Por que cristãos precisam de confissões

.

Por Carl Trueman


Ao contrário do que se diz, o mundo cristão não é dividido entre aqueles que têm credos e confissões e aqueles que têm apenas a Bíblia. É, na verdade, dividido entre aqueles que têm credos e confissões e as tornam públicas, abertas ao escrutínio público e à correção, e aqueles que os têm porém não os tornam públicos. A razão é simples: toda igreja (e, na verdade, todo cristão) acredita que a Bíblia significa algo, e aquilo que se crê que a Bíblia significa é seu credo e sua confissão, quer escolha escrever e formalizar suas crenças ou não.

É claro que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser Cristo e livro algum a não ser a Bíblia estão, geralmente, tentando proteger algo importante e bíblico: a suprema autoridade das Escrituras em todos os assuntos de fé e prática cristãs. Há um temor correto em relação a permitir que ideias e tradições não bíblicas impactem a substância daquilo em que a igreja crê. Mas mesmo com todas as boas intenções que eles provavelmente têm, eu acredito que o que querem proteger – o status único das Escrituras – é, na verdade, melhor protegido por meio de documentos confessionais explícitos, conectados à uma forma cuidadosamente pensada de governo da igreja.

De fato, e até ironicamente, são aqueles que não expressam sua confissão em forma de um documento escrito que estão em perigo de elevar sua tradição acima das Escrituras de maneira que a primeira pode nunca ser controlada pela segunda. Se uma igreja tem um documento dizendo que é dispensacionalista em relação à escatologia, então todos nós sabemos qual é a posição dela em relação ao fim dos tempos, e podemos fazer como os crentes de Beréia e testar a posição dessa igreja de acordo com as Escrituras e ver se é isso mesmo. A igreja que simplesmente fala que a posição dela em relação ao fim dos tempos é a mesma que é ensinada na Bíblia parece estar falando tudo, mas, na verdade, não está falando nada.

Em resumo, credos e confissões, ligados à política eclesiástica bíblica, são uma parte vital da manutenção da vida saudável da igreja do Novo Testamento. Aqui estão sete razões pelas quais toda igreja deveria tê-los.

1) Confissões delimitam o poder da igreja

Numa era em que as palavras, especialmente palavras de afirmações reivindicando a verdade, sempre são tidas como suspeitas de fazerem parte de algum jogo manipulador de poder, então é contra-intuitivo pensar que confissões delimitam o poder da igreja. Porém, um pouco de reflexão torna claro que é exatamente isso que elas fazem. Os oficiais da igreja têm autoridade apenas em relação aos assuntos que a confissão define. Dessa forma, se alguém na igreja declara que a trindade é uma bobagem ou comete adultério, os oficiais tem tanto o direito quanto o dever de intervir. Os dois pontos são tratados nos Padrões de Westminster. Porém, se alguém quiser aparecer na igreja com um terno amarelo fluorescente ou decidir se tornar vegetariano, os oficiais não têm o direito de intervir. Eles talvez tenham reservas pessoais quanto à forma apropriada das pessoas se vestirem ou podem se questionar como alguém poderia viver sem um hambúrguer de vez em quando, mas não é dever da igreja abordar nenhuma dessas questões. De fato, isso é o que impede a igreja de se tornar seita: afirmações claras e abertas sobre onde a autoridade da igreja começa e termina, conectada à processos transparentes de exercitar essa autoridade.

2) Confissões oferecem resumos sucintos da fé

Se você tem em sua estante ou em seu bolso uma cópia dos Padrões de Westminster, então você tem mais teologia de qualidade por página do que qualquer outra coisa a não ser a Bíblia. Tomos teológicos parecem muitas vezes vastos e hostis, e poucos tem tempo para lê-los. O Breve Catecismo de Westminster, entretanto, pode ser carregado no seu bolso, lido em poucos minutos, e facilmente memorizado. É todo um currículo teológico numa forma de fácil digestão. É claro que existem outros livros por aí que fazem a mesma coisa. Mas existe algum que faça isso de forma tão eficiente e de fácil digestão? A igreja que possui uma boa confissão e um bom catecismo já tem uma ferramenta de ensino pronta para ensinar pouco a pouco a verdade para seu povo.

A história provou isso várias vezes. Aqui temos, por exemplo, a afirmação de B. B. Warfield em 1909:

Qual é “a marca indelével do Breve Catecismo”? Nós temos a seguir fragmentos da experiência pessoal de um general oficial do exército dos EUA. Ele estava em uma grande cidade do ocidente num tempo de muita excitação e de revoltas violentas. As ruas eram invadidas diariamente por uma multidão perigosa. Um dia, ele observou que se aproximava dele um homem com uma singular combinação de calma e firmeza no semblante, cujo comportamento inspirava confiança. Ele estava tão impressionado com o porte desse homem em meio ao alvoroço que, quando o homem passou por ele, ele se virou para olhá-lo, apenas para ver que o estranho fez a mesma coisa. Por observar que ele se virou, o estranho veio ao seu encontro, e tocou o seu peito com o dedo indicador, exigiu uma resposta, sem precedentes: “Qual o fim principal do homem?”, e  ao perceber o código, o oficial respondeu: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.” – “Ah!”, o homem disse, “eu sabia que você era um garoto do Breve Catecismo só pelo seu olhar!”, “Uau! Isso era justamente o que eu estava pensando de você!”, foi a resposta. (Selecionado de “Shorter Writings”, vol. 1, 383-84).

E o comentário lacônico de Warfield posterior a essa história é: “Vale a pena ser um garoto do Breve Catecismo. Eles crescem para ser homens. E melhor do que isso, eles estão extremamente aptos a crescerem para ser homens de Deus”. A razão, claro, é que o Breve Catecismo é, indiscutivelmente, uma excelente e concisa declaração de todo o conselho de Deus.

3) Confissões permitem uma distinção apropriada entre membros e oficiais da igreja

Há um debate dentro dos círculos reformados sobre qual deve ser exatamente a quantidade de conhecimento doutrinário exigida para se tornar membro de uma igreja. Para mim, acredito que Romanos 10 indica que o limite deve ser ajustado de acordo com o padrão mais baixo e não o mais alto do espectro. Uma confissão básica, a medida que é combinada com espírito humilde e que aceita a repreensão, é o bastante.

Mesmo que alguns discordem que o limite deve ser baixo, todos devem concordar que deve haver diferença entre o nível de conhecimento requerido de um oficial da igreja e de um novo membro. O nível em que alguém começa sua vida cristã não pode ser o mesmo daquele em que se estará no fim dessa vida. Deve haver crescimento em maturidade, e um aspecto disso é o crescimento do conhecimento doutrinário, e os documentos confessionais de uma igreja oferecem um roteiro ou uma lista de requerimentos daquilo que dá densidade e estrutura a esse crescimento. A igreja sem confissão, ou apenas com o mínimo de afirmações sobre sua doutrina, tem a desvantagem de não ser capaz de, perante  o povo, estabelecer qualquer visão bíblica do que a teologia de um cristão maduro deve ser.

4) Confissões enfatizam o que é mais importante

Talvez fosse possível expressar esse ponto de forma negativa: se não estiver na confissão, vai ser difícil defender que é um ponto de muita importância. Essa é uma das razões pelas quais as confissões devem ser um tanto elaboradas. Se, por exemplo, uma igreja tem uma base doutrinária ou uma confissão de 10 pontos, o problema que os oficiais terão que enfrentar é como convencer o povo de que um décimo primeiro ponto doutrinário é realmente importante. Se algo não está na confissão, então a igreja está funcionalmente permitindo a liberdade de consciência nesse ponto. Por exemplo, se a confissão não faz referência ao batismo, permitem que tanto pedobatistas quanto credobatistas ocupem o cargo de oficial, então o batismo é transformado em um assunto de indiferença prática. O mesmo se aplica para qualquer doutrina – perseverança, santificação, escatologia: se não é mencionado, então a igreja não tem uma posição oficial nisso e é relegado a ser um assunto de menor importância.

Novamente, para voltar ao ponto anterior: o novo convertido ou novo membro não saberá, necessariamente, no momento em que se junta à igreja, o que é importante e o que é indiferente. Uma boa e elaborada confissão provê à igreja não só um ótimo mapa pedagógico, mas também uma boa fonte de ensino para as pessoas sobre aquilo que realmente importa e sobre o porquê.

5) Confissões relativizam o presente e nos conectam ao passado

Todos sabemos que o cristianismo não é reinventado a cada domingo. Todos nós nos firmamos em uma base que foi construída para nós por muito irmãos e irmãs em Cristo que se foram antes de nós. Entretanto, frequentemente somos tentados a viver como se isso não fosse verdade. Isso dificilmente é surpresa, já que vivemos numa era onde as forças anti-históricas da cultura geral são poderosas e invasivas. Seja um comercial nos dizendo que a próxima aquisição irá nos trazer felicidade ou a ciência prometendo algum avanço que irá tornar nossas vidas mais fáceis, tudo a nossa volta aponta para o futuro como o que é mais importante e, certamente, vastamente superior ao passado.

Em contraste, o cristianismo é uma religião enraizada na história. Ele é constituído pelas ações históricas de Deus culminando em Cristo, e ele vem a nós pela articulação fiel e preservação de sua mensagem pela igreja de Deus durante os séculos. Isso é profundamente contracultural e algo do qual precisamos ser constantemente relembrados. Ironicamente, pode ser que aqueles que afirmam não ter credo algum a não ser a Bíblia estejam, na verdade, meramente refletindo o espírito da nossa geração com todo o seu triunfalismo anti-histórico.

Nesse contexto, o uso dos credos e confissões é um dos meios intencionais para nos conectarmos com o passado, nos identificarmos com a igreja das gerações passadas, e, assim, relativizar nosso próprio significado no grande propósito de tudo que existe. Recitar os antigos credos no culto é um exemplo prático disso. A afirmação dos documentos confessionais históricos, como uma expressão dos compromissos dos oficiais da igreja e o conteúdo das ambições pedagógicas da igreja para sua membresia é outro exemplo prático.

6) Confissões refletem a essência da nossa adoração

Quando eu ministro minha disciplina de Igreja Primitiva, sempre enfatizo que a dinâmica dos debates trinitarianos e cristológicos primitivos era doxológica e intrinsecamente conectada à adoração cristã. De forma simples, a afirmação da igreja primitiva “Jesus é o Senhor!” e a conjunção do Pai, do Filho e do Espírito Santo nos dizeres do batismo apontam diretamente para uma fundação de teologia profunda. Eles proveram o contexto para as discussões que acabariam por constituir o Credo Niceno e a Definição de Fé de Calcedônia. A tradição confessional da igreja começou com a reflexão a cerca do significado dos atos de adoração.

Por dois milênios, a adoração da igreja não mudou em seus pontos fundamentais – isto é, a declaração que Jesus é o Senhor e que a salvação é uma ação do Deus triúno: Pai, Filho e Espírito Santo – e nossas confissões explicam o conteúdo desses pontos.

Portanto, não devemos pensar que as confissões e doutrinas são contrárias à adoração vibrante. A posse de uma confissão, é claro, não se igualará à adoração vibrante, nem mesmo a garante, tanto quanto a mera existência de um código legal garante uma sociedade civilizada. Entretanto, as confissões são pré-requisitos para a adoração vibrante e consciente, são o sentido do que fazemos como cristãos.

Essa função confessional provavelmente se tornará mais visivelmente importante nos anos que estão por vir. À medida que outras religiões colidem com o cristianismo e, especialmente, algumas dessas religiões usam o mesmo tipo de vocabulário bíblico que usamos, será mais e mais crucial que entendamos não apenas as palavras que usamos, mas também o que essas palavras realmente significam. O seu amigável vizinho mórmon poderá muito bem concordar com você que Jesus é o Senhor e pode até cantar alguns dos mesmos hinos que você no culto. Assim, você terá que saber exatamente o que sua igreja quer dizer com “Jesus é o Senhor” ou com o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Boas confissões te possibilitam fazer isso com mais facilidade do que qualquer outra coisa.

7) Confissões são uma parte vital do plano de Paulo para a igreja pós-apostólica

Quando Paulo escreveu, quando estava preso, para seu aprendiz, Timóteo, sua mente estava focada em como a igreja iria se virar quando ele e os outros apóstolos saíssem de cena. A resposta dele é composta por duas partes: uma estrutura na qual o governo da igreja fosse colocado nas mãos de homens ordinários, porém fiéis, e a forma de sãs palavras. Ambas eram necessárias. Sem a estrutura, a igreja não teria liderança; sem a forma de sãs palavras, ela iria se desviar por ventos de doutrina, perdendo contato com seu passado e com outras congregações no presente. Uma forma de sãs palavras, uma confissão, era crucial para manter tanto a continuidade com os apóstolos quanto a unidade entre os cristãos do presente. E isso é o que nossos documentos confessionais fazem hoje: eles nos ligam aos nossos irmãos e irmãs crentes do passado e aos do presente.

A exclamação “Nenhum credo, exceto Cristo, e nenhum livro, exceto a Bíblia!” tem uma aparência ilusoriamente piedosa e bíblica, mas não deveríamos nos envergonhar de sermos cristãos confessionais, pois as confissões nos capacitam a manter determinadas prioridades bíblicas. Nós deveríamos ser gratos por isso e, da mesma forma, tentar mostrar aos nossos irmãos e irmãs não confessionais um caminho melhor para preservar as coisas que são valiosas para todos os cristãos.

***
Fonte: The Orthodox presbyterian Church
Tradução: Fernanda Vilela
.

Por que tantas pregações tão ruins?

.

Por Carl Trueman


A pregação é fundamental para o protestantismo. A proclamação da palavra de Deus é o meio primário pelo qual o cristão encontra Deus. Assim, a pergunta óbvia é: por que tantas pregações são tão ruins?

Esse não é um problema encontrado apenas em pequenas igrejas das quais ninguém jamais ouviu. Alguns anos atrás eu estava em uma conferência onde um grupo de pregadores estava sendo apontado como modelos para serem seguidos. Um desses pregadores, de uma das maiores e mais conhecidas igrejas evangélicas do universo dos novos calvinistas fez um sermão cheio de belas anedotas pessoais. Ao fim, ele havia enternecido meu coração em seu favor, como pessoa. Mas como pregação, aquilo foi simplesmente terrível, funcionalmente desconexo do texto bíblico que havia sido lido. Sinceramente, ele poderia muito bem ter substituído a leitura bíblica por um solilóquio de Rei Lear e não precisaria mudar uma sentença sequer do sermão. Pode ter sido eloquente e emocionante; mas, como pregação, foi uma completa catástrofe. E, infelizmente, foi uma catástrofe apresentada para uma multidão de milhares como o modelo do que se fazer no púlpito.

Afinal, por que tanto das pregações, mesmo as das celebridades das conferências, é tão ruim? É impossível responder essa questão em apenas uma frase. Sermões podem ser ruins por uma variedade de razões. Aqui estão oito que me parecer ser as mais significativas. Eu as dividi em categorias: teológica, culturais e técnicas.

Teológica

Primeiro, a razão teológica: para pregar bem, o pregador precisar entender o que ele está fazendo. Entender o que é uma tarefa é básico para fazer bem essa tarefa. Se você pensa que pregação é apenas comunicar informações, entreter ou fomentar uma discussão, isso vai moldar a forma com que você prega. O maior perigo para os estudantes nos seminários é que eles assumem que as aulas que eles ouvem são modelos para os sermões que eles vão fazer nos púlpitos. E não são. Pregação é um ato teológico. O pregador encontra seu correspondente não nos auditórios ou salas de aula nem, na pior das opções, no circuito de stand-up comedy. Ele o encontra nos profetas do Antigo Testamento, trazendo uma palavra de confrontação do Senhor que explica a realidade e demanda uma resposta.

Culturais

Em segundo lugar, há uma falha em prover um contexto apropriado para o treinamento dos pregadores. Os seminários tem um poder limitado; pregar três ou quatro vezes para seus colegas de classe e ser filmado enquanto isso não é uma preparação adequada para o púlpito. E a estranha prática de desencorajar pessoas que não foram licenciadas para tal não ajuda. Como alguém pode licenciar alguém para pregar a não ser que se saiba se ele consegue pregar? E como alguém vai saber fazê-lo se não tiver experiências reais em uma igreja real? A falta dos cultos noturnos em muitas igrejas não é apenas um triste testemunho sobre a perda do Dia do Senhor; também limita as oportunidades de pregação para aqueles em treinamento. Igrejas precisam fazer um trabalho melhor em encorajar aqueles que pensam que foram chamados para serem pregadores para testarem seus dons, talvez em cultos noturnos ou em outras situações. Basta pensar um pouco.

Em terceiro, há uma relativização da palavra pregada e o crescimento da ênfase no aconselhamento pessoal. Eu não estou negando a utilidade do aconselhamento pessoal, mas estou dizendo que a maioria dos problemas que muitos de nós temos deveriam ser lidados muito adequadamente por meio da proclamação pública da palavra de Deus. O mundo ao nosso redor nos diz que somos todos únicos e temos problemas igualmente únicos. Essa conversa sobre exclusividade é bastante exagerada. Precisamos criar uma cultura eclesiástica onde a exclusividade é relativizada e onde pessoas vêm à igreja esperando que a palavra pregada irá lidar com seus problemas particulares. Fico abismado com o fato de que, por mais que Paulo faça algumas aplicações individuais bastante pontuais, ele normalmente opera em um nível mais genérico. Seminários deveriam fazer da pregação a prioridade em todos os níveis; pregadores deveriam aprender a pregar com a confiança de que irão impactar indivíduos para o bem ao falarem com todos eles do púlpito.

Em quarto, há, às vezes, um fracasso em estabelecer a própria voz. Tendo sido convertido na década de 80, eu me lembro que não havia nada mais vergonhoso do que ouvir mais um pregador britânico que havia decidido que deveria soar exatamente como o Dr. Lloyd-Jones e pregar por tanto tempo quanto o grande Galês pregava. Muitos sermões brilhantes de meia hora eram implodidos pela necessidade do pregador de esticá-los até a marca de cinquenta minutos.

Hoje, talvez, o problema seja pior. Há alguns anos, questionei um grupo de estudantes sobre quem eram seus modelos favoritos de pregação. Nenhum deles mencionou qualquer dos pastores sob quem eles haviam crescido. Os nomes todos pertenciam ao pequeno e limitado grupo do circuito de pregação das mega-conferências.

Isso é desastroso por mais razões, mas não menos pelo fato de que essas conferências apresentam consistentemente como normativo um espectro muito limitado de vozes e estilos. Cada pregador precisa encontrar sua própria voz; a tragédia é que a dinâmica de preencher cinco ou dez mil assentos em um estádio significa que a única voz ouvida é aquela daquele capaz de atrair tanta gente. Mas muitas dessas vozes pastoreiam igrejas onde há pouco contato entre o pastor e o povo. Eles podem encher estádios, mas não são as únicas vozes que os aspirantes a pregadores deveriam ouvir. O tempo e o acaso podem transformar homens em pastores de mega-igrejas. Muitos pregadores muito melhores operam em igrejas menores e são eles que realmente podem testemunhar sobre a importância de se encontrar a própria voz.

Em quinto, nos círculos presbiterianos, pelo menos, é possível que se tenha uma imagem muito grande do ministério. Isso é contra-intuitivo, particularmente vindo de um presbiteriano que acredita que uma visão grande do ministério pastoral é um aspecto importante de uma igreja saudável. O que eu quero dizer aqui é: se a cultura da sua igreja projeta uma imagem tão alta do ministério a ponto da congregação pensar que o ministério ordenado é o único chamado digno para um homem cristão, a consequência infeliz é que homens que não tem as habilidades básicas para serem ministros irão, apesar disso, sentir a necessidade de serem ministros, para poderem servir da melhor forma. E homens, no ministério, que realmente não tem as habilidades pessoais necessárias para pregar não irão pregar bem. Precisamos de igrejas onde um entendimento saudável da vocação cristã é ensinada e cultivada, para que os homens não sintam esse tipo de pressão.

Técnicas

Há muitos aspectos técnicos na pregação, mas aqui estão três das mais comuns falhas técnicas que geram pregações ruins:

A falha da falta de estrutura clara. Minha impressão é que pregadores em treinamento muitas vezes assumem que a estrutura do sermão que prepararam é tão clara para a congregação quanto é para eles. E raramente é. Pregadores experientes conseguem tornar a estrutura clara simplesmente por meio de clareza de pensamento, progressão lógica e sentenças bem conectadas. Até que se atinja esse nível, eu aconselho os estudantes a esclarecerem logo no início qual é a estrutura. “Os três pontos que eu quero que vocês vejam nessa passagem são…” pode ser uma forma muito mecânica de começar a seção principal de um sermão, mas pelo menos deixa claro quais são os objetivos do pregador.

A falha de não conhecer ou não entender a congregação. Isso se manifesta de muitas formas. Normalmente, para estudantes e pregadores recém ordenados, se manifesta em entupir o sermão com o máximo possível de linguagem teológica especializada (conhecida na sala de aula como “terminologia técnica” e no púlpito como “conversa fiada”). O importante não é impressionar a congregação com o seu conhecimento. É apontar as pessoas para Cristo da forma mais clara e concisa possível.

A falha de não saber o que deixar de fora. Talvez, depois da falta de uma estrutura clara, essa é a falha mais comum entre os pregadores em treinamento. Você já leu tudo que poderia sobre a passagem; agora você quer dizer à congregação tudo o que você aprendeu. Você não pode fazer isso. Não faça a congregação beber de um hidrante. Pense com cuidado sobre quais são as coisas  mais importantes para essa congregação nesse momento (o que requer, é claro, conhecer alguma coisa sobre a congregação) e foque nisso. Todo aquele material fascinante restante? Bom, use em outro sermão sobre a mesma passagem um dia.

***
Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui.
.

Adoração trágica

.

Por Carl Trueman


O problema com grande parte da adoração cristã contemporânea, seja Católica ou Protestante, não é entretenimento demais, mas é não ser entretenimento o suficiente. A adoração caracterizada por rock animado, comédia stand-up, pessoas lindas e bem apessoadas no centro do palco e um tipo clichê de sentimentalismo barato negligencia uma forma clássica de entretenimento, aquela que nos que, citando o Livro de Oração Comum, “em meio à vida, estamos na morte”.

Ela negligencia a tragédia. Tragédia como forma de arte e entretenimento destaca a morte, e a morte é central para a verdadeira adoração cristã. O elementos litúrgicos mais básicos da fé, o batismo e a Santa Ceia, falam de morte, de sepultamento, de um pacto de sangue, de um corpo despedaçado. Mesmo o clamor de que “Jesus é Senhor!” assume um entendimento de senhorio muito diferente do de César. O senhorio de Cristo é estabelecido por meio de seu sacrifício na cruz, e o de César, por meio de poder.

Talvez seja estranho a alguns caracterizar tragédia como entretenimento, mas a tragédia sempre foi parte vital das obras artísticas do Ocidente desde que Homero relatou sobre Aquiles, começando sobre a morte de seu querido Pátroclo, até sua retirada relutante dos campos de batalha de Tróia. Seres humanos sempre foram atraídos por contos de tragédia, assim como os de comédia, quando o intuito era se elevar acima das rotinas previsíveis da vida diária – em outras palavras, serem entretidos.

De Ésquilo a Tennessee Williams, escritores do gênero têm enriquecidos os teatros. As grandes peças de Shakespeare são suas tragédias. Quem colocaria Charles Dickens acima de Thomas Hardy e Joseph Conrad? A tragédia atraiu a atenção de notáveis pensadores desde a Aristóteles a Hegel e Terry Eagleton.
A adoração cristã deveria imbuir as pessoas da realidade da tragédia da queda do homem e da humanidade. Deveria nos prover uma linguagem que nos permita adorar o Deus da ressurreição enquanto lamentamos o sofrimento e a agonia de nossa parte nesse mundo alienado de seu criador, e deveria, assim, afiar nossa esperança pela única resposta ao grande desafio que iremos enfrentar mais cedo ou mais tarde. Apenas aqueles que aceitam que irão morrer podem começar a olhar com alguma esperança para a ressurreição.

Apesar disso, hoje a tragédia, com algumas poucas exceções, foi excluída do entretenimento popular. Seja o sentimentalismo barato, a pirotecnia dos filmes de ação ou a idiotice banal dos reality shows, o senso trágico está completamente perdido. Isso é mais agravado ainda pela forma trivial com que a linguagem da tragédia agora é usada no vernáculo popular. Como sendo um momento decisivo ou de crise, as palavras tragédia e trágico agora servem para todo tipo de utilidade linguística. Em um mundo onde até mesmo derrotas esportivas são descritas como tragédias, raramente esses termos falam das crises morais catastróficas e quedas heroicas que estão no cerne da grande literatura de tragédia.

Mas a vida humana é, ainda assim, verdadeiramente trágica. A morte permanece uma realidade teimosa, onipresente e inevitável. Apesar de todo anti-essencialismo pós-moderno, de todo o repúdio pela natureza humana, de toda a retórica da auto-criação, a morte eventualmente chega para todos, frustra todos, nivela todos. Não é simplesmente um constructo linguístico ou uma convenção social. Mas mesmo assim, a cultura Ocidental tem, vagarosa mas continuamente, empurrado a morte, a única impressionante inevitabilidade da vida humana, para a zona mais periférica da existência.

Pascal observou esse problema na França do Século XVII, quando viu a obsessão pelo entretenimento como o surgimento do desejo humano caído de ser distraído de qualquer pensamento sobre mortalidade. “Tenho dito com frequência que a causa única da infelicidade do homem é que ele não sabe como permanecer quieto em seu quarto”, dizia. E: “Distração é a única coisa que nos consola de nossas misérias, e ainda assim é em si mesma a maior de nossas misérias”.

Hoje o problema é ainda maior: o entretenimento aparentemente se tornou o objetivo primário de existência das pessoas. Eu duvido que fosse surpreendente para Pascal que o mundo magnificou o tamanho, o alcance e a compreensão da distração. Não o surpreenderia que a morte foi reduzida a pouco mais que um personagem de desenho em incontáveis filmes de ação ou um mero impedimento momentâneo em novelas e seriados. De fato, ele não iria ficar perplexo em saber que a sombria violência da mortalidade não deixa qualquer marca duradoura nos enlutados no surreal mas sedutor mundo do entretenimento popular.

Mas talvez ele seja surpreendido com o fato de que as igrejas têm entusiasticamente endossado esse projeto de distração e dissimulação. É isso que resume muito da adoração moderna: distração e dissimulação. Grupos de louvor e músicas de triunfo parecem ter sido projetados em forma e conteúdo para distrair os adoradores das realidades mais difíceis da vida.

Mesmo funerais, o contexto religioso onde poderia se assumir que a realidade da morte seria inescapável, têm se tornado o contexto para os mais atrozes e incoerentes atos: a celebração de uma vida que agora acabou. O Salmo 23 e o hino “Comigo habita” eram marcas tradicionais de funerais por muitos anos, mas isso parece ter mudado. Referências ao vale da sombra da morte ou à brevidade da vida terreal, lembretes tanto de nossa mortalidade quanto da fidelidade de Deus mesmo nos mais escuros momentos, foram trocados por músicas como “Wind Beneath My Wings” e “My Way”. A economia superficial da adoração como entretenimento chegou até mesmo aos últimos ritos para os que se vão.

Entretanto, a tragédia é parte vital do entretenimento. Aristóteles, em sua obra Poética, argumentou em favor dos benefícios pessoais e sociais do drama trágico. A audiência, levada por crises morais vertiginosas, grandes falhas e as catastróficas quedas dos heróis, usufruía a experiência da catarse – experimentando a vasta gama de emoções – sem serem agentes nos eventos representados no palco. Eles deixavam o teatro lavados pela experiência e sabendo mais profundamente o que é ser humano. Eles estavam mais sábios, mais pensativos e mais bem preparados para enfrentar a realidade de suas próprias vidas.

De todos os lugares, a igreja deveria ser o mais realista. A igreja sabe quão grave foi a queda da humanidade, entende o custo dessa queda tanto na morte de Cristo encarnado quanto na morte inevitável de cada crente. Nos Salmos de lamento, a igreja tem uma linguagem poética para dar expressão aos mais profundos anseios de uma humanidade buscando encontrar paz não nesse mundo, mas no próximo. Nas grandes liturgias da igreja, a morte lança uma longa, criativa e catártica sombra. Nossa adoração deveria refletir as realidades de uma vida que deve enfrentar a morte antes de experimentar a ressurreição.

É, dessa forma, uma ironia do tipo mais perverso que as igrejas tenham se tornado lugares onde a distração Pascaliana e uma noção de entretenimento que exclui o trágico parece dominar de forma tão abrangente quanto fazem no mundo ao nosso redor. Estou certo que a separação dos prédios das igrejas dos cemitérios não foi parte intencional do começo desse processo, mas certamente ajudou a diminuir a presença da morte. A geração atual não passa pela inconveniência de andar pelos túmulos de entes queridos ao se reunirem para adorar. Hoje em dia a morte simplesmente sumiu de dentro das igrejas também.

Na tradição em que fui criado, da igreja Presbiteriana Escocesa, os ritmos mais sóbrios do saltério, os clamores de lamento e fragilidade mortal das vozes cantando sem acompanhamento instrumental ajudava a conectar a adoração de Domingo às realidades da vida. De fato há Salmos de alegria e triunfo. Pais regozijando o nascimento de um filho podem encontrar palavras de gratidão para entoarem ao Senhor, mas também há Salmos que permitem aos enlutados expressar seu sofrimento e sua dor em palavras de adoração a Deus.

Os Salmos como base para a adoração cristã, com seus elementos de lamento e confusão, e a intrusão da morte na vida, tem sido, com frequência, substituídos não por músicas que capturam essa mesma sensibilidade – como muitos dos grandes hinos do passado o fazem – mas por músicas que asseguram o triunfo sobre a morte sem nunca realmente encará-la. O túmulo está vazio, certamente; mas nunca estamos realmente certos do porquê ele esteve ocupado, para começar.

Apenas os morto podem ser ressurretos. Como o segundo ladrão da cruz enxergou tão claramente, a entrada para o reino de Cristo é através da morte, não ao escapar dela. O protestantismo tradicional via isso, conectando o batismo não tanto ao lavar, mas à morte e ressurreição. Liturgias protestantes se asseguravam que a lei seria lida em cada culto, para lembrar as pessoas que a morte era a pena por seu pecado. Somente então, depois da lei pronunciar sua sentença de morte, o evangelho seria lido, chamando-os de seus túmulos para a fé e à vida e ressurreição em Cristo. Assim, a congregação se tornava participante do drama da salvação.

Certamente havia catarse nesse tipo de adoração: a congregação saía a cada semana tendo encarado a mais profunda realidade de seus destinos. Talvez seja irônico, mas a igreja que confronta as pessoas com a realidade da brevidade da vida vivida sob a sombra da morte prepara melhor a congregação para a ressurreição do que a igreja que vai direto para o triunfalismo da ressurreição sem aquela parte estranha que fala sobre morrer.

Dietrich Bonhoeffer questionou certa vez: “Por que é que o cinema tem se tornado muitas vezes mais interessante, mais excitante, mais humano e mais envolvente que a igreja?”. De fato, por que? Talvez a situação seja pior do que eu descrevi; talvez as igrejas sejam mais triviais até que a indústria do entretenimento. Afinal, no entretenimento popular é possível encontrar ocasionalmente o trágico sendo devidamente articulado, como nos filmes de Coppola ou Scorcese.

Uma igreja com uma visão menos realista da vida do que a que se encontra no cinema? Para alguns, isso pode ser um pensamento divertido, até mesmo entretenimento; para mim, é uma tragédia.

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui.
.

Ensinando senso histórico à igreja

.
Por Carl Trueman

…e à uma discernente e sofisticada dama (de 7 anos)

Semana passada me perguntaram o porquê de alguns evangélicos se converterem à Ortodoxia Oriental ou ao Catolicismo Romano. As razões variam, estou certo disso, mas eu respondi comentando que um tema que tenho notado ao longo dos anos é o fato de que o evangelicalismo não possui raízes históricas. Isso não é dizer que não há história; é dizer que uma consciência dessa história não faz parte do pacote. Adoração rockband, pessoas belas, jovens e bem arrumadas (pessoas de meia idade um pouco infelizes de jeito nenhum) fazem parte, mas não se vê história em canto algum, a não ser em alguma referência durante o sermão a algum dos primeiros álbuns do Coldplay. Nesse sentido, consigo entender porque pessoas que procuram algo sério, algo com seriedade teológica e histórica, simplesmente desistem do evangelicalismo e começam a procurar em outro lugar. Alguns adultos querem uma fé que é similarmente adulta, afinal de contas. A pessoa que me fez essa pergunta prosseguiu e me pediu para sugerir o que as igrejas poderiam fazer para inculcar esse tipo de sensibilidade histórica. Boa pergunta. Aqui estão algumas ideias:

1. Se possível, trabalhe para assegurar que o padrão doutrinário da sua igreja é um dos credos e confissões históricos. Nós vivemos em uma era em que, seja lá qual for a retórica, o evangelicalismo tem sua agenda definida por igrejas individuais e grupos para-eclesiásticos que redigem suas próprias bases doutrinárias. Isso não é teologicamente questionável em si mesmo: muitas dessas bases são bastante ortodoxas, mesmo que bem diminutas. Mas é notavelmente um tanto quanto estranho: é difícil imaginar a indústria automobilística sendo gerenciada por grupos que continuam redesenhando a roda e afirmando que isso é uma inovação sem precedentes. E, é claro, isso não contribui em nada com o florescimento de respeito pela tradição bíblica histórica confessional e eclesiástica. Então, se houver essa opção, tente definir sua igreja em termos de algo histórico, não de um documento mais ou menos decente elaborado semana passada por um grupo de homens de sucesso em alguma sala de conferências de algum hotel.

2. Deliberadamente busque a tradição histórica da salmodia e dos hinos para adoração. Não que qualquer coisa escrita por alguém ainda vivo deve ser excluído. Longe disso. Mas tente se assegurar que as músicas da adoração refletem a abrangência cronológica da vida da igreja, do Livro de Salmos em diante. Conscientize as pessoas de que louvor e adoração não é algo que começou apenas seis meses atrás.

3. Aprenda com os padrões históricos de adoração. Há uma razão pela qual todo Domingo, na igreja onde eu prego, nós temos uma leitura bíblica seguida de uma oração de confissão seguida por um presbítero lendo palavras de perdão da Escritura. Isso dramatiza a dinâmica da salvação; e conecta o culto de Domingo da minha igreja com padrões de séculos de adoração.

4. Tempere seus sermões com referências históricas. Isso não significa que você precisa mencionar Calvino ou “o bom Doutor” com uma voz cavernosa toda vez que você expõe a Palavra. Muitas vezes esse tipo de referência serve apenas para confundir. Mas ajude as pessoas a verem como o que você está dizendo é importante e está ligado ao que a igreja tem crido ao longo de muitas eras.

5. Faça a congregação recitar um credo ou parte de uma confissão histórica durante o culto. Não necessariamente todo Domingo, mas com alguma regularidade. E explique o poder ecumênico e histórico disso: ao fazê-lo, você está se identificando publicamente com cristãos de todo o mundo e de todas as épocas.

6. Distribua livros gratuitamente como parte de seu ministério e certifique-se de incluir livros sobre história da igreja. Além disso, assegure-se que essa distribuição abrange tanto as crianças quanto os adultos. Na igreja que pastoreio, fazemos uma para os adultos e uma para as crianças todo mês. É bom começar enquanto eles são novos e introduzi-los à história da igreja. E há alguns excelentes livros de autores de livros infantis contemporâneos que escrevem sobre história da igreja: por exemplo, Simonetta Carr, Irene Howat e Linda Finlayson.

Apenas como um adendo, minha experiência indica que algumas crianças adoram esse tipo de coisa. Semana passada, durante o café após o culto da manhã, uma dama (de 7 anos de idade) de minha igreja se aproximou para me lembrar (com o que eu detectei se um certo tom gentil – e apropriado – de exortação em sua voz) que era hora de dar mais alguns livros de história para as crianças e que eu deveria lembrar que “meninas gostam de ler histórias sobre meninas e meninos gostam de histórias sobre meninos”. Assim, ontem eu dei dois livros de Simonetta sobre Joana Grey e dois sobre Agostinho.

Tudo que as crianças precisam fazer por mim é fazer um desenho de algum acontecimento do livro, para que eu possa pendurar sobre a minha mesa, no escritório da igreja. Significa muito para eles, pelo que tenho visto. Mais importante, eles começam a pensar historicamente mesmo antes de entenderem que o estão fazendo. Precisamos começar a pensar agora sobre como preparar as coisas para a próxima geração, e não simplesmente teologicamente, mas historicamente também.

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui
.