12 razões pelas quais membresia é importante

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Por Jonathan Leeman


Membresia é bíblico. Jesus estabeleceu a igreja local e todos os apóstolos exerceram o seu ministério por meio dela. A vida cristã no Novo Testamento é a vida da igreja. Os cristãos de hoje deveriam esperar e desejar o mesmo.

A igreja são os seus membros. Ser “uma igreja” no Novo Testamento é ser um de seus membros (leia Atos). E você quer ser parte da igreja porque foi ela que Jesus veio resgatar e reconciliar consigo mesmo.

É um pré-requisito para a Ceia do Senhor. A Ceia do Senhor é uma refeição para a igreja reunida, isto é, para membros (ver 1Co 11.20,33). E você quer tomar a Ceia do Senhor. Ela é o “uniforme” que torna o time da igreja visível às nações.

É como Jesus é oficialmente representado. A membresia é a afirmação da igreja de que você é um cidadão do reino de Cristo e, portanto, um Representante reconhecido de Jesus perante as nações. E você quer ser um Representante oficial de Jesus. Diretamente relacionado a isso...

É como alguém declara a sua mais alta lealdade. A sua membresia no time, que se torna visível quando você veste o “uniforme”, é um testemunho público de que a sua mais alta lealdade pertence a Jesus. Provações e perseguição podem vir, mas as suas únicas palavras são: “Eu estou com Jesus”.

É como as imagens bíblicas são personificadas e experimentadas. É nas estruturas de responsabilidade da igreja local que os cristãos expressam ou personificam o que significa ser o “corpo de Cristo”, o “templo do Espírito”, a “família de Deus”, e assim com todas as demais metáforas bíblicas (ver 1Co 12). E você quer experimentar a interconectividade do seu corpo, a plenitude espiritual do seu templo, e a segurança e intimidade e identidade compartilhada da sua família.

É como alguém serve outros cristãos. A membresia ajuda você a saber quais cristãos no Planeta Terra você está especificamente responsável por amar, servir, admoestar e encorajar. Ela o habilita a cumprir suas responsabilidades bíblicas para com o corpo de Cristo (por exemplo, ver Ef 4.11-16, 25-32).

É como líderes cristãos são seguidos. A membresia ajuda você a saber quais líderes cristãos no Planeta Terra você é chamado a obedecer e seguir. Novamente, ela permite que você cumpra sua responsabilidade bíblica para com eles (ver Hb 13.7, 17).

Ela ajuda os líderes cristãos a liderarem. A membresia possibilita que os líderes cristãos saibam de quais cristãos no Planeta Terra eles haverão de “prestar contas” (At 20.28; 1Pe 5.2).

Ela possibilita a disciplina eclesiástica. Ela fornece o lugar biblicamente prescrito para participar da obra da disciplina eclesiástica de modo responsável, sábio e amoroso (1Co 5).

Ela dá estrutura à vida cristã. Ela põe o chamado dado a cada cristão individual de “obedecer” e “seguir” Jesus em um cenário da vida real, onde a autoridade é de fato exercida sobre nós (ver Jo 14.15; 1Jo 2.19, 4.20-21).

Ela constrói um testemunho e convida as nações. A membresia põe a alternativa do governo de Cristo ante os olhos do universo (ver Mt 5.13; Jo 13.34-35; Ef 3.10; 1Pe 2.9-12). As próprias fronteiras que são postas ao redor da membresia de uma igreja apresentam uma sociedade de pessoas que convida as nações para algo melhor.

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Extraído do próximo livro de Jonathan Leeman, Church Membership: How the World Knows Who Represents Jesus [Membresia de Igreja: Como o Mundo Sabe Quem Representa Jesus], Crossway, 2012.

Fonte: Editora Fiel
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Definindo Igreja e Desigrejado

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Quando eu uso o termo “desigrejado,” estou me referindo àquela pessoa que se professa crente em Jesus Cristo mas que não tem qualquer relacionamento sério com uma comunidade cristã que contenha o mínimo necessário para ser considerada uma igreja.

E quando eu uso o termo “igreja,” como acabei de fazer no parágrafo anterior, não estou me referindo ao templo ou construção que leva este nome. Não uso a palavra “igreja” aqui no mesmo sentido de “templo” no Antigo Testamento, que se referia à construção feita por Salomão. Quando eu digo “igreja” me refiro a um ajuntamento de cristãos que se reúnem regularmente para comunhão e outras atividades que definem aquilo que o Novo Testamento chama de “igreja”.

Portanto, quando eu digo “desigrejado,” não estou me referindo necessária e exclusivamente a uma pessoa que parou de ir a um templo evangélico aos domingos, mas a uma pessoa que parou de congregar-se com outros cristãos, quer seja em templos evangélicos, nas casas, ou em qualquer outro lugar, para fazer aquilo que é próprio de uma igreja conforme o Novo Testamento nos ensina.

“Igreja”, conforme o Novo Testamento nos ensina, é uma comunhão de pessoas que professam a mesma fé em Jesus Cristo. Estes irmãos se reúnem e desenvolvem atividades que identificam o grupo (grande ou pequeno, em casas ou templos, com denominação ou sem denominação) como uma expressão visível da Igreja de Cristo, o seu corpo, a sua noiva, Igreja esta invisível, una e universal.

Estas atividades que caracterizam uma "igreja" local são: estudo da Palavra de Deus, realização do batismo e da Ceia e o exercício da disciplina espiritual entre si. Além destas atividades, uma “igreja” – não no sentido de templo, prédio, construção ou denominação – tem líderes espirituais que a governam, e que são escolhidos de entre os irmãos. Consideremos o embasamento bíblico em seguida.

1) Quando não havia ainda nem templos e nem denominações Jesus instituiu a sua igreja sobre a declaração de Pedro, que ele era “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.15-19). Todavia, fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem participarmos de um grupo, comunidade, comunhão, denominacional ou não, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados na verdade apostólica registrada nas Escrituras, e onde os que se desviam desta verdade são rejeitados.

2) Também muito antes de aparecerem as denominações e os templos cristãos, Jesus estabeleceu o que chamamos de disciplina bíblica, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20). Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” – pois é, Jesus usou o termo – e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17). Um bom exemplo disto é a exclusão do “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5).

3) Jesus também determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos entenderam isto muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico, que já começava a ser cometido à forma escrita. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).

4) Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). E tudo isto poucos anos depois de Pentecostes e muitos anos antes de aparecer a igreja institucionalizada e as denominações.

5) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem, e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34).

Para mim, a Igreja de Cristo é muito maior que uma denominação – inclusive a minha. As igrejas denominacionais instituídas e organizadas não são a única expressão válida da Igreja de Cristo. Onde houver um grupo de cristãos que fazem estas coisas prescritas por Jesus e pelos apóstolos (itens 1 a 5 acima), ali está a igreja, ainda que imperfeita.

“Desigrejado,” para mim, é quem diz ser cristão não quer participar de nenhuma destas opções, não quer ser ensinado, corrigido e nem servir e abençoar os demais. Resta a questão se um “desigrejado,” assim definido, pode, de fato, se considerar um cristão verdadeiro. Calo-me aqui.

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Os Desigrejados

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


(reprint do post de 2010 - ainda bastante atual)

Para mim resta pouca dúvida de que a igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todos os quartéis da cristandade, e mesmo fora dela. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isto tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada. Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas, outros, querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja. 

Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. Todavia, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Deus. Estas idéias vêm sendo veiculadas através de livros, palestras e da mídia. Viraram um movimento que cresce a cada dia. São os desigrejados.

Muitos livros recentes têm defendido a desigrejação do cristianismo (*). 

Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos.

1) Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional.

2) Já nos primeiros séculos os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, a Igreja, criando estruturas, inventando ofícios para substituir os carismas, elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição, e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. Com a influência da filosofia grega na teologia e a oficialização do cristianismo por Constantino, a igreja corrompeu-se completamente.

3) Apesar da Reforma ter se levantado contra esta corrupção, os protestantes e evangélicos acabaram caindo nos mesmíssimos erros, ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé, catecismos e declarações de fé, que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico.

4) A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, ofícios, ofertas, dízimos, clero oficial, confissões de fé, rol de membros, propriedades, escolas, seminários.

5) De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que crêem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18. Assim, se dois ou três amigos cristãos se encontrarem no Frans Café numa sexta a noite para falar sobre as lições espirituais do filme O Livro de Eli, por exemplo, ali é a igreja, não sendo necessário absolutamente mais nada do tipo ir à igreja no domingo ou pertencer a uma igreja organizada.

6) A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos, e prestado um desserviço ao Evangelho. Precisamos sair dela para podermos encontrar a Deus.

Eu concordo com vários dos pontos defendidos pelos desigrejados. Infelizmente, eles estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e têm lutado com unhas e dentes para defender sua denominação e sua igreja, mesmo quando estas não representam genuinamente os valores da Igreja de Cristo. Concordo também que a igreja de Cristo não precisa de templos construídos e nem de todo o aparato necessário para sua manutenção. Ela, na verdade, subsistiu de forma vigorosa nos quatro primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos, e até cemitérios. Os templos cristãos só foram erigidos após a oficialização do Cristianismo por Constantino, no séc. IV.

Os desigrejados estão certos ao criticar os sistemas de defesa criados para perpetuar as estruturas e a hierarquia das igrejas organizadas, esquecendo-se das pessoas e dando prioridade à organização. Concordo com eles que não podemos identificar a igreja com cultos organizados, programações sem fim durante a semana, cargos e funções como superintendente de Escola Dominical, organizações internas como uniões de moços, adolescentes, senhoras e homens, e métodos como células, encontros de casais e de jovens, e por ai vai. E também estou de acordo com a constatação de que a igreja institucional tem cometido muitos erros no decorrer de sua longa história.

Dito isto, pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo em vôo solo. Pergunto ainda se os desigrejados não estão jogando fora o bebê junto com a água suja da banheira. Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições à sua maneira de pensar e de agir. Fico com a impressão que eles querem se livrar da igreja para poderem ser cristãos do jeito que entendem, acreditarem no que quiserem – sendo livres pensadores sem conclusões ou convicções definidas – fazerem o que quiserem, para poderem experimentar de tudo na vida sem receio de penalizações e correções. Esse tipo de atitude anti-instituição, antidisciplina, anti-regras, anti-autoridade, antilimites de todo tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo, que entra nas igrejas travestida de cristianismo.

É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Todavia, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico e muito antes de Constantino.

1) Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.15-19). A igreja foi fundada sobre esta pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus (cf. 1Pd 2.4-8). O que se desviar desta verdade – a divindade e exclusividade da pessoa de Cristo – não é igreja cristã. Não admira que os apóstolos estivessem prontos a rejeitar os livre-pensadores de sua época, que queriam dar uma outra interpretação à pessoa e obra de Cristo diferente daquela que eles receberam do próprio Cristo. As igrejas foram instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livre-pensadores como os gnósticos e judaizantes, e libertinos desobedientes, como os seguidores de Balaão e os nicolaítas (cf. 2Jo 10; Rm 16.17; 1Co 5.11; 2Ts 3.6; 3.14; Tt 3.10; Jd 4; Ap 2.14; 2.6,15). Fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados, e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.

2) A declaração de Jesus acima, que a sua igreja se ergue sobre a confissão acerca de sua Pessoa, nos mostra a ligação estreita, orgânica e indissolúvel entre ele e sua igreja. Em outro lugar, ele ilustrou esta relação com a figura da videira e seus galhos (João 15). Esta união foi muito bem compreendida pelos seus discípulos, que a compararam à relação entre a cabeça e o corpo (Ef 1.22-23), a relação marido e mulher (Ef 5.22-33) e entre o edifício e a pedra sobre o qual ele se assenta (1Pd 2.4-8). Os desigrejados querem Cristo, mas não querem sua igreja. Querem o noivo, mas rejeitam sua noiva. Mas, aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem. Não podemos ter um sem o outro.

3) Jesus instituiu também o que chamamos de processo disciplinar, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20). Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” – pois é, Jesus usou o termo – e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17). Os apóstolos entenderam isto muito bem, pois encontramos em suas cartas dezenas de advertências às igrejas que eles organizaram para que se afastassem e excluíssem os que não quisessem se arrepender dos seus pecados e que não andassem de acordo com a verdade apostólica. Um bom exemplo disto é a exclusão do “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5). Não entendo como isto pode ser feito numa fraternidade informal e livre que se reúne para bebericar café nas sextas à noite e discutir assuntos culturais, onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guia conforme as regras estabelecidas por Cristo.

4) Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos entenderam isto muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).

5) Não demorou também para que os cristãos apostólicos elaborassem as primeiras declarações ou confissões de fé que encontramos (cf. Rm 10.9; 1Jo 4.15; At 8.36-37; Fp 2.5-11; etc.), que serviam de base para a catequese e instrução dos novos convertidos, e para examinarem e rejeitarem os falsos mestres. Veja, por exemplo, João usando uma destas declarações para repelir livre-pensadores gnósticos das igrejas da Ásia (2Jo 7-10; 1Jo 4.1-3). Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). O exemplo mais antigo que temos desta organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina – a inclusão dos gentios na igreja e as condições para que houvesse comunhão com os judeus convertidos (At 15.1-6). A decisão deste que ficou conhecido como o “concílio de Jerusalém” foi levada para ser obedecida nas demais igrejas (At 16.4), mostrando que havia desde cedo uma rede hierárquica entre as igrejas apostólicas, poucos anos depois de Pentecostes e muitos anos antes de Constantino.

6) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem, e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34). Não sei direito como os desigrejados celebram a Ceia, mas deve ser difícil fazer isto sem que estejamos na companhia de irmãos que partilham da mesma fé e que crêem a mesma coisa sobre o Senhor.

É curioso que a passagem predileta dos desigrejados – “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) – foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18.16). Ou seja, são os dois ou três que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais e resolvem fazer sua própria igrejinha informal ou seguir carreira solo como cristãos.

O meu ponto é este: que muito antes do período pós-apostólico, da intrusão da filosofia grega na teologia da Igreja e do decreto de Constantino – os três marcos que segundo os desigrejados são responsáveis pela corrupção da igreja institucional – a igreja de Cristo já estava organizada, com seus ofícios, hierarquia, sistema disciplinar, funcionamento regular, credos e confissões. A ponto de Paulo se referir a ela como “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e o autor de Hebreus repreender os que deixavam de se congregar com os demais cristãos (Hb 10.25). O livro de Atos faz diversas menções das “igrejas”, referindo-se a elas como corpos definidos e organizados nas cidades (cf. At 15.41; 16.5; veja também Rm 16.4,16; 1Co 7.17; 11.16; 14.33; 16.1; etc. – a relação é muito grande).

No final, fico com a impressão que os desigrejados, na verdade, não são contra a igreja organizada meramente porque desejam uma forma mais pura de Cristianismo, mais próxima da forma original – pois esta forma original já nasceu organizada e estruturada, nos Evangelhos e no restante do Novo Testamento. Acho que eles querem mesmo é liberdade para serem cristãos do jeito deles, acreditar no que quiserem e viver do jeito que acham correto, sem ter que prestar contas a ninguém. Pertencer a uma igreja organizada, especialmente àquelas que historicamente são confessionais e que têm autoridades constituídas, conselhos e concílios, significa submeter nossas idéias e nossa maneira de viver ao crivo do Evangelho, conforme entendido pelo Cristianismo histórico. Para muitos, isto é pedir demais.

Eu não tenho ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim enquanto eu for membro dela. A teologia Reformada não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. Que apesar de tudo, precisamos uns dos outros, precisamos da pregação da Palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.

Cristianismo sem igreja é uma outra religião, a religião individualista dos livre-pensadores, eternamente em dúvida, incapazes de levar cativos seus pensamentos à obediência de Cristo.

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Nota:(*) Podemos mencionar entre eles: George Barna, Revolution (Revolução), 2005; William P. Young, The Shack: a novel (A Cabana: uma novela), 2007; Brian Sanders, Life After Church (Vida após a igreja), 2007; Jim Palmer, Divine Nobodies: shedding religion to find God (Joões-ninguém divinos: deixando a religião para encontrar a Deus), 2006; Martin Zener,How to Quit Church without Quitting God (Como deixar a Igreja sem deixar a Deus), 2002; Julia Duin, Quitting Church: why the faithful are fleeing and what to do about it (Deixando a Igreja: por que os fiéis estão saindo e o que fazer a respeito disto), 2008; Frank Viola, Pagan Christianity? Exploring the roots of our church practices (Cristianismo pagão? Explorando as raízes das nossas práticas na Igreja), 2007; Paulo Brabo, Bacia das Almas: Confissões de um ex-dependente de igreja (2009).

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Igreja para quê?

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Por David Feddes


É possível ficar de fora da igreja e continuar a ser um bom crente? Muitos dizem que sim a essa pergunta e pode ser que até você concorde com isso. Você crê em Deus, ora de vez em quando, se considera um crente, mas acha que pode passar muito bem sem uma igreja. O que importa é como você se relaciona com Deus, e não, com a igreja, certo? Errado.

É possível ficar de fora da igreja e continuar a ser um bom crente? Não, se Deus sabe do que está falando. A Palavra de Deus, a Bíblia, mostra sempre e sempre que se alguém pertence a Cristo, também pertence à Sua igreja e está profundamente envolvido com a vida dela. Portanto, se acha que pode ser um bom crente sem uma igreja, está dizendo que sabe das coisas melhor do que Deus, e fazer isso não é uma coisa muito inteligente.

Por que ficar de fora?

Topei com um monte de razões diferentes que as pessoas usam para ficarem longe de uma igreja. Alguns acham que não têm escolha; acham que devem trabalhar no domingo, senão podem perder o emprego. Ir à igreja para adorar a Deus pode ser muito bom, mas ir trabalhar e deixar o patrão satisfeito é o que paga as contas. Deus vai entender, não é?

Outros não passam o domingo trabalhando, mas acham que precisam de sono extra na manhã daquele dia, ou talvez queiram cortar a grama e lavar o carro, ou fazer as compras. Talvez tenham planejado uma viajem de fim de semana todo na praia ou, participar de um torneio de futebol ou de outro acontecimento esportivo. Separar tempo para ir à igreja poderia atrapalhar os planos para o fim de semana.

Há ainda quem fique fora de uma igreja porque algum de seus membros ou algum de seus líderes lhe desagradaram. Você acha que “se isso é a igreja, quem é que precisa dela?”. Você não tem nada a ver com a sua velha igreja nem sequer está procurando por uma nova. Para que ficar por aí entre um monte de hipócritas, quando pode seguir a Deus do seu modo?

Talvez mantenha-se distante de uma igreja por se sentir muito desconfortável lá. Quando decide dar as caras num domingo fica como um peixe fora d'água. Parece que todos prestam atenção quando você se senta ou se levanta; parece que todo mundo lá se conhece, mas você não conhece ninguém; quase ninguém fala com você ou lhe faz se sentir bem-vindo. Para que repetir uma situação que lhe incomoda?

Talvez tenha uma razão bem diferente para se sentir mal e ficar de longe. Você pertenceu à igreja por muitos anos, conhece a maioria das pessoas e elas lhe conhecem, mas enfrentou problemas no seu casamento, se divorciou, ou passou por alguma outra situação pela qual se sente culpado e encabulado, e, por isso não consegue olhar a cara daquela gente. Então, é melhor ficar longe da igreja.

Essas são apenas algumas das razões que as pessoas usam para ficarem longe da igreja. Mas isso não tem nada a ver com o caso, não importa qual seja a sua razão para ficar de fora, a primeira pergunta que tem de responder é: quais são os bons motivos para que eu vá à igreja? Se nada acontece de importante na igreja, então, fazer qualquer outra coisa é melhor do que perder o seu tempo lá. Se não existir nenhuma razão forte para ir, então qualquer desculpa, a menor que seja, é suficiente para se manter à distância. Por outro lado, se as razões a favor da igreja forem mais fortes, então você não terá outra escolha senão se envolver, não importa quais sejam os seus motivos para ficar de fora.

O que Deus diz a respeito

Se você acha que a fé é um assunto meramente particular, uma negócio entre “eu e Jesus”, está enganado. Você pode perguntar: “Quem foi que disse que eu preciso de igreja para ser um bom crente? Quem foi?”. Bem, foi Deus quem disse. Dê só uma olhada em algumas das formas como Deus, na Bíblia, descreve a igreja.

A Bíblia chama a igreja de a família de Deus (Ef 2.19). Família “tanto no céu como sobre a terra” ( Ef 3.14-15 ). É o lar de todos os que pertencem a Deus. Portanto, se você está do lado de fora da igreja, ou está fugindo de casa ou não faz parte da família de Deus de jeito nenhum.

A Bíblia fala da igreja como a noiva de Cristo. O Senhor enxerga nela uma beleza cada vez mais radiante; partilha com ela de amor e intimidade profundos. A igreja é mais preciosa para Cristo do que a esposa para seu esposo. Se você despreza a igreja e não quer nada com ela, a sua atitude conflita com a de Jesus.

A Bíblia também denomina a igreja de o corpo de Cristo. Cada crente é parte desse corpo. É obvio que qualquer membro do corpo só poderá estar vivo e ativo se estiver ligado ao corpo; é indispensável estar conectado ao corpo. Por isso todo crente tem que está ligado à igreja. A igreja, como corpo de Cristo, está viva com o Espírito de Cristo e realiza no mundo a obra de Jesus.

O próprio Deus nos chama para fazer parte da Sua igreja, não apenas para vislumbrar a beleza de Jesus, a encarnação Deus em homem, mas também para ver e tomar parte na beleza da igreja, onde pessoas de carne-e-osso vivem no poder do Espírito Santo. Por que a igreja? Porque é a família de Deus, a noiva de Cristo, o corpo de Cristo. Mesmo na sua maior feiura, mesmo quando é menos atraente, qualquer igreja genuína tem em si mesma uma beleza e um poder que não se pode achar fora dela. Por que a igreja? Porque é Deus que o diz. Por que a igreja? Porque você e eu precisamos dela.

A Bíblia deixa claro que quando as pessoas depositam a sua fé em Jesus e são cheias com o Espírito Santo, elas simplesmente não saem por aí a fora cuidando das suas coisas. Não, elas se tornam parte da igreja através do batismo. O batismo é o sinal e o selo de quem foi lavado no sangue de Jesus e de quem ressurgiu para uma vida nova. O batismo também marca as pessoas como novos membros da igreja. É através do batismo que são acrescentadas à comunidade dos crentes.

A Bíblia narra em Atos 2.42 que pouco depois da ressurreição de Jesus e do derramar do Espírito Santo, as pessoas recém-batizadas “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Em uma única e simples frase temos uma quádrupla e grandiosa resposta à pergunta: “Por que a igreja?” Primeira resposta, para o ensino; segunda, para a comunhão; terceira, para o partir do pão; quarta, para a oração.

A doutrina dos apóstolos

Por que a igreja? Primeira resposta, porque é na igreja que podemos nos aplicar ao ensinamento dos apóstolos, à sua doutrina. Nos dias no Novo Testamento os apóstolos estavam presentes ensinando pessoalmente aos novos crentes. Embora hoje os apóstolos já tenham morrido e ido para o céu, ainda assim continuam a nos ensinar através de seus escritos inspirados por Deus e registrados na Bíblia.

Os apóstolos nos ensinam a respeito de Jesus — quem é Ele, o que fez e ensinou. Nos ensinam sobre os grande planos e propósitos de Deus conforme o desvelaram na história da salvação. Nos ensinam o que significa seguir a Cristo em nossas próprias vidas e situações. Toda igreja verdadeiramente cristã está cheia da doutrina apostólica. Toda igreja verdadeiramente cristã firma-se sobre a Bíblia. A igreja não pode se alicerçar numas poucas e belas idéias ou sugestões eruditas. O fundamento da igreja é a doutrina dos apóstolos que procede de e revela a Cristo.

A Bíblia diz que somos “da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.19-20). Para que possamos construir as nossas vidas sobre a verdade precisamos da “casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15).

Você pode estar pensando: “Tudo bem, pode ser que eu precise do ensinamento dos apóstolos. Mas, por que na igreja? Não me basta somente ler a Bíblia sozinho, ou assistir, no rádio e na TV, programas bíblicos?”. Bem, com certeza eu sou a favor da leitura da Bíblia; até mesmo lhe enviaria gratuitamente um livreto para lhe ajudar a fazer isso todo dia, se você quiser. E é óbvio que não sou contra o uso da mídia no ministério, senão não estaria lhe dizendo isso agora pelo rádio.

Mas para se obter o benefício total do ensino apostólico apenas ouvir às transmissões não basta. Envolva-se com uma congregação da sua comunidade. O só estar congregado com o povo de Deus num lugar de adoração dá, de algum modo, uma sensação especial da Sua presença. As pessoas louvam a Deus em conjunto, e em conjunto confessam que precisam do Seu perdão para as suas vidas. O pregador fala com uma autoridade especial, e o povo ouve com uma especial abertura. Numa igreja local o ministro pode aplicar o ensinamento bíblico às necessidades da comunidade e congregação particulares de uma forma que um ministro de mídia não pode.

Ainda mais, quando você tem dúvidas sobre a Palavra de Deus, ou, problemas pessoas contra os quais está lutando, o seu pastor, ou um outro irmão na fé, pode conversar com você cara a cara sobre essas necessidades. Numa congregação local você tem a oportunidade de participar de grupos de estudo bíblico e de conversar especificamente sobre como o ensino apostólico deveria afetar a sua vida. Você não pode ter isso apenas estudando a Bíblia sozinho ou ouvindo a alguém como eu, mas precisa ser parte ativa da sua igreja local.

Comunhão

Consideremos agora o segundo aspecto vital da igreja: a comunhão. A igreja é uma comunidade especial onde gozamos da comunhão dos crentes.

Lembro-me de ter conversado com um homem que deixou de ir à igreja porque estava aborrecido com a sua congregação local. Ele ficava em casa aos domingos e assistia a um pregador na televisão. Quando instei para que não se apartasse da sua igreja, disse-me: “Eu tenho o que preciso ao assistir o ministro da TV”.

Depois disso tivemos uma outra conversa. O seu filho tinha morrido num acidente trágico. O pai amargurado descobriu que existem algumas coisas que você não pode ter somente assistindo televisão. O pregador da TV não estava na casa dele para o abraçar e orar com ele, e lhe trazer palavras de esperança e de consolação. A tela da TV não chora com os que choram. Os únicos que puderam dar àquele homem o apoio de que precisava foram o pastor e as pessoas da sua igreja.

Aqui no programa “Back to God Hour”, ouvimos muitas pessoas que enfrentam dificuldades. É triste que muitas delas não tenham uma igreja. Ficamos felizes por nos contatarem e tentamos ajudá-las tanto na conversa ao telefone quanto quando lhes respondermos por carta. Mas sabemos que isso é tudo o podemos fazer. Não temos como substituir a comunhão de uma igreja local, por isso sempre as encorajamos a que se filiem a uma igreja. Quando você enfrenta uma doença séria, ou a perda de um ente querido, ou problemas financeiros, ou uma crise familiar, não precisa dos bons conselhos que estão por aí nas ondas de rádio, precisa de pessoas que estejam bem ao seu lado, irmãos e irmãs crentes que lhe apoiem nos momentos difíceis.

Sei que a igreja tem os seus defeitos, que a comunhão está longe de ser perfeita. Afinal, a igreja é uma comunidade de pecadores que ainda têm muito o que mudar. As pessoas nem sempre se dão tão bem juntas, mas sei também que quando as coisas ficam difíceis, todas se juntam para ajudar àquele que necessita. Tenho sempre ouvido de pessoas em crise que me dizem: “Agora sei realmente o que é a comunhão dos santos. Não sei como teria passado sem as orações e o apoio das pessoas da minha igreja”.

A comunhão da igreja faz muito mais que somente nos ajudar a superar os tempos de crise. Os cristãos se dedicam à comunhão porque na igreja o todo é maior que as partes. Como um corpo, a igreja tem muitas partes, cada uma delas com uma função singular.

Pode ser que você pense que os seus dons não sejam tão importantes para a igreja quanto os dons de outros. Mas, segundo a Bíblia, esse não é modo de ver as coisas. Não seria loucura se o pé dissesse, “porque não sou mão, não pertenço ao corpo”; ou se o ouvido dissesse, “porque não sou olho, não pertenço ao corpo”? E se corpo fosse um imenso globo ocular? Seria grotesco, e como é que ele iria poder escutar? E se fosse uma enorme orelha? Como é que poderia sentir o cheiro? É muito bom que Deus tenha dado ao corpo muitas partes diferentes e as tenha organizado do modo que quis.

O mesmo se aplica à igreja. Deus coloca juntos muitos indivíduos singulares e diferentes, que são dotados dos mais diferentes modos. Se você é um crente que pensa que a igreja pode passar muito bem sem você, pense novamente. Cada parte é importante.

A igreja precisa de você e você precisa dela. Como diz a Bíblia: “Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós”. Seria a maior loucura uma parte dizer ao corpo inteiro: “não preciso de você”. O que é que acontece quando uma parte é amputada do corpo? Ela logo morre e degenera. Se você disser ao corpo de Cristo: “Não preciso de você, posso passar muito bem sozinho”. Logo sua alma se degenera. Para poder viver e crescer, você precisa ser uma parte integrada ao corpo.

Você precisa da igreja e a igreja precisa de você. Cada uma das partes precisa das outras; se uma delas sofre, todas as outras sofrem; se uma delas prospera, todas as outras se beneficiam. Foi assim que Deus projetou o nosso corpo físico, e assim também projetou o corpo de Cristo (veja I Coríntios 12). Não é somente “eu e Jesus”. É “nós e Jesus”. Quando os crentes se aplicam à comunhão, todos se beneficiam dos dons que Deus concedeu a cada um deles, e, como grupo, realizam muitas coisas que individualmente não seriam capazes de realizar.

Também precisamos da comunhão para sermos responsáveis uns pelos outros. Se quiser pode chamar isso de pressão positiva do grupo social. O mundo está cheio dessa pressão negativa, mas a igreja pode proporcionar uma pressão positiva, como diz a Bíblia: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.24-25). Quando nos sentimos cansados e desencorajados de tentar seguir a Cristo, precisamos da força dos outros. Quando caímos em pecado e em maus hábitos, precisamos ser confrontados pelos outros. É claro que isso envolve mais do que só aparecer nos cultos de domingo. Significa conhecer realmente um ao outro, o mais das vezes em pequenos grupos de amizades íntimas. Significa colocarmo-nos debaixo da autoridade da igreja, em vez de fazer simplesmente o que queremos.

A igreja é o palco para o amor da comunhão, onde podemos deixar de pensar em nós mesmos para começar a amar os outros assim como Cristo nos amou. Disse Jesus: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34-35).

O partir do pão

Por que a igreja? Já falamos sobre dar ouvidos ao ensino dos apóstolos e experimentar o amor da comunhão do povo de Deus. Agora, vamos dar uma olhada numa terceira razão: o partir do pão. O povo de Deus se congrega na igreja em torno da mesa do Senhor para a Santa Ceia. Quando comemos do pão que foi partido, participamos do corpo do Senhor Jesus Cristo, partido para a nossa salvação. Quando bebemos do vinho, bebemos do sangue de Cristo, derramado para nos dar vida.

Uma fé viva não é apenas questão de pensar em Jesus. Uma fé viva banqueteia-se em Jesus, sempre, sempre e sempre. Disse Jesus: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele” (Jo 6.54-56). A Ceia do Senhor é muito mais que um auxílio visual ou que um mero ritual sem significado, é uma banquete espiritual que não podemos perder.

Por que a igreja? Porque é lá que, congregados em torno da mesa do Senhor, nos encontramos com Jesus que vem até nós para nos dar do Seu corpo e sangue e nutrir as nossas almas para a vida eterna. Ele não vem fisicamente, mas vem, verdadeiramente, pelo Seu Espírito Santo. Quando em nossas bocas recebemos do pão e do vinho, as nossas almas recebem do Cristo vivo e dos benefícios do Seu corpo e sangue dados por nós.

A oração

A quarta e última atividade citada em Atos 2:42 é a oração. Os cristãos da igreja do Novo Testamento ajuntavam-se para orar. Você pode pensar: “Para que ir à igreja para orar? Posso orar sozinho muito bem”. Bem, é verdade que a oração pessoal é importante e que se pode orar em qualquer hora e lugar, mas também é importante orar junto com os outros. Quando o povo de Deus se ajunta, seja numa grande congregação, seja numa pequena reunião de oração, as suas orações agregam poder. Disse Jesus: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.19-20). Por que a igreja? Porque lá as pessoas oram juntas com um só coração e louvam a Deus com uma só voz.

Ouça novamente Atos 2.42 “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Era isso que os cristãos primitivos faziam juntos como igreja, e é, uma boa síntese da razão por que eu e você precisamos nos envolver na igreja ainda hoje.

Atos 2 prossegue falando do dinamismo daquela igreja. Havia grandes milagres acontecendo; os crentes vendiam os seus bens, partilhando deles com os coirmãos que não tinham o suficiente, louvando ao Senhor diariamente no templo e gozando da companhia uns dos outros em seus lares. E o Senhor acrescentava ao número deles aqueles que iam sendo salvos.

Ainda hoje, sejam quais forem as suas falhas — e há muitas delas — uma legítima congregação cristã é um ambiente onde o poder de Deus atua de formas surpreendentes, onde o povo de Deus dá de si mesmo para ajudar os outros, e onde dão alegria aos corações uns dos outros e a Deus. Por que a igreja? Por que é dinâmica; é onde acontecem coisas sobrenaturais e esplêndidas.

Quando se lê sobre a igreja do Novo Testamento pode-se ser tentado a dizer: “Ah, eu adoraria ir a uma igreja assim como esta, mas as igrejas de hoje... bem, elas não têm o que ela tinha”. Mas não engane a si mesmo. Se você ler a Bíblia, vai descobrir que aquela igreja lá de trás lutou com os seus próprios problemas e escândalos, e se olhar honestamente para a igreja de hoje, não vai achá-la tão ruim quanto gostaria de achar quando está procurando desculpas para não se envolver. Existem algumas igrejas que são tão corruptas e anti-bíblicas que é melhor mesmo ficar bem longe, mas não significa que você não pode encontrar uma igreja autêntica.

Cada igreja, é claro, tem os seus próprios problemas, até mesmo naquelas em que Deus está operando ativamente. Mas veja de outra forma: se as pessoas da igreja fossem todas perfeitas, elas poderiam não querer que pecadores como eu e você nos ajuntássemos à igreja para não a contaminar. Alegre-se porque a igreja não é boa demais para lhe receber, e não aja como se fosse bom demais para se ajuntar aos pecadores salvos que existem na igreja.

Não finja que tem coisas melhores a fazer. Não existe nada mais importante do que aplicar-se ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão, ao partir do pão e à oração. Tente. Procure uma igreja fiel que creia na Bíblia e honre a Cristo e filie-se a ela. Você vai se maravilhar com o que acontece.

Sobre o autor: O autor é radialista do programa “Back to God Hour” do qual transmitiu esta mensagem em 26/11/2000. — Artigo coligido da revista “New Horizons” (julho de 2003). — The Back of God Hour of The Christian Reformed Church in North America, 6555 West College Drive, Palos Height, IL 60463.

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Traduzido por: Marcos Vasconcelos
Fonte: Monergismo

Um desabafo sobre denominações e divisões na igreja

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Fonte: Vlog do Yago
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