Como estragar o Evangelho

.

Por J.C.Ryle


Você pode estragar o Evangelho por substituição. Você só tem de retirar dos olhos do pecador o maravilhoso objeto que a Bíblia propõe a fé, Jesus Cristo, e substituir outro objeto em Seu lugar: a Igreja, o Ministério, o Batismo, o Confessionário, ou Ceia do Senhor e a travessura está feita. Substitua qualquer coisa por Cristo, e o Evangelho está totalmente estragado! Faça isso, direta ou indiretamente, e sua religião deixa de ser Evangélica. 

Você pode estragar o Evangelho por adição. Você só tem que adicionar a Cristo, o maravilhoso objeto da fé, alguns outros objetos como igualmente dignos de honra, e a travessura está feita. Acrescente qualquer coisa à Cristo, e o Evangelho deixa de ser um Evangelho puro! Faça isso, direta ou indiretamente, e sua religião deixa de ser Evangélica.

Você pode estragar o Evangelho pela interposição. Você só tem de empurrar alguma coisa entre Cristo e os olhos da alma, para desviar a atenção do pecador do Salvador, e a travessura está feita. Interpõem qualquer coisa entre o homem e Cristo, e o homem negligenciará Cristo pela coisa interposta! Faça isso, direta ou indiretamente, e sua religião deixa de ser Evangélica.

Você pode estragar o Evangelho por desproporção. Você só tem que anexar uma importância exagerada às coisas secundárias do Cristianismo, e uma menor importância às coisas primeiras, e a travessura está feita. Uma vez altere a proporção das partes da verdade, e a verdade logo se torna erro completamente! Faça isso, direta ou indiretamente, e sua religião deixa de ser Evangélica.

.

Suponha que um Ímpio Vá para o Céu

.

Por J.C. Ryle

Por um momento, suponha que você, destituído de santidade, tivesse a permissão de entrar no céu. O que você faria ali? Que possíveis alegrias sentiria no céu? A qual de todos os santos você se achegaria e ao lado de quem se assentaria? O prazer deles não é o seu prazer; os gostos deles não são os seus; o caráter deles não é o seu caráter. Como você poderia sentir-se feliz ali, se não havia sido santo na terra?

Talvez agora você aprecie muito a companhia dos levianos e descuidados, dos homens de mentalidade mundana, dos avarentos, dos devassos, dos que buscam prazeres, dos ímpios e dos profanos. Nenhum deles estará no céu.

Provavelmente, você ache que os santos de Deus são muito restritos, sérios e individualistas; e prefere evitá-los. Você não encontra nenhum prazer na companhia deles. Mas não haverá no céu qualquer outra companhia.

Talvez você ache que orar, ler a Bíblia e cantar hinos são realizações monótonas e estúpidas, coisas que devem ser toleradas aqui e agora, mas não desfrutadas. Você reputa o dia de descanso como um fardo, uma fadiga; provavelmente, você não gasta mais do que um pequeníssima parte deste dia na adoração a Deus. Lembre-se, porém, de que o céu é um dia de descanso interminável. Os habitantes do céu não descansam, noite e dia, clamando: “Santo, santo, santo é o Senhor, Deus todo- poderoso” e cantam todo o tempo louvores ao Cordeiro. Como poderia um ímpio encontrar prazer em uma ocupação como esta?

Você acha que um ímpio sentiria deleite em encontrar-se com Davi, Paulo e João, depois de ter gasto a sua vida na prática daquelas coisas que eles condenaram? O ímpio pediria bons conselhos a estes homens e acharia que tem muitas coisas em comum com eles? Acima de tudo, você acha que um ímpio se regozijaria em ver Jesus, o Crucificado, face a face, depois de viver preso nos pecados pelos quais Ele morreu, depois de amar os inimigos de Jesus e desprezar os seus amigos? Um ímpio permaneceria confiantemente diante de Jesus e se uniria ao clamor: “Este é o nosso Deus, em quem esperávamos… na sua salvação exultaremos e nos alegraremos” (Is 25.9)? Ao invés disso, você não acha que a língua de um ímpio se prenderia ao céu de sua boca, sentindo vergonha, e que seu único desejo seria o ser expulso dali? Ele haveria de sentir-se estranho em um lugar que ele não conhecia, seria uma ovelha negra entre o rebanho santo de Jesus. A voz dos querubins e dos serafins, o canto dos anjos e dos arcanjos e a voz de todos os habitantes do céu seria uma linguagem que o ímpio não entenderia. O próprio ar do céu seria um ar que o ímpio não poderia respirar.

Eu não sei o que os outros pensam, mas parece claro, para mim, que o céu seria um lugar miserável para um homem destituído de santidade. Não pode ser de outra maneira. As pessoas podem dizer, de maneira incerta, que “esperam ir para o céu”, mas elas não meditam no que realmente estão dizendo. Temos de ser pessoas que possuem uma mentalidade celestial e têm gostos celestiais, na vida presente; pois, do contrário, jamais nos encontraremos no céu, na vida por vir.

Agora, antes de prosseguir, permita-me falar-lhe algumas palavras de aplicação. Pergunto a cada pessoa que está lendo este artigo: você já é uma pessoa santa? Eu lhe suplico que preste atenção a esta pergunta. Você sabe alguma coisa a respeito da santidade sobre a qual lhe estou falando? Não estou perguntando se você costuma ir regularmente a uma igreja, ou se você já foi batizado, ou se você recebe a Ceia do Senhor, ou se tem o nome de cristão. Estou perguntando algo muito mais significativo do que tudo isso: “Você é santo ou não?”

Não estou perguntando se você aprova a santidade nos outros, se você gosta de ler sobre a vida de pessoas santas, de conversar sobre coisas santas, de ter livros santos em sua mesa, se você sabe o que significa ser santo ou se espera ser santo algum dia. Estou perguntando algo mais elevado: “Você mesmo é um santo ou não?”

E por que eu lhe pergunto com tanta seriedade, insistindo com tanto vigor? Faço isto porque a Bíblia diz: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Está escrito, não é minha imaginação; está escrito, não é minha opinião pessoal; é a Palavra de Deus, e não a do homem: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Que palavras perscrutadoras e separadoras são estas! Que pensamentos surgem em meu coração, enquanto as escrevo! Olho para o mundo e vejo a maior parte das pessoas vivendo na impiedade. Olho para os cristãos professos e percebo que a maioria deles não têm nada do cristianismo, exceto o nome. Volto-me para a Bíblia e ouço o Espírito Santo: “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Com certeza, este é um versículo que tem de fazer-nos considerar nossos próprios caminhos e sondar nossos corações; tem de suscitar em nosso íntimo pensamentos solenes e levar-nos à oração.

Você pode menosprezar estas minhas palavras, dizendo que tem muitos sentimentos e pensamentos sobre estas coisas, mais do que muitos podem imaginar. Entretanto, eu lhe respondo: “Isto não é mais importante. As pobres almas no inferno fazem muito mais do que isto. O mais importante não é o que você sente e pensa, e sim o que você faz”.

Você pode argumentar: “Deus nunca tencionou que todos os cristãos fossem santos e que a santidade, conforme a descrevemos, é apenas para os grandes santos e para pessoas de dons incomuns”. Eu respondo: “Não posso encontrar este argumento nas Escrituras; e leio que ‘a si mesmo se purifica todo o que nele [em Cristo] tem esta esperança’” (1 Jo 3.3). “Segui… a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Você pode argumentar que é impossível ser santo e, ao mesmo tempo, cumprir todos os nossos deveres nesta vida: “Isto não pode ser feito”. Eu respondo: “Você está enganado”. Isto pode ser feito. Tendo Cristo ao nosso lado, nada é impossível.

Outros já fizeram isto. Davi, Obadias, Daniel e os servos da casa de Nero, todos estes são exemplos que comprovam isto.

Você pode argumentar: “Se nos tornássemos santos, seríamos diferentes das outras pessoas”. Eu res- pondo: “Sei muito bem disso. Mas é exatamente isso que você deve ser. Os verdadeiros servos de Cristo sempre foram diferentes do mundo que os cercava — uma nação santa, um povo peculiar. E você tem de ser assim, se deseja ser salvo!”

Você pode argumentar que a este custo poucos serão salvos. Eu respondo: “Eu sei disso. É exatamente sobre isso que nos fala o Sermão do Monte. O Senhor Jesus disse, há muitos séculos atrás: “Estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt 7.14). Poucos serão salvos, porque poucos se dedicarão ao trabalho de buscar a salvação. Os homens não renunciarão aos prazeres do pecado, nem aos seus próprios caminhos, por um momento sequer.

Você pode argumentar que estas são palavras severas demais; o caminho é muito estreito. Eu respondo: “Eu sei disso; o Sermão do Monte o disse”. O Senhor Jesus o afirmou há muitos séculos atrás. Ele sempre disse que os homens tinham de tomar a sua cruz diariamente e mostrarem-se dispostos a cortarem suas mãos e seus pés, se quisessem ser discípulos dEle. No cristianismo acontece o mesmo que ocorre em outros aspectos da vida: sem perdas, não há ganhos. Aquilo que não nos custa nada também não vale nada.

_______________________
Ryle serviu por quase 40 anos como ministro do Evangelho. Foi um escritor prolífico, um pregador vigoroso e um pastor fiel. Muitas de suas obras têm sido reeditadas e servido como fonte de instrução e consolo para o povo de Deus. A Editora Fiel publicou algumas de suas obras em português: o clássico “Santidade”; “Uma palavra aos moços”; “Fé genuína” e os quatro volumes de meditações nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Fonte: Editora Fiel
.

4 grandes doutrinas para sempre ter em mente

.
    Por J. C. Ryle
Eu sinto que todos nós precisamos mais e mais da presença do Espírito Santo em nossos corações para nos guiar, nos ensinar e nos manter firmes na fé. Há algumas grandes verdades, que, em dias como este [1874!], somos especialmente obrigados a ter em mente. Acredito que há tempos e épocas na Igreja de Cristo em que somos obrigados a reforçar nosso conhecimento sobre algumas das principais verdades, para apreendê-las com uma firmeza fora do comum em nossas mãos, para imprimi-las em nossos corações e não perdê-las.


#1: A Corrupção total da Natureza


A corrupção da natureza humana não é algo desconsiderável. Não é parcial, superficial, mas uma corrupção radical e universal dos desejos, do intelecto e da consciência do homem. Não somos meramente pobres e mesquinhos pecadores na visão de Deus: somos pecadores culpados; somos pecadores condenados: merecemos a ira e a condenação de Deus. Acredito que há poucos erros e falsas doutrinas em que, a princípio, podem não ser detectadas visões distorcidas da corrupção humana. Percepções erradas sobre uma doença sempre trarão consigo a percepção do remédio errado. Visões erradas sobre a corrupção da natureza humana sempre acarretarão visões erradas do grande tratamento e cura dessa corrupção.
 
#2: Inspiração e Autoridade da Bíblia

Vamos sustentar corajosamente, diante de toda oposição, que a Bíblia como um todo é dada por inspiração do Espírito Santo, que tudo é inspirado completamente, não uma parte mais inspirada que outra, e que há um completo abismo entre a Palavra de Deus e qualquer outro livro no mundo. Precisamos não temer as dificuldades no sentido da doutrina da total inspiração. Talvez haja muitas coisas sobre isso muito longe de serem compreendidas por nós: é um milagre, e todos os milagres são necessariamente misteriosos. Mas se não acreditamos em nada até podemos explicar completamente, há pouquíssimas coisas, de fato, em que devemos acreditar. Precisamos não ter medo de todos os ataques da crítica sobre a Bíblia. Nos dias dos apóstolos, a Palavra do Senhor foi incessantemente ‘provada’, e nunca falhou em ressurgir como ouro, ilesa e sem pecado.
 
#3: A Expiação e o Sacerdócio de Cristo

Devemos corajosamente sustentar que a morte de nosso Senhor na cruz não foi uma morte comum. Não foi a morte de alguém que morreu apenas como um mártir. Não foi a morte de alguém que apenas morreu para nos dar um forte exemplo de auto-sacrifício e auto-negação. A morte de Cristo foi uma oferta a Deus do próprio corpo e próprio sangue de Cristo, para reparar o pecado e transgressão do homem. Foi sacrifício e conciliação; um sacrifício caracterizado em toda oferta da lei de Moisés, um sacrifício de grande influência em toda a humanidade. Sem o derramamento desse sangue não poderia haver, não era pra haver, qualquer remissão de pecado.

#4: O Agir de Deus no Espírito Santo

Vamos colocar em nossas mentes que o agir de Deus não é uma ação invisível incerta no coração: e que onde Ele está, Ele não está escondido, nem insensível,  nem despercebido. Não acreditamos que o orvalho, quando cai, não possa ser sentido ou que a vida de um homem, não possa ser vista ou percebida por sua respiração. Assim é com a influência do Espírito Santo. Nenhum homem tem o direito de afirmar isso sem que seus frutos e seus efeitos possam ser vistos em sua vida. Onde Ele está, haverá um nova criatura e um novo homem. Onde Ele está haverá novo conhecimento, nova fé, nova santidade, novos frutos na vida, na família, no mundo, na Igreja. E onde essas novas coisas não podem ser vistas, bem podemos dizer com confiança que não há ação do Espírito Santo.

Traduzido por Carla Ventura | iPródigo.com | Original aqui
Fonte: iPródigo
.

Temores Apostólicos

.

Por J. C. Ryle. 

"O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo" (2Coríntios 11.3).

O texto acima contém parte da experiência de um famoso cristão. Talvez nenhum servo de Cristo tenha deixado semelhante marca para o bem do mundo como o Apóstolo Paulo. Quando nasceu, todo o império romano, com exceção de uma pequeníssima parte, estava submerso nas trevas do paganismo; quando morreu, o tremendo conglomerado pagão havia sido sacudido em seu núcleo e já estava a caminho da ruína. E nenhum dos instrumentos que Deus utilizou para produzir essa maravilhosa mudança fez mais do que Saulo de Tarso depois de sua conversão. No entanto, mesmo em meio a tanto sucesso e utilidade para Deus, podemos ouvi-lo clamar: "Receio!".

Tal clamor possui uma melancolia que exige a nossa atenção. Quem pensa que Paulo teve uma vida cômoda por ser um Apóstolo, por ter feito milagres, por ter fundado igrejas e por ter escrito epístolas inspiradas pelo Espírito Santo, tem muito o que aprender. Nada mais longe da verdade! O capítulo 11 de 2Coríntios conta uma história muito diferente. Esse capítulo merece um estudo cuidadoso. Em parte devido à oposição dos pagãos, filósofos e sacerdotes, cujo ofício estava em perigo, em parte devido à amarga inimizade de seus próprios compatriotas descrentes, em parte devido aos irmãos falsos ou fracos, em parte devido ao seu próprio aguilhão na carne, o grande Apóstolo dos gentios era como seu Senhor: "um homem de dores e experimentado no sofrimento" (cf. Is 53.3).

Mas de todos os fardos que Paulo teve de suportar, nenhum parece ter pesado tanto quanto a preocupação por todas as igrejas (2Co 11.28). O conhecimento precário de muitos cristãos primitivos, sua fé débil, sua inexperiência, sua esperança minguada, seu baixo nível de santidade, todas essas coisas os faziam particularmente suscetíveis de perder-se por causa dos falsos mestres, e assim afastar-se da fé. Como crianças pequenas, que com grande dificuldade começam a andar, necessitavam ser tratados com grande paciência. Como plantas exóticas numa estufa, deveriam ser tratados continuamente. Pode-se duvidar que eles mantinham o Apóstolo num estado de contínua ansiedade? Nos surpreende que ele diga aos colossenses: "Quero que vocês saibam quanto estou lutando por vocês, pelos que estão em Laodiceia e por todos os que ainda não me conhecem pessoalmente"; e aos gálatas: "Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho". "Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?" (Cl 2.1; Gl 1.6; 3.1). Nenhum leitor atento pode estudar as epístolas sem perceber que essa questão surge uma e outra vez. E o texto que encabeça este artigo é um exemplo do que quero dizer: "O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo" (2Co 11.3). O texto contém três importantes lições, às quais desejo que meus leitores dirijam sua atenção. Creio que são lições válidas para todas as épocas.

I. Em primeiro lugar, o texto nos revela uma doença espiritual a qual todos somos suscetíveis e a qual devemos temer. Essa doença é o desvario da mente: "Receio... que a mente de vocês seja corrompida".

II. Em segundo lugar, o texto nos revela um exemplo que devemos sempre lembrar: "A serpente enganou Eva com astúcia".

III. Em terceiro lugar, o texto nos revela um ponto sobre o qual devemos manter vigilância. Esse ponto é o desvio de nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

O texto é uma mina de ouro profunda, e não encontra-se isento de dificuldades. Mas desçamos corajosamente a fim de encontrar nosso tesouro.

I. Primeiramente, pois, há uma doença espiritual que devemos temer: o desvario ou corrupção da mente.

Interpreto "corrupção da mente" como a lesão que nossa mente sofre ao admitir falsas doutrinas e ensinos antibíblicos em nossa religião. E creio que o Apóstolo queria dizer o seguinte: "Receio que seus sentidos absorvam ideias equivocadas e defeituosas a respeito do Cristianismo. Receio que vocês adotem como verdades alguns princípios que não são a Verdade. Receio que vocês se afastem da fé que foi entregue de uma vez por todas aos santos e que abracem ideias que praticamente destroem o Evangelho de Cristo".

O receio expressado pelo Apóstolo é dolorosamente instrutivo e à primeira vista pode até causar surpresa. Quem poderia imaginar que, mesmo sob o olhar dos próprios discípulos escolhidos por Cristo, quando o sangue vertido no Calvário mal havia secado, quando a era apostólica e a era dos milagres ainda não havia passado, já existiria o perigo de que os cristãos se afastassem de sua fé? No entanto, é certo que o "mistério da iniquidade" já havia começado a operar antes mesmo da morte dos Apóstolos (cf. 2Ts 2.7). "Já agora muitos anticristos têm surgido" (1Jo 2.18). E não há nenhum fato na história da Igreja que esteja mais demonstrado que este: que a falsa doutrina jamais deixou de ser uma praga na cristandade nos últimos dezoito séculos. Olhando para o futuro com olhos de profeta, Paulo disse: "Receio... não somente a corrupção de sua moralidade, mas também de seus sentidos".

A pura verdade é que a falsa doutrina tem sido o modo escolhido por Satanás para deter o avanço do progresso do Evangelho de Cristo em todas as épocas. Ao ver-se incapaz de evitar que a fonte da vida fosse aberta, ele tem trabalhado incansavelmente para poluir os mananciais que dela começam a fluir. Embora não tenha conseguido estancá-la, eventualmente tem sido bem-sucedido ao neutralizá-la por meio de adição, substração ou substituição. Em outras palavras, tem corrompido as mentes dos homens.

a) A falsa doutrina logo propagou-se pela igreja primitiva depois da morte dos Apóstolos, ainda que muitos gostem de falar de uma suposta pureza inicial da Igreja. Em parte devido ao estranho ensino a respeito da Trindade e da pessoa de Cristo, em parte devido a uma absurda multiplicação de ritos e cerimônias, em parte devido à introdução do monasticismo e de um ascetismo de origem humana, a luz da Igreja logo foi enfraquecendo e sua utilidade foi perdida. Mesmo nos tempos de Agostinho, como nos diz o prefácio do Livro de Oração inglês: "O número de cerimônias cresceu de tal modo que o estado dos cristãos era pior do que o dos judeus nesse aspecto". Aqui estava a corrupção dos sentidos humanos.

b) Durante a Idade Média, a falsa doutrina havia se propagado de tal forma pela Igreja, que a Verdade de Cristo Jesus esteve a ponto de ser enterrada ou sufocada. Durante os três séculos anteriores à Reforma, é provável que somente uma minúscula parte dos cristãos teria conseguido responder à pergunta: "O que devo fazer para ser salvo?". Os papas e cardeais, os abades e priores, os arcebispos e bispos, os sacerdotes e diáconos, os monges e as freiras, salvo raríssimas exceções, estavam profundamente imersos na ignorância e na superstição. Estavam submersos num sono profundo, do qual foram parcialmente despertos pelo terremoto da Reforma. Neles estava a "corrupção dos sentidos humanos".

c) Desde os dias da Reforma a falsa doutrina tem voltado a surgir continuamente, uma e outra vez, estorvando a obra começada pelos reformadores. O modernismo em algumas regiões da Europa, o unitarismo em outras, o formalismo e a indiferença em outras, têm feito do protestantismo algo simplesmente estéril.

d) A falsa doutrina, mesmo na atualidade e diante de nossos próprios olhos, está devorando o coração da Igreja da Inglaterra e colocando em perigo sua existência. Uma escola eclesiástica não hesita em expressar seu desagrado diante dos princípios da Reforma e está buscando romanizar o sistema. Outra escola, com o mesmo ímpeto, fala com desdém da inspiração bíblica, graceja da própria ideia de uma religião sobrenatural e tenta tenazmente lançar fora os milagres como se fossem trastes inúteis. Outra escola proclama a liberdade de opinião religiosa em todas as suas variações e nos diz que todos os mestres merecem a nossa confiança sem importar quão heterodoxas e contraditórias sejam suas opiniões, desde que sejam inteligentes, fervorosos e sinceros. Para todas essas escolas é válida a mesma observação: são exemplo vivo da "corrupção da mente humana".

Diante de fatos como esses, faríamos bem em tomar seriamente as palavras do Apóstolo no texto que encabeça o presente artigo. Como ele, temos motivos de sobra para recear. Creio que os cristãos ingleses jamais precisaram estar tão em guarda quanto hoje. Jamais foi tão necessário que os ministros fiéis clamem em alta voz e não se calem. "Se a trombeta não emitir um som claro, quem se preparará para a batalha?" (1Co 14.8).

Peço a cada membro leal da Igreja da Inglaterra que abra seus olhos diante do perigo ao qual sua Igreja está exposta e tenha cuidado para que ela não seja danificada por causa da apatia e de um desejo insano de paz. A controvérsia é algo odioso; mas há tempos em que a mesma torna-se um dever imperioso. A Paz é algo excelente; mas, assim como o ouro, pode custar muito caro. A Unidade é uma grande bênção; mas não vale nada se é conquistada em troca da Verdade. Repito mais uma vez: abra seus olhos e mantenha-se em guarda.

A nação que se dá por satisfeita com sua prosperidade comercial e descuida suas defesas nacionais porque são complicadas ou caras, provavelmente se transformará em presa do primeiro Alarico, Átila ou Napoleão que decida atacá-la. A Igreja que seja "rica e próspera" pode pensar que "de nada tem necessidade" devido a sua antiguidade, sua ordem e suas qualidades. Pode clamar "paz, paz" e se convencer de que não verá mal nenhum. Mas, se não   conservar a sã doutrina entre seus ministros e membros, não deverá surpreender-se de que lhe retirem seu candelabro.

Desaprovo desde o fundo do meu coração a covardia ou o pessimismo diante desta crise. A única coisa que digo é: Exercitemos um temor piedoso. Não vejo a menor necessidade de abandonar um barco velho e dá-lo por perdido. Por ruins que pareçam as coisas dentro de nossa arca, certamente não são piores do que o dilúvio lá fora. Mas protesto, sim, contra esse espírito despreocupado de sonolência que parece selar os olhos de muitos clérigos e cegá-los diante do enorme perigo em que se encontram devido ao progresso das falsas doutrinas em nosso tempo. Protesto contra a ideia generalizada que tão frequentemente proclamam os homens de altos cargos de que a Unidade é mais importante do que a sã doutrina e que a Paz é mais valiosa do que a Verdade. E convoco todo leitor deste artigo que ame verdadeiramente a Igreja da Inglaterra e que reconheça os perigos desta época e leve a cabo seu dever de resistir energicamente a tais clérigos por meio da ação conjunta e da oração. Não é sem motivo que o Senhor diz: "Se [alguém] não tem espada, venda a sua capa e compre uma" (cf. Lc 22.36). Não esqueçamos as palavras de Paulo: "Estejam vigilantes, mantenham-se firmes na fé, sejam homens de coragem, sejam fortes" (1Co 16.13). Nossos nobres reformadores compraram a Verdade pagando com seu próprio sangue e a entregaram a nós. Não a venderemos por um prato de lentilhas em nome da Unidade e da Paz.

II. Em segundo lugar, o texto nos revela um exemplo que faremos bem em lembrar: "A serpente enganou Eva com astúcia".

Quase não é necessário lembrar aos leitores que Paulo, aqui, faz referência à história da Queda no capítulo 3 de Gênesis como um fato histórico. Não há aqui a menor indicação que propicie à crítica moderna a ideia de que o livro de Gênesis não passa de uma agradável coleção de mitos e fábulas. Não dá a entender que não existe um ser como o diabo, que não houve um fruto proibido e que não foi desse modo, literalmente, que o pecado entrou no mundo. Ao contrário, menciona a história de Gênesis 3 como um fato histórico que ocorreu realmente.

Devemos recordar, igualmente, que este não é um caso isolado. É fato que as várias histórias de milagres extraordinários do Pentateuco são mencionadas no Novo Testamento sempre como fatos históricos. Caim e Abel, a arca de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, Esaú vendendo sua primogenitura, a morte dos primogênitos no Egito, a passagem pelo Mar Vermelho, a serpente de bronze, a água que fluiu da rocha, a jumenta de Balaão que falou - os autores do Novo Testamento mencionam todas essas coisas como algo real, não como fábulas. Não esqueçamos disso jamais. Aqueles que gostam de desprezar os milagres do Antigo Testamento e tirar a autoridade do Pentateuco fariam bem em considerar se têm mais conhecimento do que nosso Senhor Jesus Cristo e do que os Apóstolos. Quanto a mim, falar de Gênesis como um conjunto de mitos e fábulas diante de uma passagem das Escrituras como essa que temos diante de nós, parece soar como irracional e blasfemo. Paulo estava enganado quando mencionou a história da tentação e da Queda? Se estava, era uma pessoa crédula e tola, e talvez tenha se enganado em muitas outras coisas. Se assim fosse, desapareceria sua autoridade como escritor! Podemos descartar semelhante conclusão monstruosa. Mas é bom lembrar que muita incredulidade começa com um desprezo irreverente em relação ao Antigo Testamento.

De qualquer modo, o que o Apóstolo deseja que percebamos na história de Eva e da serpente é que a "astúcia" do diabo a levou a pecar. Ele não disse a ela, simplesmente, que queria causar-lhe dano. Ao contrário, disse a ela que aquilo que estava proibido era bom para comer, agradável aos olhos e desejável para obter sabedoria (veja Gn 3.6). Não teve escrúpulos ao afirmar que ela poderia comer o fruto proibido sem temer a morte. Cegou os olhos de Eva para a pecaminosidade e a transgressão. A persuadiu para afastar-se do claro mandamento de Deus e crer que isso lhe daria benefícios e não ruína. "Com sua astúcia enganou Eva". Bem, é justamente essa "astúcia" que Paulo nos diz que devemos temer na falsa doutrina. Não devemos esperar que as doutrinas falsas se aproximem de nós com aparência de engano, mas sim travestidas de verdade. A moeda falsa jamais entraria em circulação se não fosse semelhante à autêntica. O lobo raramente conseguiria entrar no aprisco se não se disfarçasse de ovelha. O papismo e a incredulidade não causariam muitos estragos se se apresentassem ao mundo com seus verdadeiros nomes. Satanás é um general inteligente demais para dirigir uma campanha dessa forma. Utiliza palavras elegantes e frases de efeito como "catolicidade", "apostolicidade", "unidade", "ordem na Igreja", "ideias corretas a respeito da Igreja", "pensamento livre", "interpretação liberal das Escrituras" e outras semelhantes, e desse modo toma posse das mentes dos incautos. É essa, precisamente, a "astúcia" à qual Paulo se refere no presente texto. Não devemos duvidar que ele havia lido as palavras do Senhor no Sermão do Monte: "Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores" (Mt 7.15).

Peço sua atenção especial com respeito a este ponto. Tal é a característica simplória e ingênua de muitos ministros da nossa época que de fato esperam que as doutrinas falsas pareçam falsas e não entendem que a própria essência da falsidade é sua semelhança com a verdade de Deus. Um jovem clérigo, por exemplo, que desde a sua infância foi educado para ouvir somente o ensino evangélico, recebe um dia o convite para ouvir um sermão pregado por algum eminente mestre de opiniões semicatólicas ou liberais. Em sua ingenuidade, vai à igreja esperando ouvir somente heresias do princípio ao fim. Para seu assombro, escuta um sermão inteligente e eloquente que contém uma grande dose de verdade e tão-somente umas poucas gotas, homeopáticas, de erro. Então surge uma violenta reação em sua mente ingênua. Começa a pensar que seus professores eram gente de mente estreita, intolerantes e duros, e sua confiança neles fica danificada, talvez para sempre. Com frequência, acaba pervertendo-se completamente e finalmente passa a fazer parte dos romanistas ou dos liberais! E por qual motivo? Por um tolo esquecimento da lição do Apóstolo Paulo neste texto: a serpente enganou Eva "com astúcia". Assim Satanás engana as almas incautas do nosso tempo, aproximando-se delas sob o disfarce da Verdade.

Rogo a cada leitor deste artigo que lembre-se disso e mantenha-se alerta. Os falsos mestres têm multidões de seguidores fanatizados que, incansavelmente, os elogiam a todos os que encontram pela frente, dizendo coisas como: "Ele é tão bom, tão amável, tão humilde, tão esforçado, tão abnegado, tão caridoso, tão fervoroso, tão inteligente, tão sincero, que não pode haver perigo nenhum em ouvi-lo. Além disso prega um evangelho agradável e genuíno! Ninguém prega melhor do que ele! Não posso acreditar - e nunca acreditarei - que trata-se de um enganador". Quem não escuta constantemente esse tipo de discurso? Ora, os falsos mestres não se apresentam como tais, mas como "anjos de luz", e são inteligentes demais para dizer tudo o que pensam e planejam fazer. Jamais foi tão necessário lembrar que "a serpente enganou Eva com astúcia".

Deixo esta parte do assunto com a triste sensação de que vivemos em tempos em que sentir receio em relação à sã doutrina não somente é um dever, mas uma virtude. Não é ao fariseu ou ao saduceu declarados que devemos temer, mas sim o fermento dos fariseus e dos saduceus. É a "reputação de sabedoria" que reveste o erro que o torna tão perigoso para muitos (veja Cl 2.23). Parece tão bom, tão justo, tão zeloso, santo e reverente, tão devoto e tão amável que arrasta muitas pessoas bem-intencionadas como uma tsunami. Quem quiser estar a salvo deve cultivar um espírito de sentinela. Não deve se importar se zombam de si, por considerá-lo alguém que "vê heresias em qualquer lugar". Em tempos como estes, não deve se envergonhar de desconfiar do perigo. E se há alguém que zombe dele por isso, bem pode responder: "A serpente enganou Eva com astúcia".

III. A terceira e última lição deste texto nos mostra uma questão a respeito da qual devemos estar particularmente precavidos. Essa questão é denominada "a sincera e pura devoção a Cristo".

Essa expressão é extraordinária e única no Novo Testamento. Há algo claro aqui: a sincera e pura devoção significa aquilo que é puro em contraste com o que foi misturado. Desenvolvendo essa ideia, alguns têm sustentado que a expressão significa "afetos exclusivos para Cristo", isto é, não devemos dividir o nosso afeto entre Cristo e mais alguém. Sem dúvida, é boa teologia, mas não estou convencido de que esse seja o verdadeiro sentido do texto. Prefiro a opinião de que ele refere-se a uma simples doutrina cristológica, sem adulterá-la nem alterá-la, a simples "verdade como é em Jesus", sem acréscimos, substrações nem substituições. Afastar-se do simples e genuíno preceito do Evangelho, seja deixando de lado alguma parte ou acrescentando alguma outra coisa, era o que Paulo queria que os coríntios temessem. A expressão está cheia de significado e parece escrita especialmente para o nosso ensino nestes últimos tempos. Nosso zelo deve ser grande e devemos estar sempre em guarda, para que não nos afastemos do simples Evangelho que Cristo entregou de uma vez por todas aos santos.

A expressão que temos diante de nós é tremendamente instrutiva. O princípio nela contido é de inefável importância. Se amamos nossas almas e queremos mantê-las saudáveis, devemos nos esforçar para jamais nos afastarmos da singela doutrina de Cristo. Uma vez que algo seja acrescentado ou tirado dela, transforma-se o remédio divino em veneno mortal. Que o princípio a guiá-lo seja: "Nenhuma outra doutrina salvo a doutrina de Cristo, nada mais e nada menos!". Aferre-se firmemente a esse princípio e não o solte. Escreva-o em seu coração e não se esqueça dele jamais.

1) Tenhamos claro, por exemplo, que não há um caminho para a Paz exceto o caminho traçado por Cristo. A verdadeira tranquilidade de consciência e a paz interior da alma não procedem jamais de alguma outra coisa que não seja a fé inequívoca em Cristo e em Sua obra completa. A paz por meio da confissão, do ascetismo, da frequência contínua aos cultos ou da participação constante da Ceia do Senhor é uma paz enganosa. As almas somente alcançam descanso quando dirigem-se diretamente a Jesus Cristo, cansadas e sobrecarregadas, descansando n'Ele por meio da fé, da confiança e da comunhão. Nesta questão devemos nos manter firmes na "sincera e pura devoção a Cristo".

2) Tenhamos claro, igualmente, que não há outro sacerdote que possa mediar de alguma maneira entre Deus e nós, além de Jesus Cristo. Ele mesmo disse, e Suas palavras não passarão: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim" (Jo 14.6). Nenhum filho pecador de Adão, sem importar como tenha sido ordenado nem qual seja seu título eclesiástico, pode ocupar o lugar de Cristo ou fazer o que somente Cristo foi chamado para fazer. O sacerdócio é um cargo específico de Cristo e jamais Ele o delegou a outrem. Também nesta questão, devemos nos manter firmes na "sincera e pura devoção a Cristo".

3) Tenhamos claro também que não existe sacrifício pelo pecado exceto o sacrifício único de Cristo na cruz. Não ouça nem por um momento aqueles que dizem que há algum tipo de sacrifício na Ceia do Senhor, alguma repetição da oferta de Cristo na cruz ou alguma oferta de Seu corpo e de Seu sangue sob a forma do pão e do vinho consagrados. O sacrifício pelos pecados que Jesus Cristo ofereceu foi único, perfeito e completo e não passa de uma blasfêmia o querer repeti-lo, "porque, por meio de um único sacrifício, Ele aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados" (Hb 10.14). Nesta questão, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

4) Tenhamos claro que não existe outra regra de fé nem outro juiz nas controvérsias doutrinárias que aquele ao qual Cristo sempre mencionou: a Palavra escrita de Deus. Não deixemos que nenhum homem perturbe nossas almas com expressões vagas como "a voz da Igreja, a Antiguidade primitiva, o julgamento dos primeiros Pais" e esse tipo de discurso grandiloquente. Que o nosso único padrão da Verdade seja a Bíblia, a Palavra escrita de Deus. O que diz a Escritura? O que está escrito na Lei? Como você lê? À Lei e ao testemunho! Estudem cuidadosamente as Escrituras! (veja Rm 4.3; Lc 10.26; Is 8.20; Jo 5.39). Nesta questão, devemos nos manter firmes na "sincera e pura devoção a Cristo".

5) Tenhamos claro que não há outros meios de graça na Igreja que tenham autoridade além dos meios conhecidos que Cristo e os Apóstolos nos deixaram. Consideremos com o maior zelo as cerimônias e rituais de origem humano quando se lhes outorga tão exagerada importância a ponto de as coisas de Deus ficarem relegadas a um segundo plano. As ideias humanas tendem invariavelmente a suplantar os decretos de Deus. Vigiemos para que a Palavra de Deus não seja substituída por vãs invenções humanas. Nesta questão, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

6) Tenhamos claro que não pode ser verdadeiro nenhum ensino a respeito dos sacramentos que atribua aos mesmos um poder que Cristo não menciona. Tenhamos cuidado para não admitir que o batismo e a Ceia do Senhor possam conferir graça ex opere operato, isto é, por meio da mera ministração externa, independentemente do estado do coração daqueles que os recebem. Precisamos lembrar que a única prova de que as pessoas batizadas e os comungantes têm a graça de Deus é a demonstração dessa graça em suas vidas. O fruto do Espírito é a única prova de que nascemos do Espírito e estamos unidos a Cristo, e não a mera recepção dos sacramentos. Nesta questão, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

7) Tenhamos claro também que nenhum ensino a respeito do Espírito Santo é correto a menos que concorde com o ensino de Jesus Cristo. Não devemos ouvir aqueles que asseveram que o Espírito Santo habita realmente em todas as pessoas batizadas, sem exceção, em virtude unicamente de seu batismo, e que a única coisa que deve ser feita é "fomentar" a graça nessas pessoas. O ensino simples e direto de nosso Senhor é que o Espírito Santo habita unicamente naqueles que são Seus discípulos fiéis e que o mundo não conhece, não vê, nem pode receber o Espírito Santo (cf. Jo 14.17). Sua presença interior é um privilégio dos cristãos, e somente deles. Nesta questão, devemos manter firmes a nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

8) Por último, tenhamos claro que nenhuma doutrina pode ser sã se não apresentar a Verdade de forma equilibrada, como fizeram Cristo e os Apóstolos. Evitemos qualquer ensino que enfatize exageradamente a exaltação à Igreja, ao ministério ou aos sacramentos, enquanto grandes verdades como o arrependimento, a fé, a conversão e a santificação são colocadas em lugares inferiores e subordinadas a ritualismos estéreis. Compare tal doutrina com aquela dos Evangelhos, de Atos dos Apóstolos e das Epístolas. Analise os textos, faça seus cálculos. Perceba quão pouco é dito no Novo Testamento a respeito da Igreja, do batismo, da Ceia do Senhor e do ministério, e então julgue você mesmo quais são as proporções na Verdade. Também nesta questão, repito mais uma vez, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

A simples e pura doutrina de Cristo é, pois - sem acréscimos, subtrações ou substituições - a meta à qual devemos almejar. Esse é o ponto do qual devemos evitar qualquer desvio. Podemos melhorar a doutrina de Cristo? Somos mais sábios do que Ele? Podemos crer que Ele deixou de lado alguma coisa importante e que a mesma foi trazida à tona pelas tradições humanas? Arrogamos a nós mesmos o direito de mudar ou corrigir algum decreto de Cristo? Temos consciência de que não devemos declarar como necessária para a salvação coisa alguma que Cristo não tenha ensinado? Precisamos nos precaver de tudo o que possa nos desviar de nossa "sincera e pura devoção a Cristo".

A pura verdade é que nunca será excessivo exaltar o Senhor Jesus Cristo como o Cabeça da Igreja e Soberano sobre todas as coisas, Senhor dos decretos e Salvador dos pecadores. Creio que todos falhamos aqui. Não compreendemos que Rei tão excelso, grande e glorioso é o Filho de Deus e quanta lealdade - lealdade absoluta - devemos a Aquele que não delegou nenhum de Seus ofícios nem deu Sua glória a nenhum outro. Vale a pena lembrar as solenes palavras que John Owen dirigiu à Casa dos Comuns num sermão sobre a grandeza de Cristo. Receio que a Casa dos Comuns ouça poucos sermões como esse na atualidade:

"Cristo é o caminho: os homens sem Cristo são como Caim, errantes pelo mundo. Cristo é a Verdade: sem Ele, os homens são enganadores tal como o diabo, desde a antiguidade. Cristo é a vida: sem Ele, os homens estão mortos em delitos e pecados. Cristo é a luz: sem Ele, os homens estão em trevas e não sabem para onde vão. Cristo é a videira: os homens que não estão em Cristo são ramos cortados e preparados para o fogo. Cristo é a rocha: os homens que não estão construídos sobre Ele serão arrastados pelas torrentes. Cristo é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o Autor e o Consumador, Aquele que começa e Aquele que conclui a nossa salvação. Quem não tem a Cristo, não possui o princípio do bem, e sua infelicidade não terá fim. Oh, bendito Jesus, seria melhor não existir do que existir sem Ti! Melhor não nascer do que morrer sem Ti! Mil infernos não são piores do que a eternidade sem Ti!"

E agora concluirei este artigo oferecendo alguns conselhos a meus leitores. Não os ofereço como alguém que tem um pouco de autoridade, mas como alguém que deseja afetuosamente fazer o bem a meus irmãos. Os ofereço como conselhos que considero úteis para a minha própria alma e que, por isso, aventuro-me a pensar que podem ser úteis para todos.

1) Em primeiro lugar, se desejamos evitar cair na falsa doutrina, precisamos equipar nossas mentes com um profundo conhecimento da Palavra de Deus. Devemos ler nossas Bíblias do princípio ao fim diariamente e com diligência, esforçando-nos para nos familiarizar com seu conteúdo, em constante oração, pedindo ao Espírito Santo que nos ensine. O desconhecimento da Bíblia é a raiz de todos os erros, e um conhecimento superficial da mesma explica muitas das tristes perversões e deserções da atualidade. Numa época de pressa e correria, de estradas de ferro e telégrafos, estou firmemente persuadido de que muitos cristãos não dedicam tempo suficiente à leitura diária das Escrituras. Estou certo de que há 200 anos atrás os ingleses conheciam melhor a Bíblia do que hoje. A consequência é que muitos são como crianças, levados daqui para lá por qualquer vento de doutrina, presas fáceis de qualquer mestre inteligente do engano. Rogo a meus leitores que lembrem este conselho e atentem para o rumo de suas vidas. É certíssimo que somente o bom estudante do texto bíblico será um bom teólogo e que a familiaridade com os textos essenciais da Bíblia é, como nosso Senhor demonstrou na tentação, a melhor das salvaguardas contra o erro. Procure equipar-se, portanto, com a espada do Espírito e treine suas mãos para utilizá-la. Sou muito consciente de que não existe um caminho fácil para o conhecimento da Bíblia. Sem diligência e esforço ninguém chega a ser "poderoso nas Escrituras". "A justificação" - disse Charles Simeon - "é pela fé, mas o conhecimento da Bíblia vem pelas obras". Mas de uma coisa estou certo: não há trabalho que seja melhor recompensado do que um estudo diário e esforçado da Palavra de Deus.

2) Em segundo lugar, se desejamos manter um caminho reto como ministros do Evangelho nos tempos em que vivemos, conheçamos profundamente os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra. Esses artigos são a confissão autorizada de nossa igreja, e a verdadeira prova que todo aspirante a clérigo deveria submeter-se. Como a Confissão de Fé de Westminster, nossos Trinta e Nove Artigos são uma barreira eficiente contra a tendência atual de voltar ao catolicismo romano.

3) O terceiro e último conselho que desejo oferecer é o seguinte: precisamos nos familiarizar profundamente com a História da Reforma. Nossa história tem sido injustamente esquecida e milhares de ministros do Evangelho têm, hoje, uma noção muito pobre de tudo quanto devemos aos reformadores. Muitos pagaram com o martírio para que hoje possamos ser uma igreja livre. É preciso ter um conceito claro sobre a situação de trevas e superstição na qual viviam nossos antepassados e sobre a luz e a liberdade que foram introduzidas pela Reforma. Devido ao desconhecimento da História, sofremos hoje com movimentos favoráveis ao catolicismo romano e ideias ingênuas e pueris sobre a verdadeira natureza do papado. É hora de mudar as coisas. A origem de grande parte da apatia atual com respeito à romanização da Igreja pode ser encontrada na mais crassa ignorância tanto sobre a verdadeira natureza do papismo quanto sobre a História da Reforma Protestante.

A ignorância, depois de tudo, é uma das melhores amigas das falsas doutrinas. O que qualquer época precisa é de mais luz. Multidões são extraviadas pelo papismo ou caem na incredulidade por pura falta de leitura e informação. Repito uma vez mais: se os homens estudassem com atenção a Bíblia, as confissões de fé e a História da Reforma, não temeriam que suas mentes fossem corrompidas e se desviassem da sincera e pura devoção a Cristo. 

- John Charles Ryle (1816-1900), "um homem de granito, com o coração de uma criança", foi o primeiro bispo de Liverpool, escritor prolífico e defensor do caráter protestante da Igreja da Inglaterra. Mais de 100 anos depois de sua morte, seus escritos ainda falam poderosamente aos cristãos da atualidade.

Fonte: RYLE, J. C. Advertencias a las Iglesias. Moral de Calatrava (Ciudad Real): Peregrino, 2003, pp. 114-131.
Traduzido do espanhol por Fábio Vaz.
Fonte: [ Calvinismo Hoje ]
Baixe este artigo em PDF, clicando aqui!

Veja mais artigos do Bispo J.C. Ryle  clicando no banner abaixo:

.

Que é a Igreja?


Por J. C. Ryle

“Grande é este mistério: digo-o, porém,
a respeito de Cristo e da Igreja” (Efésios 5:32)

Não há assunto algum, em matéria de religião, que seja tão mal entendido como este: A Igreja.

Provavelmente, nada há que tenha feito tanto mal aos cristãos professos, como o mal entendido a respeito deste ponto.

Não há palavra que tenha sido usada com tanta variedade de sentidos, como a palavra "Igreja". É palavra que ouvimos constantemente, e não podemos deixar de observar que as pessoas a empregam em sentidos diferentes. O inglês bem educado, quando fala de 'Igreja", que quer ele dizer? Geralmente se refere à igreja episcopal estabelecida em seu país. O católico romano, quando fala em "Igreja", que quer ele significar? Quer dizer igreja romana, acrescentando que não há igreja verdadeira no mundo, além dela, e tantos outros que querem eles dizer? Uns querem dizer o edifício em que prestam culto a Deus , aos domingos; outros referem-se ao clero, pois quando alguém é ordenado costuma-se dizer que "entrou para a Igreja"; outros têm vagas idéias a respeito do que costuma chamar de sucessão apostólica, dando a entender com isto, misteriosamente, que a igreja é composta de cristãos governados unicamente por bispos.

Não há o que dizer contra tudo isso. São fatos presentes e notórios, e todos eles concorrem para explicar a asserção que fizemos no início destas considerações: não há assunto tão mal entendido como o que trata da "Igreja".

Leitor, creio que, presentemente, é da maior importância ter idéias claras a respeito da "Igreja". Creio que a falta da correta compreensão deste assunto é uma das grandes causas dos erros religiosos em que muitos caem. Desejo chamar a sua atenção para aquele grande e principal sentido em que a palavra "Igreja" é empregada no Novo Testamento.

Quero dissipar a névoa em que este assunto está envolvido. Com verdade falou o bispo Jewell, o reformador, quando disse: "Os inimigos da verdade ensinam muita doutrina falsa debaixo do nome da Santa Igreja, porque nunca houve nada até hoje tão absurdo ou tão perverso, que não fosse fácil defender sob o nome da Igreja".

Deixe-me então mostrar-lhe, em primeiro lugar, qual é a verdadeira Igreja fora da qual ninguém pode salvar-se.

Há, realmente, uma igreja fora da qual não há salvação, uma igreja a que o homem deve pertencer se não quiser perder-se por toda a eternidade. Exponho-lhe isto sem hesitação ou reserva. Digo-o com tanta confiança e certeza, como o mais forte defensor da igreja romana o pode fazer. Mas, qual é esta Igreja? Onde está ela? Por que sinais esta igreja deve ser conhecida? Eis uma grande questão!

A verdadeira Igreja está bem descrita no serviço de comunhão da Igreja da Inglaterra, "como o corpo místico de Cristo, que é a companhia bendita de todo o povo fiel". É composta de todos os crentes em Jesus Cristo. É formada por todos os eleitos de Deus, por todos os homens e mulheres convertidos - por todos os verdadeiros cristãos nos quais podemos distinguir a eleição de Deus, o Pai, a purificação pelo sangue de Deus, o Filho, e a santificação de Deus, o Espírito. Em tais pessoas podemos ver os membros da verdadeira Igreja de Cristo.

É uma Igreja em que todos os membros têm os mesmos sinais. São todos renascidos do Espírito Santo. Todos devem ter "arrependimento para com Deus , fé em nosso Senhor Jesus Cristo e santidade de vida e de conversação". Todos odeiam o pecado e amam a Cristo. Adoram a Deus... todos com o coração igualmente sincero. São todos guiados pelo mesmo Espírito; todos edificam sobre o mesmo alicerce; todos tiram a sua religião do mesmo único livro; todos se reúnem no mesmo centro - que é Cristo! Todos podem, mesmo já, dizer: Aleluia! E podem responder com um coração igualmente crente e uma voz unânime: "Amém, amém".

É uma Igreja que não depende dos ministros cá da terra, ainda que aprecie muito aqueles que pregam o evangelho. A vida espiritual de seus membros não depende do fato de se filiarem a uma igreja, nem depende do Batismo e Ceia do Senhor, não obstante darem grande valor a estes Sacramentos cada vez que são celebrados.

Mas esta Igreja tem um Cabeça principal, um Pastor, um Bispo, que é Jesus Cristo. Só Ele, pelo seu Espírito, admite os membros desta Igreja, ainda que são os ministros que mostram a porta. Enquanto Ele não abrir a porta, ninguém aqui no mundo pode abri-la; nem bispos, nem presbíteros, nem reuniões, nem sínodos e nem concílios. Quando o homem se arrepende e crê no Evangelho, nesse mesmo momento torna-se membro desta Igreja. Como o ladrão arrependido, pode não ter ocasião de ser batizado, mas tem aquilo que é muito melhor do que o batismo da água: o batismo do Espírito Santo. Talvez não possa receber o pão e o vinho na Ceia do Senhor, mas pode, por meio da fé, alimentar-se de Cristo todos os dias de sua vida, e nenhum ministro, na terra, pode privá-lo disto. Ele pode, por injustiça, ser excluído por aqueles que são ordenados, e privado dos privilégios da Igreja. Porém, nem todos os sacerdotes do mundo inteiro podem exclui-lo da verdadeira Igreja. A existência desta Igreja não depende de formas nem de cerimônias, de catedrais ou templos, de púlpitos ou pias batismais, de vestimentas ou órgãos, de dotes, dinheiro, reis, governos, magistrados, de ato ou favor, qualquer que seja, da mão do homem. Ela sempre permaneceu, quando tudo isto lhe foi tirado. Foi muitas vezes lançada no deserto ou em covas e cavernas da terra, por aqueles que deveriam ser seus amigos. Mas a sua existência não depende de coisa alguma, além da presença de Cristo e de seu Espírito e, enquanto estes nela permanecerem, a Igreja não pode deixar de existir.

Esta é a Igreja a que especialmente pertencem, por direito, as honras e privilégios presentes e as promessas da glória futura. Este é o Corpo de Cristo, a Esposa do Cordeiro, o Rebanho de Cristo, os domésticos da fé e a família de Deus. Esta que é o edifício de Deus, a fundação de Deus e o Templo do Espírito Santo. Esta é a Igreja dos primogênitos cujos nomes estão escritos no céu. Ela é a "a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido"; é a luz o mundo, o sal e o pão da terra. Esta é a Santa Igreja Católica (universal) de que fala o Credo dos Apóstolos. Esta é única Igreja católica e apostólica do Credo de Nicéia.

Foi a esta igreja que Cristo fez a promessa de que as "portas do inferno" não prevaleceriam contra ela. Foi a ela também que Ele disse: "Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos". Esta é a única Igreja que possui a verdadeira união. Seus membros estão perfeitamente de acordo com os pontos mais importantes da religião, porque são todos ensinados pelo mesmo Espírito a respeito de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, do pecado e de seus corações. O mesmo Espírito os ensina a respeito da fé, do arrependimento, da necessidade de santificação, do valor da Bíblia, da importância da oração, da ressurreição e do julgamento futuro. Eles compreendem todos estes pontos do mesmo modo. Convidai três ou quatro deles, dos países mais remotos da terra, completamente estranhos uns aos outros, e examinai-os separadamente sobre estes pontos, e achá-los-eis todos de perfeito acordo.

Esta é a única Igreja que possui verdadeira santidade. Seus membros são todos santos. Santos não meramente por terem professado a religião, ou santos no nome, ou no sentido de exercerem a caridade. Mas santos em ações e obras, em vida, realidade e verdade. São todos, mais ou menos, semelhantes ao grade Chefe.

Esta é a única Igreja verdadeiramente católica. Não a Igreja de uma certa nação ou povo. Seus membros encontram-se por toda a parte, no mundo onde o Evangelho é recebido e crido. Não se encerra dentro dos limites de qualquer país, em formas particulares ou em regras de governo.

Nesta Igreja não há diferença entre judeu e grego, preto e branco, episcopal e presbiteriano, mas a fé em Jesus Cristo é que é tudo. Seus membros virão reunir-se do norte, do sul, do oriente e do ocidente, no último dia e serão de todas as nações, nomes e reinos, povos e línguas, mas todos serão um em Jesus Cristo.

Esta é a única Igreja verdadeiramente apostólica, pois foi edificada sobre o fundamento dos apóstolos e guarda a doutrina que eles pregaram. Os dois grandes pontos que seus membros conservam sempre diante dos olhos, são a fé apostólica e a prática apostólica. E a todo homem que fala em seguir os apóstolos, sem possuir estas duas coisas, consideram eles como o metal que soa ou o sino que tine.

Esta e a única Igreja que, certamente, há de existir até o fim. Coisa alguma poderá arruiná-la ou destruí-la. Seus membros podem ser perseguidos, oprimidos, encarcerados, açoitados, degolados ou queimados, mas a verdadeira Igreja nunca se extinguirá. Sai de suas aflições, e vive como que através do fogo e da água. Quando esmagada numa terra, floresce noutra. Os faraós, os Herodes, os Neros, os Julianos, os Dioclecianos, Maria - a sanguinária, Carlos IX, em fim, todos trabalharam em vão para destruí-la. Mataram milhares, mas também eles desapareceram da face da terra. A verdadeira Igreja, no entanto, sobreviveu. Assistiu ao sepultamento de cada um deles. É, na verdade, uma bigorna que tem quebrado muitos martelos neste mundo. É uma sarça que arde e, contudo, não se consome.

Esta é a única Igreja da qual nenhum membro pode perecer. Os pecadores alistados no rol desta Igreja serão eternamente salvos e nunca serão lançados fora.

A eleição de Deus, o Pai; a contínua intercessão de Deus, o Filho; a diária renovação e santificação de Deus, o Espírito Santo, cercam e guardam os salvos como num jardim fechado. Nem um só osso do Corpo Místico de Cristo será quebrado. Nem um só cordeiro do rebanho de Cristo será arrancado de Suas mãos. Esta é a Igreja que continua a obra de Deus sobre a terra. Seus membros são um pequeno rebanho, pouco em número, comparativamente com o povo do mundo: um ou dois aqui; dois ou três ali; uns nesta paróquia; outros naquela além. Mas são estes que abalam o Universo. São estes que removem reinos com suas orações. São estes os membros ativos que espalham o conhecimento da religião pura e sem mácula. Eles que são a conservação do país - o escudo, a defesa, o esteio e a segurança da nação a que pertencem!

Esta é a Igreja que há de ser verdadeiramente gloriosa no último dia. Quando todas as glórias terrestres desaparecerem, então esta Igreja será apresentada sem mácula diante do trono de Deus, Pai. Tronos, principados, poderes da terra, tudo será desfeito. Dignidades, empregos e riquezas desaparecerão. Mas a Igreja do Primogênito brilhará no último dia como as estrelas, e será apresentada com júbilo diante do trono do Pai, no dia em que Cristo aparecer. Quando as jóias do Senhor forem reunidas e tiver lugar a manifestação dos filhos de Deus, não se falará nem em episcopais, nem presbiterianos. Uma única Igreja será nomeada: A Igreja dos Eleitos!

É para esta Igreja que o verdadeiro ministro do Evangelho de Jesus Cristo principalmente trabalha. De que serve ao verdadeiro ministro que se encha a casa onde ele prega? De que serve a ele ver crescer o número de comungantes ou aumentar a congregação? Tudo isto é nada! O que ele deseja é ver homens e mulheres renascidos, almas convertidas e sujeitas a Cristo! O que ele quer, é ver uns aqui, outros ali, retirando-se do mundo, tomando a sua cruz e seguindo a Cristo e, desta forma, aumentando o número de membros da verdadeira Igreja.

Leitor, esta é a Igreja a que o homem deve pertencer, se quer ser salvo. Enquanto você não pertencer a esta Igreja, não será mais do que uma alma perdida. Você poderá ter a aparência de religioso, isto é, poderá ser religioso na casca, na pele e, contudo, não ter obtido a substância da vida. Sim! Você poderá Ter inumeráveis privilégios, poderá gozar dos benefícios da luz e do conhecimento, poderá ter grandes oportunidades! Mas, se não pertencer de fato ao Corpo de Cristo, nada disto o salvará! Ai de nós, por causa da ignorância que existe sobre este ponto! O homem imagina que pertencendo a esta ou àquela igreja - e tornando-se comungante em qualquer delas, observando certas fórmulas -, tudo estará bem com relação a sua alma. Isto é uma total ilusão e grande erro! Nem todos os que tinham o nome de Israel eram israelitas; nem todos os que professam ser cristãos, são membros do Corpo de Cristo! Preste atenção: Você pode ser um firme episcopal, presbiteriano, independente, batista e, contudo, não pertencer à verdadeira Igreja. Se é assim, seria melhor que você nunca houvesse nascido!

Fonte: ARPAV - Associação Reformada Palavra da Verdade .
Via: [ Monergismo ] 
Via: [ Projeto Ryle ] 
.

A pobreza deve ser motivo de vergonha para o cristão?

.
Por Bispo J. C. Ryle

Observemos a circunstância em que Jesus nasceu. Não nasceu sob o teto da casa de sua mãe, e sim num lugar estranho e numa manjedoura. Quando Ele nasceu, não foi colocado em um berço cuidadosamente preparado. Maria O deitou na manjedoura, porque “não havia lugar para eles na hospedaria”. Aqui vemos a graça e a condescendência de Jesus. Se tivesse vindo salvar este mundo em majestade real, rodeado pelos anjos do seu Pai, isso já teria sido um ato incrível de misericórdia. Se tivesse decidido morar num palácio, com poder e autoridade, já teríamos razão suficiente para ficarmos maravilhados. Mas, fazer-se pobre como os mais pobres seres humanos, e simples como os mais simples, isso é amor que transcende a nossa compreensão. Que nunca esqueçamos de que, por meio da sua humilhação, Jesus adquiriu para nós um título de glória. Por meio da sua vida de sofrimento, bem como da sua morte, Ele conquistou para nós uma redenção eterna. Durante toda a sua vida, foi pobre por amor a nós, desde o momento do seu nascimento até à morte. E por sua pobreza somos feitos ricos (2 Co 8.9)

Estejamos alerta, não desprezando os pobres por causa da sua pobreza. Sua condição santificada pelo filho de Deus, que a honrou, ao assumi-la voluntariamente. Deus não faz acepções de pessoas. Ele olha para o coração e não para o bolso. Que nunca nos envergonhemos da nossa pobreza, se Deus a considera a coisa certa para nós. Ser ímpio e ganancioso é mau; mas não há mau nenhum em ser pobre. Uma casa simples, comida simples e cama dura não são agradáveis à carne e ao sangue. Mas são a porção que o Senhor Jesus voluntariamente aceitou desde o dia da sua entrada nesse mundo. A riqueza leva muito mais almas ao inferno do que a pobreza. Quando o amor ao dinheiro começar a manifestar-se em nós, pensemos na manjedoura de Belém e nAquele que nela foi posto. Tal pensamento poderá livrar-nos de muitos males!

- RYLE, John Charles. In: Meditações no Evangelho de Lucas Traduzido por Editora Fiel. São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 2011. Comentário de Lucas 2, versículo s de 1 a 7, pp. 31.
.

A Falibilidade dos Ministros (sermão inédito)



17º capitulo do livro "Nós desatados" de 1885, escrito por J. C. Ryle, 1º Bispo da Diocese da Igreja da Inglaterra em Liverpool (traduzido de um texto com ingles atualizado por Tony Cappocia):

"Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o face a face, por sua atitude condenável.  Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios. Quando, porém, eles chegaram, afastou-se e separou-se dos gentios, temendo os que eram da circuncisão.

Os demais judeus também se uniram a ele nessa hipocrisia, de modo que até Barnabé se deixou levar.  Quando vi que não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho,declarei a Pedro, diante de todos: “Você é judeu, mas vive como gentio e não como judeu.  Portanto, como pode obrigar gentios a viveram como judeus?

Nós, judeus de nascimento e não ‘gentios pecadores’ Sabemos que o ninguém é justificado pela prática da lei, Mas mediante a fé em Cristo Jesus. Assim nós também cremos em Cristo Jesus Para sermos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da lei, porque pela prática da lei, ninguém é justificado". Gálatas 2:11-16

Você já refletiu sobre o que o apóstolo Pedro fez em Atioquia? Essa pergunta merece uma séria reflexão.

Mesmo com pouquíssimas informações confiáveis, frequentemente ouvimos falar sobre as obras do apóstolo Pedro em Roma. Lendas, tradições e fábulas abundam nesse assunto. Infelizmente para esses escritores, a Bíblia é totalmente muda nesse ponto. Nas escrituras não há nada mostrando que o apóstolo Pedro esteve sequer em Roma!

O que fez o apóstolo Pedro em Antioquia? Para esse ponto, dirijo minha total atenção hoje. Esse é o assunto tratado em Gálatas e que encabeça este sermão, afinal de contas, nesse ponto, a Bíblia fala claramente e inequivocamente.

Os seis versos dessa passagem batem em várias questões. Se consideramos o evento descrito, eles estão discutindo, um apóstolo repreendendo o outro! Quando percebemos quem são esses dois homens, Paulo, o mais novo, repreendendo Pedro, o mais velho, eles estão discutindo! Entretanto, se observamos a ocasião, Pedro não cometeu nenhuma falha berrante ou um pecado flagrante à primeira vista. Ainda assim, o apóstolo Paulo diz, “enfrentei-o face a face, por sua atitude condenável”.  Ele faz ainda mais do que isso, ele reprova a notoriedade de Pedro pelo seu erro perante toda a Igreja de Antioquia.  Indo mais além, Paulo escreveu sobre o ocorrido e agora todos sabem desse incidente em duzentos idiomas diferentes pelo mundo.

Acredito que o Espírito Santo deseja que prestemos uma atenção particular a essa passagem bíblica. Se o cristianismo fosse uma invenção humana, essas questões nunca teriam sido divulgadas. Algum impostor teria encoberto as diferenças entre os dois apóstolos. Entretanto, o Espírito da verdade fez com que esses versos fossem escritos para o nosso aprendizado e seremos sábios se dermos atenção ao seu teor.

Devemos aprender com essa passagem, que nos evidencia três grandes lições sobre a Antioquia.
I. A primeira lição é que grandes ministros podem cometer grandes erros.

II. A segunda é que manter a verdade de Cristo na sua igreja é muito mais importante do que manter a paz.

III. A terceira é que não há doutrina alguma que devemos proteger tanto quanto a da justificação pela fé, sem obras da lei.


I. A primeira lição é que grandes ministros podem cometer grandes erros.

Qual prova mais evidente podemos ter do que essa posta diante de nós?  Pedro, sem dúvida alguma, foi um dos melhores na companhia dos Apóstolos. Ele era um discípulo ancião. Ele foi um discípulo com vantagens e privilégios peculiares e uma companhia constante do Senhor Jesus. Ele escutou às pregações do Senhor, viu-O operando milagres, aproveitou o benefício dos ensinamentos privados dEle, foi numerado entre os amigos íntimos do Senhor e entrou e saiu com Ele durante todo o tempo que Jesus ministrou na terra. Pedro foi o apóstolo para quem as chaves do reino dos céus foram dadas e por cujas mãos foram primeiramente usadas. Ele foi o primeiro a abrir a porta da fé para os judeus, ao pregar a eles no dia de Pentecostes; foi o primeiro que abriu as portas da fé para os gentios, ao ir à casa de Cornélio e recebê-lo na igreja; foi o primeiro a levantar-se no Concílio, em Atos 15, dizendo, “por que agora vocês estão querendo tentar a Deus, impondo sobre os discípulos um jugo que nem nós nem nossos antepassados conseguimos suportar?" Ainda assim, esse mesmo Pedro, esse mesmo apóstolo, claramente caiu num grande erro.

O apóstolo Paulo nos diz, “enfrentei-o face a face”. E continua, “por sua atitude condenável”. Ele disse, “temendo os que eram da circuncisão”. Ele falou sobre Pedro e seus companheiro, que “não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho”. Paulo fala sobre sua “hipocrisia” e afirma que por meio dela, até Barnabé, seu antigo companheiro na obra missionária, "se deixou levar”. Que fato surpreendente. Esse é Simão Pedro! Esse foi seu terceiro grande erro, que a Bíblia Sagrada achou que deveria ser relembrado! Primeiro, nós o vemos tentando conter nosso Senhor, com todas as suas forças, da grande obra na cruz, e censurou-O severamente. Depois, encontramo-lo negando a Cristo três vezes - e com juras. Agora, vemo-lo pondo em risco a grande verdade do Evangelho de Cristo. Certamente podemos dizer, “Senhor, que é o homem?”. Notemos que, de todos os apóstolos, não há nenhum - à exceção, claro, de Judas Iscariotes – que temos tantas provas de ser um homem falível.

É interessante perceber o descaso com o qual alguns escritores foram tratados, a fim de dar satisfação sobre o significado tão claro desses versos que encabeçam o sermão. Alguns afirmaram que Paulo não repreendeu verdadeiramente Pedro, apenas forjou, para aparecer! Outros afirmaram que não foi Pedro, o apóstolo, o repreendido, mas outro Pedro, um dos setenta! Interpretações como essas não precisam de comentário, visto que são completamente absurdas. A verdade é que o significado claro e honesto desses versos é um golpe certeiro na doutrina preferida da Igreja Católica Romana, que discorre sobre a primazia e a superioridade de Pedro sobre os demais apóstolos.

Tudo isso foi relatado para nos ensinar que até mesmo apóstolos, quando não escrevem sob a inspiração do Espírito Santo, estão sujeitos ao erro. Esses versos tem o intuito de nos ensinar que mesmo os melhores homens são fracos e falíveis enquanto estiverem em seus corpos. Se não fosse a graça de Deus sustentando-os, qualquer um deles poderia se deixar levar a qualquer momento. Isso pode ser humilhante, mas é a verdade. Verdadeiros cristãos são convertidos, justificados e santificados. Eles são membros vivos de Cristo, os amados filhos de Deus e herdeiros da vida eterna. Eles são eleitos, escolhidos, chamados e guardados para a salvação. Eles tem o Espírito, mas não são infalíveis.

Posição e dignidade não garentem infalibilidade? Não, não garentem! Não importa como um homem é chamado, ele pode ser czar, imperador, rei ou príncipe, pode ser pregador, ministro ou diácono. Ainda assim, ele é falível. Nem a coroa, nem o óleo sagrado, tampouco a imposição das mãos, podem precaver um homem de cometer erros.

Números não garantem infalibilidade?
Não, não garentem! Você pode reunir príncipes em grande número, assim como centenas de ministros, entretanto, mesmo estando reunidos, estão sujeitos ao erro. Você pode chamar de conselho, assembleia, conferência ou seja lá o que for. Não importa. Suas conclusões ainda serão conclusões de homens falíveis. A sabedoria coletiva é capaz de cometer erros gritantes.  

Para continuar lendo, clique aqui!

Fonte: [ Projeto Ryle ]
.

Você está Crescendo em Cristo?

.


Por J. C. Ryle (1816-1900)

a. Um dos sinais do "crescimento na graça" é a humildade crescente. O homem cuja alma está "crescendo" sente mais a própria indignidade e pecaminosidade, a cada ano que passa. Ele se dispõe a dizer, juntamente com Jó: "Sou indigno..!', ou com Abraão: "...sou pó e cinza", ou com Jacó: "...sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade, que tens usado para com teu servo", ou com Davi: "Mas eu sou verme, e não homem..!', ou com Isaías: "...sou homem de lábios impuros..!', ou com Pedro: "Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador" (Jó 40:4; Gn. 18:27; 32:10; SI. 22:6; Is. 6:5; Lc 5:8).

Quanto mais um crente aproxima-se de Deus, tanto mais ele percebe a santidade e as perfeições de Deus, tanto mais tornar-se-á sensível para com a sua própria indignidade e imperfeições. Quanto mais ele avança na sua jornada para o céu, tanto mais compreende o que Paulo quis dizer, quando afirmou: "Não que eu... tenha já obtido a perfeição" "...eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo..!' "A mim, o menor de todos os santos..!' "...Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores dos quais eu sou o principal" (Fp. 3:12; I Co. 15:9; Ef. 3:8; I Tm. 1:15).

Quanto mais maduro para a glória estiver um crente, à semelhança do milho maduro, tanto mais inclinará a cabeça para o chão. Quanto mais brilhante e clara for a sua luz, tanto mais perceberá suas falhas e fraquezas, aninhadas em seu próprio coração. Quando ele, a princípio, converteu-se, diria que percebia bem pouco dessas falhas e fraquezas, em confronto com o que percebe agora. Quer alguém saber se está crescendo na graça? Verifique, em seu próprio interior, se a sua humildade está aumentando.

b. Um outro sinal do "crescimento na graça" é a fé e o amor crescentes ao Senhor Jesus Cristo. O homem que está "crescendo", a cada ano que passa encontra mais razões para descansar em Cristo, regozijando-se cada vez mais no fato que tem um tão grande Salvador. Não há dúvida que o crente, ao converter-se, pôde ver muita coisa em Cristo. A sua fé agarrou-se na expiação que há em Cristo, e isso lhe infundiu esperança.

Porém, à medida em que ele vai crescendo na graça, também vai percebendo milhares de aspectos, na pessoa de Cristo, que a princípio nem ao menos sonhava. Seu amor e Seu poder, Seu coração e Suas intenções, Seus ofícios como nosso Substituto, Intercessor, Sacerdote, Advogado, Médico, Pastor e Amigo vão-se desdobrando diante da alma que cresce, de uma maneira indescritível. Em suma, tal crente descobre em Cristo tudo aquilo que a sua alma necessita, embora, no começo de sua vida cristã não conhecesse nem a metade de tudo isso. Quer alguém saber se está crescendo na graça? Examine o seu interior para verificar se o seu conhecimento de Cristo está aumentando.

c. Uma outra marca de crescimento na graça é uma amadurecida santidade de vida e conversação. O homem cuja alma está em crescimento adquire um maior domínio sobre o pecado, o mundo e o diabo.

Torna-se mais cuidadoso com o seu temperamento, palavras e ações. É sempre mais vigilante sobre a própria conduta, em cada aspecto da vida. Esse homem é o que mais se esforça por estar conformado à imagem de Cristo em todas as coisas; e segue-O tanto como seu exemplo pessoal quanto confia nEle como seu Salvador. Não se satisfaz com antigas conquistas e a graça já antes dispensada. Esquece as coisas que para trás ficaram e marcha para as que estão à frente, fazendo de "Alto!", "Superior!", "Avançado!" e "Progressivo!" o seu contínuo alvo (Fp. 3:13).

Na terra ele anseia e almeja ter uma vontade mais inteiramente uníssona com a vontade de Deus. O seu principal objetivo no céu, além de estar na presença de Cristo, é a completa separação de todo o pecado. É possível alguém saber se está crescendo na graça? Prossiga em sua busca por santidade.

d. Ainda outro sinal de "crescimento na graça" é a crescente espiritualidade nos gostos e na mente. O homem cuja alma está "crescendo" interessa-se mais profundamente pelas realidades espirituais a cada ano que passa. Não negligencia os seus deveres para com o mundo. Cumpre fiel, diligente e conscienciosamente cada relação da vida, em seu próprio lar ou com as pessoas de fora. Porém, o que ele mais aprecia são as realidades espirituais. Caminhos, modas, diversões e recreações do mundo ocupam um lugar cada vez menor em seu coração.

Ele não chega a condenar essas coisas como diretamente pecaminosas, e nem afirma que aqueles que se ocupam delas estão indo para o inferno. Tão-somente sente que elas exercem uma atração cada vez mais fraca sobre os seus afetos, e, gradualmente, elas parecem menores e mais frívolas aos seus olhos. Companheiros espirituais, ocupações espirituais, diálogos de natureza espiritual são as coisas que parecem ir adquirindo um valor sempre crescente para ele. Deseja alguém saber se está crescendo na graça? Examine o seu próprio coração para averiguar se os seus gostos estão se espiritualizando de maneira crescente.

Fonte: [ Josemar Bessa ]
Via: [ Tome a Sua Cruz e Siga-me ]

.