Breve ensaio exegético no Novo Testamento: um estudo de caso em 1ª João 2:12-14

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Por Rev. João Ricardo Ferreira de França


Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados, por causa do seu nome. Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno. Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai. Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.

Introdução

Sabemos que o apóstolo João escreve as suas cartas com a finalidade de rebater o gnosticismo incipiente promovido pelos falsos mestres[1] nas comunidades cristãs as quais ele escreve. No trecho de abertura desta carta (1.1-4) o autor procura mostrar, em termos gerais, que tenciona ressaltar a temática da encarnação do verbo.[2]

Vale salientar que a carta é marcada por dois objetivos específicos que precisam ser considerados antes de qualquer análise exegética: “O combate a heresias (2.18-27; 4.1-6) e a confirmação dos cristãos aos quais ele se dirige na verdadeira fé e na verdadeira vivência, em face da ameaça pelas heresias.”[3] Certamente este segundo objetivo permeia o bloco que será alvo de nossa análise exegética.

VS. 12 - “Γράφω ὑμῖν, τεκνία, ὅτι ἀφέωνται ὑμῖν αἱ ἁμαρτίαι διὰ τὸ ὄνομα αὐτοῦ.” – o verbo escrever aqui no nosso texto “Γράφω” aponta provavelmente para o documento em curso de sua escrita, o tempo presente usado no verbo parece reforçar essa ideia.

O vocábulo “τεκνία” indica crianças pequenas, mas aqui o sentido é figurado, e ainda inclui todas as classes de pessoas. John Stott sugere que o apóstolo esteja se referindo a três classes de pessoas “filhinhos, jovens e pais”.[4] Stott parece ignorar que no primeiro verso João usa o mesmo termo e o sentido é a todos os crentes, pois, não se refere apenas aos novos convertidos, mas todos os crentes em Cristo.

Calvino indica que este termo grego abarca “uma declaração geral, para que ele não aborda apenas os de tenra idade, mas por crianças pequenas, ele quer dizer homens de todas as idades, como no primeiro verso, e também como nos versos posteriores.” Calvino assegura que diz isso porque as pessoas tomam a palavra Teknia como uma referência as crianças, quando a palavra seria παιδία, mas aqui o apóstolo usa a apalavra τεκνία para se referir tanto a jovens como a idosos, pois, ele se coloca como pai espiritual da igreja.[5]

João informa que escreve estas palavras “porque os vossos pecados estão perdoados”. O uso da conjunção “ὅτι ” aponta para o que ocasionou a escrita de tais palavras: a certeza do perdão dos pecados. O verbo “perdoar”, conforme aparece aqui no texto “ἀφέωνται”, utiliza o tempo perfeito que indica uma ação contínua[6], vale ressaltar que o tempo perfeito “não é usado para indicar uma ação passada, mas o estado presente e resultante da ação passada”.[7]

O Apóstolo escreve porque esses crentes foram perdoados no passado e continuam sendo perdoados, a implicação de uma ação passada, mas com resultados permanentes.[8] Ao que parece, João deseja assegurar aos crentes a certeza de sua redenção, apontando para a plena certeza do perdão dos pecados obtidos por Cristo na cruz do calvário.

O apóstolo continua agora nos apresentando a causa material para a certeza deste perdão dos pecados: “por causa do seu nome” (1Jo 2:12 ARA). A nossa versão traduz a preposição “διὰ” com o sentido de “por causa de”. Na versão Corrigida o texto foi traduzido como segue: “Filhinhos, escrevo-vos porque, pelo seu nome, vos são perdoados os pecados” (1Jo 2.12 ARC). A explicação para esta distinção está na gramática grega. A preposição, quando está governando um substantivo no caso genitivo, ela terá o sentido “através de” e quando a mesma governa um substantivo, no caso acusativo, terá o sentido de “por causa de” – o substantivo “ὄνομα” está no caso acusativo. Então, por causa do nome de Cristo e seu sacrifício no calvário aqueles irmãos tem a segurança do perdão dos pecados.

Vs. 13 – “γράφω ὑμῖν, πατέρες, ὅτι ἐγνώκατε τὸν ἀπ᾽ ἀρχῆς. γράφω ὑμῖν, νεανίσκοι, ὅτι νενικήκατε τὸν πονηρόν.”

João se dirige aos pais que no verso anterior estavam incluídos na categoria de “filhinhos”, ele diz: “Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno” (1Jo 2:13 ARA). É necessário entender que João escreve deste modo para individualizar as idades presentes na igreja, ou como alguém já disse, que o apóstolo passa a “enumerar diferentes idades, para que pudesse mostrar que o que ele ensinou era adequado para cada um deles.”[9] Ou seja, João sai do campo geral e vai para o particular, se dirige aos pais com a finalidade de relembrar-lhe que eles conhecem aquele que existe pelo séculos dos séculos.

O verbo conhecer aqui “ἐγνώκατε” está no tempo verbal que aponta para a continuidade dos resultados do conhecimento obtido sobre o verbo eterno. Os jovens são descritos como vitoriosos. Na verdade, o que João tem dito é que eles tem dominado o maligno, pois, no grego, o verbo “νενικήκατε” tem o sentido de conquistar e não de meramente vencer, a ideia é que eles têm avançado sobre o maligno (πονηρόν). Parece-nos que a perspectiva de João é bem otimista!

Vs. 14 - ἔγραψα ὑμῖν, παιδία, ὅτι ἐγνώκατε τὸν πατέρα. ἔγραψα ὑμῖν, πατέρες, ὅτι ἐγνώκατε τὸν ἀπ᾽ ἀρχῆς. ἔγραψα ὑμῖν, νεανίσκοι, ὅτι ἰσχυροί ἐστε καὶ ὁ λόγος τοῦ θεοῦ ἐν ὑμῖν μένει καὶ νενικήκατε τὸν πονηρόν.

Neste verso João começa com um aoristo epistolar “ἔγραψα” focalizando na mensagem da presente carta, e novamente se dirige aos filhos e usa a palavra “παιδία” que possui alguma noção do que está sendo dito de modo particular, ele diz que os mesmos conhecem “ἐγνώκατε” ao pai “πατέρες”.

Qual é a razão de João escrever a eles? Porque eles são fortes (ἰσχυροί ἐστε), e a palavra de Deus permanece neles. A expressão “palavra de Deus ” [ὁ λόγος τοῦ θεου] revela-nos que o verbo de Deus é suficiente para garantir a fortaleza espiritual que os jovens precisam. Eles têm a certeza do perdão dos pecados em Cristo e plena fortaleza na fé por causa da Palavra de Deus que habita neles. E como esta palavra permanece, a implicação é que eles têm como vencer o maligno.

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Notas:
[1] CARSON, D.A.; MOO, Douglas.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997, p.501.
[2] MARSHALL, I.HOWARD. Teologia do Novo Testamento – Diversos Testemunhos, Um só Evangelho. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007, p.460.
[3] VIELHAUER, Phlipp. História da Literatura Cristã Primitiva – Introdução ao Novo Testamento aos Apócrifos e aos Pais Apostólicos. Santo André, SP: Editora Academia Cristã, 2005, p. 489.
[4] STOTT, John R. W. I, II e III João – Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.83.  Simon Kistemaker partilha da mesma ideia de Stott Cf. KISTEMAER, Simon. Tiago e Epístolas de João – São Paulo: Editora Cultura Cristã, p. 352-358.
[5] CALVINO, John. Commentaries on the Catholic Epistles, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library,p. 159
[6] STOTT, John R. W. I, II e III João – Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.84.
[7] WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009, p. 573.
[8] CHAMBERLAIN, William Douglas. Gramática Exegética do Grego Neo-Testamentário. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989, p.98.
[9] CALVINO, John. Commentaries on the Catholic Epistles, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library,p. 160.

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Sobre o autor: Ministro da Palavra pela Igreja Presbiteriana do brasil. Formou-se em Teologia no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) Recife – PE. Foi professor de línguas bíblicas (Grego e Hebraico) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (SPFB) – Recife – PE. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Piripiri – PI.

Fonte: CEP - Centro de Estudos Presbiteriano

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O Ser de Deus e Seus Atributos

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Por Rev. João Ricardo Ferreira de França


A Teologia Sistemática busca apresentar também o ser de Deus e os seus Atributos. Lidar com este tema é fundamental para a vida da Igreja, pois, existe um total desconhecimento de quem seja o Deus que se revela na Igreja de Cristo.

5.1 – O Ser de Deus:

O Catecismo Maior de Westminster (1643-1648) na sua pergunta: Que é Deus? A resposta é a seguinte:

Deus é um espírito, em Si e por Si mesmo infinito em Seu ser, glória, bem-aventurança e perfeição; Todo-Suficiente, eterno, imutável, incompreensível, onipresente, Todo Poderoso, onisciente; sapientíssimo, justíssimo, misericordioso e cheio de graça, longânimo e pleno de verdade.[1]( Trindade. Capítulo 2, seção I)

Esta definição teológica do Catecismo é uma verdade impar, pois, reflete o que as Igrejas herdeiras da Reforma sempre tem acreditado sobre o ser de Deus. A Confissão de Fé de Westminster nos apresenta a mesma tônica:

Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições.  Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, - onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para a sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro remunerador dos que o buscam e, contudo, justíssimo e terrível em seus juizos, pois odeia todo o pecado; de modo algum terá por inocente o culpado.[2]

5.1.1 – Deus é Suficiente em si mesmo.

A Confissão de Fé nos mostra com base na Bíblia que Deus é em si mesmo suficiente; o que isto quer dizer? Isto significa que Deus não é dependente da nada ao seu redor para continuar existindo.

Deus tem em si mesmo toda:

a) Vida: ele é si mesmo e de si mesmo toda a vida (João 5.26)
b) Glória: Deus tem toda a glória em si mesmo. Ele é o Deus exaltado em si mesmo (Atos 7.2)
c) bondade: A Teologia Reformada diz que Deus é o supremo bem que homem deve ter. Isso quer dizer que para nós Deus é infinitamente bom (Salmos 119.68).

Isto implica dizer que Deus não precisa de nada ou de ninguém para continuar existindo como Deus. Sua glória não é derivada de alguma coisa que criou. A confissão de Fé diz exatamente isso “Ele é todo suficiente em si e para si, pois não precisa das criaturas que trouxe à existência, não deriva delas glória alguma, mas somente manifesta a sua glória nelas, por elas, para elas e sobre elas”. É nosso propósito viver para a Glória de Deus sem acrescentar nada a esta Glória.

5.1.2 – Deus é o Fundamento de toda a Criação.

Os teólogos de Westminster, juntamente com a Bíblia, declaram que Deus é a razão de existência de tudo o que foi criado. Os teólogos puritanos afirmam isso de forma bem arrojada e segura: “Ele é a única origem de todo o ser; dele, por ele e para ele são todas as coisas e sobre elas tem ele soberano domínio para fazer com elas, para elas e sobre elas tudo quanto quiser.”

A confissão diz que Deus é “a única origem de todo o ser”, então, entendemos que:

a. Deus é a fonte da existência: Isto significa que para nós o mundo não é o resultado de uma explosão (Big-Bang) e nem é o processo de uma geração espontânea (evolucionismo / darwianismo), mas que esta criação tem um único autor que o nosso Deus Trino (Atos 17.24-25)

b. Deus é a única origem indicando que ele é o Soberano sobre a criação: Todas as coisas que existem são dele, por ele e para ele, esta é a linguagem bíblica para descrever a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas que ele criou – ele tem o “soberano domínio para fazer com elas, para elas e sobre elas tudo quanto quiser” o conceito de soberania é ressaltado aqui porque Deus deve ser visto como o governante deste mundo (Rom. 11:36; Apoc. 4:11).

5.2 – Os Atributos de Deus:

Deus se revela por meio de seus atributos, alguns preferem o termo qualidades ou perfeições de Deus, todavia, continuaremos usando o termo usual da Teologia Sistemática – os Atributos de Deus. Os atributos de Deus são classificados em duas categorias: Atributos Incomunicáveis e Atributos Comunicáveis.

5.2.1 – Os Atributos Incomunicáveis:

Definição: Podemos dizer que são os atributos que Deus não comunica ao homem, pois, estes atributos encontram-se somente em Deus.

A unidade de Deus: Antes de considerarmos apropriadamente este assunto, se faz necessário considerar a unidade Deus. Nós presbiterianos acreditamos que há um só Deus, e este é “Vivo e Verdadeiro”.

O texto de Deuteronômio 6.4 nos mostra essa realidade. O termo “único” ocorre no texto para apontar uma “Unidade” não Absoluta, mas para uma “Unidade composta”, ou seja, Deus é um, mas nele há certa pluralidade que o judeu não podia explicar. Este é o indicio da doutrina da Trindade que consideraremos depois.

a) Deus é Infinito em Perfeição:

Deus tem sido caracterizado na Bíblia como um ser infinito. Em profunda perfeição a infinitude de Deus descreve que ele não tem fim, sempre continuará existindo, isto descreve que ele é isento de qualquer limitação, descreve que ele está ausente de qualquer erro em seu ser, e assim, descreve sua perfeição. Veja-se Jó 11.7-10; Salmos 145.3; Mt.5.48.

b) Deus é Imutável:

Outro atributo de Deus que é incomunicável ao homem é chamado de imutabilidade, a imutabilidade de Deus significa que Ele é sempre o mesmo em Seu ser, Ele não muda em sua natureza ontológica. O texto de Tiago. 1.17 nos informa isso. Três coisas podem ser analisadas aqui:

(1) Tudo o que é bom vem de Deus.
(2) Que de Deus as trevas não vem.

(3) Que Deus não pode mudar.

c) Deus é Eterno:

A sua eternidade não pode ser enumerada, somente ele é o ETERNO POR MAGNIFICIENCIA. A eternidade de nossa alma está ligada à criação de Deus. O SENHOR criou o homem para ser eterno, mas a eternidade de Deus é dEle somente.

d) Onipotência:

Creio “em Deus Pai, Todo-Poderoso” esta é a confissão da igreja. O atributo de onipotência cabe somente em Deus que criou o mundo e tudo o que nele existe; ter todo poder significa que Deus pode fazer tudo o que lhe apraz para glorificar o seu próprio nome. Jó 37.23.

e) Onisciente:

Deus conhece todas as coisas em sua totalidade, esse conhecimento não é adquirido, mas é inato em seu ser, Deus não aprende as coisas como acontece conosco, mas ele sabe tudo – alguns chamam isso de conhecimento exaustivo e simultâneo de Deus. Dentro deste atributo podemos incluir a presciência que é fruto deste conhecimento exaustivo de Deus. Romanos 11.34 e 1 Pedro 1.1-2.

f) Onipresença:

O Criador está em todos os lugares e não está limitado a estes lugares. É isto que quer dizer “Onipresença”. Dentro deste atributo encontramos apoio para duas verdades teológicas que são: 1) que Deus é Imanente – está na Criação, mas não é a Criação; 2) que Deus é transcendente – que está ausente na Criação, mas não abandona a Criação e não se funde ou confunde-se com ela. (Salmos 139.7-10).
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Notas:
[1] VOS, Johannes Geerhardus. Catecismo Maior de Westminster Comentado. Tradutor: Marcos Vasconcelos. São Paulo: Os Puritanos, 2007, p. 49.
[2] WESTMINSTER, Confissão de Fé. De Deus e da Santíssima Trindade. Capítulo 2, seção I in:  IN: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p. 27.

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