Nós não somos pecadores?

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A cantora Priscilla Alcântara realmente foi infeliz em seu comentário. Segundo ela, a religião diz que somos pecadores, mas nós (os cristãos) não somos, pois, Cristo tirou o nosso pecado. E agora nós somos santos. Por pertencemos a um Deus que é perfeito, também nos tornamos perfeitos, segundo sua fala.

Antes de entrar no cerne da questão, acredito que a forma como muitos procederam com relação a pessoa da Priscilla foi algo que passou do tom. Sei que dá para corrigir sem taxá-la de herege e adjetivos afins. Também alerto que o seu equívoco doutrinário não é termômetro para julgar a veracidade de sua fé. Há um mal no Brasil de que cantor gospel tem que sair pregando sem ter dom nem chamado para tal. Ela está inserida nessa - digamos - "cultura" prejudicial ao Ministério da Palavra. E isso pode e deve ser combatido, mas que não se misture alhos com bugalhos: o zelo doutrinário não pode virar um neo-gnosticismo. Não sei a quanto tempo ela professa o credo cristão e desconheço a igreja que a mesma frequenta. As respostas para essas duas questões devem ser levadas em conta, pois, ainda há tempo para a Priscilla crescer em graça e no conhecimento do SENHOR, evitando assim algumas interpretações truncadas do Evangelho. Para isso, é bom sentar e aprender, não se considerar apta para ministrar a Palavra. Enfim...

A Priscilla erra ao desconsiderar que em Cristo somos justificados e nossos pecados não mais serão contados no Dia do Juízo. Somos salvos pela graça, mas o Cordeiro de Deus pagou o preço. Em outras palavras, somos salvos da condenação e libertos do poder do pecado, declarados justos diante do Supremo Juiz pelos méritos de Cristo. O que não anula a nossa inclinação adâmica para pecar. O fato de sermos santos em Cristo, é real, todavia não consumado. Deixaremos de sermos pecadores em definitivo apenas no advento da segunda vinda, quando adentrarmos no Reino dos Céus "ele transformará os nossos corpos humilhados, para serem semelhantes ao seu corpo glorioso". Filipenses 3:21

Até lá, temos que reconhecer diante de Deus que somos pecadores, carentes da graça diariamente. Paulo diz: "Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!" 1 Coríntios 10:12. E João é taxativo ao afirmar que: "Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós." 1 João 1:8. Por isso a confissão de pecados é essencial para uma vida piedosa. Lutero foi sábio ao dizer que o cristão é simultaneamente justo e pecador. Esta tensão é vivenciada por todos os remidos até estarmos em definitivo com o nosso Redentor. Lemos na Escritura o seguinte: "Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam". Gálatas 5:17

Então, sendo bíblicos, há que se discordar veementemente da ideia de que não somos pecadores. E nem a doutrina da justificação, que nos torna santos posicionalmente em Cristo, servirá para amenizar o que foi dito pela Priscilla. Nosso status em Cristo (repito: real, mas na espera da consumação) não nos torna livres da inclinação pecaminosa, que provém de nossa carne. Aqui, neste mundo, estamos em santificação, que é um processo. E faz parte deste processo, o reconhecimento de nossa condição pecaminosa aliado a uma vida constante de confissão e contrição por nossos pecados. Que todo cristão venha entender isso, incluindo a Priscilla Alcântara, pois esta é a sã doutrina, Palavra que gera vida e nos coloca na dependência do nosso Deus bendito.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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Pagando a dívida, e ainda devedor (comentário a Gl 2:20)

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Gálatas 2.20 é um versículo precioso, poderia dizer, inigualável. Não somente porque foi o versículo da minha conversão [que descrevi no texto O dia em que Cristo me fez], mas porque, de uma forma singular, poder-se-ia resumir a vida cristã ou, ao menos, descrevê-la plenamente. É também o alvo, o de um dia poder dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. São palavras que me acalentam, me dominam, me compungem a encontrar-me nelas. Poderia ser a epígrafe cravada na minha sepultura, porém, muito mais a quero gravada em meu coração. O resumo de tudo o que almejo e quero experimentar. Mais do que isso, ser. E desde aquele momento, decorei-as, como se decora a melodia da mais bela entre todas as canções. Como se ouvisse a sinfonia perfeita, inefável, a síntese do mais puro e santo sentido, ainda que com palavras indizíveis em sua verdade absoluta e extraordinária. Como se estivesse a construir algo que sei impossível, por mim mesmo, construir. De certa forma, invejo a Paulo por ter sido ele e não eu a proferi-las; mas creio que saídas de sua boca, elas têm o som da minha voz, o som da sua voz, o som da voz de todos os santos, daqueles que são um em Cristo, e por ele vivem.
     
Mas, o que levou o apóstolo a proferi-las?
    
A mensagem central de Gálatas é a disputa: Lei x Evangelho. Em vários momentos, parece haver o desprezo de Paulo pela lei, como se fosse descartável e não existisse mais nenhum sentido nela. Mas esse não é o caso. Em outra carta, ele diz: E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” [Rm 7.12]. E, ainda: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei” [Rm 3.31].
    
O que está em disputa entre Paulo e os judaizantes é a lei como instrumento de salvação. Eles pregavam contra o Evangelho, ao afirmar que era necessário se cumprir toda a lei para salvar-se. Por isso, o apóstolo diz: “Se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” [ 2.21]. Ora, se para ser salvo o crente deveria cumprir toda a lei, qual a razão de Cristo encarnar, padecer, e morrer na cruz? Por isso o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo [2.16]. Desta forma, Paulo constrói a defesa do Evangelho da Graça, sem que haja nenhum tom antinominiano [1] em seu discurso, pelo contrário: “É porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor” [2.18].

Se Cristo pagou na cruz a dívida que tínhamos para com Deus, e se está paga, definitivamente paga, o que mais podemos fazer que Ele não fez? Fico a imaginar Paulo rindo-se da tolice desses homens, mas entristecendo-se pelo caráter sutil e maligno de distorcerem a fé a fim de enganar incautos, e anular a graça. Cristo, ao destruir o pecado e seu caráter condenatório sobre os eleitos, não poderia restituí-lo novamente, ao ponto em que seria exigido o cumprimento da lei para a salvação. Se a justiça foi decretada na cruz para os que creem, se o pecado foi morto, ressuscitá-lo significaria dizer, entre outras coisas, que a obra do Senhor não foi eficaz, e de que, loucamente, ao trazer a justiça, trouxe a injustiça.

O apóstolo está a condenar aqueles que anteriormente pregavam o Evangelho da graça, para agora viver pela lei, tornando-os em transgressores, porque quem não está morto para a lei, vive para ela, ou seja, vive para a morte, pois pela lei ninguém pode ser justificado perante Deus [3.11], antes está debaixo da maldição da lei. Ao contrário, quem está morto para a lei, vive para Deus, eternamente. Paulo ensina a teologia correta, a doutrina correta, mas muito mais do que isso.

• Ele disse que estava morto para a lei.
• Que estava crucificado com Cristo.
• Que vivia, não mais ele, mas Cristo.
• Que Cristo o amou, e se entregou a si mesmo por ele.

Então, o que levou o apóstolo a proferir o verso 2.20?

A consciência de tudo isso acima, mas, sobretudo, reconhecer que, sem Cristo, nada disso seria possível. Nem mesmo ele, Paulo, seria possível. De uma forma maravilhosa, Paulo reconhecia a completa dependência do Senhor, e a obra fantástica que fez para que ele pudesse reconhecer-se em Cristo. Sem ele, o que seria Paulo? Sem Cristo, o que seria eu? Você? Não haveria esperança, não haveria o perdão, nem a salvação. Apenas a tristeza assoladora de que a condenação era questão de tempo, irremediável, uma maldição a pairar sobre nossas cabeças eternamente. E se eu, antes condenado, agora salvo pelo poder de Deus, o que quereria exaltar em mim mesmo para voltar à destruição? Ou seria possível exaltar-me na ruína? Ou antes, ser um dia como Cristo é? Pois se olharmos para nós, como somos, sem Cristo, não haverá nada além de condenados sem que seja preciso esperar o castigo, pois estamos já a “curtir”, sobre nós, a ira de Deus. Se olhar para mim, descobrirei apenas que sou miserável, e nu, e cego. Se olhar, e apenas me ver, há um pecador naufragando em pecados. Se sou o futuro, não há futuro; apenas o passado de morte, de sofrimento e angústia. Ao contrário, se vejo Cristo em mim, assim como Paulo o via em si, as coisas mudam de figura. Já não sou mais um condenado, antes justificado. De pecador, a santo. De maldito, a bendito. De desgraçado e vil, a agraciado e amado.

A teologia de Paulo [2] estava certa. Ela lhe trouxe esperança, certeza, convicção. E abriu-lhe os olhos para a mais surpreendente e inesperada verdade, de que ele já não era mais ele, mas Cristo a viver nele. E trazia no seu corpo as marcas do Senhor [6.17], marcas profundas que não o impediam de se ver como era, de reconhecer o que era, de gloriar-se nas fraquezas para que o poder do Senhor em si habitasse [1Co 12.9]. Porém, antes era necessário que compreendesse e conhecesse isso, para depois sentir; pois, como sentir o que não se conhece ou não compreende? Como alguém desejará o que não conhece?

Como qualquer homem, ele tinha de nascer, crescer e amadurecer na fé. Mas ninguém nasce por si mesmo; era necessário que fosse gerado por Cristo; que o sangue do Senhor não somente o limpasse dos pecados, mas corresse em suas veias e bombeasse no seu coração a vida. A vida que somente o Senhor poderia dar, e deu, a despeito de todo o desejo de nos apossar dela como se fosse nossa por direito, e não por dádiva, misericordiosa, e graciosamente entregue pelo amor com que Deus nos amou. O caminho nos é mostrado, mas não há nada que nos faça andar nele, se não nos for revelado. Quem não pode ver, como saberá onde andar?

O certo é que, como João o Batista disse, era necessário que ele diminuísse e Cristo crescesse [Jo 3.30].

E assim será para todos os que foram crucificados e mortos com Cristo.

Se ele não viver em nós, a morte viverá.

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Notas: 
[1] Antinomianismo significa “antilei”. É o oposto de legalismo, e como ele, uma heresia. Para os defensores do antinomianismo, o crente não tem de obedecer à lei de Deus, pois Cristo à pregou na cruz. E se a pregou na cruz, está-se livre para viver como quiser, inclusive pecando o quanto quiser; ao ponto de até mesmo distorcerem o sentido de graça, ao afirmar que, quanto mais se peca, mais a graça se manifesta.
[2] Paulo, ao defender magistralmente o Evangelho da graça, afirmando a justificação somente pela fé no sangue derramado de Cristo na cruz, defende também a sua autoridade e ministério contra os falsos-mestres, os detratores que buscavam difamá-lo e desqualificá-lo como apóstolo. E nada mais verdadeiro do que reafirmar que estava morto para si, para viver para Cristo, enquanto aqueles queriam viver por si mesmos.
- Aguçado pela conversa com uma querida irmã, lembrei-me que devia um texto sobre Gl 2.20. E, por mais que escreva, sempre serei devedor a Deus por tê-lo dado a mim.
- Não entrei muito na questão da impossibilidade da lei como meio de salvação, a qual farei brevemente em outro texto.

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Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: 
Kálamos

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Pecadores justos

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59. Mas que proveito tem sua fé no Evangelho?
R. O proveito é que sou justo perante Deus, em Cristo, e herdeiro da vida eterna (1). 
(1) Hc 2:4; Jo 3:36; Rm 1:17. 
60. Como você é justo perante Deus?
R. Somente por verdadeira fé em Jesus Cristo (1). 
Mesmo que minha consciência me acuse de ter pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus, e de não ter guardado nenhum deles, e de ser ainda inclinado a todo mal (2) , todavia Deus me dá, sem nenhum mérito meu, por pura graça (3) , a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo (4). Deus me trata (5) como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim (6). Este benefício é meu somente se eu o aceitar por fé, de todo o coração (7). 
(1) Rm 3:21-26; Rm 5:1,2; Gl 2:16; Ef 2:8,9; Fp 3:9. (2) Rm 3:9; Rm 7:23. (3) Dt 9:6; Ez 36:22; Rm 3:24; Rm 7:23-25; Ef 2:8; Tt 3:5. (4) 1Jo 2:1,2. (5) Rm 4:4-8; 2Co 5:19. (6) 2Co 5:21. (7) Jo 3:18; Rm 3:22. 
61. Por que você diz que é justo somente pela fé?
R. Eu o digo não porque sou agradável a Deus graças ao valor da minha fé, mas porque somente a satisfação por Cristo e a justiça e santidade dEle me justificam perante Deus (1). Somente pela fé posso aceitar e possuir esta justificação (2). 
(1) 1Co 1:30; 1Co 2:2. (2) 1Jo 5:10. 
• Catecismo de Heidelberg

O 23º Dia do Senhor, diante das quatorze semanas que foram tratadas sobre cada ponto do Credo Apostólico, agora nos leva a refletir e perguntar: que bem nos faz crer em tudo o que foi visto?


A resposta que o Catecismo nos dá é essa: “O proveito é que sou justo perante Deus, em Cristo, e herdeiro da vida eterna.”

A doutrina implícita que o 23º Dia do Senhor trata é a doutrina da justificação. Infelizmente muitas pessoas não sabem tratar do assunto ou, quando tratam, abordam de forma incorreta. A reforma protestante, com Lutero, teve seu ímpeto com a descoberta da justificação pela fé somente. Sendo assim, o Catecismo, de forma didática, nos ensina algumas coisas. 

Há cinco conceitos importantes na compreensão desta doutrina implícita no 23º Dia.  

Primeiro, que deste lado do céu nós seremos, como disse Lutero, simultaneamente justo e pecador. O Catecismo nos mostra que mesmo estando de bem com Deus, nós, diariamente, transgredimos os Seus mandamentos. No entanto, Deus não absolve as nossas culpas por causa de nossas obras, mas porque confiamos “naquele que justifica o ímpio” (Rm 4.5).

Segundo, a nossa postura diante de Deus não está baseada em nossa justiça, mas em uma justiça alheia. Ou seja, a nossa justificação não é por nossas justiças, mas por uma justiça que não é nossa, como mostra a Confissão de Fé de Westminster

Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feitos, mas somente em consideração da obra de Cristo (XI.I)

E é nessa mesma voz que August Toplady diz poeticamente:


         Nada trago em minhas mãos, 
         Apenas me agarro à tua cruz; 
         Nu, venho a ti para me vestir,
         Dependente, busco graça em ti;
         À tua fonte vou correr. 
         Lava-me, Senhor, ou vou morrer!
         Rocha Eterna, partida por mim, 
         Deixa-me esconder em ti. 


Terceiro, se nada trago em minhas mãos, conforme disse o poeta, devemos entender que a nossa justificação não é baseada em nossa santificação, até porque, como dito anteriormente, nós pecamos todos os dias. No entanto, Cristo imputou em nós a sua justiça, nos livrando da condenação eterna, mas não dos castigos por causa de nossos pecados atuais.


Quarto, se não é a nossa bondade ou santidade que nos faz justificados por Cristo, o que é então? A nossa fé, a qual é dada por Deus (Ef. 2.8). Por isso nós falamos que somos justificados pela fé somente. O catolicismo romano crê que somos justificados pela fé, porém não crê que somente a fé pode nos justificar, mas também às práticas de boas obras que, segundo eles, fazem com que sejamos justificados. É verdade que a fé justificadora deve ser mostrada pelas obras, no entanto, ela não é a base de nossa justificação, mas a demonstração da mesma.

E, finalmente, depois do exposto sobre fé para ser justificado, o Catecismo vai nos mostrar, como um banho de água fria, que a nossa fé não tem valor se não entendermos o que é a santificação, a justiça e a santidade d'Ele que nos justifica diante de Deus. Ou seja, a obra perfeita de Cristo é o objeto da nossa justificação e a nossa fé é o instrumento para que sejamos justificados. Portanto, devemos crer com todo coração em Jesus Cristo, mas nunca colocar a fé na nossa fé. Devemos descansar em Cristo, não em nossa fé. Somente Ele é quem morreu por nós e ressuscitou em nosso lugar para a nossa justificação. Creia nisso, não em você e nem em suas obras. 

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos
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A morte da morte

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Por Denis Monteiro


Se Cristo morreu a nossa morte para vivermos a sua vida, por que muitos cristãos morreram e muitos ainda morrerão (e nós também)? Ou seja, a Bíblia mostra que Cristo sofreu a condenação de nossos pecados e por sua justiça fomos justificados, mediante a fé, diante de Deus, e mesmo assim sofremos com a morte física, por quê?

É justamente isso que o 16º Dia do Senhor no Catecismo de Heidelberg vai tratar:

40. Por que Cristo devia sofrer a morte?
R. Porque a justiça e a verdade de Deus (1) exigiam a morte do Filho de Deus; não houve outro meio de pagar nossos pecados (2). 
(1) Gn 2:17. (2) Rm 8:3,4; Fp 2:8; Hb 2:9,14,15. 
41. Por que Ele foi "sepultado"?
R. Para dar testemunho de que estava realmente morto (1). 
(1) Mt 27:59,60; Lc 23:53; Jo 19:40-42; At 13:29; 1Co 15:3,4. 
42. Se Cristo morreu por nós, por que devemos morrer também?
R. Nossa morte não é para pagar nossos pecados (1), mas somente significa que morremos para o pecado e que passamos para a vida eterna (2). 
(1) Mc 8:37. (2) Jo 5:24; Rm 7:24,25; Fp 1:23. 
43. Que importância tem, para nós, o sacrifício e a morte de Cristo na cruz?
R. Pelo poder de Cristo, nosso velho homem é crucificado, morto e sepultado com Ele (1), para que os maus desejos da carne não mais nos dominem (2), mas que nos ofereçamos a Ele, como sacrifício de gratidão (3). 
(1) Rm 6:6. (2) Rm 6:8,11,12. (3) Rm 12:1. 
44. Por que se acrescenta: "desceu ao inferno"?
R. Porque meu Senhor Jesus Cristo sofreu, principalmente na cruz inexprimíveis angústias, dores e terrores (1). Por isso, até nas minhas mais duras tentações, tenho a certeza de que Ele me libertou da angústia e do tormento do inferno (2). 
(1) Mt 26:38; Mt 27:46; Hb 5:7. (2) Is 53:5. 

A morte de Cristo é o pagamento total de nossa dívida diante de Deus, e Sua morte foi necessária porque não havia nenhum ser humano que conseguiria pagar a divida Dele e de qualquer outro pecador; “porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3.23), nenhum justo sequer (Rm 3.10). Portanto, nenhuma criatura poderia suportar a ira de Deus por causa de seus próprios pecados, por isso, Cristo, o qual foi profetizado desde o Gênesis, mostra que Ele era quem esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15) e o Servo que sofreria em favor de seu povo (Is 53) sendo obediente até a morte e morte de Cruz (Fp 2.8). 

Não obstante, Cristo, ao sofrer por nossos pecados e morrer, ele também foi sepultado. O Seu sepultamento mostra a veracidade de sua morte, não somente isso, mas também que Cristo venceu a morte em sua ressurreição não tendo poder sobre Ele, promessa essa que foi feita aos santos quando o que é corruptível se revestir da incorruptibilidade (1Co 15.54-57). 

Voltando a pergunta inicial, se Cristo morreu a nossa morte, por causa de nossos pecados, por que nós morreremos assim como outros irmãos na fé morreram? 

A resposta da pergunta 42 é muito interessante: [A] morte não é para pagar pelos nossos pecados, mas só um aniquilamento do pecado, e uma passagem para a vida eterna. 

Ou seja, a morte é o caminho mais rápido, antes da consumação final, de pararmos de pecar e de estarmos diante de nosso Salvador. E isso é muito interessante, porque todos nós desejamos estar eternamente com Cristo, mas ninguém quer morrer. Por que será? 

Se a nossa morte faz com que paramos de pecar e faz com que cheguemos à presença do Senhor, a morte de Cristo nos proporciona alguns benefícios, conforme mostra a resposta 43 do Catecismo:


      • O nosso velho homem é crucificado, morto e sepultado;
      • Os nossos maus desejos já não reinam sobre nós;
      • Possibilitando-nos oferecer como um sacrifício vivo em gratidão a Deus.


Portanto, por causa de nossos pecados, o nosso Salvador pagou a nossa dívida recebendo a ira de Deus na cruz do calvário, e essa ira, segundo Calvino, é o que significa o “descer ao hades”. Cristo sofrendo na cruz todo desprezo, angústia e dor. 

Por fim, devemos nos humilhar diante do nosso Salvador,  reconhecendo a cada dia que a nossa salvação foi fruto da obra de redenção do Senhor Jesus Cristo e que nós não tínhamos nenhum meio para pagar a nossa dívida diante de Deus. Mas devemos nos alegrar por causa da morte de Cristo, pois é um consolo para a nossa alma. Porque o tormento do inferno nós não enfrentaremos porque Cristo suportou na cruz por nós, nos dando vida e vida com abundância. 

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Notas:
¹ “E, de fato, não há abismo mais formidável que se possa imaginar que te sentires abandonado e alienado de Deus; e quando o invocas, não é ouvido, justamente como se ele próprio houvesse conspirado para a tua ruína”...  “ele suportou o peso da severidade divina, porquanto, ferido e afligido pela mão de Deus, experimentou todos os sinais de um Deus irado e punitivo”. (CALVINO, João. As Institutas, vol. II. 2º Ed. – São Paulo: Cultura Cristã. 2006. pp. 268, 269)

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Fonte: Bereianos
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O Eterno Propósito

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Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha explica, com base em Efésios 3:11 e Romanos 8:28-30, qual é o plano de Deus para o Seu povo? Qual é o eterno propósito de Deus? Através dos decretos de Deus podemos ter a segurança de nossa salvação?

Assista!



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Fonte: Guerra pela Verdade
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A graça de Deus

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Por Heitor Alves


Por volta de 1750, John Newton era o comandante de um navio negreiro inglês. Os navios faziam o primeiro pé de sua viagem da Inglaterra quase vazios até que escorassem na costa africana. Lá os chefes tribais entregavam aos Europeus as "cargas" compostas de homens e mulheres, capturados nas invasões e nas guerras entre tribos. Os compradores selecionavam os espécimes mais finos, e comprava-os em troca de armas, munições, licor, e tecidos. Os cativos seriam trazidos então a bordo e preparados para o "transporte". Eram acorrentados nas plataformas para impedir suicídios. Colocados lado a lado para conservar o espaço, em fileira após a fileira, uma após outra, até que a embarcação estivesse "carregada", normalmente até 600 "unidades" de carga humana. Os escravos eram "carregados" nos navios para a viagem através do Atlântico. Os capitães procuraram fazer uma viagem rápida esperando preservar ao máximo a sua carga, contudo a taxa de mortalidade era alta, normalmente 20% ou mais.

Uma vez chegados ao Novo Mundo, os negros eram negociados por açúcar e melaço que os navios carregavam para Inglaterra no pé final de seu "comércio triangular". John Newton transportou muitas cargas de escravos africanos trazidos à América no século XVIII. Numa das suas viagens, o navio enfrentou uma enorme tempestade e afundou-se. Foi nesta tempestade que Newton ofereceu sua vida a Cristo, pensando que ia morrer. Após ter sobrevivido, ele converteu-se verdadeiramente ao Senhor Jesus e começou a estudar para ser um chamado Pastor. Nos últimos 43 anos de sua vida ele pregou o evangelho em Olney e em Londres. Em 1782, Newton disse: "Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: Eu sou um grande pecador, Cristo é o meu grande salvador." No túmulo de Newton lê-se: "John Newton, uma vez um infiel e um libertino, um mercador de escravos na África, foi, pela misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, perdoado e inspirado a pregar a mesma fé que ele tinha se esforçado muito por destruir". O seu mais famoso testemunho continua vivo, através da sua autoria de um hino intitulado "Amazing Grace", Graça Maravilhosa.

Newton compôs esta canção cuja letra fala de sua transformação espiritual. Testemunha que foi a graça de Deus que o salvou do naufrágio. Esta composição foi interpretada por vários cantores norte-americanos, mas é na voz de Elvis Presley, o "Rei do Rock", que se tornou famosa.

Podemos definir esta “graça” como o favor eterno e totalmente gratuito de Deus, manifestado na concessão de bênçãos espirituais e eternas às criaturas culpadas e indignas. Ou seja, é a concessão de favores a quem não tem mérito próprio e pelos quais não se exige compensação alguma. Logo, ninguém pode reivindicá-la como direito. Caso contrário não seria graça (Rm 4.4,5; 11.6).

1. Características da Graça

A Graça é Eterna.

As obras da graça não são feitas para resolverem os problemas de última hora. Ela não é feita às pressas, na carreira. Deus não espera acontecer algo de mal ao homem para formular como a Sua Graça agirá. Mas as obras da graça de Deus foram idealizadas antes de serem manifestadas aos homens. Elas foram formuladas antes de serem comunicadas a eles. Deus nos deu tudo antes de tudo existir (2Tm 1.9). Todas as resoluções fundamentais com respeito à nossa salvação foram feitas antes que o mundo existisse (Tt 1.2).

Deus não toma providências quando os problemas surgem. Mas a sua sabedoria eterna e infinita tratou de planejar a sua graça de acordo com cada problema antes mesmo do problema agir. Nisso dizemos que Deus não é apanhado de surpresa em nada do que acontece no mundo. Pois para cada situação da vida, cada detalhe da nossa existência, Deus já havia providenciado a sua graça para aquele momento ou para aquela situação.

A Graça é Supremamente Rica.

O apóstolo Paulo, quando escreve sobre a graça de Deus, escreve usando expressões majestosas. Veja Efésios 2.6,7:

“...e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.

Vemos, neste verso, que todas as realidades relacionadas à graça de Deus sobre nós estão vinculadas a Cristo Jesus. Isso quer dizer que não existe manifestação da graça para nós fora de Cristo. A Graça de Deus não pode vir a nós se não vier com Cristo. Com Cristo temos graça, sem Cristo não temos graça. A graça vem acompanhada da obra de Cristo em nosso lugar e em nosso favor.

Notemos também que Paulo fala da “suprema riqueza da sua graça”. A graça de Deus é rica (1) porque ela nos ressuscita com Cristo. Isso tem haver com a regeneração ou novo nascimento, onde Deus nos deu vida estando nós mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1,5). Ela é rica porque concede vida aos que estão mortos.

A graça de Deus é rica porque (2) ela nos coloca “nos lugares celestiais em Cristo Jesus”. Quando Deus nos ressuscita, Ele nos eleva para os “lugares celestiais” que são os lugares nos quais reina a graça de Deus de forma supremamente rica e nos quais a esfera da pecaminosidade não possui domínio sobre nós. No original grego, “nos fez assentar” está no passado e indica uma ação concretizada no passado. Deus já nos colocou nessa posição gloriosa juntamente com Cristo.

A Graça é Soberana.

É soberana porque reina. Ela não é um objeto qualquer que nos é oferecida e podemos aceitá-la ou não. Paulo afirmou que a graça reina (Rm 5.21) e o autor aos Hebreus usa a expressão “o trono da graça” (Hb 4.16). Ora, onde há um reino, há um trono; onde há trono aí há a soberania.

O que produz no coração dos orgulhosos um forte ódio contra Deus é o fato da graça de Deus ser dada livre e soberanamente, sem que possa ser comprada ou merecida ou até mesmo exigida. Faz parte da natureza humana o sentimento de competição, de luta para conquistar algo. O atleta que treina durante quatro anos para competir e ganhar uma olimpíada; uma seleção de futebol que se prepara com amistosos, torneios e eliminatórias durante quatro anos para, enfim, jogar uma copa do mundo com sete partidas e sagrar-se campeão. Mas na carreira espiritual não há preparação ou treino. Você chega ao céu simplesmente com a graça. É dada para o homem a entrada nos céus. É dada ao homem a vida eterna.

2. As Obras da Graça

A graça de Deus faz muitas obras na vida do homem, sejam elas de caráter soteriológico ou não.

A Graça na Restauração do Pecador.

Em se tratando de restauração do pecador, todos os passos para a redenção do pecador são atribuídos à graça de Deus, ou seja, todas as bênçãos provenientes da salvação nos são dadas graciosamente por Deus.

(1) A Eleição é obra da graça de Deus. Apesar da eleição não significar salvação, ela indica quem serão salvos com absoluta certeza, embora apenas Deus possa ter esta certeza. O decreto da eleição é nascido no amor gracioso de Deus. O ato divino de eleger indivíduos para a salvação já revela a manifestação da graça de Deus. A eleição por si só já é por graça. Isso exclui toda e qualquer tentativa de validar a salvação por obras (Rm 11.5,6).

(2) A Regeneração é obra da graça. Regeneração é sinônimo de chamamento, chamado eficaz, vocação eficaz. Paulo declara de os homens são chamados por graça. Ele é um exemplo do chamado gracioso de Deus. Ele não desejava ser um cristão. Nunca almejou isso. E ele testemunha isso em Gálatas 1.6,15:

Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho... Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim...”.

(3) A Justificação é obra da graça. A base da nossa justificação repousa na obra graciosa de Cristo que derramou o seu sangue (Rm 5.9). A justificação pelo sangue é uma obra da graça de Deus:

... sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus...” (Rm 3.24).

Em Romanos 5.16,18, Paulo nos explica que Deus exerce juízo sobre os homens com base apenas no pecado de Adão. Uma só ofensa. Já com a graça de Deus ocorre diferente. Imagine se Deus justificasse o homem por um só pecado?, como ficaria ele com o restante dos pecados que comete? A morte de Cristo traz o perdão não apenas de uma transgressão, mas de todas elas. Isso leva a gratuidade da justificação por todos os pecados. A graça transcorre de muitas ofensas. Por isso o apóstolo conclui:

... mas onde abundou o pecado, superabundou a graça...” (Rm 5.20).

A graça sobrepuja o pecado a fim de que os seres humanos possam ser justificados de todos os seus pecados (Tt 3.7).

(4) A fé é obra da graça. De acordo com as Sagradas Escrituras, a fé é fruto da graça divina sobre os homens. É a graça de Deus atuando na vida do homem que o capacita a ter fé. Não podemos dissociar graça da fé. Sem a graça divina é impossível crer em Cristo. Qualquer fé em Cristo que não for acompanhada da graça, pode ser qualquer coisa, menos a verdadeira fé evangélica. É a graça de Deus que torna possível a fé em Cristo:

Querendo ele (Apolo) percorrer a Acaia, animaram-no os irmãos e escreveram aos discípulos para o receberem. Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido...” (At 18.27).

Mesmo convencendo publicamente às pessoas por meio das Escrituras (v. 28), era absolutamente necessário que a graça operasse, a fim de que as pessoas pudessem crer. Não existe fé sem a graça. Não há meio para obter a fé se não for através da graça.

Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele...” (Fp 1.29).

(5) A santificação é obra da graça. Apesar de muitos crentes acharem que a santificação é algo que o crente deve desenvolver, e eles estão corretos em pensar isso, o que eles precisam saber é que a santificação é uma obra que Deus faz em nós.

Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. (1Pe 5.10).

A palavra “santificação” não aparece no texto, mas os seus sinônimos: “aperfeiçoar”, “firmar”, “fortificar” e “fundamentar”.

A graça de Deus nos aperfeiçoa, ou seja, vai nos tornar maduros para a vida cristã semelhante á de Jesus Cristo. A graça de Deus promete firmar-nos, ou seja, Deus nos fará seguros na luta contra o inimigo. É pela graça que o crente nunca apostatará da fé, mas permanecerá firme na doutrina do seu Senhor. Não desprezará a boa consciência firmada na palavra e nem irá naufragar na fé (1Tm 1.19). A graça de Deus nos fortifica. Em tempos de conflitos teológicos e espirituais, precisamos não apenas de firmeza, mas de constante fortalecimento. Constantemente perdemos nossas energias contra os ataques desgastantes do inimigo. Por isso, em Hebreus, os santos do passado “da fraqueza tiraram força” (Hb 11.34). Paulo já afirmou que “o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9,10). A graça de Deus promete fundamentar-nos. Toda obra de santificação está firmada na obra de Cristo que nos é transmitida através de sua Palavra. É o fundamento sobre o qual toda a igreja deve estar firmada.

(6) A entrada na glória é obra da graça. Ainda no texto de 1 Pedro 5.10, encontramos a declaração da glória a vir a ser revelada em nós como produto da mesma graça. Somos chamados para desfrutar ou participar da eterna glória de Deus. “Glória” é a bem-aventurança celestial da qual todos os eleitos de Deus participarão. Esta glória está vinculada à sua Santidade. Ser participante da sua glória é ser participante da sua santidade. Deus já começou esta obra em nós, mas vai completá-la no dia de Cristo Jesus.

A Graça de Deus nos instrumentos da Salvação.

Nada do que os seres humanos recebem está fora da graça divina.

(1) Pela graça, o evangelho é dado. O evangelho de Jesus Cristo é chamado de “evangelho da graça de Deus” (At 20.24). É o “evangelho da graça” porque alcança o pecador num estado de miséria e de desmerecimento; porque anuncia a redenção sem exigir nada do homem; porque invade o coração do pecador trazendo-o para a vida quando estava morto em delitos e pecados. É a demonstração da boa-vontade de Deus para com o pecador. Este evangelho anuncia o perdão de Deus aos pecadores por quem Cristo morreu.

(2) Pela graça, a Palavra de Deus é dada. Também é chamada de “palavra da sua graça” (At 14.3). É a Palavra do Senhor que anuncia a sua salvação pela graça aos pecadores.

(3) Pela graça, o evangelho de Deus é pregado. O evangelho é chamado de “evangelho da graça”. A proclamação dele é também uma obra da graça de Deus.

A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo...” (Ef 3.8).

A tarefa de pregar o evangelho é um dom precioso. A maior graça que Paulo recebeu foi a de ser o pregador do evangelho da graça.

(4) Pela graça participamos da Ceia do Senhor. Na Ceia do Senhor é anunciada a sua morte. Os participantes dela alimentam-se do corpo e do sangue de Cristo para sua nutrição espiritual e crescimento na graça; têm a sua união e comunhão com ele confirmadas; testemunham e renovam a sua gratidão e consagração a Deus e o seu mútuo amor uns para com os outros, como membros do corpo de Cristo.

A Graça de Deus na capacitação dos Cristãos.

Nada do que os seres humanos recebem está fora da graça divina. A Graça de Deus se manifesta de múltiplas formas na vida do cristão. (1Pe 4.10; 2Co 4.15).

(1) Pela graça os homens recebem os dons espirituais. Todos os dons espirituais são produtos da graça de Deus na vida dos cristãos. Não há dom que não seja pela graça. Recebemos os dons gratuitamente para servimos aos outros.

... tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé...” (Rm 12.6).

Os dons não são habilidades conseguidas pelos cristãos, mas são uma concessão graciosa de Deus. Por falta dessa compreensão, há muitas discórdias e divisão na igreja. O fato dos dons serem um produto da graça divina nos guarda contra o orgulho e a jactância (Ef 4.7,8; 1Pe 4.10).

(2) Pela graça os homens são dotados para o ministério da Palavra. Todos os crentes possuem uma função no corpo de Cristo porque a graça possui várias manifestações de capacitação (1Pe 4.10), mas a capacitação mais marcante na vida de Paulo foi a altíssima e honrosa tarefa de ser ministro de Cristo Jesus na pregação do evangelho.

Entretanto, vos escrevi em parte mais ousadamente, como para vos trazer isto de novo à memória, por causa da graça que me foi outorgada por Deus, para que eu seja ministro de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo.” (Rm 15.15,16).

Paulo sempre fazia questão de dizer para seus ouvintes que o seu ministério não era por vontade própria, mas uma decisão graciosa de Deus. Era um privilégio tão grande que ele o chama de “sagrado encargo”.

No conceito paulino, servir aos irmãos com a pregação da Palavra é graça.

... do qual [evangelho] fui constituído ministro conforme o dom da graça de Deus a mim concedida segundo a força operante do seu poder.” (Ef 3.7).
Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.” (1Co 15.10) 

A Graça de Deus na Vida Cristã em Geral.

(1) Pela graça os homens recebem consolação e esperança. Todos os dons espirituais são produto da graça de Deus na vida dos cristãos. Não há dom que não seja pela graça. Recebemos os dons gratuitamente para servimos aos outros.

Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça, consolem o vosso coração e vos confirmem em toda boa obra e boa palavra.” (2Ts 2.16,17).

Paulo fala de dois tipos de consolação. Um tipo de consolação que já nos foi dada e um tipo de consolação que é nos dada diariamente. O que Paulo chama de “eterna consolação” se refere o que Cristo já fez por nós. Refere-se aos atos redentores de Deus. Cristo conquistou o amor eterno e a consolação eterna de uma maneira segura. Ao mesmo tempo, Paulo deseja a consolação de Deus para os corações aflitos. Esse tipo de consolação juntamente, com a esperança, haveria de encher os corações deles. Eles anda haveriam de se apropriar das bênçãos que tinha origem e caráter eterno. Isso é graça de Deus.

Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.” (Hb 4.16).

Para receber as bênçãos da salvação descritas neste verso (misericórdia e graça), precisamos nos achegar com confiança ao “trono da graça” para sermos socorridos em tempo de necessidade. Cristo transformou o trono de juízo em trono da graça. No tempo oportuno, Deus socorre o pecador com misericórdia e graça.

(2) Pela graça os homens recebem libertação do perigo.

Porque, esta mesma noite, um anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas! É preciso que compareças perante César, e eis que Deus, por sua graça, te deu todos quantos navegam contigo.” (At 27.23,24).

A graça de Deus não é apenas para a salvação, mas é também para eventos do dia-dia. Veja o caso de Paulo. Pela graça de Deus, nenhum dos que estavam á bordo do navio se perdeu durante a tempestade. Todos se salvaram pela graça de Deus (Ver todo o capítulo 27 de Atos).

Todos os dias nos colocamos em situações de perigos sem sabermos. Mas uma coisa precisamos saber, que a graça de Deus se faz presente nos livrando dos perigos existentes, seja um assalto em um ônibus, ou mesmo na rua, ou uma outra situação de risco qualquer. A graça de Deus não apenas nos livra de situações de risco, mas, mesmo experimentando algum tipo de perigo, a Sua graça trata de tirar-nos da situação completamente ilesos. Em um estabelecimento em que trabalhava, fui vítima de um assalto. Ficamos reféns dos assaltantes por pelo menos 15 minutos. Todos com arma em punho. Mas, pela graça de Deus, não usaram suas armas e todos nós saímos ilesos daquela situação.

Conclusão

Transcrevo aqui um texto de John Newton:

“Eu não sou o que devo ser. Ah! quão imperfeito sou! Não sou o que desejo ser. Abomino o que é mau e anelo apegar-me ao que é bom. Não sou o que espero ser. Logo me despirei da mortalidade e, com ela, de todo pecado e imperfeição. Embora não seja o que devo ser, o que desejo ser e o que espero ser, ainda posso dizer, em verdade, que não sou o que fui outrora, escravo do pecado e de Satanás; posso, sinceramente, unir-me ao apóstolo e reconhecer: ‘Pela graça de Deus, sou o que sou’”.

Procuremos entender a cada dia o conceito de graça. Nunca atribua nada do que você tem àquilo que você faz, ou fez, ou conseguiu. Proteja-se da auto-justiça. Paulo dava muito valor à graça de Deus porque ele teve noção da sua pecaminosidade. Logo, quanto mais depreciarmos o pecado e lamentarmos por ele, mais ansiaremos pela graça divina dando um valor inigualável a ela. Louvemos a Deus por Ele ser o Deus da graça. O Deus que concede graça aos imerecidos.

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Fonte: Blog dos Eleitos
Um dos melhores blogs que já existiu, mas que infelizmente não está mais no ar.
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Quem pode dizer “se Deus é por nós quem será contra nós”?

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Por Josemar Bessa


Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” - Rm 8:33

Justificar é muito mais que absolver. Na justificação há uma resposta adequada para cada acusação, um indenização completa por cada demanda que pesa sobre os filhos (eleitos) de Deus, um recibo para cada dívida mostrando: Quitado! Quão gloriosa é a justificação que temos em Cristo. Mas isto que falamos não compreende tudo o que a justificação significa.

Justificar é muito mais do que perdoar e absolver. Ela dá uma justiça que a absolvição simples não poderia prover. Alguns são absolvidos por falta de provas, outros são honrosamente absolvidos... mas ninguém sai de um tribunal com as honras que Deus concede aos seus eleitos ao justificá-los: “Assim disse Hamã ao rei: Para o homem, de cuja honra o rei se agrada, Tragam a veste real que o rei costuma vestir, como também o cavalo em que o rei costuma andar montado, e ponha-se-lhe a coroa real na sua cabeça” ( Ester 6.8).

Viu o que Assuero fez a Mordecai? Quando Deus justifica um homem Ele não apenas o absolve, mas coloca-lhe um manto de justiça, um manto real, no qual ele pode estar diante de Deus como um santo, impecável em obediência – na obediência gloriosa do Seu Filho Amado. Recebem uma coroa de justiça: “E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro.” – “E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação; E para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra.” (Ap 4.4; 5.9,10).

Que glória há nesta verdade, você e eu, se fomos eleitos, se estamos no Reino, se fomos chamados eficazmente, se fomos regenerados, se cremos no Filho de Deus, se fomos justificados, embora em nós mesmos sejamos criminosos vis e culpados – agora aos olhos de Deus não somos mais apenas “não culpados” – somos vistos debaixo da justiça de Cristo – com uma justiça gloriosa, imaculada, sem ruga...

Como nossas mentes poderiam não se encher com este mistério infinito e gerar eterna e santa admiração parecendo ser nossa justificação algo grande demais para ser verdade? Como não viver cheio de um inesgotável regozijo? Como precisar de qualquer outro estímulo que nos leve a completa adoração?

Um criminoso culpado que mesmo assim recebe perdão, sai do tribunal com a cabeça baixa diante da multidão – com desejo de não encontrar ninguém que esteve naquele tribunal nunca mais – com grande senso de vergonha... Mas ser coberto por um manto de justiça diante dos olhos de um Deus infinitamente Santo é algo inacreditável demais! Se levantar como um filho amado, sem mancha, ruga... isso excede a todo pensamento humano agora e na eternidade. Nem homens, nem anjos podem compreender isso completamente.

Houvesse uma ruga, uma mácula e não poderíamos estar naquele dia diante de Deus – Seus olhos santos não podem descansar sobre qualquer imperfeição. Qualquer imperfeição ou mancha faz acender sua Ira.

Quem os condenará?

A Lei nos condena justamente e nossas próprias consciências nos condenam. Apesar disso o apóstolo Paulo levanta sua voz de maneira inabalável e inamovível e declara: “Quem os condenará?” – Olhe ao seu redor e não será difícil encontrar um mundo de condenação sobre os eleitos de Deus – podem ser condenados por se apegarem a uma doutrina que por não ser antropocêntrica, será taxada como “sem amor” – doutrinas perigosas – intolerantes – preconceituosos – apegados a uma falsa verdade absoluta (acusação feita por um mundo de mentiras e ‘verdades’ pessoais’), por não serem maleáveis, por serem orgulhosos por causa das doutrinas da graça ( quando na verdade elas são ofensivas por humilhar o homem)... Condenados! O Filho de Deus neste mundo foi condenado a morte.

Onde está a mente dos eleitos? A pergunta final é: Será que Deus os condenará? Será que Ele condenaria as Doutrinas que Ele revelou? Condenaria as experiências (regeneração, santificação...) que Ele mesmo operou por meio de Seu Espírito? Condenaria a vida que agora vivem na fé no Seu Filho amado? Por entrarem pela porta estreita que Ele providenciou e o caminho estreito que ele abriu?

Mesmo a condenação de uma Lei Santa e uma consciência sensível não prevalecerá. E por que não? Porque Cristo morreu! Esta é a resposta toda suficiente sobre a vida dos eleitos de Deus. Do começo ao fim o apóstolo fala sobre a cooperação das obras. Ele tem apenas duas respostas – “É Deus quem os Justifica” – Para os que ousam condená-los sua resposta é: “É Cristo que morreu” – Todos os acusadores na corte de Deus, na corte do Universo criado, ficam mudos.

Os eleitos receberam um novo coração para amar e obedecer alegremente a Deus aqui. Se sujeitar como Cristo em tudo se sujeitou ao Pai em obediência até a morte. Serão inevitavelmente santificados, vencerão o mundo, perseverarão até o fim no poder do Espírito, e por fim, serão glorificados. Nenhum desses passos faltará na vida de todos os eleitos de Deus. Todos os filhos de Deus se purificarão assim como ele é puro e buscarão dia e noite a santificação sem a qual ninguém verá a Deus, pois é o Espírito que opera isso neles; tanto o desejar como o efetuar.

Porque Deus justifica seus eleitos só eles podem dizer: “Se Deus é por nós quem será contra nós?” – É estranho como muitos gostam de ao mesmo tempo negar as doutrinas da graça – predestinação, eleição... e ainda assim citar esse verso. Mas não podem – O texto é claro sobre quem diz isto: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” – Por que podem dizer isto? Porque “quem os condenará se é Deus quem os justifica?

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Fonte: Josemar Bessa
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Você sabe o que é Justificação?

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Por Rev. Ronaldo P. Mendes


o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.…” (Romanos 8.30)

A Justificação “é um ato da livre graça de Deus, no qual ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida somente pela fé.” (Breve Catecismo de Westminster). O pecador que, por natureza, é inimigo de Deus, sendo justificado pela fé em Cristo pode desfrutar de uma completa e perfeita paz e harmonia com Deus (cf Romanos 5.1).

É um ato de um juiz, absolvendo alguém que é acusado de crime. Mas de qual crime o homem é acusado? A resposta está em Gêneses 3 onde está o relatado a desobediência de Adão, a queda da humanidade. O homem pecou e para ser justo diante de Deus é preciso pagar um preço, esse preço Deus cobrou em seu Filho Jesus Cristo. O homem está morto em seus delitos e pecados. Assim, para que esse homem possa viver, é necessário que Deus faça algo por ele,  Deus o torna justo através da obra de Cristo (cf Rm 3.23-24). O Senhor, por sua graça, atribui ao pecador que é culpado e condenado, mas eleito em Cristo, a retidão perfeita de Deus. Ele o absolve nos méritos de Jesus de toda a culpa e castigo, e lhe dá um direito a vida eterna. Nós não temos penalidade a pagar pelo pecado, incluindo os pecados do presente, do passado e do futuro.

Aos nossos olhos parece-nos injustiça por parte do juiz. Mais é um julgamento justo, pois a sua base é a justiça de Cristo o nosso representante que obedeceu a lei que nos sujeitava e suportou o pior castigo para pagar a nossa dívida.

Justificação segundo o Antigo Testamento

No Antigo Testamento, o conceito de justiça aparece com frequência em contextos forenses ou jurídicos. Uma pessoa justa é a que foi declarada sem culpa pelo juiz. A tarefa do juiz é condenar o culpado e absolver o inocente. Deus é juiz de todos: “porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas retamente.” (Salmo 9.4). Segundo o Antigo testamento, justificar implica certificar que a pessoa é inocente e, depois declarar que o fato é verdadeiro, que ela cumpriu a lei.

No texto de Deuteronômio lemos: “Em havendo contenda entre alguns, e vierem a juízo, os juízes os julgarão, justificando ao justo e condenando ao culpado” (25.1). Nesse caso “justificar” significa “declarar justo” ou inocente, assim como “condenar” significa “declarar culpado”. O Antigo Testamento emprega duas diferentes formas da mesma palavra (hidsdik e tsiddek) para expressar esta idéia. Estas palavras não indicam, exceto em algumas passagens, uma mudança moral efetuada por Deus no homem, mas designam regularmente uma declaração divina com referência ao homem. Exprimem a idéia de que Deus na competência de Juiz declara o homem justo. Por isso o pensamento que expressam é muitas vezes em oposição ao da condenação (Dt. 25.1; Pv 17.15; Is. 5.23).

Justificação segundo o Novo Testamento

No Novo testamento os termos usados para justificação, no grego, são: Dikaios (justo); Dikaiosis (justificação, defesa, reclamação dum direito); Dikaioo (tratar como justo, inocentar”, “declarar justo”.).

O verbo dikaio tem o mesmo significado que o hebraico Kadoshi (santo). Não refere à retidão moral da pessoa, mas ao estado de retidão que é o resultado da decisão judicial ou legal.

Podemos encontrar esse termo nos escritos do apóstolo Paulo: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Romanos 4.5); “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,” (Romanos 3.24). A justificação está alicerçada sobre a obediência da vida inteira de Cristo, na qual ele cumpriu os preceitos de Deus por nós, em sua morte na cruz, quando pagou a pena do julgamento divino que era contra nós.

O sentido mais comum do verbo Dikaios é de “declarar justo”, e os escritos de Paulo trazem esse significado: “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça.” (Romanos 4.5). Aqui Paulo não quer dizer que Deus torna justo os ímpios (transformando-os inteiramente e tornando-os moralmente perfeitos), mas em reposta à fé deles. A justificação é uma declaração legal por parte de Deus: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Romanos 8.33-34).

Um exemplo de declaração de justificação está em Lucas 18.9-14, onde  Jesus ensinando, conta a parábola do farizeu e publicano, encontramos ali características de dois homens diante de Deus, o fariseu não foi justificado porque confiava em seus esforços, porém o publicano voltou para casa justificado, a idéia é que ele “foi feito justo” por Deus, o próprio Deus o justificou.

De acordo com o Novo Testamento, a justificação é uma ação forense ou declarativa de Deus, como a de um juiz absolvendo o acusado. E isso pode ser observado: “e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés.” (Atos 13.39); “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” ( I Coríntios 6.11). 

Em I Coríntios 1.30 lemos: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção,”, Jesus é “justiça” dikaiosúnê, esse é um dos benefícios que Cristo nos trouxe através de sua morte e ressurreição. A totalidade da justiça pessoal de Cristo é imputada a nós e considerada como nossa. Deus apaga as nossas transgressões, e dos nossos pecados ele não se lembra; somos feitos justiça de Deus em Jesus, que é o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê. A aliança das obras está cumprida em Cristo, algo que jamais conseguiríamos cumprir. Aos olhos de Deus somos justos, porque somos justificados em Cristo.

Onde Adão caiu Cristo veio cumprir: “Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante.” (I Coríntios 15.45). Faz parte da própria essência do evangelho insistir que Deus nos declara justos não com base em nossa atual condição de justiça ou santidade, mas com base na perfeita justiça de Cristo, a qual ele considera pertencente a nós.      

O instrumento da justificação

A teologia protestante afirma que a fé é causa instrumental da justificação no sentido em que a fé é o meio pelo qual os méritos de Cristo são apropriados a nós. “A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e em sua justiça, é o único instrumento de justificação; ela, contudo, não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as demais graças salvíficas; não é uma fé morta, mas a fé que age pelo amor.” (Confissão de Fé de Westminster)
        
A Bíblia diz que não somos justificados por nossas próprias boas obras, mas pelo que é acrescentado pela fé, ou seja, a justiça de Cristo. Deus transferiu a nós a justiça de Cristo. E o apóstolo Paulo nos ensina como ocorre a justificação: “sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.” (Gálatas 2.16). Paulo indica que a fé vem primeiro com o propósito de sermos justificados.

As Escrituras nunca dizem que somos justificados por causa da bondade inerente da nossa fé, como se ela tivesse mérito diante de Deus. Nunca nos permitamos pensar que nossa fé por si só merece favor de Deus. Antes, as Escrituras dizem que somos justificados “mediante” nossa fé, dando a entender que a fé é o instrumento pelo qual a justificação nos é dada, mas em nenhuma hipótese uma atividade que obtenha o favor de Deus. Ao contrário, nós somos justificados unicamente por causa dos méritos da obra de Cristo ( Romanos 4.23-25). 

Em Palavra de Deus nos mostra o motivo e o modo de justificação para o pecador: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, …” (Romanos 3.23-25), aqui temos a causa instrumental da justificação do homem caído “mediante a fé”, ou  “através da fé”.

Não pensemos nós, que o termo “causa instrumental” está dizendo que justificação depende do homem, pois tudo é dom de Deus: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;” (Efésios 2.8).

Quando as Escrituras falam da justificação pela obediência ou pelo sangue de Cristo, a fé está subentendida; do contrário, as passagens que falam de justificação pela fé não teriam sentido. Da mesma maneira, quando falam de justificação pela fé, ficam subentendidos o sangue e a obediência, ou não teria sentido dizer “justificado por seu sangue”; “pela obediência de um só, muitos serão justificados.” O que Cristo fez e sofreu e, também, a nossa fé em Cristo são necessários para efetuar a nossa justificação.

A fé é o oposto exato em confiar em si mesmo, ela é o meio pelo qual o injusto se torna justo diante do tribunal de Deus. A fé não é a base para a justificação. Caso fosse, o homem teria mérito. O homem nunca foi salvo por obras, mas sim por fé, é o exemplo de Abraão: “Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.” (Romanos 4.3).

Em suma, por causa instrumental entendemos que a fé é o meio pelo qual o homem é justificado, mas não é a causa da justificação. Ela é um dom de Deus, sendo assim o homem não tem nenhum mérito na justificação, pois “…é Deus quem Justifica…” (Romanos 8.33).

Para concluirmos essa breve consideração sobre a justificação, é necessário lembrarmos de que é Deus o autor da justificação do homem, pois ele é injusto diante de Deus. A justificação é a declaração legal no tribunal de Deus onde ele remove a culpa do pecado do homem, pagando a sua penalidade. É um ato de um juiz, absolvendo alguém que é acusado de crime.

No Antigo Testamento, justificação tem a idéia forense ou jurídica. Uma pessoa justa é a que foi declarada sem culpa pelo juiz. É certificar que a pessoa é inocente e, depois declarar que o fato é verdadeiro, que essa pessoa cumpriu a lei. No Novo Testamento, o termo “justificar” denota “declarar justo”, assim como no Antigo Testamento, a justificação é declaração legal por parte de Deus. E isso é por meio da fé, a causa instrumental, o meio pelo qual somos justificados, mas a fé não é a causa da nossa justificação. Ela não é a base para a justificação, mais sim os méritos de Cristo: “E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé.” (Gálatas 3.11).

A Deus toda honra e glória!

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Para saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura de alguns livros:“Justificação pela fé somente” (Joel R. Beeke, John Armstrong, John Gerstner, John MacArthur, RC Sproul), “Introdução à Teologia Sistemática (Millard J. Erickson), Justificação pela graça (Charles Haddon Spurgeon), Manual de Teologia Cristã (Louis Berkhof).

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Fonte: Solus Christus
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