Exegese de Mateus 23.37

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MATEUS 23:37 – Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. (NVI)
                  
Quando os Arminianos atacam as doutrinas bíblicas da soberania divina, eleição, reprovação, e assim por diante, este é um dos versículos que eles frequentemente mencionam para apoiar a posição deles. O que Jesus “queria” não foi realizado porque as pessoas “não estavam querendo”. Supostamente isto mostra que o homem possui um livre-arbítrio que pode se opor à vontade divina, de forma que o desejo de Deus pode finalmente ser frustrado, e sua graça pode ser resistida com sucesso. O que se segue não oferecerá uma exposição positiva do sistema bíblico, mas apenas mostrará que este versículo não pode ser usado para apoiar o Arminianismo. 

Quanto ao esquema chamado Calvinismo, podemos distingui-lo entre duas formas. Chamaremos um de visão bíblica ou consistente, e o outro de visão popular ou inconsistente.

O Calvinismo consistente afirma com a Escritura que a soberania divina é incompatível com a liberdade humana, e visto que a Escritura ensina que Deus é absolutamente soberano, isto exclui e destrói completamente a liberdade humana. O homem não tem nenhum livre arbítrio; ele não é livre de forma alguma. É verdade que o homem exerce sua vontade – ele faz decisões – mas sua vontade não é livre. Antes, sua vontade – como ele faz decisões e quais decisões ele faz – é direta e constantemente controlada por Deus tanto para o bem como para o mal, tanto para a fé como para a incredulidade. E Deus é justo por definição em todas as ações que ele realiza sobre as criaturas. Eu já ofereci exposições completas deste esquema bíblico em outros lugares.

Então, há a forma popular de Calvinismo. Este é a visão inconsistente que diz que a soberania divina e a liberdade humana são “compatíveis” em algum sentido; que a responsabilidade moral pressupõe em alguma medida ou sentido uma “autodeterminação”; que Deus tem desejos que contradizem uns aos outros, que Deus faz com que os decretos divinos causem coisas o que ele deseja, talvez para estabelecer o que ele mais deseja; que Deus pode decretar a reprovação de indivíduos, tornando impossível que eles creiam, mas ainda oferecer “sinceramente” a salvação a eles, se eles puderem crer; que Deus de alguma forma governa o mal, mas não tem relação causativa direta para com ele; que Adão foi criado inocente e sem mal, mas pôde de alguma forma realizar o mal, sem Deus fazer com que ele agisse assim; que podemos afirmar a realidade do mal, mas negar que Deus exerce algum poder causativo direto sobre ele e ainda assim evitar de alguma forma cair num deísmo ou dualismo; que podemos afirmar ambos os lados de uma contradição “aparente”, e que a Escritura ensina doutrinas “aparentemente” contraditórias que não são contradições reais na mente de Deus. Não faremos nenhuma tentativa para defender este pacote antibíblico e irracional de confusão.

Começaremos observando o contexto no qual nosso versículo aparece. Aconselho que você leia Mateus 23 em sua inteireza antes de continuar lendo, mas se te faltar a paciência, pelo menos leia-o após ler esta exposição. Isso te ajudará a captar melhor os pontos que estabeleceremos. Lucas 13:34 é um versículo paralelo. Ali o contexto, em termos do assunto levantado pelos versículos em volta, é similar o suficiente, de forma que ele não demanda um tratamento separado. E por causa disto, eu não prestarei nenhuma atenção a este outro versículo em nossa discussão. Após termos completado nossa discussão sobre Mateus 23:37, você não terá nenhum problema com Lucas 13:34.

O capítulo começa, nos versículo 1-12, com Jesus fazendo algumas considerações sobre a hipocrisia dos escribas e fariseus. Ele diz que até onde eles ensinavam a lei, as pessoas deveriam obedecer. Então, ele adiciona: “Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los” (v. 3-4).

Nos versículo 13-32, ele pronuncia sete “ai’s” sobre eles, citando as acusações que ele tinha contra eles juntamente com cada “ai”. Esta porção do capítulo é essencial para um entendimento apropriado do versículo 37. À medida que você ler estes versículos, observe como Jesus pronuncia um “ai” após o outro, e observe a intensidade com que ele faz isso. Então observe a quem ele está dirigindo estes “ai’s” de uma maneira dura: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas!”. Observe todas as ocorrências nas quais ele dirige suas declarações a “vocês” – os escribas e fariseus. Preste atenção especial ao versículo 13, que diz: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo”.

Então, nos versículos 33-36, ele os identifica com aqueles que, por toda a história de Israel, tinham matado os profetas que Deus enviava ao povo. Ele diz: “E, assim, sobre vocês recairá todo o sangue justo derramado na terra... Eu lhes asseguro que tudo isso sobrevirá a esta geração” (v. 35-36). Sem dúvida, ele está se referindo à destruição iminente do templo. O contexto comprova isto, visto que vários versículos adiante, lemos: “Jesus saiu do templo e, enquanto caminhava, seus discípulos aproximaram-se dele para lhe mostrar as construções do templo. ‘Vocês estão vendo tudo isto?’, perguntou ele. ‘Eu lhes garanto que não ficará aqui pedra sobre pedra; serão todas derrubadas’” (Mateus 24:1-2). Esta predição foi cumprida em 70 d.C., isto é, na mesma geração a qual Jesus ministrou e pregou, e a mesma geração que o assassinou. As pessoas foram massacradas e o templo foi destruído.

Jesus não mudou o assunto quando ele chega ao versículo 37. O versículo seguinte ainda se refere à destruição do templo: “Eis que a casa de vocês ficará deserta” (v.38). De fato, como já observamos, ele ainda está no mesmo assunto com o qual Mateus 24 começa. E é com este pano de fundo em mente que deveríamos ler nosso versículo: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram”.

Aqui “Jerusalém” não se refere à cidade física, ou a toda pessoa considerada individualmente na cidade. “Jerusalém” é dita ser aquela que “mata os profetas”, e no contexto, aqueles que matariam os profetas são os líderes do povo – incluindo os escribas e fariseus. Eles imitam seus antepassados que “assassinaram os profetas” (ver v. 29-32). No versículo 34, Jesus diz que ele está prestes a enviá-los profetas e mestres, e estes lideres iriam maltratá-los assim como os seus antepassados maltrataram os antigos profetas: “Por isso, eu lhes estou enviando profetas, sábios e mestres. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de vocês e perseguirão de cidade em cidade”.

Quanto aos “filhos” no versículo 37, naturalmente eles eram as pessoas que viviam sob a autoridade e direção destes líderes. Líderes religiosos e políticos são algumas vezes chamados de “pais” na Escritura (Atos 7:2, 22:1), e aqueles sobre quem eles exercem poder e influência são chamados de “filhos” (Mateus 12:27; Isaías 8:18). Deveríamos observar primeiro, então, que este versículo não pode se referir à disposição ou à fé de indivíduos para aceitar o evangelho, pois de outra forma o versículo deveria dizer: “Eu quis reunir vocês... mas vocês não quiseram”, ou “eu quis reunir os seus filhos... mas seus filhos não quiseram”. Mas o versículo diz: “Eu quis reunir os seus filhos... mas vocês não quiseram”. Não foram os “filhos” que resistiram, mas o “vocês” que resistiram para evitar os “filhos” de serem reunidos. O versículo, portanto, está se referindo à mesma coisa já mencionada no versículo 13: “Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo”.

Os Arminianos podem afirmar a liberdade humana e negar que Deus controla diretamente uma pessoa para crer ou descrer. Mas tendo negado o controle a Deus, supomos que nem mesmo eles são tolos o suficiente para então voltar e atribuir a líderes humanos políticos e religiosos o controle interno direto sobre as mentes do povo, como se os fariseus possuíssem maior controle do que Deus sobre as pessoas, de forma que eles poderiam ter misericórdia de quem quisessem ter misericórdia, e endurecer a quem eles desejassem endurecer. Não, é evidente que os versículos 13 e 37 estão se referindo a como os líderes humanos impediam os profetas sobre um nível puramente humano e externo, para evitar que a mensagem deles chegasse até o povo, e para evitar que o povo abraçasse tal mensagem. Jesus está falando sobre uma influência social e externa, não de um poder metafísico e interno.

Segue-se, então, que o “eu quis” no versículo 37 está se referindo ao relacionamento de Jesus com aqueles líderes e o povo deles sobre um nível humano e externo. Não há nenhuma indicação neste versículo de que o desejo divino ou o decreto divino pode ser resistido com sucesso simplesmente porque alguém “não está querendo”. A Bíblia é clara sobre o ensino de que, se alguém está indisposto, é porque Deus o tornou indisposto (João 12:40; Romanos 9:18, 11:7), e se alguém está disposto, é porque Deus o tornou disposto (João 6:44, 65). Ninguém que Deus torne indisposto pode vir (João 6:44), e ninguém que Deus torne disposto pode recuar (João 6:37).

Uma objeção que pode se levantar é que o que é atribuído ao “eu” aqui não pode ser realizado por Jesus considerando-se um nível puramente humano. Mas em quase outro contexto, talvez numa discussão sobre a deidade de Cristo, até mesmo os Arminianos admitiriam que como Deus-homem, a Escritura nem sempre distingue meticulosamente o que é atribuído à sua natureza divina e o que é atribuído à sua natureza humana. Nós podemos fazer a distinção quando devemos, mas a Escritura nem sempre faz esta distinção.

Por exemplo, em João 4:10, Jesus é ao mesmo tempo alguém que pede água para beber, e alguém que dá água viva. Mas Jesus em sua natureza divina não pode ficar com sede. Em Atos 3:15, Pedro diz aos judeus: “Vocês mataram o autor da vida”. Mas Jesus em sua natureza divina não poderia ser morto. Certamente, este não é um problema para a inspiração da Escritura, para a deidade de Cristo ou para a doutrina da encarnação. Antes, é um testemunho do fato de que a natureza divina e a natureza humana estão de fato intimamente unidas em Cristo, e, todavia, ainda permanecem distinguíveis, de forma que não há nenhuma mistura ou confusão. Uma não é divinizada, e a outra não é humanizada.

De qualquer forma, é possível responder a objeção a partir do próprio versículo. Observe que o envio dos profetas não é atribuído ao “eu”; antes, somente a reunião dos filhos é assim atribuído. E visto que a reunião está se referindo ao ministério sobre um nível humano e externo, isto não demanda um assunto divino. O fato de que um ministério é resistido num nível humano não diz nada sobre a soberania divina ou a liberdade humana sobre um nível metafísico.

Embora possamos trazer à tona detalhes adicionais para fortalecer o caso, nosso presente esforço foi mais do que suficiente. Já mostramos que o versículo não concede nenhum suporte à heresia do Arminianismo, e urgimos que seus aderentes abandonem seu pensamento humanístico para abraçar a doutrina bíblica.

Nem pode o falso esquema do Calvinismo inconsistente encontrar refúgio aqui, visto que nosso caso se aplica igualmente contra eles e o uso impróprio deste versículo por eles, por exemplo, em seus ensinos sobre a “oferta sincera” do evangelho e sobre a tensão entre os desejos contraditórios na mente de Deus. Nós urgimos que os aderentes desta teologia antibíblica abandonem seu irracionalismo, e finalmente removam todos os traços da heresia Arminiana do seu pensamento.  

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Autor: Vicent Cheung 
Fonte: Monergismo
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Determinismo vs Fatalismo

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Por Vicent Cheung


As pessoas frequentemente me perguntam sobre fatalismo. A maioria delas são pessoas educadas e educáveis que desejam conhecer o que o fatalismo e determinismo são, como eles diferem um do outro, e como minha posição difere do fatalismo.

Aqui estão dois exemplos:

(1) Gostaria de saber qual é a sua posição sobre fatalismo. Fatalismo e determinismo são a mesma coisa?
(2) Gostaria de saber como você diferenciaria o determinismo estrito do fatalismo. A razão pela qual eu pergunto isto é que me parece que a maioria dos calvinistas que sustentam o determinismo suave se esforça para evitar a acusação de serem fatalistas.

Então, há alguns que abertamente me acusam de ensinar fatalismo.

O seguinte será suficiente como minha resposta a ambos os grupos de pessoas.

Embora eu assuma que a maioria das pessoas teria isto em mente, mesmo que eu não mencionasse, por favor, lembre-se que por “determinismo”, estamos nos referindo somente ao determinismo teísta, teológico ou divino, e não ao determinismo naturalista ou científico, o último sendo a posição afirmada pela maioria dos ateus. Estamos considerando o controle que Deus exerce sobre a Sua criação, e não a relação entre ações humanas e causas naturais antecedentes (tais como genética e fatores ambientais).

Por algumas definições, os termos “determinismo” e “fatalismo” são similares.

Por exemplo, alguns dicionários ingleses definiriam estes termos de formas que falhariam em fazer uma clara distinção entre eles. Merriam-Webste é muito ambíguo para o nosso propósito, e Webster's New World Thesaurus considera as duas palavras como sinônimas. Certamente, mesmo aqueles que afirmam o determinismo “suave” e me acusam de ensinar o fatalismo, não aceitariam estas definições ambíguas, visto que então eles se tornariam, na melhor das hipóteses, “fatalistas suaves”.

As definições na literatura teológica e filosófica poderiam ser mais precisas.

Por “fatalismo”, eu me refiro ao ensino de que todos os eventos são pré-determinados por forças impessoais, a despeito de meios, de forma que, não importa o que uma pessoa faça, a mesma consequência resultará.

Por “determinismo”, estou especificamente me referindo ao determinismo teológico ou divino — estou me referindo ao ensino de que o Deus pessoal da Bíblia pré-determinou inteligentemente e imutavelmente todos os eventos, incluindo todos os pensamentos, decisões e ações humanas, predestinando assim tanto os fins como os meios para aqueles fins.

Estas não são definições privadas minhas, mas elas são consistentes com o uso comum na literatura teológica e filosófica.

Por exemplo, o Dr. Alan Cairns, um respeitado pastor e teólogo Presbiteriano, cuja ortodoxia é geralmente inquestionável, e que é ele mesmo um determinista “suave” (p. 186), define “fatalismo” da seguinte forma: “A teoria da necessidade inevitável; a filosofia oriental pagã de que todas as coisas são pré-determinadas por forças cegas e irracionais, e, portanto, não há como o esforço humano mudar algo” (Dicionário de Termos Teológicos; p. 176, “fatalismo”).

Agora, diante dos olhos de Deus, quem ousaria me acusar de ensinar que “todas as coisas são pré-determinadas por forças cegas e irracionais”? Fazer isso seria cometer o pecado de calúnia, e alguns têm realmente cometido este pecado contra mim por suas falsas acusações.

E quem ousaria me acusar de ensinar que todas as coisas ocorrem como pré-determinadas, a despeito dos meios? Eu afirmo que Deus determinou todas as coisas por imutavelmente pré-ordenar e diretamente controlar tanto os fins como os meios.

É perigoso falar de coisas que você não entende, e parece que aqueles que me acusam de ensinar o fatalismo são, de fato, ignorantes do que fatalismo realmente significa.

Assim como alguns Arminianos falsamente acusam os Calvinistas de ensinar o fatalismo, aqueles Calvinistas que afirmam o determinismo “suave” dão meia-volta e me acusam de ensinar o fatalismo, quando tanto estes Calvinistas como aqueles Arminianos não têm ideia do que o fatalismo significa. Estas pessoas não têm a cortesia de nem mesmo dar uma olhada na palavra num dicionário teológico para se certificar a que ela se aplica.

Quanto àqueles de vocês que são atenciosos e ensináveis — diferentemente daqueles que fazem acusações ignorantes e caluniosas, pretendendo ser eruditos quando não o são — eu não acuso vocês por perguntar sobre isto, visto que há muita falsa informação sendo circulada.

Tenha certeza que o que eu ensino, embora seja uma versão mais vigorosa do determinismo que você está acostumado a ouvir, é muito diferente do fatalismo. De fato, ele é tão diferente do fatalismo com o teísmo é diferente do paganismo e ateísmo, visto que eu afirmo que todas as coisas são determinadas por um Deus pessoal e soberano, não por “forças cegas e irracionais”.

Portanto, não permita que pessoas ignorantes te confundam ou te enganem.

Então, eu apontarei também algo que é comumente mal-entendido, a saber, algumas pessoas assumem que uma pessoa tem mais liberdade sob o “determinismo” e que as coisas são mais abrangentemente determinadas no “fatalismo”. Mas isto não é verdade.

O fato é que as coisas são mais determinadas no determinismo divino do que em qualquer outro esquema. Sob o “fatalismo” (como definimos apropriadamente acima), um evento é pré-determinado de tal forma que a mesma conseqüência resultará “não importa o que você faça”, isto é, a despeito dos meios. Mas sob o determinismo divino, embora “importe” o que você faça, “o que você faz” é também imutavelmente pré-determinado em primeiro lugar. E “importa” porque há uma relação definida entre “o que você faz” e o resultado, mas até mesmo esta relação é determinada e controlada por Deus.

(Do que as pessoas me acusarão agora? Eu não posso ser acusado de ensinar fatalismo, visto que estou dizendo que o fatalismo é muito fraco! Mas os caluniadores pensarão em algo...).

Assim, eu afirmo o determinismo divino e não o fatalismo, mas não pela razão que as pessoas algumas vezes evitam o fatalismo. Eu afirmo o determinismo não porque as coisas são menos controladas neste esquema — elas são mais controladas nele — mas eu o afirmo porque ele é a verdade revelada e racional.

Aproveitando, há aqueles que declaram que meu determinismo é “Spinozismo” (seguindo a filosofia de Spinoza). Relacionado a isto está a acusação de que meu ocasionalismo é panteísmo (veja A. A. Hodge em Esboços de Teologia). Mas isto também é estúpido e ignorante.

Se o panteísmo afirma que “tudo é Deus”, então isto significa que quando Deus age em qualquer objeto, Ele sempre está agindo em Si mesmo. Contudo, isto está muito longe do que eu afirmo. Antes, eu afirmo que Deus criou entidades espirituais e materiais que são outras além dEle, mas que Ele, todavia, as sustenta e controla completamente. Dizer que Deus controla X é muito diferente de dizer que Deus é X.

Portanto, assim como com a acusação de fatalismo, estas pessoas não têm idéia do que o panteísmo significa, e me acusar de ensinar explicitamente ou implicitamente o panteísmo não é nada senão calúnia.

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Nota sobre o autor: Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. Ele é o autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica como um sistema de pensamento compreensivo e coerente, revelado por Deus na Escritura. Ele e sua esposa, Denise, residem em Boston, Massachusetts. http://www.rmiweb.org

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 14 de Maio de 2005.
Fonte: Monergismo
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Ordenação e tradição humana

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Por Vicent Cheung

"Por essa razão, torno a lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você mediante a imposição das minhas mãos." (2 Timóteo 1.6)

Timóteo recebeu “o dom de Deus” quando Paulo impôs suas mãos sobre ele. Isso refere-se ao mesmo incidente mencionado em 1 Timóteo 4.14, onde é dito que um corpo de presbíteros impôs as mãos sobre Timóteo (em cujo caso Paulo teria sido um dos presbíteros), ou a um evento separado no qual apenas Paulo impôs as mãos sobre ele. Não existe nenhuma evidência bíblica para sugerir que a imposição de mãos, mesmo quando dons espirituais são conferidos, está reservada para a ordenação formal praticada hoje. Todavia, certo teólogo iguala o que Paulo descreve aqui com a ordenação formal de nossas denominações. Então, ele observa que a ordenação não é um reconhecimento de dons já presentes, mas uma concessão de dons não possuídos anteriormente. E, adiciona, esse dom é a autoridade para pregar.

Todos os três pontos são errados ou enganosos.

Primeiro, há evidência bíblica insuficiente para estabelecer a teoria de ordenação afirmada pelas denominações hoje. De fato, há evidência bíblica insuficiente para estabelecer as próprias denominações formais. Havia ordem na igreja, crentes trabalhando juntos em acordo, e conferências de presbíteros para discutir questões doutrinárias, mas tudo isso não se traduz numa instituição elaborada governada por concílios regionais e nacionais. Se um grupo de crentes decide se unir dessa maneira para fornecer apoio e prestação de contas mútuas como uma questão de vantagem e conveniência prática, não me oponho a isso. Contudo, seria errado eles desprezarem, criticarem ou de alguma forma pensar menos de cristãos que agem de acordo com os princípios bíblicos, mas diferem deles em detalhes não definidos ou restringidos por princípios bíblicos. Os princípios bíblicos para o governo da igreja são ricos, claros e inflexíveis, mas permitem muita liberdade nos detalhes, e simplesmente não requerem uma estrutura denominacional, ou muitas das teorias e práticas assumidas hoje. Se você impõe seus próprios princípios de governo eclesiástico sobre outros quando a Escritura não ensina ou os requer, então você está seguindo o exemplo dos fariseus, no fato de você alegar proteger a ordem prescrita da igreja, quando está na verdade protegendo tradições inventadas por homens.

Segundo, é enganoso dizer que a ordenação não é um reconhecimento de dons já presentes, mas uma concessão de dons não possuídos anteriormente. Essa é uma inferência muito ampla a partir de um versículo limitado e específico. De acordo com a Bíblia, Deus concede dons espirituais de diferentes formas. Algumas vezes eles são dados diretamente, sem nenhuma agência humana. Outras vezes são dados em resposta à oração. Por exemplo, Paulo diz que a pessoa que fala em línguas deve orar para que possa interpretá-las. Então, algumas vezes eles são dados por meio de agentes humanos, como quando os presbíteros e Paulo impuseram suas mãos sobre Timóteo. O que chamamos ordenação é um reconhecimento público do chamado. O chamado já existe, quer a igreja o reconheça ou não. Os dons espirituais sempre seguem o chamado. Eles apoiam o chamado da pessoa, e o capacitam a cumpri-lo. Mas os dons nem sempre são concedidos através da ordenação, nem o reconhecimento do chamado pela igreja é sempre necessário. E se Deus chama alguém para repreender a igreja ou se opor a uma denominação? Quem o ordenou então? Ou isso nunca acontece? Qual é a evidência bíblica que torna nossas denominações e seu reconhecimento formal algo necessário? Não existe nenhum princípio rígido de ordenação na Bíblia. Isso é uma questão de ordem eclesiástica. Algumas vezes Deus a usa, outras não. Deus ainda é Deus. Quer a política da nossa igreja permita Deus ser Deus ou não, ele ainda pode fazer o que quiser.

Teólogos frequentemente afirmam doutrinas que restringem as práticas corretas àquelas já afirmadas por suas denominações. Eles começam a partir da Bíblia, então adicionam suas tradições a ela, e o resultado são as políticas denominacionais, que eles afirmam ser a pura doutrina escriturística e criticam aqueles que discordam. Mas o ensino da Bíblia deixa espaço para a soberania de Deus, muita variedade, e a liberdade para adaptar. Os cristãos poderiam aceitar a ordem eclesiástica prescrita por suas tradições como uma questão de conveniência prática, mas uma vez que se torna mais que isso – uma vez que se torna uma doutrina formal que define o certo e o errado – eles deveriam se rebelar contra ela. Que ninguém te roube da liberdade que Cristo comprou para você. Ai da denominação cuja rebelião contra o evangelho está na ordem e política da igreja.

Terceiro, quanto à autoridade para pregar, isso pelo menos precisa ser esclarecido. A Bíblia ensina que todos os cristãos são sacerdotes em Cristo (Apocalipse 1.6). E visto que todos somos sacerdotes, a implicação irresistível é que todos os cristãos podem pregar e administrar a ceia e o batismo. A coisa curiosa é que nem todas as igrejas e denominações que admitem o primeiro (que todos os crentes são sacerdotes) irão ao mesmo tempo reconhecer o último (que todos podem pregar e administrar as ordenanças sagradas). Isso acontece porque as pessoas nessas igrejas e denominações são hipócritas. Eles dizem o que dizem para distingui-los dos católicos, mas então praticam a mesma coisa em suas congregações. O Novo Testamento de fato ensina que deve haver líderes dentro das congregações, e como uma questão de ordem eclesiástica, eles são geralmente aqueles que pregam e administram a ceia e o batismo. Isso é para manter a excelência na atividade da igreja e para impedir o caos e a confusão. Contudo, outros cristãos não estão impedidos dessas coisas como uma questão de doutrina e princípio.

Deus é maior que nossas tradições e nossas denominações. Muitíssimas pessoas dizem que creem nisso, mas negam em suas doutrinas e práticas. Se Deus quer ordenar a alguém, ele na verdade não precisa de nenhuma aprovação ou reconhecimento humano. Ele frequentemente arranja o reconhecimento humano para manter a boa ordem, mas nada na Escritura indica que isso deva acontecer ou que deva acontecer de determinada forma. Cristo é o único mediador entre Deus e os homens. Não devemos permitir algo em nossa política eclesiástica que pareça negar isso.

Se Deus quer entregar suas palavras ou suas bênçãos por meio de homens, isso é direito seu. Mas se Deus deseja entregar essas diretamente, não cabe à igreja proibi-lo. A igreja é uma comunidade de pessoas individualmente redimidas e chamadas por Deus. Ele arranja pessoas para crerem no evangelho pelo ministério de agentes humanos, tal como a pregação de um pastor ou membro de uma igreja particular. Ele faz isso por inúmeras razões, tais como a ordem estabelecida, a comunidade e os relacionamentos entre os homens, e para exercitar e recompensar aqueles que pregam. Mas Deus não precisa de agentes humanos mesmo quando diz respeito à pregação do evangelho, e não devemos ressentir ou rejeitar alguém se ele recebe algo da parte de Deus sem nossa mediação.

Se você teme que isso levaria ao caos, então isso mostra que você adotou grandemente a mentalidade dos fariseus e católicos. Essa é a mentalidade que pensa que precisamos usar tradições humanas para reforçar os preceitos divinos, e isso removendo-se a liberdade que a revelação divina permite, incluindo a liberdade que Deus reserva para si. Se alguém se converte à fé cristã ou possui um ministério à parte do nosso controle, sua fé e ministério ainda estão sujeitos à palavra de Deus, e podem ser testadas pela palavra de Deus. E essa é a única base legítima para testar sua conversão ou chamado ao ministério. Ele não tem nenhuma obrigação de responder ou se submeter a tradições humanas que não prometeu cumprir. E se essas tradições violam a palavra de Deus, ele tem obrigação de romper com elas.

Pode ser verdade que a igreja está em tempos difíceis. Muitas pessoas estão se afastando das congregações locais, e as falsas doutrinas abundam. Contudo, a resposta não é uma teologia de controle por meio de tradições feitas por homens, mas uma teologia de liberdade em Cristo. Que Cristo atraia o povo que ele escolheu e chamou! Quanto aos cristãos, eles são responsáveis perante Cristo, não as tradições humanas. Portanto, desafie-as quando apropriado e necessário. É frequentemente aceitável se submeter a costumes humanos em prol do amor e da ordem, mas não porque seja requerido de você como uma questão de princípio.

Marcos 9 nos diz que um homem estava expulsando demônios em nome de Jesus, mas os discípulos disseram-lhe para parar de fazê-lo por não ser um deles. Jesus respondeu: “Não o impeçam. Ninguém que faça um milagre em meu nome, pode falar mal de mim logo em seguida, pois quem não é contra nós está a nosso favor”. Quem ordenou a essa pessoa? Por mãos de quem Deus conferiu dons espirituais a esse homem? Nem mesmo Jesus na Terra fez isso. Mas Deus no céu o fez, e aparentemente sem qualquer agência ou aprovação humana. Como observa um estudioso do Novo Testamento, o próprio Jesus não teve sanção humana oficial para o seu ministério. As tradições humanas são frequentemente tão perigosas quanto as ameaças à ordem que elas procuram eliminar. E eles frequentemente se afastam da ortodoxia que alegam proteger, ao ponto que até mesmo ordenariam o assassinato do próprio Filho de Deus. Todos os cristãos devem ser livres para servir a Deus, sob as diretrizes estritas, mas algumas vezes amplas, da Palavra de Deus, e não das restrições de tradições humanas.

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- Sobre o autor: Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise. 

Fonte: Reflections on Second Timothy
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto, maio/2010
Fonte: Monergismo
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A Bíblia e as decisões pessoais

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Por Vicent Cheung

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. (2 Timóteo 3.16-17, NVI) [...]

… problemas ocorrem quando cristãos negam que a Bíblia é suficiente para fornecer instrução e orientação abrangente. Alguns deles se queixam que a Bíblia carece da informação específica que eles precisam para fazer decisões pessoais. Contudo, à luz das palavras de Paulo — isto é, visto que Deus afirma por meio do seu apóstolo que a Bíblia é suficiente — a deficiência deve estar nesses indivíduos, e não na Bíblia.

Eles carecem da informação que precisam por causa de sua imaturidade e ignorância. A Bíblia é de fato suficiente para guiá-los, mas eles negligenciam estudá-la. Alguns deles também exibem forte rebelião, de forma que embora a Bíblia aborde claramente suas situações, eles recusam obedecer aos seus mandamentos e instruções. Ou, antes de tudo, eles recusam aceitar os próprios métodos de receber orientação a partir da Escritura, mas insistem que Deus deve guiá-los, pelo menos ocasionalmente, por meio de visões, sonhos e profecias, embora ele já tenha deixado registrado o que eles precisam saber na Bíblia.

Quando Deus não concede a demanda deles por orientação extrabíblica, alguns deles até mesmo decidem buscar informação por meio de métodos proibidos, tais como astrologia, adivinhação e outras práticas ocultas. A rebelião deles é tal que se Deus não fornece a informação desejada da forma que eles preferem, ou se ele não concorda com os desejos deles, então eles estão determinados a conseguir o que desejam do diabo.

O conhecimento da vontade de Deus vem de um entendimento intelectual e aplicação da Escritura.[1] Paulo escreve:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12.2-3)

A teologia cristã deve afirmar a suficiência da Escritura, que ela é uma fonte abrangente de informação, instrução e orientação. A Bíblia contém toda a vontade de Deus, incluindo a informação que uma pessoa precisa para salvação, desenvolvimento espiritual e orientação pessoal. Ela contém informação suficiente de forma que, se alguém fosse obedecê-la completamente, cumpriria a vontade de Deus em cada detalhe da vida, e pecaria na extensão em que a desobedecesse. Embora não atingiremos obediência perfeita nesta vida, permanece o fato que a Bíblia contém toda a informação necessária para vivermos uma vida cristã perfeita. [2]

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Notas: 
[1] Veja Vincent Cheung, Piedade com Contentamento, “Orientação bíblica e tomada de decisão” (Editora Monergismo).
[2] Para mais sobre a suficiência da Escritura, veja Vincent Cheung, O Ministério da Palavra (Editora Monergismo).

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – setembro/2012
Fonte:  Systematic Theology
Via: Monergismo
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Apologética ou Evangelismo?

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Por Vincent Cheung

- Argumentar para Ganhar - 

O professor de Oxford, Alister McGrath, fez uma declaração muito equivocada em seu livro desastradamente intitulado Intellectuals Don't Need God and Other Modern Myths [Intelectuais não Precisam de Deus e de Outros Mitos Modernos]. Ele diz: “Apologética não é sobre ganhar argumentos – é sobre ganhar pessoas”. 1 Em conexão com isso, o livro tem como uma das suas teses centrais que muitos, ou até mesmo a maioria dos indivíduos rejeitam o Cristianismo, não principalmente por causa de quaisquer objeções intelectuais insuperáveis, mas por causa de outros fatores tais como aplicabilidade existencial. Assim, ele escreve: “O Cristianismo deve se recomendar em termos de sua relevância para vida, não simplesmente por sua racionalidade inerente”.

O resto do seu livro, também latente com problemas, tenta justificar e desenvolver essa suposição e suas ramificações na prática da apologética. Eu sustento que sua afirmação é equivocada, falsa e perigosa para os cristãos que desejam conduzir uma apologética fiel e bíblica; todavia, sua afirmação representa não somente uma visão minoritária, mas antes uma noção popular do que a apologética deveria esforçar-se para realizar.

Para repetir, McGrath escreve: “Apologética não é sobre ganhar argumentos – é sobre ganhar pessoas”. Quando ganhar argumentos é contrastado com ganhar pessoas, a maioria das pessoas não deseja discordar imediatamente, mesmo que elas sintam que há algo de errado com a declaração, visto que discordar poderia implicar que elas se preocupam mais com ganhar argumentos do que com ganhar pessoas. Isto é, se definimos apologética como preocupada principalmente com ganhar argumentos contra incrédulos, então pode parecer para algumas pessoas que temos nos desviado do que supostamente seria o nosso objetivo principal, que é ganhar pessoas para Cristo.

A declaração de McGrath é enganosa porque implica que você pode perder um argumento contra o não-cristão, e em conexão com a perda do argumento, ainda ganhá-lo para Cristo; isso implica que não há nenhuma conexão positiva entre ganhar argumentos e ganhar pessoas. Mas se não há nenhuma conexão positiva entre os dois, então isso significa que num debate um incrédulo pode mostrar que o Cristianismo é falso, e então se arrepender e crer no evangelho de qualquer forma.

Certamente, o Espírito Santo pode e frequentemente convence a mente dos eleitos a despeito de suas falhas na argumentação, mas isso é diferente de negar uma relação positiva definida entre ganhar argumentos e ganhar pessoas. Eu posso dizer: “Apologética não é sobre bater na cara das pessoas, mas sobre ganhar pessoas para Cristo”; seria então verdade que eu posso bater na cara das pessoas, e em conexão com o bater na cara delas ainda conduzi-las a Cristo? Por outro lado, refrear-se de bater na cara das pessoas é um das coisas que conduz ao ganhar pessoas para Cristo, fazendo-a preferível e quase necessária.

Um dos erros de McGrath é confundir apologética com evangelismo. O Merriam-Webster's Collegiate Dictionary define a palavra apologética como um “discurso sistemático argumentativo em defesa (como de uma doutrina); um ramo da teologia devotado à defesa da origem e autoridade divina do Cristianismo”.  Por  outro lado, evangelismo é “o ganho ou restauração do compromisso pessoal a Cristo”.

Essas definições refletem o uso comum, e o Evangelical Dictionary of Theology concorda com elas. Ele define apologética como “um discurso sistemático, argumentativo, em defesa da origem e autoridade divina da fé cristã”,  e evangelismo como “a proclamação das boas novas de salvação em Jesus Cristo, com o objetivo de produzir a reconciliação do pecador com Deus o Pai através do poder regenerativo do Espírito Santo”.

Dada essas definições, é evidente que apologética não é o mesmo que evangelismo, contudo, elas podem estar relacionadas, mas McGrath confundiu as duas. Seria mais preciso dizer: “Evangelismo não é apenas ganhar argumentos, mas também ganhar pessoas para Cristo; todavia, derrotar incrédulos na argumentação pode ser o meio pelo qual Deus os converte”. Visto que apologética é por definição sobre argumentação, a declaração de McGrath é equivalente a dizer: “Nossos argumentos com os incrédulos não é sobre ganhar argumentos, mas ganhar pessoas”, ou “Apologética não é sobre apologética, mas sobre evangelismo”. Mas isso é auto-contraditório e falso por definição. Ao substituir o significado de apologética com aquele de evangelismo, não há mais uma palavra para expressar o significado do que é apropriadamente chamado de apologética.

Outra declaração no livro levanta outra concepção errada sobre apologética. Referindo-se à mentalidade do incrédulo quando ouvindo a mensagem do evangelho, ele escreve: “O evangelho está sendo avaliado, não sobre a base das suas idéias, mas sobre a base dos seus efeitos sobre pessoas e instituições”.  Para McGrath, isto supostamente conta como algo contrário à idéia de que apologética é “demonstrar a racionalidade da fé cristã”.  Uma objeção similar contra a definição apropriada da apologética é que muitas pessoas rejeitam a fé cristã não porque pensam que ela é falsa, mas porque têm certas necessidades pessoais que pensam o evangelho não poder satisfazer, quer essas necessidades sejam psicológicas, sociais, financeiras, etc.

Portanto – a objeção continua – a apologética (ou mesmo evangelismo) deveria se focar sobre como o evangelho se dirige às necessidades das pessoas, e não sobre o mandamento de Deus para o incrédulo renunciar seus pecados e afirmar a verdade do evangelho.

É frequentemente verdade que, como McGrath diz, “o evangelho está sendo avaliado, não  sobre a base das suas idéias, mas sobre a base dos seus efeitos sobre pessoas e instituições”. Contudo, isto é precisamente o que está errado com muitos incrédulos, e  é precisamente sobre isto que o apologista cristão deve confrontá-los. Que a fé cristã não deve ser avaliada de acordo com sua verdade ou falsidade, mas quão bem ela “funciona” ou faz com que alguém se sinta bem, é um lapso na racionalidade ou até mesmo uma negação da racionalidade. Ao invés de adaptar nossa abordagem para se acomodar aos incrédulos, é o nosso dever confrontá-los e corrigi-los sobre isto.

E se as pessoas rejeitam o evangelho, não porque pensam que ele seja falso, mas porque ele as tornará impopulares com muitas pessoas? Deveríamos então modificar nossa abordagem para mostrá-las que o Cristianismo de fato as tornará populares, ou deveríamos ao invés disso argumentar que esta é a maneira errada de julgar uma cosmovisão? Se o pragmatismo é a filosofia predominante numa determinada sociedade, devemos então mostrar que o Cristianismo é a mais prática de todas as religiões e cosmovisões? Ao invés disso, por que não mostrar que o pragmatismo é errado? Em vez de tentar mostrar que o Cristianismo é verdadeiro de acordo com o falso padrão de julgamento do incrédulo, deveríamos mostrar que o próprio padrão de julgamento deles é falso, e que o Cristianismo é verdadeiro de acordo com um padrão verdadeiro de julgamento, e que este padrão verdadeiro de julgamento é a revelação de Deus para nós. Isto é apologética bíblica.

Há muitíssimos falsos conversos nas igrejas hoje precisamente porque não temos realizado evangelismo pregando e defendendo a verdade, mas sim satisfazendo as necessidades e desejos pessoais da audiência, quando o evangelho bíblico ordena-os a negar precisamente estas necessidades e desejos pessoais. Este mesmo erro explica o porquê parece como se os “efeitos do evangelho sobre pessoas e instituições” não têm sido totalmente positivos. Devemos insistir que, se as pessoas recusam vir a Cristo pela mensagem correta e pelas razões certas, então não deveriam vir a Cristo de forma alguma, e já há muitos falsos cristãos em nossas igrejas para acomodar ainda mais deles. Nem apologética nem evangelismo é “ganhar pessoas” a todo custo – certamente não à custa da verdade.

Fonte: O Calvinismo
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Padrão para a Pregação

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por Vincent Cheung


Retenha, com fé e amor em Cristo Jesus, o modelo da sã doutrina que você ouviu de mim. Quanto ao que lhe foi confiado, guarde-o por meio do Espírito Santo que habita em nós. (2 Timóteo 1.13-14)

Paulo tinha estabelecido um “modelo da sã doutrina” para Timóteo seguir. Visto que esse padrão é autoritativo por proceder da inspiração do Espírito Santo, o que podemos dizer com respeito a ele também se aplica aos ensinamentos dos profetas e dos apóstolos, visto que eles também ensinaram por inspiração divina.


A Bíblia fornece um padrão ou modelo de sã doutrina. Ela diz a todos os crentes e especialmente aos ministros para pregar a palavra. Por definição, a pregação da Escritura é distinta da própria Escritura. Portanto, pregar a mensagem da Bíblia não é o mesmo que citar a Bíblia, e pregar um sermão não é apenas ler a Bíblia para uma audiência. Um sermão não é um arranjo de citações da Escritura; antes, o pregador produz a mensagem sobre a base do que ele aprendeu da Escritura. A comunicação fiel do evangelho não consiste de uma repetição verbatim da Bíblia, pois se esse fosse o caso, mesmo conversações ordinárias sobre as coisas de Deus seriam eliminadas.


A ideia bíblica de pregação deixa certa liberdade de variação em termos de expressão, ênfase e coisas semelhantes. Não existe nenhuma base bíblica para fazer do chamado método expositivo de pregação uma prescrição para o que deveria ser um sermão, embora ele represente o que um sermão poderia ser, precisamente devido à liberdade que a Escritura concede nessa área. Todas as tentativas de estabelecer um caso bíblico em favor do método expositivo que examinei inferem muito mais dos textos da Escritura do que eles realmente dizem.


Além disso, juntamente com essas tentativas, uma razão dada pela qual esse método é preferido é que ele é a melhor forma de permanecer fiel à Escritura em nossa pregação. Isso é aceitável como uma opinião, e é de fato uma forma de permanecer fiel à Escritura. Contudo, se usar o método expositivo torna-se uma regra quanto ao que um sermão deve ser, e que outras formas são inferiores ou mesmo erradas, então essa preferência pelo método expositivo tornou-se uma tradição humana antibíblica. Os fariseus também adicionaram regras humanas à palavra de Deus e alegavam que elas eram úteis ou mesmo necessárias, mas Jesus disse que elas tinham o efeito oposto. É verdade que algumas formas de sermão são de fato inferiores e errôneas, mas elas fracassam por seus próprios defeitos, e não por serem diferentes do método expositivo.


Outras razões têm sido promovidas para recomendar o método expositivo. Por exemplo, é dito que sermões expositivos, e especialmente exposições de livros bíblicos inteiros, expõe os ouvintes diretamente a passagens completas da Escritura no contexto apropriado, e dessa forma aumenta a familiaridade deles com a Bíblia, e capacita-os a conhecer e compreendê-la melhor. Esse é um benefício prático, e o pregador poderia preferir o método por causa disso. Contudo, isso ainda não requer que ele use o método. É de fato responsabilidade do pregador aumentar a familiaridade com a Escritura em seus ouvintes, mas nada na própria Escritura requer que ele o faça dessa forma.


O pregador não deve se prender a opiniões e tradições de homens, não importa quão bem intencionadas sejam elas. Se ele usa o método expositivo, é porque ele prefere este por suas próprias razões e baseado em seu próprio julgamento ao pensar que pode cumprir melhor o seu ministério com ele, e não porque é pressionado a fazê-lo. E se ele não pode seguir ou descobrir um método que lhe seja adequado e que siga o padrão da sã doutrina, então ele nem mesmo deveria ser um pregador.


Dessa forma, a Bíblia fornece um padrão ou modelo de sã doutrina, e isso deixa lugar para certa liberdade de variação no método e expressão. Dito isso, o padrão é muito mais que um esboço. É muito mais que um esqueleto – os detalhes sendo preenchidos. Ele é um padrão altamente desenvolvido e um modelo plenamente suficiente. Portanto, embora permita certa medida de fluidez na apresentação, e embora seja adaptável a todos os tipos de conversações, não há espaço para variação, adição ou subtração em sua substância. Isto é, seguir o padrão bíblico de sã doutrina é conformar-se exatamente às suas ideias. Há flexibilidade somente na apresentação.


Para ilustrar. Pedro disse: “Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12). Podemos comunicar essa ideia citando o versículo, mas é aceitável também dizer: “A Bíblia ensina que Jesus Cristo é o único caminho para a salvação”. E permanecemos fiéis ao padrão que esse versículo estabeleceu quando afirmamos: “Maomé não pode te salvar. Buda não pode te salvar. Maria não pode te salvar. Somente Jesus Cristo pode te salvar da condenação eterna”. Essas declarações não são encontradas na Escritura, mas se conformam às ideias exatas da Escritura, e não adicionam ou subtraem a substância do que a Escritura ensina.


Visto que a pregação envolve nossa própria expressão de ideias bíblicas, é ainda mais importante que aprendamos essas ideias com precisão, e que cuidemos para preservá-las e promovê-las sem contaminação, guardando-as com vigilância zelosa. Se a pregação é mera leitura da Bíblia ou se envolve apenas exegese rígida, então até mesmo não cristãos podem realizá-la. O que a Bíblia diz sobre as qualificações do ministro não fariam sentido então. Contudo, a qualidade da pregação de fato depende da qualidade do pregador, e isso é verdade porque pregar o evangelho não é apenas ler a Bíblia, mas digerir suas ideias e então transmitir e aplicá-las de uma forma que seja moldada pela formação, personalidade e competência do pregador, bem como pela audiência e a situação a qual ele se dirige. Na pregação, a Escritura não é simplesmente lida, mas “manejada” (2 Timóteo 2.15). Suas ideias são processadas, organizadas, reformuladas e aplicadas pelo pregador. E esse é o motivo pelo qual o pregador deve constantemente se purificar e se esforçar para crescer.


Algumas instruções sobre homilética sugerem que a melhor pregação ocorre quando o ministro sai do caminho o máximo possível e permite que a Bíblia “fale por si mesma”. O método expositivo é então recomendado. Mas a melhor forma de alcançar esse efeito é fazer o ministro ler a Bíblia à sua audiência sem nenhum comentário. Isso, contudo, é ler e não pregar. A Bíblia ordena que preguemos. O ministro deve fazer contribuições decisivas para a forma e conteúdo do seu sermão. Pregar não é sair do caminho, mas sim estar bastante nele.


Nesse sentido, pregar não é deixar a Bíblia falar por si mesma, mas falar por ela. Muitos cristãos se sentem desconfortáveis com isso, mas na extensão em que nossa definição de pregação enfraquecer o papel humano, nessa mesma extensão ela também destrói a própria pregação, e também reduz a nossa responsabilidade na questão. Talvez esse seja o motivo pelo qual muitas pessoas favorecem tal definição em nome de permitir que a Bíblia fale por si mesma: faz-nos sentir como campeões da ortodoxia sem ter que assumir a responsabilidade.

Fonte: Reflections on Second Timothy
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto, julho/2010
Fonte: Monergismo
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Gemendo com a criação

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 Por Vincent Cheung
 
A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. (Romanos 8.19-23)

De acordo com o plano de Deus, quando Adão caiu em pecado, arrastou consigo a criação. Como Deus disse ao homem, “maldita é a terra por sua causa” (Gênesis 3.17). O resultado não foi que o homem deveria aprender a cuidar da terra e cooperar com ela para obter sustento a partir dela. Antes, Deus disse que agora a terra haveria de resistir ao homem, tal que o homem teria de subjugar a terra para tomar dela o que precisasse (v.18). Então, após certo tempo o homem morreria e seu corpo voltaria para a terra (v. 19). Quando duas partes lutam sob a maldição de Deus, nenhuma delas sai vencedora. Desde aquele tempo toda a criação gemia por libertação até o tempo de Paulo, e tem continuado a gemer até agora, pois o que ela anseia ainda não veio.

Assim, muito antes de se tornar poluída com garrafas de plástico, a criação já tinha se poluído com pecadores, com não cristãos. Ela não geme porque anseia se livrar das fábricas e dos arranha-céus, mas para ser libertada da escravidão e decadência que lhe sobreveio por causa do pecado. Esse dia é marcado pela revelação dos filhos de Deus, isto é, quando Deus definitivamente vindicar seu povo e completar sua adoção pela redenção de seus corpos, a ressurreição dos santos. A libertação dela está vinculada à salvação de que gozam os cristãos, à “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. O corolário disso é que a criação anseia por se livrar dos não cristãos, de sorte que os mansos herdarão a terra.

Assim, ambientalistas não cristãos fazem uma zombaria da criação, pois são os que causam os sofrimentos dela, não por seus copos sintéticos, mas por sua própria existência! E os cristãos que acompanham os fanáticos não cristãos em seu zelo ambientalista são apenas igualmente provocativos, pois permanecer limpa e viva não é o que a criação almeja. Um prisioneiro pode apreciar alguns livros e revistas de seu advogado de defesa para ajudá-lo a passar o tempo, mas quando o procurador se põe a discutir a literatura com ele, o prisioneiro provavelmente haverá de se queixar que o tempo poderia ser melhor gasto trabalhando no caso em prol de sua liberdade. Um advogado que consente com o que é bom, mas secundário, para distraí-lo do que é melhor e necessário é um mau advogado. Um cristão que consente até mesmo com interesses ambientais legítimos para distraí-lo da promoção da mensagem de Cristo é um mau cristão. Um verdadeiro amigo da criação colocará sempre o evangelho em primeiro lugar.

Alguns cristãos não são muito bons na pregação, na escrita, na oração, no aconselhamento, ou mesmo em conduzir o trânsito no estacionamento da igreja. Eles são quase inúteis quando se trata de algo importante. Se estas pessoas desejam focar a reciclagem, não tenho nenhum problema com isso. Elas podem até mesmo alegar que estão cumprindo o “mandato cultural” e à força tornar isso parte do ministério evangélico a fim de se sentirem melhores com isso, enquanto o resto de nós labuta na verdadeira comissão que Cristo nos deu. Se isto soa muito duro contra aqueles que laboram tão arduamente para melhorar o ambiente, o ponto principal é que a nossa prioridade deve ser promover a mensagem cristã sobre pecado e justiça, sobre condenação e salvação, e sobre a encarnação, crucificação, expiação e ressurreição de Jesus Cristo. Qualquer outro item, não importa quão prático ou desejável seja, não pode ser combinado ou equiparado com isso, e deve assumir um distante segundo lugar.

Hoje em dia, pessoas esfaqueariam seu vizinho até a morte ao invés de permitir que seus gatos e tartarugas passassem fome, mas a própria criação anseia se libertar de pessoas imbecis como essas. Somente os cristãos estão em sintonia com a criação, pois anseiam a mesma coisa — não energia alternativa, quão maravilhosa ela possa ser, mas a consumação da aplicação da redenção. Eles não anseiam a preservação, mas a culminação; não anseiam a perpetuação, mas a consumação. Claro, os não cristãos não partilham dessa preocupação, pois é também o dia em que serão lançados no fogo do inferno. Por essa razão, os não cristãos serão sempre inimigos da criação. Como cristãos, gememos junto com toda a criação não pela salvação dos ursos polares, mas por um ponto final no pecado e pela redenção de nossos corpos.

Jesus Cristo é a única esperança para a humanidade e para a criação. Se a criação pudesse falar, repreenderia alguns de nós por nos colocarmos como seus salvadores. Quanta arrogância! Que negligência da verdade e do dever! Sejam gentis com os animais e sejam bons para a criação. Sou extremamente afeiçoado a animais, e ainda mais afeiçoado a água e ar limpo — mas lembre-se da verdadeira obra do evangelho e ponha isso acima de todas as outras considerações. Não alimente a noção ridícula de que salvar o ambiente é tão importante quanto salvar almas humanas. Certamente, estas não são coisas mutuamente exclusivas, mas são duas coisas diferentes, e uma é claramente mais importante que a outra. Se uma escolha deve ser feita, o ministério do evangelho deve vir sempre em primeiro lugar.

Vá salvar baleias se você quiser — especialmente se você tende a ficar no meu caminho quando tenta trabalho ministerial —, mas não glorifique isso como uma busca heroica. As baleias também gemem para que vocês, fanáticos irritantes, deixem-nas sozinhas e preguem o evangelho aos homens e mulheres de seu círculo de convivência. E se vocês devem aborrecer as baleias porque são maus pregadores (as baleias não precisam saber disto), que ao menos orem, enquanto limpam suas narinas, por aqueles que compartilham da preocupação real da criação. Assim, tanto os pregadores como as baleias lhes serão gratos.

Fonte: [ Monergismo ]
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A coluna da Verdade


por: Vincent Cheung 

Escrevo-lhe estas coisas, embora espere ir vê-lo em breve; mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. (1 Timóteo 3.14-15)

Paulo chama a igreja de “coluna e fundamento da verdade”. Isso nos diz, não o que a igreja deve ser, mas o que a igreja é. A importância dessa distinção se tornará mais clara depois, mas primeiro devemos considerar se as duas metáforas estão sujeitas a mau entendidos.

Alguns escritores preocupam-se que as metáforas “coluna” e “fundamento” podem dar às pessoas a impressão que a igreja é a própria fonte e base da verdade. Contudo, toda a Escritura testifica contra isso, e por isso eles estão interessados em expor o versículo de uma forma que evite a falsa interpretação.

Dessa forma é tido que a metáfora da “coluna” é feita no contexto da arquitetura antiga. Um templo pagão, por exemplo, pode incluir várias colunas de ornamento que servem não somente para sustentar a estrutura, mas para demonstrar a riqueza e glória associada com a divindade. Os escritores parecem mais preocupados com a metáfora do “fundamento”, e sugerem que uma tradução melhor seria “baluarte” ou “esteio”. Isto é, a igreja não é o próprio fundamento da verdade, mas apenas seu protetor.

O problema tem sido exagerado. Não somos católicos que tentam distorcer palavras e frases individuais da Escritura para justificar suas doutrinas inventadas por homens. Somos cristãos que respeitam o todo da Escritura, e leem palavras e frases individuais considerando o contexto de todo o santo livro. A Escritura é um produto da inspiração divina, de forma que palavras e frases individuais são de fato importantes, tanto que doutrinas inteiras podem depender delas; contudo, essas palavras e frases não permanecem sozinhas, e não mantém seus significados no vácuo. E muito menos estão sujeitas a interpretações arbitrárias impostas sobre elas.

O mesmo apóstolo que escreve que a igreja é a coluna da verdade também prega que Deus “não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo” (Atos 17.25). Quão tolo deve ser então uma pessoa pensar que a metáfora aqui poderia ser distorcida para significar que a igreja é o suporte da verdade no sentido que a verdade iria se desintegrar se não fosse a igreja. Algumas pessoas falam como se a apostasia dos homens pudesse frustrar o plano de Deus. Não, ela não pode. Eu estou certamente preocupado com o estado da igreja e do clima espiritual do mundo, mas somente como uma questão de zelo, e não por medo e terror quanto ao resultado final. A verdade permanecerá quer a igreja permaneça ou não. E a igreja permanecerá quer pareça haver muitos crentes fiéis ou não, visto que Cristo disse que iria edificá-la, e que nem mesmo o inferno prevaleceria contra ela. A metáfora refere-se a uma função da igreja, e não ao seu poder inerente. Não há lugar para má interpretação.

Quanto à ideia de fundamento, a palavra não sugere algo como uma fonte ou originador. O fundamento de uma construção não é o designer, o construtor ou o criador do edifício. É somente o local onde o edifício foi posto. Nem pode a metáfora sugerir que a igreja é o fundamento da verdade no sentido que o fundamento de um sistema intelectual consiste dos primeiros princípios a partir dos quais o restante do sistema é deduzido. Isso acontece porque a igreja em si não é nenhuma parte dos conteúdos de um sistema intelectual.

Se a metáfora fosse sugerir uma ideia como construtor ou criador, ou fonte, precisaríamos mais, quer do contexto imediato ou do pano de fundo da Escritura para forçar essa interpretação. Isso está algumas vezes presente quando a metáfora do “fundamento” é usada em outros lugares, mas o contexto e o pano de fundo impedem essa interpretação aqui. Paulo instrui os cristãos a se comportarem de uma maneira que sirva à verdade. Mas se a igreja produz a verdade, então o que a igreja produz é a verdade. Contudo, Paulo não define a verdade em termos da igreja, mas define a igreja em termos da verdade. A verdade foi revelada por Deus, e é fixa. Quer uma comunidade seja ou não a igreja depende de sua relação com a verdade.

Isso aborda uma das questões mais prementes que os cristãos devem considerar, e eles devem examinar suas comunidades à luz da resposta. O que a igreja deve ser? Há alguns que dizem: “O que é a verdade?” E sua resposta é: “Pergunte à igreja. A verdade é o que a igreja diz ser”. Essa não é a visão cristã. Antes, perguntamos: “O que é a igreja?”. E respondemos: “Deus nos revelou a verdade por meio da Escritura. A igreja é a comunidade que afirma essa verdade em comum, e que promove e protege essa verdade sobre Deus e Jesus Cristo”.

Segue-se que qualquer comunidade que falhe em afirmar, promover e proteger a verdade não é a igreja. Se ela cessa de suportar e demonstrar a verdade como uma coluna, e se não mantém reta e estável a verdade como um fundamento, então ela não é a igreja. A coluna e o fundamento da verdade não é o que a igreja deve ser, ou deve lutar para se tornar, mas sim o que a igreja é. Em outras palavras, se uma assembleia não é uma coluna e fundamento da verdade, ela não é uma igreja. Não importa o que faça – pode unir pessoas em amizades, pode se exceder em caridade, ou pode advogar a justiça social – ela não é uma comunidade cristã.

Considere dois exemplos. Há igrejas que se chamam assembleias cristãs, mas sua posição oficial nega a inerrância da Escritura, que a Bíblia é um produto da inspiração divina, de forma que é correta em cada detalhe e carrega autoridade absoluta. Essas congregações perderam todo o sentido de verdade. Não há nenhuma base para chamá-las de igrejas cristãs. Então, há algumas denominações que casam homossexuais, e ordenam formalmente alguns deles como pregadores. Essas organizações não funcionam como colunas da verdade, mas tentam redefinir a verdade afirmando algo contrário à verdade já revelada por Deus.

A Bíblia revela a verdade em proposições e doutrinas fixas, e define a igreja como aquela que funciona como sua coluna. Essas denominações revertem isso em seu pensamento e prática – sua suposição fixa é que eles são a igreja cristã, e a verdade é o que declaram ser, e que a verdade está sujeita à modificação à medida que as opiniões de homens mudam e se alteram. O pecado da homossexualidade é importante, e não podemos ignorar o fato que essas denominações o toleram. Mas a questão aqui é que sua política é somente um resultado de uma apostasia mais geral, um abandono anterior da fé, no fato deles já terem se afastado da verdade da revelação divina. E porque eles não são o promotor e protetor da verdade, mas antes tentam inventar suas próprias doutrinas de acordo com os sentimentos dos tempos, eles não são mais igrejas cristãs.

O que isso significa é que todos os cristãos deveriam denunciar essas denominações e congregações que adotam tal política, e eles deveriam ser considerados excomungados do reino de Cristo. Nenhum cristão deveria apoiar essas denominações e igrejas com parte de seu tempo, dinheiro ou boa vontade, e nenhum cristão deveria participar de suas reuniões como se estivessem frequentando cultos cristãos. Sem dúvida, podemos nos dirigir a esses grupos como assembleias não cristãs, chamando-os ao arrependimento e conversão por meio da fé em Jesus Cristo e o assentimento genuíno à verdade.

Eu endosso a ideia que deveríamos buscar a paz uns com os outros, e que nem toda divergência doutrinária deveria resultar num rompimento total. Contudo, existe uma tendência equivocada entre os cristãos de buscar a paz unindo-se ao redor de uma quantidade mínima de verdade. Mas desde quando a fé em Jesus Cristo é uma busca pelo mínimo? Antes, ela é uma proclamação de toda a revelação de Deus, a verdade inteira sobre Deus que ele revelou. Ela é uma busca pelo máximo, por um entendimento completo e por toda a plenitude de Deus.

Algumas vezes é sugerido que quando consideramos a legitimidade de uma igreja, deveríamos perguntar se ela transmite ou não pelo menos “o evangelho”, e mediante isso quer-se dizer o mínimo da verdade. Mesmo que o mínimo Cristianismo ainda seja Cristianismo, certamente não é bom Cristianismo, e é contrário ao espírito da fé apoiá-lo. Um cristão mínimo, se é que existe tal coisa, pode de fato ser um cristão, mas que ninguém o considere como um mestre! E uma igreja mínima, se é que existe tal coisa, pode de fato ser uma igreja, mas por que alguém deveria se unir a ela?
 
 
Fonte: Reflections on First Timothy
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Via: [ Monergismo ]
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