Os Evangélicos e a Revolução Moral Gay

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Por Albert Mohler Jr.

A igreja cristã tem enfrentado muitos desafios na sua história de 2000 anos. Mas agora está enfrentando um desafio que sacode seus alicerces: o homossexualismo.

Para muitos observadores, isso parece estranho e até mesmo trágico. Por que os cristãos não podem simplesmente unir-se à revolução?

E não se enganem, é uma revolução moral. Como o filósofo Kwame Anthony Appiah da Universidade de Princeton demonstrou em seu recente livro, "The Honor Code" (O Código de Honra), as revoluções morais geralmente permanecem por longos períodos. Mas isso é difícil de acontecer com o que temos testemunhado na questão do homossexualismo.


Em menos de uma simples geração, o homossexualismo passou de uma coisa que era quase universalmente entendida como pecado, para outra que está sendo declarada equivalente à moral da heterossexualidade — e merece tanto a proteção legal quanto o encorajamento público. Theo Hobson, um teólogo britânico, argumenta que isto não é exatamente o enfraquecimento de um tabu. Pelo contrário, é uma inversão moral que acusa aqueles que defendem a antiga moralidade de nada menos que "deficiência moral".


As igrejas e denominações liberais facilmente escaparam dessa situação desagradável. Simplesmente se acomodaram à nova realidade moral. Agora o padrão está estabelecido. Essas igrejas discutem o assunto com os conservadores argumentando que mantêm a antiga moral e os liberais defendendo que a igreja deve se adaptar ao que é novo. Finalmente, os liberais ganharam e os conservadores perderam. A seguir, a denominação consagra abertamente os candidatos gays ou decide abençoar as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Esse é um caminho pelo qual os cristãos evangélicos comprometidos com toda a autoridade da Bíblia não podem tomar. Uma vez que cremos que a Bíblia é a palavra de Deus revelada, não podemos nos acomodar com essa nova moralidade. Não podemos fazer de conta que não sabemos o que a Bíblia ensina explicitamente, que todos os atos homossexuais constituem pecado, o que acontece em todo o comportamento sexual humano fora da aliança do casamento. Cremos que Deus revelou um padrão para a sexualidade humana que além de apontar para o caminho da santidade, também indica a verdadeira felicidade.


Portanto não podemos aceitar os sedutores argumentos que as igrejas liberais adotaram tão rapidamente. O fato de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo agora é uma realidade legal em diversos estados significa que devemos futuramente estipular que seguimos as Escrituras para definir o casamento como a união de um homem e uma mulher — e nada mais.


Fazemos isso sabedores de que antes, em nossa sociedade, muitos partilhavam das mesmas pressuposições morais, mas agora um novo mundo está surgindo rapidamente. Não precisamos ler as pesquisas e as avaliações, tudo o que temos de fazer é conversar com os nossos vizinhos ou assistir a entrevistas culturais.

Nesta situação cultural muito desagradável, os evangélicos devem se declarar dolorosamente explícitos de que não falamos sobre o pecado da homossexualidade como se nós não tivéssemos pecado. Na verdade, é exatamente porque nos reconhecemos pecadores e sabemos da necessidade de um salvador é que viemos a crer em Jesus Cristo. Nosso maior temor não é que a homossexualidade seja normatizada e aceita, mas que os homossexuais não reconheçam sua própria necessidade de Cristo e do perdão dos seus pecados.


Esta não é uma preocupação que seja facilmente expressa aos poucos. É no que verdadeiramente acreditamos.


Ficou abundantemente esclarecido que os evangélicos falharam de tantas maneiras na solução deste desafio. Temos com freqüência falado sobre a homossexualidade de maneira crua e simplista. Falhamos em reconhecer que a sexualidade define claramente que somos seres humanos. Falhamos em reconhecer o desafio da homossexualidade como questão evangélica. Somos aqueles, afinal, que supomos saber que o Evangelho de Jesus Cristo é o único remédio para o pecado, a começar do nosso próprio.

Minha esperança é que os evangélicos estejam agora prontos para assumir este desafio de uma maneira nova e significativa. Realmente não temos escolha, pois estamos falando de nossos próprios irmãos e irmãs, nossos próprios amigos e vizinhos, ou talvez os jovens nos bancos ao lado.


Não podemos escapar do fato de que estamos vivendo no meio de uma revolução moral. Entretanto, não é apenas o mundo que nos rodeia que está sendo testado, mas também a igreja cristã. Precisamos descobrir quanto cremos no Evangelho que tão impetuosamente pregamos.


- Dr. Albert Mohler é o presidente do Southern Baptist Theological Seminary, pertencente à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos; é pastor, professor, teólogo, autor e conferencista internacional, reconhecido pela revista Times como um dos principais líderes entre o povo evangélico norte-americano. É casado com Mary e tem dois filhos, Katie e Christopher.

Traduzido por: Yolanda Mirdsa Krievin
Traduzido do original em inglês: Evangelicals and the Gay moral Revolution.
Publicado originalmente no site:
www.albertmohler.com
Fonte: [ Blog Fiel ]

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Você está Crescendo em Cristo?

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Por J. C. Ryle (1816-1900)

a. Um dos sinais do "crescimento na graça" é a humildade crescente. O homem cuja alma está "crescendo" sente mais a própria indignidade e pecaminosidade, a cada ano que passa. Ele se dispõe a dizer, juntamente com Jó: "Sou indigno..!', ou com Abraão: "...sou pó e cinza", ou com Jacó: "...sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade, que tens usado para com teu servo", ou com Davi: "Mas eu sou verme, e não homem..!', ou com Isaías: "...sou homem de lábios impuros..!', ou com Pedro: "Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador" (Jó 40:4; Gn. 18:27; 32:10; SI. 22:6; Is. 6:5; Lc 5:8).

Quanto mais um crente aproxima-se de Deus, tanto mais ele percebe a santidade e as perfeições de Deus, tanto mais tornar-se-á sensível para com a sua própria indignidade e imperfeições. Quanto mais ele avança na sua jornada para o céu, tanto mais compreende o que Paulo quis dizer, quando afirmou: "Não que eu... tenha já obtido a perfeição" "...eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo..!' "A mim, o menor de todos os santos..!' "...Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores dos quais eu sou o principal" (Fp. 3:12; I Co. 15:9; Ef. 3:8; I Tm. 1:15).

Quanto mais maduro para a glória estiver um crente, à semelhança do milho maduro, tanto mais inclinará a cabeça para o chão. Quanto mais brilhante e clara for a sua luz, tanto mais perceberá suas falhas e fraquezas, aninhadas em seu próprio coração. Quando ele, a princípio, converteu-se, diria que percebia bem pouco dessas falhas e fraquezas, em confronto com o que percebe agora. Quer alguém saber se está crescendo na graça? Verifique, em seu próprio interior, se a sua humildade está aumentando.

b. Um outro sinal do "crescimento na graça" é a fé e o amor crescentes ao Senhor Jesus Cristo. O homem que está "crescendo", a cada ano que passa encontra mais razões para descansar em Cristo, regozijando-se cada vez mais no fato que tem um tão grande Salvador. Não há dúvida que o crente, ao converter-se, pôde ver muita coisa em Cristo. A sua fé agarrou-se na expiação que há em Cristo, e isso lhe infundiu esperança.

Porém, à medida em que ele vai crescendo na graça, também vai percebendo milhares de aspectos, na pessoa de Cristo, que a princípio nem ao menos sonhava. Seu amor e Seu poder, Seu coração e Suas intenções, Seus ofícios como nosso Substituto, Intercessor, Sacerdote, Advogado, Médico, Pastor e Amigo vão-se desdobrando diante da alma que cresce, de uma maneira indescritível. Em suma, tal crente descobre em Cristo tudo aquilo que a sua alma necessita, embora, no começo de sua vida cristã não conhecesse nem a metade de tudo isso. Quer alguém saber se está crescendo na graça? Examine o seu interior para verificar se o seu conhecimento de Cristo está aumentando.

c. Uma outra marca de crescimento na graça é uma amadurecida santidade de vida e conversação. O homem cuja alma está em crescimento adquire um maior domínio sobre o pecado, o mundo e o diabo.

Torna-se mais cuidadoso com o seu temperamento, palavras e ações. É sempre mais vigilante sobre a própria conduta, em cada aspecto da vida. Esse homem é o que mais se esforça por estar conformado à imagem de Cristo em todas as coisas; e segue-O tanto como seu exemplo pessoal quanto confia nEle como seu Salvador. Não se satisfaz com antigas conquistas e a graça já antes dispensada. Esquece as coisas que para trás ficaram e marcha para as que estão à frente, fazendo de "Alto!", "Superior!", "Avançado!" e "Progressivo!" o seu contínuo alvo (Fp. 3:13).

Na terra ele anseia e almeja ter uma vontade mais inteiramente uníssona com a vontade de Deus. O seu principal objetivo no céu, além de estar na presença de Cristo, é a completa separação de todo o pecado. É possível alguém saber se está crescendo na graça? Prossiga em sua busca por santidade.

d. Ainda outro sinal de "crescimento na graça" é a crescente espiritualidade nos gostos e na mente. O homem cuja alma está "crescendo" interessa-se mais profundamente pelas realidades espirituais a cada ano que passa. Não negligencia os seus deveres para com o mundo. Cumpre fiel, diligente e conscienciosamente cada relação da vida, em seu próprio lar ou com as pessoas de fora. Porém, o que ele mais aprecia são as realidades espirituais. Caminhos, modas, diversões e recreações do mundo ocupam um lugar cada vez menor em seu coração.

Ele não chega a condenar essas coisas como diretamente pecaminosas, e nem afirma que aqueles que se ocupam delas estão indo para o inferno. Tão-somente sente que elas exercem uma atração cada vez mais fraca sobre os seus afetos, e, gradualmente, elas parecem menores e mais frívolas aos seus olhos. Companheiros espirituais, ocupações espirituais, diálogos de natureza espiritual são as coisas que parecem ir adquirindo um valor sempre crescente para ele. Deseja alguém saber se está crescendo na graça? Examine o seu próprio coração para averiguar se os seus gostos estão se espiritualizando de maneira crescente.

Fonte: [ Josemar Bessa ]
Via: [ Tome a Sua Cruz e Siga-me ]

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A Doutrina da Soberania de Deus

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Por Samuel Falcão

Outra doutrina que implica predestinação é a da Sobera­nia de Deus. Já discutimos, no capítulo segundo desta tese, a doutrina da soberania de Deus como um argumento em favor dos decretos do mesmo Deus. Por isso vamos agora ser breve.

A soberania de Deus não é uma doutrina exclusivamente calvinista, mas é mantida por todos os cristãos. Todos admitem que Deus é soberano na Criação e na Providência. Também deve ser soberano na Salvação.

Podemos provar a soberania de Deus na salvação pelas doutrinas da depravação total e do novo nascimento, que já consideramos. Visto como Deus é soberano, Ele tem poder tanto para criar, como para não criar. E uma vez que o homem está mor­to em delitos e pecados e Deus tem poder para criar ou para não criar, a recriação do homem depende completamente da soberania e da misericórdia divinas. Deus é tão soberano em criar o homem para a nova vida, como foi soberano em sua primeira obra da criação. Se reconhecemos que Deus é soberano para criar ou não criar no mundo físico, para sermos coerentes precisamos reconhecer que Ele é soberano para criar ou não criar no mundo espiritual. E isto é apenas admitir que Deus tem o direito de ser Deus.

Se Deus tivesse de escolher os homens por causa de algu­ma coisa neles, dependeria de suas criaturas e, assim não seria soberano.

“Que havia nos eleitos que atraísse para eles o cora­ção de Deus? Seriam certas virtudes que eles possuís­sem? Seria porque fossem generosos de coração, de bom temperamento, verazes, numa palavra, foi por­que fossem “bons” que Deus os escolheu? Não, por­que nosso Senhor disse, “Bom só existe um, que é Deus” (Mat.19:17). Seria por causa de alguma boa obra que eles tivessem realizado? Não, porque está escrito, “Não há quem faça o bem, não há nem um se­quer” (Rom. 3:12). Seria porque eles se mostrassem ansiosos e zelosos por conhecer a Deus? Não, porque outra vez está escrito “Não há quem busque a Deus” (Rom.3:11). Seria porque Deus previu que eles iam crer? Não, porque como podem crer em Cristo os que estão mortos em delitos e pecados? Como podia Deus saber de antemão que alguns creriam, se lhes era impossível crer? A Escritura declara que a fé nos vem “mediante a graça” (At. 18:27). A fé é dom de Deus, e sem esse dom ninguém é capaz de crer. A causa da escolha, portanto, está em Deus mesmo, e não nos objetos de Sua escolha. Ele escolheu aqueles que escolheu, sim­plesmente porque resolveu escolhê-los”.[1]

Os que são condenados, o são por causa de seus próprios pecados, e Deus, em condená-los, é apenas justo. Os que são salvos, entretanto, o são porque “isto pareceu bem” aos olhos de Deus.

Thomas A. Kempis escreveu no seu célebre livro “Imita­ção de Cristo”:

“Conheci de antemão meus amados, antes dos séculos. Escolhi-os do mundo; não foram eles que primeiro me escolheram. Chamei-os por graça, atraí-os por miseri­córdia, guiei-os em segurança através de várias tentações. Cumulei-os de gloriosas consolações. Dei-lhes perseverança, revesti-os de paciência. Considero tan­to os primeiros como os últimos; abraço a todos com amor inestimável. Devo ser louvado em todos os meus santos. Devo ser bendito acima de todas as coisas, e honrado em cada um daqueles a quem por essa forma gloriosamente exaltei e predestinei sem quais quer méritos que previamente tivessem”.[2].

Deus tem, naturalmente, boas e perfeitas razões para es­colher e salvar aqueles que elegeu. Mas essas razões não estão no homem, e sim somente nEle, em sua vontade e graça soberanas. Como disse Cristo, “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Mat.11:25,26). “Não temais, ó pequenino rebanho, porque vosso Pai se agradou em dar-vos o reino” (Luc.12:32). Somente porque agrada a Deus é que nós vamos receber o reino.

Toda vez que em oração pedimos a Deus que converta pecadores, reconhecemos a sua soberania na salvação deles. Se a salvação dependesse da vontade do homem, e não de Deus somente, seria mais próprio orar aos homens para que se salvassem em vez de pedir isso a Deus. Reconhecemos, no entanto que nos cumpre anunciar o Evangelho e apelar aos homens, porque é esse o meio de alcançarmos o fim glorioso que temos em vista, a salvação deles.

Outra doutrina que implica predestinação é a da providência. Já a consideramos no segundo capítulo desta tese, como prova dos decretos de Deus, e o que dissemos lá, com relação aos decretos de Deus em geral, aplica-se à predestinação em particular.

É a providência de Deus que determina todas as circuns­tâncias e o curso de nossa vida. O que para nós é casual, para Deus não o é. Tantas vezes acontece que um fato pequeníssi­mo modifica completamente o resto de nossa vida! Como disse o Dr. Egbert W. Smith em seu excelente livrinho The Creed of Presbyterians:

“O controle das coisas maiores deve incluir o controle das menores, não somente porque as coisas grandes são constituídas das pequenas, mas porque a história mostra como coisas triviais se apresentam continua­mente como os agentes principais de fatos importan­tes. A persistência de uma aranha estimulou um ho­mem desanimado a novas diligências que moldaram o futuro de uma nação. O Deus que predestinou o de­senrolar da história da Escócia, deve ter planejado e presidido os movimentos do minúsculo inseto, que salvaram de desespero a Robert Bruce. Deus não é uma Divindade ausente, estabelecida fora do univer­so, somente a olhar os acontecimentos que se erguem como cristas de montes acima da planície comum. Ele está “presente em toda a parte”, “sustentando, dirigindo, dispondo e governando todas as criaturas, todas as ações, e todas as coisas, desde as maiores até as menores”. Os negócios do universo são controla­dos e dirigidos, como? “Segundo o propósito daquele que faz tudo de acordo com ó conselho de Sua von­tade”. Seu propósito ou “decretos”, que abrangem tudo, diz o Catecismo, “Ele os executa nas obras da criação e da providência”. Quer dizer, a Providência é um modo de Deus executar os Seus decretos. Nou­tras palavras, é simplesmente o cumprimento univer­sal e certo de Seus propósitos predeterminados”.[3].

É a providência de Deus que determina onde, quando e como cada um de nós nasce, vive e morre. É sua providência que decide se um homem há de nascer num país pagão, ou cristão; qual vai ser o seu ambiente e quais as oportunidades de que vai gozar. E também se vai ou não ter oportunidade de ouvir o Evangelho. Estas circunstâncias providenciais, que Deus cria na vida dos homens, decidem do futuro eterno de milhões de membros da raça humana. Se cremos que só há sal­vação pela fé em Jesus Cristo, e se milhões de pagãos nunca tiveram uma oportunidade de ouvir de Cristo, a única conclusão que podemos tirar do fato é que Deus não escolheu esses pagãos para a salvação; se não fosse assim, a providência de Deus ter-lhes-ia oferecido uma oportunidade de ouvir sua mensagem. Foi exatamente isto o que Cristo disse em referência às cidades de Tiro, Sidom e Sodoma; isto é, “se os milagres” feitos em Corazim e Betsaida, “tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, há muito que elas se teriam arrependido em saco e cinza”, e “se os milagres” operados em Cafarnaum, “tivessem sido feitos em Sodoma teria ela permanecido, até ao dia de hoje” (Mat.11:21-23). Por que aquelas cidades pagãs não se arrependeram? Só há uma resposta, a saber, foi porque em sua providência Deus não lhes ofereceu uma oportunidade de ouvir falar de Cristo e presenciar os seus milagres. E por essa forma provi­dencial Ele decidiu o destino delas.

“Os arminianos admitem uma eleição soberana de nações, na sua totalidade para o gozo de privilé­gios religiosos, ou para a rejeição deles. Mas é in­discutível que, em fixar a condição externa das mes­mas, o destino religioso virtualmente é fixado para sempre. Que oportunidade tem, praticamente, de che­gar ao céu o homem que Deus fez que nascesse, vi­vesse e morresse em Taiti no século dezesseis? O lançamento de sua sorte ali não fixou virtualmente seu destino para a eternidade? Em suma, tomando-se em consideração o modo de Deus pensar, a eleição soberana de um conjunto de nações para o gozo de privilégios implica, como de necessidade, a decisão, inteligente e intencional, do destina de indivíduos, praticamente fixado por esse meio. Não é infinita a mente de Deus? Não são perfeitas as suas percepções? Será que ele, tal como um fraco mortal qualquer, “atira à toa num bando de pássaros, sem visar a ne­nhum deles individualmente”? Quanto às criancinhas, crêem os arminianos que todos aqueles que morrem nessa idade, são remidos. Quando, portanto, a providência de Deus decide que um determinado ser hu­mano morra em criança, fixa infalivelmente sua re­denção, e neste caso, pelo menos, tal decisão não pode ter sido orientada pela previsão de fé, arrepen­dimento ou boas obras, porque essa almazinha não tem nada disso, até depois de sua redenção”.[4].

Temos de escolher entre casualidade e providência como explicação dos quinhões diferentes que cabem aos homens neste mundo. Os cristãos não crêem em casualidade, e sim na providência de Deus. Por conseqüência, se em sua providência Deus não oferece a todos os membros da raça humana as mes­mas oportunidades de ouvir o Evangelho, claro é que Ele não escolheu todos os homens para a salvação. E não se diga que Deus não providenciou uma oportunidade para eles de ouvir a mensagem porque previu que eles não a aceitariam. De fato, Cristo afirmou exatamente o contrário em referência a Tiro, Sidom e Sodoma, como vimos.

Patenteia-se assim que a doutrina da providência de Deus envolve a da predestinação.

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Fonte:
Escolhidos em Cristo – O Que de Fato a Bíblia Ensina Sobre a Predestinação, Samuel Falcão, Ed. Cultura Cristã, 1997, pág. 103-108.

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Notas:
[1] Arthur Pink, op. cit., p. 71
[2] Thomas A. Kempis, Imitação de Cristo, p. 259.

[3] Egbert Watson Smith, The Creed of Presbyterians, pp. 160, 161.

[4]R. L. Dabney, op. cit., p. 226.

Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]

A decadência Neopentecostal e o crescimento das Igrejas tradicionais

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Crescimento numérico nunca foi, necessariamente, prova da aprovação de Deus. Se assim fosse, teríamos que admitir que os Espíritas e Mulçumanos têm essa aprovação. Porém, isso vinha iludindo um número cada vez maior de pessoas. Quem, sendo membro de uma igreja tradicional, nunca teve que ouvir, num tom sarcástico, irônico e de superioridade: "sua igreja não cresce", não é relevante para o o reino de Deus? Essa fala era embalada pelo "sucesso" de igrejas como a Renascer e Sara Nossa Terra, que serviu de modelo para muitas outras denominações neopentecostais.


As estatísticas eram, de fato, desoladoras para as igrejas tradicionais. O senso IBGE de 1991/2001 apontava um crescimento irrisório de denominações tradicionais, como das Igrejas Presbiterianas (0,36%) e Luteranas, que além de não crescer perdeu milhares de membros. Nem mesmo os 20% de crescimento dos Batistas, tradicional denominação protestantes, podiam ser comparados aos mais de 1200% (mil e duzentos pontos percentuais) de crescimento de igrejas como Renascer e Sara Nossa Terra.

Muitos se gloriavam com esse crescimento afirmando ser uma onda de "reavivamento" que o Brasil estava passando. Muitos líderes enriqueceram com o dinheiro do povo. Alias, esse é o propósito da existência de muitas dessas igrejas. Os que não conseguiram enriquecer, por pura falta de talento teatral ou ainda algum resquício de vergonha na cara, hoje vivem das migalhas de suas estagnadas igrejas, que já não dão mais sinais de que se tornarão "mega igrejas", como uma dia sonharam. Mas há uma luz no fim do túnel: muitas igrejas outrora neopentecostais, estão, progressivamente, abandonando esse desvio e se aproximando, cada vez mais, das antigas doutrinas da graça, assumindo uma nova identidade que mais se parece com o modelo das igrejas tradicionais.

Em 1996, então aluno do SPN, lembro-me perfeitamente de uma aula de um renomado professor de História do Cristianismo, Rev.Maeli Vilella, analisando o momento de euforia que as igrejas neopentecostais estavam experimentando. Dizia ele: "Se a situação econômica, financeira e educacional do país se estabilizar veremos um fenômeno inverso: as denominações pentecostais e neopentecostais entrarão em crise, em declínio, inclusive de crescimento, enquanto as igrejas tradicionais (Batistas, Congregacionais, Presbiterianas) passarão a crescer e a recuperar os anos de estagnação de crescimento".

Dez anos se passaram, o Brasil entrou num importante processo de estabilização em todas essas áreas e o que aconteceu com o crescimento das igrejas neopentecostais, especialmente Renascer, Sara Nossa Terra e todas as outras que seguem esse modelo? O que aconteceu com o crescimento das igrejas tradicionais?

Bem, recentemente o Senso IBGE 2001/2011 andou divulgando um importante decréscimo no ritmo de crescimento das denominações neopentecostais e, em contrapartida, uma clara recuperação de Igrejas Históricas ou tradicionais. É só pesquisar na blogosfera. Muito embora essas estatísticas apresentem algumas falhas metodológicas, segundo alguns blogueiros, servem para apontar uma tendência que irá, inquestionavelmente, ficar mais clara com o passar do tempo, em permanecendo a atual conjuntura.

Essa análise paralela da relação entre fatores econômicos/sociais/educacionais com as questões religiosas não é nenhuma novidade. Max Weber já havia pensado nessa relação, em seu famoso livro "Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", já abordado nesse blog.

Será que o Rev.Maeli, meu antigo professor, estava profetizando naquela aula? Teria ele recebido uma nova revelação de Deus? Evidentemente que não! Tratava-se apenas de uma análise sociológica e histórica de alguém que conhecia bem o funcionamento das estruturas religiosas ao longo dos séculos.

Na verdade, a equação é bem simples: ninguém com o mínimo de formação, inteligência e conhecimento bíblico engole as ladainhas enlouquecidas e ávidas por dinheiro dos neopentecostais. Ou seja, mais incautos = mais neopentecostais. Mais pessoas esclarecidas = menos neopentecostais. Simples assim! Talvez a saída para essas igrejas seja migrar para países ainda menos favorecidos, como Angola e Moçambique. É isso que o visionário Edir Macedo já está fazendo. Sigam-no os bons! (bons?) como diria Chapolim Colorado ou assistam, passivamente, as portas de seus templos serem fechadas. E não se preocupem: suas igrejas não farão a menor falta ao Brasil!

A Revista Isto É, com uma visão privilegiada do momento histórico, registrou a derrocada, a decadência e a falência dos Neopentecostais, na figura antes ilustre da Bispa Sônia Hernandes. Reproduzimos abaixo um breve trecho da entrevista histórica:

ISTOÉ – Em 2002 a Igreja Renascer tinha 1.100 templos no mundo. Hoje são menos de 300. O que aconteceu? Sônia Hernandes – Houve uma readequação, algumas igrejas pequenas foram agrupadas para formar igrejas maiores, ao mesmo tempo que houve um incentivo para a abertura de grupos de desenvolvimento que acontecem nas casas, muitas vezes alimentados pela tevê e pela rádio. ISTOÉ – Só em São Paulo existem cerca de 40 ações de despejo contra a Renascer. Por que a igreja não consegue cumprir com suas obrigações? Sônia – Todas as ações estão em negociação e a igreja tem feito um grande esforço para resolver as questões pendentes.
Para acessar a entrevista completa, clique aqui!

"O líder que poderia imprimir agilidade à administração, o bispo Tid, primogênito de Estevam e Sônia que sempre teve saúde frágil, está em coma profundo há quase dois anos num leito de hospital. Da equipe de aproximadamente 100 bispos de primeiro time que a denominação tinha espalhada pelo Brasil até 2008, metade saiu para outras igrejas levando consigo pastores, diáconos e presbíteros. Para o lugar deles, ascenderam profissionais com menos experiência, o que, especula-se, pode ser um dos motivos da debandada de fiéis [..]. Hoje os Hernandes sangram a igreja para dar sobrevida ao padrão de vida nababesco que têm”, acusa um dissidente. Se nos anos 1990 a opulência do casal servia de chamariz para os adeptos da teologia da prosperidade, que celebra a riqueza material como uma dádiva proporcional ao fervor com que o devoto professa sua fé, hoje ela é uma ameaça à sobrevivência da instituição [...]. Foi também em 2010 que a igreja perdeu seu garoto-propaganda e principal dizimista, o jogador de futebol Kaká. Com a mulher, Caroline Celico, eles formavam uma dupla que fortalecia e divulgava a Renascer no Brasil e no mundo. O casal Hernandes não comenta a saída, muito menos o atleta do Real Madrid. Apenas Caroline arrisca alguns comentários enviesados. “Confiei no que me falavam. Parei de buscar as respostas de Deus para mim e comecei a andar de acordo com a interpretação dos homens”, escreveu ela em seu blog. O mau uso do dízimo pago pelo craque, que sabia do fechamento de templos e da fuga de lideranças, teria motivado o rompimento com a igreja. Foi um baque financeiro e tanto. Kaká é o sexto jogador mais bem pago do mundo e, estima-se, depositava nas contas da Renascer 10% dos R$ 21 milhões anuais que recebia". Para ler a matéria completa,
clique aqui!

Se eu desejo o fim do Neopentecostalismo? Claro que sim! Excetuando-se a qualidade musical, com graves restrições a maioria de suas letras, o neopentecostalismo não trouxe nenhuma contribuição ao verdadeiro evangelho. De onde procedem os escândalos? As vergonhosas propinas recebidas? A ideia de que todo pastor é ladrão? A falsa pregação? O engano? O evangelho água com açúcar? A famigerada teologia da prosperidade? Dos Neopentecostais. Alguém pode negar isso? Esse deveria ser o desejo de todo aquele que tem as Escrituras Sagradas como sua única regra de fé e de prática. E acreditem: isso não é desejar mal ao próximo. É, antes, desejar o bem ao evangelho de Cristo.

A Doutrina da Salvação só pela Graça

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Por Samuel Falcão

Uma das maiores e mais preciosas doutrinas da Bíblia é a da graça de Deus, da salvação somente pela graça. Mesmo uma leitura perfunctória da Bíblia, especialmente do Novo Testamento, mostrará que a salvação e todas as bênçãos da vida cristã são resultado da graça de Deus. Vejamos numa incursão rápida pelo Novo Testamento qual é o lugar que a graça ocupa em toda a nossa vida espiritual.

1 - A eleição é pela graça. “Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a elei­ção da graça. E se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rom 11:5,6).

2 - Jesus é a personificação da graça. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade... To­dos nós temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo.1:14,16,17). “Conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que pela sua pobreza vos tornásseis ricos” (2Cor 8:9).

3 - A Salvação é pela graça. “Pela graça sois salvos por meio da fé” (Ef 2:8). “Porquanto a graça de Deus se manifes­tou salvadora a todos os homens” (Tito 2:11).

4 - A Justificação e o Perdão dos pecados são pela graça. “Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rom 3:24). “No qual te­mos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, se­gundo a riqueza da sua graça” (Ef 1:7).

5 - A Fé é pela graça. “Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que mediante a graça haviam crido” (At 18:27).

6 - A graça capacita-nos a servir. “Pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça que me foi concedida, não se tornou vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Cor 15:10).

7 - Graça capacita-nos a ser pacientes e perseverantes. “Então me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Cor 12:9). “Acheguemo-nos portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportu­na” (Heb 4:16).

8 - Devemos crescer na graça. “Crescei na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3:18).

9 - A plenitude de nossa salvação na segunda vinda de Cristo será uma nova expressão da graça de Deus. “Cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1Pe.1:13).

10 - Por toda a eternidade os salvos serão um monumento da graça de Deus. “Em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo... para louvor da glória de sua graça” (Ef 1:5,6). “Para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2:7).

Vemos, conseqüentemente, a singularidade do papel que a graça de Deus desempenha em todo o plano de nossa salvação. Desde toda a eternidade fomos eleitos por graça de Deus. No devido tempo, esta graça foi revelada, em toda a sua beleza, por Jesus Cristo. Por esta graça é que somos salvos, isto é, justificados e perdoados mediante a fé, a qual em si mesma é um resultado da graça. Esta mesma graça, que trouxe salvação às nossas almas, capacita-nos a servir a Deus e dá-nos força para suportar todos os sofrimentos a que estamos sujeitos neste mundo e a perseverar até ao fim. Nesta graça estamos firmes (Rom 5:2) e crescemos. A segunda vinda de Cristo será nova revelação de graça, e por toda a eternidade a infinita graça de Deus resplandecerá em nós, para Seu eterno louvor e glória.

Que é graça?

“Graça é favor gratuito, não merecido, mostrado, aos indignos dele. Se a redenção fosse devida a todos os homens, ou se fosse uma compensação necessária à responsabilidade deles, não poderia ser gratuita, e o dom de Cristo não poderia ser uma expressão supe­rior do livre favor e amor de Deus. Só poderia ser uma revelação de Sua retidão. Mas as Escrituras declaram que o dom de Cristo é uma expressão sem pa­ralelo de amor gratuito, e que a salvação procede da graça... E todo verdadeiro crente reconhece a graciosidade essencial da salvação, como um elemento in­separável de sua experiência. Dai as doxologias do céu. — 1Cor 6:19,20; 1Pe 1:18,19; Ap 5:8-14. Contudo, se a salvação é pela graça, então obviamente é compatível com a justiça de Deus salvar a todos, a muitos, a poucos, ou a ninguém, como lhe aprouver”. [1]

“A graça, por sua própria natureza tem de ser livre ou gratuita; e a diversidade ou disparidade de sua dis­tribuição (ou manifestação) demonstra que é de fato gratuita. Se alguém pudesse com justeza exigi-la, dei­xaria de ser graça para se tornar débito. Se neste particular nega-se a Deus Sua soberania, a salvação então se torna uma questão de divida para com todas as pessoas”. [2]

É interessante notar que Paulo associa esta doutrina de salvação exclusivamente pela graça à doutrina da total depravação e, por conseguinte, à doutrina do novo nascimento. “Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça sois salvos e juntamente com ele nos ressuscitou... para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2:4-9). Se estamos mortos em delitos e pecados, não podemos viver para Deus se Ele não nos criar es­piritualmente por seu infinito poder. Esse criar de novo é uma como ressurreição ou novo nascimento, como já vimos. E Deus não tem nenhuma obrigação de fazer isso. Se o faz, é por pura graça e misericórdia. E se é pela graça, Ele pode salvar a todos, a muitos, a poucos, ou a ninguém, como Lhe aprouver. Como disse Paulo, citando palavras de Deus dirigidas a Moisés, “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” (Rm 9:15,16).

Assim escreveu o Dr. James Moffatt em seu excelente livro Grace in the New Testament, p. 172, 173:

“Quando os que experimentam a graça de Deus refletem na origem dela, que é a vontade do mesmo Deus, o resultado instintivo é a doutrina da eleição. Os crentes descobrem que devem sua posição não a qualquer habilidade sua de penetrar na fé, mas devem-na à cha­mada e escolha do próprio Deus, que os distinguiu com esse privilégio. Sabem que foram escolhidos pela gra­ça e portanto não o foram por nada que tivessem feito; de outro modo a graça deixaria de ser graça (Rom 11:6). O primeiro passo foi dado por Deus, e muito antes que eles se apercebessem de que precisavam de salvação. Foi um movimento livre, gracioso da Vontade eterna. Paulo não pôde explicar de outro modo por que ele ou qualquer outro foi escolhido para ser membro da Igreja de Deus. Devia ter sido Deus, e Deus foi movido pelo amor”.

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Fonte:
Escolhidos em Cristo – O Que de Fato a Bíblia Ensina Sobre a Predestinação, Samuel Falcão, Ed. Cultura Cristã, 1997, pág. 99-103.

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Notas:
Link
[1] A. A. Hodge, op. cit., p.225
[2] Loraine Boettner, op cit, p.270

Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]

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Pregar Apenas a Palavra de Deus

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Por Charles Haddon Spurgeon

Também estamos resolvidos a pregar apenas a Palavra de Deus. Em grande parte, a alienação das massas ao ouvir o evangelho se explica pelo triste fato de que nem sempre é o evangelho que ouvem quando se dirigem aos lugares de culto, e tudo o mais fracassa em fornecer o que suas almas precisam. Será que você nunca ouviu falar de um rei que fez uma série de grandes banquetes e convidou muitas pessoas, semana após semana? Ele tinha um bom número de servos encarregados de servir sua mesa; e, nos dias marcados, estes saíram e falaram com as pessoas. Mas, de alguma forma, depois de um tempo a maior parte das pessoas não vinha às festas. O número de convidados que comparecia era decrescente; a grande massa de cidadãos dava as costas aos banquetes. O rei indagou e descobriu que o alimento providenciado não parecia satisfazer os homens que vinham olhar os banquetes e, por isso, não vinham mais. Ele resolveu examinar pessoalmente as mesas e os alimentos servidos. Viu muita coisa fina e muitas peças expostas que não eram de seus armazéns. Olhou a comida e disse: "Mas o que é isso? Como esses pratos chegaram aqui? Não são do meu suprimento. Meus bois cevados foram mortos, mas não vejo carne de animais engordados, e sim carne dura de gado magro e faminto. Os ossos estão aqui, onde está a gordura e o tutano? O pão também é de má qualidade, onde está o meu que é feito do melhor trigo? O vinho está misturado com água, e a água não é de um poço limpo".

Um dos presentes respondeu: "Ó rei, achamos que o povo estaria farto de tutano e gordura, assim lhes demos osso e cartilagem para pôr seus dentes à prova. Achamos também que estariam cansados do melhor pão branco, por isso assamos uns poucos em nossas casas, nos quais deixamos o farelo e a casca dos cereais. É opinião dos doutos que nosso alimento é mais adequado a esses tempos do que aquele que vossa majestade prescreveu há tanto tempo. Em relação aos vinhos com borra, o gosto dos homens não é esse na época atual; além disso, um líquido tão transparente como a água pura é uma bebida leve demais para homens que estão acostumados a beber do rio do Egito, cujo gosto é do barro que vem das montanhas da Lua".

Assim, o rei entendeu porque as pessoas não vinham aos banquetes. Será que esse é o motivo pelo qual a casa de Deus tem se tornado tão desagradável para uma grande parcela da população? Creio que sim. Será que os servos do Senhor têm picado seus restos de miscelâneas e pequenas máculas para com isso fazer uma carne cozida para os milhões de fiéis, e, por isso, estes se afastam? Ouça o resto da minha parábola. O rei indignado exclamou: "Esvaziem as mesas! Joguem todo esse lixo para os cães. Tragam os barões da carne, mostrem minha comida real. Tirem essas bugigangas do salão e aquele pão adulterado da mesa e lancem fora a água do rio barrento". Eles fizeram como o rei mandou, e se minha parábola estiver certa, logo houve um rumor pelas ruas de que verdadeiras delícias reais eram oferecidas ali, o povo encheu o palácio e o nome do rei tornou-se de grande excelência por toda terra. Vamos experimentar esse plano. Quem sabe logo estaremos nos regozijando em ver o banquete do Mestre cheio de hóspedes.

Ave Crux, Única Spes!

Fonte: SPURGEON, Charles Haddon – Preparado para o Combate da Fé – Shedd Publicações, p. 30-1.
Extraído de: [ Ecclesia Semper Reformanda Est ]
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O conhecimento de Deus na visão Calvinista

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Por: Ricardo Castro

Sicut scriptum est...

Conhecer a Deus – isso é possível?! Surge outra pergunta, óbvia, talvez a primeira a se fazer: Deus existe? E surgem outras questões: Onde podemos buscar informações sobre a existência de Deus? Será que podemos realmente conhecer a Deus? O quanto de Deus podemos conhecer? E então, como resolver essas questões?

As “provas” racionais, tradicionais, da existência de Deus, arquitetadas por filósofos cristãos e não cristãos, são tentativas de analisar as evidências, especialmente as evidências da natureza, de modos extremamente cuidados e logicamente precisos, a fim de convencer as pessoas de que não é racional rejeitar a ideia de que Deus existe. São elas:

- O Argumento Ontológico: O homem tem a ideia de um ser absolutamente perfeito; que a existência é atributo de perfeição; e que, portanto, um ser absolutamente perfeito tem de existir.

- O Argumento Cosmológico: Cada coisa existente no mundo tem de ter uma causa adequada; sendo assim, o universo também tem de ter uma causa adequada, isto é, uma causa indefinidamente grande.

- O Argumento Teleológico: Em toda parte o mundo revela inteligência, ordem harmonia e propósito, e assim implica a existência de um ser inteligente e com propósito, apropriado para a produção de um mundo como este.

- O Argumento Moral: Há um senso humano do certo e do errado, e da necessidade da imposição da justiça; sendo assim, deve existir um ser superior que seja a fonte do certo e do errado e que vá algum dia impor a justiça a todos os homens.

- O Argumento Histórico (ou Etnológico): Entre todos os povos e tribos da terra há um sentimento religioso que se revela em cultos exteriores. Visto que o fenômeno é universal, deve pertencer à própria natureza do homem. E se a natureza do homem naturalmente leva ao culto religioso, isso só pode achar sua explicação num ser superior que constituiu o homem como um ser religioso.

Avaliando os argumentos acima, argumentos racionais, devemos atentar para o fato de que os cristãos não precisam deles. Todos esses argumentos se baseiam em fatos sobre a criação que são verdadeiros. Esses argumentos são provas válidas, porque avaliam corretamente as evidências e ponderam com acerto, chegando a uma conclusão verdadeira: de fato, o universo realmente tem Deus como causa, realmente dá provas de um planejamento deliberado, Deus realmente existe como ser maior do que qualquer coisa que se possa imaginar e ele realmente nos deu um senso do certo e do errado e um senso de que seu juízo virá algum dia e, há de fato em todos os povos vestígios de cultos e adoração a um ser superior. Assim, os fatos reais nessas provas, nos argumentos acima, são verdadeiros e nesse sentido as provas são válidas, ainda que nem todas as pessoas se convençam delas.

O pensamento reformado, calvinista, declara que certo é que não há como negar que há no espírito humano, por inclinação natural, certo senso da Divindade – o senso do divino (sensus divinitatis). Reconheçamos que certo é que há uma universalidade da ideia da existência de Deus e do sentimento religioso em todos os homens, não importando a nação e a época histórica. Não há nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de algum deus. Assim, temos que reconhecer que há um senso da Divindade gravado no coração de todos os homens – até mesmo a idolatria nos serve de forte argumento a favor dessa ideia. Ninguém nasce ateu – essa é uma afirmação lógica, decorrente do que foi dito acima. O ateísmo, em última análise, resulta do estado moral pervertido do homem e do seu desejo de fugir de Deus. Mas, todos nós nos desviamos do único Deus verdadeiro e nos deixamos dominar por nossas enganosas imaginações. Porém, a falta de capacidade natural para obtermos o puro e claro conhecimento de Deus tem a causa em nós mesmos e, não temos desculpa, nós todos os homens. Não temos desculpa por andarmos extraviados e perdidos, pois todas as coisas nos mostram o caminho certo. Contudo, ainda que essa ignorância deva ser atribuída aos homens que, em sua maldade, corrompem logo a semente do conhecimento de Deus semeado em seu entendimento pelas admiráveis obras de Deus na natureza, impedindo-a de dar bom fruto, a verdade é que não somos suficientemente habilitados pelo simples e nu testemunho que as criaturas dão da grandeza de Deus.

Dirão alguns: a religião foi invenção de alguns poucos com a finalidade, sórdida, de controlar o povo simples e, a este povo, incitou a servir a Deus, com regras e preceitos ditados apenas para manter o controle, o domínio. Sem dúvida isso já ocorreu e ainda ocorre, mas tal ato só foi e é possível porque a ideia do divino já estava, e está, presente no espirito dos homens.

Mas volta-se a questão apresentada no início: Deus existe? Prove-se.

O conhecimento de Deus, conforme os reformadores, só é possível através da revelação especial, sob a influência iluminadora do Espírito Santo. Porém, o conhecimento completo e perfeito de Deus é impossível. Ter o conhecimento completo de Deus seria equivalente a compreendê-lo, e isto está completamente fora de questão: “Finitum non possit capere infinutum” – O finito não é possível conter o infinito. O homem pode sim obter um conhecimento de Deus perfeitamente adequado à realização do propósito divino na sua vida (na vida do homem).

Quanto a questão inicial, damos um sonoro sim: Sim, Deus existe. Não provamos, constatamos – pela fé. A tentativa de provar a existência de Deus ou é inútil ou é um fracasso. O cristão aceita a verdade da existência de Deus pela fé e esta última também é ação de Deus – somente depois que Deus implantou a semente da fé no coração do homem, é que ele pode exercer a fé. Assim, a fé é primariamente um dom de Deus, é um firme e seguro conhecimento do favor de Deus para conosco.

Deus, o criador do homem, ele mesmo transmite o conhecimento de si próprio ao homem. Se assim não fosse, Adão não o reconheceria como seu criador. O homem só pode conhecer a Deus na medida em este ativamente se faz conhecido. Assim, Deus é, antes de tudo, o sujeito que transmite conhecimento ao homem, e só pode tornar-se objeto de estudo do homem na medida em que este assimila e reflete o conhecimento a ele transmitido pela revelação. Sem a revelação, de Deus, o homem nunca seria capaz de adquirir qualquer conhecimento de Deus. E, mesmo depois de Deus ter-se revelado objetivamente, não é a razão humana que descobre Deus, mas é Deus que se descerra aos olhos da fé. Todo o conhecimento humano de Deus é derivado da sua auto-revelação na natureza e nas Escrituras. Esse é o pensamento calvinista, reformado.

Deus se revela ao homem – este é o princípio fundamental do conhecimento de Deus. E, há uma dupla revelação de Deus, sendo que tal fato é atestado pelas Escrituras: Deus se revela na natureza e na Bíblia. O método de revelação é natural quando esta é comunicada por meio da natureza – por meio da criação visível com suas leis e poderes ordinários. Já o método sobrenatural ocorre quando a revelação é comunicada ao homem de maneira mais elevada, sobrenatural, como quando Deus fala, quer diretamente, quer por meio de mensageiros sobrenaturalmente dotados. Há também outra distinção da revelação de Deus, ao homem: a revelação geral e a revelação especial. A revelação geral é dirigida de modo geral a todas as criaturas inteligentes e, portanto, acessível a todos os homens. Por sua vez, a revelação especial é dirigida a uma classe especial de pecadores, aos quais Deus quis tornar conhecida a sua salvação.

Ao afirmar que Deus se revela na Bíblia, ao homem, devemos atentar para o fato de que ela, a Bíblia, não foi escrita, ou tem a mínima intenção de provar a existência de Deus, na forma de uma declaração explícita, e muito menos na forma de um argumento lógico. Isso pode ser comprovado pelo primeiro versículo do primeiro capítulo do primeiro livro: Gênesis 1.1 – No princípio, criou Deus os céus e a terra. Tal declaração pressupõe que Deus existe, e que é o criador dos céus e da terra. Assim, a Bíblia pressupõe que Deus existe. Se houvesse o interesse em provar a existência de Deus, de forma lógica, a Bíblia não começaria com a afirmação “No princípio, criou Deus...”, e o último versículo da Bíblia seria: Então, comprovamos que Deus existe e é o criador de todo o universo e tudo o que nele há. Mas, ao nos convencermos de que a Bíblia é verdadeira, então sabemos com base nela não só que Deus existe, mas também muita coisa sobre sua natureza e seus atos. Enfim, o que podemos afirmar é que: Deus se revela, na Bíblia, ao homem. Mas, a Bíblia não é necessária para saber que Deus existe. Sem expandir esse assunto, consideremos os seguintes aspectos das Escrituras: A Bíblia é necessária para conhecer o Evangelho; A Bíblia é necessária para sustentar a fé espiritual; A Bíblia é necessária para o conhecimento seguro da vontade de Deus.

Podemos conhecer a Deus de um modo verdadeiro, porém não podemos conhecê-lo exaustivamente – podemos conhecer coisas verdadeiras sobre ele. Tudo, absolutamente tudo, o que as Escrituras falam sobre Deus é verdadeiro. Isso não implica ou exige que saibamos tudo sobre Deus e os seus atributos. Temos conhecimento verdadeiro de Deus com base nas Escrituras, ainda que não tenhamos conhecimento exaustivo. É importante perceber que conhecemos o próprio Deus, e não meramente fatos sobre ele ou atos que ele executa – as Escrituras afirmam isso. O fato de conhecermos o próprio Deus é demonstrado pela percepção de que a riqueza da vida cristã envolve um relacionamento pessoal com Deus. Conforme várias passagens bíblicas, temos privilégio bem maior do que o mero conhecimento de fatos acerca de Deus. Falamos com Deus em oração e ele fala conosco pela sua Palavra. Temos comunhão com ele na sua presença, entoamos seus louvores e temos consciência de que ele pessoalmente habita no meio de nós para nos abençoar.

Deus se revela, como dito anteriormente, também na natureza. Para onde quer que voltemos os olhos, não há o mais diminuto rincão do mundo em que não refulja ao menos alguma centelha da glória de Deus. Ninguém, realmente ninguém, pode de um relance contemplar a belíssima obra de arte universal em sua vasta amplitude e extensão, sem ficar, por assim dizer, estupefato ante a incomensurável riqueza do seu esplendor. No céu e na terra há incontestáveis demonstrações da maravilhosa sabedoria de Deus. Não há como atribuir a beleza, o equilíbrio e a organização do universo a um ato do acaso, mera casualidade. Somos, todos os homens, convidados a buscar um conhecimento de Deus que não se confunde com o conhecimento que gira em torno de vãs especulações; mas, sim, o conhecimento que é proveitosos e frutífero, desde que bem apreendido. Porque Deus se manifesta por suas obras poderosas. Não há, pois, melhor meio de buscar a Deus, não há processo mais eficaz para isso do que contemplá-lo em suas obras. Por suas obras, ele se aproxima de nós, torna-se mais familiar a nós e até se comunica conosco, ainda que alguns detalhes dos propósitos de Deus para o homem, só possa ser conhecidos por meio das Escrituras.

Finalizando: Deus existe e é possível conhecê-lo através da revelação de si mesmo que ele mesmo providenciou para nós, na natureza, nas Escrituras e na semente que ele implantou em todos os homens, semente essa que dá aos homens o senso da existência dele mesmo (a capacidade de saber que ele, Deus, existe e que é o nosso criador).

Sicut scriptum est...

Bibliografia utilizadas na construção deste artigo:
- Teologia Sistemática (Louis Berkhof – Editora Cultura Cristã)
- Teologia Sistemática (Wayne Grudem – Editora Vida Nova)
- As Institutas, volume 1 (João Calvino – Editora Cultura Cristã)

(Há, no artigo acima, várias compilações das obras acima, não havendo indicação por aspas ou referências. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessas obras e, assim lê-las.)

Textos bíblicos sugeridos para consultas e estudos:
- Rm 1.18 a Rm 2.29 ; Sl 19.1-6; 1Co 1.20-21; Jo 7.17; Sl 10.4; Sl 14.1; 1Co 2.6-16


Fonte: [ Sicut Scriptum est ]
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Por Quê Não Abraço a Espiritualidade

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Por Augustus Nicodemus Lopes

Existe em todo mundo um movimento entre católicos e protestantes que visa resgatar a mística medieval, especialmente as práticas e as disciplinas espirituais dos cristãos da Idade Média como modelo para uma nova espiritualidade hoje, em reação à frieza, carnalidade e mundanismo da cristandade moderna. Esse movimento é geralmente conhecido como “espiritualidade” e tem atraído não poucos líderes católicos e protestantes. Apesar do nome, é bom lembrar que existem importantes diferenças entre esse movimento e a busca tradicional de uma vida espiritual mais profunda por parte do Cristianismo histórico.

Que esse movimento tenha adeptos entre os católicos, não é de admirar, pois é entre eles que está a sua origem e se encontram seus ícones. O que espanta é sua presença entre os protestantes, e mesmo aqueles de convicções mais conservadoras.

Eu até entendo o motivo pelo qual o movimento de espiritualidade tem conseguido atrair pastores e líderes das igrejas históricas e conservadoras em nosso país. Primeiro, porque existe uma decepção justificada da parte desses líderes diante da falta das práticas devocionais em boa parte dos que são teologicamente mais conservadores. Infelizmente, os quartéis conservadores abrigam pastores assim, que não oram, não jejuam, não gastam tempo lendo a Palavra e meditando nela, buscando uma comunhão mais profunda com Deus e a plenitude do seu Espírito Santo.

Ainda hoje estava falando com outro colega pastor que se queixava de colegas de ministério que ficam na cama até perto do meio dia, que gastam a maior parte do tempo na internet, que não trabalham, não evangelizam, não gastam tempo com Deus e com o rebanho, e que vão levando o ministério nessa farsa. Não é de espantar que suas igrejas sejam minúsculas, problemáticas e que eles não se demorem muito tempo em um mesmo local. E que, quando saem, deixam atrás de si um rastro de destruição, confusão, insatisfação e problemas não resolvidos. É lógico que esses não representam a totalidade dos pastores conservadores, e muito menos a teologia reformada, que tradicionalmente sempre valorizou a vida de piedade ao lado do cultivo intelectual da mente. Todavia, o fato de que permanecem anos a fio em seus presbitérios e convenções, enterrando igrejas, criando problemas, sem que sejam questionados ou confrontados, dá aos demais conservadores ares de cumplicidade e abre portas para que movimentos como esse da espiritualidade encontre mentes e corações ávidos, cansados da frieza, carnalidade e politicagem que encontram entre os conservadores.

Segundo, existe no próprio meio conservador um desencanto com a piedade pentecostal que já teve melhores dias entre nós. Muitos pastores conservadores que um dia se sentiram atraídos pelas ofertas do pentecostalismo, de batismo com o Espírito Santo, falar em línguas, sonhos e visões, profecias, sinais e prodígios, têm recuado diante da aparente superficialidade e da ênfase desmedida nas experiências, que são características desse movimento. Eles querem uma piedade mais solidamente enraizada nas Escrituras e que ofereça alguma salvaguarda para os exageros, falsificações e eventuais interferências humanas nas experiências. É quando surge o movimento de espiritualidade, que se distancia do pentecostalismo em vários aspectos e promete aquilo que todos desejam, uma proximidade com Deus nunca dantes experimentada mediante as práticas devocionais, sem os abusos da experiência pentecostal.

Outro atrativo no movimento é que ele se reveste de um misticismo que apela profundamente às almas que por natureza são mais piedosas e religiosas, as quais também se encontram dentro dos limites da tradição mais conservadora. Para tais pessoas, a idéia de se gastar tempo em silêncio contemplando o divino, ouvindo a voz de Deus, penetrando os tabernáculos celestes, tocando nas vestes de Cristo, mortificando a carne e suas paixões mediante o jejum e abstinência de alguns confortos terrenos e físicos, é um atrativo poderoso, como sempre foi através da história da Igreja.

Eu confesso, todavia, que nunca me senti realmente atraído por esse tipo de espiritualidade. Não gostaria de pensar que isso é porque eu sou um daqueles pastores frios e sem o Espírito Santo que mencionei em algum parágrafo acima. Há quem concorda totalmente com essa avaliação a meu respeito. Mas, deixarei nas mãos de Deus o veredicto sobre isso. Conscientemente, não me sinto interessado nessa espiritualidade, acima de tudo, pelo fato de que ela é defendido por padres e leigos católicos e que, entre os protestantes, ganhou muitos adeptos e defensores da parte dos liberais. Desconfio de tudo que os liberais apóiam e defendem.

Não estou dizendo que todos os protestantes que adotaram ou aderiram ao movimento de espiritualidade são liberais. Conheço uma meia dúzia que não é. Deve haver muitos outros. O que estou dizendo é que, para mim, é no mínimo intrigante que os liberais, que sempre se disseram progressistas e amantes do novo, defendam com tanto interesse um modelo de espiritualidade que tem como ícones monges e freiras católicos da Idade Média e o tipo de práticas espirituais deles.

Não discordo de tudo que os defensores da espiritualidade pregam. Quebrantamento, despojamento, mortificação, humildade, amor ao próximo são conceitos bíblicos. E encontramos vários desses conceitos defendidos pelos seguidores da espiritualidade. Meu problema não é tanto o que eles dizem – embora eu pudesse apontar um ou outro ponto de discordância conceitual, mas o que eles não dizem ou dizem muito baixinho, a ponto de se perder no cipoal de outros conceitos.

Sinto falta, por exemplo, de uma ênfase na justificação pela fé em Cristo, pela graça, sem as obras ou méritos humanos, como raiz da espiritualidade. Uma espiritualidade que não se baseia na justificação pela fé e que nasce dela está fadada a virar, em algum momento, uma tentativa de justificação pela espiritualidade ou piedade pessoal. Não estou dizendo que os defensores da espiritualidade negam a justificação pela fé somente – talvez os defensores católicos o façam, pois a doutrina católica de fato anatematiza quem defende a salvação pela fé somente. O que estou dizendo é que não encontro essa ênfase à justificação pela fé em Cristo nos escritos que defendem a espiritualidade.

Sinto falta, igualmente, de uma declaração mais aberta e explícita que a espiritualidade começa com a regeneração, o novo nascimento, e que somente pessoas que nasceram de novo e foram regeneradas pelo Espírito Santo de Deus, que são uma nova criatura, um novo homem, é que podem realmente se santificar, crescer espiritualmente e ter comunhão íntima com Deus. A ausência da doutrina da regeneração no movimento pode dar a impressão de que por detrás de tudo está a idéia de que a religiosa natural, inata, do ser humano, por causa da imago dei, é suficiente para uma aproximação espiritual em relação a Deus mediante o emprego das práticas devocionais.

O caráter progressivo na santificação também está faltando na pregação do movimento. Quando não mantemos em mente o fato de que a santificação é imperfeita nesse mundo, que nunca ficaremos aqui totalmente livres da nossa natureza pecaminosa e de seus efeitos, facilmente podemos nos inclinar para o perfeccionismo, que ao fim traz arrogância ou frustração.
Também gostaria de ver mais claramente explicado o que significa imitar a Jesus como uma das características da vida cristã. Pois, até onde sei, Jesus não era cristão. A religião dele era totalmente diferente da nossa. Nós somos pecadores. Jesus não era. Logo, ele não se arrependia, não pedia perdão, não mortificava uma natureza pecaminosa, não lamentava e chorava por seus pecados. Ele não orava em nome de alguém e nem precisava de um mediador entre ele e Deus. Ele não tinha consciência de pecado e nem sentia culpa – a não ser quando levou sobre si nossos pecados na cruz. Ele não precisava ser justificado de seus pecados e nem experimentava o processo crescente e contínuo de santificação. A religião de Jesus era a religião do Éden, a religião de Adão e Eva antes de pecarem. Somente eles viveram essa religião. Nós somos cristãos. Eles nunca foram. Jesus nunca foi. Como, portanto, vou imitá-lo nesse sentido?

É esse tipo de definição e esclarecimento que sinto falta na literatura da espiritualidade, que constantemente se refere à imitação de Cristo sem maiores qualificações. Quando vemos Jesus somente como exemplo a ser seguido, podemos perdê-lo de vista como nosso Senhor e Salvador. Quando o Novo Testamento fala em imitarmos a Cristo, é sempre em sua disposição de renunciar a si mesmo para fazer a vontade de Deus, sofrendo mansamente as contradições (Filipenses 2:5; 1Pedro 2:21). Mas nunca em imitarmos a Jesus como cristão, em suas práticas devocionais e na sua espiritualidade.

Faltam ainda outras definições em pontos cruciais. Por exemplo, o que realmente significa “ouvir a voz de Deus”, algo que aparece constantemente no discurso dos defensores da espiritualidade? Quando fico em silêncio, meditando nas Escrituras, aberto para Deus, o que de fato estou esperando? Ouvir a voz de Deus com esses ouvidos que um dia a terra há de comer? Ouvir uma voz interior, como os Quackers? Sentir uma presença espiritual poderosa, definida, que afeta inclusive meu corpo, com tremores, arrepios? Ver uma luz interior, ou até mesmo ter uma visão do Cristo glorificado e manter diálogos com ele, como Teresa D’Ávila, Inácio de Loyola, a freira Hildegard e mais recentemente Benny Hinn? Ou talvez essa indefinição do que seja “ouvir a voz de Deus” seja intencional, visto que a indefinição abriga todas as coisas mencionadas acima e outras mais, unindo por essas experiências vagas pessoas das mais diferentes persuasões doutrinárias e teológicas, como católicos e evangélicos, conservadores e liberais?

Por fim, entendo que biblicamente os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo comunica à sua Igreja os benefícios de sua mediação, de seu sacrifício e de sua ressurreição, são a Palavra, os sacramentos e a oração. Outros meios, como, silêncio, meditação, contemplação, isolamento, mortificação asceta do corpo, não são reconhecidos como meios de graça, embora possam ter algum valor temporal acessório às ordenanças de Cristo. Como ensinou Paulo, seguir uma lista daquilo que podemos ou não podemos manusear, tocar e provar tem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Col 2:20-23).

Por todos esses motivos acima, nunca realmente me senti interessado na espiritualidade proposta por esse movimento. Parece-me uma tentativa de elevação espiritual sem a teologia bíblica, uma tentativa de buscar a Deus por parte de quem já desistiu da doutrina cristã, das verdades formuladas nas Escrituras de maneira proposicional. Prefiro a espiritualidade evangélica tradicional, centrada na justificação pela fé, que enfatiza a graça de Deus recebida mediante a Palavra, os sacramentos e a oração e que vê a santidade como um processo inacabado nesse mundo, embora tendo como alvo a perfeição final.

Franklin Ferreira, conversando comigo sobre esse assunto, escreveu o que se segue, que reproduzo literalmente por retratar de forma sintética e profunda o que considero o principal problema com a espiritualidade defendida pelo movimento que leva esse nome:
Acho que você conhece a distinção que Lutero fez entre a "teologia da glória" e a teologia da cruz". Muito do movimento de espiritualidade moderno cai, justamente, no que Lutero chamou de "teologia da glória", a tentativa de chegar a Deus de forma imediata, ou por meio de legalismo (mortificação, flagelação da carne, etc.), especulação teológica (como no liberalismo de Tillich ou no misticismo (as escadas da ascensão da alma para o céu, com a necessária purgação, mortificação e iluminação). Note que nessas três escadas, o que se fala é da união da alma de forma imediata com Deus, sem a mediação de Cristo crucificado. Para Lutero, o fiel só encontra Deus não nas manifestações de poder que supostamente cercam as três escadas, mas em fraqueza, na cruz, pois por meio dela somos justificados.
Enfim. Deus me guarde de ir contra a busca de uma vida cristã superior, de desenvolver a vida interior. Que Ele igualmente me guarde de qualquer tentativa de alcançar isso que não esteja solidamente embasada em Sua Palavra.

Fonte: [ O Tempora, O Mores! ]
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Malafaia pediu, a gente posta: “blogueiros são filhos do diabo”, diz o pastor

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Por Paulo Siqueira

O Pr. Silas Malafaia, no programa da semana passada (pois nessa semana ele está reprisando pela enésima vez a profetada gospel do Morris Cerullo), incitou os sites e blogs apologéticos, que criticam sua famigerada Teologia da Prosperidade, a postar o vídeo onde ele chama os blogueiros de “filhos do diabo”.

Pois bem, Silas, abaixo está o vídeo. Apesar de tristes por um pastor se deixar comprar pelos ensinos heréticos da teologia da prosperidade, que nada têm a ver com o Evangelho puro e simples de Jesus Cristo, ficamos felizes por saber que somos reconhecidos como diabos (adversários) dos profetas de Mamom, dos fariseus pós-modernos, dos lobos que ensinam as ovelhas a entesourarem na terra, a colocarem seus corações nas bênçãos materiais, ao invés de buscarem unicamente, e sem maiores interesses, a Jesus.

A Deus (ao verdadeiro!) seja toda a honra e toda a glória para sempre.



“Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus. Disse-lhes, pois, Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, certamente me amaríeis, pois que eu saí, e vim de Deus; não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira. Mas, porque vos digo a verdade, não me credes.” – Jo 8.41-45

Realmente, em alguns pontos concordamos, porém é preciso lembrar que dentro da tradição de Israel havia vários tipos de profetas: os profetas pagos, aqueles que eram pagos para profetizar mentiras direcionadas pelas vaidades dos reis de Israel; os falsos profetas, que surgiam em meio ao povo com falsas profecias, para enganá-lo, porém sucumbiam com suas próprias palavras; e o outro tipo eram os profetas do Deus Altíssimo, que traziam as verdades de Deus, não importando o que isso lhes custaria. Profetizavam contra os reis, contra a sociedade, muitos perdendo a vida, porém significam a boca de Deus em meio ao povo.

Outro ponto é a questão de que Deus é juiz, e é nesse ponto que devemos ter grande temor. Esse blog está firmado no princípio de que Deus tudo vê e tudo sabe, e é Nele que confiamos como verdade absoluta. Realmente, um dia todos nós seremos julgados diante do Trono Daquele cujo nome é o único digno de louvor e glória, e é a isso que tememos.

Mateus 7 deixa claro que, na mesma medida em que julgarmos, seremos julgados. Gálatas 6 também nos diz que de Deus não se zomba, e que o homem colhe o que planta. Baseados nisso é que combatemos as heresias e os falsos profetas de nossa época. Porém, jamais nos esquecemos de que a Igreja de Cristo tem sua responsabilidade para com o mundo, responsabilidade essa que tem sido negligenciada pelos pregadores da teologia da prosperidade, teologia essa fundamentada em princípios puramente terrenos, pois a prosperidade bíblica não compartilha com as vaidades humanas.

Prosperidade cristã é fundamentada em três princípios:

1) responsabilidade social: é preciso que a Igreja produza cristãos com uma fé cidadã, ou seja, uma fé que responda às necessidades dos seres humanos no mundo, uma fé que enxergue a fome, a pobreza, a destruição da vida pelas guerras, que reconheça a destruição do planeta e que tenha, acima de tudo, o compromisso com a vida, a vida em abundância que Cristo prometeu, não produzida para a vaidade, mas sim na essência do Evangelho, que é o amor ao próximo, e isso vem totalmente contrário à teologia da prosperidade, pois nela a verdadeira essência está no Eu, produzido na cegueira e na busca desenfreada dos tesouros deste mundo;

2) responsabilidade com o Reino de Deus: essa responsabilidade é de todos aqueles que reconhecem no mundo seu verdadeiro papel como membros de uma Igreja, que deve responder ao clamor do mundo em suas necessidades essenciais, que são salvação, libertação do pecado e transformação do caráter de todo aquele e aquela que se coloca diante de Deus, e tem sua vida transformada de dentro para fora, através do Evangelho de Cristo Jesus. Essa transformação não é para os deleites, mas sim para que o Reino de Deus seja estendido ao mundo, provocando nele transformações de vidas. Esse é o papel dos políticos, dos professores, dos líderes, ou seja, de cada cristão: ser sal e luz para o mundo que caminha em trevas;

3) responsabilidade com a verdadeira missão da Igreja: amar os seres humanos como Deus nos amou, pois o texto áureo da Bíblia nos diz que Deus amou o mundo de tal maneira, que enviou Seu Filho para que o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Essa é a mensagem central do verdadeiro Evangelho de Cristo, e essa é a boa-nova da Igreja para o mundo.

E essa é nossa bandeira, é a nossa teologia, que prega a soberania de Deus, contrária e acima de toda vontade humana. Podemos ser chamados de “filhos do diabo” ou até mesmo de “fariseus”, como já fomos chamados por uma multidão na Marcha para Jesus de 2010, mas temos a consciência de que lutamos contra a realidade do mundo, pois lutamos pela liberdade moral, pois não somos escravos do pecado e nem escravos das leis humanas.

Sabemos que incomodamos, mas incomodamos pois não somos levados por qualquer vento de doutrina. Não nos deixamos sucumbir pelas vaidades do mundo, pelos tesouros dessa terra, motivados por ouro e prata desse mundo. Não nos deixamos influenciar por jatinhos, carros importados, roupas de grife, mansões e toda a pompa que os tesouros desse mundo podem dar. Somos proclamadores da Igreja invisível de Cristo Jesus, que está além dos tesouros dessa terra.

Somos a voz que clama no deserto, que clama alto “raça de víboras, arrependei-vos, pois vos é chegado o Reino dos céus”. Essa é a mensagem de todos e todas que crêem no Evangelho puro e simples.

Realmente, eu creio que o Justo Juiz julgará a todos, e é nisso que meu coração crê, que muito em breve, todos e todas daremos conta de cada palavra.

“… onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” – 2 Co 3.17

Unindo-se a Uma Igreja à Moda Antiga: de Clemente a Egeria

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Por Michael A. G. Haykin

Como uma pessoa se unia a uma igreja nos primeiros dias do cristianismo? De um ponto de vista, a pergunta é fácil de responder. Em palavras simples, o batismo do crente era o rito de entrada na igreja até ao começo do século IV.

No entanto – e isto não é surpreendente –, havia algo mais.

Confissão e Batismo

O Novo Testamento descreve a igreja como uma congregação de crentes. O que eles criam? Como os apóstolos ensinaram, eles criam que Jesus é Senhor e que ele havia ressuscitado dentre os mortos (1 Co 12.3; 1.2; Rm 10.9). Além disso, eles criam que Jesus é o próprio Deus em carne (1 Jo 4.1-6). E criam na Trindade (Mt 28.19; 2 Co 13.14; Ef 4.4-6).

Para se unir a uma igreja, uma pessoa tinha de confessar formalmente este conjunto de verdades, "a fé" (Jd 3; 1 Tm 1.19), que também incluía outras crenças essenciais, como a volta de Cristo. Isso acontecia normalmente, conforme parece, na ocasião do batismo. Durante o batismo, um indivíduo afirmaria um tipo de credo que continha esses elementos essenciais da fé cristã e daria a sua anuência a esse credo (cf. 1 Tm 6.12).

Assim, inspirados por exemplos do Novo Testamento (ver Ef 4.4-6), afirmações de credos emergiram na era pós-apostólica. Por exemplo, Irineu (c. 130-200), bispo de Lion, citou o que pode ter sido a declaração de fé de sua própria igreja na obra Contra Heresias (180), sua defesa do cristianismo contra o gnosticismo.

A declaração começa por enfatizar que, em contrário à opinião do gnosticismo sobre o mundo, há "um único Deus, o Pai todo-poderoso, Criador do céu, da terra, do mar e tudo que neles há". Essa confissão prossegue e enfatiza que há também "um único Cristo Jesus, o Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação", que sofreu, morreu, foi ressuscitado dos mortos, "ascendeu ao céu na carne" e virá novamente "do céu, na glória do Pai". O gnosticismo negava esses pontos, os quais são, todos, essenciais ao cristianismo apostólico. E uma pessoa tinha de afirmar essa declaração para ser recebida na igreja de Lion.

A necessidade de Catecismo

À medida que a igreja evangelizava o mundo greco-romano, encontrava pessoas que estavam preparadas para crer em Cristo Jesus como Salvador e Senhor, mas que desconheciam a Escritura e a teologia que ela continha. Por isso, a igreja precisava instruir ou catequizar as pessoas nas afirmações fundamentais do credo cristão. A igreja precisava ensinar às pessoas assuntos como a criação realizada por Deus e a vida de virtude que flui de uma verdadeira confissão. A catequese tinha, portanto, componentes bíblicos, doutrinários e morais.

Assim, por volta do final do século II, desenvolveram-se catecismos e o processo de catequizar. Por exemplo, o único outro escrito existente de Irineu é um catecismo, Demonstração da Pregação Apostólica (início dos anos 190). A primeira metade desta obra detalha a história da salvação, e a segunda metade apresenta provas da verdade do cristianismo com base no Antigo Testamento.

No século seguinte, há uma evidência clara – por exemplo, nos escritos de Hipólito de Roma (c. 170-230) –, de que a catequização podia levar três anos. E, embora a pessoa que estava sendo instruída (chamada de catecúmeno) fosse considerada um cristão, ela não podia tomar a Ceia do Senhor enquanto não fosse batizada. Como assegurou Justino Mártir (que morreu cerca de 165), autor cristão do século II, "ninguém tem a permissão de participar" da Ceia do Senhor "senão aquele que crê ser verdade o que ensinamos, aquele que foi lavado... e vive exatamente da maneira como Cristo nos legou" (Primeira Apologia, 66).

Durante o período de catequese, havia também um tempo em que os catecúmenos podiam fazer perguntas ao instrutor, que era freqüentemente um bispo. Egeria (que floresceu em 380-384), autora do final do século IV, observou isso quando visitou Jerusalém. Ela destacou que o resultado dessa catequização era que todos os crentes das igrejas em Jerusalém eram capazes de seguir as Escrituras quando elas eram lidas nos cultos da igreja. Foi somente com a propagação do batismo infantil no séculos V e VI que esse processo de catecismo cristão entrou em declínio.

Um passado utilázel

Quando estudamos o passado, não devemos privilegiar as questões que nossas próprias circunstâncias induzem. O passado tem de ser entendido, primeiramente, em seus próprios termos, em relação às questões que dominaram aquela época. No entanto, Deus nos deu a história como um meio de instrução (poderíamos, por exemplo, estabelecer uma analogia com Romanos 15.4). Portanto, a busca por um "passado utilizável" que lança luz sobre o presente é um exercício legítimo.

O que a investigação histórica que acabamos de realizar significa para nossa situação atual? Uma coisa é clara: muitas partes de um Ocidente outrora cristão estão se paganizando rapidamente. Por conseguinte, o tipo de instrução bíblica, doutrinária e moral que a igreja primitiva achou necessária está se tornando novamente essencial para nós.

Como aconteceu nos primeiros dias da fé cristã, acontece novamente hoje: entrar numa igreja local deve ser por meio de catecismo, credo e batismo – e nessa ordem.

- Michael A. G. Haykin obteve sua graduação em Filosofia, seu Mestrado em Religião e seu Doutorado (Th.D) em História da Igreja. Server como catedrático em História da Igreja e Espiritualidade Bíblica no Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville (Kentucky). É o autor de Palavras de Amor: a Doçura do Amor e do Casamento nas Cartas de Cristãos (Editora Fiel, 2011) e Redescovering the Church Fathers (Crossway, 2011).

Traduzido por: Wellington Ferreira
Traduzido do original em inglês: Joining a Church the Ancient Way: From Clement to Egeria publicado no site http://www.9marks.org.
Fonte: [ Editora Fiel ]

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