Ética e a pena de morte



Embora o texto [Gênesis 9.6] proíba terminantemente tirar a vida humana e ordene também terminantemente que se tire a vida de qualquer um que derrame sangue, podemos supor que a expressão é uma hipérbole e que o texto fala de tirar a vida de pessoas inocentes. Isso ocorre porque a Lei determina que se tire a vida de alguém em alguns casos, como homicídio doloso (Êx 21.12-16), mas não no caso de homicídio culposo, isto é, sem a intenção de matar (Nm 35.6-34).

O princípio da lei do talião (i.e., vida por vida) fica esclarecido nos mandamentos que Eu Sou dá ao povo da aliança acerca do homicida (Nm 35.16-21) e no ensino paulino sobre o cristão e o Estado. No caso de homicídio culposo, o condenado é banido para uma cidade de refúgio, não para uma penitenciaria, até a morte do sacerdote (Nm 35.22-28). No entanto, no caso de homicídio doloso, aquele cometido com intenção de matar, exige-se a pena de morte. No NT, os cristãos não devem se vingar por nenhum mal que venham a sofrer, mas deixar que a ira de Deus vingue esse mal (Rm 12.19). Por sua vez, Deus estabelece o governo como seu ministro, um vingador que executa a ira sobre aquele que pratica o mal (Rm 13.4). O Senhor e Rei supremo municia as autoridades públicas com a espada, o instrumento de morte, para o castigo do malfeitores. A lei que diz: "Quem derramar sangue de homem, terá seu sangue derramado pelo homem" (Gn 9.6) é prova de que, como ministros de Deus, as autoridades públicas têm a responsabilidade de executar a pena de morte no caso de crime de morte. Essa é uma obrigação, não uma opção. Deus diz três vezes: "Cobrarei" (Gn 9.5).

O sangue inocente derramado no caso de assassinato tem de ser compensador: Deus exige prestação de contas por esse sangue, porque ele é vingador (2Rs 9.26; Sl 9.12; Hb 12.24), mas os textos não especificam como. O sangue inocente contamina o culpado e é expiado pela morte do assassino (1Rs 2.32) ou mediante propiciação (Dt 21.7-9). Mesmo no caso de homicídio culposo, o homicida não pode ser posto em liberdade antes da morte do sumo sacerdote. Se o sangue inocente não for expiado, Deus trará condenação à terra (Dt 19.13; 2Sm 21; 1Rs 2.5, 6, 31-33). Se a pessoa que derramar sangue inocente não for castigada, a comunidade que se recusa a estabelecer a justiça será castigada por esse sangue derramado. Por causa do valor que tem a vida humana, por levar a imagem de Deus, e por causa da justiça exigida por derramar sangue inocente, Deus outorga à humanidade a autoridade judicial de impor a pena de morte. Isso demonstra mais uma vez que ele designou a raça humana para governar essa terra em seu nome. Essa autoridade é a base do governo organizado (Rm 13.1-7). Deus institui o lar antes da Queda, para criar uma sociedade em que o amor pode prosperar. Após o diluvio, ele institui o Estado para evitar o crime. Nahum M. Sarna diz: "A destruição do antigo mundo requer o repovoamento da terra e a correção dos males que trouxeram o Dilúvio. Dai por diante, a sociedade tem de estar firmada em bases morais mais seguras".

A lei tinha o cuidado de proteger quem era acusado falsamente. Eram necessárias pelo menos duas ou três testemunhas para se condenar alguém por um crime (Dt 19.15). Se uma testemunha cometesse perjúrio, o juiz responsável pelo processo deveria impor ao perjuro o mesmo que este pretendia fazer com o acusado, até mesmo a vida pela vida (Dt 19.16-21). Por fim, as próprias testemunhas tinham de participar da execução (Dt 17.2-7).

Entretanto, o assassino  que se arrepende de verdade de seu crime, deve ser tratado com misericórdia (Pv 28.13). Embora tenha tirado a castidade de Bate-Seba e assassinado o marido dela, Davi experimentou perdão com base nos atributos divinos e sublimes da graça, do amor inesgotável e da misericórdia (2Sm 12.13-14; Sl 51). O sangue de Cristo fez a propiciação definitiva por todos os pecados de todos os seus eleitos (Hb 7.23-28).

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Autor: Bruce K. Waltke
Fonte: WALTKE, K. Bruce. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2015, p.343-4. Adquira aqui!
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"Descobrindo" a vontade de Deus?

Por Bruce Waltke

A palavra "descobrir" normalmente é usada no sentido de aprender, alcançar ou compreender a mente de Deus. Quando procuramos "descobrir" sua vontade, estamos tentando descobrir um conhecimento oculto, por meio de uma atividade sobrenatural. Se vamos descobrir a vontade divina em uma situação específica, temos de penetrar na mente de Deus para saber qual é a sua decisão. "Descobrir", nesse sentido, é na verdade uma forma de adivinhação.

Essa ideia era comum nas religiões pagãs. Na verdade, era a maior preocupação dos reis pagãos A maioria dos textos do antigo Oriente Médio tratam da adivinhação. O rei jamais tomava uma decisão importante, como ir para a guerra, até obter uma resposta dos deuses, se deveria ou não ir. Muitos cristãos seguem esse mesmo caminho na busca da mente divina para uma decisão. Já conversei com pessoas que realizam certos rituais antes de ir a Deus com uma pedido importante, como se assim pudesse se tornar mais aceitáveis perante Deus, tendo uma chance maior de receber uma resposta. Entretanto, foi desse tipo de comportamento pagão que Cristo nos livrou. Não precisamos matar cordeiros ou fazer grandes promessas, nem fazer sacrifícios especiais para negociar nosso acesso à presença de Deus. Cristo, com sua morte na cruz, rasgou o véu do Santo do Santos. O acesso a Deus não é mais restrito a apenas um sacerdote humano, nascido de uma família específica, que ia diante do Senhor em favor do povo escolhido. Você agora tem acesso a Deus por meio de Jesus Cristo. Agora você tem direção de Deus por intermédio do Espirito Santo. Talvez o problema seja que nem todos os cristãos estão tendo um relacionamento íntimo com o Deus que os ama. 

O Novo Testamento não dá nenhum mandamento explícito para "descobrirmos a vontade de Deus", nem se pode encontrar nenhuma instrução específica sobre como fazer tal coisa. Não há uma fórmula mágica, oferecida ao cristão, que abra alguma porta misteriosa e maravilhosa e que nos dê um vislumbre da mente do Todo Poderoso. A Bíblia proíbe a adivinhação pagã (Dt 18.10) e prescreve punições severas para aqueles que recorrem à magia para determinar a vontade de Deus. Simão, o mágico, foi severamente repreendido por Pedro, por tentar adquirir poderes sobrenaturais (At 8.9-13) e Cristo criticou a geração que sempre pedia sinais a Deus. 

Deus não é um gênio mágico. O uso de "caixinha de promessa" ou o hábito de abrir a Bíblia ao acaso e apontar um texto com o dedo, ou tomar como base o primeiro pensamento que passa pela mente depois de orar são formas fúteis e desnecessárias de adivinhação cristã. 

A busca por sinais especiais de Deus é a marca de uma pessoa imatura - alguém que não consegue simplesmente crer na verdade como esta se apresenta, mas precisa ter sinais especiais e miraculosos como símbolo da autoridade divina. 

Fonte: Waltke, Bruce & Macgregor, Jerry.  Conhecendo a vontade de Deus para as decisões da vida. Cultura Cristã. São Paulo, 2001. pp. 20,21
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