado, mas frequentemente praticado: Deus está encarregado da área chamada “religião”, mas a própria vida é governada por um panteão de deidades: carreira, posses, ambição, auto-estima, família, amigos, entretenimento, moda. Sempre que tomamos uma decisão de violar a vontade revelada de Deus em favor de uma dessas “deidades”, estamos colocando outros deuses diante do único e verdadeiro Deus vivo.”¹ Quantas “deidades” não existem em nossos corações querendo tomar o trono do Senhor dentro de nós? Simples coisas do dia a dia nos impedem de adorar a um único Deus, o verdadeiro.

A cultura brasileira está arraigada no catolicismo romano. Cristãos tem repúdio a imagens por causa dessa cultura donde vivemos e viemos, mas às vezes esquecemos que não só existem ídolos físicos (imagens), mas também os do coração. Pessoas estão tão presas a condenar alguém que adora uma imagem – de forma nenhuma estou concordando com a adoração de imagens – que se esquecem que no seu coração, talvez, exista mais ídolos do que todos aqueles os santos da Igreja Católica Romana. O Senhor neste mandamento não condena somente ídolos visuais, mas qualquer coisa que ocupe o lugar Dele em nossas vidas.

Salmos 115:1 diz: “Não a nós Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade.” O povo de Israel que tantas vezes abandonou a Deus por causa de falsos deuses reconhecem a majestade de Deus. Por que será que no início diz-se 'Não a nós Senhor, mas ao teu nome dá glória […]'? Simplesmente porque o coração do homem tem dois deuses, ou o Deus verdadeiro ou ele mesmo. Como já dizia João Calvino: “O coração do homem é uma fábrica de ídolos”. Calvino, como um perspicaz teólogo, entende exatamente o ponto. Se o deus do homem não é o Deus verdadeiro, é ele mesmo. Ele fabrica, seja: religiões, ele mesmo (ateísmo), trabalho, esposa, namorada, dinheiro, sexo, vícios; qualquer um. Fora do Deus santo e verdadeiro - que é aquele que preenche o vazio que o homem tem – não há verdade. Só há pseudo-deuses, tentando ocupar o lugar que não é para eles, e como não é para eles, eles não vão conseguir preenchê-lo.

No decorrer do Salmos 115:4-8, o salmista descreve como são os deuses das nações ao seu redor: “Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens. Têm boca, mas não falam; têm olhos e não veem; têm ouvidos, e não ouvem; têm nariz e não cheiram. Suas mãos não apalpam; seus pés não andam; som nenhum lhes sai pela garganta. Tornem-se semelhantes a ele os que os fazem e quantos neles confiam.” Os idólatras se tornam inúteis diante do Deus que está no céu (ver Sl 115:3). Eles são como mortos, são como os deuses que eles adoram.

C. J. Mahaney no seu artigo² observa alguns meios de identificar a idolatria do homem, alguns deles são:

(1) – As Escrituras: como cristãos não só precisamos, como devemos observar toda nossa vida de acordo com as Escrituras Sagradas. Ela é a nossa única regra de fé e prática. É através dela que o Senhor nos ensina como devemos viver. Como disse anteriormente, toda a idolatria do homem flui do seu próprio coração corrupto, e as Escrituras penetra-o e o corta (ver Hb 4:12-13).
(2) – O Espírito Santo: Através da ação divina do Espírito Santo podemos perceber o que está em nosso coração que está tomando o lugar do nosso Deus. Investir tempo em oração clamando a Deus que o ES ilumine nossa mente para identificar e deixar a nossa idolatria.
(3) – Os outros irmãos: através do amor mútuo, da comunhão que desfrutamos através do sangue de Cristo, precisamos confrontar uns aos outros. O nosso coração é orgulhoso e enganoso, e muitas vezes não conseguimos identificar, por nós mesmos, o que está no nosso coração tomando o lugar do Senhor. Portanto, através de humildade precisamos escutar os outros, e através do amor confrontar os outros.

O Catecismo Maior de Westminster, pergunta 104 diz: “Quais são os deveres exigidos no primeiro mandamento?” Como resposta: “Os deveres exigidos no primeiro mandamento são: conhecer e reconhecer Deus como único verdadeiro Deus, e nosso Deus; adorá-lo e glorificá-lo como tal; pensar e meditar nele; lembrar-nos dele, altamente apreciá-lo, honrá-lo, adorá-lo, escolhê-lo, amá-lo, desejá-lo e temê-lo; crer nele, confiando, esperando, deleitando-nos e regozijando-nos nele; ter zelo por ele; invocá-lo, dando-lhe louvor e agradecimentos, prestando-lhe toda a obediência e submissão do homem todo; ter cuidado de lhe agradar em tudo e tristeza quando ele é ofendido em qualquer coisa; andar em humildade com ele.” Na pergunta seguinte é descrito todos os pecados que são condenados com o primeiro mandamento. De forma singular o Catecismo de Westminster explora as Escrituras quanto a esse assunto. Soli Deo Gloria, Sola Fide, Solus Christus, Sola Scriptura e Sola Gratia; esses brados da reforma ecoam como um funil, onde no início têm-se todos eles juntos, mas no fim, lá no fim do funil, temos uma única coisa: a Glória de Deus.

Esse primeiro mandamento – não terás outros deuses diante de mim – é nada mais, nada menos que o Senhor dizendo ao Seu povo: 'Toda a glória seja dada a mim! Eu sou o único e verdadeiro Deus, qualquer outro deus é abominação. A glória que seria dada a ele (o suposto deus) é para ser dada a mim!' A glória é Dele, a salvação é dele, o nosso coração deve repousar somente Nele.

Soli Deo Gloria.
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Referências:

[1] HORTON, Michael, A Lei da Perfeita Liberdade, Ed. Cultura Cristã, pág. 34.
[2] http://www.monergismo.com/textos/pecado_tentacao/idolatria_mahaney.htm

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Autor: Danyllo Gomes
Fonte: Verdade do Cristianismo
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