A história, a tradição e o exemplo que se deseja esquecidos

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Por Márcio Jones


Referenciais são de extrema relevância. São elementos componentes de nossa visão de mundo, das lentes por meio das quais enxergamos as coisas e nos posicionamos a respeito daquilo que nos é apresentado. Portanto, nossos conceitos e ações advêm desses vetores. Nesse quesito, há contextos em que o subjetivismo é a linha reinante, o filtro. A experiência proveniente de vivências anteriores torna-se o supremo tribunal de recursos. São invocadas como dignas de absoluto crédito e aceitação, como se fossem dotadas de autoridade inquestionável, elevando-se à categoria de valores objetivos. E nessa toada, a inovação é sempre melhor e vem para suceder o que passou.

No que toca ao cristianismo em seus moldes modernos, há peculiaridades que merecem atenção. Particularmente, é interessante como a experiência subjetiva adquiriu relevância desde algum tempo, sobretudo em desfavor da história da igreja cristã e da contribuição deixada por tantos quantos palmilharam esse estreito caminho antes dos cristãos da atual geração. Há quem detenha uma maneira tal de pensar que diga: "O Espírito foi dado a mim, logo entendo ser plenamente autossuficiente no entendimento da Bíblia", como se o Espírito Santo fosse privilégio exclusivo dos cristãos do século XXI ou mesmo o cristianismo tivesse nascido em nossos dias. Vejo nisso um quê de arrogância e prepotência, e até mesmo ignorância bíblica. Será que a Escritura nos orienta a, como igreja cristã, viver uma história fragmentada, descontínua, geração após geração, desconhecendo o legado dos mais antigos e sendo mestres de nós mesmos? Será que, como diz o professor de História da Igreja Cristã Juliano Heyse, ao citar o exemplo da garotinha que, quando incumbida de falar acerca da história da igreja, começa sua fala citando a igreja onde congrega, o prédio em que são realizadas as reuniões semanais, e que teve início com o pastor "fulano" no ano tal. Não pretendo conferir à tradição status normativo, como fazem os romanistas. Entretanto, chamo à atenção para aspectos os quais muitos raramente costumamos examinar.

Podemos aprender da história? Esse foi o tema da palestra proferida por Martyn Lloyd-Jones, no encerramento da Conferência Puritana no ano de 1969. Disse o Doutor: "Talvez não exista nada que tenha denegrido tanto a glória de Deus como a história do Seu povo na Igreja. Por isso, vou tratar deste assunto sobre aprender da história. O famoso dito de Hegel faz-nos lembrar que 'O que aprendemos da história é que não aprendemos nada da história'. Ora, no que se refere ao mundo secular, essa é uma verdade indubitável. A história da raça humana mostra isso claramente. A humanidade, em sua loucura e estupidez, sempre repete os mesmo erros. Não aprende, e se nega a aprender. Mas não aceito isso como sendo próprio do cristão. O meu ponto de vista é que o cristão deve aprender da história, que, por ser cristão, seu dever é fazer isso, e deve animar-se a fazê-lo". (...) o meu argumento é que, para nós, é sempre essencial suplementar a nossa leitura teológica com a leitura da história da igreja. (...) Senão, corremos o perigo de nos tornar abstratos, teóricos e acadêmicos em nossa visão da verdade; e, deixando de relacioná-la com os aspectos práticos da vida diária, logo estaremos em dificuldade".

E qual seria a mais franca objeção a que levássemos em conta a história, a tradição e o exemplo? Penso que é a ideia segundo a qual o passado nada tem a nos ensinar. Como quando deparei, num fórum virtual, com um cristão internauta ávido em busca de métodos inovadores para aplicar nos cultos de jovens. Uma das resposta que se lhe apresentou, a mais esdrúxula por sinal, era de que ele deveria empregar ilimitadamente a criatividade, sob o pretexto da "liberdade no Espírito" e de que ser cristão é viver em "novidade de vida". Penso que se nos inteirássemos um pouco mais da história da Igreja e dos passos dos antigos, não buscaríamos meios para entreter a Igreja, mas lhe apresentaríamos o evangelho, em toda sua antiguidade e atualidade (Rm 1.2). Igualmente, se transitássemos pela história da igreja notaríamos que não há nada novo debaixo do sol e que os modismos que surgem atualmente não são tão inéditos assim, mas uma nova roupagem de práticas antigas, que, por exemplo, eram corriqueiras antes da Reforma ou logo após esta, quando então alguns homens resolveram voltar até o primeiro século, até o Novo Testamento, voltar à Escritura.

O que nos diz a Escritura? Quando escreveu a primeira epístola, Paulo registrou: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1 Co 11.1). Seria o mesmo que dizer, imitem-me no que me assemelho a Cristo, ou, como disse Spurgeon: "Não tenham nada a ver comigo onde não tenho nada a ver com Cristo". Seria, então, um absurdo aprender a partir da conduta de outros cristãos piedosos naquilo em que eles se parecessem com o Mestre? Obviamente, não! Vejamos que o exemplo não é absoluto e irrestrito, contudo se limita ao proceder de Cristo. Notemos, ainda, que o ensino de Paulo estava calcado na transmissão da tradição. A tradição era um termo usado pelos rabinos que identificava seu conjunto de ensinamentos os quais eram transmitidos a seus alunos. A fé cristã é construída com base nas tradições ou ensinos de Cristo e de seus apóstolos (1 Co 11.2; 15.1; Ef 2.20). Paulo transmitiu tradições práticas e doutrinárias dignas de crédito, tanto oralmente como por meio de epístolas (Rm 6.17; 1 Co 11.2,23; 15.3; 2 Tm 1.13), no entanto apenas suas palavras escritas foram preservadas para nós nas Sagradas Escrituras. Por conseguinte, ninguém pode reivindicar ser detentor da tradição oral transmitida pelo apóstolo.

Assim, não só é prudente, mas altamente recomendável que, como cristãos, não vivamos como se fôssemos pioneiros, desbravadores. Existe um legado. Se compreendo que o Espírito ilumina-me a mente, hoje, para que haja a devida compreensão das Escrituras, bem como viva, em consequência, de maneira sóbria, justa e piedosa, como posso entender — ou viver como se assim entendesse —, de maneira diversa, que o mesmo Espírito não iluminou e conduziu a outros que me precederam? E, desse modo, o entendimento global a que chego deve-se alinhar à de crentes piedosos e ortodoxos ao longo da história. Não se trata de outro momento ou outros tempos. Referimo-nos a uma mensagem antiga, entregue aos santos de uma vez por todas (Jd 3). Não há adendos, acréscimos. É até mesmo uma atitude de humildade aprender de homens fiéis e zelosos pela verdade (1 Ts 1.6; 2 Tm 2.2).

Soli Deo Gloria.

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A trágica vinda de Benny Hinn ao Brasil



Por Márcio Jones


Diante de alguma controvérsia doutrinária ou evento de questionável índole, o puritano John Owen (1616-1683) possuía um método solucionador interessante, o qual quero apresentar. Owen nunca tratou um problema direta e imediatamente; sempre o colocou em seu contexto. Além disso, não se precipitava em responder a perguntas suscitadas. Antes, perguntava: “que princípio está aqui envolvido”? Em seguida: “onde isto se encaixa na doutrina e no ensino geral da Bíblia?”. Vejo tal postura como muito equilibrada, que se distancia, principalmente, de análises equivocadas por falta de conhecimento e que diplomaticamente se adequa até mesmo à mais acirrada discussão teológica. Afinal, se nos dizemos cristãos, sobretudo reformados, invocamos como única regra de fé e prática a Sagrada Escritura, e, para solucionarmos dúvidas teológicas, devemos nos dirigir a Ela em última instância, e as paixões e partidarismos que fiquem em segundo plano. 

Partindo desse pressuposto, quero tecer alguns comentários sobre a recente vinda do sr. Benny Hinn ao Brasil, sobretudo à Taguantinga-DF, e as reuniões por ele lideradas, em geral, rotuladas de “cultos de avivamento”. Entendo que é de suma importância ao se estudar determinado instituto doutrinário identificarmos aquilo que não está contido em seu conceito. Ou seja, para que compreendamos o que vem a ser um avivamento, necessário é sabermos o que não é um avivamento. Para tanto, convém que tratemos um pouco sobre o ministério de um homem chamado Charles Finney. 

No século XIX, avivamento passou a ser um assunto de grande relevância, a partir do ministério do pastor Charles Finney, então presbiteriano, mais conhecido por suas técnicas do que por sua teologia nada ortodoxa. Antes dele, tais manifestações eram tidas como soberanas, graciosas e inesperadas, provenientes de Deus. Finney, porém, após narrar uma experiência marcante com o Espírito Santo, passou a compreender que avivamento espiritual nada mais é do que o emprego de determinadas leis espirituais. Ele o comparou à semeadura. Pensava que da mesma maneira com que se cultiva uma semente, no campo espiritual, se houver rigorosa observância aos métodos corretos o avivamento é possível de ser fabricado. É dizer, se o povo de Deus se arrepender de seus pecados e os confessar, buscar a Deus em oração, o avivamento virá.

Finney, então, começou a colocar tais métodos em prática. Ele costumava visitar cidades onde havia igrejas presbiterianas ou não, nas quais fazia reuniões de uma semana, pregando contra o pecado e a necessidade de as pessoas se arrependerem de seus pecados e se humilharem diante de Deus. Com efeito, ele narra, e outros também, resultados extraordinários, como quebrantamento, cidades inteiras mudadas pelo Espírito Santo mediante. Finney então inaugura um tipo de ministério que não havia antes na igreja, que é o do ‘avivalista’, um pastor especialista em produzir avivamentos.

Em sentido contrário, à luz da Escritura notamos que avivamento não é uma ciência, como afirmava Finney, mas um dom da graça da parte de Deus, impossível de ser produzido mediante a aplicação de determinados métodos. Segundo Franklin Ferreira, avivamento é “a ação soberana do Espírito Santo, agindo de tal forma que grande número de pessoas receba o evangelho ao mesmo tempo, enquanto a igreja abandona seus pecados”. Avivamento bíblico é, sim, um retorno às Escrituras, um retorno aos preceitos divinos, abandono dos ídolos. Algumas porções bíblicas consensuais entre os teólogos atestam esse posicionamento, por exemplo: Gn 35.1-15; 2 Rs 18.1 ; 2 Cr 14 e 15; 2 Cr 26; 2 Cr 34; Ne 8, 9.

Hoje, os expedientes adotados por Benny Hinn e os rótulos de suas reuniões, nos fazem lembrar, de imediato, de Charles Finney. Como no tempo de Finney, os cristãos da atualidade perguntam: “o que importa sua doutrina, se em tudo que Benny faz há grandes resultados, grandes manifestações de Deus?”. “Ora, tudo isso é, sim, o agir do Espírito Santo!”. Vigora o pensamento pragmático, de “aparentes” resultados, de grande concentração de pessoas, de comoção e histeria coletivas, desprezado o mínimo exame bíblico. 

O que pensar de um homem que abertamente diz que Deus não o permite pregar (veja vídeo no final, 10:50min.) — sem mencionar seus outros ensinos heréticos, veja aqui, por exemplo? Ora, se é a pregação o método por intermédio do qual Deus chama seus eleitos (Mc 1:38, Rm 10.14; 1 Co 1.21) e edifica a fé destes (Rm 10.17), como posso abraçar tal declaração como se viesse do próprio Deus?! O ministério de homens como Pedro, Paulo, Apolo estavam solidamente edificados sobre a pregação do evangelho. Vejamos Paulo, que de cidade em cidade anunciava o evangelho (At 13.16-41; At 14.1-7; At 16.13,14; At 17.10-31; At 18.5-11), procurando persuadir os seus ouvintes (2 Co 5.11). O escritor aos Hebreus afirma que "nestes últimos dias, nos falou Deus pelo Filho" (Hb 1.2). Cristo é a própria Palavra inegavelmente (Jo 1.1), sem mais revelações posteriores. E o trabalho do Espírito Santo, tão mencionado pelo pastor em comento, é glorificar a Cristo (Jo 16.14), dando-Lhe testemunho (Jo 15.26). Seria no mínimo ilógico glorificar a Jesus sem pregar o próprio Jesus, que é a Palavra. 

Não bastasse isso, há um convite despudorado a um cristianismo místico e esotérico que privilegia a experiência em detrimento da Escritura, como induz o referido pastor. Devemos provar os espíritos (1 Jo 4.1). E qual é o critério? Invariavelmente a Escritura, cujo conhecimento liberta (Jo 8.32). A nobre virtude dos cristãos de Bereia residia em seu hábito de não receber cegamente tudo quanto ouviam de um "avivalista" qualquer, mas em analisar avidamente as Escrituras a fim de comparar o conteúdo de um sermão com aquilo que estava escrito (At 17.11). Portanto, a experiência deve se conformar à Escritura, e não o contrário. Se assim não fosse, qual seria o critério para validar uma experiência anterior com uma posterior? E quando a comparação se der entre a experiência de um cristão e a de um budista ou de um hinduísta? Voltamos à mesma proposição: a baliza é a Escritura, a verdade que liberta, santifica e pavimenta a nossa comunhão com Deus. A fé cristã é essencialmente racional. Citando John Stott, "crer é também pensar".

Sola Scriptura!



Contrapondo Benny Rinn, John MacArthur explica o que é ser cheio do Espírito:


Fonte: Despertar de um avivamento
Divulgação: Bereianos
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O ocaso da igreja evangélica brasileira - o Festival Promessas

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Por Márcio Jones


Meu intuito ao analisar o referido festival é ser coerente e bíblico. Desejo que aqueles que se puserem a ler este texto o façam, o mais possível, isentos de parcialidade ou preconceitos. Que apartem de si todo o ideário que se criou a título de evangelicalismo moderno, sejam noções, conceitos, vertentes doutrinárias, tudo quanto se convencionou reputar como institutos que integram a estrutura desse evangelho “paralelo” que entre nós, brasileiros, se originou, e volvam seus olhos para o cristianismo bíblico, apostólico e reformado. Urge regressarmos à Escritura e aos dois mil anos de teologia ortodoxa para ‘examinarmos’, a referida questão — e tantas outras —, não solitariamente, mas ladeados por profetas, evangelistas, apóstolos, reformadores e puritanos.

O que dizer do aludido festival? Comecemos pelo fim. Qual é o grande problema da humanidade? Simples, é a equivocada noção do que vem a ser o homem. “Se a ideia básica sobre o que é homem estiver errada, então, necessariamente, também estará errada a ideia a respeito do que pode ser feito em favor dele”[1]. Steven J. Lawson afirma que o mais grave problema da humanidade é o diagnóstico errôneo de seu estado. Há os que entendem que a raça humana vai bem, obrigado! E, dessarte, o seu problema reside no meio em que está inserta. Doutra sorte, há os que enxergam a raça humana como um indivíduo enfermo, o qual se encontra debilitado, quiçá no leito de morte, contudo ainda consciente e recuperável, cuja saúde, ainda que lentamente, vai sendo restabelecida. Logo, ainda há capacidade em si mesma. Por último, o real e incontrastável diagnóstico é o esposado pelo evangelho de Cristo, segundo o qual o homem está fisicamente vivo, mas morto espiritualmente, separado de Deus[2] — não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer...pois todos pecaram (Rm 3:10-11, 23a).

Diante de um cenário de morte espiritual, o que demanda ser feito? Promover momentos de comoção coletiva, reafirmar a identidade evangélica brasileira por meio de um cristianismo atuante politicamente, em favor de uma emissora promíscua que abarrota os bolsos à custa de cantores que anelam popularidade e que cognominam eventos desse caráter de avivamento?! No itinerário da Sagrada Escritura, não, peremptoriamente. Precisamos, sim, expor, devassar a atual condição pecaminosa do homem, seu estado de morte e já putrefação dado o pecado no qual está inteiramente submerso e do qual se fez vassalo. Certa feita, um repórter inquiriu ao pr. Paul Washer acerca do porquê de ele falar tanto sobre pecado. Washer respondeu: “Porque eu quero que você ame a Deus”[3]. É dizer, enquanto o homem não compreende que é mau todo o desígnio de seu coração (Gn 6.5), que a inclinação de sua natureza caída é de inimizade para com Deus (Rm 8.7), que é ele não só amante (Jo 3.19), mas escravo do pecado (2 Pe 2.19), não há possibilidade de arrependimento e, com efeito, salvação.

Jesus afirmou em João 5.25: Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. O dito versículo aduz o chamado eficaz por intermédio da voz de Cristo, enquanto Deus concede aos espiritualmente mortos capacidade para reagir ao evangelho. Calvino pontificou a natureza da pregação da Palavra, a saber a “voz de Deus”, afirma Franklin Ferreira[4]. Prossegue o mencionado autor ao dizer que Calvino, “em seu comentário de Isaías, afirma que na pregação "a palavra sai da boca de Deus de tal maneira que ela sai, de igual modo, da boca de homens; pois Deus não fala abertamente do céu, mas emprega homens como seus instrumentos, a fim de que, pela agência deles, possa fazer conhecida a sua vontade". Ora, nesse mesmo itinerário o apóstolo Paulo atesta que “aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação” (1 Co 1.21b) e que “a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Arremata Paulo: Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14). Portanto, é insofismável que o meio de propagação da mensagem de Cristo é a exposição da Escritura, a apresentação de todo o conselho de Deus (At 20.27), não o fortalecimento da imagem de um pseudo-deus — por meio de canções humanistas, românticas e triunfalistas, completamente alijadas de teor bíblico-teológico —, gestado segundo o senso comum e tudo que lhe compraz.

Portanto, ignorar a condição em que se encontram os ímpios e encará-la sob esse diapasão é similar a um médico que constata o câncer que acomete a um paciente e lhe degenera o ser, porém diz-lhe que seus sintomas referem-se a um simples resfriado, que pode ser facilmente combatido por um leve analgésico. No caso em tela, muitos afirmam que o festival em comento tem difundido o evangelho. Pergunto: que evangelho? O evangelho de um deus que é somente amor, mas não justiça; o evangelho de um deus que livra da tribulação, e não na tribulação; o evangelho de um deus que faz todos os seus filhos ascenderem profissional, social e financeiramente; o evangelho de um deus que não permite a um filho seu sofrer de enfermidade; o evangelho de um deus que se revela mediante experiências, e não em sua Palavra; o evangelho de um deus cuja vontade é atropelada pelo querer do homem, o qual determina, decreta e profetiza; o evangelho que traz um “avivamento” em meio a uma sociedade cada vez mais corrupta, violenta, hedonista. Esse não é o evangelho de Jesus Cristo, a Boa Nova de salvação.

O evangelho não se trata de uma proposição ideológica ou filosófica, a cuja compreensão chega o ouvinte/leitor a depender a capacidade lógico-argumentativa do pregador/escritor, muito menos de eventos musicais midiáticos que denotam o grande número do povo dito evangélico brasileiro e a sua força política. O evangelho é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16), apreendido intelectualmente por um homem quando o Senhor lhe abre o coração (At 16.14; Jo 6.65) compungindo-o profundamente. A Palavra de Deus não necessita de muletas, adendos, apêndices para se adequar à realidade do século XXI. O homem precisa, sim, ser confrontado com a realidade e ser chamado ao arrependimento (Mt 3.2; 4.17; At 2.38). Que preguemos a Cristo, e este crucificado!

Notas:
[1] LLOYD-JONES, David Martyn. 
Sincero, mas errado. São Paulo: Editora FIEL, 1995. p.13.
[3]WASHER,Paul. O verdadeiro evangelho. São Paulo: Editora FIEL, 2012. p. 58

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O Espírito Santo e os dons naturais

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Por Márcio Jones

Que o evangelho não se resume a uma proposição filosófica, calcada em sabedoria humana, isso é claro, notório e indiscutível. O alcance da verdade revelada de Deus nem sequer é possível mediante a ação ainda que dos mais brilhantes intelectos que já houve sobre a Terra, pois se do contrário fosse, o homem poderia se gloriar em ter conhecido o Senhor por seus próprios méritos. Entretanto, Deus fez conhecida a sua estupenda sabedoria, que outrora se encontrava oculta (1 Co 2:7), por intermédio da revelação da pessoa de Cristo. 

Cabe enfatizar que a inteligência humana não apreende por si só essas verdades. Quando, porém, lhe é desvelado o conteúdo do evangelho, então o homem não só as entende, mas também as aceita (1 Co 2:15), passam a lhe fazer sentido (2 Co 4:3-5). É dizer, citando John Stott, "crer é também pensar". 

Nessa esteira, não poucos apresentam um contraste entre a fé e o raciocínio; entre o Espírito Santo e Sua obra de um lado e os dons naturais e a educação do outro. Afirmou Lloyd-Jones que "alguns parecem ter a ideia de que absolutamente nada importa, exceto que o homem seja convertido e receba o dom do Espírito Santo. E então, baseados nisso, há os que alegam que, seguramente, não importa quais sejam os dotes naturais da pessoa; não importa se ela é inteligente ou não, se é instruída ou ignorante - nada importa, senão o poder do Espírito". 

Ora, a Escritura contradiz o referido ponto de vista. Basta folhear suas páginas e perceber que Deus usou homens notáveis, de destacada capacidade, de brilhantismo inequívoco, que foram preparados de maneira singular. Vejamos Moisés, v.g., com habilidades naturais notórias e um grande saber adquirido na casa de Faraó. Notemos Isaías, com sua linguagem apresentada em forma de argutos e vigorosos argumentos, demonstrando o grande poeta que era. Cheguemos a Saulo de Tarso. O que dizer deste erudito? Judeu, educado como fariseu, teve o privilégio de ser instruído aos pés de Gamaliel, o maior mestre dentre os fariseus. Além de ser um homem oriundo de um dos maiores centros de cultura da época, similar à Atenas e Alexandria. O Senhor utilizou-se nitidamente de de toda essa capacidade para realizações especiais. É inegável. Vemos ainda base sólida para esse argumento ao longo da história da Igreja cristã. Homens de extrema capacidade e extraordinariamente dotados foram Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, João Wesley e tantos outros. 

O que resta sabermos, sim, é que não devemos estabelecer a nossa confiança nos dons naturais. Não devemos nos gloriar neles, creditar a eles nosso êxito. Essa, segundo o Dr. Lloyd-Jones, foi a preocupação de Paulo ao escrever aos coríntios. "Os dons naturais não são descartados nem deixados de lado pelo Espírito Santo. O Espírito Santo exerce controle sobre eles e faz uso deles".

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A figura do pastor profissional: uma realidade de nossos dias

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Por Márcio Jones

Seus movimentos são fria e milimetricamente calculados. Caminhar lento e passos firmes. Olhar penetrante, persuasivo, e fala convincente, com alternâncias de tonalidade e volume. Um levantar de mãos aqui, um soco no ar ali, e desse modo ele vai conduzindo a sua reunião "profética". Nada disso, no entanto, se dá antes que o grupo de louvor engendre a atmosfera emocional propícia, que tenha o condão de fazer fluir lágrimas pelo rosto dos ouvintes ou, ao revés, os conduza à visualização de uma situação de guerra, em marcha, muito bem delineada pelas películas retumbantes da bateria e pelos gestos efusivos das dançarinas. Ato dois: os fieis se encontram à sua mercê. Hipnotizados, anestesiados pela "unção" que parece emanar da epiderme do pregador. Transpiração, calafrios, choro e rajadas de línguas permeiam o ambiente. Até que, sob a orientação do pseudo-mensageiro, quão logo se dispersa a “atmosfera espiritual”, apanham a Escritura, abrem-na e leem um único versículo - quando não são desencorajados a abri-la. Tomam assento. Inicia-se a interminável digressão do pregador, sob um tema sempre curioso, intrigante ou cabalístico, que introduz a aura gnóstica de revelação só a ele acessível, por óbvio. O texto é o ponto de partida, mas não o de chegada; aponta a direção, mas interessam mais os desvios do caminho. Ao final do sermão, exclamam um e outro: "por dezenas de vezes li tal texto e nunca notei o aludido pelo pregador. Verdadeiramente ele é um homem ‘ungido’”! Não me refiro a Jonas Nightengale, o ficto evangelista protagonizado por Steve Martin em Fé demais não cheira bem, mas à figura do pastor — neopentecostal —  de nosso tempo.

Por conseguinte, apelo: pastor, exponha a Cristo crucificado, e não suas técnicas persuasivas de manipulação de massas. Já foi dito que o púlpito não é um local para discurso acerca de preferências e opiniões pessoais, para pirotecnias ou extravasar de megalomanias, mas para a fiel exposição da Sagrada Escritura.  Utilizar-se do momento de maior preeminência durante um culto público para turvar mais ainda a visão daqueles que já andam a tatear em um contexto cristão de absoluto analfabetismo bíblico é um atentado contra a obra do Senhor. A pregação do evangelho, no dizer de Calvino, é centro da vida e obra da igreja. Tal momento não serve de palanque para teatralidade ou demonstração de uma espiritualidade que mais estatui um sistema de castas, à semelhança do existente na Igreja Romana, levando as ovelhas a vislumbrar um “nível de intimidade com Deus” ao qual elas nunca chegarão. Entenda que os pregadores de maior destaque na história da igreja foram aqueles que não se apegaram a nenhuma forma de exibicionismo ou a subterfúgios psicológicos, antes se esvaziaram até que nada mais de si restasse. Compreenderam que, ao se apequenar, pela graça de Deus, poderiam se fazer hábeis instrumentos nas mãos do Senhor. Compreenderam que ao Senhor pertence a glória, no diapasão do dizer de C. H. Spurgeon, ao exprimir seu anseio como cooperador do Reino, nas seguintes palavras: “que eu seja sepultado em algum lugar silencioso, onde as folhas caem e os pássaros brincam e onde as gotas de orvalho brilham nos raios de sol; e se acaso tenha que ser escrito algo sobre mim, que seja o seguinte: "aqui jaz o corpo de um "João Ninguém", esperando pelo surgimento de seu Senhor e Salvador, Jesus Cristo". É necessário que Ele cresça e nós diminuamos (Jo 3:30).

Paulo, o abnegado apóstolo, ao pregar aos cristãos de Corinto deixou-lhes claro que não fez sobressaltarem os seus dons naturais como se o evangelho de Jesus se resumisse à ostentação de linguagem ou de sabedoria (1 Co 2:1), mas que não teve outro objetivo a não ser expor a Cristo e este crucificado (1 Co 2:2). O apóstolo não somente entendia o que estritamente lhe competia anunciar, como despenseiro que da obra de Deus, contudo também se encontrava imbuído até as entranhas por um santo temor por entender que sua incumbência não estava calcada em mérito pessoal, e sim na transbordante misericórdia proveniente de Deus (2 Co 4:1). A mensagem do evangelho não demanda muletas para que alcance plena eficácia, métodos mirabolantes que o façam mais atrativo para quem deseja uma religião que o faça lembrar-se de tudo que o agrada no mundo. E nesse itinerário tudo é permitido, sob a bandeira do pragmatismo: o importante são os resultados, não importando os meios.

O evangelho autêntico continua a ser o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. O pregador não necessita de lançar mão de outro meio a não ser a fiel exposição da Escritura. Ora, penso que se o evangelho se constituísse em algo alcançável mediante esforços intelectuais ou cognitivos, seria perfeitamente lícito ao homem, além de gloriar-se por seus próprios méritos, entupi-lo com toda a sorte de mecanismos psicológicos para arrebanhar uma gama de simpatizantes que sequer cogitam o porquê de poderem se declarar cristãos e de serem verdadeiramente salvos. Não é este, porém, o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual não atribui glória a homem algum, mas confere única e exclusivamente a Si mesmo, o Senhor da Glória, todo o louvor, majestade, domínio, aclamação, honra pelos séculos dos séculos. Não a nós Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e fidelidade (Sl 115:1).

Sola scriptura

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As sinagogas de satanás e o evangelho pós-moderno

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Por Márcio Jones

Pão e circo! Como na Roma Antiga, são os vetores em torno dos quais gira a sociedade hodierna, diz o Bispo Walter McAlister, em seu livro O fim de uma era. “Não há nada a que se atribua mais relevância senão necessidades e prazer: primeiro o que vai encher a minha barriga e depois o que vai me divertir”. E onde entra a igreja nisto? “Está ela sendo fortemente sugada por um redemoinho de forças culturais e não tem mais uma âncora para segurá-la. O que vemos na igreja é uma desorientação profunda. Ela se segura em qualquer coisa para tentar encontrar sua missão”, prossegue o Bispo.

A igreja de nossos dias, de forma majoritária, propugna por uma verdadeira emancipação da reforma protestante, iniciada em 1517 por Martinho Lutero. O objetivo parece ser a aquisição de total independência por parte dos que assim fazem, a fim de que possam dar os rumos que bem quiserem às atividades eclesiásticas. Vemos a inovação interpretativa, a insuficiência das Escrituras, o abandono da sã teologia, o uso de recursos de marketing, a luta por poder e legitimidade, tudo isso em total detrimento dos princípios e postulados, essencialmente bíblicos, deixados como legado pelos reformadores.

A passos largos caminha a igreja pós-moderna rumo à promoção do espetáculo mais inovador que faça os templos se encherem cada vez mais, da estratégia que mais desperte a atenção do público — sobretudo da juventude — e das mais variadas soluções de marketing empresarial. Jesus é a logomarca! “Importa antes ver a igreja cheia! As pessoas estão ‘se convertendo’”, é o que ouvimos e lemos. Nos EUA, por exemplo, as igrejas chegam até mesmo a promover enquetes com não-crentes, com o intuito de saber o que gostariam eles de ver na igreja para que passassem a participar de suas atividades — quase chegamos a esse ponto! Falta pouco. Penso ser a culturalização do evangelho, a mundanização da igreja. É picadeiro e não púlpito.

“A igreja hoje tem ânsia por poder e legitimidade. Logo, quando um conjunto toca uma música, dizem ‘vocês são tão bons que parecem Os Paralamas do Sucesso’. Ou seja, nossos parâmetros de comparação estão no mundo. Nossos parâmetros de importância também são mundanos. Por exemplo: o pastor que realmente tem uma boa palavra tem de estar na televisão, porque, se não estiver, não deve ter muita importância. E, de fato, a igreja está se perdendo nessa sociedade de aparências e correndo atrás daquilo que não é essencial. A igreja hoje é vítima de si mesma, mas, fundamentalmente, é vítima de sua ignorância da Palavra, da ignorância de quem ela é e a quê veio, do porque da sua existência”, arremata McAlister. Afirmo que essas congregações são verdadeiras sinagogas de satanás. Estão a seu serviço.

“Mas ainda que nós ou um anjo do céu pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado”(NVI)!

É a sentença proferida pelo apóstolo Paulo em Gálatas 1:8.

No verso 6 do mesmo capítulo, o apóstolo, estupefato, diz: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho”.

As igrejas da Galácia estavam sendo seduzidas e enredadas pelos falsos mestres que traziam ensinos judaizantes. Asseveram que Paulo não era um apóstolo autorizado e que o homem não poderia ser justificado somente mediante a fé em Cristo Jesus, mas que ainda devia fiel observância aos ritos cerimoniais da lei de Moisés (At 15:1,5). Ora, assim quiseram eles tornar a obra de Cristo na cruz insuficiente e, por essa razão ultrajante, de negação do próprio Deus da graça, de forma severa e intrépida, Paulo brande a espada do Espírito contra esses hereges.

Paulo encontra-se perplexo com a atitude das igrejas cristãs da Galácia. Outrora haviam eles acatado com tanto entusiasmo o evangelho de Cristo para logo depois abandoná-lo, e passar a uma outra doutrina, a um outro evangelho, o qual, em verdade, não é outro. Tão rapidamente apostataram eles da fé, abandonaram o Deus da graça. O reformador João Calvino, citado pelo Rev. Hernandes Dias Lopes, denuncia esse mesmo desvio em seus dias, ao escrever: “Os papistas decidiram conservar um Cristo pelas metades e um Cristo mutilado, e nada mais, e estão, portanto, separados de Cristo. Estão saturados de superstições, as quais são frontalmente opostas à natureza de Cristo”.

A carta aos Gálatas é absurdamente pertinente à realidade que vivemos nos dias de hoje. Encaixa-se como uma luva no contexto situacional moderno. Traz um tom apologético com profunda necessidade de ser resgatado, a fim de quebrar o mórbido silêncio que impera nos templos de nossas congregações. Silêncio esse oriundo de ministros que zelam mais por sua própria reputação do que pelo anúncio do verdadeiro evangelho e pelo frontal e declarado combate à enxurrada de doutrinas heréticas e humanistas, que assolam a igreja contemporânea. Tais ministros jamais poderão afirmar, como Paulo, que se buscassem agradar a homens não seriam servos de Cristo (Gl 1:10). “São pastores que apascentam a si mesmos. Líderes que se servem das pessoas para erguer um monumento à própria vaidade”, diz o Rev. Hernandes Lopes.

Arvoremos a bandeira do evangelho de Cristo, dos apóstolos, dos reformadores, dos puritanos. Resgatemos nossas origens, nossas raízes, pelo Senhor estabelecidas, e nos lembremos do firme fundamento de nossa fé, o qual é Jesus Cristo (1 Co 3:11).

- Sobre o autor: Protestante reformado. Membro da Igreja Presbiteriana Iawe Nissi. Um vaso de barro a serviço do Reino de Deus e em defesa do Evangelho de Jesus Cristo. Inimigo declarado do movimento evangélico emergente e das doutrinas humanistas e diabólicas. Alguém em defesa da sã doutrina.

Fonte: Despertar de um avivamento | Divulgação: Bereianos
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Weber, Montesquieu e o movimento neopentecostal

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Por Márcio Jones

Durante muito tempo fui um entusiasta apaixonado pelo Direito constitucional. Algo que começou no período de preparação para concursos públicos, o que me levou a cursar a faculdade de Direito, ser aprovado num concurso e chegar até a pensar em lecionar a referida disciplina.  Contudo, já convertido e certo do chamado de Deus, acabei por me encantar, em definitivo, pela Teologia. Obviamente, o curso me rendeu um bom aprendizado e algumas noções político-jurídicas das quais me lembrei em conversas recentes com amigo(a)s acerca do amplamente questionável movimento neopentecostal de que fazem parte, do qual também eu já fiz.

Weber, ao tratar dos tipos de dominação [1],  expende a “autoridade que se baseia em dons pessoais e extraordinários de um indivíduo (carisma) — devoção e confiança estritamente pessoais depositadas em alguém que se diferencia por qualidades prodigiosas, por heroísmo ou por outras qualidades exemplares que dele fazem o chefe. Desse jeito é o poder “carismático”, exercido pelo profeta ou, no domínio político, pelo dirigente guerreiro eleito, pelo soberano escolhido por meio de plebiscito, pelo grande demagogo ou pelo dirigente de um partido político”.

Para muitos, hoje, as citadas características trazidas à baila por Weber são as credenciais que vão adiante de um ministro do evangelho. É dizer, se ele as tem é um grande homem de Deus, não importa se a doutrina por ele propagada é ou não sã. Aliás, doutrina?!?! Para que mesmo?! Raridade quem, em nossos dias, se preocupa com isso. Se o dito líder é carismático, paternal, sensível e hospitaleiro, não quedam dúvidas: eis um pastor enviado dos céus. Não olvidemos irmãos, “levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos” (Mt 24:11), “surgirão faltos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24:24) e “porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de se admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2 Co 11:13,14), entre outras advertências, nesse itinerário, arroladas na Escritura.

O que mais avulta salientar é o modelo de liderança despótico instalado nas igrejas adeptas ao tal movimento. Deparamo-nos com uma estrutura praticamente papal, na qual se tem, num pedestal posicional e espiritual, a liderança e no plano inferior, o rebanho. Liderança esta destinatária de revelações específicas da parte de Deus, não extensíveis às ovelhas, porque, afinal, o líder está num patamar mais elevado de espiritualidade. Ademais, na esmagadora maioria dos casos, dentro do colégio de pastores, o pastor-presidente detém privilégios diversos dos demais, como a insuscetibilidade de questionamento — quase a infalibilidade papal, é dizer é ele um homem acima de qualquer suspeita, acima do bem e do mal, e aquilo que disser é lei, e quem não acatar suas “convocações e decretos” é tachado como um rebelde, alguém que está fora da “visão”.

Nessa esteira, são criadas obrigações e mais obrigações, como pesados fardos difíceis de carregar postos sobre os ombros de suas ovelhas, os quais, todavia, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los, à semelhança dos fariseus e escribas aludidos por Jesus em Mateus 23:4. Como vínculo líder-ovelha aqui se estabelece o funesto discipulado, que mais se assemelha a um vínculo semi-escravocrata em que o suposto discipulador toma partido nas decisões de foro íntimo do discípulo —  intrometendo-se em toda a sorte de resoluções a serem por este tomadas; gera restrições, estipula ferrenhas obrigações a que participe de eventos de lavra da igreja, ainda que, para tanto, seja necessário o desembolso de vultosas quantias. Se o “discípulo” não detiver os referidos valores que se desdobre e encontre um jeito de os arranjar! E, providenciando o pobre discípulo tal montante, torna-se um exemplo heroico, um modelo a ser seguido. Quanta manipulação!

Ora, “Montesquieu tinha uma profunda descrença quanto ao homem desvencilhar-se de todos os desatinos que o poder o leva a cometer. Para ele a força corruptora do exercício do mando político está sempre presente. Chegou mesmo a afirmar que todo poder corrompe soberanamente. Não sendo possível apelar para uma eventual regeneração do próprio homem forçoso se encontrar um remédio para o arbítrio e a prepotência dentro do mecanismo de exercício de poder. Era preciso, pois, dispor as coisas de tal sorte que o próprio poder contivesse o poder. Daí a necessidade de seu desmembramento em três funções distintas, exercidas por órgãos também diferenciados, de molde tal a que cada uma pudesse conter os possíveis abusos da outra. Estes mecanismos de controle recíproco foram mais bem desenvolvidos no século XIX. Deu-se-lhes o nome de “checks and balances”, freios e contrapesos”.[2]

Assim, entendeu Montesquieu ser necessário fazer com que o poder, no âmbito estatal, não mais se concentrasse nas mãos de um único indivíduo, no caso o soberano, e fosse então pulverizado entre diversos órgãos agora exercentes das principais funções de um Estado. “O poder absoluto tende a corromper absolutamente”, dizia Lord Acton. Pelo que não convém que, na esfera eclesiástica, o poder dimane de um único homem, o qual, além, de tudo ainda arroga para si a infalibilidade e a inerrância (uma espécie de ‘the king can do no wrong’, o brocardo vigente nas monarquias absolutistas). E “ai de quem tocar no ungido do Senhor”! Quanto ignorância!

Concluo, amados irmãos, depois de todos os questionamentos lançados sobre o modelo de liderança neopentecostal, afirmando que quanto mais individualizada a liderança, maiores tendem a ser os desmandos. Quanto mais individualizado o comando, maior a noção de soberania, supremacia, até chegar-se à pseudo-condição de semideus e achar-se digno de impor sua vontade inquestionável sobre as pobres ovelhas, ignorando até mesmo atitudes que primam por maior transparência e lisura, como a prestação de contas e a divulgação salarial. Em verdade, as igrejas adeptas ao referido movimento, na maioria dos casos, estão assentadas sobre o modelo supracitado, com alguns nuances, algumas variação em maior ou menor grau.

Soli Deo Gloria.

Notas:
1. WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo. Editora Martin Claret, 2004.
2. BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de teoria do Estado e ciência política. 5ª edição. São Paulo, 2002. Celso Bastos Editor.

- Sobre o autor: Protestante reformado. Membro da Igreja Presbiteriana Iawe Nissi. Um vaso de barro a serviço do Reino de Deus e em defesa do Evangelho de Jesus Cristo. Inimigo declarado do movimento evangélico emergente e das doutrinas humanistas e diabólicas. Alguém em defesa da sã doutrina.

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