O que vem depois da morte?

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Neste vídeo o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, com base em Hebreus 9:27-28, fala a respeito da característica principal que identifica o Evangelho como a verdade de Deus, em comparação com outras vozes que soam no mundo religioso pretendendo vir da parte d'Ele. O que vem depois da morte?

Sermão pregado no último domingo, dia 02/03/2015, na Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia. Assista:




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Fonte: PIPG - Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia
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Calvino e a Pregação da Palavra

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Por Rev. Felipe Camargo


Introdução

O pensamento de Calvino sobre pregação, ou Calvino como pregador tem sido estudado por muitos eruditos e com isto, artigos e livros já foram publicados sobre este assunto. Parker tem sido um dos autores que mais escreveu sobre o assunto, considerado, portanto, uma grande autoridade como intérprete de Calvino. O objetivo deste trabalho se limita a analisar o pensamento de Calvino sobre a autoridade da pregação e a edificação da Igreja, tendo como objeto de estudo os próprios escritos de Calvino.

Por isso, algumas questões devem ser levantadas. A primeira delas se refere à Palavra de Deus. Qual a visão de Calvino sobre a Palavra de Deus? Onde ela é encontrada? Qual o seu objetivo? Qual o valor dela para a Igreja? Uma questão paralela à esta está relacionada com pregação. Qual a finalidade da pregação? Qual o papel dos pregadores? Até que ponto o pregador tem autoridade ao proclamar a Palavra de Deus?

E por fim, uma última análise a ser feita está ligada aos ensinos de Calvino nos nossos dias. Qual a importância de se estudar o pensamento de Calvino sobre pregação? Portanto, o trabalho procura analisar se é possível aplicar os ensinos de Calvino sobre pregação nos dias atuais.

A Bíblia como Palavra de Deus

Para uma correta compreensão acerca do pensamento de Calvino sobre pregação, é necessário entender sua visão acerca da Palavra Escrita. Para Calvino, a Palavra Escrita deve ser considerada como sendo o único lugar onde se encontra a verdadeira sabedoria vinda da de Deus. [1]

Calvino, nas Institutas, afirma que o homem foi dotado de um desejo de conhecer a Deus [2], mas por causa do pecado esse conhecimento se tornou falho. [3] Nesse sentido, demonstra que Deus não somente se revela através da criação [4], mas também adiciona um recurso melhor para este fim. [5] Por isso, Deus, além da sua própria criação, resolveu se revelar também em palavras. 

Portanto, as Escrituras servem para nos mostrar a verdade sobre Deus: 

Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outra sorte seria confuso, dissipada a escuridão, nos mostra em diáfana clareza o Deus verdadeiro. [6]

Por isso, a Escritura foi dada por Deus para que o homem conhecesse tudo o que precisa ser conhecido para não fazer cogitações da verdade. Sendo assim, somente através da sua Palavra, se pode ter um correto conhecimento acerca de Deus. [7] Neste sentido Calvino faz questão de enfatizar que, o que distingue o cristianismo das demais religiões é que Deus falou, e fez isso através da Escritura. [8]

“Moisés e os profetas não pronunciaram precipitadamente e ao acaso o que deles temos recebido, senão que, falando pelo impulso de Deus. Ousada e destemidamente testificaram a verdade de que era a boca do Senhor que falava através deles.” [9]

Um ensino primordial acerca das Escrituras e sua autoridade é perceber que há uma perfeita harmonia. Deus, ao revelar a Lei estabeleceu a base para os demais escritos. Nem os profetas nem o Novo Testamento estão fora desta harmonia. [10]

“Não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos Apostólicos [...]. Daqui também coligimos que não se prometeu outra coisa aos apóstolos senão o que tiveram outrora os profetas, a saber, que expusessem a Escritura antiga.” [11]

Está em harmonia, portanto, o conceito que toda a Palavra de Deus é perfeita e infalível, devendo aceitá-la desta maneira. 

O fato de Calvino afirmar que “os escritos dos apóstolos nada contém além de simples e natural explicação da lei e dos profetas juntamente com uma clara descrição das coisas expressas neles” [12], não quer dizer que o Novo Testamento seja apenas uma explicação da Palavra de Deus. Mas na verdade, Calvino afirma que seus escritores também foram usados pelo Espírito Santo. Ele afirma que: 

“Entretanto, a própria realidade brada patentemente que esses homens haviam sido ensinados pelo Espírito que, antes desprezíveis em meio ao próprio vulgo, de repente começaram a dissertar tão magnificamente acerca de mistérios celestiais.” [13]

Não há dúvidas para Calvino que, embora a Bíblia tenha sido escrita por homens, não se deve ignorar o fato que eles foram usados por Deus. Eles não escreveram aquilo que imaginavam, mas escreveram o que vinha da parte de Deus. [14] O fato de ele ter usado homens pecadores não desmerece a revelação. Não faz das Escrituras imperfeitas ou falíveis. Pelo contrário, ainda assim, considera-se Palavra de Deus.

“Portanto, iluminados por seu poder, já não cremos que a Escritura procede de Deus por nosso próprio juízo, ou pelo juízo de outros; ao contrário, com a máxima certeza, não menos se contemplássemos nela a majestade do próprio Deus, concluímos, acima do juízo humano, que ela nos emanou diretamente da boca de Deus, através do ministério humano.” [15]

A reverência às Escrituras, portanto, se dá não pelos autores humanos, mas pelo autor divino. Aquele que desrespeita a Palavra de Deus desrespeita o próprio Deus. Calvino argumenta que “devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem nele sua única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela.” [16] Por isso, é possível compreender o cuidado que Calvino dá à fiel exposição da mesma.

A Palavra de Deus e a Edificação

Um princípio importante para Calvino era que toda a Escritura trazia algum ensino para a vida dos cristãos. Nos seus escritos, Calvino fazia questão de enfatizar que toda a Escritura é útil e deve ser praticada. Não há grau de importância entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Ambos são considerados como Palavra de Deus e útil para a vida cristã. [17]

Para Calvino, era através da Palavra que Deus concede vida ao pecador. Sem Deus não há vida, e todos estão condenados à morte eterna. Esta vida, portanto, é comunicada através de sua Palavra. Ele afirma que “embora temporária, seja a vida do homem, ela já feita eterna pela Palavra; por ela é modelada e feita nova criatura.” [18]

Mas as Escrituras não têm o único propósito de comunicar a vida eterna, mas também de corrigir para um crescimento espiritual. Na verdade, tudo o que é revelado por Deus nas Escrituras tem o propósito específico de corrigir a vida do homem. Calvino adverte que:

Se porventura nos sentirmos sempre tentados a menosprezar ou a sentir repugnância pelo evangelho, lembremo-nos de que o seu poder e eficácia estão no fato de que é por meio dele que nos vem a salvação; assim como alhures ele ensina que o evangelho é o poder de Deus para a salvação dos Crentes. [19]

Não se pode dizer que exista algo supérfluo e inútil em sua Palavra. [20] Pelo contrário, se torna pecaminoso estudar as Escrituras sem trazer para si uma aplicação e buscar uma vida prática, ou seja, sempre ao que é proveitoso. [21]

Calvino sustenta que a Lei de Deus é a norma de justiça pela qual nossa vida é moldada. [22] Este molde realizado pela Lei tem o objetivo de tornar o homem completo a ponto de não haver nada que o torne defeituoso, por isso, a obrigação do homem de querer conhecer cada vez mais a Palavra. [23]

Comentando o Salmo 19, Calvino diz: 

Se alguém deseja ter um método próprio para governar sua vida, a lei de Deus é a única perfeitamente suficiente para tal propósito; mas que, ao contrário, assim que as pessoas se apartam dela, são passíveis de cair em infindáveis erros e pecados. [24]

Portanto, qualquer meio que se utilize para obter a edificação da Igreja que não seja através da Palavra é condenada.

A supremacia da pregação

Assim como Calvino afirma que as Escrituras é o meio ordinário instituído por Deus para edificar sua Igreja, ele também sustenta que a pregação é o modo normal que o Senhor designou para comunicar sua Palavra. [25] Portanto, é através da pregação que Deus se utiliza para edificar seu povo. [26] Conforme Calvino, o propósito da pregação do evangelho é exatamente para que Deus guie todas as nações à obediência da fé. [27]

Calvino, neste ponto não aceita exceções: “Deve-se, porém, ser mantido por nós o que já citamos de Paulo: que a Igreja não é edificada de outro modo senão pela pregação externa.” [28] A maneira instituída por Deus para a edificação é a pregação da Palavra de Deus. Sem ela, não há progresso na fé, conforme Calvino explica com mais detalhes:

“Deus instila em nós a fé, mas pela instrumentalidade de seu evangelho, como adverte Paulo, de que “a fé vem do ouvir” [Rm 10.17], assim como também em Deus reside seu poder de salvar, mas, segundo atesta o próprio Paulo, o exibe e o desenvolve na pregação do evangelho [Rm 1.16].” [29]

Com isso em mente, ele desenvolve o ensino da prioridade da pregação dentro da Igreja de Cristo. Não há dúvidas de que o objetivo da Igreja é o crescimento na fé de cada cristão. E por isso Deus instituiu ministros da Palavra para realizar este propósito através da pregação:

E, para que a pregação do evangelho florescesse, depôs esse tesouro com a Igreja: instituiu “pastores e mestres” [Ef 4.11], por cujos lábios ensinasse aos seus, investiu-os de autoridade, enfim, nada omitiu que contribuísse para o santo consenso da fé e a reta ordem. [30]

A Igreja, portanto, não deve desprezar este meio fundamental para sua edificação, muito menos os pregadores ao subir no púlpito. Para Calvino, esta é uma grande responsabilidade para os pastores. Ao subir em um púlpito, o pastor deve ter sempre em mente: “Deus desejou revelar seu poder soberano através da espada espiritual de sua Palavra sempre que é pregada pelo pastor.” [31]

Este conceito de que “toda Escritura é útil para a edificação da Igreja” era algo concreto também no seu pastorado. Por isso, pregava sistematicamente à sua igreja versículo por versículo. [32] Acreditava que cada versículo das Sagradas Escrituras tem uma aplicação para a edificação da Igreja. Na exposição do livro de Daniel, nas suas 66 exposições ele termina com uma oração escrita. Em cada oração ele apresenta o ensino retirado dos versículos explanados fazendo uma aplicação para os seus dias. [33] Conforme ele mesmo diz:

Assim concluímos que este é o mais valioso tesouro da Igreja, que ele que ele tenha escolhido uma morada para ele mesmo, para residir nos corações dos fiéis por seu Espírito, e assim preservar entre eles a doutrina do seu evangelho. (Isaías 59.21) [34]

Para Calvino, portanto, a pregação não é apenas uma obrigação da Igreja e dos seus pastores, mas é um privilégio no qual Deus preserva a sua Igreja. 

Responsabilidade do Pregador

Visto que é por meio de ministros da Palavra que Deus instrui o seu povo, é necessário ressaltar que Calvino, por isso, destaca a grande responsabilidade do pastor. Para ele, o pastor deve estar munido da Palavra de Deus para guiar seu povo para edificação: 

Se o primeiro dever de um pastor é ser instruído no conhecimento da sã doutrina, e o segundo é reter sua confissão com firmeza e inusitada coragem, o terceiro é que adapte o método do ensino visando a produzir edificação, e não divague, movido pela ambição, por entre as sutilezas da curiosidade frívola; mas, ao contrário, que busque tão-somente o sólido avanço da Igreja. [35]

Mas é através da pregação que o pregador desempenha essa função. Portanto, para Calvino, o pastor não deve procurar guiar ou edificar o rebanho que não seja ela instrução da Palavra:

É esta, portanto, uma dádiva singular, quando, para instruir a Igreja, Deus não apenas se serve de mestres mudos, mas ainda abre seus sacrossantos lábios, não simplesmente para proclamar que se deve adorar a um Deus, mas ao mesmo tempo declara ser esse Aquele a quem se deve adorar; nem meramente ensina aos eleitos a atentarem para Deus, mas ainda se mostra como Aquele para quem devem atentar. [36]

Logo, o papel do pastor é apresentar a Deus para que a sua Igreja o adore. Para que isso aconteça, Calvino acredita que o pregador deva ser fiel em sua pregação.

Calvino acreditava que Deus poderia falar pelos céus ou através de anjos, mas o meio que ele escolheu foi através de homens comuns. Assim sendo, “não se requer de um pastor apenas cultura, mas também inabalável fidelidade pela sã doutrina, ao ponto de jamais apartar-se dela”. [37] À sua Igreja cabe a responsabilidade de procurar aqueles que pregam em nome de Deus e com autoridade divina. [38]

Calvino até certo ponto, foi um homem tolerante, mas ao mesmo tempo foi extremamente radical em certos assuntos. [39] Um desses assuntos em que se demonstrava intolerante se referia à pregação.

A pregação é um dos sinais essenciais para distinguir a verdadeira Igreja, por isso Calvino afirma que “Deus quis que fosse conservada pura a pregação de sua Palavra.” [40] Mas ao mesmo tempo que as Escrituras devem ser usadas para ensinar a sabedoria de Deus, deve se ter por certo que “os falsos profetas também fazem uso dela em busca de pretexto para o seu ensino. Para que ela seja proveitosa para a salvação, temos que aprender a fazer um uso correto.” [41]

Para ele, 

Não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que se contém, primeiro na Lei e nos Profetas, então nos Escritos Apostólicos; nem outro modo de ensinar a Igreja corretamente, senão aquele prescrito e normativo dessa Palavra. [42]

Por isso, Calvino sempre debateu contra aqueles que ensinavam outra doutrina que não fosse a verdadeira.

Partindo deste princípio de que não existe nenhuma verdade fora do Evangelho [43], ele insiste veementemente que “não é permitido aos ministros fiéis que forjem algum dogma novo, mas simplesmente que se apeguem à doutrina à qual Deus a todos sujeitou, sem exceção.” [44] Para exemplificar esta verdade, ele usa os próprios sacerdotes que foram orientados à se limitar no que foi dado:

Quando, porém, pareceu bem a Deus suscitar mais clara forma à Igreja, quis que fosse confiada à escrita, e assim selar sua Palavra, para que os sacerdotes daí buscassem o que ensinar ao povo e para que a essa regra se conformasse todo o ensino que se transmitisse. E assim, após a promulgação da lei, quando se ordena aos sacerdotes que ensinassem “pela boca do Senhor” [Ml 2.7], o sentido é que não ensinassem algo estranho ou alheio a esse gênero de ensino que Deus havia compreendido na Lei. Com efeito, lhes foi vedado acrescentá-la e diminuí-la. [45]

Mas Calvino entendia também que muitas vezes os pregadores são tentados a se desviar da verdadeira pregação. Não quer dizer com isso que eles são falsos profetas. Por isso, Calvino orienta aos pregadores a resistir a tentação de se desviar da pura e fiel pregação da Palavra:

Somos, naturalmente, dados à curiosidade, de modo que a nossa tendência é ignorar displicentemente, ou, pelo menos, experimentar só levemente o ensino que produz edificação, enquanto nos envolvemos com questões frívolas. A esta curiosidade adiciono a audácia e a temeridade, de maneira tal que nos prontificamos sem hesitação a pronunciar sobre coisas de que nada sabemos e que nos são ocultas. [46]

Por isso, muito sabiamente Calvino alerta aos pregadores a se limitarem àquilo que a Palavra de Deus nos diz. É somente isto que se deve saber e pregar. A Palavra de Deus é suficiente: “Eis o limite de nosso conhecimento.” [47]

Ao tratar sobre os anjos, Calvino acredita que possa trazer alguma curiosidade para o homem. Mas ele é insistente ao falar que quanto às coisas obscuras, “não falemos, ou sintamos, ou sequer almejemos saber outra coisa senão aquilo que nos é ensinado na Palavra de Deus”. Pois para Calvino, a busca por questões que não trazem edificação, são estudos inúteis. [48] Em outro lugar ele diz:

E visto que o Senhor nos quis instruir não em questões frívolas, mas na sólida piedade, no temor de seu nome, na verdadeira confiança, nos deveres da santidade, contentemo-nos com este conhecimento. [49]

Portanto, se o objetivo da Palavra de Deus é trazer edificação e fazer trilhar o caminho da salvação, nada mais correto do que os ministros transmitirem a Palavra da verdade com o mesmo objetivo.

Pregação como voz de Deus

Calvino afirma que um pregador ao fazer uma fiel pregação da Palavra de Deus, ele não está apenas repetindo ensinamentos, mas ele se torna a própria voz de Deus. [50] Antes de detalharmos este assunto é necessário salientar que para Calvino há uma grande diferença entre os escritores bíblicos e os pregadores posteriores:

“Todavia, entre os apóstolos e seus sucessores, como já disse, existe esta diferença: que aqueles foram infalíveis e autênticos amanuenses do Espírito Santo, e por isso seus escritos devem ser tidos como oráculos de Deus; os outros, porém, não têm outra função, senão que ensinem o que foi dado a conhecer e consignado nas Sagradas Escrituras.” [51]

Mas isso não quer dizer que anula a autoridade do pregador por não ser inspirado como os escritores. Para Calvino, o mesmo Espírito que inspirou os escritores é o mesmo que capacita os pregadores. É o Espírito Santo que torna capaz o árduo trabalho do pregador e torna suas palavras na poderosa voz de
Deus. [52]

Da mesma forma, o mesmo Espírito torna eficaz a pregação para os ouvintes. Desta forma, o Espírito Santo faz com que a mensagem pregada seja compreendida pela Igreja e aceita como a própria Palavra de Deus. [53] Nas palavras de Calvino, “a pregação é o instrumento da fé, por isso o Espírito Santo torna a pregação eficaz.” [54]

Evidentemente, a incapacidade humana não deve ser considerada quanto à autoridade da pregação fiel. Quanto a isso, Calvino afirma: 

“Mas, os que pensam que a autoridade da doutrina é desprezada pela baixa condição dos homens que foram chamados a ensiná-la, estes põem à mostra sua ingratidão, porquanto, entre tantos dotes preclaros com os quais Deus adornou o gênero humano, esta prerrogativa é singular: que a si digna consagrar as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar sua própria voz.” [55]

Deste modo, através do seu Espírito ele capacita homens para transmitir sua Palavra, colocando assim, sua própria Palavra em seus lábios. [56] Calvino enfatiza que os pregadores, no momento em que estão proclamando o evangelho, eles agem como instrumentos divinos:

A fé procedente do evangelho seria deveras frágil, se fôssemos nós olhar somente para os homens. Toda a sua autoridade procede de reconhecermos que os homens são meros instrumentos de Deus e de ouvirmos Cristo nos falando por meio de lábios humanos. [57]

Destarte, apesar da limitação humana, deve-se afirmar que a palavra que sai da boca de Deus é a mesma que sai da boca dos homens. [58]

O valor da pregação é tão valiosa e considerada, assim, a própria voz de Deus, que qualquer que rejeitar uma pregação fiel, não despreza homens, e sim a Deus. “Segue-se disto que aqueles que se retraem de ouvir a Palavra proclamada estão premeditadamente rejeitando o poder de Deus e repelindo de si a mão divina que pode libertá-los.” [59]

Cabe, portanto à igreja reconhecer a autoridade dos seus pastores, pois por meio deles elas são edificadas pela Palavra do próprio Deus. Deus instituiu este meio para ouvi-lo e não outro. Ninguém, pois, deve tentar advertir ou consolar a Igreja a não ser que seja um representante de Deus, falando assim “pela boca do Senhor”. [60] Esta foi a ordenança dada por Deus: 

Buscar a palavra e doutrina da boca dos profetas e professores, que prega em seu nome e por Sua autoridade, para que não possamos buscar loucamente por novas revelações. [61]

Conclui-se que uma Igreja que não ouve seu pastor, não ouve o Deus da Igreja, ou seja, o Deus da Palavra. Em outro lugar Calvino adverte os pastores a serem aqueles que mostrem a glória de Deus.

Eis o supremo poder com o qual convém que os pastores da Igreja sejam investidos, sem importar por que nome sejam chamados, isto é, que ousem fazer tudo confiantemente pela Palavra de Deus; que obriguem a todo poder, glória, sabedoria, exaltação do mundo a sujeitar-se-lhe e a obedecer-lhe à majestade; sustentados em seu poder, imperem sobre todos, desde o mais alto até o mais baixo; edifiquem a mansão de Cristo, desmantelem a de Satanás; apascentem as ovelhas, submetam os rebeldes e contumazes; liguem e desliguem; enfim, caso se faça necessário, relampejem e despeçam raios; tudo, porém, na Palavra de Deus. [62]

Implicações para os dias atuais

Calvino tem sido estudado como pregador. Poucos podem ser comparado à ele quando se fala de pregação. Calvino não era apenas o exegeta da reforma, mas o pregador da reforma. [63] Ele não ensinava sobre pregação, mas colocava em prática aquilo que ele cria e passava aos seus alunos. Calvino tem muito a nos ensinar sobre pregação. Subir num púlpito para pregar a Palavra de Deus não deve ser tido como algo sem muita importância. Algumas implicações devem ser tiradas desta pesquisa.

A primeira que deve ser ressaltada é que a Bíblia é a Palavra de Deus. Pode parecer óbvio para alguns que confessam a inspiração da Bíblia, mas algumas vezes não tem dado o devido valor à esta verdade. Saber que a Bíblia é a própria Palavra de Deus deve despertar no pregador o valor daquilo que ele transmite e saber que esta palavra é suficiente para transformar vidas. Saber que ela é a Palavra de Deus, deve fazer dela o centro dos cultos realizados na Igreja.

Outra verdade a ser destacada é a utilidade da Palavra de Deus. Calvino demonstrava em seu púlpito que cria que toda a Escritura é útil para edificação da Igreja. Sua prática era coerente com os seus ensinos. De fato ele pregava todos os versículos do livro escolhido para expor para a congregação.

Trazendo em cada um deles uma aplicação para transformação de vidas. Ignorar certas passagens bíblicas se torna, na verdade, uma descrença de que toda a Bíblia é útil para o ensino. E na verdade, essa prática não acaba transmitindo dúvidas para a congregação quanto a aplicabilidade de certas passagens? Em sua prática de pregação de versículo por versículo, Calvino transmitia esta verdade: “toda a Escritura é útil”.

O que mais se destaca nesta pesquisa é o valor da pregação. Calvino destacava algo que deve sempre ser valorizada no meio da Igreja: a pregação.

A pregação é o meio ordinário para a edificação da Igreja. Por mais que o pregador seja tentado a trazer algo que agrade os homens, ele deve sempre ser lembrado da autoridade e eficácia da pregação.

Embora seja natural que o homem se recuse a ouvir a Palavra, a fidelidade do pregador deve ser intacta. Sua responsabilidade é como nenhuma outra, pois ele é a própria voz de Deus. Lembrando-se sempre que ele não fala por si, mas é um instrumento dado por Deus para ser sua voz. Não é exagero, portanto, afirmar que os pregadores precisam sempre se lembrar que ao subir num púlpito ele está dizendo: “Assim diz o Senhor”.

Conclusão

Apresentei neste trabalho a visão de Calvino sobre a pregação e como isto é importante para a edificação da Igreja. Pode-se perceber que sua teologia sobre a pregação é tão importante quanto foi no seu tempo. A pregação ainda deve ser valorizada. Alguns pontos devem ser destacados com esta pesquisa.

Calvino acreditava fielmente na inspiração e perfeição da Bíblia, considerando-a como a própria Palavra de Deus. A imperfeição dos escritores não desmerece sua infalibilidade. A mesma foi dada para que o homem recebesse a salvação e fosse moldado por ela.

Desta maneira, Calvino cria que a pregação deveria ser fiel às Escrituras, não permitindo nenhum tipo de acréscimo ao transmiti-la. Para ele, a pregação fiel é a própria voz de Deus por intermédio humano. As imperfeições dos pregadores não desmerecem a autoridade da pregação, devendo ser respeitada como se respeita o próprio Deus. Concluindo assim, que a pregação é o meio ordinário para a edificação da Igreja.

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Notas: Para visualizá-las, acesse o trabalho original através deste link!

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Artigo gentilmente cedido pelo autor ao blog Bereianos.
Divulgação: Bereianos
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O que preciso para fazer um sermão?

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Por Daniel Clós Cesar


Já de início quero deixar claro que não se trata de um texto de cunho teológico acadêmico, tampouco trata-se de um tutorial para preparação de uma pregação. São apenas anotações de alguém que eventualmente prega a Palavra do Senhor.

Uma vez que outra me deparo com a pergunta: Como você preparou essa pregação? Ou ainda: Como faço para preparar uma pregação?

Não acredito que exista uma receita, e não quero desmerecer alguns seminários teológicos que passam verdadeiras receitas de pudim de micro-ondas ou bolo de caneca, mas acredito que preparar uma pregação é mais que colocar pó de Tang em 1 litro de água gelada e misturar. Parece que todo mundo sabe disso, mas sério, alguns púlpitos são tão repetitivos que se alguém pegar no sono não será obra das trevas, mas da falta de luz sobre o pregador.

Conhecer a Palavra do Senhor: parece óbvio, mas é óbvio somente no discurso. A grande maioria dos pastores brasileiros sequer leu a Bíblia por inteiro uma única vez na vida, na minha opinião, um cristão alfabetizado que nunca leu a Bíblia ama tanto o evangelho quanto as trevas amam a luz. Se você é cristão e a Palavra do Senhor não faz parte do seu cotidiano, você é um farsante... voltando: na sua grande maioria, muitos pastores são apenas reprodutores de pregações e ensinos repassados de segunda ou terceira mão (vistos em um congresso ou visita a uma igreja), pois muitas vezes ouviram de alguém que também faz o que eles fazem, reproduz.

A Palavra do Senhor é viva, logo, toda pregação deve ser original. Faço algumas ressalvas antes de continuar. Original aqui não significa “original”, mas sim: nova/novidade. A originalidade dos pastores brasileiros (não tão originais pois são cópia muito ruim da gospelândia estadunidense) traduz-se em invencionices e bizarrices, não me refiro a isso, mas a novidade da Revelação que é viva na Palavra do Senhor. Creio num evangelho simples, onde o poder da Palavra não está na erudição do homem capacitado intelectualmente, mas na revelação da Palavra dada ao homem espiritualmente capacitado.

Não se vê, em geral, novidade nos púlpitos, o que se vê é uma mera repetição de valores morais de “heróis” bíblicos. O que se vê são homens que dedicam muito tempo a atividades ministeriais e pouco ou nenhum tempo para meditação e estudo da Palavra do Senhor. Preparam-se apenas para a pregação, não para a Salvação. Por este motivo os apóstolos decidiram: “(...) Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. (...) e nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra". (Atos 6.2-4). É claro que a demanda da igreja hoje é diferente. Mas, se um pastor ou pregador tem tantos compromissos por semana, quanto tempo ele dedica a Palavra do Senhor? Não faltam igrejas cheias de ovelhas no pasto mas sem nenhum cereal no celeiro. Sem alimento adequado a igreja enfraquece. Ovelhas fracas não se reproduzem. Sem prole a igreja morre.

Minha vida na igreja começou a pouco mais de três décadas. A igreja é um lugar muito mais natural para mim que meu próprio ambiente de serviço, tenho mais tempo dentro dela que no mercado de trabalho, e o que vi nesses trinta-e-poucos-anos? Algumas dezenas de pregações simplesmente repetidas. Veja, não estou falando de um pregador/palestrante que dá a mesma aula ou estudo bíblico, estou falando de pastores e pregadores que deliberadamente copiam pregações de outros pastores. Na internet está cheio, os jargões e ideias que cercam alguns textos bíblicos, por mais absurdos e heréticos que sejam, proliferam como peste no youtube e outras redes sociais.

Também não creio que apenas um profundo conhecimento da Palavra seja suficiente para preparar um sermão. Pessoas com um profundo conhecimento bíblico apesar de escassas não são raras, agora, com muito conhecimento, profunda certeza da fé e paixão pelo evangelho... como ficou raro. O que encontramos muitas vezes são esses três adjetivos divididos em pessoas diferentes e um lutando contra o outro. O teólogo que não desce do seu pedestal para ensinar o neófito; o cheio de certezas mas que desconhece o que crê (a grande maioria) e o apaixonado pelo evangelho, tão apaixonado que esquece que os outros precisam ouvir as boas novas, tão apaixonado que dorme sobre a Bíblia sem encontrar nenhuma utilidade para ela... ele é apaixonado, mas tolo.

Para preparar um sermão é necessário, acima de tudo, uma convicção da Salvação. Uma certeza infinita (até onde pode nossa mente alcançar) da soberania de Deus sobre sua vida, a ponto de todo seu desejo estar voltado para apenas ser um meio para aquilo que o Espírito Santo tem para a igreja. Como isso é difícil, ainda que sejamos fieis (o que não somos), nossa carne luta ferozmente para de alguma forma nosso “eu” ter algum crédito. Eu mesmo enquanto escrevo este texto, analiso as palavras que uso para que ele seja lido e aceito. Meu “eu” espera elogios e provavelmente ficará perturbado com críticas contrárias, mas vejam, não deveria ser esta minha preocupação. Se o que entrego vem do Senhor, essa preocupação deveria ser Dele. Isso apenas aponta minha falha constante em ser fiel com o Senhor, minha incapacidade de crer de todo o coração e de tornar a Palavra meu único alimento.

Pois bem, é assim que preparo um sermão. Buscando enquanto o escrevo, corrigir o meu erro. Expondo meu pecado, aguardando a misericórdia do Senhor. Crendo em seu auxílio, perdão e salvação, resultado de um arrependimento. Como chego neste ponto? Enquanto leio a Palavra do Senhor e em oração converso com Ele, tudo que sou torna-se terrivelmente exposto, muito do que ele é torna-se maravilhosamente conhecido por mim. A Palavra então torna-se o bisturi que abre a ferida e a gaze que estanca o ferimento. Deus, Ele mesmo, destroça o vaso e restaura da forma que lhe apraz. Acredito que é assim que homens imperfeitos e pecadores mas usados por Deus preparam seus sermões. Pregam antes para si mesmos, pois se não houver nenhuma transformação e conversão em mim, como haverá em outros?

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Divulgação: Bereianos
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O que fazer quando a Palavra não te impacta mais?

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Por David Murray

“O que você faz quando a pregação da Palavra não te impacta mais como antigamente?”

Essa é a pergunta que me foi feita recentemente por um jovem sincero que aparenta estar buscando honestamente ao Senhor.

Muitos de nós conseguem se identificar com essa questão por já terem estado nessa situação. Nos lembramos do impacto que os sermões tinham sobre nós no passado – impressões fortes, convicções intensas, ilustrações poderosas – mas agora, nos sentimos como estátuas frias e inanimadas enquanto escutamos aos mesmos pregadores pregando os mesmos sermões. O que deu errado? Isso pode variar para pessoas diferentes, mas deixe-me sugerir algumas possibilidades.

1. Cansaço

A principal causa para uma escuta improdutiva da Palavra é a fadiga e, até mesmo, a exaustão. Trabalhamos muito e por muito tempo durante a semana. Nos sentamos e nos aquietamos pela primeira vez no Domingo pela manhã e, surpresa, nossas pálpebras começam a pesar como chumbo e nossos corpos começam a escorregar no banco da igreja. Uma hora extra de sono a cada noite pode reviver nossas almas.

2. Distração 

Sábado à tarde e à noite são bons momentos para resolver pendências da semana e se preparar para a Segunda. Se não fazemos isso no sábado, estaremos fazendo pelo Domingo, mesmo que mentalmente, na igreja.

3. Indisciplina

Se nós não estamos lendo as nossas bíblias e orando de forma regular e disciplinada durante a semana, não podemos realmente esperar que estejamos espiritualmente sintonizados e sensíveis no domingo.

4. Pecado

Como pecados impenitentes formam uma barreira entre nós e Deus, precisamos nos certificar de que não há nada importante em nossas vidas bloqueando a bênção de Deus.

5. O pregador

Pode ser que o pregador esteja pregando uma série de sermões em um livro ou assunto que não se encaixa com as suas necessidades espirituais do momento. Apesar disso testar a nossa paciência, considerar o longo prazo pode mitigar nossa frustração. Não, você não precisa tanto dessas verdades/dessa série agora, mas pode guardar isso na sua mente e coração para quando precisar no futuro. Talvez nós possamos mortificar o nosso egoísmo orando: “Senhor, eu não estou absorvendo nada desse sermões mas estou grato por outros estarem e oro pela sua bênção sobre eles”.

6. Soberania

Deus pode estar testando a nossa fé ao nos deixar experimentar um período de frieza para com a Palavra. Nós andaremos pela fé até mesmo quando não há sentimentos nos ajudando no percurso? Nós escutaremos, confiaremos e obedeceremos mesmo quando não estamos sendo inspirados e movidos pela pregação?

7. Humildade

Deus também pode usar esses períodos para humilhar os nossos corações e nos mostrar quanta dureza ainda há em nós. “Estou ouvindo as mais belas verdades e isso me deixa frio como pedra. O pregador está derramando o seu coração nisso e eu nem posso ter certeza de que tenho um coração”. Essas experiências dolorosas revelam como ainda precisamos trabalhar a santificação dos nossos corações.

8. Encorajamento

O fato de estarmos incomodados com a nossa frieza espiritual é um sinal tranquilizador. Se estamos indiferentes sobre estarmos indiferentes, despreocupados com a nossa falta de preocupação, isso é, de fato, preocupante. Entretanto, o próprio fato de sentirmos e lamentarmos isso no mostra que Deus tem trabalhado em nossos corações. Podemos nos lembrar de quando olhávamos para a Palavra sem um mínimo de vida espiritual e isso não nos incomodava nem um pouco. Que isso nos incomoda agora e nos faz orar por uma transformação de coração revela um coração que já foi soberanamente transformado.

Traduzido por Kimberly Anastacio | iPródigo.com | Original aqui
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Pela Graça Sois Salvos - Exposição em Efésios 2.5-6

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Efésios 2.5-6 - Pela Graça Sois Salvos
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 16.09.2012

Por Filipe Luiz C. Machado

"Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Ef 2.5).

Na sentença anterior o apóstolo Paulo deixou evidente aos irmãos de Éfeso sobre a grandiosa misericórdia que habita no Soberano e quão grandes graças Ele possui para todos os Seus filhos, de modo que todos os eleitos podem descansar às sombras das asas do Filho (Mt 23.37; Lc 13.34) e os que ainda não foram despertados para a nova natureza, podem achar da água da vida, pois "aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna" (Jo 4.14). Tal ponto foi de muita importância nesta presente carta, pois uma vez que Paulo havia demonstrado três fatos negativos quanto à natureza do homem (1. mortos por natureza (2.1); 2. seguindo o rumo deste mundo (2.2); 3. filhos da ira (2.3)), agora o apóstolo se põem a demonstrar aos irmãos de Éfeso que de fato o Senhor é excelsamente misericordioso, de modo que nenhum pecado (exceto o cometido contra o Espírito Santo - Mt 12.32; Mc 3.29; Lc 12.10) é tão grande que não possa ser perdoado pelo Rei e eterno Salvador. 

Não é em vão que a Palavra dispõe inúmeras vezes que os cristãos foram salvos somente pela graça de Deus e isto se deu justamente no tempo em que ainda estavam mortos em suas ofensas e pecados - "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas". Observemos com grande contrição de coração que, salvo a regeneração divina por meio do Espírito do Senhor, todos os homens carecem "da glória de Deus" (Rm 3.23). As Escrituras são enfáticas em deixar-nos registrado que enquanto estávamos mortos, fomos resgatados; quando não haviam batidas salvíficas em nosso coração, fomos transformados; quando o sangue já não corria por nossas veias, a transfusão perfeita do sangue do cordeiro a nós foi feita. Absolutamente em nenhum lugar das santas e divinas Palavras, encontramos algum dito, narrativa, poesia ou doutrina que nos informe que o Senhor apenas melhorou nossa situação diante de Sua presença santa e inabalável. Um homem que não compreende suas misérias diante do senhorio de Cristo, certamente ainda não nasceu novamente.

O Senhor, através do profeta Ezequiel, com grande propriedade registrou: "E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis... Então vos lembrareis dos vossos maus caminhos, e dos vossos feitos, que não foram bons; e tereis nojo em vós mesmos das vossas iniqüidades e das vossas abominações" (Ez 36.26-27, 31 - grifo meu). Um homem nascido de novo, jamais olha para seus feitos pretéritos e contrários ao Senhor, e neles se alegra ou sente uma razoável vontade de retornar às práticas infernais. Um homem convertido com o santo e limpo sangue de Cristo, olha para si, percebe suas imaginações, perscruta seu coração e diz: "Tenho nojo de mim mesmo! Criatura asquerosa que sou eu! Olhe o que o pecado fez em mim! Olhe meus pensamentos, minhas atitudes e meu desviar constante do Caminho! Miserável homem que sou! (Rm 7.24)" Por este precioso ensinamento acerca do regenerar de Cristo, é que disse Davi: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios" (Sl 103.1-2). Alguém transformado pelo evangelho da graça é alguém que olha para si e sente grande repulsa, a ponto de instigar o vômito, mas que também olha para Cristo e n'Ele encontra refúgio, "verdes pastos [e] águas tranquilas" (Sl 23.2).

Eis, então, a razão para o apóstolo do Senhor registrar: "nos vivificou juntamente com Cristo". Notemos como o vivificar (dar nova vida) não é alheio a Cristo, mas sim "juntamente com Cristo". Mas, qual a importância? Ou, que diferença faz? Quer dizer, uma vez que o apóstolo havia afirmado sobre que é em Cristo que temos nossa adoção (Ef 1.5), qual a implicação desta afirmação para os cristãos?

Em primeiro lugar, é que todo aquele que está longe de Cristo, não é participante de Seu reino - "Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha" (Mt 12.30). É preciso que os professos da fé cristã compreendam que o cristianismo é, neste sentido, uma crença de extremos: ou se está com Cristo, ou se está afastado d'Ele - e, portanto, se é filho da ira (Ef 2.3). Não é possível viver divorciado do senhorio de Deus, de Sua soberania e de Sua santidade, e ainda desejar sustentar uma filiação com Cristo. As Escrituras são explícitas: não existe meio caminho. Não se é "quase crente" ou "quase mundano" - ou em Cristo, ou nas trevas; ou no céu, ou no inferno.

Em segundo lugar, os cristãos foram reconciliados em Cristo e por Cristo - "Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5.10). Não existe outra forma de reconciliação na vida cristã, exceto por meio do "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29). Homens mortos não abrem boca para clamar ou possuem lágrimas para chorar; eles precisam de vida, necessitam de novo fôlego. Assim como após muitos anos de brutalidade e impiedade sobre a terra, sobreveio o dilúvio, também assim vêm as águas do Senhor e salvam a alguns em Cristo e sentenciam outros à perdição e ira de Deus. Contudo, as águas de um dilúvio não somente exterminam os seres não preparados para o viver nas águas (exceto peixes e outras criaturas dotadas por Deus para serem anfíbios, bem como outros pequenos seres), mas também revigoram a terra encharcada de pecado, dando-lhe novos nutrientes, a ponto de Noé sair da arca e já ter boa terra para lavrar (Gn 9.20). Em Cristo, há reconciliação e novo viver.

Em terceiro lugar, por meio do sacrifício de Cristo, os cristãos possuem paz com Deus - "Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1). Anteriormente, Paulo havia dito que por natureza os homens são "filhos da ira" (Ef 2.3) e por isso não possuem paz com Deus. Tais homens não podem e não devem se achegar com ousadia ao santuário do Eterno (Hb 10.19), pois à semelhança do sumo sacerdote que poderia ser punido instantaneamente com a morte, caso se achegasse impuro diante do Senhor, homens não devem fazer gracejos para com a Palavra do Senhor e acharem que idas esparsas à igreja ou vez por outra realizarem alguma "oração", lhes trará paz com Deus. Imaginar que se pode ter paz com o Soberano e Senhor dos Exércitos, sem passar por Cristo Jesus, é rejeitar o próprio Deus, pois "Quem me vê a mim vê o Pai" (Jo 14.9)

Em quarto lugar, somente se possui a grandiosa misericórdia do Deus riquíssimo dela, em Cristo: "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno" (Hb 4.16). Todavia, como pode ser possível que alguém chegue ao trono da graça, ainda mais "com confiança" de não ser consumido, mas sim de ser bem recebido? Basta volver-nos para o versículo anterior e lermos: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado" (Hb 4.15). Porque Cristo "em tudo foi tentado, mas sem pecado" e venceu, e cumpriu toda a Lei, os cristãos podem se achegar ao trono do Senhor e alcançarem clemência.

Em quinto e último lugar, Cristo é o único caminho para o Pai e, consequentemente, para a salvação - "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" (Jo 14.6). Nem bispos, nem padres, nem sacerdotes, nem apóstolos modernos, nem "homens show", nem grupos de dança, nem crianças declamando poemas, ou qualquer coisa desta estirpe leva ao Senhor. Se a verdade vem somente por meio de Cristo, então é Cristo que precisamos ouvir - "De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Rm 10.17).

Assim é que Paulo faz o adendo e diz: "(pela graça sois salvos)". Este parêntese não deve ser entendido como um acréscimo do copista ou que não consta nos "melhores manuscritos", como comumente lemos em algumas versões bíblicas. Para sermos breves, este parêntese é de fato um parêntese escrito pelo próprio apóstolo, desejando comunicar que uma vez que os cristãos foram resgatados enquanto ainda estavam mortos e foram vivificados com Cristo, nada poderia ser mais óbvio do que afirmar que a salvação é pela graça. Porém, tristemente, se revela que nos terrenos atuais do que se chama de evangelicalismo, está muito distante de alguns a verdadeira noção do que vem a ser a graça de Deus.

Afirmar que os cristãos foram vivificados "juntamente com Cristo" e salvos "pela graça" nos leva a três aplicações:

1. A graça não é de graça

Talvez estranhemos essa declaração, pois parece contradizer tudo o que vimos até agora. Contudo, devemos recordar que para nós a graça é de graça, mas a graça que chegou até nós, não veio de graça. Isto implica em dizer que somos receptores de algo que não conquistamos, pois tal qual o Israel do Antigo Testamento habitou em "terra em que não trabalhastes, e cidades que não edificastes, e habitais nelas e comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes" (Js 24.13), assim também os cristãos, embora tenham recebido a graça de Deus, apenas para eles é que ela veio de graça, pois para Deus, custou Seu o Unigênito.

Alguns, porventura, intentarão a muitos a fim de lhes persuadirem de que de fato a graça é de graça e, portanto, devemos tão somente agradecer ao Senhor. De fato isto é verdade, mas porque a graça é de graça para nós, não significa que devemos ignorar a grandiosa obra do Senhor em Seu Filho, afinal, fomos vivificados com Cristo. Como, então, devemos receber e aplicar esta graça? "Agora, pois, temei ao SENHOR, e servi-o com sinceridade e com verdade; e deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais além do rio e no Egito, e servi ao SENHOR" (Js 24.14).

É mister que os cristãos proclamem a graça, mas que não se esqueçam de proclamar que junto com esta graça, é acompanhado a renúncia. A graça nos vem de graça, mas deve nos levar à renúncia; à abdicação do "eu"; à morte diária do pecado; a mais dizer "não" para o mundo, do que sim; a guiar nossos relacionamentos sob à luz da Lei de Deus; à buscar um viver santo em completamente toda e qualquer ocasião, desde o lavar das mãos para a comida até o pregar do evangelho (1Co 10.31-32). Proclamar a graça é magnificamente importante e esta é a mensagem da salvação desde os dias subsequentes à queda de Adão e Eva, entretanto, devemos considerar que a graça que envolve o crente, custou a vida de Cristo e, portanto, "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6). 

Se Cristo, que é por quem somos atraídos ao Pai, viveu de maneira reta e certa diante de Deus, acaso haveríamos nós por simplesmente embargar no navio da graça e esperar sermos levados à cidade celestial, como se por aqui pudéssemos viver de maneira displicente e rejeitando o Seu sacrifício?

2. A graça leva às obras

Novamente, embora soe destoante do que comumente se vê nos arraiais evangélicos, a graça leva às boas obras em Cristo Jesus. Um homem que professa a fé no Filho de Deus, mas não vive uma vida de piedade, não chora em contrição pelos pecados cometidos, não anseia ardentemente pelo Dia do Senhor (tanto o dia propriamente dito, como o dia de Sua vinda), não proclama a Palavra da verdade - ainda que lhe custe os amigos, emprego e reputação -, não busca lutar contra o pecado e não se abstém de práticas pecaminosas - desde as maiores até as menores -, certamente está a um passo de ser tragado pelo Senhor, bastando que resvale o seu pé e chegue o dia de sua destruição (Dt 32.35).

Tiago enfatiza e nos ensina esta preciosa verdade: "Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2.26). Alguém poderá replicar e afirmar que Tiago está falando de fé, enquanto o presente versículo de Paulo, fala de graça. A estes, nada responderemos no momento, pois logo no versículo oitavo do presente capítulo de Efésios se vislumbrará que a graça é o que nos leva à fé.

É importante que os cristãos compreendam que afirmar estar na graça, mas não ser impelido a realizar as obras do Espírito, é viver em uma contradição - e como vimos anteriormente, não pode haver meio termo: ou se está em Cristo e se pratica as obras do evangelho, ou se vive nas trevas e pratica-se as obras do maligno. Certamente que isto não significa que o verdadeiro cristão nunca poderá fraquejar ou viver de modo contrário à Palavra, pois se o próprio apóstolo Paulo queixava-se e lamentava profundamente o pecado que ainda permanecia em seu corpo (Rm 7.24), que diremos nós? 

O cristão é alguém ativo e que porque foi tocado pela graça, é levado a praticar as obras do Senhor e observar toda a Sua Lei - não devido a por elas ser salvo, mas sim porque, assim como um filho agradece ao pai terreno por um presente que recebeu e depois procura ser um bom filho em obediência e bons feitos, de igual maneira o cristão é levado a buscar viver de modo que glorifique ao Senhor em tudo o que faz (1Co 10.31), mesmo sabendo que constantemente vacilará - mas, como é crente na graça de Deus, não desfalecerá pela caminho, "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13)

3. A graça não elimina os efeitos do pecado aqui na terra

É um erro grosseiro o cristão ser levado a pensar (e até mesmo proclamar) que porque foi perdoado, não deve sofrer as consequência do pecado e de seus pecados enquanto vive. Se fosse verdade que a graça elimina toda e qualquer mazela proveniente do pecado, o ladrão da cruz teria de ser liberto, pois foi salvo por Cristo e teve seus pecados perdoados (Lc 23.43); Davi não deveria ter sido castigado com a morte de seu filho advindo do adultério, pois posteriormente orou e pediu a Deus que lhe perdoasse (2Sm 2.13-14; Sl 51); o povo de Israel também foi castigado, então, várias vezes de modo injusto, pois o Senhor os perdoava constantemente.

A verdade é que no lugar do evangelho da graça, se tem visto muitas vezes a proclamação do evangelho da desgraça. Sim, não ouso titubear ante esta apostasia generalizada que vemos em muitas ditas igrejas de "Jesus" e movimentos malignos. Pela misericórdia do Eterno sempre tem havido o remanescente fiel e que não tem se dobrado diante dos ídolos levantados por homens (1Rs 19.18), como sucesso, dinheiro, riquezas, fama, prestígio, curas, milagres, livre arbítrio e toda sorte de patifaria que se tem visto. Todavia, tristes fatos havemos de recordar, pois não são poucos que elevam suas vozes de falsos profetas e proclamam uma graça que mais traz desgraça (a falta da genuína graça de Deus), do que a verdadeira graça salvadora.

Que possa o Senhor abundar-nos de graça, mas sempre nos levando em Sua viva palavra, a fim que não nos esqueçamos de Ele, "pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9.18), de modo que não brinquemos por esta terra, e sim vivamos conforme nosso chamado para a batalha pelo Reino de Deus.

- Sobre o autor: Filipe Luiz C. Machado mora em Blumenau/SC, é Presbítero da Igreja Cristã Reformada de Blumenau. Analista, crítico e amante da vida cristã. Casado com Angela, autor do blog 2Timóteo 3.16. 

 Fonte: 2Timóteo 3.16
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A pregação é essencial para a saúde da igreja

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Um ministério da pregação é absolutamente essencial para a saúde e a prosperidade de uma igreja visível. O púlpito é o lugar onde as mais importantes vitórias do Evangelho têm sido sempre vencidas, e nenhuma Igreja fez grandes progressos na verdadeira religião na qual o púlpito tem sido negligenciado. Será que podemos saber se um ministro é verdadeiramente um homem apostólico?

Se ele for, ele dará o melhor de sua atenção para seus sermões. Ele vai trabalhar e orar para tornar sua pregação em uma pregação eficaz, e dirá à sua congregação que ele foca a sua pregação para o resultado essencial sobre as almas. O ministro que exalta os sacramentos, ou formas de Igreja acima de pregação, pode ser um ministro zeloso sério, consciente e respeitável, mas seu zelo não está de acordo com o conhecimento. Ele não é um seguidor dos apóstolos.


J. C. Ryle
Day by Day with J.C. Ryle, “Ministry (Preaching)”
[Ross-shire, UK: Christian Focus, 2004], pag. 185.

Via: [ Reforma & Razão ]

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