Mateus 11:20-24 ensina o Molinismo (Conhecimento Médio)?

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Por Dr. Joseph R. Nally


Ao teólogo Jesuíta Luis de Molina é, geralmente, atribuído a posição e origem do Molinismo, embora Fonseca e Lessius compartilhem das mesmas ideias. Eles usam textos tais como Mateus 11 para mostrar que Deus tem “Conhecimento Médio”. Em nossos dias, William Lane Craig afirma o mesmo, e a [denominação] The Baptist Faith and Message parece resumir o Molinismo: “O perfeito conhecimento [de Deus] se estende a todas as coisas, passadas, presentes e futuras, incluindo as decisões futuras de suas criaturas livres” (Artigo 2).

O Molinismo, em poucas palavras, declara que Deus tem três tipos de conhecimento: natural, médio e livre.

1) Conhecimento Natural é o conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis (tudo que diz respeito ao que é necessário e possível no entendimento de Deus).

2) Conhecimento Livre é o conhecimento de Deus deste mundo atual. Por um “ato livre”, ele é capaz de conhecer o que ele conhece absolutamente (Até agora estamos bem, mas Molina diz que esse conhecimento (livre) não é alguma coisa que seja essencial em Deus).

3) O Conhecimento Médio declara que Deus não pode conhecer os atos livres futuros dos homens da mesma maneira que ele conhece outras coisas absolutamente.

Assim, de acordo com Molina, este Conhecimento Médio é dependente dos atos livres que os homens farão. Portanto Deus, em sua onisciência, espera pelo atos dos homens e, então, escolhe salvá-los com base em suas escolhas de serem salvos.

Agora, voltemos ao texto da questão (que está entre outros textos-provas de Êxodo 13.17; 1 Samuel 23.8-14; Jeremias 23.21, 22; 1 Coríntios 2.8).

Mateus 11.20-24: Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti.

Primeiro, o Conhecimento Médio é uma não-realidade. O conhecimento de Cristo é simplesmente natural (conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis), não médio.

Segundo, Mateus 11 apenas prova o conhecimento de Deus de contrafactuais, não conhecimento médio. Como Travis Campbell, em Conhecimento Médio: Uma Crítica Reformada, declara:

Na melhor das hipóteses, as passagens frequentemente usadas pelos defensores do conhecimento médio provam, se provam alguma coisa, apenas “que Deus, conhecendo todas as causas, tanto as livres como as necessárias, sabe o que qualquer criatura fará em quaisquer condições. Mesmo nós sabemos que se pusermos fogo à pólvora, seguir-se-á uma explosão.” (A.A. Hodge, Outlines of Theology [Carlisle, Pa.: Banner of Truth, 1972], 148). Em outras palavras, essas passagens bíblicas nos mostram apenas que Deus conhece a natureza dos agentes livres tão bem que, fossem os agentes colocados em outras circunstâncias, Deus sabia exatamente que eles fariam. E isso não reconcilia conhecimento médio com libertarianismo, mas com compatibilismo. Mais importante ainda, é certamente possível que Deus conhece esta informação logicamente apenas posterior ao decreto divino, eliminando assim a necessidade do conhecimento médio. Portanto, há pouca, se há alguma, garantia bíblica para scientia media.

Bastante interessante, Craig admite este ponto, dizendo:

Desde que a Escritura não reflete sobre esse assunto, quase nenhum texto-prova pode provar que o conhecimento de Deus de contrafactuais é obtido logicamente antes de seu decreto divino. Isto é assunto para reflexão da teologia filosófica, não para exegese bíblica. Então, embora seja claramente anti-bíblico negar que Deus tenha conhecimento simples e mesmo conhecimento de contrafactuais, aqueles que negam o conhecimento médio não pode ser acusado de ser anti-bíblico (Craig, "Middle Knowledge View," 125.)

Terceiro, os defensores do Conhecimento Médio não podem deixar de fora, como Paul Harvey diria, “o resto da história”.

Mateus 11.25-27: Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

O Conhecimento Médio aqui é condenado. Quando Jesus diz, “Pai, Senhor do céu e da terra”, ele está dizendo que Deus em sua soberania tinha, em seu agrado, ocultado conhecimento de alguns e revelado esse mesmo conhecimento a outros. Mateus 11 não fala sobre Deus não conhecendo qualquer coisa até que o homem fizesse alguma coisa. Pelo contrário, já as conhece e apenas não quer revelá-las até/se ele desejar. Mateus capítulo 11 está ensinando sobre o justo julgamento porvir (Mt 11.15-19). Observe que isso não aconteceu ainda, mas  Cristo sabe que irá acontecer. Isto não é conhecimento médio, mas conhecimento natural e conhecimento livre para justamente agir como Deus vê e prepara segundo sua vontade.

Deus é soberano sobre todas as coisas (Prov. 16:33; Mat. 10:29; Rom. 11:36; Ef. 1:11 etc.), até mesmo sobre as decisões humanas (Prov. 20:24; 21:1). Embora Deus não tente ninguém ao pecado (Tiago 1:13), Ele ainda está agindo em todas as coisas, de indivíduos à nações, para o fim que Ele tem desejado (Is. 46:10-11). O propósito de Deus não depende do homem (At 17:24-26), nem Deus descobre ou aprende (1 Jo 3:20; Jó 34:21-22; Sal. 50:11; Prov. 15:3). Todas as coisas são decretadas pelo conselho infinitamente sábio de Deus (Rom. 11:33-36).

A Confissão de Fé de Westminster substancia a posição ortodoxa no Capítulo III. 1 – 3, Dos Decretos de Deus:

I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.
Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.
II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.
At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.
III. Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.
I Tim.5:21; Mar. 5:38; Jud. 6; Mat. 25:31, 41; Prov. 16:4; Rom. 9:22-23; Ef. 1:5-6.

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Sobre o autor: Dr. Joseph R. Nally, D.D., M.Div. é editor teológico no Third Millennium Ministries (IIIM).

Fonte: Third Millennium Ministries
Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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O Deus Falível do Molinismo

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Por James N. Anderson


Recentemente ouvi o bate-papo sobre Molinismo e Calvinismo entre William Lane Craig e Paul Helm no programa de rádio Unbelievable? de Justin Brierley. Foi mais uma conversa que um debate, mas ainda assim vale a pena ouvir. Nesta postagem eu quero expandir um ponto levantado por Helm, mas não desenvolvido por ele. Primeiro eu resumirei os principais dogmas do Molinismo antes de discutir o que eu considero ser uma séria objeção a ele (seja paciente – a primeira metade desta postagem é apenas a armadilha).

Molinismo é uma teoria filosófica planejada para reconciliar uma forte visão da providência divina (segundo a qual Deus preordena todas as coisas) com uma visão libertária do livre-arbítrio e uma visão sinergista da salvação (segundo a qual não é causada por Deus para qualquer arrependimento e crença; ao invés, os pecadores cooperaram livremente com a graça resistível de Deus a fim de serem salvos). De acordo com o Molinismo, Deus é capaz de, providencialmente, dirigir eventos por meio de seu conhecimento médio, isto é, seu conhecimento do que qualquer criatura libertariana-livre escolheria em qualquer circunstância específica. Por exemplo, Deus sabia de antemão antes do tempo de sua decisão de criar este mundo que eu livremente escolheria um Boston Kreme se eu fosse ao Dukin’ Donuts na noite de 19 de fevereiro de 2014 em tais e tais circunstâncias exatas. Deus, então, é capaz de planejar eventos do primeiro ao último em muitos detalhes por pré-arranjar as circunstâncias precisas nas quais suas criaturas se encontrariam e fariam suas escolhas livres. Deus não causou as escolhas, ele apenas garantiu-lhes em algum forte sentido por orquestrar as circunstâncias à luz de seu conhecimento médio.

Molinistas estão, portanto, comprometidos com três afirmações principais. Primeiro, Deus preordenou todas as coisas, incluindo as livres escolhas de suas criaturas. Craig foi bastante enfático sobre isso durante a conversa com Helm. Ele declarou que Deus ‘preordenou’ todas as coisas e ironizou que ele poderia afirmar quase tudo que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre o Decreto eterno de Deus e a Providência de Deus – à parte da rejeição deliberada confissão do Molinismo (no a cláusula final em CFW 3.2)

A razão de Molinistas tais como o Craig quererem afirmar isto é porque eles reconhecem que a Bíblia tem uma forte visão da providência (e.g Gen. 50:20; Matt. 10:29-30; Acts 4:27-28; Rom. 8:28; Eph. 1:11). E eles devem ser elogiados por reconhecerem isso (embora, como explicarei em breve, a visão bíblica é mesmo mais forte do que eles pensam).

Em segundo lugar, por afirmar uma visão libertária do livre-arbítrio, os Molinistas estão comprometidos com ideia de que se uma pessoa S escolhe livremente A em uma circunstância específica C, então deve ser possível para S não ter escolhido A. Pode ser mais provável (talvez até esmagadoramente assim) que S escolherá A sobre não-A, mas não deve ser possível para S ter escolhido de outra forma. (Aqui estou sem levar em conta a distinção que alguns libertários fazem entre escolhas derivativas e não-derivativamente livres. No que se segue, para simplificar, vou ignorar as escolhas derivativamente livres. Não penso que a distinção afete meu argumento).

Molinistas, então, estão comprometidos com o seguinte:

(1) Se S escolhe livremente A em C, então é possível para S não escolher A em C.

Ou, colocando a questão em termos de mundos possíveis:

(1’) Se S escolhe livremente A em C, então existe ao menos um mundo possível no qual S não escolhe A.

Observe que nessa demonstração, C aqui deveria ser entendido como, de fato, a história inteira do universo até o momento da escolha de S. O ponto é que a escolha de S não é determinada (ou, pelo menos causadamente determinada) por qualquer evento anterior ou estados do universo (incluindo o caráter de S, experiências passadas, memórias, crenças, desejos etc)

Em terceiro lugar, o Molinista afirma que Deus tem conhecimento médio, isto é, conhecimento dos contrafactuais da liberdade (por falta de um nome melhor). Deus, então, sabe, antes de sua decisão de criar um mundo particular, verdades condicionais subjuntivas como a que se segue:

 (2) Se S estivesse em C, S livremente escolheria A.

Este é o conhecimento, afirma o Molinista, que permite a Deus preordenar os eventos. Desde que Deus conhece o que cada possível criatura escolheria livremente em cada possível circunstância, consequentemente ele pode planejar. Ele pode saber de antemão como as coisas iriam se ele fosse para criar determinadas pessoas e arranjá-las para fazerem suas escolhas em circunstâncias particulares.

Isso significa que Deus não pode atualizar qualquer mundo possível. Molinistas como Craig farão distinção entre mundos possíveis e mundos factíveis.[2] Todos os mundos factíveis são mundos possíveis, mas nem todos os mundos possíveis são mundos factíveis. Um mundo factível é um mundo possível que Deus pode atualizar com base em seu conhecimento médio: seu conhecimento de verdades como (2). Ele pode “atualizar fracamente” qualquer desses mundos factíveis por “atualizar fortemente” aqueles elementos do mundo sob seu controle causal, a saber, cujas criaturas existem e em cujas circunstâncias elas se encontram. Por seu conhecimento médio, Deus conhece quais mundos possíveis são mundos factíveis, e ele decide (com base em certos critérios) quais dos mundos factíveis (fracamente) atualizar. E esta é a visão Molinista da divina preordenação.

Deveria ser observado que o Molinista não é sempre claro sobre o que conta como circunstâncias em verdades como (2). As circunstâncias incluem o decreto de Deus ou a presciência de Deus, por exemplo? Felizmente, nós não precisamos resolver essa questão aqui, tão logo reconheçamos isso, o que quer que esteja incluído em C em (2) também deve ser incluído em C em (1) e (1’)

[Addendum: Greg Welty assinalou o que eu coloquei acima. Vejam abaixo seus comentários e minhas respostas. Em suma, não importa como as circunstâncias são definidas, mas eu penso que o Molinista enfrenta sérios problemas de qualquer maneira]

Bem, tanto para o contexto, a questão que eu quero colocar é simplesmente esta:

Deus é infalível na visão Molinista?

Eu suspeito que muitos seriam inclinados a responder sim. Face a essa situação, esperaríamos Deus ser infalível. “Deus falível” dificilmente soa bem! Mais significantemente, a Bíblia ensina explicitamente que os planos de Deus não podem falhar. Os propósitos de Deus sempre serão cumpridos.

Então Jó respondeu ao Senhor, dizendo: ‘Eu sei que tu podes fazer todas as coisas, e que nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado.” (Jó 42.1, 2)

Muitos são os planos na mente de um homem, mas é o propósito do Senhor que prevalecerá.” (Prov. 19.21)

O SENHOR dos Exércitos jurou: Como pensei, assim se cumprirá; como determinei, assim acontecerá[...]O SENHOR dos Exércitos determinou isso! Quem o invalidará? A sua mão está estendida! Quem a fará recuar?.” (Is. 14.24, 27)

Lembrai-vos disso e considerai; trazei-o à memória, ó transgressores. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade: Que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim.  Sou eu que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; sou eu que digo: O meu conselho subsistirá, e realizarei toda a minha vontade,  chamando do oriente uma ave de rapina, e de uma nação distante, o homem do meu conselho; sim, eu disse e cumprirei essas coisas. Estabeleci esse propósito e também o executarei. (Is 46.8 – 11)

Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para lá, mas regam a terra e a fazem produzir e brotar, para que dê semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me agrada e cumprirá com êxito o propósito da sua missão.” (Is 55.10, 11)

Claro, o Molinista está familiarizado com esses textos. A forte visão da providência divina expressa na Escritura é uma das razões que favorece o Molinismo sobre outras posições que compartilham um compromisso com o livre-arbítrio libertário.

Todavia, deveria estar claro a partir o exposto acima que, de acordo com a posição Molinista existem mundos possíveis nos quais os planos de Deus falham. Porque o Molinista está comprometido em afirmar que, embora Deus conheça que S escolheria A em C, e ele não atualiza C porque ele planeja para S escolher A, não deixa de ser possível para S não escolher A em C (Craig claramente afirma este ponto várias vezes em sua conversa com Helm). Em outras palavras, existem mundos possíveis nos quais Deus atualiza C de modo que S escolherá A, mas S não escolhe A. Existem mundos possíveis nos quais o decreto eterno de Deus não acontecerá, porque agentes livre-libertários farão outra coisa do que ele tinha planejado.

A conclusão é esta: com base na posição Molinista existem alguns mundos possíveis nos quais Deus é falível. De fato, existem muitos, mas muitos de tais mundos. Qualquer mundo em que o plano de Deus falhe é um mundo no qual Deus é falível. Parece-me que esta conclusão é construída sobre o sistema molinista.

Então, o que um Molinista poderia dizer em sua resposta? Uma resposta seria a de dizer que Deus não é necessariamente infalível: ele não é infalível em todo mundo possível, mas ele é infalível neste mundo (pelo menos). Deus é contingentemente infalível.

Mas eu penso que existem diversos problemas sérios com esta resposta. Em primeiro lugar, a própria noção de “infalibilidade contingente” é logicamente suspeita. Diante disso, infalibilidade seria um conceito modal. Ela diz respeito à falha possível, não simplesmente a falha real. Infalível não significa não falível, e falível significa capaz de falhar. Se uma pessoa é falível, não o é porque ele tem falhado ou porque ele falhará mas porque ele poderia falhar. Afinal, não há nada logicamente inconsistente em dizer que S é falível, mas S não falhou (ou falharia) realmente. O que seria inconsistente de maneira direta seria dizer que S é falível, mas S não pode falhar.

Portanto, não poderíamos descrever alguém como infalível simplesmente porque ele realmente tem sucesso em todos os casos, mesmo que ele possa ter falhado em algum ponto. Infalibilidade, certamente, exige que alguém não pode falhar, mesmo em princípio. Então, não é claro que a noção de “infalibilidade contingente” é mesmo coerente.

Se eu estou certo sobre isso, então o Molinista não deveria dizer que Deus é infalível. Pois, se Deus não é infalível em todo mundo possível, então ele não é infalível em qualquer mundo possível, incluindo o mundo atual. (Eu observo, para registro, que este argumento pressupõe alguns princípios modais amplamente-controlados que eu não estou a defender aqui, precisamente porque eles são amplamente controlados!).

Em Segundo lugar, esses mundos com falhas-divinas apresentam um problema para o Molinista que está comprometido com o ser perfeito da teologia (que é maioria, penso). Se Deus é apenas contingentemente infalível, segue-se que Deus não possui máxima grandeza: pois um ser que é necessariamente infalível é maior que um ser que é contingentemente infalível. Um ser que é infalível em todos os mundos possíveis é maior que um ser que é infalível em apenas alguns mundos possíveis. (É digno de nota que Alvin Plantinga, que introduziu a noção de grandeza máxima em sua defesa do Argumento Ontológico, é um dos mais proeminentes advogados do Molinismo).

A única saída desta situação para o Molinista, tanto quanto eu posso ver, é tomar a rota que eu sugeri acima: abandonar a tese de que Deus é infalível (neste mundo ou em qualquer outro mundo possível).

Parece-me que de tudo isso expõe uma tensão não resolvida no coração do Molinismo. Quando fazemos a pergunta “Os humanos podem frustrar os planos de Deus?”, o Molinista é colocado em duas direções. Por um lado, ele desejará responder não. Afinal, Deus preordenou todas as coisas! Deus tem um decreto eterno. É inconcebível para o Molinista que o decreto de Deus fracassasse.

Mas, ao mesmo tempo, o Molinista também deve responder sim, por causa de seu comprometimento com o liver-arbítrio libertário. Ele quer afirmar (como Craig explicitamente o faz) que, embora S escolheria A em C (e, de fato, irá escolher A se Deus o decretou), e, no entanto, é possível para S não escolher A em C – e, assim, realmente é possível para S agir contrário aos planos de Deus.

Em suma, o Molinista quer ter o melhor de dois mundos.

Outro modo de ver o problema é perguntar se os mundos não-factíveis realmente são possíveis. Suponha que, de todos os mundos factíveis que ele considerou, Deus opte pelo mundo X. Não parece coerente imaginar Deus pensando: “Eu vou atualizar X um pouco (fracamente) – este é o meu decreto – mas eu sei que há uma possibilidade real de que vou terminar com outro mundo, por causa da possibilidade real que agentes livres-libertários agirão de outro modo que eu tenho planejado”. Mas, se isso não é coerente, em que sentido esses mundos são mundos realmente possíveis?

Como se percebe, essa tensão no centro do Molinismo surge porque ele ambiciona ser deterministicamente indeterminista. “Indeterminismo” por causa de seu compromisso com o livre-arbítrio libertário. “Determinista” porque o decreto de Deus, de alguma forma (não sabemos como) determina de antemão que suas criaturas farão certas escolhas. Isso pode não ser um determinismo causal, mas, apesar de tudo, é determinismo (como muitos Arminianos não-Molinistas, tais como Roger Olson, podem ver claramente). Se preordenar que S escolhe A não significa predeterminar que S escolha A, então o que significa?

O Molinismo é, certamente, uma teoria impressionante. Mas, é apenas impressionante na medida em que um truque de “jogo de copinhos e bolinha” é impressionante. É, par excellence, um truque de mão filosófico. Os Molinistas têm que ser hábeis na arte da desorientação. Agora você vê o determinismo.... e agora não vê mais!

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Notas: 
[1] Dr. James Anderson é um ministro ordenado na Associate Reformed Presbyterian Church. Dr. Anderson é professor no Reformed Theological Seminary. Especialista em Teologia Filosófica, Epistemologia da Religião e Apologética Cristã. Sua tese de doutorado, na Universidade de Edinburgh, explorou a natureza paradoxal de certas doutrinas cristãs e suas implicações para a racionalidade da fé cristã. Suas pesquisas e escritos concentram-se no pressuposicionalismo de Cornelius Van Til, particularmente sua defesa do Argumento Transcendental. Dr. Anderson tem uma antiga contribuição ao trazer a tradição Reformada em um maior diálogo com a filosofia analítica contemporânea. Ele é membro da Society of Christian Philosophers, da British Society for the Philosophy of Religion, e da Evangelical Philosophical Society.
[2] “possible world” e “feasible world”

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Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Por Rev. Gaspar de Souza
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Eventos Imprevisíveis

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Por Vern Poythress


O Primeiro Livro dos Reis, capítulo 22, contém um caso impressionante. Micaías, falando como profeta do Senhor, prediz que Acabe, o rei de Israel, cairia na batalha de Ramate-Gileade (1Rs 22. 20 – 22). Acabe disfarça-se na batalha para evitar ser um alvo especial para o ataque inimigo (v. 3). Mas o plano de Deus não pode ser frustrado. A narrativa descreve o evento crucial:

Então um homem armou o arco, e atirou a esmo, e feriu o rei de Israel por entre as fivelas e as couraças; então ele [o rei] disse ao seu carreteiro: Dá volta, e tira-me do exército, porque estou gravemente ferido. (v. 34)

“Um homem armou o arco, e atirou a esmo”. Ou seja, ele não mirou em qualquer alvo em particular. Uma tradução alternativa seria que ele puxou seu arco “em sua inocência” (ESV[1], leitura à margem). Uma tradução alternativa poderia ser que um homem acertou Acabe, mas ele não sabia que havia feito (ele era “inocente” de saber que era o rei). Qualquer que seja a interpretação que tomemos deste detalhe, devemos observar que a flecha atingiu o lugar correto. Acabe estava vestido de armadura. Se a flecha tivesse atingido a couraça de Acabe, simplesmente ele poderia ter ricocheteado. Se tivesse atingido as fivelas da armadura, a flecha não o teria ferido. Mas, aconteceu haver um pequeno espaço entre as fivelas e a couraça. Talvez, por apenas um momento, Acabe virou ou dobrou de tal modo que uma fina abertura apareceu. A flecha foi certeira, exatamente no lugar certo. Ela o feriu fatalmente. Ele morreu no mesmo dia (1Rs 22.35), tal como Deus o tinha dito.

Deus mostrou naquele dia que ele estava no comando dos eventos aparentemente aleatórios. Ele controlou quando o homem tirou o seu arco. Ele controlava a direção de seu alvo. Ele controlou o momento em que a flecha foi lançada. Ele controlou o voo da flecha. Ele controlou a maneira que Acabe colocou sua armadura no início do dia e a posição que Acabe ficou quando a flecha se aproximava. Ele controlou a flecha quando ela atingiu o exato lugar e entrou fundo o suficiente para produzir dano fatal os órgãos. Ele trouxe Acabe para sua morte.

Para não se sentir muito triste por Acabe, devemos lembrar que ele era um rei perverso (1Rs 21. 25, 26). Além disso, ao ir para a batalha, ele desobedeceu diretamente o aviso que o profeta Micaías dera em nome de Deus. Deus, que é Deus de justiça, executou justo juízo sobre Acabe. A partir deste julgamento deveríamos aprender a reverenciar e honrar a Deus.

A morte de Acabe era um evento de significado especial. Ele tinha sido profetizado de antemão, e o próprio Acabe era uma pessoa especial. Ele foi rei em Israel, um líder proeminente, uma pessoa importante em conexão com a história do povo de Deus no Reino do Norte de Israel. Mas, o evento ilustra um princípio geral: Deus controla os eventos aparentemente aleatórios. Um evento excepcionalmente único, como uma flecha voar em direção a Acabe, não foi narrado como uma exceção, mas como um peso particularmente importante do princípio geral, que a Bíblia ilustra em passagens onde ensinam o controle universal de Deus.

Coincidências

Nós podemos encontrar outros eventos na Bíblia onde o resultado depende de uma aparente coincidência ou causalidade.  

Em Gênesis 24, Rebeca, que pertencia ao grupo de parentes de Abraão, aconteceu de ela sair [para buscar água] justamente depois que o servo de Abraão chegou [ao local]. O servo estava orando e esperando, procurando uma esposa para Isaque, filho de Abraão (Gn. 24.15). O fato é que Rebeca veio justamente no momento certo, era claramente a resposta de Deus à oração do servo. Rebeca, mais tarde, casou-se com Isaque e deu à luz a Jacó, um ancestral de Jesus Cristo.

Anos mais tarde, Raquel, que pertencia à mesma família, aconteceu de sair [para levar as ovelhas] exatamente depois que Jacó chegou (Gen. 29.6). Jacó a encontrou, caiu de amor por ela e casou-se com ela. Ela se tornou a mãe de José, a quem Deus mais tarde levantou para preservar a família inteira de Jacó durante os sete anos de fome (Gen. 41 – 46). Quando Deus preparou Raquel para Jacó, ele estava cumprindo sua promessa que ele cuidaria de Jacó e o traria de volta a Canaã (28.15). Além disso, ele estava cumprindo sua promessa de longo alcance que ele abençoaria os descendentes de Abraão (vv. 13, 14)

Na vida de José, depois que os seus irmãos o tinham jogado em um poço, aconteceu de passar uma caravana de Ismaelitas que estava viajando para o Egito (Gen. 37.25)

A falsa acusação da esposa de Potifar levou José a ser jogado em uma prisão (Gen. 39.20). Aconteceu de Faraó ter se irado com seu copeiro-chefe e seu padeiro-chefe, e aconteceu de eles serem lançados na prisão onde José agora tinha uma posição de responsabilidade (40.1 – 4). Enquanto eles estavam repousavando, aconteceu de o copeiro-chefe e o padeiro-chefe terem um sonho especial. A interpretação de seus sonhos por parte de José o levou, mais tarde, à oportunidade de interpretar os sonhos de Faraó (Gen 41). Esses eventos conduziram ao cumprimento o antigo sonho profético que Deus tinha dado a José em sua mocidade (37.5 – 10; 42.9)

Depois que Moisés nasceu, sua mãe o pôs em um cesto feito de junco e o colocou entre os juncos à margem do Nilo. Aconteceu da filha de Faraó descer ao rio e sucedeu de ela notar o cesto. Quando ela abriu o cesto, aconteceu do bebê chorar. A filha de Faraó teve compaixão e adotou Moisés como seu próprio filho (Êx. 2.3 – 10). Como resultado, Moisés foi protegido da sentença de morte aos filhos machos das hebreias (1.16, 22), e ele “foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios” (At. 7.22). Assim, Deus executou seu plano, de acordo com o qual Moisés seria, finalmente, o libertador dos israelitas do Egito.

Josué enviou dois espias a Jericó. Fora de todas as possibilidades, aconteceu de eles irem à casa de Raabe, a prostituta (Js. 2.1). Raabe escondeu os espias e fez um acordo com eles (vv. 4, 12 – 14). Consequentemente, ela e seus parentes foram preservados quando a cidade de Jericó foi destruída (6.17, 25). Raabe, então, tornou-se uma ancestral de Jesus (Mt. 1.5).

Aconteceu de [Rute] ir para a parte do campo que pertencia a Boaz” (Rt 2.3).[2] Boaz observou Rute, e então uma série de eventos levaram Boaz a casar-se com Rute, que se tornou uma ancestral de Jesus (Rt 4.21, 22; Mt. 1.5).

Durante a vida de Davi, lemos o seguinte registro do que aconteceu no deserto de Maon:

E Saul ia deste lado do monte, e Davi e os seus homens do outro lado do monte; e, temeroso, Davi se apressou a escapar de Saul; Saul, porém, e os seus homens cercaram a Davi e aos seus homens, para lançar mão deles. Então veio um mensageiro a Saul, dizendo: Apressa-te, e vem, porque os filisteus com ímpeto entraram na terra. Por isso Saul voltou de perseguir a Davi, e foi ao encontro dos filisteus; por esta razão aquele lugar se chamou Rochedo das Divisões” (1Sm 23.26 – 28).

Davi escapou por pouco de ser morto, porque aconteceu dos filisteus conduzirem um ataque em um determinado momento, e o aconteceu de o mensageiro chegar a Saul quando ele estava pronto para atacar a Davi. Se nada tivesse acontecido para interferir na perseguição de Saul, ele poderia ter tido sucesso em matar Davi. A morte de Davi teria extirpado a linhagem de descendência que levaria a Jesus (Mt. 1.1, 6).

Quando Absalão articulou sua revolta contra o rei Davi, aconteceu de um mensageiro vir a Davi dizendo: “O coração dos homens de Israel tem seguido a Absalão” (2Sm 15.13). Davi, imediatamente fugiu de Jerusalém onde, se ficasse, teria sido morto. Durante a fuga de Davi, aconteceu de Husai, o arquita, vir encontrar com ele, “com roupa rasgada e cabeça coberta de terra” (v. 32). Davi falou a Husai para ele voltar a Jerusalém, alegando apoiar Absalão e derrotar o conselho de Aitofel (v. 34). Como resultado, Husai foi capaz de persuadir a Absalão a não seguir o conselho de Aitofel sobre a batalha, e Absalão morreu na batalha que, finalmente, aconteceu (18.14, 15). Assim, as coincidências contribuíram para a sobrevivência de David.

Quando Ben-Hadad, o rei da Síria, havia sitiado Samaria, a cidade foi privada de alimento. Eliseu predisse que no dia seguinte, a cidade de Samaria teria farinha e cevada (2Rs 7.1). O capitão permaneceu em expressa descrença, e então Eliseu predisse que ele “veria aquilo...mas...não comeria” (v. 2). No dia seguinte, aconteceu de o capitão ser atropelado, na porta, pelo povo que saiu e saqueou o acampamento atrás de alimento (v. 17). “Ele morreu, como o homem de Deus havia dito” (v. 17), vendo o alimento, mas não vivendo para participar do mesmo. Sua morte foi um cumprimento da profecia de Deus.

Quando Atalia estava prestes a usurpar o trono de Judá, ela se comprometeu em destruir  todos os descendentes da família de Davi. Aconteceu de Jeoseba estar ali, e ela pegou Joás, o filho de Acazias e o raptou e o escondeu (2Rs 11.2). Assim, a linhagem da descendência de Davi foi preservada, o que tinha de ser o caso se o Messias deveria vir da linhagem de Davi, como Deus havia prometido. Joás foi um antepassado de Jesus.

Durante o reinado do rei Josias, aconteceu de os sacerdotes encontrarem o Livro da Lei, quando eles estavam reparando os recintos do templo. Josias o tinha lido e, então ele foi estimulado a inaugurar uma reforma espiritual.

A história de Ester contém muitas coincidências. Aconteceu de Ester estar entre as jovens mulheres que foram levadas ao palácio do rei (2.8). Aconteceu de ela ser escolhida para ser a nova rainha (v. 17). Aconteceu de Mardoqueu descobrir os planos de Bigtã e Teres contra o rei (v. 23), e aconteceu de o nome de Mardoqueu ser incluído nas crônicas do rei (v. 23). A noite antes de Hamã planejar enforcar Mardoqueu, aconteceu de o rei perder o sono (6.1). Ele pediu para um assistente ler as crônicas, e aconteceu do assistente ler a parte onde Mardoqueu tinha descoberto o plano contra o rei (v. 1, 2). Aconteceu de Hamã ter entrado no pátio do rei exatamente naquele momento (v. 4). Toda uma série de acontecimentos operou para conduzir a Hamã a ser enforcado, os judeus resgatados e Mardoqueu ser honrado.

O livro de Jonas também contém eventos que agiram juntos. O Senhor enviou uma tempestade no mar (Jn. 1.4). Quando os marinheiros lançaram sorte a fim de identificar a pessoa culpada, “a sorte caiu sobre Jonas” (v. 7). O Senhor deu ordens ao peixe para que engolisse Jonas (v. 17). O Senhor deu ordem ao peixe para que a planta crescesse (4.6), ao verme que atacou a planta (v. 7), e em seguida, a ardência do sol e do “vento oriental abrasador” (v. 8).

Aconteceu de Zacarias, o sacerdote, esposo de Elisabete, ser escolhido pela sorte a oferecer incenso no templo (Lc 1.9). O tempo era extremamente oportuno, pouco antes da concepção de João Batista e da vinda de Jesus (v. 24 – 38).

Quando Dorcas morreu em Jopa, aconteceu de Pedro estar próximo em Lida (At 9. 32, 38). Aconteceu de os discípulos em Jopa ouvir que ele estava ali. Então, eles enviaram a Pedro e, como resultado, Dorcas foi trazida de volta à vida.

Quando o Apóstolo Paulo estava na prisão, aconteceu de o filho da irmã de Paulo ouvir sobre os planos dos judeus para matar Paulo (At. 23.16). Ele transmitiu a notícia ao comandante romano, da tribuna, que tinha seus soldados levado Paulo para Cesárea. Paulo foi salvo de morto por causa uma causalidade.

Poderíamos multiplicar exemplos deste tipo. A tempestade e o peixe que o Senhor enviou a Jonas podem ser considerados miraculosos, mas a maior parte temos nos concentrado sobre incidentes em que um espectador pode notar nada de extraordinário. Em cada caso, a narrativa como um todo mostra que Deus estava realizando seu propósito. Ele esta no controle desses eventos aparentemente “coincidentes”. Poderíamos listar muitos incidentes na Bíblia de tipos muito mais extraordinários, onde Deus exerceu poder miraculoso. Ele enviou as pragas sobre o Egito, dividiu as águas do Mar Vermelho, deu maná no deserto.

Vemos uma suprema exibição do controle de Deus quando olhamos algumas dos eventos aparentemente “coincidentes” durante a crucificação e morte de Jesus.

Quando Jesus foi crucificado, aconteceu de os soldados lançarem sorte para dividir suas vestes. Eles, assim, cumpriram a Escritura,

Repartiram entre si as minhas vestes, E sobre a minha vestidura lançaram sortes.” (João 19.24; Sl 22.18)

Quando Jesus morreu, aconteceu de um dos soldados perfurar um lado com uma lança, cumprindo a profecia:

Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. (Jo. 19.34)

E outra vez diz a Escritura: Verão aquele que traspassaram. (Jo. 19.37, citado de Zac. 12.10)

Depois da morte de Jesus, José de Arimatéia, um homem rico (Mt 27.57), levou o corpo de Jesus e o colocou em seu próprio sepulcro, que aconteceu de ser ali próximo e que estava vazio. Ele, então, cumpriu a profecia:

E José, tomando o corpo, envolveu-o num fino e limpo lençol, e o pôs no seu sepulcro novo.” (Mt 27. 59, 60)

E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte;” (Is 53.9)

Em Atos, os crentes tomaram coragem quando eles refletiram sobre como Deus tinha controlado os eventos da crucificação de Jesus (At. 4. 25 – 28). Eles oraram para que Deus continuasse a agir com poder em suas vidas:

Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a ousadia a tua palavra; enquanto estendes a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Filho Jesus. E, tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a palavra de Deus.” (At. 4. 29 – 31)

Deus é o mesmo hoje. Podemos inferir que Deus está no controle em todos os eventos aparentemente coincidentes em nossas vidas. Todos nós temos de encarar eventos que não temos controles: “tempo e acaso acontecem a todos” (Ecl 9.11). É um grande conforto saber que Deus controla tais coisas, por Deus saber o que ele está fazendo. Romanos 8.28 relembra-nos que “para aqueles que amam a Deus, todas as coisas cooperam para o bem, para aqueles que foram chamados segundo seu propósito”. Louvemos a Deus por sua majestade. E confiemos o futuro a Deus, incluindo as “coincidências” e as “causalidades”.

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Notas:
[1] English Standard Version.
[2] A Almeida 21 traduz: “por coincidência, aquela parte da plantação pertencia a Boaz”. A Almeida Fiel traduz: “caiu-lhe em sorte...”

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Fonte: POYTHRES, Vern. Chance and the Sovereignty of God: A God-Centered Approach to Probability and Random Events. Wheaton, Ill: Crossway, 2014, p. 31 – 39).
Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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Seis Inimigos do Ideal Apologético

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Por Douglas Groothuis

Introdução

O mundo evangélico hoje sofre de uma anemia apologética. Apesar do fato das Santas Escrituras convocarem os Crentes a dar razão da esperança que nós temos em Cristo (1 Pedro 3.15; veja também Judas 3), falta-nos uma voz pública no mercado de ideias para a verdade e a razão.[1] Nós não temos uma presença intelectual forte na cultura popular ou acadêmica (embora algumas áreas, tal como a filosofia, sejam mais influenciadas por evangélicos que por outros). As razões para esta anemia são multidimensionais e complexas.

Três livros recentes exploram a falta de uma “Mente Cristã” no evangelicalismo contemporâneo, e eu fortemente recomendo tais livros. O livro de Mark Noll, The Scandal of the Evangelical Mind (Eerdmans, 1994), explora as raízes históricas do antiitelectualismo evangélico. O livro Fit Bodies, Fat Minds (Baker Books, 1994), de Os Guinness, discute alguns dos problemas históricos e também esboça o que a mente cristã deve ser. Por fim, o livro Love Your God with all of Your Mind (Navpress, 1997), de J.P. Moreland, explica porque os Cristãos não pensam, não desenvolvem uma teologia bíblica da mente,[2] e oferecem argumentos e estratégias apologéticas úteis para capacitar intelectualmente a igreja.

Meu modesto propósito neste texto é fornecer brevemente seis fatores que inibem ilegitimamente o compromisso apologético hoje. Se estas barreiras forem removidas, nosso testemunho apologético poderá se transformar naquele que seria de Cristo.

1. Indiferença

Muitos cristãos não parecem se importar que o Cristianismo seja rotineiramente ridicularizado como ultrapassado, irracional e tacanho em nossa cultura. Eles podem queixar-se que isto os “ofende” (assim como todo mundo reclama que uma coisa ou outra os “ofendem”), mas eles fazem pouco para combater as acusações por oferecer uma defesa da cosmovisão cristã em uma variedade de ambientes. No entanto, a Escritura ordena que todos os Cristãos têm uma razão para a esperança que está dentro deles e ordena apresentá-la com mansidão e respeito ao incrédulo (1 Pedro 3.15). Nossa atitude deveria ser aquela do Apóstolo Paulo que ficou “muito angustiado” quando viu a sofisticada idolatria em Atenas. Este zelo pela verdade de Deus levou-o a um encontro apologético frutífero com os pensadores reunidos para debater novas ideias (Cf. Atos 17). Deve também ser para nós. Assim como Deus “amou o mundo” e que enviou Jesus para nos reconciliar com Deus (João 3.16), os Discípulos de Jesus também deveriam amar o mundo que eles se esforçam para alcançar os perdidos apresentando-lhes o Evangelho e respondendo objeções à Fé Cristã (João 17.18).

2. Irracionalismo

Para alguns Cristãos, fé significa crer na ausência de evidência ou argumentos. Pior ainda, para alguns fé significa crer apesar da prova em contrário. [Quanto mais] irracionais nossas crenças, melhor – mais “espirituais” elas são. Embora Paulo ensine em 1 Coríntios 1 e 2 que Deus tornou tolice “a sabedoria deste mundo” (porque ela é falsa sabedoria), a Revelação de Deus não é irracional; nem deve a crença nela ser sustentada irracionalmente.[3] Deus não exige de nós a suspensão de nossas faculdades críticas a fim de crer naquilo que tem dado a conhecer. Por meio do profeta Isaías, Deus declara a Israel: “Vinde e arrazoemos” (Isaías 1.18). Jesus nos ordenou a amar a Deus com toda a nossa mente (Mateus 22.37). Quando Cristãos optam pelo irracionalismo, eles apenas se tornam mais uma “opção religiosa” e são classificados ao lado [de religiões] como Heaven’s Gate [Portão do Céu] ou a Flat Earth Society [Sociedade da Terra Plana] e outros grupos intelectualmente deficientes. No rastro do suicido de Heaven’s Gate, as mais importantes revistas como a Esquire, Newsweek e US News and World Report afirmaram que a fé daqueles que acabaram com suas vidas de acordo com a religião da ficção científica Marshall Applewhite não seria estranho para Cristãos que também acreditam em coisas ridículas. Infelizmente, o comportamento de alguns Cristãos dá impulsos a tais acusações.

3. Ignorância

Muitos Cristãos não estão conscientes dos enormes recursos intelectuais disponíveis para defender a “fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3). Isso porque muitas das principais igrejas e organizações paraeclesiásticas praticamente ignoram a Apologética. Um dos principais ministérios no campus [universitário], com uma ótima história e um excelente programa, de qualquer forma não oferece material para auxiliar aos estudantes a lidar com a descrença que emana de seus professores seculares. Poucos sermões evangélicos quase nunca abordam temas sobre as evidências da Existência de Deus, a Ressurreição de Jesus, a Justeza do Inferno, a Supremacia de Cristo ou os problemas lógicos com as visões não-Cristãs. Bestseller Cristãos, com raras exceções, entram em especulações apocalípticas infundadas, exaltam celebridades cristãs (cujos personagens frequentemente não se encaixam com tal notoriedade) e deleitam-se com métodos “faça você mesmo”. Você pode dizer muito sobre um movimento pelo que lê e pelo que não lê.

4. Covardia

Em uma cultura pluralista, uma atitude “viva e deixe viver” é a norma, e ceder a apelos da pressão social assombra o evangelicalismo, drenando as suas convicções. Muitos evangélicos também estão mais preocupados em serem “bacanas” e “tolerantes” do que serem bíblicos ou fiéis ao Evangelho exclusivo encontrado em suas Bíblias. Não basta aos evangélicos estarem dispostos a apresentar e defender sua fé em situações difíceis, seja na escola, trabalho ou ambiente público. A tentação é de privatizar a fé, separá-la e isolá-la inteiramente da vida pública. Sim, somos Cristãos (em nossos corações), mas temos dificuldades de envolver alguém no que cremos e por que cremos. Isto não é nada menos que covardia e traição do que dizemos crer. Considere a exigência inspirada de Paulo para a oração e sua admoestação a nós: “Perseverai em oração, velando nela com ação de graças; orando também juntamente por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou também preso; para que o manifeste, como me convém falar. Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Colossenses 4.2 – 6).

Nós podemos esperar rejeição, mas Jesus chama a aqueles que são perseguidos por amor de seu nome de “bem-aventurados”: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mateus 5.11, 12).

O Apóstolo Pedro ecoa as palavras de seu Mestre: “Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus” (1 Pedro 4.14)

Por outro lado, quando o Espírito Santo abençoa nossos esforços, as pessoas respondem com interesse e, até mesmo, com fé salvadora (Romanos 1.16). Nunca devemos esquecer que Jesus tem toda autoridade no céu e na terra, e que ele nos comissionou a declarar e defender seu Evangelho (Mateus 28.18 – 20).

5. Arrogância e Vaidade Intelectual

No outro extremo do espectro de erro, está a arrogância do “apologista sabe-tudo” que está mais interessado em mostrar seu arsenal de argumentos do que defender a verdade de maneira piedosa.

O pecado que assedia a apologética é o orgulho intelectual, e deve ser evitado a todo custo. A verdade que defendemos é um dom da graça, não de nossa conquista intelectual. Desenvolvemos nossas habilidades apologéticas para nos santificar na verdade, conquistar almas para Jesus, e glorificar a Deus. Nós devemos “falar a verdade em amor” (Ef. 4.15). Verdade sem amor é arrogância; amor sem verdade é sentimentalismo.[4] 

Arrogância também ocorre quando alguns apologistas acusam outros crentes sem prova suficiente. Paulo disse aos líderes da igreja que eles deveriam esperar heresias no meio da igreja e estarem em guarda contra elas (Atos 20.28 – 31). Deveríamos fazer o mesmo. Todavia, devemos estar atentos para não difamar companheiros Cristãos ou assumir o pior sobre eles. Sei deste erro na própria pele, tendo sido acusado uma vez de ser um adepto da Nova Era porque um crítico horrivelmente interpretou mal uma porção de um de meus livros anti-Nova Era, Unmasking the New Age! Não vamos gastar nossas energias apologéticas atacando outros crentes quando hereges reais e incrédulos clamam por refutação e correção.

6. Técnicas Superficiais e Apologética Capenga

Alguns que ficam animados com apologética podem se tornar contentes com respostas superficiais às questões intelectuais difíceis. Nossa cultura se contenta com respostas rápidas a muitas coisas, e a técnica está dominando. Alguns Cristãos memorizam respostas prontas para questões apologéticas – tais como o problema do mal ou a controvérsia Criação-Evolução – que eles dispensam sem um tratamento adequado das questões e sem uma preocupação empática pela alma que levanta a questão. Uma vez vi um pequeno livro com um título como algo do tipo “The Handy, Dandy Evolution Refuter”. Sim, a macro-evolução é falsa, e bons argumentos têm sido trazidos contra ela, tanto da Natureza, quanto das Escrituras, mas o assunto não é tão simplista como o título do livro faz parecer.[5] Apologética deve ser feita com integridade intelectual.

O moto apologético de Francis Schaeffer era que deveríamos dar “respostas honestas para questões honestas”. Primeiro, devemos realmente ouvir a questão perguntada ou a objeção levantada. Devemos entrar na mente daqueles que estão apresentando razões para não seguir a Cristo. Cada pessoa é diferente, não importa o quão comum algumas objeções céticas possam parecer. Não reduza as pessoas a clichês.

Segundo, responda o que você ouviu. Não responda questões que não foram perguntadas. Tal abordagem superficial não vai impressionar o incrédulo que pensa. Se no momento você não pode oferecer uma resposta sólida para a objeção, não tente ocultar sua ignorância ou incapacidade. Honestamente admitir suas limitações é melhor que dar uma resposta fajuta. Fale para a pessoa que este é um bom ponto e que você precisa pensar mais sobre isso. O Cristianismo é absolutamente verdadeiro; mas isto não implica absolutamente que qualquer Cristão possa tratar com toda objeção levantada contra ele. Deveríamos evitar técnicas apologéticas e, em lugar disso, desenvolver recursos intelectuais e cultivar um diálogo real com os descrentes.[6]

Walter Martins disse corretamente que a igreja evangélica era um gigante adormecido e ele esforçou-se poderosamente para despertar todo o seu potencial dado por Deus para apresentar o Evangelho e defendê-lo contra objeções céticas e cultuais. Com seu legado em mente, possamos reavivar esta visão e encontrar paixão e sabedoria para por em prática por meio do poder do Espírito Santo (Atos. 1.8).

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Notas:

[1] Se o autor fala isso de seu contexto, o que diremos de nosso contexto brasileiro? [Nota do Tradutor]
[2] Em compasso com a filosofia da mente, área de interesse do Dr. Moreland, com livros e artigos acadêmicos publicados. [Nota do Tradutor]
[3] Para explicação das passagens bíblicas que, supostamente, ensinam que a fé não é racional, veja J.P. Moreland, Love God With All of Your Mind (Colorado Springs, CO: NavPress, 1997), 57-61.
[4] Sobre isto, veja Douglas Groothuis, "Apologetics, Truth, and Humility," Christian Research Journal (Spring 1992), p. 7.
[5] Para uma forte introdução a este assunto, veja Philip Johnson, Defeating Darwinism by Opening Minds (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1997). Nota do Tradutor: Este livro encontra-se em português, Como Derrotar o Evolucionismo com as Mentes Abertas (Editora Cultura Cristã, 2000).
[6]  Veja Dialogical Apologetics by David Clark (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1993).

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Sobre o Autor: O Dr. Douglas Groothuis (N.T – pronuncia-se Grote–Hice) é um filósofo Cristão, Professor de Filosofia no Denver Seminary. Também é pregador do Evangelho e Escritor. Autor de onze livros, sendo um deles Christian Apologetics – A Comprehensive Case for Biblical Faith (InterVarsity Press, 2011). Suas áreas de especialização em Filosofia são Ética e Cultura Contemporânea, História da Filosofia Moderna e Filosofia da Religião. Especialista em Blaise Pascal, Dr. Groothuis possui muitos outros livros sobre Cultura, Filosofia, Tecnologia e Apologética. Atualmente ele é o responsável pelo programa de Apologética Cristã e Ética no Denver Seminary. Visite seu site: The Constructive Curmudgeon.

Fonte: Six Enemies Of Apologetic Engagement
Traduzido por: Rev. Gaspar de Souza. (Agradeço ao Dr. Groothuis a autorização para tradução desta importante advertência aos apologistas.) 
Via: Eis nosso Tempo!
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Acautelai-vos da Apologética!

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Por Rev. Gaspar de Souza


O título acima é uma paródia do artigo do dr. Greg Bahnsen sobre a vã filosofia.[1] Naquele texto, expondo Colossenses 2.8, o dr. Bahnsen alerta contra “um determinado tipo de filosofia” que não é “segundo Cristo”, pois rouba você de todos os tesouros da sabedoria e da ciência que estão depositados em Cristo. 

Porém, contrário que possa parecer, o dr. Bahnsen não está se posicionando contra o estudo da filosofia. Pelo contrário, ele está defendendo que a melhor maneira de acautelar-se da filosofia é estudando-a. Em razão disto é que Paulo “adverte contra o potencial destrutivo da filosofia”. Para tanto, contra a má filosofia, apenas a boa filosofia, e esta é segundo Cristo “em quem estão todos os tesouros da sabedoria”(Cl 2.3). Em outras palavras, o melhor remédio contra uma “vã filosofia” é aquela em que Jesus Cristo seja não apenas a conclusão, mas também o ponto de partida do pensamento. 

Ora, o cristão não deve ter outro compromisso exceto o de submeter-se ao Cristo revelado nas Escrituras. Jesus Cristo é a autoridade primeira em matéria de filosofia cristã. Assim, ao estudarmos filosofia, fazemo-lo para cumprir a ordem paulina com maior clareza e eficiência. Nas palavras do dr. Bahnsen:

Estudamos filosofia para certificarmos de que nossos pressupostos sobre a realidade, conhecimento e ética são verdadeiramente pressupostos que honram de Cristo. Estudamos filosofia para identificar quais tipos de pensamento podem nos tornar presas fáceis em nossa cultura. Em suma, estudamos filosofia acautelando-nos de pensar equivocado e comprometermo-nos a pensar a verdade sobre o homem e o mundo.

Apologética Segundo Cristo: suaviter in modo, fortiter in re

Agora, no tocante à Apologética, tenho a dizer o mesmo. Na iminência de concluir um mestrado Teologia Filosófica, com ênfase em Apologética e Exegese, fui descobrindo como é necessário ter cuidado com a Apologética. Em contato com autores de renome na área da Teologia Filosófica, Exegese e Apologética, descobri inúmeras advertências para que a nossa apologética seja “segundo Cristo”. E embora  não tenha conhecido pessoalmente quase nenhum dos autores que li, pude presenciar a aplicação destes princípios na postura de meu próprio orientador, o dr. Davi Charles Gomes, e de meus mestres – Prof. Fabiano Oliveira, Filipe Fontes, Tarcízio Carvalho, João Alves e outros. 

O  dr. Davi Gomes, orientador de outros mestres, encarnou a máxima do dr. Cornelius Van Til, suaviter in modo, fortiter in re (gentil na maneira de agir, mas forte na resposta). E penso que esta frase reflete exatamente as palavras do apóstolo Pedro no texto que é considerado a base da apologética (1Pe 3.15). Aliás, ouvi no Seminário Presbiteriano do Norte (novembro de 2008), o dr. Davi fazer uma exposição deste texto e, como aplicação, ter trabalhado os “seis inimigos da Apologética”.

É curioso que enquanto muitos envolvidos com apologética consigam recitar com segurança a parte do verso que diz “estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”, alguns têm imensa dificuldade com o verso seguinte (na ARA): “fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência...”(v. 16), isso sem contar que as palavras de Pedro para exercitar tal mandato iniciam como “santificai ao Senhor Deus em vossos corações”(ACF). Assim, Apologética começa com santificação de nossos corações a Cristo e opera respondendo com mansidão e temor aos que nos perguntam de nossa esperança. 

Apologética Humilde, mas não Fraca

John G. Stackhouse,[2] em seu Humble Apologetics, faz a seguinte advertência sobre a Apologética. 

Apologética é um trabalho perigoso. Em uma época em que as vozes de vários lados relembram-nos de qual problemático são as reivindicações humanas para o conhecimento; em uma cultura que resiste cada vez mais e se ressente de que pede a conversão do outro; e em uma atividade cujo estereótipo é de vaidade racionalista e intimidação intelectual – que pessoa consciente e inteligente gostaria de se envolver em apologética? Se estamos a defender e recomendar a nossa fé, devemos fazê-lo em um novo modo: com uma voz diferente e em uma postura diferente. Nossa apologética deve ser humilde. Ela deve ser humilde por diversas razões, mas a principal entre elas é que Deus mesmo veio a nós em humildade, buscando o nosso amor e nos atraindo a ele. O Senhor Jesus Cristo é nosso modelo de humildade; o Espírito Santo de Deus é nosso companheiro humilde que nos ajuda a seguir o exemplo de Cristo como também a proclamarmos a mensagem de Cristo.

Apologética humilde não significa uma apologética fraca, “em que alguém deve, digamos assim, perder um argumento e ganhar uma alma”.[3]  Falamos do reconhecimento que apologética é ferramenta cujo fim não é a vitória sobre outro, mas sim anular sofismas e levar pensamentos cativos a Cristo. Deixe-me apresentar um exemplo que o pastor John Burke conta em seu livro:[4]  

Lembro-me de ter assistido a um debate na Willow Creek entre um conhecido ateísta e um apologista do cristianismo. Havíamos acabado de iniciar o ministério Axis em nossa igreja, e muitos de nossos líderes jovens haviam convidado amigos céticos para o debate. Do ponto de vista intelectual, o cristão destruiu os argumentos do ateísta e venceu claramente o debate. Entretanto, interrogando depois os líderes do Axis, descobrimos que seus amigos céticos concordaram que o cristão havia vencido a discussão, mas a maioria ficou tão desgostosa com sua atitude depreciativa para com o oponente que aquilo os convenceu ainda mais de que não queriam ser cristãos.

Infelizmente, alguns pensam que Apologética é uma ferramenta a ser usada como porrete para bater nos outros. O fato de a apologética servir para responder e atacar o incrédulo não significa que ela seja para brigar com todos. O silêncio, às vezes, é também uma resposta. Se até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio, muito mais o experiente que fecha os seus lábios em tempo certo, visto que ao servo do Senhor não convém contender. Joshua Harris e Eric Stanford  acertam o alvo quando afirmam que “precisamos ser corajosos em nossa posição em favor da verdade bíblica. Mas também precisamos demonstrar graça em nossas palavras e em nossas interações com as pessoas [...]. Um dos erros frequentemente cometidos por nós cristãos é que aprendemos a repreender como Jesus, mas não a amar como Jesus”.[5] 

Sempre que a Apologética não cumprir seu papel “com mansidão e temor” ela não estará sendo “segundo Cristo”. Portanto é contra este tipo de apologética que precisamos lutar, porque ela rouba a beleza dos tesouros de Cristo e coloca a Criatura no lugar do Criador, uma vez que a glória de Deus é desviada para outro lugar: para o próprio apologista ou para longe do Evangelho. Francis Schaeffer, magistralmente, encontra o lugar da apologética: “o propósito da ‘apologética’ não é meramente ganhar uma disputa ou uma discussão, mas que as pessoas com as quais estamos lidando tornem-se cristãs que realmente colocam a sua vida sob o senhorio de Cristo, deixando-o tomar conta de toda a sua vida”.[6] Isso  leva-me a considerar que a razão do “porrete apologético” encontra-se na separação da Apologética do Evangelho. Em outras palavras, quando alguns apologistas, especialmente os das novas mídias e redes sociais, veem a apologética como somente, eu disse somente, uma disciplina acadêmica, de vencer debates e demonstrar que têm argumentos, o resultado é um conhecimento que apenas incha. Você pode ver isto, além dos “debates facebookeanos”, também nos compêndios de Apologética. Estes são espécies de “manuais científicos” e, praticamente, voltados para o ambiente acadêmico. Aqueles “manuais Schopenhaureano” de como humilhar o oponente. Pode-se até parecer que a apologética não se aplica realmente ao dia a dia das pessoas comuns. 

Não estou advogando uma apologética simplória, mas uma apologética simples, que o sapateiro ou o aluno na oitava série possam apresentá-la como bons discípulos de Cristos. 

Como expressão desta “apologética academicista”, cito abaixo um exímio apologista cristão. Em seu livro Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time,[7] o dr. Craig faz a seguinte declaração: 

Alguns dos leitores de meu estudo da onisciência divina, The Only Wise God, ficaram surpresos acerca de minha observação de que alguém que deseje aprender mais sobre o atributo da onisciência de Deus seria mais bem aconselhado ler as obras dos filósofos Cristãos em vez dos teólogos Cristãos. Não apenas essa observação foi verdadeira, mas sustento o mesmo para a eternidade divina (grifos meus).

Em outro lugar, diz o autor: “Se você quiser praticar uma apologética eficaz, precisa ser treinado na filosofia analítica [...]. Seja qual for a área de especialização, você estará mais bem qualificado como apologista se tiver recebido treinamento em filosofia analítica”.[8] Neste sentido, não custa perguntar com Tertuliano: “Quid ergo Athenis et Hierosolymis? (O que tem a ver Atenas e Jerusalém?).

A despeito de sua inquestionável habilidade e piedade, dr. Craig aproxima a Apologética de um campo do saber que está além da maioria dos cristãos. O resultado é que, exceto pelos acadêmicos, a apologética entre os leigos é, na maioria das vezes, péssima caricatura da boa defesa da fé.

Apologética, Teologia e Discipulado

A Apologética é uma disciplina eminentemente bíblica, por isso deveríamos esperar maior interação da disciplina com outras que relacionam com a Teologia ou com a “Enciclopédia Teológica”,[9] onde fica cada vez mais claro que a “Teologia Sistemática tem uma relação mais próxima com Apologética do que com qualquer outra disciplina”.[10] O dr. Oliphint, em uma crítica ao dr. Craig, nos diz que, 

Se alguém quer saber sobre a onisciência de Deus ou sua eternidade; se alguém quer pensar profundamente sobre Deus e seu relacionamento com o Mundo; se alguém quer fazer apologética, o primeiro lugar para olhar é para Escritura, e, depois, para aqueles teólogos que fielmente articularam seus ensinos. A Filosofia, mesmo a filosofia Cristã, tem uma longa e resoluta história de virar suas costas para a consistente Teologia Reformada. Portanto, ela não foi muito positiva com respeito às discussões Teológicas (ou filosófico-teológica).[11] 

Especialmente diante da Grande Comissão (Mt. 28.18–20),[12] o cristão deverá anunciar “todas as coisas” que foram ensinadas pelo Senhor Jesus em sua missão de fazer discípulos. Isso não seria uma tarefa fácil. Pode-se falar dessa tarefa na forma que o Senhor disse: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (Mt. 10.16).

Os discípulos, em suas idas para transmitir o Evangelho, depararam-se com diversos desafios a fim de comunicar o Evangelho. Pedro e João perante o Sinédrio; Paulo perante os filósofos estoicos e epicureus; Paulo e Barnabé perante os sacerdotes de Listras; Paulo nas sinagogas dos Judeus arrazoando constantemente com eles demonstrando que Jesus é o Cristo etc. Mas também eles encontraram uma Lídia, uma vendedora de púrpura, que estava à beira do rio; responderam à pergunta do Carcereiro; Paulo defendeu a fé perante o povo (At. 21.72 – 22.21); e ensinou a todos que o visitavam na prisão domiciliar.

Pode-se dizer, portanto, que a base da apologética é o mandato de fazer discípulos. Nesse fazer discípulos, estão envolvidas algumas pressuposições: 1) que haveria necessidade de comunicar o Evangelho de modo eficaz; 2) que haveria necessidade de explicar o Evangelho aos contradizentes (Tt. 1.10); 3) que haveria a necessidade de justificar a crença no Evangelho; 4) que haveria a necessidade de confirmar a fé dos já crentes e; 5) que haveria a necessidade de desafiar os incrédulos no confronto com suas crenças.

Ora, na apologética somos, portanto, discípulos de Jesus Cristo. Por isso, devemos refletir seu caráter. O apologista deve ser gentil, paciente, cortês e não beligerante.

Estas qualidades dificilmente aparecem a muitos que sustentam fortes posições doutrinárias e que são prontos a defender suas posições. É fácil tornar-se teimoso e fervoroso para dominar seu oponente. Todavia, é a atitude oposta, que é pacífica e gentil, que demonstra que nossa sabedoria vem de cima (Tiago 3.13 – 17).[13] 

Como  disse acima, na palestra do dr. Davi Gomes  no Seminário Presbiteriano do Norte, sobre “seis inimigos do compromisso apologético”. Ele tomou por base, entre outros, o texto do dr. Douglas Groothius, professor de filosofia e apologética no Denver Seminary, “Six Enimies of Apologetics Engagement”.[14] Ambos concordam que, “no outro extremo do espectro de erro, está a arrogância do ‘apologista sabe-tudo’ que está mais interessado em mostrar seu arsenal de argumentos do que defender a verdade de maneira piedosa”. Certamente, este é o pecado que tenazmente nos assedia: o orgulho intelectual. E ele deve ser evitado a todo custo – lembra-se? Santificai a Cristo em vossos corações... – pois a verdade que temos nos veio como um dom da graça de Deus. “Nós desenvolvemos nossas habilidades apologéticas ao santificarmos na verdade, ao ganhar almas para Cristo e glorificar a Deus. Devemos ‘falar a verdade em amor’ (Ef. 4.15). Verdade sem amor é arrogância. Amor sem verdade é sentimentalismo”.[15] 

Conclusão

Apologética é de suma importância ao cristão e todos os cristãos estão envolvidos, de um modo ou de outro, com apologética. Mas a apologética pode se degenerar em “vã apologética”, a apologética que não é “segundo Cristo”. E contra este tipo de apologética, uma boa apologética bíblica é o remédio. O apologista cristão precisa ter claro diante de si que sua resposta e desafio ao pensamento incrédulo devem ser feitos “com mansidão e temor”, santificando a Cristo em seu coração. Ele deverá oferecer a Deus  seu coração, pronto e sincero, como está escrito no selo de Calvino.

McGrath afirma que a “apologética corre o risco de passar a impressão de que basta mostrar que a fé é racional”.[16] Sim, a fé cristã é racional, mas não basta apenas mostrar isso ao incrédulo. Não basta apresentar todas as premissas, as inferências ou provas, nem mesmo os mais elaborados silogismos e retórica. É preciso oferecer a Cristo o que Ele mesmo tem nos dado. Na construção do Templo do Senhor, todo o povo de Israel, juntamente com seus líderes e príncipes, “voluntariamente contribuíram” para a construção da Casa de Deus. Então, Davi louvou ao Senhor, reconhecendo que Deus mesmo, o Eterno, é o dono de todas as coisas nos céus e na terra. Então, o Rei perguntou: “Pois quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos oferecer voluntariamente coisas semelhantes? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos [...]. SENHOR, nosso Deus, toda esta abundância, que preparamos, para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão, e é toda tua” (1Cr. 29.1 – 16). O que tem o apologista cristão que não tenha recebido?

C.S. Lewis certa vez descrevendo o perigo que o apologista corre, disse: 

Não tenho encontrado nada mais perigoso para a fé de alguém do que a tarefa de um apologista. Nenhuma doutrina da fé parece para mim tão espectral, tão maravilhosa do que aquela que acabei de defender em um debate público. Por um momento, veja você, ela parecia repousar sobre si mesmo: como um resultado, quando você se vai do debate, já não parece tão forte quanto o fraco pilar. É por isto que nós, apologistas, tomamos nossas vidas em nossas mãos e podemos ser salvos apenas por retroceder continuamente das redes de nossos argumentos, de nossa reação intelectual, para a Realidade – da apologética Cristã para o próprio Cristo. Também é por isso que precisamos da ajuda um dos outros – oremus pro invicem (Oremos uns pelos outros).[17] 

O apologista pode até se gloriar por sua brilhante atuação, seus elaborados argumentos irrefutáveis, “mas autoglorificação nunca é uma coisa espiritualmente saudável”,[18] e ele estará colocando-se em terreno escorregadio, uma vez que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Pv. 16.18). E, por absolutizar a própria apologética, o apologista estará reduzindo a própria fé ao argumento em si, fazendo da apologética a sua tábua de salvação, ou seja, um ídolo.

O que disse acima não significa que eu não corra o mesmo risco. Pelo contrário, luto diariamente em apresentar uma defesa da fé cristã que seja tal como os diálogos de Jesus Cristo. Procuro lembrar-me de suas palavras: “sem mim, nada podeis fazer” (Jo. 15.5). De minha maneira de argumentar em algumas ocasiões mais acirradas, alguns amigos cunharam meus argumentos de ad tratorium (risos). Estou sempre ciente de que o Evangelho é sempre ofensivo ao incrédulo. Mas nem por isso devemos fazer de nossa apologética a palmatória, pois a única cruz a ser apresentada é a de Cristo, que é em si mesma escândalos para os incrédulos.

Certa vez, o dr. Van Til, advertindo acerca dos ídolos, disse: 

Pela graça você é salvo. Você não foi mais sábio do que outros homens. Não é você quem tem escolhido a Cristo como seu Salvador. É Cristo, o Salvador, quem tem escolhido você para ser sua testemunha. Não é você, pela psicologia profunda, tem descoberto a verdadeira necessidade do homem; é Cristo que, através de seu servo João, diz a você que o mundo inteiro já no maligno.[19] 

Mais uma vez afirmamos que humildade apologética não quer dizer abrir mãos das questões da verdade que cremos e defendendo dos incrédulos. O dr. Van Til dizia que a apologética deveria ser perseguida com uma “humildade ousada”. O dr. Bahnsen explica isso dizendo que “isto não quer dizer abrir mão nem mesmo um centímetro das questões da verdade sobre as quais discordamos com os incrédulos. Mas, isto quer dizer [...] que nós continuemos a pagar o próximo cafezinho para nosso oponente”.[20]  

Esteja sempre preparado para responder a quem pedir a razão da esperança que há em você. Mas faça-o com mansidão e temor. Continue a pagar o próximo cafezinho. Mas lembre-se: Acautelai-vos da Apologética!

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Notas:
[2] STACKHOUSE, John G. Humble Apologetics: Defending the Faith Today. Oxford University Press, 2002, p. 227.
[3] SIRE, James. W. Why Good Arguments Often Fail: Making a More Persuasive Case for Christ. Downer Grove. Ill: IVP Books, 2006, p. 165.
[4] BURKE, John. Proibida a Entrada de Pessoas Perfeitas – um chamado à tolerância na igreja. São Paulo: Vida Acadêmica, 2007, p. 213.
[5] HARRIS, Joshua; STANFORD, Eric. Ortodoxia Humilde – defendendo as verdades bíblicas sem ferir as pessoas. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 20, 22.
[6] SCHAEFFER, Francis. O Deus que se Revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 214. 
[7] CRAIG, William Lane. Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time. Wheaton, Ill: Crossway, 2001, p. 11.
[8] CRAIG, William Lane. Conselhos aos Apologistas Cristãos. Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/conselhos-aos-apologistas-cristaeos. (grifos meus)
[9] VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p.21.
[10] Idem.
[11] OLIPHINT, Scott R.; TIPTON, Lane G. Revelation and Reason – New Essays in Reformed Apologetic. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2007. p. 3 (Grifos meus).
[12] Não é por uma preferência apenas do texto da Grande Comissão que ele é tomado aqui, mas por lembrar-nos de que em nossa missão temos a responsabilidade de anunciar “todas as coisas” que o Senhor Jesus tem ensinado.
[13] BAHNSEN, Greg L. Always Ready – directions for defending the faith. Atlanta, Georgia: American Vision, 1996, p. 64.
[15] Idem.
[16] MCGRATH, Alister. Apologética Pura e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 17.
[17] Apud STACKHOUSE, idem, p. 230.
[18] Idem.
[19] VAN TIL, Cornelius. Keep Yourself from Idols. Presbyterian Guardian, n.34, vo. 6 (jul/ago, 1965).
[20] BAHNSEN, Greg L. Van Til´s Apologetic: Readings and Analysis. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 1998, p.32.

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