A onipotência de Deus e o "dilema da pedra"

.

Por Rafael de Lima


É provável que alguma vez na vida você já tenha se deparado, ou vá se deparar, com a seguinte indagação: "Deus pode fazer uma pedra tão pesada que Ele mesmo não possa movê-la?". Essa pergunta tem sido feita por céticos que se acham muito espertos e que tentam, com ela, embaraçar e constranger os cristãos. A ideia é colocar em xeque o atributo da onipotência de Deus e, posteriormente, questionar a sua existência.

De fato, a pergunta soa como um dilema, visto que, se a resposta para o questionamento é que Deus pode criar a pedra, Ele não poderá movê-la, caso Ele não possa criá-la, da mesma forma haverá algo que Ele não pode fazer.

Vejamos porque este é um falso dilema que falha tanto teologicamente quanto logicamente.

Primeiramente, o referido questionamento falha em termos teológicos. O falso “dilema da pedra” se baseia em um conceito errado do que seria a onipotência divina. De fato, para o senso comum (e para a esmagadora maioria dos cristãos), dizer que Deus é onipotente equivale a dizer que Ele pode fazer tudo. Todavia, isto não passa de um equívoco teológico, visto que, claramente existem coisas que Deus não pode fazer. Don Fortner enumera uma lista de sete coisas que Deus não pode fazer: Deus não pode mudar ou ser mudado (Ml 3:6; Tg 1:17); Deus não pode mentir (Tt 1:2); Deus não salva um pecador sem um sacrifício agradável (Hb 9:22); Deus não pode levar para o céu alguém que não seja perfeitamente justo à Sua vista (Mt 5:20; Hb 12:14); Deus não pode mandar para o inferno alguém por quem Cristo sofreu e morreu no Calvário (Is 53:11; Rm 8:33,34); Deus não pode salvar um pastor aparte da pregação do evangelho (1Co 1:21-24; Tg 1:18; 2Pe 1:23-25); Deus não pode falhar em salvar qualquer pecador que confie no Senhor Jesus Cristo, seu Filho amado (Jo 3:16,36)[1]. Recomendamos a leitura integral do artigo para uma melhor elucidação.

Sproul define qual seria o conceito teológico correto para onipotência: “Como termo teológico [...] onipotência não significa que Deus pode fazer qualquer coisa [...] O que onipotência realmente significa é que Deus mantém poder absoluto sobre sua criação”.[2]

Teologicamente falando a resposta para o falso dilema da pedra seria: Não. Deus não pode fazer a pedra, pois ele estaria criando algo sobre o qual não teria domínio e, desta forma, anulando a sua onipotência.

Um segundo erro seria de ordem lógica. Ainda que abandonássemos a definição teológica de onipotência e adotássemos a ideia (incorreta) de que afirmar que Deus é onipotente é afirmar que Ele pode fazer tudo, o “dilema da pedra” falharia em termos lógicos.

Nas palavras de Phillip R. Johnson, a lei mais fundamental da lógica, chamada lei da contradição (ou não contradição), pode ser definida da seguinte maneira:

A lei da contradição significa que duas proposições antitéticas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e no mesmo sentido. X não pode ser não-X. Uma coisa não pode ser e não ser simultaneamente. E nada que é verdade pode ser auto-contraditório ou inconsistente com qualquer outra verdade.[3]

O falso dilema da pedra tenta propor justamente isto, que Deus possa e não possa ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Sproul propõe um dilema análogo ao da pedra que nos ajuda a perceber a falácia:

O que acontece quando uma força irresistível se choca contra um objeto irremovível? Podemos conceber uma força irresistível. Podemos, igualmente, conceber um objeto irremovível. O que não podemos conceber é a coexistência dos dois. Se uma força irresistível encontra um objeto irremovível, e o objeto se mover, o mesmo não poderia mais ser chamado com propriedade de irremovível. Se o objeto não se mover, então nossa força "irresistível" não poderia mais ser chamada, com propriedade, irresistível. Portanto, vemos que a realidade não pode conter uma força irresistível e um objeto irremovível.[4]

Assim, concluímos que o “dilema da pedra” falha tanto na sua perspectiva teológica, quanto na sua base lógica, se demonstrando apenas como mais uma falácia, sendo, portanto, um falso dilema.

________
Notas
[1] FORTNER, Don. Sete coisas que Deus não pode fazer. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/atributos_deus/sete_coisas_deus_nao_pode.htm>. Acesso em: 10 set. 2014.
[2] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 1º caderno. 3ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 38.
[3] JOHNSON, Phillip R. A Lei da Contradição. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Lei_Contradicao_Phillip.pdf>. Acesso em: 10 set. 2014.
[4] SPROUL, R. C. Op. cit., p. 38. 

***
Fonte: Cosmovisão Cristã
.

Confrontando a Reforma e o "Movimento Gospel"

.
por Rafael de Lima


A Reforma Protestante ocorrida no século XVI foi, sem dúvidas, um dos eventos mais relevantes que já sucedera no seio da cristandade. O movimento que culminou com o rompimento da igreja, sustentava sua teologia, basicamente, através dos conhecidos “Cinco Solas”, que foram os princípios que nortearam os reformadores e combateram os ensinos do catolicismo romano: Sola Fide (somente a fé); Sola Scriptura (somente a Escritura); Solus Christus (somente Cristo); Sola Gratia (somente a graça); Soli Deo Gloria (glória somente a Deus) [1].

Quando voltamos os nossos olhos para o cenário atual do evangelicalismo brasileiro percebemos, com pesar, a ignorância que uma porção importante (diria majoritária) dos evangélicos tem com respeito aos fundamentos que caracterizaram o ser protestante. Existe um total desconhecimento ou um desconhecimento totalmente fragmentado e incoerente com respeito à doutrina e história do protestantismo. O que deveria ser do conhecimento de todos tornou-se algo limitado a alguns, não por falta de acesso da maioria, mas por desinteresse e total abnegação destes.

Se refletirmos acerca daquilo em que estão se transformando os chamados “evangélicos”, chegamos à conclusão de que toda a base do protestantismo (isto é, os Cinco Solas da Reforma) tem sido repudiada, não apenas um ou outro ponto mas todos os pontos.

Os nossos pais defendiam o “Sola Fide”, visto que é por meio do dom da fé que temos acesso a graça que nos salva. Apenas por meio da fé em Cristo e em sua obra podemos ser justificados, não por nossas obras, mas pelos méritos de Cristo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8 – ACF) [2].

A crença atual dos evangélicos com respeito à fé não passa de uma ferramenta que deve ser utilizada a fim de se alcançar bênçãos e desejos. Hoje, vê-se o culto à (pseudo) fé, a fé na fé, o pensamento positivo, a confissão positiva. Não importa se há arrependimento, não importa se a fé está sendo depositada em Cristo. Basta que se creia, que se tenha fé. Voltemos ao genuíno Sola Fide!

Os nossos pais defendiam o “Sola Scriptura”, pois somente ela, a Revelação Divina Escrita, deve ser a regra de fé e de procedimento para o cristão: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça” (II Tm 3:16 – ACF).

A crença atual dos que compõe o “Movimento Gospel” com respeito às Escrituras Sagradas é tão frágil quanto uma taça de cristal, simplesmente porque pouco se interessam pelo estudo das Escrituras. Trata-se a Bíblia com um talismã, um objeto mágico. As “profetadas” e os “revelamentos” são, por vezes, mais valorizados do que o estudo sincero das Escrituras.  Voltemos ao Sola Scriptura!

Os nossos pais defendiam o “Solus Christus”, pois tinha plena consciência de que a mensagem central de toda e qualquer comunidade que se pretenda cristã, deve ser a de Jesus Cristo e de sua cruz, pois por Ele e por sua obra fomos resgatadas da nossa vã maneira de viver, arrancados do império das trevas e feitos filhos de Deus: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At  4:12 – ACF).

O “Movimento Gospel” tem reputado a mensagem da Cruz a um segundo plano, ao invés disso o âmago de suas mensagens tem sido voltado para o ego e a satisfação humana (Para maiores detalhes confira: Voltando à rude cruz). Da mesma forma, as “músicas gospéis” não podem ser chamadas de louvores, não louvores a Deus e a Cristo, pois as tais não louvam a outro que não o ego humano (Para maiores detalhes confira: Todo louvor seja dado aos homens).

Os nossos pais defendiam o “Sola Gratia”, pois estavam certos de sua condição de corrupção e que se não fosse pela maravilhosa graça salvadora de Cristo, não poderiam ser salvos de seus pecados. Não há obra humana capaz de trazer reconciliação para com Deus. A obra de Jesus Cristo na cruz nos tornou propícios a Ele! “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3:23-24 – ACF).

 O “Movimento Gospel” diminui dia a dia a depravação humana e obscurece a realidade da necessidade da graça que nos salva. Reputando ao homem a capacidade da escolha ou não da salvação, esquece-se de que se não for através do presente não merecido dado por Cristo não há obra nenhuma capaz de salvar.

Por fim, os nossos pais defendiam o “Soli Deo Gloria”, pois o temor e o tremor eram presentes em suas vidas. Sabiam que Deus reina em seu trono e nenhum outro que não Ele deve ser adorado: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém” (I Tm 1:17 – ACF).

O “Movimento Gospel” tem lutado insistentemente a fim de tirar Deus de seu trono e de em seu lugar colocar o homem. O egocentrismo tão característico do mundo pós moderno tem entrado sorrateiramente, mas pela porta da frente de muitas igrejas. As mensagens e os cânticos não se direcionam mais a adoração do único que é digno, mas tem buscado primordialmente massagear o ego humano.

Finalmente, fica-nos a reflexão dos rumos que têm seguido os evangélicos brasileiros. Que esta mensagem possa ecoar nos corações de muitos, pois é tempo de nos reformarmos, revermos nossos conceitos e militarmos pelo genuíno Evangelho. Sola Fide; Sola Scriptura; Solus Christus; Sola Gratia; Soli Deo Gloria!

_________________
Notas:
[1] Para maiores detalhes conferir: A DECLARAÇÃO DE CAMBRIDGE. Disponível em:  http://www.monergismo.com/textos/credos/declaracao_cambridge.htm. Acesso em: 01 de setembro. 2012.
[2] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.


Recomendamos a leitura das matérias publicadas no blog Cosmovisão Cristã:

.