Pecado, Graça Comum e Significado: Semântica pós-lapsária na Filosofia da Ideia Cosmonômica

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O objetivo deste texto é demonstrar a formulação Dooyeweerdiana sobre a questão do significado metafísico após a Queda adâmica. 

Herman Dooyeweerd (1894-1977) inicia sua Obra filosófica madura (A new critique of theoretical thought – NC) com uma crítica transcendental do pensamento teórico. O conteúdo restante do primeiro Volume é uma extensa crítica a história do pensamento teórico Ocidental. Os outros dois Volumes são articulações positivas de sua filosofia, principalmente sua ontologia com a inovadora ideia da teoria dos aspectos modais.

Em relação ao Significado, Dooyeweerd diz: “Significado é o ser de tudo o que é criado, até mesmo da natureza da nossa própria identidade, tendo raízes religiosas e origem Divina” (NC, Vol I. p. 4; TA). Portanto, dentro de um quadro teórico bíblico de “Criação-Queda-Redenção”, Dooyeweerd não afirma que a realidade meramente “possui” significado, ou que o significado é atribuído por um eu subjetivo humano, que em sua arbitrariedade postula significa à criação, como se essa fosse uma espécie de “tabula rasa” ou uma lousa em branco esperando alguém produzir significado em seu esvaziamento semântico. Pelo contrário, Dooyeweerd diz que as coisas SÃO significado, e a Origem desse significado é o próprio Deus.

Isso levanta uma problemática dentro dos próprios pressupostos de Dooyeweerd. Se as coisas são significado, e o pecado afetou drasticamente a criação, como fica a relação Significado-Realidade após essa virada pecaminosa?

O filósofo reformado Holandês responde a esse problema no segundo Volume do NC (§4). Dooyeweerd diz que, no tocante a sua natureza humana, Cristo é a raiz da criação renascida, e como tal, a própria plenitude do Significado, o fundamento criacional do significado em toda a realidade temporal. Mas nosso mundo temporal, em sua raiz religiosa apóstata está debaixo da maldição de Deus e da maldição do pecado.

HD continua seu raciocínio dizendo que há uma antítese radical no lado-Sujeito da raiz do cosmo terreno, podendo essa antítese ter sido reconciliada na redenção de Jesus Cristo. Mas o problema continua, pois na nossa realidade temporal, a implacável luta entre o reino de Deus e o reino das trevas prosseguirá até o fim do mundo. O pecado afetou nosso Cosmo em sua própria raiz e em sua refração temporal de significado. Isso não seria motivo suficiente (ou final) para diferenciarmos Significado da Realidade? A antítese radical entre o Reino de Deus e o das trevas não nos compele a aceitarmos o dualismo último entre a realidade e o significado? Será que a realidade pecaminosa ainda é significado?

Para HD, esse é o problema mais profundo da Filosofia Cristã, que necessariamente deve se apoiar na revelação Divina se não quiser cair na atitude da Filosofia imanente. Portanto nossa única garantia de resposta deve provir das Escrituras. Não sabemos como seria a realidade se ela fosse plenamente afetada pelo pecado irrestritamente. Mas graças a Deus esses efeitos desimpedidos não existem em nosso Cosmo terreno. O que nós sabemos é que a totalidade dos efeitos do pecado não rompe a dependência da criação com seu Criador, que em Sua justiça Divina, irá expressar sua reprovação a essa criação de um modo terrível e que, nesse processo, a realidade depravada somente pode mostrar seu modo de ser criacional como Significado. Será Significado em sua apostasia absoluta debaixo da maldição da ira de Deus, não podendo ser nessa própria condição, uma realidade sem significado.

A realidade pecaminosa permanece significado apóstata debaixo da lei e da maldição de Deus. No nosso Cosmo temporal a Graça Comum de Deus se revela (como Kuyper reiteradamente afirma) na preservação da ordem desse Cosmo. E é nessa Graça Preservativa que a refração temporal de significado permanece intacta. 

Nosso mundo caído não pode manter seu significado aparte de Cristo e da Graça comum. Portanto, para concluirmos, Dooyeweerd diz que não há nenhuma parte do espaço, não há nenhuma vida temporal, nenhum movimento temporal nem energia temporal, nenhum poder, sabedoria, beleza, amor, fé ou justiça que essa realidade pecaminosa pode manter como sua própria propriedade sem Cristo Jesus, em Quem a realidade encontra sua plenitude de significado e através de Quem Deus nos dará todas as coisas. O mundo temporal resiste à destruição do poder maligno do pecado pela Graça comum de Deus em Cristo.    
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Autor: Willian Orlandi
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A difusão do evangelho: o uso de Gênesis 1.28 em Colossenses 1.6

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Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós, desde que ouvimos falar da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes a todos os santos, por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo o mundo, frutificando e crescendo, assim como entre vós desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade” (Cl 1. 3-6).

Introdução

“A melhor defesa é um bom ataque”, é o que alguns dizem, e é certamente o que Paulo fez nessa carta. Um de seus propósitos era encorajar a igreja em Colossos a resistir ao falso ensino que se propagava entre eles. Pelo fato de ser ocasional, a carta aos Colossenses possui uma Cristologia elevada, por causa da redução funcional e menosprezo ontológico de Jesus Cristo que aquela heresia ensinava. Paulo a combate com veemência, e como é característico em suas cartas, o apóstolo deixa ecoar logo nas saudações e orações iniciais de suas cartas vários temas que irá desenvolver no corpo epistolar.    

Como podemos notar em 1.6, ao contrário daquele falso ensino, possivelmente circunscrito apenas em Colossos, a verdade do evangelho apostólico crescia e se multiplicava em todo o mundo.

O propósito deste artigo é tentar descortinar o significado das palavras “frutificar e crescer” (v.6). Através do desdobramento da revelação da redenção na história, iremos investigar esse “motif” ao longo das Escrituras, para nos aproximarmos com a maior precisão possível do que Paulo tinha em mente quando descreveu a atuação do evangelho nesses termos.

Frutificando e crescendo

Esta perícope possui uma estrutura concêntrica onde Paulo elabora a experiência dos Colossenses no evangelho, refletindo as circunstâncias em que eles ouviram o evangelho pela primeira vez (v. 7-8), e o poder transformador que opera não somente neles, mas em todo o “mundo” (v.6), este último consiste no centro dessa ação de graças (v. 3-8).

A linguagem de “frutificar e crescer” é uma reminiscência alusiva à história da criação em Gênesis. Deus ordena que a raça humana “frutifique e se multiplique” (Gn 1.28; cf. 1.22).

Gênesis 1.28
Colossenses 1.6

Crescei [auxanõ] e multiplicai-vos [plêthyno] e enchei a terra [...] e dominai sobre [...] toda a terra [pasês tês gês]” (LXX).

Frutificai [pârã] e multiplicai-vos [rãbâ] e enchei a terra [...] e dominai [...] a terra” (TM)

Em todo o mundo [panti tõ kosmõ], ela [a palavra da verdade, o evangelho] está frutificando [karpophoreõ] e crescendo [auxanõ]”.

Parece que Paulo se foca no texto hebraico (TM), ainda que a tradução da Septuaginta (LXX) seja viável. Dando um sentido mais literal, Paulo traduz “pãrâ” por “karpophoreõ” (frutificando) e “rãbâ” (multiplicar) por “auxanõ”. 
Podemos notar ainda que Paulo usa uma tradução própria, independente da LXX, reproduzindo a expressão “em toda a terra” por “em todo o mundo”.

Tendo definido os paralelos textuais, passamos agora a ver como esse “tema” de “frutificar e crescer” se desenvolve no Antigo Testamento.

“Frutificar e crescer” no Antigo Testamento

Analisaremos o uso e desenvolvimento de Gn 1.28 no Antigo Testamento, e perceberemos que esse é um tema Bíblico-teológico. 

Após o dilúvio esse mandato é reiterado a Noé e sua família:

“...povoem abundantemente a terra e frutifiquem, e se multipliquem sobre a terra” (cf. 9.1, 7).

A mesma linguagem é usada posteriormente na promessa de Deus a Abraão e aos patriarcas:


E Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça frutificar, e te multiplique, para que sejas uma multidão de povos; E te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que em herança possuas a terra de tuas peregrinações, que Deus deu a Abraão” (Gn 28.3-4).
Disse-lhe mais Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti, e reis procederão dos teus lombos” (Gn 35.11).

O povo de Israel alcançou parcialmente essa benção no Egito:

E me disse: Eis que te farei frutificar e multiplicar, e tornar-te-ei uma multidão de povos e darei esta terra à tua descendência depois de ti, em possessão perpétua.” (Gn 48.4)
E os filhos de Israel frutificaram, aumentaram muito, e multiplicaram-se, e foram fortalecidos grandemente; de maneira que a terra se encheu deles.” (Ex 1.7)

Entretanto, Israel pecou e continuou a pecar, e por causa disso sofreu o julgamento e a dispersão. E é no exílio que a fórmula reaparece e Deus promete reunir Seu povo novamente:

E eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; e frutificarão, e se multiplicarão” (Jr 23.3).

O uso de Gênesis 1.28 em Colossenses 1.6

Uma dúvida pode surgir quanto a essa alusão: Qual a relação entre os textos se Gn 1.28 se refere ao aumento dos seres humanos em “toda a terra” e ao domínio deles sobre ela, ao passo que Cl 1.6 refere-se a palavra do evangelho “frutificando e crescendo em todo o mundo” (Beale, 2014)? Paulo estaria apenas se utilizando do texto com fins retóricos sem se importar com o sentido e contexto original de Gn 1.28?

Para uma resposta satisfatória, precisamos adentrar com maior profundidade ao texto. Gn 1.26-28 é um mandato para Adão refletir a imagem de Deus, uma reflexão implicitamente ontológica e explicitamente funcional (Beale, 2014). Na criação de Adão e Eva, Deus os dotou com capacidades internas para que fossem capazes de sujeitar, dominar e encher a terra com a glória de Deus. Reproduzir filhos para se unirem nessa reflexão da imagem Divina fazia parte do mandato da sujeição/dominação.

De acordo com G. K. Beale, Adão, Eva e sua prole seriam vice-regentes que agiriam como filhos obedientes de Deus, refletindo seu glorioso e pleno reinado sobre a terra. O que se evidencia já em Gn 1 – 3, sendo também relevante para Colossenses 1.6 (e 10), é que a obediência à palavra de Deus era crucial para realizar a incumbência de Gn 1.26,28 (2014, p. 1042).

Adão, Eva e sua descendência deveriam refletir a imagem de Deus e espalhar Sua glória por toda a terra. Mas como sabemos, tanto o primeiro casal como sua descendência falhou miseravelmente.

Paulo se apropria de forma alusiva a um dos enredos mais importantes da história da redenção. O apóstolo foca na função da palavra de Deus em Gn 2-3 em relação ao cumprimento da comissão adâmica (ibid., p. 1043). A palavra da verdade finalmente começou sua expansão global, conforme Adão foi ordenado a fazer. Não somente no mundo, mas “nos” Colossenses, que foram “libertos do império das trevas” (1.13), o engano e domínio da antiga serpente já não opera em seus corações.

Assim vemos que Paulo não está forçando o texto de Gênesis, antes o interpreta de uma perspectiva histórico-salvífica, e da culminação do evento Cristo. De fato, Jesus é o novo e último Adão, o portador da imagem de Deus (Cl 1.15; 3.10), e os cristãos, pela fé n'Ele, são identificados com Ele através da união pessoal com Cristo.

O objetivo da comissão renovada em Cristo é espalhar a glória de Deus através de uma humanidade renovada (cf. N. T. Wright, 1986, p. 53-54). Como descendência espiritual do Adão escatológico, os fiéis, como participantes da nova criação inaugurada, dão inicio ao cumprimento do mandato outorgado ao primeiro Adão. 

Concluímos que o uso de Gn 1.28 em Cl 1.6 não é meramente analógico. Estamos diante de uma tipologia, pois a repetição da falha em cumprir a comissão de Gênesis apontava para uma humanidade escatológica que finalmente obedeceria ao mandato de Gênesis (Beale, ibid.). 

Conclusão

Concluo esse breve artigo com algumas aplicações práticas. Em primeiro lugar, será oportuno uma análise pessoal do leitor sobre sua própria fé, à luz do verdadeiro evangelho. A fé espúria que se propaga no meio evangélico é fruto do falso evangelho que domina várias denominações. Nada além e nada aquém do puro evangelho bíblico/apostólico deve ser crido. Somente ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Porém crer num falso evangelho é correr em vão e por isso deve ser anátema mesmo se tiver uma suposta origem “angelical” (Gl 1.8). Em segundo lugar, devemos combater esses falsos evangelhos com o verdadeiro. Foi exatamente isso que Paulo fez. Quer fosse o falso evangelho destruindo os gálatas, ou a heresia corroendo Colossos, ou o triunfalismo dividindo Corinto, Paulo sempre estava lá, combatendo o engano da antiga serpente com a palavra da verdade. Ele mesmo diz que foi posto para defesa do evangelho (Fl 1.17). Todos nós temos esse mesmo dever que Paulo, e é por isso que Judas nos exorta a “batalhar pela fé que de uma vez por todas foi dada aos santos” (Jd 1.3). Em terceiro e último lugar, não devemos ficar apenas na defensiva, mas temos que partir para o ataque. E com isso quero chamar nossa atenção para o dever e responsabilidade de cada cristão em proclamar o evangelho em “todo o mundo”. Deus em Sua soberania usa meios para a difusão global de Sua Palavra. Paulo não poderia falar sobre o crescimento do evangelho se ele e os demais tivessem ficado quietos. Como vimos, somos o povo escatológico de Deus, novas criaturas nas quais a imagem de Deus se renova dia após dia em Cristo. E o propósito disso é espalhar a glória de Deus na face de Cristo, avançando o evangelho do reino neste mundo caído.  

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Bibliografia:
Arnold, Clinton E. The Colossian Syncretism. WUNT 2/77. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1995.
Beale, G. K. Colossenses, em “O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento”, org. D. A. Carson e G. K. Beale. Vida Nova, SP, 2014.
Bruce, F. F., The epistle to the Colossian, to philemon and to the ephesians. NICNT. Grand Rapids: Eerdmans, 1984.
Dunn, James D. G. Epistle to the Colossians and to philemon. A commentary on the greek text. NIGTC. Grand Rapids: Eerdmans, 1996.
Francis, F. O., and Wayne Meeks, eds. Conflict at Colossae. Sources for Biblical Study 4. Missoula: Society of Biblical Literature, 1973
Garland, David E. Colossians and philemon. NIVAC. Grand Rapids: Zondervan, 1998.
Lightfoot, J. B. Saint Paul’s Epistles to the Colossians and to Philemon. Grand Rapids: Zondervan, 1959 (da edição revisada de 1879).
Martin, Ralph P. Colossians and Philemon. NCB. London: Oliphants, 1974.
Moule, C. F. D. The Epistles to the Colossians and to Philemon. CGTC. Cambridge:Cambridge Univ. Press, 1968.
O’Brien, Peter T. Colossians, Philemon. WBC. Waco, Tex.: Word, 1982.
Wright, N. T. Colossians and Philemon. TNTC. Grand Rapids: Eerdmans, 1986.

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Autor: Willian Orlandi
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Como interpretar Apocalipse?

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Introdução

Os debates sobre o livro de apocalipse são ad infinitum. Dentro da escatologia tupiniquim de nosso país os problemas ainda se agravam. Em geral, a escatologia brasileira é guiada e hipnotizada pelo sensacional e cinematográfico, em vez de ser guiada por uma análise séria do texto. 

Então, como devemos interpretar o Apocalipse de João? Literalmente? Simbolicamente? Ambos? As próprias regras hermenêuticas para a interpretação de textos apocalípticos em geral já responde nossa questão. Entretanto, uma análise cuidadosa do próprio texto esclarece para nós o caminho que devemos tomar. 

Neste breve artigo, veremos o significado e o pano de fundo de uma palavra logo no primeiro verso do livro. A palavra “semaino” (traduzida como notificar, na ARA) significando “comunicação por símbolos” será o objeto de nosso estudo. Não faremos uma análise exegética exaustiva, nem de Ap. 1.1, nem da sua alusão veterotestamentária, mas nos deteremos apenas na palavra semaino (para uma análise completa, ver Beale, 1999).

1. O significado de “semaino” (σημαίνω)

João inicia seu livro dizendo que é uma revelação (Ἀποκάλυψις) de Jesus Cristo, que pela mediação de um anjo, foi notificada a João (Ap. 1.1). A palavra que nós traduzimos como “notificou” (ἐσήμανεν) é o aoristo ativo do verbo σημαίνω. O léxico Inglês-Grego do NT traduz essa palavra como “fazer conhecer, comunicar, reportar, significar” (BAGD, 747). Todas essas definições trazem a ideia de comunicação, mas não especifica a natureza ou o modo dessa comunicação (Beale, 1999).

2. O pano de fundo de “semaino

Para entendermos com maior precisão o significado de semaino, precisamos analisar a clara alusão ao Antigo Testamento presente em Apocalipse 1.1. O texto alude a Daniel 2.28-30, 45. As cláusulas “revelação... Deus mostrou... o que deve acontecer... e fez conhecer (σημαίνω)” aparecem juntas somente em Dn. 2 e em Ap. 1.1 (Beale, ibid.).

O σημαίνω de Daniel 2 é a tradução grega do aramaico yĕda (fazer conhecer). O modus da comunicação é definido pelo contexto, que trata sobre uma visão como uma comunicação simbólica por intermédio de um sonho. Essa natureza simbólica da comunicação é atestada em Dn. 2.45:

Porquanto viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, o grande Deus faz saber (σημαίνω) ao rei o que há de suceder no futuro. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”.

O contexto fala sobre o sonho que o rei Nabucodonosor teve sobre uma estátua composta de quatro partes feitas de metais diferentes (ouro, prata, bronze e ferro). Daniel interpretou cada parte como sendo grandes reinos mundiais, mas que no fim, foram substituídos/derrotados pelo reino de Deus. A revelação dada ao rei babilônico não era abstrata, mas sim pictórica (
ibid.). 

Portanto, João ao escolher semaino em vez de “gnorizo” (fazer conhecer), faz isso intencionalmente (e não por acaso) demonstrando a natureza simbólica dessa comunicação (o livro de Apocalipse) que é definida pela alusão à Dn. 2.

3. O uso de “semaino” no restante do NT

Semaino” tipicamente traz a noção de comunicação por símbolos quando não tem o sentido mais geral de “fazer conhecer”, e ambos os sentidos são encontrados na LXX (Septuaginta). Dos outros cinco usos no NT, dois tem o sentido de “fazer conhecer” (At. 11.28; 25.27) ainda que um deles (11.28) tenha nuanças de comunicação simbólica (revelação simbólica do profeta).

Os três outros usos estão no evangelho de João (Jo. 12.33; 18.32; 21.19), resumindo a descrição pictórica de Jesus sobre a crucificação (ibid.). Esse evangelho usa o substantivo cognato “semeion” repetidamente para se referir aos milagres de Jesus como “sinais” ou “símbolos” de seus atributos e de sua missão (Ibid.).

4. O paralelo entre “semaino” e “deiknymi” em Ap. 1.1

A definição semântica de semaino como “comunicação por símbolos” é reforçada pelo seu paralelo com a palavra δείκνυμι (mostrar) no mesmo verso: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos...”. Embora essa palavra possa significar algum sinônimo de “fazer conhecer” em outras literaturas gregas, aqui ela tem o sentido de uma “revelação mediada por visões celestiais simbólicas comunicadas por um anjo (Beale, ibid.)”. O significado de “mostrar” para δείκνυμι é corroborado pelos outros sete usos dessa palavra em Apocalipse (4.1; 17.1; 21.9–10; 22.1, 6, 8). O que se é mostrado em cada uma delas é uma visão simbólica, e João escreve que ele “viu” (E eu vi - καὶ εἶδον) essas revelações pictóricas (p. ex. 17.3, 6; 21.22; 22.8; ibid.).

Conclusão

Tanto a semântica como o Background de semaino em Ap. 1.1 é de imensa importância para uma aproximação hermenêutica correta a esse livro. Alguns comentaristas presumem que Apocalipse algumas vezes explica o significado de suas imagens, e que, portanto, onde não há explicações, deve se interpretar conforme o sentido “natural/literal”, a menos que o contexto indique o contrário (Walvoord, Revelation, 30). Conclui-se disso que devemos interpretar Apocalipse literalmente, a menos que sejamos forçados pelo contexto a interpretá-lo simbolicamente. Entretanto, com a análise acima, concluímos exatamente o contrário. O material de Apocalipse é majoritariamente simbólico (no mínimo 1.12-20; 4.1-22.5). Obviamente algumas partes não são simbólicas, mas a essência do livro é figurativa (Ibid.). 

Greg Beale (op. cit.) demonstra que há quatro níveis de comunicação em Apocalipse: 1. Linguístico (o próprio texto); 2. Visionário (as experiências visionárias de João; 3. Referencial (que consiste numa identificação histórica específica dos objetos vistos na visão) e; 4. Simbólico (é o que os símbolos nas visões conotam sobre seu referencial histórico). Então, por exemplo, em Ap. 19.7-8 a descrição textual é o nível linguístico, que pode ser lido e/ou ouvido. As imagens da noiva e do linho fino são o que João viu no nível visionário. 3. No nível referencial, a figura do casamento da noiva com o noivo se refere ao regozijo atual dos cristãos em comunhão com Cristo, provavelmente após sua segunda vinda. Finalmente, o nível simbólico se refere ao que nós determinamos ser o sentido preciso da comunhão da noiva com o noivo e da imagem do casamento em geral (o linho fino é explicitamente interpretado como sendo os atos de justiça dos santos). Pelo menos parte desse simbolismo significa a união espiritual consumada da igreja com Cristo, em Sua presença, e a celebração jubilosa associada a essa união final (Beale).

Concluímos que o próprio autor de Apocalipse (João) determina logo no primeiro verso que devemos interpretar seu livro simbolicamente, a menos que o contexto explicitamente se mostre literal (como o autor, a ilha de Patmos, as sete igrejas, etc).     
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Bibliografia:

- Bauckham, Richard, "The theology of the Book of Revelation" (1993).
- W. Bauer, W. F. Arndt, F. W. Gingrich, and F. W. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament. Chicago: University of Chicago, 1979.
- Beale, G. K. (1999). The book of Revelation: a commentary on the Greek text. Grand Rapids, MI; Carlisle, Cumbria: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.
- "John´s use of the Old Testament in revelation",(1998).

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Autor: Willian Orlandi
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Eleitos enganados?

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Uma investigação exegética de Mateus 24.24, em resposta a interpretação arminiana.

Introdução

Este breve artigo é uma resposta ao artigo “Mateus 24.24: É possível enganar os escolhidos?” (publicado em cacp.org.br). Irei não apenas mostrar os erros da interpretação desse artigo, mas pretendo construir exegeticamente uma compreensão correta do significado do texto.

1. O erro interpretativo


A interpretação arminiana usa textos como At 20.16 e Rm 12.18 para fundamentar a compreensão de que os eleitos podem ser “enganados” se desviando da verdade para seguir os falsos mestres. Entretanto, não vejo como tal interpretação não comete a falácia exegética chamada “paralelismo verbal”. Paralelismo verbal é a enumeração de paralelismos verbais de obras literárias como se esses meros fenômenos demonstrassem elos conceituais ou mesmo dependência.[1] Ou seja, tanto o texto de Atos como o texto de Romanos estão tratando de coisas diferentes em contextos diferentes. Além dessa, o artigo comete outras falácias como: A falácia da sinonímia, a falácia do uso seletivo e preconceituoso das evidências, a falácia das disjunções e restrições semânticas injustificadas, etc.

Portanto, toda a interpretação não somente falha em sua análise exegética (não há discussão quanto a gramática, contexto, etc) como foi completamente erguido sobre o fundamento de areia das falácias.

2. Contexto da passagem

Sem sombra de dúvidas, Mateus 24 é uma crux interpretum. No contexto mais amplo, Jesus está na Judéia (19.1-25.46). Em 24.1-24.46 temos o sermão da oliveira, o último grande discurso de Jesus nesse evangelho, mas como nosso interesse se limita ao v.24, não irei entrar em maiores detalhes contextuais.

Principalmente com a destruição do templo judaico em 70 d.C., iriam surgir vários falsos mestres, dizendo que são messias, e é nesse contexto que temos a expressão “...para enganar, se possível, os próprios eleitos”.

3. Análise exegética

O “se possível” não questiona a segurança do eleito, mais do que questiona a inevitabilidade do cálice de Jesus (26.39).[2] O verbo aoristo ativo “enganar” (πλανῆσαι) é um infinitivo propositivo (ou seja, para enganar, expressando o propósito), o “se possível” refere-se a intenção dos impostores, como Carson notou: “eles pretendem, se possível, enganar até mesmo os eleitos – sem nenhum comentário sobre o quanto, no final, esses ataques serão bem sucedidos.[3] 

O termo eleito é repetido no v. 22 e depois no v. 33. Esses são aqueles a quem Deus elegeu soberanamente, os quais, entretanto, serão finalmente identificados somente na revelação escatológica. No entanto, é evidente que há aqueles que são patentemente relacionados com os propósitos de Deus nesta terra e aqueles que não são. 

Certamente existe a inter-relação entre a soberania eletiva de Deus e a responsabilidade humana. Na perspectiva do evangelho, alguém se protege dos erros (pelo menos em parte) ao tomar as precauções apropriadas, contra o erro, e isso não contraria o imutável fiat Divino. A tentação sempre é uma realidade e precisa ser fortemente resistida.

Se tomarmos a linguagem de “eleito” no seu sentido mais forte, então nenhum desvio para a perdição ocorrerá. Não por causa de algo invencível e intrínseco ao eleito, mas por causa da “esfera conceitual” (do termo eleito), a questão nem deve ser levantada.[4] 

O próximo verso sustenta nossa interpretação. O verso 25 contém no original, três palavras gregas, onde Jesus acentua sua predição. Os discípulos não terão desculpas quando a feroz tribulação chegar, pois foram avisados. Por causa desse aviso eles não serão perturbados, antes sua fé em Jesus será confirmada.[5] Jesus estava dizendo que, se fosse possível tais falsos mestres enganarem os eleitos, eles o fariam. No entanto, ao saberem coisas que iriam passar, isso deveria fortalecê-los, e quando a tribulação chegasse, eles iriam lembrar-se da profecia, e isso os ajudaria a não ficarem impressionados.[6]

4. O uso do Antigo Testamento

Os ecos veterotestamentários são evidências cumulativas para nossa interpretação. Podemos perceber ecos de Deuteronômio 13.1-3:1

Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.

Os falsos profetas dessa perícope não eram pra desviar os eleitos, mas eram uma “prova” para ver quem realmente amava a Deus. O texto também pode ecoar Zacarias 9.14, com a figura do Senhor e suas flechas que reluzem como relâmpagos.[7]  


Conclusão

Concluímos que os eleitos não podem ser enganados, no sentido de seguirem os falsos mestres para a perdição. Nossa interpretação discorda da interpretação arminiana, por não considerar não somente o contexto imediato, mas também o restante da teologia do Novo Testamento, que claramente ensina que Deus guarda e preserva seus amados filhos.

Excurso: Esboço clausal do texto grego

  • Explanação - ἐγερθήσονται γὰρ ψευδόχριστοι καὶ ψευδοπροφῆται
  • Verbo - καὶ δώσουσι σημεῖα μεγάλα καὶ τέρατα
  • Infinitivo - ὥστε πλανῆσαι
  • Questão indireta - εἰ δυνατόν
  • Objeto direto / Cláusula resultante - καὶ τοὺς ἐκλεκτούς

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Notas:
[1] D. A. Carson, Perigos da interpretação bíblica, p. 41. 
[2] D. A. Carson, O comentário de Mateus, p.584.
[3] Ibid
[4] Nolland John. (2005). Preface. In The Gospel of Matthew: a commentary on the Greek text (p. 979). Grand Rapids, MI; Carlisle: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.
[5] William Hendriksen, Mateus,  p. 505.
[6] Morris, L. (1992). The Gospel according to Matthew (p. 607). Grand Rapids, MI; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press..
[7] Craig L. Blomberg, Mateus, em O comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento,  eds, D. A. Carson e G. K. Beale, p. 107.

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Autor: Willian Orlandi
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“Temor e tremor”: o comportamento apocalíptico de Paulo e um apelo aos pregadores contemporâneos

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Em 1 Coríntios 2.1-5 contemplamos um vislumbre biográfico de Paulo em ação.[1] Há uma frustração 
entre a expectativa sofística dos Coríntios e a proclamação da mensagem de Paulo. Ele diz:

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.” (1Co 2.1-5)

Nesse parágrafo, Paulo conclui seu argumento de que a mensagem da cruz e a própria existência dos corintos como crentes estavam em contradição naquele momento.[2] Também há um tom apologético, onde o ministério de Paulo estava sendo justificado diante deles.


O propósito deste texto é demonstrar a conduta apocalíptica de Paulo em seu ministério, o que estava em completa oposição aos poderosos e eloquentes oradores que os corintos estavam tão enamorados. Irei concluir aplicando essa verdade em nossas vidas, usando Jonathan Edward como exemplo.

Os termos “temor” (φοβω) e “tremor” (τρομω), quando empregados na Septuaginta, se referem à resposta diante da presença teofânica de Deus (Ex 15.16; Dt 2.25; 11.25; Sl 2.11; Is 19.16).

Podemos encontrar ambos os termos na literatura apocalíptica judaica, como por exemplo, em 1Enoque, onde se usa “temor” e “tremor” no mesmo sentido da LXX: “O Santo e excelso virá de sua habitação, ... e todos irão temer, e os vigilantes tremerão, um grande temor (φοβω) e tremor (τρομω) cairá sobre eles” (1En. 1.3-5; cf.13.3; Dn 6.26; Ap. Sedr. 14.10; Jos. Asen. 14.10 ; 23.14; 4Ed 6.36-37). Em adição, também encontramos ambos os termos juntos para descrever um indivíduo recebendo visões e/ou revelações, como em 1En. 14.9-14, onde Enoque em sua jornada rumo ao céu recebe uma visão: “Eu continuei indo (ao céu) até que eu me aproximei de um muro que era construído de mármore branco,... E entrei para dentro da casa, que estava quente como fogo e frio como gelo, e não havia nada no seu interior; o medo (φοβω) me cobriu e o tremor (τρομω) me apreendeu, e enquanto eu tremia e cambaleava, caí sobre meu rosto e tive uma visão”. 

Outro exemplo é Daniel 4.19, nós lemos sobre a condição de Daniel após receber a informação do sonho do rei Nabucodonosor: “Então, Daniel, cujo nome era Beltessazar, esteve atônito (φοβηθεὶς) por algum tempo, e os seus pensamentos o turbavam (τρόμου)”. 

Podemos encontrar o mesmo fenômeno, ainda que não com as mesmas palavras, em Ezequiel 3. 14-15: “Então, o Espírito me levantou e me levou; eu fui amargurado na excitação do meu espírito; mas a mão do SENHOR se fez muito forte sobre mim... e, por sete dias, assentei-me ali, atônito, no meio deles”.

Novamente, em Daniel 2.1, vemos Nabucodonosor na mesma situação: “o seu espírito se perturbou, e passou-se lhe o sono”. E até mesmo o próprio Daniel teve uma experiência idêntica após receber a visão em Dn 7.15 e 10. 7-8:

Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi alarmado dentro de mim, e as visões da minha cabeça me perturbaram... Só eu, Daniel, tive aquela visão; os homens que estavam comigo nada viram; não obstante, caiu sobre eles grande temor, e fugiram e se esconderam. Fiquei, pois, eu só e contemplei esta grande visão, e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma. Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra. Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: Daniel, homem  muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, porque eis que te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, eu me pus em pé, tremendo”.

Não apenas “temor” e “tremor” repetem o motif veterotestamentário e apocalíptico, mas também a noção de fraqueza, também reverberada em Daniel, especificamente no programático 11.33-35
[3]:

Os sábios entre o povo ensinarão a muitos; todavia, cairão [ficarão fracos – ásthenesousin] pela espada e pelo fogo, pelo cativeiro e pelo roubo, por algum tempo. Ao caírem [ficarem fracos – asthenesai] eles, serão ajudados com pequeno socorro; mas muitos se ajuntarão a eles com lisonjas. Alguns dos sábios cairão para serem provados, purificados e embranquecidos, até ao tempo do fim, porque se dará ainda no tempo determinado (NETS; Theo).

Nessa passagem, os sábios (um tema chave em Daniel) são fortemente perseguidos e se tornam fracos, mas é somente através dessa perseguição que eles são purificados como os justos remanescentes.[4]


Ao retornarmos para as páginas do Novo Testamento, percebemos que “temor” e “tremor” são elementos caracteristicamente paulinos (2Co 7.5; Fl 2.12; cf. Ef 6.5).

Em 2Co. os termos ocorrem dentro do contexto da recepção de Tito. Já em Ef. 6.5 os termos descrevem a maneira correta dos servos obedecerem a seus senhores. E, por último, Paulo exorta os filipenses a desenvolverem a salvação com “temor e tremor” (Fl 2.12). Todos esses versos estão embasados no raciocínio do Antigo Testamento, isto é, a postura individual diante de Deus [5] (Coram Deo). Peter O’Brien sumariza da seguinte maneira: “Nós concluímos que Paulo usa φοβω e τρομω em vários contextos diferentes para se referir ao senso de temor e reverência na presença de Deus. Seu uso é consistente com o uso predominante da LXX”.[6]

Portanto, em Corinto (2.3), Paulo executa seu ministério como estando na própria presença de Deus. A expressão “temor e tremor” ganham um novo peso e é refinado pelos vários contextos apocalípticos que vimos acima. Paulo também adiciona o termo “fraqueza”, o que pode ecoar Dn 11.33-35 (o que faria de Paulo um sábio purificado pela perseguição?). Gary Selby diz: “Situado como está dentro do discurso que emprega categorias apocalípticas para caracterizar sua mensagem como “mistério de Deus”, a linguagem de Paulo reflete uma deliberada tentativa em situar a si próprio na tradição apocalíptica. Ele assumiu a persona do “vidente inspirado” que recebeu uma revelação Divina e que finalmente – ainda que em fraqueza, temor e grande tremor – transmitia a misteriosa e secreta sabedoria de Deus para o povo de Deus”.[7]

Paulo chegou a Corinto proclamando um mistério, e faz sentido essa mensagem ser refletida em sua própria personalidade.

Aplicação

Jonathan Edwards foi um dos instrumentos que Deus usou para irromper o Grande avivamento do séc. XVIII. Muitos dizem que ele é o homem mais parecido com o apóstolo Paulo, embora felizmente não cabe a nós um julgamento minucioso dessa natureza, podemos concluir que as pregações desse homem são uma bela e profunda ilustração das pregações de Paulo.

Um dos seus sermões mais conhecidos, intitulado “Pecadores nas mãos de um Deus irado” (baseado em Dt. 32.35) foi pregado em Einfield/Conecticut e marcou o inicio do grande avivamento.

Antes de pregar, Edwards passou três dias sem comer nem dormir, clamando a Deus incessantemente: Dá-me a nova Inglaterra![8]

Embora o povo estivesse indiferente, alguém disse que Edwards, dirigindo-se ao púlpito, tinha o semblante de quem fitara a face de Deus. Sem usar gestos, encostado num dos braços sobre o púlpito, segurava o manuscrito, lendo-o calma e penetrantemente, o espetáculo estava ausente, Deus estava presente.

John Piper diz que “um dos segredos do poder de Edwards no púlpito era a ternura proveniente de seu coração quebrantado”[9] e conclui que o “poder espiritual no púlpito não é sinônimo de barulho”.[10]

Nem Paulo, nem Edwards, diria que eloquência é pecado, houve muitos homens de Deus eloquentes na história. Mas tornar isso como um fim em si mesmo, mostra autossuficiência e autocongratulação. 

Com a morte e ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito, a nova era irrompeu, o estado escatológico foi inaugurado, por isso, o evangelho da cruz deve ser nossa mensagem e a Glória de Deus deve ser nosso alvo. Mas nessa atmosfera, nós, pregadores, devemos estar encharcados de oração e cheios do Espírito, devemos estar primeiramente diante de Deus (Coram Deo) antes de estarmos diante do povo. Devemos ser movidos pelo poder do Espírito de Deus e não pela nossa própria habilidade e eloquência. Precisamos de pregadores que imitem Paulo, primeiramente que sejam “fracos para que a excelência do poder venha de Deus e não deles mesmos, e para que esse poder seja aperfeiçoado nessa fraqueza, e em segundo lugar, que tenham temor e tremor, como alguém que contemplou a glória de Deus na face de Cristo, como homens que possuem o princípio da eternidade profundamente gravado em suas almas.

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Notas:
[1] Benjamim L. Gladd, Revealing the Mysterion: The Use of Mystery in Daniel and Second Temple Judaism with Its Bearing on First Corinthians, 2008 , p. 120.
[2] Gordon Fee, The First Epistle to the CORINTHIANS, (NICNT) p.89.
[3] Ibid. p. 121.
[4] Ibid.p. 122.
[5] Ibid.
[6] Peter O´Brien, The Epistle to the Philippians: A Commentary on the Greek Text (NIGTC; Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 284.
[7] Gary Selby, “Paul, the ser”, pp. 369-70.
[8] Franklin Ferreira, “Servos de Deus – Espiritualidade e teologia na história da igreja” (São José do Campos, SP:Editora Fiel 2014),  p. 287.
[9] John Piper, “Supremacia de Deus na pregação”, p. 99.
[10] Ibid.

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Autor: Willian Orlandi
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“Malakoí” e o debate Neto x Feliciano

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Recentemente o empresário Felipe Neto e o Pastor/Deputado Marco Feliciano debateram sobre algumas questões de extrema relevância para a atualidade. O primeiro assunto debatido foi sobre o homossexualismo, que nas palavras de Felipe Neto, “é o assunto em pauta do século”.

Felipe Neto corretamente aponta a falta de uniformidade teológica no meio evangélico brasileiro, bem como a seletividade na aplicação de textos bíblicos por parte dos cristãos, demonstrando de forma eficaz contradições internas na teologia do Pr. Feliciano (p. ex. a questão das mulheres como pastoras).

No debate, foi aludido a 1Co. 6.9 como um texto que demonstra que relações do mesmo sexo são tratadas como pecado na Bíblia, ao que Felipe Neto, citando a palavra grega (e não hebraica!) “malakoí” (traduzida em algumas versões como “efeminados”) diz que o termo significa “devasso”, não se referindo explicitamente ao homossexualismo.

O propósito deste texto não é defender nenhum dos dois debatedores em questão, mas sim demonstrar que “malakoí” (em 1Co. 6.9) claramente se refere a prática homossexual. 

Malakoi” em 1Coríntios 6.9-10

Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus

No capítulo 6 dessa carta, Paulo critica o litígio no meio da igreja de Corinto. Nos versos em questão (9-10) Paulo fala sobre aqueles que não herdarão o reino de Deus (dentro da escatologia inaugurada de Paulo, reino de Deus nesse texto em específico se refere ao futuro e consumado reino vindouro de Deus). Paulo já havia feito um “catálogo” negativo com 6 elementos em 1Co. 5.9-11 (impuro, avarento, idólatra, maldizente, beberrão, roubador) adicionando agora mais 4, totalizando 10 (adúlteros, homossexuais passivos e ativos e ladrões).


Os termos devassos (impuros), idólatras, adúlteros, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores são claros e não precisam de um comentário aqui. O problema está nas duas palavras traduzidas tradicionalmente como “efeminados” (μαλακοὶ) e “sodomitas” (ἀρσενοκοῖται).

Μαλακός fora de um contexto sexual significa “leve” e é traduzido como “brando” (γλῶσσα δὲ μαλακὴ συντρίβει ὀστᾶ, Prov. 25.15 LXX), e também como “fino” (roupas finas em Mt. 11.8).

Na literatura helenística do período romano pode significar efeminado quando se referindo a homem (Dio Chrysostom, 49 [66]; Diogenes Laertius, 7: 173).

Em 1Co. 6.9, sua relação sintagmática com ἀρσενοκοῖται influencia sua extensão semântica. Este último é a forma mais antiga desse adjetivo composto, não tendo uma pré-história lexicográfica. Entretanto, os estudiosos estão em acordo que seus componentes significam “dormir com” ou “ter relações sexuais com” (κοῖτης) “homens” (ἄρσην – macho [substantivo]; ἀρσενικός – macho [adjetivo]). Ambos os termos receberam um intenso escrutínio lexicográfico, mas infelizmente nosso espaço aqui não nos permite tal mapeamento. 

Em geral, há um amplo consenso que  μαλακοί em 1Co. 6.9 significa “um parceiro passivo em uma relação homossexual entre homens”. Devemos considerar esses dois termos em relação um com o outro para não entrarmos num ambiente especulativo. Esses dois termos se referem ao relacionamento homossexual entre um parceiro mais passivo (μαλακοί) e um mais ativo (ἀρσενοκοῖται), sem fazer referência específica à pederastia (conforme Scroggs) nem a prostituição (conforme Boswell). Mesmo esses dois estudiosos acima que defendem traduções diferentes, concordam que ἀρσενοκοῖται significa “deitar na cama com outro homem”, expressão que ocorre em Levítico 18.22:

Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”.

Scroggs afirma que “o hebraico é traduzido fielmente”, e que também “partes desse composto grego aparecem na versão Septuaginta das leis em Levíticos” e na discussão legal rabínica “deitar com um homem (mishkav zakur) é o termo mais usado para descrever a homossexualidade entre homens” (Scroggs, The New Testament and Homosexuality, 107, n. 10.).


Entretanto, como corretamente pontua Anthony Thiselton em seu magistral comentário de 1Coríntios, a questão não é se podemos traçar um link entre Lv. 18.22 e 1Co. 6.9, mas se a visão de Paulo sobre o Antigo Testamento se origina totalmente através de lentes de recontextualização judaico-helenística em termos de uma sociedade greco-romana, ou se ele interpreta o AT como Escritura cristã oferecendo paradigmas diretos para o estilo de vida e para a ética do povo de Deus como uma identidade corporativa (Thiselton, 2000; p.450; esta última opção é a mais coerente).

Outro ponto que ajuda a lançar luz sobre o texto, é a cuidadosa análise estrutural de 1Co. 6.9-20 feita por Kenneth Bailey. Ele argumenta que 6.9-20 constitui uma cuidadosa construção de 5 parágrafos em que (a) os 5 pecados sexuais listados se referem aos caps. 5 e 6.12-20 e (b) os outros 5 se referem a questões como comida e bebida (cf. 1Co. 11.17-34). A condenação de um tipo de pecado não tem prioridade sobre os outros. Todos dizem respeito ao corpo. Ainda sim, cada subcategoria dentro desses dois grupos possui sua importância (Bailey, “Paul’s Theological Foundation,” 27-29). Bailey argumenta que todas as falhas sexuais estão relacionadas à idolatria. Nas quatro que são expressas com ações, duas são direcionadas aos heterossexuais (adultério (para os casados) e relacionamentos ilícitos (para os solteiros?)), e duas para os homossexuais (um aplicando à função passiva e outro à ativa). Não podemos ter certeza da precisão dos argumentos de Bailey, mas certamente eles acrescentam um impressionante peso cumulativo aos demais argumentos que demonstram que o homossexualismo é visto explicitamente como pecado em 1Co. 6.9.

Algumas conclusões reflexivas sobre 1Co. 6 e o homossexualismo

1. Em um catálogo com dez disposições que alcançam ações habituais no domínio público, apenas duas se referem a relacionamentos do mesmo sexo, e esses não recebem nenhuma ênfase adicional em relação aos outros oito (Thiselton). Considerações são feitas sobre desejos ilícitos heterossexuais e de aumento de poder e posses da mesma forma que são feitas sobre os relacionamentos do mesmo sexo (não estou defendo uma visão igualitária do pecado, apenas demonstrando algo específico desse texto).

2. As declarações que dizem que as questões homossexuais não são questões tratadas pela Bíblia são no mínimo confusas. Ao contrário do que Felipe Neto disse, Romanos 1.18-32 se refere claramente a relacionamentos do mesmo sexo, bem como o texto brevemente analisado aqui. Jesus apela para Gênesis 1.27 (‘homem e mulher os criou’) e 2.24 (‘o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne’), em suas observações sobre divórcio e recasamento em Marcos 10.6-9 e Mateus 19.4-6, mostrando a importância do pré-requisito de homem e mulher para o casamento, implicando assim, que não só a poligamia é algo ilícito, mas também o homossexualismo. 

3. Devido à distância entre os séculos I e XXI, alguém pode questionar se a questão Bíblica é comparável com a questão nos nossos dias. Quanto mais os estudiosos examinam a sociedade greco-romana e o pluralismo de suas tradições éticas, mais a situação em Corinto parece ressoar a nossa. Portanto são duas situações comparáveis, ainda mais para um cristão que crê que a Bíblia é a palavra de Deus e se aplica a todas as gerações. 

Paulo parece retornar ao AT como fonte de uma ética distinta para um povo distinto (os cristãos), interpretando à luz do evento-Cristo. A conexão entre 1Co. 6.9-10 e Rm. 1.26-29 e seu background veterotestamentário endossam que a idolatria, isto é, a pretensa autonomia humana construindo o valor de alguém acima de um compromisso pactual com Deus, leva a um colapso de valores morais em um tipo de efeito dominó (Thiselton).

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Autor: Willian Orlandi
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O selo escatológico do Espírito: uma experiência posterior?

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Este artigo é uma exposição exegética e apologética de Efésios 1.13 que diz:

“... no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. 

Há três principais interpretações desse texto: 1. O selo do Espírito como sendo o batismo cristão; 2. O selo do Espírito como sendo uma experiência pós-conversão (após crer); 3. O selo do Espírito como algo feito simultaneamente com a conversão. 


Irei defender a terceira interpretação em oposição à segunda. A primeira interpretação não será refutada aqui, visto que não é muito defendida nem conhecida, carece totalmente de apoio contextual e já fora refutada várias vezes por defensores da segunda e terceira interpretação.

1. O selo do Espírito: significado e background

O conceito do selo é tanto antigo como comum. Na antiguidade, era costume selar gados, escravos, documentos e outras propriedades.[1] Na esfera religiosa, homens identificavam a si mesmos como propriedades de suas divindades imprimindo sobre si os seus selos.[2] No judaísmo, a circuncisão era chamada de “o selo de Abraão” ou o selo da “santa aliança”.[3] No Antigo Testamento, Deus selou seus escolhidos para distingui-los como Sua propriedade e para livrá-los da destruição (Ez. 9.4-6).

Portanto, selo pode significar possessão, autenticação e segurança. Como o contexto fala sobre o resgate da possessão de Deus (1.14), esse significado está em vista aqui. Entretanto, possessão implica autenticação e segurança e esses três elementos são verdadeiros em Ef, 1.13, uma vez que o Espírito marca os cristãos como posses de Deus, autentica que um cristão é verdadeiro (pois quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo: Rm. 8.9) e é o Espírito que assegura a salvação final de todo cristão.

2. A crença e o selo: questões gramaticais

Os defensores da interpretação que diz que o selo do Espírito é posterior à conversão apontam para uma questão gramatical. O texto diz: “ ...e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (καὶ πιστεύσαντες ἐσφραγίσθητε τῷ Πνεύματι τῆς ἐπαγγελίας τῷ Ἁγίῳ). O particípio aoristo “crido” antecede o verbo principal “fostes selados” (aoristo passivo). Essa antecedência pode ser tanto causal (o crer causa a selagem) ou temporal (o crer antecede temporalmente o selo). Entretanto, nesse contexto a relação dessas duas palavras é mais bem entendida como sendo coincidentes/simultâneos.[4] Como observado por S. E. Porter, há algumas exceções na regra que diz que o particípio aoristo antecedendo o verbo principal tem a tendência de expressar ação antecedente, e Efésios 1.13 é uma dessas exceções.[5] 

3. O selo do Espírito e o Espírito da promessa

O texto diz que os cristãos são “... selados com o Espírito Santo da promessa”. Provavelmente um semitismo para “O Espírito que fora prometido”. Alguns textos do AT que prometem o derramamento do Espírito são: Ezequiel 36.26-27; 37.14; Joel 2.28-30, etc. A marca distintiva desse derramamento escatológico do Espírito é que Ele seria derramado em todas as pessoas da comunidade da aliança (do povo de Deus). Semelhantemente, Gálatas 3.14 diz que os gentios recebem pela fé a promessa do Espírito, cumprindo as promessas feitas a Abraão. Portanto, quem não tem o Espírito prometido não faz parte do povo escatológico de Deus.

4. O selo do Espírito e a falácia da autoridade

Um conhecido e respeitado defensor de que o selo do Espírito é uma experiência posterior à fé é o Dr. Martin Lloyd Jones. Em sua exposição de Efésios 1.13, Lloyd Jones “consubstancia sua opinião” citando nomes de peso, como os puritanos Thomas Goodwin e John Owen, e de Charles Simeon e Charles Hodge. Entretanto, nas palavras de D. A. Carson, “o máximo de contribuição que isso pode dar a um argumento é o empréstimo da reputação geral da autoridade para apoiá-lo”.[6] Ainda que devamos aprender com todas as “autoridades” dos estudos bíblicos, nossa fonte de suprema autoridade é a própria Escritura.

5. A dimensão escatológica do selo do Espírito

Concluo meus argumentos apontando para a dimensão escatológica do Selo do Espírito. O próximo verso (Ef. 1.14) diz: “...o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória”. Semelhantemente em Ef. 4.30: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”, e em 2Co. 1.21: “...o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações”. O Espírito é o penhor, o pagamento antecipado da redenção final dos cristãos. Os paralelos com o livro apócrifo “Salmos de Salomão” (15.6-13) são instrutivos[7]: 1. Em ambas as passagens há dois tipos de pessoas, em Sl. Sal. 15 temos os justos e os pecadores (15.6-13) e em Efésios temos os crentes e os filhos da desobediência (Ef. 1.13; 2.2; 5.3). 2. Ambos os grupos são distinguidos por uma marca ou sinal. Em Sl. Sal. os justos são marcados por Deus com a marca da salvação e os pecadores são marcados com o sinal da destruição (Sl. Sal. 15.6-9), em Efésios os crentes são marcados com o Espírito (1.13; 4.30); 3. Os dois grupos terão destinos diferentes. Um grupo receberá salvação e o outro herdará a destruição (Sl. Sal. 15. 6-13, Ef. 1:13-14; 5:5-6, 6:9); 4. Eles encontrarão seus respectivos destinos em um dia particular. Em Sl. Sal. será o dia de misericórdia para os justos e o dia do julgamento para os pecadores (Sl. Sal. 15.12-13) e em Efésios será o dia da redenção para os cristãos e o dia da ira para os filhos da desobediência (Ef. 2.2-3; 5.6).[8] As imagens apocalípticas de Ef. 1.13 e 4.30 já são uma realidade. Isso é normalmente denominado de “escatologia inaugurada”. Os cristãos já foram resgatados, mas ainda aguardam o resgate final. Portanto, excluir alguns cristãos dessa realidade é excluí-los do esquema escatológico paulino do “já e ainda não”.

Conclusão

Nas palavras de Gordon Fee, crer e ser selado com o Espírito são dois lados do mesmo evento.[9] Para Paulo, O Espírito sempre é sine qua non para a existência cristã.[10] O selo do Espírito não é algo meramente empírico, onde um cristão experimenta alguma segurança, mas sim é algo ontológico e funcional, ou seja, Deus efetivamente sela os seus (Deus indicado pelo passivo divino de Ef. 1.13). Portanto a incoerência de dizer que o selo do Espírito é posterior ao crer (e a conversão) se dá nos seguintes pontos: 1. Se isso for realidade, então há cristãos genuínos que não são propriedades de Deus, nem são autênticos (contradição explícita) nem possuem segurança de sua salvação (conforme os significados de selo do ponto 1; 2. Como o Espírito é prometido à todo o povo de Deus, então é possível ser um cristão genuíno e não fazer parte do povo de Deus. Se o “Espírito da promessa” significar “O Espírito que nos promete” a futura redenção (como alguns exegetas apontam), então há cristãos que não possuem a promessa da vida eterna.

Nenhum desses dois pontos possui respaldo bíblico, pelo contrário, todo o NT aponta para direções opostas. Não devemos confundir os ministérios e as operações do Espírito. Ser selado é um ato instantâneo e irrevogável. Entretanto, o enchimento com o Espírito é algo que devemos sempre buscar. Paulo posteriormente em Efésios diz: Enchei-vos do Espírito! (Ef. 5.18). Mas ele nunca diz para buscarmos constantemente o selo do Espírito, pois essa selagem é um ato único de Deus somente no momento da conversão de todos os cristãos.

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Notas:
[1] Archie Wang Do HUI, The Concept of the Holy Spirit in Ephesians and its Relation to the Pneumatologies of Luke and Paul, pp. 181-187.
[2] Ibid.
[3] Betz, TDNT, 7.662.
[4] Peter O´Brien, Ephesians (PCNT) p. 118.
[5] S. E. Porter, verbal aspects, pp. 383-85.
[6] D. A. Carson, perigos da interpretação Bíblica, p. 115.
[7] Archie Wang Do HUI, pp. 181-187.
[8] C. Arnold, Ephesians, p. 113, 157.
[9] Gordon Fee, God´s Empowering Presence, pp. 669-670.
[10] Ibid.

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Autor: Willian Orlandi
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