Por que fazemos o que fazemos? Princípio Regulador do Culto

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Se procurarmos uma definição para o culto reformado e porque o denominamos assim, não se trata apenas de uma questão histórica, ou seja, só porque ela está relacionada com os eventos da reforma protestante desde o século XVI. Antes de tudo, nem todos os que são simpatizantes ou pertencem a movimentos históricos iniciados no século dezesseis não podem ser declarados como reformados apenas porque são membros de igrejas históricas. Ser reformado vai além disso. Significa submeter-se a um sistema de ideias, pensamentos e conceitos estritamente bíblicos, e isto, em qualquer área da vida.

Mas, é notório a todos (pelo menos deveria ser) que os reformadores se preocuparam com o zelo que deveriam ter na adoração a Deus, já que, este é o ponto essencial da vida e da nossa existência. Eis o primeiro preceito reformado! Esta preocupação só tem seu ápice quando os reformadores foram arduamente despertados e capacitados por iluminação do Espírito Santo a se fadigarem nos estudos das Escrituras e ensinarem o povo a compreensão de que tudo deveria ser para a glória de Deus, a luz somente da Sua Palavra especialmente quando isto envolvia o culto solene no dia do Senhor.

Portanto, há uma estrita relação entre estes dois temas e que os coloca como ponto de partida e o estandarte da cosmovisão e teologia reformada: A adoração bíblica e o conhecimento das Escrituras. Sendo assim, é pertinente responder a pergunta que muitos fazem sobre o culto reformado. Por que tamanho “rigor” na forma de adorar a Deus? Por que tantas exigências e zelo no culto solene? Muitos pensam e declaram que isto é uma questão de tradição histórica e por isso a forma de culto na perspectiva reformada (se entenderem reformado como tradicional) está ultrapassada, é anti social, cultural e intelectualmente parada no tempo.

Primeiro, não confundam ser reformado com ser tradicional. Mas, veja bem, não sustentamos o modo de culto reformado por uma questão de tradição histórica. Igrejas ou denominações que fazem assim, estão sujeitas ao desmoronamento como um ovo que facilmente se quebra. Muitas igrejas locais se esfacelaram algumas até mesmo da noite para o dia exatamente porque sua fórmula de culto era, ou, é baseada apenas na tradição. Portanto, a tradição por si só não é a melhor definição para justificar porque somos tão zelosos com o culto solene.

Outros ousam afirmar que nos tornamos legalistas e até mesmo idólatras na liturgia. Eu creio que por causa do analfabetismo espiritual de muitas pessoas que são membros de igreja devo esclarecê-los o que é ser legalista: é praticar ou seguir uma religiosidade sem o evangelho de Cristo. É apenas fundamentar seu fervor religioso em princípios éticos e morais da Bíblia desconsiderando o evangelho.

E, isto também se aplica aqueles que realmente usam a tradição para justificar um culto mais paramentado ritos saturados de simbolismos. Em certa medida, eu não poderia negar que as igrejas episcopais ou anglicanas tiveram um singelo avanço neste aspecto, mas, não se desligaram totalmente desses paramentos religiosos que os colocam em risco quanto a este problema. O episcopalismo protestante e muito menos o romanista pode ser comparado a forma como os reformados cultuam solenemente a Deus.

Sendo assim, qual a base para o culto reformado?

Simplesmente e essencialmente as Escrituras. Veja o que nos diz um de nossos documentos doutrinários legitimamente reformado:

A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.

Este que é o primeiro artigo do capítulo XXI da Confissão de Fé de Westminster ressalta dois pontos essenciais ao que estamos considerando em relação ao tema. Primeiro: O ser de Deus, os atributos e a majestade de Deus, a Sua revelação natural notória a todos os homens deste planeta em todo o percurso da história da humanidade. Segundo: A própria Escritura Sagrada que é a revelação especial, única da vontade de Deus principalmente quanto a necessidade, o modo, o lugar, quando, e por que devemos adorá-lo. A primeira, o homem é indesculpável diante de Deus de sua idolatria e incredulidade, enquanto que, a segunda, sem a revelação especial, que é a própria Sagrada Escritura, o homem não poderá prestar o verdadeiro culto a Deus.


Isto foi o que os reformadores chamaram de “Princípio Regulador do Culto”. Os crentes salvos em Jesus Cristo, todos eles seja da antiga como da nova aliança, só puderam e podem de fato prestar um verdadeiro culto a Deus por meio de Cristo Jesus como nos é muito bem estabelecido por Ele próprio à mulher samaritana. Jesus mesmo disse que a verdadeira adoração era em espírito e em verdade. A própria mulher samaritana reconheceu que o Messias era o restaurador deste culto verdadeiro. Mas, é o próprio Jesus quem se revela a ela dizendo: “Eu o sou, eu que falo contigo” (verso 26).  Sem a revelação não há culto a Deus. E a revelação especial nos é dada pela mediação do próprio Filho de Deus que nos conduz e nos dá acesso ao Pai. Se a revelação natural nos obriga a cultuar a Deus, a revelação especial quando atendida através de Cristo, nos torna habilitados graciosamente a adoração a Deus.

Portanto, os reformadores fizeram uma estrita e clara relação entre a revelação da Palavra de Deus a Sua Igreja com as normativas e princípios gerais para o culto público a Ele. Se a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática e ela mesma nos diz que a nossa existência tem como única razão glorificar a Deus, é a própria Escritura que nos instrui e nos ordena o que fazer, como fazer, quando e onde cultuar ao Senhor Deus. Repito mais uma vez que são normativas claras, objetivas e gerais ao povo de Deus. Considerando que o Princípio Regulador do Culto é a própria Palavra de Deus nos ordenando o culto devido a Ele, nós reformados fazemos o que fazemos por dois motivos simples: 1) A clara preocupação, zelo e amor ao ser de Deus, seus atributos e a exaltação de Sua glória. 2) fazer tudo quanto Ele mesmo em Sua Palavra tem nos ordenado pela mediação de Cristo.

Ainda, observe o que nos diz o Catecismo Maior de Westminster na pergunta e resposta 110:

Quais são as razões anexas ao segundo mandamento para lhe dar maior força?
As razões anexas para o segundo mandamento, para lhe dar maior força, contidas nestas palavras: “Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte e zeloso, que vinga a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e que usa de misericórdia até mil gerações com aqueles que me amam e que guardam os meus preceitos,” são, além da soberania de Deus sobre nós e o seu direito de propriedade em nós, o seu zelo fervoroso pelo seu culto e indignação vingadora contra todo o culto falso, considerando-o uma apostasia religiosa, tendo por inimigos os violadores desse mandamento e ameaçando puni-los até diversas gerações e tendo por amigos os que guardam os seus mandamentos, prometendo-lhes a misericórdia até muitas gerações.

A pergunta e resposta 110 do Catecismo Maior nos uma dimensão mais apurada sobre o sentido do Princípio Regulador do Culto. Deus exige de nós o culto que é devido a ele e da maneira dele porque Ele tem direitos sobre nós como suas criaturas. O salmo 150:6 nos declara que todo ser que respira louve ao SENHOR. De forma ainda mais notável Deus exige de seu próprio povo o modo como Ele quer ser adorado. Eles mesmo se apresenta em Êxodo 20:5 como o “EU SOU”. “O Deus zeloso que vinga a iniquidade dos pais e dos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e que usa de misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus preceitos (verso 6).”

Sendo assim, veja a importância destas duas grandes doutrinas bíblicas entrelaçadas uma a outra. O culto seja ele como for, se fora do padrão bíblico ou não, este sempre terá o seu caráter didático, autoritativo e religioso. Se fora das Escrituras, este culto exercerá autoridade e ensino para uma religiosidade frívola, pecaminosa, emburrecedora e idólatra. Mas, se no padrão bíblico como determinado por Deus em Sua Palavra, este culto produzirá vida no coração daqueles que buscam verdadeiramente a Cristo e gloriar-se na glória de Deus.

Eu não preciso dizer que povos, nações e países que experimentaram a obediência ao Princípio Regulador do Culto (que é a Bíblia) o que eles se tornaram. Como também o contrário, especialmente em nosso país também é um trágico exemplo de nossa idolatria e paganismo até mesmo entre os evangélicos. É impressionante verificar que os reformadores lutaram com todas as suas forças e investimentos para erradicar o analfabetismo bíblico do povo. Fizeram isto exatamente por um motivo apenas: A Igreja de Cristo deveria estar "saturada" das Escrituras para prestar o verdadeiro culto a Deus. Que Zelo!

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Autor: Rev. Rogério Bernini Junior
Fonte: Cante a Palavra
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