Interpretando 1 Pedro 1:1-2

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Por Sam Storms


Pedro, apóstolo de Jesus Cristo,


Aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia, escolhidos de acordo com a pré-conhecimento de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue:

Graça e paz lhes sejam multiplicadas. (1 Pedro 1.1-2)

A passagem de 1 Pedro 1. 1-2 afirma que somos eleitos “de acordo com a pré-conhecimento de Deus Pai”. Como já vimos, a presciência de Deus é o deleite especial ou a afeição graciosa com a qual Ele nos vê. Mais uma vez, um bom sinônimo é “amar primeiro”. Precisamos também interpretar a força da proposição traduzida por “de acordo com” (kata).

A maioria concorda que a palavra kata nessa passagem tem o sentido de “em conformidade com”. Em outras palavras, a presciência de Deus ou seu amor eterno por nós era o padrão ou norma à luz da qual seu ato eletivo foi realizado. Contudo, como sugerido por M.J. Harris, é quase como se a noção de conformidade fosse “totalmente deslocada, passando kata a denotar ‘fundamento’. Assim, a eleição é fundamentada na (kata) presciência de Deus Pai, realizada pela (en) obra santificadora do Espírito, tendo como objetivo ou conquista (eis) a obediência e a aspersão constante do sangue de Cristo”.

Precisamos ser cautelosos para não fundamentar uma grande parte da nossa teologia nas nuances das preposições gregas. Entretanto, não podemos nos dar ao luxo de ignorar as preposições como se elas não tivessem qualquer importância. Um exemplo relacionado a ignorar as preposições é a tentativa de Norman L. Geisler de contornar a doutrina da eleição incondicional. Geisler insiste em que, segundo 1 Pedro 1. 1-2, a eleição e a presciência são atos simultâneos, que nenhum se baseia no outro, seja cronológica ou logicamente. Mas dizer que a eleição é “de acordo com” a presciência (que é a interpretação de Geisler) não é a mesma coisa que dizer que a eleição é “concomitante” ou “simultânea” à presciência. A exegese de Geisler tem duas falhas graves. Primeira: ele pensa erroneamente que a presciência se refere a não mais do que a onisciência divina, o atributo em virtude do qual Deus conhece todas as coisas. E a segunda: ele lê na preposição kata um significado estranho ao Novo Testamento.

Em suma, o argumento de Pedro é o mesmo que o de Paulo. Em conformidade com o amor, ou talvez com base nele e na afeição graciosa pré-temporais de Deus pelos pecadores, Ele nos predestinou à fé e à vida.

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Fonte: Texto extraído do capítulo 8 da obra Escolhidos: Uma exposição da doutrina da eleição.
Selecionado por: Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

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A liberdade é um fantasma?

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Por Sam Storms


O que dizer então da liberdade humana? Para responder essa pergunta, precisamos fazer distinção entre “liberdade de ação” e “livre-arbítrio”. Dizer apenas, sem qualquer qualificação, “que o homem é livre” ou “que o nome não é livre” é fazer uma afirmação simplista e enganosa. Mas dizer que o homem tem liberdade de ação é dizer que ele é livre para fazer o que quer. Se ele quiser rejeitar a Cristo, ele pode. Se ele quiser aceitar a Cristo, ele pode. Em resumo, a vontade humana é livre para escolher o que quer que o coração deseje. Entretanto, sem a interposição da graça divina, ninguém quer ou deseja ter Cristo em seu pensamento ou em sua vida.

Todas as pessoas rejeitam o evangelho de modo livre, voluntário e espontâneo, porque é o desejo de seu coração fazê-lo. A liberdade de uma pessoa consiste na capacidade de agir em conformidade com seus desejos e inclinações, sem que ela se sinta compelida a agir de outro modo por causa de pessoas ou fatores que não são inerentes a ela. Desde que sua escolha seja fruto voluntário do seu próprio desejo, a vontade é livre. Isso é o que tenho em mente quando digo: “Sim, todas as pessoas são agentes morais livres”.

Por outro lado, dizer que uma pessoa tem livre-arbítrio é dizer que ela tem essa mesma capacidade ou poder para aceitar ou rejeitar o Evangelho. É dizer que ela é tão capaz de crer como de descrer, e que essa capacidade brota dela mesma e nasce dela – ou é o resultado da graça preveniente – não obstante o seu estado caído e pecaminoso. Se é isso que você tem em mente quando me pergunta: “O homem é livre?”, minha resposta, ou melhor, a resposta da Bíblia, é “não”. A vontade de uma pessoa é a extensão e expressão invariável da sua natureza. Assim como ela é, ela deseja. A liberdade que uma pessoa tem para agir, desejar ou escolher de modo contrário a sua natureza não é maior do que a liberdade que uma macieira tem para produzir avelãs.

Mas não é fato que Deus dá a cada um de nós a oportunidade de crer? Não é verdade que ele nos confronta com o Evangelho e diz: “Creia para que você possa ter vida”? Sim, Ele o faz. Mas a humanidade sempre, invariável, inevitável e incessantemente, e também prontamente e de maneira voluntária diz “não”. Note bem. Não estou dizendo que, quando confrontada com o Evangelho, uma pessoa não possa exercer sua vontade. Todos nós temos uma vontade e todos somos capazes de exercê-la na tomada de decisões. O que estou dizendo é que, quando confrontados com o Evangelho, não conseguimos desejar corretamente. Não somos impedidos de crer indo contra as nossas vontades. “Quem vier a mim”, declara Jesus, “eu jamais rejeitarei” (João 6.37). O problema, porém, como Jesus diz em seguida, é que “ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair” (João 6.44; grifo do autor).

Por que ninguém pode vir a Jesus a menos que o Pai o atraia?  Será porque o Pai o impede de fazê-lo? Será porque o Pai ou o Filho ou o Espírito colocou um obstáculo ou uma barreira em seu caminho para impedi-lo de ir quando alguém deseja urgentemente fazê-lo? Deus nos livre! Também não é porque a pessoa não tem as faculdades volitivas e intelectuais necessárias para fazer uma escolha positiva. Tampouco é por causa de algum defeito físico que ela repudia o Evangelho.

A razão pela qual ninguém pode ir até Jesus é que ir até Ele não está em nossa natureza. Nossa natureza e, portanto, nossa vontade, é fugir de Cristo, não ir até Ele. O fato – e um fato triste – é que não queremos ir. Nossa satisfação está em não irmos. Escolhemos permanecer em nosso pecado e incredulidade por nosso próprio desejo, liberdade e vontade, porque nada encontramos em Jesus que seja sedutor, atraente, verdadeiro ou represente de algum modo uma melhoria daquilo que já somos e temos por esforço próprio. Se um dia chegássemos ao ponto de querer ir a Cristo para obter vida, poderíamos fazê-lo. De fato, Jesus diz que, com toda certeza o faremos (João 6.37)! Mas esse “querer”, esse “ir”, não vem de nós mesmos, mas de Deus. Isso vem do Pai, que na eternidade passada nos “deu” ao Filho e, no tempo presente, nos “leva” a fé. Dizendo de maneira simples, ninguém, por si mesmo, quer ser salvo. Mas quem quer que, por intermédio do poder de Deus, se disponha a ser salvo, o será! 

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Fonte: Texto extraído do capítulo 4 da obra Escolhidos: Uma exposição da doutrina da eleição.
Selecionado por: Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

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O problema do ensino da graça preveniente

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Por Sam Storms


Porque os arminianos wesleyanos afirmam a eleição condicional, enquanto os calvinistas afirmam que a eleição é incondicional? A resposta é a graça preveniente. De acordo com essa doutrina, em uma ação sobrenatural de graça e misericórdia, Deus restaura a todos os seres humanos o livre-arbítrio perdido na queda de Adão. A graça preveniente proporciona às pessoas a capacidade de escolher ou rejeitar Deus.


(...) A graça preveniente apenas possibilita a fé salvadora, mas é o próprio indivíduo que faz com que ela seja real. Então, ainda precisamos perguntar: “Quem, em última análise, é responsável por uma pessoa vir a ter fé e outra não?”. No sistema arminiano, a resposta é a própria pessoa, e não Deus. 

(...) O arminiano sustenta que Deus prevê tanto que alguns crerão quanto que outros não crerão em Cristo em resposta ao Evangelho. Ele também afirma que Deus sabe por que eles respondem com crença ou descrença, pois Deus é onisciente e conhece os segredos e as motivações internas do coração. Deus também conhece aquilo que, na apresentação do Evangelho, terá êxito em convencer alguns a dizer “sim” e o que não terá êxito em persuadir aqueles que dizem “não”.

A pergunta, então, é: se Deus realmente deseja que todos sejam salvos como sustenta o arminiano, e se Ele sabe o que entre os meios de persuasão contidos no Evangelho podem levar as pessoas a responderem “sim”, por que Ele não orquestra a apresentação do Evangelho de tal maneira que ela tenha êxito em convencer todas as pessoas a crerem? Não há dúvidas de que o Deus que conhece perfeitamente cada coração humano é capaz de criar um mundo no qual o Evangelho teria êxito em todos os casos. E se Deus desejou que todos sejam salvos da maneira como o arminiano sustenta, por que não levou todos eles a salvação? 


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Fonte: Texto extraído do capítulo 2 da obra Escolhidos: Uma exposição da doutrina da eleição.
Compilado por: Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

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João 3.16 nega a doutrina da eleição?

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Por Dr. Sam Storms


O significado deste texto, que talvez seja o versículo mais conhecido da Bíblia, tem frequentemente sido obscurecido por intérpretes que, infelizmente, falharam em situá-lo no contexto maior que as Escrituras como um todo dizem a respeito do amor de Deus.

O que dizer, então, de João 3.16? Como é possível, muitos perguntariam, que Deus ame o mundo inteiro, mas escolha somente alguns para herdar a vida eterna? Será que o amor de Deus pelo “mundo” também deve ser entendido à luz dessa distinção entre a vontade secreta de Deus e sua vontade revelada? Isso é possível, mas não provável, em minha opinião.

Com frequência, a interpretação de João 3.16 começa com o termo mundo, pois se acredita que aqui reside a chave para uma apreciação adequada das dimensões do amor divino. “Apenas pense”, nos dizem, “nas multidões de homens e mulheres que já passaram, passam agora e ainda passarão por toda a face da terra. Deus ama a todos eles, a cada um deles. De fato, Deus os ama tanto que deu o seu Filho unigênito para morrer por cada um deles. Ó, como deve ser grande o amor de Deus para conter em seus braços essas multidões incontáveis de pessoas”.

É isso o que João — ou Jesus, conforme registrado por João — tinha em mente? É inegável que seu propósito é apresentar-nos o incomensurável amor de Deus. Mas, somos capazes de perceber quão imensurável é o amor de Deus medindo o tamanho do mundo? Penso que não. O que é a soma finita da humanidade quando comparada à infinitude de Deus? Seria como medir a força de um ferreiro levando em conta sua habilidade de suportar o peso de uma pena na palma de sua mão! A força primária desse texto está, certamente, em exaltar a qualidade e a majestade infinitas do amor de Deus. Mas tal fim jamais pode ser alcançado pelo cálculo da extensão ou do número de seus objetos. Será que, em qualquer grau, exaltamos o valor da morte de Cristo verificando a quantidade daqueles por quem Ele morreu? É claro que não! Se Ele tivesse morrido por um único pecador, o valor do seu sacrifício não seria menos glorioso do que se Ele tivesse sofrido por dez milhões de mundos!

Em vez disso, façamos uma pausa para considerar o contraste que o apóstolo pretende que vejamos. Certamente, João deseja que reflitamos em nossos corações acerca do caráter incomensurável de tão grande amor, e que o façamos contrastando, face a face, Deus e o mundo. O que isso revela? O que pensamos a respeito de Deus quando pensamos em seu amor pelo mundo? E em que pensamos a respeito do mundo quando ele é visto como o objeto do amor de Deus? O contraste é que Deus é um só e no mundo há muitos? O seu amor é exaltado porque Ele, como um, amou o mundo, composto por muitos? Mais uma vez, certamente não.

Esse amor é infinitamente majestoso porque Deus, sendo santo, amou o mundo pecador! O que nos impressiona é que Deus, que é justo, ama o mundo que é injusto. Esse texto se enraíza em nossos corações porque declara que aquele que habita em luz inacessível se dignou a entrar no reino das trevas; que aquele que é justo se entregou pelos injustos (1 Pe 3.18); que aquele que é totalmente glorioso e desejável sofreu uma vergonha infinita por criaturas detestáveis e repugnantes, que, sem a sua graça, respondem apenas com hostilidade merecedora do inferno! Assim, como disse John Murray:

Aquilo que Deus amou no tocante ao seu caráter é que põe em perspectiva o incomparável e incompreensível amor de Deus. Encontrar qualquer outra coisa como pensamento regente diminuiria a ênfase. Deus amou o que é a antítese de si mesmo; essa é a sua maravilha e grandeza.

Quando lemos o evangelho de João (e suas epístolas), descobrimos que o “mundo” não é visto, fundamentalmente, em termos de eleitos nem em termos de não eleitos, mas como um organismo coletivo: pecador, distante, alienado de Deus, permanecendo sob sua ira e maldição. O mundo é detestável porque é a contradição de tudo que é santo, bom, justo e verdadeiro. O mundo, então, é o contrário de Deus. Ele é sinônimo de tudo que é mau e pernicioso. Ele é aquele sistema da humanidade caída visto não em termos de seu tamanho, mas como um reino controlado satanicamente e hostil ao Reino de Cristo. A qualidade daquilo que Deus amou, não a sua quantidade, é que lança uma luz tão gloriosa sobre esse atributo divino. Em resumo, não posso fazer melhor do que mencionar a explicação de B. B. Warfield:

A maravilha… que o texto nos apresenta é apenas aquela maravilha acima de todas as outras maravilhas deste nosso mundo maravilhoso — a maravilha do amor de Deus pelos pecadores. E essa é a medida pela qual somos convidados a medir a grandeza do amor de Deus. Não é que ele seja tão grande que é capaz de estender-se por todo um grande mundo: ele é tão grande que é capaz de prevalecer sobre o ódio e a aversão ao pecado do Deus Santo. Nisto está o amor, em Deus poder amar o mundo — o mundo que jaz no maligno. Esse Deus que é totalmente santo, justo e bom amou tanto este mundo que deu a ele o seu Filho unigênito, para que Ele pudesse não julgá-lo, mas salvá.

A definição de Warfield do termo mundo precisa ser examinada cuidadosamente:

Ele é, aqui, um termo não tanto de extensão quanto de intensidade. Sua conotação primária é ética, e o objetivo do seu emprego não é sugerir que o mundo é tão grande que é necessária uma grande quantidade de amor para abraçá-lo totalmente, mas que o mundo é tão mau que é necessário um tipo de amor grandioso para sequer amá-lo, e muito mais para amá-lo como Deus o amou quando lhe deu o seu filho. Todo o debate acerca de o amor aqui celebrado ser dado a todo e qualquer homem que está no mundo ou estar restrito somente aos eleitos que foram escolhidos no mundo, está, assim, fora do escopo imediato da passagem e não fornece qualquer chave para a sua interpretação. A passagem não foi concebida para ensinar — e, certamente, não ensina — que Deus ama todos os homens igualmente e visita a todos de modo semelhante, manifestando igualmente Seu amor; tampouco foi concebida para ensinar, ou ensina, que seu amor está confinado a alguns poucos indivíduos especialmente eleitos, selecionados no mundo. Ela foi concebida para despertar em nossos corações uma percepção da maravilha e do mistério do amor de Deus por um mundo pecaminoso — concebido, aqui, não quantitativa, mas qualitativamente, tendo em vista sua característica distintiva: ser pecaminoso.

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Fonte: Sam Storms
Tradução: Abertos para reforma 
Via: Abertos para reforma
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João 15:1-6 e a segurança do crente

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Por Dr. Sam Storms


Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado. Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem.

Aqui lemos que Deus, como lavrador, amavelmente “limpa” (v.2), i.e., lava, purga e purifica os crentes de tudo o que não contribui para sua maturidade espiritual (“dar frutos”). Isto pode ocorrer de várias formas: disciplina, ensinamentos, provações, etc. O debate centra-se naquilo que Deus faz com as varas infrutíferas, e o que elas representam. Há geralmente três pontos de vista dessa passagem.

• A interpretação arminiana padrão é que as “varas infrutíferas” são cristãos genuínos que, por causa de sua falta de frutos, perdem a salvação. Um exemplo daqueles que apoiam este ponto de vista é Adam Clarke: “como o lavrador removerá toda vara infrutífera da videira, então meu pai removerá todo membro infrutífero de meu corpo místico, mesmo se eles estiveram em mim pela fé verdadeira (porque somente assim eles são varas)” (5:381).
• Uma variação da posição calvinista é que as “varas infrutíferas” são cristãos genuínos que, devido a sua falta de frutos, entram em disciplina divina. Esta “corte” e julgamento é a morte física, não morte espiritual. Eles são e permanecem salvos, mas são levados prematuramente ao Paraíso como uma medida disciplinar à sua falha de andar em obediência a Jesus.
• A outra opção para aqueles que creem na segurança eterna é entender que as “varas infrutíferas” são supostos “discípulos” que experimentam somente uma conexão externa e superficial com Jesus. Embora eles “creiam” e “sigam” a Jesus em algum sentido, sua ligação “não se encaixa com uma união interna, espiritual pela fé pessoal e regeneração” (J. Carl Laney, “Abiding is Believing: The Analogy of the Vine in John 15:1-6,” BibSac [January March, 1989], 61). Portanto “as varas sem frutos são varas sem vida – varas sem Cristo” (62).

Eu acredito que a terceira opção é a mais consistente com aquilo que lemos no Evangelho de João e no resto do Novo Testamento. Minhas razões (7 delas) para adotar essa visão e rejeitar as outras são as que se seguem.

Primeiro, a implausibilidade do ponto de vista arminiano é visto naquilo que Jesus declarou em João 10.28-29, que aqueles a quem ele dá a vida eterna nunca perecerão. Mais decisivo ainda é a palavra usada em 15.6. Ali Jesus diz que as varas infrutíferas serão “lançadas fora” (uma forma do verbo grego ballo, “colocar”, “lançar”, junto com o advérbio exo “fora” ou “do lado de fora”. Mas em João 6.37, Jesus usa virtualmente uma terminologia idêntica e diz “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” ( ekballo com exo ). O ponto de vista arminiano pede que Jesus contradiga o que disse do crente em 6.37 com o que afirma em 15.6. Certamente, nem Nosso Senhor falando, nem João registrando suas palavras, são culpados da mais óbvia das contradições teológicas.

Segundo, a fraqueza da segunda visão citada é que, aquilo que Jesus diz do destino das varas infrutíferas aparenta mais ser condenação eterna que um castigo temporário. As varas infrutíferas são “lançados fora” (v.2). A vara infrutífera é “lançada no fogo” e “queimará” (v.6; cf. Mateus 3.12; 5.22; 18.8-9; 25.41; 2 Ts 1.7-8; Ap 20.25).

Terceiro, a visão que as varas infrutíferas são não-regenerados é apoiada pelo que o Evangelho de João diz sobre “crentes” não-salvos. Em outras palavras, João freqüentemente retrata pessoas como “crendo” em Jesus, que claramente não são nascidas de novo. Há um estágio no progresso para crer em Jesus que “fica próximo da crença genuína ou consumada resultante da salvação” (Laney, 63). Veja João 2.23-25 (em que a “fé” ou “crença” é claramente superficial em sua natureza); 8.31,40,45-46 (em que os judeus que “creram nele” mostraram-se escravos do pecado [v.34], indiferentes às palavras de Jesus [v.37], filhos do diabo [v.44], mentirosos [v.55], culpados de mobilizar a multidão e tentar assassinar aquele em que eles professaram crer [v.59]!). Veja também 7.31 e 12.11,37, em que a mesma ideia está presente. Depois de Jesus ensinar, nós lemos em 6.60 que “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” Havia muitos “discípulos” de Jesus que “não criam” (v. 64). Carson explica:

“'Discípulos' devem ser distinguidos dos “Doze” (cf. 6.66-67). Mais importante, assim como há fé e fé (2.23-25), também existem discípulos e discípulos. Em um nível mais elementar, um discípulo é alguém que até certo ponto segue a Jesus, seja literalmente por entrar no grupo que o seguia de lugar a lugar, ou metaforicamente ao entendê-lo como uma autoridade ensinando. Um ‘discípulo' assim não é necessariamente um ‘cristão', alguém que creu salvificamente em Jesus e recebeu uma união com ele, dada pelo Pai ao Filho, planejada pelo Pai e nascido novamente do Espírito. Jesus deixará isso claro no apropriado momento que aqueles que continuam em sua palavra são verdadeiramente seus ‘discípulos' (8.31). Os ‘discípulos' descritos aqui não permanecem em sua palavra” (300).
Jesus claramente reconhece o que nós chamamos de “fé volátil” e a distingue da verdadeira, a fé salvífica, baseada no permanecer em Jesus e em seus ensinamentos. Perseverança é a marca ou sinal da fé salvífica verdadeira. Quando uma pessoa “permanece” ou “habita” na “palavra” de Jesus, isto é, a pessoa “obedece, procura entendê-la melhor, e a acha mais preciosa, com mais autoridade, precisamente quando outras forças opõem-se a ela. É aquele que continua no ensinamento que tem o Pai e o Filho (2 Jo 9; cf. Hb 3.14; Ap 2.26)” (Carson, 348).

Existe no Evangelho de João, portanto, uma “fé” ou “crença” superficial, transitória, que pode ser baseada unicamente em milagres vistos, mas não é fundamentada no fruto de um entendimento salvífico e a confiança em que Jesus realmente é. Pessoas como essas estão, de alguma forma, conectadas ou unidas a Jesus, o bastante para que elas possam ser chamadas de “discípulos”, ainda assim não são discípulos cristãos. Estas, acredito, são as varas infrutíferas de João 15.2,6.

Quarto, devemos tomar nota da frase “em mim” no v.2. É possível que “em mim” refere-se a “dá frutos” ao invés de “toda vara”. Em outras palavras, ao invés de interpretar o verso como “Toda a vara em mim, que não dá fruto”, deveria ser lido “toda vara que não dá fruto em mim...”. A frase “em mim” ocorre outras cinco vezes em 15.1-7 e em todos os casos refere-se o verbo. Portanto, pode muito bem significar que a frase “em mim” enfatiza “não o lugar da vara, mas o processo de dar frutos” (Laney, 64).

Quinto, o contraste entre os v.2 e v.3 suporta esse ponto de vista. Ao “falar simplesmente do corte de varas infrutíferas, Jesus explicou aos discípulos que Ele não tinha eles em vista (v.3). Eles já estavam ‘limpos'... por causa da resposta à Pessoa e mensagem de Cristo (cf. 13.10-11). Jesus estava dando a Seus discípulos instruções que não representavam a situação espiritual deles, mas tinham aplicação primária para aqueles a quem eles iriam ministrar, aqueles que clamariam ser de Cristo, mas não estavam dando frutos” (Laney, 64).

Sexto, esse ponto de vista traz o melhor sentido da relação no Evangelho e nas epístolas de João sobre “crer” e “permanecer”. A verdadeira fé salvífica em Jesus estabelece a relação de permanecer e, nos escritos joaninos, torna-se virtualmente sinônimo da crença genuína. Veja especialmente João 6.40-54 e 56; 1 João 2.24; 3.23-24; 4.15. Permanecer em Cristo é crer em Cristo.

Sétimo, Carson destaca que “a proposta transparente do verso [v.2] é insistir que não existem verdadeiros cristãos sem algum tipo de fruto. Frutificar é a marca infalível do verdadeiro Cristianismo; a alternativa é a madeira morta, e as exigências da metáfora da videira faz necessário que cada madeira esteja conectada com a videira. (Ramos mortos provenientes de alguma outra árvore, vivendo ao redor do campo da videira, quase nos passam essa ideia). Não existe vida neles; eles nunca deram frutos, ou então eles seriam limpos, não cortados fora. Porque Jesus é a videira verdadeira, em contradição com a videira de Israel em que não nasce fruto ou nasce frutos estragado, é impossível pensar que algum ramo que não dá fruto possa ser considerado parte dele: suas próprias credenciais como a videira verdadeira poderiam ser questionadas tão fundamentalmente quanto as credenciais de Israel” (515). Nesta ideia, veja especialmente Mateus 7.15-23 e 1 João 2.19.

Minha conclusão, então, é que esta passagem não ensina que um cristão verdadeiro, nascido de novo, possa apostatar da fé e perder sua salvação. Ela ensina que é impossível dar frutos fora da união doadora de vida, salvífica, com Jesus (v.4) e é impossível não frutificar quando esta conexão com Jesus realmente existe (v.5). Também ensina que alguns (muitos) que professam estar “unidos” com Jesus, que afirmam “crer” nele, e que mesmo o “seguem” como “discípulos” serão revelados pelo tipo de fruto, como falsos, e, portanto sujeitos ao julgamento eterno.

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Fonte: Sam Storms
Traduzido por: Josaías Cardoso Ribeiro Jr. 
Revisado por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Via: Monergismo
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