Aplicações práticas das Doutrinas dos Decretos e da Predestinação



Por Rev. Samuel Falcão


1. Estas doutrinas trazem conforto ao crente

É interessante notar que toda vez que Paulo escreveu sobre a predestinação ou eleição ele teve um fim prático em vista. Em Rm. 8:28-30 escreveu sobre este assunto para apresentar uma garantia aos cristãos. Terminou sua intrincada exposição deste assunto em Rm 9-11 com um hino de louvor a Deus e esperança para os homens. “Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos, ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus!” etc. Em Efésios 1, onde desenvolve este mesmo assunto, introdu-lo com uma palavra de louvor a Deus, “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele”, etc.

Jonathan Edwards disse o seguinte sobre o conforto que a doutrina da soberania de Deus traz:

“A doutrina da absoluta soberania e livre graça de Deus em mostrar misericórdia a quem Ele quer mostrá-la; e a de depender absolutamente o homem das operações do Espírito Santo, têm-me parecido como doutrinas suaves e gloriosas. Estas doutrinas têm sido para mim grande delícia. A soberania de Deus sem­pre me tem parecido ser grande parte de sua glória. Muitas vezes tem sido para mim um deleite aproximar-me dEle, adorá-lo, como Deus soberano, e dEle supli­car soberana misericórdia” [1]

Quando contemplamos este mundo, cheio de confusão, pe­cado e sofrimento, somos tentados a perder toda a fé e a nos tornarmos pessimistas e quase que nos tornamos presa de de­sespero. Quando, porém, nos lembramos que Deus está acima de tudo, que Ele é o Soberano dos soberanos, que Ele tem em suas mãos onipotentes as rédeas do governo do universo; quando nos lembramos que nada acontece sem que Ele permita, e que tudo quanto acontece está incluído em seus planos todos sábios, glorio­sos e misericordiosos, readquirimos nossa confiança e alegria, e louvamos o Senhor pelo seu poder e glória. O mal é uma triste realidade. Sabemos, contudo que ele não vai além do ponto permitido por Deus em seu decreto. Sabemos que Deus o controla e que no devido tempo o destruirá. Aquele que é capaz de fazer que, “a ira humana” o louve, e que pode conter o restante dela (Sl.76:10) fará que tudo, inclusive o mal, redunde em sua glória e na felicidade do seu povo.

2. Estas doutrinas resultam na glória de Deus e na humilhação do homem

Pelas doutrinas dos decretos e da predestinação de Deus aprendemos que tudo só depende dEle. Os eleitos não são salvos por serem melhores do que os não eleitos, mas unicamente por causa da graça divina. Não fora a graça de Deus, todos es­taríamos perdidos. O mais das vezes Deus escolhe as piores pessoas para fazer delas monumentos de sua graça, de sorte que no fim toda a glória seja sua. Quando nos lembramos de que tudo que somos e temos recebemos de Deus, vemos que ne­nhuma razão nos assiste para vangloria. (1Co.4:7).

Spurgeon, o grande pregador inglês, disse:

“Penso que, para uma pessoa piedosa, a eleição é a dou­trina que mais humilha, de quantos há no mundo — por afastar toda confiança na carne, ou todo apoio em qualquer coisa, exceto Jesus Cristo. Quantas vezes não nos revestimos de nossa justiça própria e nos enfeita mos com as falsas pérolas e jóias de nossas obras e em­preendimentos. Começamos a dizer, Agora, sim, se­rei salvo, porque tenho esta e aquela evidência. Em lugar disso, é uma fé simples, desnuda, que salva. So­mente essa fé nos une ao Cordeiro, independentemen­te de obras, embora seja a fé o que produz tais obras. Quantas vezes nos apoiamos em alguma obra, que não é a do nosso Amado, e confiamos em algum poder, que não é o que vem de cima. Se quisermos que tal poder nos seja tirado, consideremos a eleição. Detém-te, ó minha alma, e considera isto. Deus te amou antes que viesses a existir. Amou-te quando estavas morta em de­litos e pecados, e enviou seu Filho para morrer por ti. Comprou-te com o seu precioso sangue, antes que pu­desses balbuciar seu nome. Podes, pois, envaidecer-te com alguma coisa? 
Não sei de nada que mais nos humilhe do que esta doutrina da eleição. Algumas vezes, procurando enten­dê-la, tenho-me prostrado diante dela. Tenho aberto as asas e à maneira das águias, tenho alçado o vôo na direção do Sol. Meus olhos têm-se fixado nele, minhas asas não me têm falhado, por certo tempo. Mas, ao aproximar-me dele, e só pensando nisto — “Desde o princípio Deus vos escolheu para a salvação” — vi-me ofuscado pelo seu fulgor e cambaleante sob a força des­se poderoso pensamento. E dessa elevação estonteante abateu-se-me a alma, a dizer prostrada e aniquilada, Senhor, não sou nada, sou menos que nada. Por que escolheste a mim? A mim? 
Amigos, se vocês querem ficar humildes, estudem a eleição, pois ela os fará assim, sob a influência do Es­pírito de Deus. Quem se orgulha de sua eleição, esse não foi eleito. E quem se humilha por considerá-la, esse pode crer que foi eleito. Tem toda razão de crer que o foi, visto como um dos mais benditos efeitos da eleição é esse de fazer-nos humildes perante Deus”. [2]


3. Estas doutrinas trazem certeza ao crente

Os que creem na predestinação são os únicos que podem estar certos de sua salvação. Segundo esta doutrina, a salvação depende somente de Deus e, portanto, não pode falhar nunca. De acordo com a doutrina arminiana, a salvação depende, em última instância, da vontade da pessoa e, por isso, pode falhar a qualquer momento. O arminiano nunca estará certo de sua salvação enquanto não entrar no céu, após a morte, e mesmo aí, para ser coerente com sua doutrina, deve admitir a possi­bilidade de nova descaída da graça. Mas a doutrina da eleição inclui a confortadora doutrina da perseverança dos santos, ou me­lhor, na perseverança do Salvador. Ensina a Bíblia ser incerta a salvação do crente? Absolutamente não. João escreveu sua Pri­meira Epístola para que soubéssemos que temos a vida eterna (1Jo.5:13). Vida eterna não é coisa que temos hoje e perdemos amanhã. Neste caso seria vida transitória, jamais eterna. Jesus disse que aquele que crê em Deus tem a vida eterna e não entrará em condenação mas passou da morte para a vida (Jo.5:24). Se tem essa vida eterna, que provém do próprio Cristo, não mais pode morrer. O crente nasceu de novo, e é impossível que uma pessoa assim nascida volte a ficar “por nascer”, isto é, depois que se nasce é impossível retroceder ao estado de antes do nascimento, estado de inexistência. 

Paulo escreveu o cap. 8 de Romanos para dar aos seus leitores uma certeza de salva­rão. “Nenhuma condenação” é o princípio; “Se Deus é por nós” é o termo médio; “Quem nos separará?” é o termo final. Aos perdidos Cristo dirá, “Nunca vos conheci” (Mt.7:23; veja-se 25:12) e isto é uma prova de que em tempo algum pertenceram ao Senhor. Todas as passagens que parecem ensinar a possibili­dade de um crente perder-se, referem-se realmente ao falso crente. Como João disse, “Eles saíram de nosso meio, entretan­to não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo.2:19). O crente pode perder comunhão com o seu Senhor e a alegria de sua salvação, porém não a própria salvação. Confessando seu grande pecado, Davi não disse, “Restitui-me a tua salvação”, visto como não a perdera. Disse, porém, “Restitui-me a alegria da tua salvação” (Sl.51:12), porque essa alegria podemos per­der sempre que caímos em pecado.

4. Estas doutrinas fornecem maior confiança ao pregador

É mais provável que um pecador creia e se arrependa, se a fé e o arrependimento dependerem inteiramente do poder regenerador do Espírito Santo, do que se dependerem em parte da força de vontade desse pecador. E é mais provável ainda, se dependerem inteiramente desse poder. O crente sabe que, se sua fé e arrependimento fossem deixados, em parte ou de todo, à sua própria iniciativa, não chegaria a crer nem a se arrepender, visto ser tenazmente inclinado ao pecado, gostar dele e aborrecer a confissão humilde do mesmo e não querer lutar contra ele. 

“A luz do mesmo princípio, é mais provável que o mundo de pecadores chegue à fé e ao arrependimento, se isto depender inteiramente de Deus, e não de todo ou em parte da vontade letárgica, volúvel e hostil do homem. Se o êxito do Espírito Santo depende da as­sistência do pecador, Ele pode não ter êxito algum. Mas se o seu êxito depende inteiramente dEle mesmo é certo que terá êxito. É melhor confiar a Deus tão imenso bem, a salvação da grande massa do gênero humano, do que confiá-lo a este, seja de todo, seja em parte. Dizem as biografias de ministros e missionário bem sucedidos que quanto menos faziam depender seu êxito da vontade dos pecadores, tanto mais pregavam e tanto mais vitórias contavam em sua pregação.” [3]

Vamos concluir com palavras do grande teólogo Dr. Robert Dabney:

“A doutrina da predestinação é de todo edificante. Dá lugar a humildade, porque não deixa ao homem base para reclamar para si nenhum crédito quer da origem, quer do prosseguimento de sua salvação. Lança um fundamento de esperança tranqüila, pois mostra que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento”. Deve fazer que os corações transbordem de amor e gratidão, visto revelar o imerecido e eterno amor de Deus por pessoas indignas... Devemos aprender a en­sinar e a considerar esta doutrina, não de um ponto de vista exclusivo, mas inclusivo. É o pecado que impede ò favor de Deus, e leva à ruína. É o decreto de Deus que restaura, remedeia e salva a quantos se salvam. O que o mundo tem de pecado, de culpa ou miséria, de desespero, procede inteiramente da transgressão do homem e de Satanás. O que de redenção, de esperança, de conforto, de santidade e bem-aventurança vem mo­dificar esse panorama triste, provém do decreto de Deus. O decreto é a fonte de benevolência para com o universo; o pecado voluntário é a fonte dos sofrimen­tos. Deve ser malsinada a fonte da misericórdia por­que, embora ponha em circulação toda a felicidade que existe no universo, é limitada em sua correnteza?” [4]

Chegamos ao final desta tese. Ninguém tem maior cons­ciência da imperfeição dela do que seu próprio autor. Sabemos que ninguém no mundo é capaz de resolver os problemas que este assunto apresenta, contudo não precisamos ficar aturdidos em face destes e de outros problemas de teologia. Deus é infi­nito e nós somos finitos. Não podemos compreendê-LO, não po­demos explicar Seus mistérios. Basta-nos saber que Ele nos ama e proveu um plano de salvação para a humanidade, plano tão simples que até as crianças podem compreendê-lo. Sabemos que o nosso dever é confiar em Deus e amá-LO, amar ao próxi­mo e dele nos compadecer; servir a Deus e ajudar aos homens, proclamando a todos o grande amor de Deus e seu plano de salvação. E com relação aos mistérios que cercam até os mais simples fatos deste mundo, deixamo-los nas mãos de Deus e descansamos na certeza de que Ele conhece tudo. Sabemos que “às coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus; po­rém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt.29:29).

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Notas:
[1] Jonathan Edwards, apudDeterminism in the Theological System of Jonathan Edwards” (these) do Dr. John Newton Thomas, p. 98.
[2] Charles Spurgeon, Sermão sobre a Eleição, Sermons, Vol. II, pp. 83, 84.
[3] William G. Sheed, Op. Cit., Col. 1, pp. 461, 462.
[4] R. L. Dabney, Op. Cit., p. 246.

Fonte: FALCÃO, Samuel. Escolhidos com Cristo. 5º Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pgs.: 148-152
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Objeções às Doutrinas dos Decretos e da Predestinação de Deus 2/2

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por Rev. Samuel Falcão


2. A segunda objeção às doutrinas dos decretos e da pre­destinação de Deus é que elas equivalem a fatalismo.

No caso de Paulo e seus companheiros na viagem tormentosa a Roma já vimos que a predestinação não é fatalista. “O fatalismo sus­tenta que todas as coisas acontecem por via de uma força cega, estúpida, impessoal, amoral, que não se distingue de necessidade física e que nos arrasta indefesos pela sua força como um caudaloso rio arrasta um pedaço de madeira”. Predestinação é o decreto inteligente, sábio e soberano de um Deus bom e po­deroso, que tem como desígnio de tudo a revelação de sua gló­ria infinita e a bem-aventurança de seu povo. Segundo o fata­lismo, o homem é irresponsável, visto não ter vontade livre, age como autômato ou máquina. De acordo com a predestinação o homem é agente livre, responsável por seus atos, como vimos na secção precedente. 

“Nossos Padrões não ensinam que “o que tem de acon­tecer, acontece”, e sim que o que Deus decretou e propôs isso acontecerá. A primeira expressão atribui o curso dos acontecimentos a uma necessidade cega, mecânica; a outra o atribui ao propósito inteligente de um Deus pessoal. Uma é fatalidade, a outra é Pre-ordenação, Predestinação, Providência. A Bíblia não diz “o que tem de acontecer, acontece”. Diz: “
Aquilo que está determinado será feito” (Dn.11:36). Diz ainda: “Jurou o Senhor dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, as­sim se efetuará” (Is.14:24). Revela-nos a gloriosa ver­dade de que nossos corações humanos, impressioná­veis, não estão presos nas engrenagens férreas de um Destino amplo e impiedoso, nem no torvelinho louco da Sorte, mas nas mãos onipotentes de um Deus infi­nitamente bom e sábio”. [13] 

“Ninguém pode ser um fatalista coerente. Porque, para ser coerente, precisará raciocinar assim: “Se vou morrer hoje, não me adianta comer, porque de qualquer modo vou morrer. Nem preciso comer, se ainda vou viver muitos anos, porque de qualquer modo viverei. Portanto, não comerei”. Não é preciso dizer, se Deus predeterminou que alguém viverá, também predeterminou livrá-lo da loucura do suicídio por se recusar a comer”. [14] 

3. Uma terceira objeção contra a doutrina da predesti­nação é dizerem que ela anula todos os motivos de sermos dili­gentes.

Esta objeção ignora o fato de que Deus predestina tanto o fim como os meios, como já vimos. O fato de Deus haver ga­rantido que todos os companheiros de Paulo, na viagem tor­mentosa a Roma, seriam salvos, não lhes serviu de razão para não empregarem todos os meios para isso. Algumas pessoas, compreendendo mal o sentido da predestinação, dizem que não é necessário pregar o Evangelho ou orar pelos pecadores, por­que se estes foram predestinados, serão salvos de qualquer mo­do, e se não foram predestinados não adianta pregar nem orar por eles. Esta idéia a respeito da predestinação é tola, porque não sabemos quem são os eleitos, e a ordem de Cristo é pregar a toda criatura. Além disso, até os crentes são exortados a ser diligentes por confirmar sua vocação e eleição (2Pe.1:10). Não que possam modificar o que Deus já decidiu desde toda a eternidade, mas que, para seu próprio conforto, devem viver de tal modo que se convençam de que Deus realmente os cha­mou e elegeu. 

Os frutos práticos do Calvinismo, em toda parte e em todos os tempos, são a melhor resposta a essa objeção. Lede, por exemplo o segundo e o terceiro capítulos do excelente livro do Dr. Egbert Smith “The Creed of Presbyterians” (O Credo dos Presbiterianos) e vereis como é tão sem fundamento esta objeção. O Dr. Temple fez as seguintes observações sobre os que têm crido na predestinação: 

“Tem sido observado frequentemente que a crença na Predestinação não produz, nos que a alimentam com seriedade, o efeito que observadores destacados tendem a antecipar. Comumente supõem que essa dou­trina deve conduzir a torpor moral e espiritual; por­que, se tudo está fixado por decreto divino, que lugar fica para o esforço humano? Não se deve deixar que a Divina Vontade realize seu propósito, como é certo que realizará? Mas a história registra um resultado muito diferente. Sto. Agostinho e João Calvino não foram espectadores indiferentes do drama da ativi­dade divina. João Knox não se contentava em obser­var indolentemente o que a Providência podia fazer que acontecesse na Escócia. Ou, para mencionar um nome mais ilustre, S. Paulo, que teve muito a dizer sobre a passividade do barro nas mãos do Oleiro, não seria ele que aceitasse do seu mestre Gamaliel a dou­trina de que a sabedoria do homem, ante o que en­tende ser um ato de Deus, está em esperar para ver se a história prova essa pretensão. Combateu-a, não acreditando que procedesse de Deus, e “trabalhou mui­to mais do que todos” quando descobriu que estava errado. Saulo, o perseguidor, e Paulo, o missionário são um só na consciência viva de um dever imposto ao homem para que decida e passe a agir”. [15] 

4. Outra objeção é que a Predestinação faz que Deus não seja sincero em oferecer o Evangelho a toda criatura.

Se Ele decidiu escolher alguns para a salvação e deixar os demais em seus pecados, por que então mandou proclamar sua mensagem a todas as criaturas? Em primeiro lugar esta objeção, se vale alguma coisa, aplica-se de igual modo à doutrina arminiana sobre a presciência. Se Deus sabia de antemão que todos não iam aceitar sua mensagem, por que mandou anunciá-la a todos? Dirão os arminianos, “Precisamos pregar a todos porque não sabemos quem são os que Deus previu que aceitarão, e quem os que não aceitarão”. O mesmo podemos dizer da predestina­ção. Nosso é o dever de pregar a todos, porque não sabemos quais foram os que Deus elegeu, nem quais foram os que pre­viu que aceitarão a mensagem de acordo com o ponto de vista arminiano. Predestinar e prever pertencem a Deus, não a nós. 

Deus previu que o povo de Israel não creria na mensagem de Isaias, e não obstante enviou este profeta paira que lhes pre­gasse (Is.6:9-13). Podemos dizer que Deus não foi sincero? O mesmo aconteceu a Ezequiel, “Disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, e dize-lhe as minhas palavras... Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, porque não me quer dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obsti­nada e dura de coração” (Ez.3:4,7). Deixou Deus de ser sincero quando enviou Ezequiel a pregar a um povo que Ele sabia não ia aceitar sua mensagem? Em Mat.23:34,35 lemos: “Por isso eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra”, etc. Esta passagem mostra não somente que Deus não pode ser acusado de falta de sinceridade, por enviar seus mensageiros a um povo que Ele sabe irá rejeitá-los e matá-los, como também mostra que Ele tem um desígnio especial em lhes enviar seus mensageiros, a saber, fazê-los mais dignos ainda de condenação. “Para que sobre vós recaia todo o sangue justo”, etc. Paulo disse, “Graças, porém a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo; tanto nos que são salvos, como nos que se perdem. Para com estes cheiro de morte para morte; para com aqueles aroma de vida para vida. Quem, pois, é suficiente para estas coisas?” (2Co.2:14-16). Paulo não deixava de pregar a quem quer que encontrasse, embora soubesse que para alguns seu evangelho era “cheiro de morte para morte”. Sua pregação re­sultaria de qualquer modo na glória de Deus. “E daí? Se al­guns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a fideli­dade de Deus? De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro e mentiroso todo homem, segundo está escrito: Para seres justi­ficado nas tuas palavras, e venhas a vencer quando fores jul­gado”. (Rm.3:3,4). O fato de Deus saber de antemão que “poucos” seriam escolhidos não foi razão para Ele deixar de ter muitos “chamados” (Mt.22:14). Cristo sabia que o povo de Israel não O aceitaria, mas isto não foi razão para que Ele deixasse de pregar em toda cidade e aldeia daquele povo. E, como vimos, sua rejeição e morte foram incluídas no plano de Deus. 

5. Outra objeção é que a Predestinação leva Deus a ser parcial e injusto ou fazer acepção de pessoas.

Se todas as pes­soas fossem inocentes, Deus seria injusto e se deixaria levar de respeitos humanos se as tratasse de maneira desigual, salvando umas e condenando as demais. O fato, no entanto, é que todos são pecadores e nada merecem de Deus. Como já foi dito, Deus é misericordioso para com aqueles a quem salva, sem ser in­justo para com aqueles a quem condena, visto como podia ter condenado a todos sem ser injusto. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas, não quer dizer que Ele não distingue pessoas, dando a uns o que nega a outros. Que todas as pessoas não têm os mesmos dons e as mesmas oportunidades é um fato inegável. Sabemos existir muita gente que nunca teve oportunidade de ouvir o Evangelho, e nações inteiras, du­rante séculos, foram privadas desse privilégio. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas quer dizer que Ele não faz distinção por motivo de raça, riqueza, condição social, etc, e também que Ele recompensará cada um de acordo com as suas obras. Veja-se At.10:34, Rm.2:11, Tg.2:9 e 1Pe.1:17. Nenhuma diferença faz entre judeus e gentios; julgará a todos de conformidade com as obras de cada um, visto como não faz acepção de pessoas. Mas nossa salvação não é algo devido aos nossos méritos; procede da graça divina. A este respeito Deus pode dizer o que “o proprietário, respondendo, disse: Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este últi­mo tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt.20:13-15). 

“O Arcebispo Whately dirige este excelente aviso aos seus amigos arminianos: “Gostaria de sugerir uma precaução relativamente a uma classe de objeções que freqüentemente são levantadas contra os calvinistas, objeções deduzidas dos atributos morais de Deus. Devemos ser muito cautelosos no emprego de certas armas, pois podem voltar-se contra nós. É uma ver­dade terrível, porém incontestável, que multidões, mesmo em países cristãos, nascem e crescem em circunstâncias que não lhes proporcionam nenhuma chan­ce provável nem mesmo possível de obterem um co­nhecimento de verdades religiosas, ou hábitos de con­duta moral, mas pelo contrário são até exercitadas, desde a infância, em erros, superstições e grosseira devassidão. Por que tal coisa se permite não há calvinista nem arminiano que possa explicar; mas, por que o Onipotente não faz que morra no berço toda criança cuja impiedade e miséria futuras, se for deixada cres­cer, Ele prevê, é o que nenhum sistema de religião, natural ou revelada, nos capacitará explicar satisfato­riamente”. [16] 

“O decreto divino da eleição não pode ser acusado de parcialidade, porque isto só é cabível quando uma parte tem o que exigir de outra. Se Deus fosse obri­gado a perdoar e salvar o mundo inteiro, seria parcial se salvasse apenas alguns e não todos. Parcialidade é injustiça. Um pai é parcial e injusto se desconside­ra direitos e exigências iguais de todos os seus filhos. Um devedor é parcial e injusto se, no ato de pagar a seus credores, favorece uns às custas dos outros. Nes­tes casos uma parte tem certa reivindicação a fazer sobre a outra. Mas é impossível Deus mostrar parcia­lidade em salvar do pecado, porque o pecador não tem. qual quer direito ou reivindicação a apresentar. “Há”, diz Tomaz de Aquino (Summa, II, LXIII.l), “uma dádiva dupla: uma é matéria de justiça, pela qual a uma pessoa se paga o que lhe é devido. Aqui é possível agir com parcialidade e com respeito hu­mano. Há uma segunda espécie da dádiva, que é uma modalidade de mera munificência ou liberalidade, pela qual se concede o que não é devido. Tais são os dons da graça, pela qual os pecadores são recebidos por Deus. Neste caso respeito humano ou parcialidade fica absolutamente fora de propósito, porque qual­quer um, sem a menor sombra de injustiça, pode dar do que é seu como lhe apraz e a quem lhe apraz: de acordo com Mt.20:14,15, Não me é lícito fazer o que quero do que é meu?”.[17] 

“Sob uma economia de graça, não pode haver, pela natureza do caso, nenhuma parcialidade. Somente nu­ma economia de justiça e de exigências legais é isso possível. A acusação de parcialidade podia com tanto mais razão ser feita contra os dons da providência, quanto contra os dons da graça. Saúde, riqueza e alta capacidade intelectual Deus não deve a ninguém. Ele as dá a uns, negando-as a outros; contudo, em assim fazendo Ele não é parcial em sua providência. A afir­mativa de que Deus é obrigado, seja nesta vida, seja na outra, a oferecer perdão de pecados mediante Cristo a todo o mundo, não apenas não tem apoio na Escritura, como é contrária à razão, visto como trans­forma a graça em dívida, envolvendo o absurdo de que, se o juiz não oferece perdão ao criminoso, con­tra quem lavrou sentença condenatória, não o trata com eqüidade”. [18] 

6. Outra objeção contra a Predestinação deriva de pas­sagens que afirmam que Deus quer a salvação de todos os ho­mens, e de passagens em que se diz dependerem as bênçãos de Deus da aceitação de sua oferta de salvação por parte do ho­mem.

Consideremos primeiro a objeção baseada em passagens que afirmam que Deus quer a salvação de todos os homens. Em Ezequiel 33:11 lemos, “Tão certo como eu vivo, diz o Se­nhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva”. Em 1Tm.2:3,4 Paulo diz, “Deus nosso Salvador... deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. E Pedro, em sua Segunda Epístola 3:9, diz, “O Se­nhor... é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. 

Tais passagens simplesmente falam da benevolência de Deus, seu desejo de que todos sejam salvos. Temos de distinguir entre desejo e propósito. Deus não deseja ou não ama o pecado, mas decretou permiti-lo, embora o odeie e a todas as suas conseqüên­cias. Ele não deseja o sofrimento de suas criaturas, porém por certas razões que não podemos alcançar, Ele permite que mi­lhões de criaturas humanas sofram toda espécie de agonia física e moral, em conseqüência de guerras, terremotos, inunda­ções e doenças. Em sua onipotência Ele podia evitar todos estes sofrimentos, nos quais nenhum prazer, tem, mas por certas ra­zões que Ele não revela, decidiu não evitá-los. De semelhante modo, embora seja onipotente e não deseje a morte eterna do homem, Ele não salva a todos os membros da raça humana. As razões disso não conhecemos, porém devem ser sábias e jus­tas. Não somos melhores do que os anjos, porém Deus proveu um plano de salvação para nós, e nenhum para os anjos caídos. Significa isto que Ele tem algum prazer na perdição deles? 

“A palavra “vontade” usa-se em diferentes sentidos na Escritura e em nossa própria conversação diária. Algumas vezes usa-se no sentido de “decreto”, ou “propósito” e outras vezes no sentido de “desejo” ou “anseio”. Um juiz justo não deseja que alguém seja enforcado ou sentenciado a prisão, contudo ao mes­mo tempo quer (pronuncia sentença, ou decreta) que a pessoa culpada seja punida dessa forma. No mesmo sentido e por suficientes razões uma pessoa pode querer ou resolve mandar amputar um membro seu, ou extrair um olho, tanto quanto pode não querer isso”. [19] 

“Deus pode manifestar grande e imerecida compaixão por todos, usando para com eles de graça comum e chamando-os externamente, e pode limitar sua com­paixão, se quiser, a algumas pessoas, usando para com elas de graça especial e chamando-as eficazmente. Pode apelar a todos para que se arrependam e creiam, e pro­meter salvação a todos quantos queiram fazer isso, e ainda assim não inclinar tais pessoas a fazê-lo. Nin­guém dirá que uma pessoa é insincera por oferecer um presente, se com o oferecimento não provoca a dispo­sição de aceitá-lo. E de Deus ninguém deve asseverar tal. Deus sinceramente deseja que o pecador ouça seu chamado externo e que sua graça comum alcance êxito neste particular. Deseja sinceramente que todos quan­tos ouvem a mensagem: “Vós que tendes sede, vinde às águas; sim, vinde e comprai vinho e leite, sem di­nheiro”, venham exatamente como estão, e espontanea­mente, “porque tudo está preparado”. O fato de Deus não ir além desse desejo, com relação a todas as pes­soas, e vencer a aversão delas, este fato não contradiz o mesmo desejo. Ninguém afirma que Deus deixa de ser benevolente para com todos pelo fato de conceder mais saúde, riqueza e pujança intelectual a uns do que a outros. E ninguém deve dizer que Ele não é miseri­cordioso para com “todos" pelo fato de conceder mais graça a uns do que a outros. A onipotência de Deus é capaz de salvar todo o gênero humano, e à nossa visão estreita parece estranho que Ele não o faça. Mas seja como for, é falso dizer que se Ele não exerce todo o seu poder, é desumano para com os que abusam de sua graça comum. Esse decreto de paciência e longanimidade que Deus manifesta para com os que o resis­tem, e esse grau de esforço que Ele emprega para convertê-los, é verdadeira misericórdia por suas almas. E o pecador que tem frustrado essa benevolente aproxi­mação de Deus. Milhões de pessoas, através de todas as eras, têm repelido a misericórdia divina, manifesta na chamada externa, e têm-na anulado. Alguém que tenha recebido graça comum, tem sido objeto da compaixão divina sob este aspecto. Se resiste a ela, não pode acusar a Deus de falta de misericórdia, porque não lhe concede maior misericórdia sob a forma de graça regeneradora. Um mendigo, que desdenhosamente recusa aceitar cinqüenta dólares, que alguém, de boa vontade lhe oferece, não pode insultá-lo se, em face da recusa, esse alguém não lhe dá cem dólares. Todo pecador que se queixa de Deus não o contemplar na concessão da graça da regeneração, depois de haver abusado da graça comum, diz virtualmente ao Altíssimo e Santo, que habita na eternidade, “Uma vez já tentaste converter-me do pecado; agora tenta outra vez, e com mais vigor”.[20] 

Consideremos agora a objeção que se baseia em passagens que ensinam que as bênçãos de Deus dependem de o homem aceitar a oferta divina do Evangelho. Uma ou duas passagens bastam. 

Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o en­quanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compade­cerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em per­doar” (Is.55:6,7). “Tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós outros, diz o Senhor dos Exércitos” (Mal.3:7). 

A resposta para esta objeção é ainda a seguinte: Deus tanto predestina o fim como os meios. O fim é a salvação dos eleitos; os meios, a pregação do Evangelho. Deus salva pela fé, e a fé — embora seja uma dádiva de Deus — “vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm.10:17). Na rege­neração Deus não trata o homem como se este fora uma pedra ou um pau. Trata-o como pessoa. No momento em que Deus lhe muda o coração, o homem se volta para Ele imediatamen­te, e segue-O voluntária e espontaneamente. Tratando o ho­mem como uma personalidade, Deus apela a todas as faculda­des dele, a saber, inteligência, emoções e volições. Nascemos de novo ou somos regenerados “pela palavra de Deus” (1Pe.1:23), isto é, por essa palavra aplicada aos nossos corações por seu Espírito. A Palavra é o instrumento; o Espírito é o Agente. O instrumento tem de convir ao seu objetivo — daí os apelos e solicitações das Escrituras que o Espírito usa para converter pecadores. Lemos que todos quantos estão nos túmulos ouvi­rão a voz de Deus (Jo.5:28). Significa que ouvirão essa voz quando ainda mortos nos túmulos? Absolutamente não. Deus há de primeiro fazê-los reviver, para que possam ouvir-LO. O mesmo sucede aos espiritualmente mortos. “Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me en­viou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem, viverão” (Jo.5:24,25). Todos os homens são espiritualmente mortos e não podem ouvir e vir até que Deus lhes dá vida. Quando, porém, Deus pelo poder do seu Espírito lhes dá vida espiritual, eles ouvem, compreendem e obedecem à sua voz. E esta voz tem de ser inteligível e diri­gida às faculdades do homem de maneira adequada. Lembre­mo-nos do caso de Lídia. A Bíblia diz que Deus lhe abriu o coração “para atender às coisas que Paulo dizia” (At.16:14). A mensagem de Paulo naturalmente era clara, inteligível, diri­gida a todas as faculdades dos seus ouvintes, de sorte que quan­do Deus abria o coração de algum deles, esse podia compreen­der, receber e entregar-se a ela. Temos aqui a razão dos muitos apelos, convites e solicitações de que a Bíblia está cheia, desde o primeiro que soou no Gênesis, “Onde estás?” (Gn.3:9), até o último no Apocalipse, “Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap.22:17). 

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Notas:
[13] Egbert Watson Smith, The Creed of Presbyterians, pp. 166, 167. 
[14] Loraine Boettner, Op. cit., p. 307. 
[15] William Temple, Nature, Man and God, preleção XV, “Divine Grace and Human Freedom”, p. 378. 
[16] A. A. Hodge, Op. Cit., p. 227. 
[17] William G. T. Shedd, Op. Cit., Vol. I, p. 425. 
[18] William G. T. Shedd, Op. Cit., Vol. I, p. 426. 
[19] Loraine Boettner, Op. Cit., pp. 287, 288. 
[20] William G. T. Shedd, Calvinism: Pure and Mixed, pp. 49-51.

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Fonte: FALCÃO, Samuel. Escolhidos com Cristo. 5º Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pgs.: 131-145  
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Objeções às Doutrinas dos Decretos e da Predestinação de Deus 1/2



por Rev. Samuel Falcão


A doutrina dos decretos de Deus e especialmente a da pre­destinação têm enfrentado muitas objeções. Vamos considerar as mais importantes.

1. A primeira e mais importante objeção contra estas doutri­nas é a que se refere à harmonia entre a soberania de Deus e o livre arbítrio ou livre agência do homem. 

Antes de prosseguir, é necessário definirmos o sentido de liberdade. De acordo com o ponto de vista arminiano ou indeterminista, liberdade significa a capacidade de escolha contrária. Os arminianos ensinam que, para ser responsável como ser mo­ral, o homem precisa ser livre em suas decisões. Ensinam, igualmente, que, por causa do pecado, o homem precisa do auxílio da graça divina, para levá-lo a aceitar a Deus, porém até neste caso Ele tem o poder de dizer “Não” a Deus, resistir à atuação de Sua graça e anulá-la, de modo que, se for condenado, é o único culpado. 

O ensino de Calvino, a este respeito, é que foi somente antes da Queda que o homem teve esse poder de escolha contrária en­tre o bem e o mal; que foi somente então que ele teve livre arbí­trio, no sentido arminiano ou indeterminista. Ensina que depois da Queda o homem perdeu esse livre arbítrio. Por causa disto ele prefere não usar o termo livre arbítrio para descrever a livre agência do homem. Afirma que o homem ainda tem uma vontade, porém não livre, em vista de estar escravizado à sua natu­reza corrompida. Não tem mais poder de escolha entre o bem e o mal e, portanto, não tem poder de escolher a Deus, o céu, e a santidade. Leiamos o que ele escreveu sobre o assunto:

“Admitido isto, ficará fora de qualquer dúvida que o homem não possui livre arbítrio para boas obras, a não ser que seja assistido pela graça, e essa graça especial concedida aos eleitos na regeneração”. [1] 

E mais: 

“Dir-se-á que o homem possui livre arbítrio neste sen­tido, não o de ter capacidade de escolher livre e igual­mente o bem e o mal, mas porque faz o mal voluntaria­mente, e não por coação. Isto, com efeito, é muito ver­dade. Mas que adianta enfeitar uma coisa tão diminuta com um título tão pomposo? Bonita liberdade, esta: o homem não é compelido a servir ao pecado, mas é um escravo por tal forma voluntário que sua vontade se mantém na servidão, agrilhoada por esse pecado”. [2]

Como vemos, Calvino abstêm-se de empregar o termo livre arbítrio com referência ao homem caído, porque embora seja certo que esse homem não é coagido em sua vontade, fazendo o mal “voluntariamente”, “sua vontade se mantém em servidão, agrilhoada pelo pecado”. 

A mesma posição é mantida por Lutero, em seu livro O Cati­veiro da Vontade. Disse ele: 

“Quando se admite e estabelece que o Livre Arbítrio, havendo uma vez perdido sua liberdade, é compelido ao serviço do pecado, e nada pode querer de bom, poço compreender daí que Livre Arbítrio é nada mais do que uma expressão oca, cuja realidade se perdeu. E liberdade perdida, de acordo com a minha gramática, não é absolutamente liberdade”. [3]

Calvino, entretanto, não negou que o homem, depois da Queda, ainda tivesse vontade, não porém vontade livre (livre arbítrio). Disse ele: 

“À vontade, conseguintemente, está presa por tal for­ma à escravidão do pecado que não pode desvencilhar-se dela, muito menos dedicar-se a qualquer bem. Porque tal disposição é o começo de conversão a Deus, a qual as Escrituras atribuem exclusivamente à graça divina... Não obstante, ainda resta a faculdade da vontade, a qual com gosto fortíssimo inclina-se e corre para o pe­cado. Porque, submetendo-se o homem a essa força ine­vitável, não se priva de sua vontade, senão que da sa­nidade da mesma. Bernardo observa com propriedade que todos nós temos um poder de querer; mas querer o bem é vantagem, querer o mal é defeito. Por isso, o simples querer pertence ao homem; querer o mal per­tence à natureza corrompida; querer o bem pertence à graça”. [4]

Podemos ver, pois, que a definição que Calvino apresenta de livre arbítrio é indeterminista. Para ele livre arbítrio é o po­der de escolha contrária, e esta, somente Adão teve, antes da Queda. Agora o homem é livre apenas no sentido de não ser coa­gido por força externa, nas suas decisões, agindo voluntariamente segundo as inclinações de sua natureza corrompida. 

A Confissão de Westminster e alguns calvinistas mais re­centes, porém, fazem um conceito diferente de livre arbítrio, atribuindo-o ao homem, mesmo em seu estado de queda. Veja­mos o que diz a Confissão sobre o assunto: 

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e san­to conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou con­tingência das causas secundárias, antes estabelecidas”. (Cap. III, § 1).

E ainda: 

“Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para p mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza”. (Cap. IX, § 1).

Em confirmação dessa declaração, a Confissão cita Dt.30:19; Jo.7:17; Ap.22:17; Tg.1:14 e Jo.5:40. Tanto a declaração acima transcrita como as citações bíblicas parecem in­dicar que a Confissão de Fé entende livre arbítrio no sentido de poder de escolha contrária, atribuindo-o ao homem, mesmo em seu estado de queda. Por causa disto alguns teólogos pensam que a Confissão é dialética em sua teologia sobre o assunto em foco. Mas o teor geral da Confissão mostra não querer dizer que o homem tem liberdade no sentido de ter poder de escolha con­trária, mas no sentido de não ser coagido por força externa em suas decisões. Ele age de acordo com a sua natureza e suas in­clinações e, portanto, é livre e responsável no que faz. Citando Tiago 1:14, nesta conexão, a Confissão indica ser este o sentido em que emprega o termo livre arbítrio. “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz” (Tg.1:14). De­mais disso, a Confissão sustenta claramente esta posição no § III do Cap. sobre o Livre Arbítrio (Cap. IX): 

“O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio po­der, converter-se ou mesmo preparar-se para isso”. (Cap. IX § 3). 

O sentido da Confissão a respeito deste assunto é apresen­tado pelo Dr. A. A. Hodge, como segue: 

“Quanto ao presente estado ao homem, nossos padrões ensinam (1) que ele é um agente livre, e capaz de que­rer como de um modo geral quer. (2) Que é igualmente capaz de desobrigar-se de muitos de seus deveres que decorrem de suas relações com o próximo. (3) Que sua alma, em razão da queda, estando moralmente corrompida e espiritualmente morta, e seu entendimento estando espiritualmente cego e seus afetos pervertidos, ele ficou “totalmente indisposto, incapacitado e adverso a todo o bem e inteiramente inclinado a todo o mal”. Conf. de Fé. Cap. VI, § 4, e Cap. XVI § 3; Cat. Maior, Pergunta 25).” [5] 

Concordamos com esta interpretação e, por consequência, toda vez que empregamos o termo liberdade ou livre arbítrio significamos, com referência ao homem em seu estado de queda, liberdade de agência. O homem age sem coação, naquilo que faz, de acordo com a sua natureza e tendências, e portanto é responsável. 

Consideremos o que Paulo diz sobre isto em Fp.2:12,13. No v.12: “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só a minha presença porém muito mais agora minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor”. É verdade que ele aí fala de obediência e, portanto, de santificação, isto é, salvação do domínio de nossos pecados, na qual precisamos cooperar com o Espírito de Deus. Mas o fato é que ele apela para a vontade e ação daqueles crentes. "Desenvolvei a vossa salvação". Se Paulo tivesse parado aí, pensaríamos que essa obediência dependia inteiramente da vontade e esforços deles. No verso seguinte, no entanto, imediatamente depois de declarar o que acabamos de ler, o apóstolo acrescenta, “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. Isto mostra que, em última aná­lise, nossa vontade, quando bem dirigida, está sob o controle do poder de Deus. A mesma coisa se ensina em Hb.13:20,21, onde lemos, “Ora, o Deus da paz... vos aperfeiçoe em todo bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele”. De acordo com a exortação de Paulo, na passagem de Filipenses, precisamos desenvolver nossa sal­vação do domínio do pecado, e nesta luta contra nossas tendên­cias herdadas e contra nossos velhos hábitos, precisamos natu­ralmente de depender de nossa vontade. Não podemos realizar nada se não queremos, a não ser que sejamos coagidos. Temos, porém uma natureza corrompida, nosso velho homem ainda está em nós, e assim nossa vontade naturalmente nos compele e ar­rasta em direção errada. Quando, pois, contra nossa natureza pecaminosa, queremos o bem e o realizamos, é realmente Deus que opera em nós “tanto o querer como o realizar”. Como Paulo disse em Rom. 8:2, “A lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte”. Ora, se depois de nossa regeneração e conversão ainda precisamos que Deus exerça seu poder sobre a nossa vontade, para que façamos “o que é agradável à sua vista”, que pode fazer o homem antes que o milagre da regeneração se opere em sua alma? 

Antes da regeneração éramos “filhos da desobediência”, e então o “príncipe das potestades do ar” era quem operava em nós (Ef.2:2). O mesmo verbo que Paulo emprega em Fp.2:13 relativamente à atuação de Deus sobre a vontade do crente, emprega em Ef.2:2 concernente à atuação de Satanás sobre o incrédulo. Antes que a pessoa se converta, sua vontade está sob a direção de Satanás, sob o poder do mal. Depois de sua con­versão, está sob a direção do Espírito de Deus. 

Cremos que a vontade do homem é produto de seu caráter, e desde a Queda esse caráter é pecaminoso. Pecado é rebelião contra a vontade de Deus, ou desobediência às suas leis, que são expressões de sua vontade. Paulo chama esta natureza pe­caminosa do homem “carne”, e afirma que “ela não se sujeita à lei de Deus, nem de fato é possível que se sujeite”. Portanto, visto como a vontade do homem é por natureza contrária à de Deus, a salvarão, um de cujos aspectos é reconciliação com Deus (2Co.5:18-20), não se pode realizar enquanto Deus não modifique nossa natureza e faça que a nossa vontade entre em acordo com a sua. É interessante observar que Paulo fala de reconciliação com Deus depois de afirmar que “se alguém está em Cristo, é uma nova criatura”. Ao mesmo tempo vale notar que o processo dessa reconciliação parte de um apelo de Deus ao homem, a toda a sua personalidade, inclusive naturalmente sua vontade, que é uma expressão dessa personalidade. “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (2Co.5:20). 

Jesus disse, que “todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo.8:34). Todos os homens são pecadores: portan­to, todos são escravos do pecado. Somente Cristo pode libertá-los mediante o conhecimento de sua verdade. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (Jo.8:32,36); Antes da Queda o homem podia escolher entre o bem e o mal. É este o sentido da prova pela qual passou depois de haver sido criado. Deus colo­cou diante dele duas alternativas, chamadas na Bíblia “o conhe­cimento do bem e do mal”. Há dois métodos de se conhecer o bem e o mal: é o método de Deus e o método de Satanás. O mé­todo divino de se conhecer o bem é a experiência, e o de se co­nhecer o mal é o contraste. O método de Satanás é de se conhe­cer o mal pela experiência, e o bem pelo contraste. Escolhendo o método de Satanás de conhecer o bem e o mal, o homem de­cidiu qual séria a inclinação de seu caráter, que desde então se tornou pecaminoso, isto é, contrário a Deus e a todo o bem. O céu, para o homem sem regeneração, seria um inferno. Se a pessoa nenhum prazer sente em ir à igreja, aqui na terra, se não experimenta nenhuma alegria em adorar a Deus agora, tal prazer ela não terá no céu. 

O ensino calvinista, portanto, acerca da liberdade é que o homem é livre no sentido de ser capaz de escolher o que está de acordo com a sua natureza corrompida. E isto ele faz vo­luntariamente, espontaneamente, sendo por isso responsável pelo que pratica. Se Deus é livre quando, de acordo com a sua natu­reza, só escolhe o bem, o homem é também livre no sentido de­terminista, e conseguintemente responsável quando, de acordo com a sua natureza corrompida, só escolhe o mal. Um porco é livre na escolha da lama, mas não o é para escolher o que é limpo, porque isto vai de encontro à sua natureza. E assim, quando um pecador, que aparentemente se converteu, volta permanentemente à sua vida velha de pecado, é como “a porca lavada” que volta “a revolver-se no lamaçal” (2Pe.2:22). 

Com referência a este fato Calvino escreveu: 

“Portanto, se uma força inevitável de fazer o bem não enfraquece a liberdade da vontade divina em fazer o bem; se o demônio, que só pode fazer o mal, apesar disso peca voluntariamente; quem pois afirmará que o homem peca menos voluntariamente por estar sob uma força inevitável de pecar?” [6] 

Escrevendo sobre Liberdade e Determinismo em seu livro Nature, Man, and God, o Dr. William Temple alude à doutrina de Agostinho sobre a vontade, nos seguintes termos: 

“Santo Agostinho, tanto quanto eu saiba, foi o primeiro a perceber esta verdade (isto é, que a vontade é a expressão da personalidade completa) e sua influência na Europa, que mais frutos produziu, teve sua origem nessa percepção. Numa passagem sua muito conhecida, a que já fiz alusão, ele pergunta por que é que quando quero mover minha mão, esta imediatamente se move, ao passo que quando desejo querer o bem minha vontade fica paralisada. Sua resposta é que no segundo caso eu não quero de modo completo, porque se eu já queria o bem não preciso desejar querê-lo; se eu desejo querê-lo, isso prova que eu não quero de modo completo. Noutras palavras, embora a vontade possa em larga escala dirigir meu corpo ela não pode em dado momento dirigir-se a si mesma. Ela é o que é. Se ela se entrega a ambições egoísticas ou a prazeres carnais, este mesmo fato impede-a de mudar de direção; ela não pode mudar porque não quer mudar; se o quisesse, isso em si já seria a mudança. Naturalmente pode haver uma vontade muitíssimo sincera de mudar, pias isso é diferente; é algo que se pode tornar uma parte integrante de uma vontade para o bem; mas enquanto estiver também presente qualquer forma de; desejo de gozar o mal, com força propulsora aproximada do desejo do bem, há apenas dois desejos incompatíveis. e nenhuma vontade real ou eficaz”. [7] 

Se isto é correto, como creem os calvinistas, o homem pre­cisa experimentar uma transformação completa de seu caráter e, pois, em sua vontade, antes de poder aceitar a Cristo e seguí-LO. Esta transformação é o que a Bíblia chama regeneração ou novo nascimento. E quando Deus cria o homem novamente, para a nova vida, faz que ele deseje o bem, sem constranger sua natureza, porém dando-lhe realmente uma nova natureza com novos impulsos e desejos. É a esta experiência que Pedro se refere, quando diz, “Pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conheci­mento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas pre­ciosas e mui grandes promessas para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe.1:3,4). 

Antes da Queda o homem era, por assim dizer, neutro. Tendo escolhido o mal, deu certa direção ou tendência à sua natureza e, portanto, à sua vontade. Ora, pela regeneração, Deus imprime nova tendência à natureza do homem e, por con­seguinte, à vontade dele, de sorte que quando o crente peca, por causa da fraqueza da carne, peca contra a vontade, e na reali­dade não precisa sujeitar-se mais ao pecado, se vive na nova esfera da vida espiritual. Como Paulo disse, “Se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e, sim, o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, te­nho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisio­neiro na lei do pecado que está nos meus membros” (Rm.7:20,23) Dentro de nós lutam entre si o homem velho e o homem novo. Mas um dia o crente ficará completamente livre da presença do pecado, e será como Cristo que não pode pecar. “Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, por­que havemos de vê-lo como ele é” (1Jo.3:2). 

Nesta conexão vale a pena citar a seguinte declaração de Mozley: 

“O mais alto e perfeito estado da vontade é um esta­do de necessidade; e o poder de escolha, longe de ser essencial a uma verdadeira e genuína vontade, é sua fraqueza e defeito. Que maior sinal pode haver de um imperfeito e imaturo estado da vontade do que, ante o bem e o mal, ter de ficar hesitante entre um e ou­tro?” [8] 

Como já foi declarado, os arminianos reconhecem que a vontade do homem necessita da assistência da graça de Deus, para ajudá-lo em escolher e seguir a Cristo. Mas ensinam tam­bém que a vontade do homem é capaz de se opor a essa influ­ência da graça de Deus e de vencê-la, de modo que, em última análise, é o homem quem decide seu destino eterno. É verdade que o homem sempre resiste à influência do Espírito de Deus, e isto por causa de sua natureza pecaminosa. Foi esta a lição do mundo antediluviano. O Espírito de Deus contendia com aque­la gente, mas eles o resistiam, de modo que por fim Deus de­clarou, “Meu Espírito não contenderá para sempre com o ho­mem” (Gn.6:3). E por que resistiam? Por causa da natureza deles corrompida, assim descrita, “Era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn.6:5). Através das eras o Espí­rito de Deus vem lutando com o homem, e o homem sempre a Ele resistiu. Todavia assim não acontece com os regenerados, porque estes, mediante uma intervenção miraculosa de Deus, são criados de novo para a vida espiritual. Os irregenerados re­sistem porque têm uma natureza pecaminosa, avessa a todo o bem. Os regenerados não podem resistir porque recebem de Deus uma nova natureza que aprecia o bem e a santidade. A essa nova natureza, que em nós luta continuamente contra o velho homem, João se refere, ao dizer, “Todo aquele que é nas­cido de Deus não vive na prática do pecado pois o que perma­nece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecan­do, porque é nascido de Deus” (1Jo.3:9). João não está falan­do aí do nosso velho homem, que não é nascido de Deus, e sim do nosso novo homem, nascido de Deus. Este “homem interior”, como Paulo lhe chama, não é criação nossa, mas criação do Es­pírito de Deus. Esta é a razão por que os calvinistas distinguem entre graça comum e graça especial. O homem sempre resiste a graça comum de Deus, mas, não pode resistir sua graça especial pela qual é feito nova criatura. Significa isto que o homem é constrangido a aceitar a Deus? Absolutamente não. Ele não podia aceitá-LO por causa de sua cegueira. Deus porém restaurou-lhe a visão. Não podia aceitá-LO por se achar morto espiritualmente. Deus porém fê-lo reviver. E depois dessa trans­formação maravilhosa, ele aceita e segue a Deus espontanea­mente. Foi isto exatamente o que Cristo ensinou, quando dis­se, “Vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como vos disse. Minhas ovelhas ouvem minha voz e eu as conheço, e elas me seguem”, e naturalmente O seguem voluntária e ale­gremente. 

“O poder pelo qual a obra da regeneração se efetua não é de natureza externa ou compulsória. O homem não é tratado como se fosse uma pedra ou um pau. Nem como se fosse um escravo, compelido contra sua própria vontade a procurar a salvação. Antes sua mente é iluminada, e todos os seus conceitos a respeito da Deus, de si, do pecado, são mudados. Deus envia o Seu Espírito e, de um modo que para sempre redundará no louvor de sua misericórdia e graça, suavemente constrange a pessoa a render-se. O homem regenerado vê-se governado por novos motivos e desejos, e coisas que antes aborrecia agora as ama e procura. Esta mudança não se efetua por nenhuma compulsão externa, mas por um novo princípio de vida que lhe foi criado na alma e que procura o único alimento que pode satisfazê-la”. [9] 

Assim como Deus não constrange a vontade do homem na regeneração, do mesmo modo não a constrange quando leva o ímpio a cumprir seus planos. Este fato já foi provado quando consideramos o caso de José, filho de Jacó; o caso dos assírios e babilônios; o caso de Ciro; e especialmente o caso dos assas­sinos de Cristo. Estes últimos, por exemplo, foram livres e responsáveis pelo que fizeram, de modo que Pedro os acusou. Mas ao mesmo tempo realizaram o que fora decidido “pelo de­terminado desígnio e presciência de Deus” (At.2:23). Eles “se ajuntaram... para fazer tudo” o que a “mão” de Deus e o seu “propósito” “predeterminaram” (At.4:27,28). Como pode Deus fazer que o homem proceda livre e espontaneamente nes­tes e noutros casos? Não o sabemos bem. Sabemos, porém, que Deus compreende o coração humano melhor do que nós, e sabe exatamente como agimos em certas circunstâncias. Sabemos, outrossim, que é Deus quem cria as circunstâncias. Há na Bí­blia um texto que dá uma idéia do método de Deus dirigir o homem a fazer o que Ele tem determinado, sem constrangê-lo, e portanto sem torná-lo irresponsável. “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina” (Pv.21:1). Note-se que o coração do rei é comparado aí a “ribeiros de águas”. A água, por natureza, flui de um nível mais alto para outro mais baixo. Quando que­remos levá-la para algum lugar mais baixo, a única coisa a fa­zer é cavar uma vala, e então a água corre naturalmente para o lugar que desejamos. Não a obrigamos a correr; é de sua natureza fazer assim. É isto o que Deus faz com o coração do homem. Conhecendo-lhe a natureza, cria as circunstâncias nas quais ele toma determinada direção, sem nenhuma coação. Mas isto é apenas uma ilustração. O fato é que não compreendemos de modo completo este assunto misterioso. 

“A onipotência divina combinada com a onisciência de um lado, e o livre arbítrio humano do outro, pare­cem de fato idéias incompatíveis à razão do homem. Contudo, somos compelidos a tornar em consideração ambas as coisas — uma à base não apenas do ensino bíblico, mas igualmente do conceito que fazemos do Ser Divino; a outra à base não somente do nosso con­ceito de Justiça Divina, mas igualmente de nossa per­cepção íntima, irresistível e do ensino bíblico tam­bém. Essa dificuldade de reconciliação de duas idéias aparentemente necessárias não é peculiar à teologia. A filosofia tem-na também. Há necessitários entre os filósofos, tanto quanto predestinacianistas entre os teó­logos, igualmente a contradizerem a percepção ínti­ma, irresistível do homem de possuir o poder de es­colha. Só podemos considerar os conceitos em choque como apreensões parciais de uma grande verdade que, de um modo geral, está além de nosso alcance. A apa­rente contradição entre eles pode ser devida ao fra­casso de seres finitos compreenderem o infinito. Têm sido comparados a duas linhas retas paralelas, que de acordo com a definição geométrica nunca se encontram e, contudo, segundo teoria matemática mais ele­vada, encontram-se no infinito. Ou podemos ilustrá-los com uma assíndota, que de um ponto de vista finito jamais pode atingir uma curva, e todavia, em geo­metria analítica, atravessa-a a uma distância infini­ta”.[10] 

Como já foi declarado, a Bíblia tanto afirma a soberania de Deus como a livre agência do homem. Por exemplo, em Dt.10:16 apela-se ao povo de Israel para que circuncide seus cora­ções, quando em Dt.30:6 lemos que é Deus quem circuncida ou regenera seus corações. Cf. Jer.4:4 e 24:7. Temos boa ilustração deste fato na cura do paralítico junto ao tanque de Betesda (Jo.5:1-9). Ao lado do tanque estava “uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos”. Jesus, no entanto, não curou todos, mas escolheu um dos paralíticos para esse fim. Isto é eleição. Contudo, não o curou contra a vontade dele. Antes de curá-lo, perguntou, “Queres ser curado?” Foi um apelo à vontade do homem. 

A regeneração, por exemplo, tem dois aspectos — um pas­sivo e outro ativo. O aspecto passivo é o que chamamos propria­mente regeneração; ao ativo chamamos conversão. O Dr. Strong escreve: 

“Faz-se necessário distinguir entre o aspecto passivo e o ativo da regeneração, como veremos, devido ao método duplo de a Escritura representar essa mudança. Em muitas passagens ela é atribuída inteiramente ao poder de Deus. A mudança opera-se na disposição fun­damental da alma; não se faz uso de meios. Em ou­tras passagens encontramos essa verdade referida co­mo agência do Espírito Santo, e o espírito age em face da mesma. A distinção entre estes dois aspectos da regeneração parece sugerida em Ef.2:5,6 — “deu-nos vida juntamente com Cristo” e “com ele nos res­suscitou”. Lázaro precisou primeiro ser vivificado, e nisto ele não cooperou; mas precisou também sair do túmulo, e nisto ele exerceu atividade” [11] 

Encerremos esta secção com palavras do Dr. Archibald Alexander: 

“O Calvinismo é o sistema mais vasto. Encara a sobe­rania divina e a liberdade da vontade humana como os dois lados de um teto, que se encontram na cumeeira acima das nuvens. O Calvinismo aceita ambas as ver­dades. Um sistema que negue uma delas tem só uma banda do teto sobre sua cabeça”. [12] 

Continua nos próximos dias...

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Notas:
[1] João Calvino, Inst. da Relig. Cristã, Livro II, Cap. II, § 6. 
[2] Ibidem, Livro II, Cap. II § 7, II, III. 
[3] Martinho Lutero, The Bondage of Will, p. 125, apud Boettner, Op. Cit. p. 213. 
[4] João Calvino, Op. Cit., Livro II, Cap. III, § 5. 
[5] A. A. Hodge, Commentary on the Confession of Faith, p. 224. 
[6] João Calvino, Op. Cit., Livro II, Cap. III, § 5. 
[7] William Temple, Nature, Man, and God, p. 234. 
[8] Mozley, The Augustinian Doctrine of Predestination, apud L. Boettner, op. cit., p. 216 
[9] L. Boettner, op. cit., p. 178
[10] J. Barby, Commentary on Romans, In the Pulpit Commentary, Series Additional Notes on Romans ch. 8, v. 29. 
[11] A. H. Strong, Op. Cit., p. 364. 
[12] Archibald Alexander, apud A. H. Strong, op. cit., p. 369. 

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Fonte: FALCÃO, Samuel. Escolhidos em Cristo. 5º Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pgs.: 131-145  
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Três possíveis explicações da razão pela qual Deus permitiu o pecado

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Por Samuel Falcão
 
De acordo com tudo quanto foi dito acima, vemos que o mal moral, tanto em sua origem como em seu prosseguimento, foi incluído nos decretos de Deus como permitido, mas permi­tido com algum sábio objetivo.

Que Deus decretou permitir o pecado, desde toda a eterni­dade, vê-se no fato que, também desde toda a eternidade, Ele decretou salvar pessoas mediante a morte de Cristo, como se declara na seguinte passagem das Escrituras: “Não foi medi­ante coisas, corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resga­tados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1Ped.1:18-20; veja-se também o v. 2 e Rom.8:29; 2Tim.1:9; Tito1:2; Apoc.13:8).

Há outra pergunta a fazer em conexão com este magno as­sunto, a saber: Por que permitiu Deus que o mal entrasse no mundo? Se Ele odeia o mal e tem todo o poder, de modo que podia tê-lo impedido, por que o permitiu com suas conseqüên­cias indescritivelmente dolorosas? Esta é a pergunta que mais nos deixa perplexos. Jamais seremos capazes de responder a ela nesta vida.
“A permissão e a presença do pecado no universo, onde Deus infinitamente santo, exerce domínio, oca­sionam um entrechoque de idéias, as quais, por tudo quanto envolvem, nenhum espírito humano pode har­monizar completamente. Tendo-se em vista as duas realidades inconciliáveis, Deus e o pecado, é certo que a solução da dificuldade não será descoberta nem na suposição de que Deus era incapaz de impedir o apa­recimento do pecado no universo, nem de que Ele não pode fazê-lo cessar a qualquer momento. Na pro­cura dessa solução, é certo que o dilema não será ven­cido ou atenuado, supondo-se que o pecado não é excessivamente mau à vista de Deus — pois Ele tem-lhe aversão absoluta. O fato permanece sem modificação, que Deus, ativa e infinitamente santo e absolutamente livre em seus empreendimentos, sendo capaz de criar ou não criar, e de excluir o mal daquilo por Ele criado, permitiu não obstante que o mal aparecesse e ope­rasse na esfera dos anjos e do homem. Esta perplexi­dade sobe de ponto, atingindo um grau imensurável, se considera o fato de que Deus sabia, quando per­mitiu a manifestação do pecado, que este lhe custa­ria o maior sacrifício que lhe seria possível fazer — a morte de seu Filho. As Escrituras atestam, com bas­tante ênfase que (a) Deus é todo-poderoso e, por con­seguinte, não recebe imposição do pecado contra sua vontade permissiva; (b) que Deus é perfeitamente santo e odeia o pecado incondicionalmente; e (c) que o pecado está presente no universo, ocasionando toda sorte de malefícios aos seres criados e que esse dano, em vista da incapacidade de alguns de entrarem na graça da redenção, pesará sobre eles por toda a eternidade”. [1]

Embora as perguntas acerca deste problema sejam de fato desconcertantes, algumas respostas têm sido sugeridas. Vou referir algumas.

1. “Sendo o propósito final de Deus trazer os homens à sua semelhança, estes, para alcançar esse fim, devem chegar a saber em certo grau o que Deus sabe. De­vem reconhecer o caráter maligno do pecado. Este, intuitivamente, Deus conhece; mas tal conhecimento pode ser adquirido, pelas criaturas, apenas por meio de observação e experiência. Obviamente, se o pro­pósito divino tem de ser realizado, ao mal deve-se permitir que se manifeste. O que a demonstração do pecado e sua experiência podem significar para os anjos não está revelado”.[2]

2. Uma segunda explicação é que a existência de agen­tes livres no universo seria uma possibilidade virtual de revolta contra Deus, em qualquer tempo. Noutras palavras, a existên­cia de vontades livres, capazes de se opor à vontade de Deus, seria, por toda a eternidade, um principio potencial de pecado, e tal princípio de pecado tinha de ser trazido “a juízo completo e final”. Deus desejou tornar impossível, no fim, não somente a realidade do pecado, mas até sua possibilidade. Como não é possível condenar uma abstração, Deus permitiu que o pecado ou o mal se concretizasse, de modo a poder ser condenado na cruz, onde seu caráter foi plenamente revelado nos sofrimentos do Filho de Deus. Por essa forma todas as criaturas de Deus aprenderiam que coisa insana, penosa indescritivelmente in­grata e desastrosa é desobedecer a Deus, e depois da experiên­cia dolorosa do pecado todas elas se conformariam natural e alegremente com a sua perfeita vontade e trilhariam seus caminhos sapientíssimos. Foi esta a experiência do Filho Pródigo.

3. Uma terceira explicação é que Deus permitiu o peca­do a fim de ter oportunidade de dar a conhecer sua justiça e sua graça, que jamais poderiam ser reveladas se no mundo não houvesse pecadores, para serem condenados, ou serem salvos. Paulo sugere isso nas seguintes passagens: “Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu po­der, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, prepa­rados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão?” (Rom.9:22,23). “Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo... para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado... a fim de sermos para louvor da sua glória” (Ef.1:4-6, 9-12).

É interessante, porém, notar que a Bíblia jamais procura responder nossas perguntas sobre o problema do mal e do so­frimento.

No caso clássico de Jó, a única resposta que Deus lhe deu foi que, se ele não podia entender os fatos mais simples da na­tureza, como podia compreender os mistérios divinos? Todavia, deve ter sido um gozo e glória indizíveis para ele saber que seus sofrimentos contribuíram para a glória de Deus e confusão de Satanás. E note-se também que no fim tudo para Jó veio a ser melhor do que no princípio. E o mesmo acontecerá a todos quantos pertencem a Deus.

No caso do cego de nascença, temos o que podemos cha­mar “o problema do mal num caso concreto”. Cristo, no en­tanto, não procurou responder a pergunta acerca desse proble­ma, porém fez melhor, isto é, primeiro declarou que os sofri­mentos daquele homem foram permitidos para a glória de Deus, e depois o curou. E assim aprendemos que Cristo não veio para responder nossas perguntas quanto ao problema do mal, mas, muito melhor do que isso, veio para destruir o mal. Co­mo Ele disse naquela ocasião: “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo.9:4,5). E havendo dito isso, deu luz ao cego.

Cristo veio para destruir o mal, “para destruir as obras do diabo” (1Jo.3:8). Foi Ele que se tornou semente da mulher para esmagar a cabeça da serpente. E Ele fez isso mediante sua vida, morte e ressurreição (Heb.2:14). Agora Ele está à direita do Pai, aguardando o tempo fixado por Deus, em seus decretos, quando todos os seus inimigos serão postos por es­trado de seus pés (Heb.1:13). No livro do Apocalipse, onde se nos descrevem as últimas coisas, vemos o Cristo vitorioso destruindo todo o mal e toda oposição a Deus, e lançando a an­tiga serpente, que é o diabo e Satanás, no lago de fogo e enxo­fre. Será isso o fim da grande luta anunciada em Gen.3:15, fim glorioso com a vitória completa da luz sobre as trevas, da verdade sobre a mentira, da vida sobre a morte, do bem sobre o mal, de Deus sobre Satanás.

É verdade que não podemos explicar o problema intrincado do mal, mas isso não é o que mais importa: o mais importante é sabermos que o mal será destruído e no final tudo redundará na glória de Deus e no gozo e felicidade de todos quantos lhe pertencem.
 
Notas:
[1] L. S. Chafer, B. S., XCVI: 149, 150
[2] L. S. Chafer, B. S., XCVI: p.152

Fonte: Escolhidos em Cristo – O Que de Fato a Bíblia Ensina Sobre a Predestinação, Samuel Falcão, Ed. Cultura Cristã, 1997.
Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]
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