Uma resposta bíblica à negação de John Piper do direito cristão em portar armas

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John Piper postou uma resposta à convocação de Jerry Falwell Jr. para que os cristãos pudessem se armar, bem como ao seu fornecimento de armas a estudantes para que pudessem carregá-las no campus da Liberty University. A posição de Piper, como esboçada, está tão próxima quanto possível de um pacifismo individual que não se afirma como tal. Sua resposta infelizmente ignora grande parte do contexto das passagens do Novo Testamento citadas e ignora, inteiramente, o Antigo Testamento. Desse modo, considero sua visão não apenas não-bíblica, dela discordando vigorosamente, mas também penso que seria uma atitude nociva e insensível caso os cristãos a aceitassem na sociedade.

Já no começo, Piper apresenta uma reserva a fim de esclarecer que não é sua intenção fornecer um argumento abrangente contra a autodefesa em geral, no entanto, rapidamente ele sabota essa sua reserva, e em cada ponto subsequentemente apresentado, sua posição se torna progressivamente absoluta. Ele escreve: “Minha preocupação central neste artigo é com o apelo aos estudantes que os impulsiona a esta mentalidade: ‘Vamos obter armas e ensinar uma lição eles, caso venham aqui!’”. Piper deseja estreitar o argumento: “A questão não é, primordialmente, acerca de quando e se um cristão pode recorrer à força em defesa de si mesmo, ou na defesa de seus familiares ou amigos. Há ambiguidades significativas e circunstanciais na resposta para essa questão”.

Embora ele jamais se refira a essas “ambiguidades significativas e circunstanciais”, ele continua mencionando-as, ao mesmo tempo em que faz declarações amplas e generalizadas como esta: “A preocupação é com a formação, nos cristãos, de uma disposição em se valer da força letal, não como policiais ou soldados, mas como cristãos comuns em relação a adversários perniciosos”. É uma posição demasiadamente ampla, a qual implica que, a menos que sejam agentes do governo civil, os cristãos não devem usar força letal, de modo nenhum. Destarte, não obstante Piper afirme seu desejo de deixar de lado essa questão devido a suas ambiguidades, ele, logo em seguida, propõe uma política que a responde de modo negativo e definitivo. 

O dr. Piper continua nesse veio ao longo de todo seu artigo. E, creio eu, ele percebe sua própria inconsistência ali, pois, de forma imediata, apresenta a posição contrária como um espantalho: “De acordo com o Novo Testamento, é encorajada a atitude que a afirma: ‘Eu tenho, aqui no meu bolso, o poder de te matar, então não se meta comigo’? Minha resposta é: Não”.   

Colocado de maneira simples, ninguém defende isso. Essa não é a posição de líderes cristãos que estão habituados e informados acerca da visão bíblica de defesa. Nem mesmo os comentários de Falwell Jr., que beiram a intemperança, são representados adequadamente por uma posição tão extrema. Representar, desse modo, a posição a favor da autodefesa é irresponsabilidade da parte do dr. Piper.

Piper, então, apresenta em série nove considerações que, no seu entendimento, sustentam sua posição, sendo uma delas subdividida em sete partes. Não utilizarei aqui o tempo para me dirigir a todas elas de forma exaustiva, mas somente àquelas que acredito serem as mais essenciais à sua posição (Alguns dos meus argumentos bíblicos mais abrangentes podem ser encontrados aqui e aqui também).

O argumento principal de Piper é que Romanos 12:17-13:4 proíbe os indivíduos cristãos de levaram a vingança a cabo. O poder da espada, diz o texto, é claramente delegado apenas ao governo civil. E ainda que, numa República como a nossa [isto é, os Estados Unidos da América], o povo seja o governo, Paulo não tinha em mente “que os cidadãos cristãos deveriam todos carregarem armas para que o inimigo não tivesse nenhuma ideia brilhante”.

Conquanto seja verdade que Paulo (e Jesus, em Mateus 5:38-39) nos tenha instruído a não tomar parte em vinganças pessoais, e que o poder da espada pertence ao governo civil, isto não significa, contudo, que o povo de Deus está absolutamente proibido, em toda e qualquer circunstância, de defenderem a si mesmos ou suas propriedades, ou, especialmente, de defenderem as vidas dos entes queridos e de seus próximos.

É nesse ponto, pois, que reside mais nitidamente o problema de Piper em seu entendimento e uso das Escrituras. Ao abstrair passagens como essas não apenas de seu contexto histórico, mas praticamente de qualquer contexto, ele as absolutiza para ensinar que os cidadãos devem ser sempre passivos perante os ladrões, salteadores, estupradores e assassinos, e, por extensão, terroristas, invasores e governos tirânicos.      
Mas é desse modo que manejamos as Escrituras?

Não. Primeiramente, Piper não lida, em lugar algum, com passagens claras do Antigo Testamento que instruem, tanto em princípio quanto na prática, que o povo de Deus tem o direito mesmo da autodefesa letal. Os leitores devem estar familiarizados com Êxodo 22:2: “Se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue”.

O princípio é que, quando um ofensor ataca numa situação letal, ele pode legitimamente ser confrontado com força letal. O princípio da “não vos vingueis a vós mesmos” é aqui revogada pela exigência. Foi por essa razão que Jesus disse a Pedro no jardim do Getsêmani para guardar sua espada. Não foi, como Piper alega, porque somos peregrinos que não têm o direito de usar espadas. Antes, foi porque Jesus estava intimamente familiarizado com o princípio do Antigo Testamento: o momento que você se mostra publicamente como uma ofensa letal, você faz de si mesmo um alvo para a defesa pessoal mediante força letal. É exatamente por isso Jesus disse isto: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” (Mateus 26:52).

De semelhante modo, quando o rei Assuero permitiu aos judeus cativos o direito de se defenderem contra os agressores, essa permissão incluía o direito de “que se reunissem e se dispusessem para defender a sua vida, para destruir, matar e aniquilar de vez toda e qualquer força armada do povo da província que viessem contra eles, crianças e mulheres, e que se saqueassem os seus bens” (Ester 8:11).

Os judeus sabiam que as Escrituras já lhes permitiam o direito de autodefesa, mas sabiam que espoliar o agressor, nessa situação, ultrapassava os limites [da lei de Deus]. Então, quando chegou a hora, eles defenderam-se desimpedidamente: “Feriram, pois, os judeus a todos os seus inimigos, a golpes de espada, com matança e destruição” (Ester 9:5) – mas, repare: “porém no despojo não tocaram” (Ester 9:10).    

Essa lei e exemplo são claros e não foram revogados pelos ensinamentos do Novo Testamento. De fato, embora pietistas cristãos como Piper talvez sejam tentados a dizer que o princípio “Não vos vingueis a vós mesmos” é um princípio neotestamentário que ignora o Antigo Testamento, a verdade é precisamente o oposto. A fim de estabelecer esse princípio em Romanos 12:19-20, Paulo cita duas passagens veterotestamentárias: a primeira, “A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor”, é citada diretamente de Deuteronômio 32:35 (a lei do Antigo Testamento!). A afirmação subsequente sobre amar os nossos inimigos é retirada de Provérbios 25:21-22, versículo que, em si mesmo, é baseado na lei do Antigo Testamento (Êxodo 23:4-5).

Portanto, não basta argumentar que o princípio do “não vos vingueis a vós mesmos” é um aperfeiçoamento do Novo Testamento a partir do Antigo. O princípio é, em si mesmo, um princípio do Antigo Testamento.

Por meio disto, devemos perceber que é um princípio perfeitamente compatível com o restante da lei veterotestamentária que, a despeito de incluir o princípio contra a vingança pessoal, também permite a autodefesa e a força letal quando apropriado. Os dois princípios não estão em desacordo; eles estão em perfeito acordo quando aplicados em diferentes situações e contextos.

Dessa maneira, é nesse ponto que a visão de Piper sobre as Escrituras parece ser moldada e formada pelo pietismo e por uma negligência inaceitável do Antigo Testamento que, de igual modo, deixaria as famílias cristãs vulneráveis a agressores violentos. Isto reflete a espécie de heresia que leva em conta exclusivamente o Novo Testamento, criando uma aliança pietista-humanista – uma capitulação e negligência da parte de líderes cristãos que entregam as questões sociais aos caprichos de liberais desprezadores da Bíblia que estão bem ansiosos para aceitarem esse presente. Eu não me coadunarei com isso. Leia a base do Antigo Testamento para os princípios do Novo Testamento, e então aceite que essa base exige também o lastro do Antigo Testamento, exceto onde explicitamente substituído.

Mas Piper é admiravelmente consistente em sua posição exclusivamente neotestamentária de recusa à defesa, e é neste ponto que seu argumento se torna mais problemático. Ele argumenta que uma réplica à sua posição poderia ser resumida deste modo: “Posso atirar no homem que ataca minha esposa?”. Aquilo que deveria ser algo evidente, biblicamente falando, é considerado como “instinto” por Piper, que oferece sete pontos, a seu modo, a fim de responder “não” à pergunta. 

Fiquei chocado e consternado que Piper seja tão contrário ao uso de armas e à autodefesa de modo a esperar que os cristãos permaneçam assistindo suas esposas ou filhos serem atacados, estuprados ou assassinados perante seus olhos sem reagir em defesa. Não lhe é agradável aceitar que sua resposta é um “não”, chegando mesmo a dizer que não há uma resposta direta, mas, então, de novo e em seguida ele deixa claro: “Não há modo de lidar diretamente com a situação de usar a força letal para salvar a família e amigos, a não ser no que diz respeito à polícia e os militares”.

Isso é ridículo. Absolutamente ridículo. Por que o Deus do Antigo Testamento forneceria diretrizes claras para autodefesa nesses casos, mas subitamente revogá-las-ia, concedendo esse direito somente a um punhado de agentes do governo que não são capazes de chegar à cena do crime não menos do que numa média de dez minutos? Que amor é esse?

Pessoal, sejamos claros. A polícia, apesar do bem que fazem, não te protege de criminosos, estupradores e assassinos. A polícia, mais frequentemente aparece tarde e escreve relatórios sobre o que aconteceu. A melhor esperança da esposa naquele momento é uma arma na mão de seu marido. A arma seria o objeto que mais glorificaria a Cristo nessa situação.

Fiquei chocado e entristecido à medida que lia a defesa de Piper no tocante à sua posição. Vendo sua esposa ser estuprada, ele contemplaria dentro de si mesmo: “Nosso objetivo primordial na vida é demonstrar que Cristo é mais precioso do que a vida. De modo que, caso me depare com essa ameaça à minha vida ou de minha filha ou amigo, meu coração deveria se inclinar a fazer o bem de uma maneira que realizasse esse grande objetivo. Há centenas de variáveis em cada crise que podem afetar o modo como ela acontece”.

NÃO. Há somente uma variável nessa situação: o ângulo a partir do qual você atira na cabeça do estuprador.

Há somente um princípio em questão aqui, e é outro princípio do Antigo Testamento repetido nove vezes no Novo Testamento: amar a seu próximo como a ti mesmo. Como permitir que alguém seja estuprado ou assassinado à nossa frente, e não fazermos nada, pode ser uma demonstração do amor de Cristo? Não há variáveis nisso. O amor ao próximo nos leva a proteger a vida inocente e apontar nossas armas a criminosos que fizeram de si mesmos ameaças letais.

Ora, se Paulo disse que uma pessoa que não provê para sua família é pior do que um descrente e, portanto, negou a fé (1 Timóteo 5:8), o que, então, você pensa que Deus diria de um homem sentado, contemplando platitudes piedosas, enquanto sua família fosse espancada e trucidada aos seus olhos?

Piper continua aplicando seu princípio: “Vivo na área central de Minneapolis, e, pessoalmente, aconselharia um cristão a não possuir armas de forças para tais circunstâncias”.

Eu aconselharia os cristãos a ouvirem alguém que não fez do amor de Cristo uma abstração sem sentido. Arme-se, cristão. Ame teu próximo como a ti mesmo.

Por fim, Piper toca num tema que menciona várias vezes. Ele argumenta que somos peregrinos neste mundo e que Jesus nos alertou para que esperássemos uma “hostilidade truculenta”. Devemos, pois, lembrar que somos ovelhas entre lobos, e que a sorte que nos cabe não é atirar nos lobos, mas resignar-nos a seremos devorados.

Digamos que isso foi parcialmente verdade quando os discípulos estavam enfrentando uma perseguição governamental na qual a resistência armada teria sido não apenas fútil mas também encarada como sedição. Mas, conforme deixei claro aqui e aqui e em outro lugar, a imagem do “peregrino” no Novo Testamento foi um fenômeno temporário para aquela geração até que as autoridades perseguidoras da cultura judaica descrente fossem destruídas. O autor de Hebreus esclarece que os discípulos chegaram ao monte Sião pelo qual Abraão ansiava, e isto não era algo que deveriam esperar somente após sua morte.

Mesmo se fosse o caso de que ainda estivéssemos numa situação de “peregrinos”, isto, ainda assim, não invalidaria a consistência dos aspectos permanentes do mandamento do amor com a autodefesa. Os cristãos possuem o direito à autodefesa, a defesa de seu lar e de seus parentes e seus próximos.

Afirmar o contrário é negligenciar grande parte da Bíblia, e, com efeito, é isto que o artigo de Piper realmente faz: negligencia o contexto das citações e negligencia inteiramente o Antigo Testamento. Por essa razão, e por exigir que os cristãos permanecem inertes enquanto os criminosos atacam e assassinam pessoas, incluindo nossas famílias, e, na realidade, exigir até mesmo que se examine o próprio coração antes sequer de chamar a polícia para intervir (!) – devido a tudo isto, a posição de Piper é nociva à sociedade.

Ademais, tal posição é um indicativo daqueles que categoricamente rejeitam que o Antigo Testamento nos instrui da mesma forma que o Novo. É sintomática do cristianismo pietista (privatista), e daqueles tipos da “doutrina dos Dois Reinos” que afirmam que a Bíblia não tem nada a dizer sobre a esfera pública. É tempo de abandonar todas essas posições e adotar uma cosmovisão bíblica robusta que coloca o amor de Deus e o amor ao próximo em ação prática, nos modos ordenados e exemplificados pelas Escrituras – e isto inclui o direito de portar armas e o direto da autodefesa.

Conforme eu disse, não lidamos aqui com todos os comentários de Piper, mas nossos comentários tocam no âmago da razão pela qual sua posição não é bíblica. Afinal, ela é divorciada do contexto das Escrituras e nega aquilo que ela ensina no tocante a algo tão central e fundamental como o amor ao próximo. Suas visões são, pois, pietistas. Ele ignora as passagens nas quais a Bíblia trata dessas áreas da vida e subverte os princípios, transformando-os em questões unicamente de um amor abstrato em que o indivíduo contempla seu próprio coração no quarto de oração. Eu digo para deixarmos a Bíblia falar à totalidade da vida, como já faz, e então aplicá-la em tudo a que se refere. E estejamos bem armados e treinados nas armas ao fazê-lo. (E encontre um seminário ou faculdade teológica que também te permita agir assim).

***
Autor: Joel McDurmon
Fonte: America Vision
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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