Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

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[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

O Deus Falível do Molinismo

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Por James N. Anderson


Recentemente ouvi o bate-papo sobre Molinismo e Calvinismo entre William Lane Craig e Paul Helm no programa de rádio Unbelievable? de Justin Brierley. Foi mais uma conversa que um debate, mas ainda assim vale a pena ouvir. Nesta postagem eu quero expandir um ponto levantado por Helm, mas não desenvolvido por ele. Primeiro eu resumirei os principais dogmas do Molinismo antes de discutir o que eu considero ser uma séria objeção a ele (seja paciente – a primeira metade desta postagem é apenas a armadilha).

Molinismo é uma teoria filosófica planejada para reconciliar uma forte visão da providência divina (segundo a qual Deus preordena todas as coisas) com uma visão libertária do livre-arbítrio e uma visão sinergista da salvação (segundo a qual não é causada por Deus para qualquer arrependimento e crença; ao invés, os pecadores cooperaram livremente com a graça resistível de Deus a fim de serem salvos). De acordo com o Molinismo, Deus é capaz de, providencialmente, dirigir eventos por meio de seu conhecimento médio, isto é, seu conhecimento do que qualquer criatura libertariana-livre escolheria em qualquer circunstância específica. Por exemplo, Deus sabia de antemão antes do tempo de sua decisão de criar este mundo que eu livremente escolheria um Boston Kreme se eu fosse ao Dukin’ Donuts na noite de 19 de fevereiro de 2014 em tais e tais circunstâncias exatas. Deus, então, é capaz de planejar eventos do primeiro ao último em muitos detalhes por pré-arranjar as circunstâncias precisas nas quais suas criaturas se encontrariam e fariam suas escolhas livres. Deus não causou as escolhas, ele apenas garantiu-lhes em algum forte sentido por orquestrar as circunstâncias à luz de seu conhecimento médio.

Molinistas estão, portanto, comprometidos com três afirmações principais. Primeiro, Deus preordenou todas as coisas, incluindo as livres escolhas de suas criaturas. Craig foi bastante enfático sobre isso durante a conversa com Helm. Ele declarou que Deus ‘preordenou’ todas as coisas e ironizou que ele poderia afirmar quase tudo que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre o Decreto eterno de Deus e a Providência de Deus – à parte da rejeição deliberada confissão do Molinismo (no a cláusula final em CFW 3.2)

A razão de Molinistas tais como o Craig quererem afirmar isto é porque eles reconhecem que a Bíblia tem uma forte visão da providência (e.g Gen. 50:20; Matt. 10:29-30; Acts 4:27-28; Rom. 8:28; Eph. 1:11). E eles devem ser elogiados por reconhecerem isso (embora, como explicarei em breve, a visão bíblica é mesmo mais forte do que eles pensam).

Em segundo lugar, por afirmar uma visão libertária do livre-arbítrio, os Molinistas estão comprometidos com ideia de que se uma pessoa S escolhe livremente A em uma circunstância específica C, então deve ser possível para S não ter escolhido A. Pode ser mais provável (talvez até esmagadoramente assim) que S escolherá A sobre não-A, mas não deve ser possível para S ter escolhido de outra forma. (Aqui estou sem levar em conta a distinção que alguns libertários fazem entre escolhas derivativas e não-derivativamente livres. No que se segue, para simplificar, vou ignorar as escolhas derivativamente livres. Não penso que a distinção afete meu argumento).

Molinistas, então, estão comprometidos com o seguinte:

(1) Se S escolhe livremente A em C, então é possível para S não escolher A em C.

Ou, colocando a questão em termos de mundos possíveis:

(1’) Se S escolhe livremente A em C, então existe ao menos um mundo possível no qual S não escolhe A.

Observe que nessa demonstração, C aqui deveria ser entendido como, de fato, a história inteira do universo até o momento da escolha de S. O ponto é que a escolha de S não é determinada (ou, pelo menos causadamente determinada) por qualquer evento anterior ou estados do universo (incluindo o caráter de S, experiências passadas, memórias, crenças, desejos etc)

Em terceiro lugar, o Molinista afirma que Deus tem conhecimento médio, isto é, conhecimento dos contrafactuais da liberdade (por falta de um nome melhor). Deus, então, sabe, antes de sua decisão de criar um mundo particular, verdades condicionais subjuntivas como a que se segue:

 (2) Se S estivesse em C, S livremente escolheria A.

Este é o conhecimento, afirma o Molinista, que permite a Deus preordenar os eventos. Desde que Deus conhece o que cada possível criatura escolheria livremente em cada possível circunstância, consequentemente ele pode planejar. Ele pode saber de antemão como as coisas iriam se ele fosse para criar determinadas pessoas e arranjá-las para fazerem suas escolhas em circunstâncias particulares.

Isso significa que Deus não pode atualizar qualquer mundo possível. Molinistas como Craig farão distinção entre mundos possíveis e mundos factíveis.[2] Todos os mundos factíveis são mundos possíveis, mas nem todos os mundos possíveis são mundos factíveis. Um mundo factível é um mundo possível que Deus pode atualizar com base em seu conhecimento médio: seu conhecimento de verdades como (2). Ele pode “atualizar fracamente” qualquer desses mundos factíveis por “atualizar fortemente” aqueles elementos do mundo sob seu controle causal, a saber, cujas criaturas existem e em cujas circunstâncias elas se encontram. Por seu conhecimento médio, Deus conhece quais mundos possíveis são mundos factíveis, e ele decide (com base em certos critérios) quais dos mundos factíveis (fracamente) atualizar. E esta é a visão Molinista da divina preordenação.

Deveria ser observado que o Molinista não é sempre claro sobre o que conta como circunstâncias em verdades como (2). As circunstâncias incluem o decreto de Deus ou a presciência de Deus, por exemplo? Felizmente, nós não precisamos resolver essa questão aqui, tão logo reconheçamos isso, o que quer que esteja incluído em C em (2) também deve ser incluído em C em (1) e (1’)

[Addendum: Greg Welty assinalou o que eu coloquei acima. Vejam abaixo seus comentários e minhas respostas. Em suma, não importa como as circunstâncias são definidas, mas eu penso que o Molinista enfrenta sérios problemas de qualquer maneira]

Bem, tanto para o contexto, a questão que eu quero colocar é simplesmente esta:

Deus é infalível na visão Molinista?

Eu suspeito que muitos seriam inclinados a responder sim. Face a essa situação, esperaríamos Deus ser infalível. “Deus falível” dificilmente soa bem! Mais significantemente, a Bíblia ensina explicitamente que os planos de Deus não podem falhar. Os propósitos de Deus sempre serão cumpridos.

Então Jó respondeu ao Senhor, dizendo: ‘Eu sei que tu podes fazer todas as coisas, e que nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado.” (Jó 42.1, 2)

Muitos são os planos na mente de um homem, mas é o propósito do Senhor que prevalecerá.” (Prov. 19.21)

O SENHOR dos Exércitos jurou: Como pensei, assim se cumprirá; como determinei, assim acontecerá[...]O SENHOR dos Exércitos determinou isso! Quem o invalidará? A sua mão está estendida! Quem a fará recuar?.” (Is. 14.24, 27)

Lembrai-vos disso e considerai; trazei-o à memória, ó transgressores. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade: Que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim.  Sou eu que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; sou eu que digo: O meu conselho subsistirá, e realizarei toda a minha vontade,  chamando do oriente uma ave de rapina, e de uma nação distante, o homem do meu conselho; sim, eu disse e cumprirei essas coisas. Estabeleci esse propósito e também o executarei. (Is 46.8 – 11)

Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para lá, mas regam a terra e a fazem produzir e brotar, para que dê semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me agrada e cumprirá com êxito o propósito da sua missão.” (Is 55.10, 11)

Claro, o Molinista está familiarizado com esses textos. A forte visão da providência divina expressa na Escritura é uma das razões que favorece o Molinismo sobre outras posições que compartilham um compromisso com o livre-arbítrio libertário.

Todavia, deveria estar claro a partir o exposto acima que, de acordo com a posição Molinista existem mundos possíveis nos quais os planos de Deus falham. Porque o Molinista está comprometido em afirmar que, embora Deus conheça que S escolheria A em C, e ele não atualiza C porque ele planeja para S escolher A, não deixa de ser possível para S não escolher A em C (Craig claramente afirma este ponto várias vezes em sua conversa com Helm). Em outras palavras, existem mundos possíveis nos quais Deus atualiza C de modo que S escolherá A, mas S não escolhe A. Existem mundos possíveis nos quais o decreto eterno de Deus não acontecerá, porque agentes livre-libertários farão outra coisa do que ele tinha planejado.

A conclusão é esta: com base na posição Molinista existem alguns mundos possíveis nos quais Deus é falível. De fato, existem muitos, mas muitos de tais mundos. Qualquer mundo em que o plano de Deus falhe é um mundo no qual Deus é falível. Parece-me que esta conclusão é construída sobre o sistema molinista.

Então, o que um Molinista poderia dizer em sua resposta? Uma resposta seria a de dizer que Deus não é necessariamente infalível: ele não é infalível em todo mundo possível, mas ele é infalível neste mundo (pelo menos). Deus é contingentemente infalível.

Mas eu penso que existem diversos problemas sérios com esta resposta. Em primeiro lugar, a própria noção de “infalibilidade contingente” é logicamente suspeita. Diante disso, infalibilidade seria um conceito modal. Ela diz respeito à falha possível, não simplesmente a falha real. Infalível não significa não falível, e falível significa capaz de falhar. Se uma pessoa é falível, não o é porque ele tem falhado ou porque ele falhará mas porque ele poderia falhar. Afinal, não há nada logicamente inconsistente em dizer que S é falível, mas S não falhou (ou falharia) realmente. O que seria inconsistente de maneira direta seria dizer que S é falível, mas S não pode falhar.

Portanto, não poderíamos descrever alguém como infalível simplesmente porque ele realmente tem sucesso em todos os casos, mesmo que ele possa ter falhado em algum ponto. Infalibilidade, certamente, exige que alguém não pode falhar, mesmo em princípio. Então, não é claro que a noção de “infalibilidade contingente” é mesmo coerente.

Se eu estou certo sobre isso, então o Molinista não deveria dizer que Deus é infalível. Pois, se Deus não é infalível em todo mundo possível, então ele não é infalível em qualquer mundo possível, incluindo o mundo atual. (Eu observo, para registro, que este argumento pressupõe alguns princípios modais amplamente-controlados que eu não estou a defender aqui, precisamente porque eles são amplamente controlados!).

Em Segundo lugar, esses mundos com falhas-divinas apresentam um problema para o Molinista que está comprometido com o ser perfeito da teologia (que é maioria, penso). Se Deus é apenas contingentemente infalível, segue-se que Deus não possui máxima grandeza: pois um ser que é necessariamente infalível é maior que um ser que é contingentemente infalível. Um ser que é infalível em todos os mundos possíveis é maior que um ser que é infalível em apenas alguns mundos possíveis. (É digno de nota que Alvin Plantinga, que introduziu a noção de grandeza máxima em sua defesa do Argumento Ontológico, é um dos mais proeminentes advogados do Molinismo).

A única saída desta situação para o Molinista, tanto quanto eu posso ver, é tomar a rota que eu sugeri acima: abandonar a tese de que Deus é infalível (neste mundo ou em qualquer outro mundo possível).

Parece-me que de tudo isso expõe uma tensão não resolvida no coração do Molinismo. Quando fazemos a pergunta “Os humanos podem frustrar os planos de Deus?”, o Molinista é colocado em duas direções. Por um lado, ele desejará responder não. Afinal, Deus preordenou todas as coisas! Deus tem um decreto eterno. É inconcebível para o Molinista que o decreto de Deus fracassasse.

Mas, ao mesmo tempo, o Molinista também deve responder sim, por causa de seu comprometimento com o liver-arbítrio libertário. Ele quer afirmar (como Craig explicitamente o faz) que, embora S escolheria A em C (e, de fato, irá escolher A se Deus o decretou), e, no entanto, é possível para S não escolher A em C – e, assim, realmente é possível para S agir contrário aos planos de Deus.

Em suma, o Molinista quer ter o melhor de dois mundos.

Outro modo de ver o problema é perguntar se os mundos não-factíveis realmente são possíveis. Suponha que, de todos os mundos factíveis que ele considerou, Deus opte pelo mundo X. Não parece coerente imaginar Deus pensando: “Eu vou atualizar X um pouco (fracamente) – este é o meu decreto – mas eu sei que há uma possibilidade real de que vou terminar com outro mundo, por causa da possibilidade real que agentes livres-libertários agirão de outro modo que eu tenho planejado”. Mas, se isso não é coerente, em que sentido esses mundos são mundos realmente possíveis?

Como se percebe, essa tensão no centro do Molinismo surge porque ele ambiciona ser deterministicamente indeterminista. “Indeterminismo” por causa de seu compromisso com o livre-arbítrio libertário. “Determinista” porque o decreto de Deus, de alguma forma (não sabemos como) determina de antemão que suas criaturas farão certas escolhas. Isso pode não ser um determinismo causal, mas, apesar de tudo, é determinismo (como muitos Arminianos não-Molinistas, tais como Roger Olson, podem ver claramente). Se preordenar que S escolhe A não significa predeterminar que S escolha A, então o que significa?

O Molinismo é, certamente, uma teoria impressionante. Mas, é apenas impressionante na medida em que um truque de “jogo de copinhos e bolinha” é impressionante. É, par excellence, um truque de mão filosófico. Os Molinistas têm que ser hábeis na arte da desorientação. Agora você vê o determinismo.... e agora não vê mais!

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Notas: 
[1] Dr. James Anderson é um ministro ordenado na Associate Reformed Presbyterian Church. Dr. Anderson é professor no Reformed Theological Seminary. Especialista em Teologia Filosófica, Epistemologia da Religião e Apologética Cristã. Sua tese de doutorado, na Universidade de Edinburgh, explorou a natureza paradoxal de certas doutrinas cristãs e suas implicações para a racionalidade da fé cristã. Suas pesquisas e escritos concentram-se no pressuposicionalismo de Cornelius Van Til, particularmente sua defesa do Argumento Transcendental. Dr. Anderson tem uma antiga contribuição ao trazer a tradição Reformada em um maior diálogo com a filosofia analítica contemporânea. Ele é membro da Society of Christian Philosophers, da British Society for the Philosophy of Religion, e da Evangelical Philosophical Society.
[2] “possible world” e “feasible world”

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Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Por Rev. Gaspar de Souza
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O conhecimento que Deus tem das contingências: Conhecimento Médio

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Por John Frame


Entre o conhecimento necessário e o livre, alguns teólogos definem uma terceira categoria do conhecimento divino a que chamam conhecimento "médio". William Lane Craig distingue as três formas de conhecimento divino como segue:

1. Conhecimento natural: o conhecimento que Deus tem de todos os mundo possíveis. O conteúdo desse conhecimento é essencial para Deus.
2. Conhecimento médio: o conhecimento que Deus tem do que toda possível criatura livre faria em qualquer possível conjunto de circunstâncias e, daí, o conhecimento dos possíveis mundos possíveis que Deus pode tornar reais. O conteúdo desse conhecimento não é essencial para Deus...
3. Conhecimento livre: o conhecimento que Deus tem do mundo real. O conteúdo desse conhecimento não é essencial para Deus. [69]

Essas distinções foram criadas primeiramente pelo jesuíta espanhol Luis Molina (1535-1600), e foram adotadas por outros jesuítas, pelos socianos, pelos arminianos, por alguns luteranos e pelos calvinistas de Saumur, seguidores de Amiraldo. Os tomistas e a corrente principal dos reformados em geral têm rejeitado essa ideia. Em anos recentes, vários filósofos cristãos, entre eles Craig e Alvin Plantinga adotaram esse conceito. [70]

Dada a definição de Craig, é difícil ver, de início, por que os teólogos reformados fazem objeção a esse conceito. É certo que Deus sabe o que toda criatura livre fará ou faria em todas as circunstâncias possíveis.[71] Os exemplos bíblicos mais frequentemente citados são apropriados. Em 1 Samuel 23.7-13, Davi estava numa cidade chamada Queila, quando Saul chegou querendo mata-lo, Davi perguntou ao Senhor se, caso ele ficasse em Queila, os habitantes dali o entregariam a Saul. Deus respondeu que sim (v.12), e então Davi retirou-se daquela cidade. Nesse caso, Deus expressou seu conhecimento, não do que realmente aconteceria (pois os moradores de Queila nunca tiveram oportunidade de trair Davi), mas do que aconteceria em outras circunstâncias. Portanto, Deus sabia o que os habitantes daquela cidade fariam se as circunstâncias fossem diferente das que prevaleceram. Como os filósofos às vezes expressam, ele conhecia a verdade de um fato contrário condicional: Se Davi permanecesse ali, os habitantes de Queila o traíram.

A outra passagem frequentemente citada quanto a isso é Mateus 11.2-24. Nessa passagem, Jesus declara que, se os habitantes de Tiro, Sidom e Sodoma tivessem visto os milagres de Jesus, ter-se-iam arrependido.[72] De fato, eles não viram os milagres, e portanto, não tiveram oportunidade de arrepender-se. Mas Jesus sabia que eles teriam feito em outras circunstâncias. Vê-se, pois, que Jesus, nesse caso, expressou conhecimento de um fato contrário condicional.

É evidente que essas passagens não têm o propósito de defender pontos teológicos técnicos acerca do conhecimento eterno de Deus. Talvez não devamos insistir em interpretações precisamente literais. Mas, dando por aceitos os argumentos anteriores presentes neste livro, fica claro que Deus, governando todas as coisas pelo seu decreto eterno, sabe do que cada coisa é capaz e qual seria o resultado de qualquer alteração que se fizesse em seu plano.

Na verdade, na Escritura Deus fala muitas vezes do que aconteceria em condições diferentes das que realmente ocorrem. Deus diz repetidas vezes, de diferentes maneiras, que, se Israel fosse fiel, receberia todas as bênçãos de Deus na terra da promessa. Essa declaração é verdadeira; mas é fato contrário condicional. O certo é que Israel nunca demostrou essa fidelidade (exceto, é claro, na pessoa do remanescente, Jesus Cristo). Também é certo que, digamos, se Paulo não se arrependesse e não cresse, ele se perderia. Frequentemente a Escritura descreve a possibilidade contrária aos fatos a fim de manifestar a graça e a justiça de Deus. [73]

De um ponto de vista reformado, porém, é difícil ver por que esse tipo de conhecimento divino deva ser isolado como um terceiro tipo de conhecimento, ao lado do conhecimento necessário e livre. Observem que, na definição de Craig, o conhecimento necessário é um "conhecimento de todos os mundos possíveis que Deus pode vir a tornar reais". Qual a diferença entre esses tipos? Haverá mundos que são genuinamente possíveis, mas que Deus não pode tornar reais? Que é um "mundo possível", se não um mundo que Deus pode tornar real?

E por que não deveríamos incluir os possíveis atos de criaturas livres (na definição 2) como ingredientes dos possíveis mundos da definição 1? Quando Deus conhece mundos possíveis, não conhece ele também, em virtude desse conhecimento, todas as possíveis criaturas livres e seus possíveis atos? Assim, de um ponto de vista reformado, não há razão pela qual devamos considerar o conhecimento que Deus tem das contingências sob a categoria do conhecimento necessário.

Devemos, pois, rejeitar a afirmação de Craig de que esse conhecimento "não é essencial para Deus". Claro está que esse conhecimento trata de criaturas, e as criaturas não são necessárias para Deus. Mas trata com criaturas possíveis, não reais, e de seus atos em possíveis circunstâncias, não ato reais. Portanto, esse conhecimento não depende do decreto divino de criar um mundo real. Deus sabe quais criaturas e quais atos próprios da criatura são possíveis, simplesmente porque ele conhece a si mesmo. Ele sabe o que ele pode fazer. Deus conhece essas possibilidades simplesmente por conhecer a sua natureza. E o seu conhecimento de sua própria natureza é necessário.

Mas essa abordagem do conhecimento que Deus tem das contingências não foi satisfatória para Molina e para outros expoentes do conhecimento médio. Para entender a razão disso, devemos observar que o termo livre na definição 2 de Craig refere-se à liberdade libertária. E, na verdade, a maioria dos defensores do conhecimento médio como uma categoria teológica distinta tem sustentado ideias libertárias. A verdade é que muitos do entusiasmo deles pelo conhecimento médio deve-se ao fato de que ele fornece um vocabulário para falar do conhecimento que Deus tem dos atos próprios da criatura que são livres no sentido libertário.

Assim, se o libertarismo é verdadeiro, seguir-se-ia que o conhecimento médio seria de fato distinto do conhecimento necessário de Deus. Isso porque, segundo essa visão, Deus não conhece os possíveis atos livres das criaturas por meramente conhecer a si próprio. Desde que ele não causa os livres atos delas, não pode conhecer seus atos livres, ou seus possíveis atos livres, sem conhecer as cristuras propriamente ditas.

No capitulo 8, argumentei que o libertarismo é falso -  e até mesmo incoerente. Aqui devo acrescentar que o libertarismo introduz incoerência nessa discussão também. Para vermos isso, sigamos mais um pouco a argumentação de Craig:

Pelo seu conhecimento médio, Deus conhece todos os mundos possíveis que ele poderia criar e o que cada criatura livre faria em todas as várias circunstâncias desses mundos possíveis. Por exemplo, Deus sabe que Pedro, se ele existisse e fosse colocado em certa circunstância, negaria a Cristo três vezes. Por uma livre decisão de sua vontade, Deus então escolheu criar um desses mundos possíveis... Assim, Deus consegue saber os atos futuros livres com base no seu conhecimento médio e a sua vontade criativa. [74]

De acordo com a visão de Craig, Deus considera todos os mundos possíveis pelo seu conhecimento médio e, então, ele escolhe criar um deles. No mundo que ele escolhe criar, alguém chamado Pedro existe, e este, nessas circunstâncias criadas, negará Cristo três vezes. Observem que eu disse "negará", não "poderia negar" ou "talvez negasse". Uma vez que Deus cria um mundo (incluindo uma história do mundo), isso inclui a negação de Pedro, e essa negação é inevitável.


Sendo assim, que lugar há nesse cenário para a liberdade libertária? Uma vez que Pedro foi criado, sua negação é inevitável - é determinada, pode-se dizer. Craig, empregou o conceito do conhecimento médio a fim de sustentar a liberdade libertária junto com o conhecimento divino. Mas no momento da terrível decisão de Pedro, como se pode dizer que ele teve liberdade libertária? Antes, ele só pôde negar Jesus porque vivia num mundo no qual essa negação é um ingrediente. Deus determinou, antes de Pedro nascer, que ele trairia Jesus.

Craig não vê isso desse modo. Ele acredita que Deus decidiu criar este mundo baseado no seu conhecimento do que o criável Pedro escolheria livremente (no sentido libertário), e em seu conhecimento de outras criaturas criáveis neste mundo criável. Mas, como pode Pedro fazer uma livre escolha libertária quando faz parte de um mundo no qual os acontecimentos de sua vida, inclusive a sua negação de Jesus, foram decididos antes do seu nascimento?

Na verdade, quando Deus "escolheu criar um daqueles mundos possíveis", não estava preordenando tudo o que viria a suceder nesse mundo? Craig pode dizer que a escolha de Deus foi motivada pelo conhecimento que ele tinha das livres escolhas libertárias de Pedro, mas que a escolha de Deus propriamente dita limitou necessariamente as livres escolhas libertárias de Pedro, de modo que ele não tinha mais esse tipo de livre-arbítrio.

As livres escolhas libertárias, como vimos no capítulo 8, são escolhas com absolutamente nenhum empecilho. Os defensores do libertarismo frequentemente mostram que não entendem a diversidade que existe entre os tipos de liberdade, dependendo dos diferentes tipos de objetivos, habilidades e empecilhos. Eles tendem a pensar que as únicas alternativas são "algum empecilho" e "nenhum empecilho". Vê-se que Craig, aqui, não compreende que a criação de Deus de um mundo possível é de fato um empecilho às livres escolhas libertárias das criaturas. Se Deus escolheu criar um mundo de certa maneira, nenhuma criatura pode, depois, escolher fazer um mundo diferente. Pode haver outros empecilhos não presentes na situação de Pedro, mas a preordenação divina de um mundo em particular o impede de tomar quaisquer outras decisões que não as que ele toma.

Craig gostaria de acreditar que o conhecimento médio concilia a soberania divina com a liberdade libertária.[75] A verdade é que isso não acontece. Se a criação divina com base no conhecimento médio significa alguma coisa, significa que o libertarismo está excluído. Craig é incoerente ao afirmar tanto o libertarismo como o ato divino de concretizar um completo mundo possível, incluindo todas as escolhas feitas pelas criaturas.

Se abandonarmos o libertarismo, abandonaremos o sentido tradicional do conhecimento médio, e então, como eu disse anteriormente, não haverá razão para distinguir o conhecimento de Deus das contingências do seu necessário conhecimento de si mesmo. Contudo, continua sendo importante afirmarmos o conhecimento de Deus dos possíveis atos das criaturas possíveis e reais, e do que elas farão ou fariam em todas as circunstâncias. No capitulo 8, sugeri que esse conhecimento é, na verdade, parte da base racional da criação. Deus cria o mundo de acordo com seu plano eterno, mas esse plano pressupõe o seu conhecimento de mundo criáveis e possíveis e, realmente, o seu pré-conhecimento do mundo real. Deus preordena tudo o que vem a acontecer, mas ele não preordena na ignorância. Ele sabe e entende o que preordena e o que escolhe não preordenar. Portanto, a integridade das criaturas (cap.8) é parte integrante do plano de Deus desde o princípio.

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Notas:
[69] William Lane Craig. The only wise God (Grand Rapids: Baker, 1987), 131.
[70] Plantinga, The nature os necessity (Oxford: Clarendon Press, 1974), 169-80
[71]Heppe registra Gomarus, Walaeus, Crocius e Alsted como teólogos reformados que sustentavam o conhecimento médio nesse sentido. Ver RD [Reformed dogmatics] Ver também DG [The doctrine of God - Herman Bavinck], 192.
[72]Eles estão sendo comparados com os habitantes das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, que viram as obras realizadas por Jesus, e, todavia, não creram.
[73]Talvez seja possível inferir da Escritura o que teria acontecido com a humanidade, se Adão e Eva não tivessem caído em pecado; em decorrência disso, tem havido muitas discussões teológicas sobre esse fato condicional.
[74]Craig, The only wise God, 133
[75]Ibid., 133-138.

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Fonte: FRAME, John. A doutrina de Deus; São Paulo; Cultura Cristã, 2013. Págs. 381-384.
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Debate: Teologia Natural

Assista o debate realizado durante o 8º Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova, de 13 a 16 de Março de 2012 no Hotel Majestic em Águas de Lindoia - SP.

Tema geral do Congresso: Apologética contemporânea para um mundo de incertezas. Participação de William Laine Craig, Guilherme de Carvalho, Davi Charles Gomes e Jonas Madureira, com Fabiano Medeiros como interprete. 


Fonte: Dica do Jonas Madureira, via Facebook.
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Por que Deus não faz mais milagres de grandes proporções?

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Por Gabriel Brasileiro

“Se toda salvação é dependente da aceitação de Jesus então por que Deus age de maneira tão escondida hoje? Por que não realizar milagres 2000 anos depois? Abrir alguns mares ou fazer chover enxofre e fogo em algumas cidades, ou alguma carruagem de fogo no céu. Se nós precisamos a 2000 anos de evidências sobrenaturais para acreditar em coisas sobrenaturais, por que Deus está escondido hoje e nega essas provas sobrenaturais?”

Essa foi uma interessante e difícil pergunta feita ao Dr. William L. Craig, em seu debate contra o químico Peter Atkins, a alguns anos atrás. Todos nós em algum momento de nossas vidas fazemos para nós mesmos essa pergunta. A busca por uma resposta satisfatória na Sagrada Escritura pode nos deixar com mais dúvidas do que tínhamos anteriormente. Pois, a resposta que a Bíblia nos dá, não é geralmente a que queríamos.

Abaixo há uma explicação teológica e algumas argumentações filosóficas que tentam responder essa incômoda interrogação.

Explicação teológica:

 “Pois, quem conhece os pensamentos do homem, a não ser o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus.” (1Co 2:11)

A Sagradas Escritura deixa claro que da mesma forma que não conhecemos os pensamentos uns dos outros, nós não podemos saber os pensamento de Deus. Apenas, o próprio Deus conhece Seus próprios pensamentos. Se não podemos saber os sEus pensamentos, logo, nós nunca poderemos saber ao certo o motivo dEle não fazer milagres como antigamente.

"As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei.” (Dt 29:29)

O motivo de Deus ter se revelado a Moisés, o motivo de Deus ter escolhido Maria de Cristo ou motivo para Deus para Deus se revelara a Saulo [Paulo], não pertencem a nós. Pois, Deus não revelou isso aos homens. Esses motivos pertencem somente ao Altíssimo.

Da mesma, o razão de Deus não operar um grande milagre na atualidade é algo que Ele não nos conta em Sua revelação especial (Bíblia). Portanto, esse motivo não pertence a nós. Pertence somente ao próprio Deus. Logo, temos outra justificativa para crer que nunca saberemos ao certo o porquê dEle não fazer um milagre na atualidade.

“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.” (Mateus 5:48)

Jesus Cristo fala que nosso Pai é perfeito. Então, pela fé cremos que a vontade soberana de Deus é perfeita. Da mesma forma que a vontade de Deus em se revelar ao mundo na pessoa de Cristo foi perfeita, a vontade de Ele não realizar um milagre de grandes proporções atualmente, também é perfeita.

Visto a explicação acima é possível formular um argumento indutivo, partindo da Sagrada Escritura:

P1. Deus é perfeito.
P2. Portanto, os motivos de Deus são perfeitos.
P3. Deus tem um motivo para não realizar um milagre de grandes proporções atualmente.
3.1. Embora não saibamos esse motivo.
C1. Logo, o motivo pelo qual Deus não opera um milagre de grandes proporções atualmente é perfeito.

As premissas seguem-se logicamente, então a conclusão é logicamente coerente. Conclui-se que embora não saibamos as razões de Deus não realizar o fato em questão, pela fé cremos que suas razões são perfeitas.

Primeira argumentação filosófica:

Embora, desconheçamos os reais motivos de Deus, nós podemos deduzir possíveis motivos.

Deus por definição é o maior Ser concebível, que por sua vez seria conhecedor de todas as verdades [onisciente]. O Deus Bíblico se encaixa perfeitamente na definição filosófica de Deus. E biblicamente podemos saber que ele seria onisciente, como podemos ver em Salmo 147:5 [Grande é o nosso Soberano e tremendo é o seu poder; é impossível medir o seu entendimento]. Sendo ele conhecedor de todas as verdades e possíveis verdades, Ele saberia como a humanidade moderna reagiria presenciando um grande milagre. Mas, nós não sabemos. Provavelmente nem cressem que isso fosse um milagre, e sim um acontecimento natural desconhecido pela ciência. Então, um grande milagre atualmente, poderia acarretar em algo totalmente contrário as nossas expectativas.

Segunda argumentação filosófica:

Um milagre dessa forma poderia levar pessoas de outras religiões a crerem que foi obra de outros deuses, então a quantidade de heresias poderia aumentar, e isso obviamente seria um problema. Deus poderia operar esse milagre apenas na presença de cristãos. Porém, esses não teriam como provar que esse milagre aconteceu. E mesmo que filmassem ou tirassem fotos, não teriam como provar que essas provas são realmente verdadeiras e não uma fraude muito bem feita. E possivelmente muitas pessoas não acreditariam nisso [incluindo os próprios cristãos].

Seria possível um grupo de cristãos estarem presenciando um grandioso milagre nesse exato momento, mas não terem como o provar. E se por ventura tiverem, muito provavelmente serão acusados de fraude e serão chamados de mentirosos.

Terceira argumentação filosófica:

Ao longo da Sagrada Escritura vemos casos onde Deus realiza milagres para mostrar que era o verdadeiro Deus e que realmente existia. Provavelmente, Deus não faça grandiosos milagres atualmente, pois, o intelecto humano já atingiu a capacidade de saber que Deus existe sem a necessidade de uma intervenção sobrenatural do mesmo. E é bastante coerente pensar que uma argumentação em favor da existência de Deus hoje em dia seria mais eficaz do que um possível grandioso milagre. Pois, como foi dito anteriormente, as consequências podem ser contrárias a nossa expectativa.

Blaise Pascal dizia que Deus já tem dado provas suficientes àqueles que estão com o coração aberto para recebê-lo. Logo, aqueles que buscam a Deus o encontram sem a necessidade de presenciar algum evento sobrenatural feito por Deus.

Quarta argumentação filosófica:

Muitas vezes esquecemos a “simplicidade” que pode ser um grandioso milagre. O falecido astrônomo britânico Fred Hoyle calculou a probabilidade de simples proteínas de uma ameba surgirem por acaso. As chances foram de um contra 10^40000. Essas pequenas probabilidades encontradas levaram Hoyle a afirmar que a probabilidade da vida surgir espontaneamente é a mesma de uma furação passar por uma sucata e formar Boeing 747. A vida é algo matematicamente impossível de existir, porém de alguma forma estamos aqui. Se nos olharmos no espelho veremos um dos maiores milagres já feitos por Deus; nós. Por isso, não podemos esquecer que coisas habituais como o nascer do Sol e o nascimento de um ser, embora pareçam simples, são eventos enormemente “miraculosos”.

Embora nós não saibamos o real o motivo de Deus não fazer grandes realizações miraculosas atualmente, nós sabemos que podemos confiar em sua decisão. Pois, pela fé cremos que a vontade de Deus é perfeita e soberana. Isso é uma das coisas que Cristo nos ensina ao orar o Pai Nosso: confiar na vontade do Pai."Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu." (Mateus 6:10 )

Porém, por sermos imagem e semelhança de Deus, temos a capacidade de usar perfeitamente a lógica. Sendo essa um reflexo da mente de Deus. A partir disso podemos deduzir motivos, pelos quais Deus não faz mais milagres de grandes proporções, como podemos ver acima. Lembrem-se que essa nossa capacidade é um grande presente do Altíssimo, para que possamos entender seus atributos.

“O maior de todos os milagres precisou somente de duas coisas: um amor sobrenatural e uma cruz.” (Gabriel Brasileiro)

Artigo enviado por e-mail
Divulgação: Bereianos
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Qual o Argumento Moral para a existência de Deus?

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Por - Dr. William Lane Craig




Fonte: Revista Reformada
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Quem precisa de apologética?

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Por William Lane Craig



- Plenária com apologeta William Lane Craig gravada em março de 2012, em Águas de Lindóia, durante o 8º Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova 2012 realizado por Edições Vida Nova.

Fonte: Teologia Brasileira

Evidências da ressurreição de Cristo

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O apologeta William Lane Craig aponta três grandes evidências da ressurreição de Cristo[1].

Primeira evidência: o túmulo vazio. A história da ressurreição de Cristo não teria durado um minuto se o corpo de Jesus estivesse na tumba. Contudo, há grandes evidências que comprovam o fato de que o túmulo de Jesus ficou vazio.

Primeiro, a credibilidade da história do enterro de Jesus. Existe ênfase no Novo Testamento no sepultamento de Cristo. Paulo escreveu em 1Coríntios 15.3-5: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultados e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois ais Doze”. No período em que esse texto foi escrito, como as testemunhas de Jerusalém estavam vivas, elas poderiam desmentir Paulo afirmando que não houve sepultamento de Jesus. Contudo, isso não ocorreu. Além disso, não havia tempo suficiente para que uma lenda a respeito do sepultamento de Cristo tivesse surgido e sido aceita por todos. O próprio Paulo esteve por duas semanas em Jerusalém (Gl 1.18) e lá pode confirmar o fato de que todos sabiam que Jesus foi sepultado. Outro ponto importante é considerar a figura de José de Arimatéia. Nenhum acadêmico de nosso tempo afirma que José é uma invenção dos primeiros cristãos, sobretudo por se afirmar que ele era um membro do Sinédrio, fato que poderia ser facilmente desmentido. Além disso, até mesmo detalhes incidentais que os evangelhos fornecem sobre José corroboram sua existência histórica. As narrativas afirmam que ele era rico (o que justifica o tipo de túmulo) e que ele era de Arimatéia (um lugar sem nenhuma importância e simbolismo na Bíblia).

Segundo, o túmulo vazio foi descoberto por mulheres. Dado o relativo baixo status que as mulheres ocupavam na sociedade judaica e sua pequena qualificação para servir como testemunha legal, é surpreendente o fato de que foram mulheres que descobriram o túmulo vazio. Se, de fato, não fossem mulheres que tivessem descoberto o túmulo vazio, por que a igreja afirmaria isso e humilharia seus líderes afirmando que esses permaneceram escondidos em Jerusalém como covardes? Além disso, os nomes das mulheres citadas eram conhecidos por toda a igreja primitiva e seria muito fácil desmenti-las caso elas não tivesses visto o túmulo vazio primeiro.

Terceiro, a investigação que Pedro e João fizeram do túmulo vazio é historicamente provável. A visita dos discípulos à tumba vazia é extremamente plausível porque eles estavam em Jerusalém.

Quarto, seria impossível para os discípulos anunciarem a ressurreição em Jerusalém se a tumba não estivesse vazia. O túmulo vazio é a condição sine qua non do anúncio da ressurreição de Cristo. A pregação dos discípulos não duraria um minuto se o corpo de Jesus estivesse sepultado.

Quinto, os próprios opositores do cristianismo não negaram o fato do túmulo vazio. Os judeus opositores à fé cristã em nenhum momento negaram que o túmulo estivesse vazio, pelo contrário, acusaram os discípulos de terem roubado o corpo de Jesus. Essa é uma evidência muito persuasiva de que o túmulo estava vazio.

Sexto, o fato de que o túmulo de Jesus não foi venerado indica que ele estava vazio. Os judeus veneravam e preservavam os túmulos dos profetas e homens santos. Essa veneração era aspecto importante na religião judaica. Contudo não existe o mínimo vestígio de que o túmulo de Jesus foi venerado. A razão para isso é que ele estava vazio.

Somadas, essas evidências são um forte argumento para comprovar o história de que o túmulo de Jesus estava vazio.

Segunda evidência: as aparições de Jesus ressuscitado.  Há grande comprovação histórica de que Jesus foi visto depois de morto por várias pessoas. Em 1Coríntios 15.3-5 Paulo afirma que Jesus apareceu a Pedro e aos demais discípulos, e prossegue dizendo: “Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos; depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo” (1Co 15.6-8). Essas informações de Paulo foram escritas muito próximas aos eventos e, por isso, não podem ser lendas. A maioria das quinhentas pessoas que viram Jesus ressurreto poderia ser questionada para comprovar a história.

Terceira evidência: a origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Por que os discípulos acreditariam que Jesus ressuscitou se de fato ele não tivesse ressuscitado? Não há explicação satisfatória para essa pergunta a não ser admitir que Jesus realmente ressuscitou dentre os mortos. È importante notar que os judeus acreditavam na ressurreição, como comprovam os textos de Isaías 26.19, Ezequiel 37 e Daniel 12.2. Contudo, eles acreditavam que a ressurreição seria no fim do mundo e não no meio da história, e também que a ressurreição seria para todas as pessoas e não para um indivíduo isolado. Portanto, os discípulos de Jesus só poderiam crer na ressurreição de Jesus e morrer afirmando que o viram depois da morte, se verdadeiramente Jesus tivesse ressuscitado e aparecido para eles. É um contra-senso afirmar que alguém morre por algo que sabe ser uma mentira.


[1] CRAIG, Willian L. Did Jesus rise from the death? In: WILKINS, Michael J.; MORELAND, J.P. Jesus under fire. Grand Rapids, Michigan: Zodervan, 1995, p.141-176

Fonte: [ NAPEC ]
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O propósito principal da vida não é a felicidade, mas o conhecimento de Deus!

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Primeiramente, o propósito principal da vida não é a felicidade, mas o conhecimento de Deus. A razão pela qual o problema do mal parece tão intratável é que as pessoas tendem naturalmente a presumir que, se Deus existe, então seu propósito para a vida humana é a felicidade neste mundo.

O papel de Deus é fornecer um ambiente confortável para seus bichinhos de estimação humanos. Contudo, isso é falso na visão cristã. Não somos bichinhos de estimação de Deus, e o objetivo da vida humana não é a felicidade per se, mas o conhecimento de Deus - , que, no final, trará a verdadeira e duradoura satisfação humana.

Muitos males ocorrem na vida que podem parecer totalmente sem sentido com respeito ao objetivo de produzir a felicidade humana; mas eles têm sentido ao produzir um conhecimento mais profundo de Deus. O sofrimento de humanos inocentes nos dá ocasião para a confiança mais profunda e dependência de Deus, tanto por parte do sofredor quanto dos que estão a seu redor. Naturalmente, se o propósito de Deus é alcançado por meio de nossos sofrimentos dependerá de nossa resposta.


Responderemos com ira e amargura para com Deus ou nos voltaremos para ele com fé em busca de força para suportar?

Texto extraído: Filosofia e Cosmovisão Cristã
J. P. Moreland & William Lane Craig - Vida Nova, pg. 661
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A Matança dos cananitas

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Por William Lane Craig

Questão 1:

Nos fóruns, tem havido muitas boas questões levantadas acerca do assunto da ordem de Deus para os judeus cometerem “genocídio” às pessoas da terra prometida. Como você tem colocado em alguns de seus trabalhos escritos que estes atos não se ajustam com o conceito ocidental de Deus sendo um doce papai no céu. Agora nós certamente podemos encontrar justificativas para aquelas pessoas ficarem debaixo do julgamento de Deus por causa dos seus pecados, idolatria, sacrifício de suas crianças, etc. Mas uma difícil questão é a matança de crianças e bebês. Se as crianças são jovens o suficiente juntamente com os bebês são inocentes dos pecados que a sua comunidade tinha cometido. Como nós reconciliaremos esta ordem de Deus para matar as crianças com o conceito de Sua Santidade? – Obrigado, Steven Shea.

Questão 2:

Eu tenho ouvido você justificar a violência do AT com a base de que Deus usou o exército Israelita para julgar os cananitas e a eliminação deles pelos israelitas é moralmente correta por que eles estavam obedecendo a uma ordem de Deus (devia ser errado se eles não tivessem obedecido a Deus na ordem de eliminar os cananitas). Isto se assemelha um pouco em como os Muçulmanos definem moralidade e justificam a violência de Maomé e outras questões morais questionáveis (os muçulmanos definem moralidade como o cumprimento da vontade de Deus). Você pode ver alguma diferença entre a sua justificativa da violência no AT e a justificação islâmica de Maomé e os versículos violentos do Alcorão? São a violência e as ações questionáveis de moralidade e os versículos do Alcorão bons argumentos ao falar com os muçulmanos? - Anônimo

Dr. Craig responde:

De acordo com o Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento), quando Deus tirou seu povo da escravidão do Egito e os fez voltar para a terra dos seus antepassados, Ele os direcionou para matar todo o povo cananita que estavam vivendo na terra (Dt. 7:1-2; 20:16-18). A destruição seria completa: cada homem, mulher e criança seriam mortos. O livro de Josué conta a história dos israelitas levando a cabo a ordem de Deus cidade após cidade do começo ao fim de Canaã.

Esta história ofende nossa sensibilidade moral. Ironicamente, contudo, nossa sensibilidade moral no Ocidente foi basicamente, e para muitas pessoas inconscientemente, formada por nossa herança judaico-cristã, a qual nos ensinou os valores intrínsecos dos seres humanos, a importância da conduta justa mais que caprichosamente, e a necessidade da adequada punição para o crime. A Bíblia mesma inculca os valores os quais estas histórias parecem violar.

A ordem para matar as pessoas cananitas está discordante precisamente porque ela parece tão em desacordo com o retrato de Javé, o Deus de Israel, como Ele é pintado nas Escrituras Hebraicas. Contrariamente à retórica vituperante de alguns como Richard Dawkins, o Deus das Escrituras hebraicas é um Deus de justiça, que sofre e de compaixão.

Você não pode ler os profetas do Antigo Testamento sem um senso de profundo cuidado de Deus pelos pobres, oprimidos, humilhados, órfãos e outros. Deus demanda justas leis e justas regras. Ele literalmente suplica às pessoas que se arrependam de seus caminhos errados que Ele poderia não julgá-los. “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva” (Ez. 33:11).

Ele enviou um profeta até mesmo para a cidade pagã de Nínive por causa da Sua compaixão pelos habitantes, “homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda” (Jn 4:11). O próprio Pentateuco contém os 10 mandamentos, um dos maiores códigos morais da antiguidade, os quais moldaram a sociedade ocidental. Até mesmo o severo “olho por olho, dente por dente” não foi uma descrição de vingança, mas uma verificação na punição excessiva para cada crime, servindo para moderar a violência.

O julgamento de Deus é qualquer coisa, menos caprichoso. Quando o Senhor anunciou de julgar Sodoma e Gomorra pelos seus pecados, Abraão corajosamente perguntou,

E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? (Gn 18:25).

Tal como o negociante do Oriente Médio pechincha em uma barganha, Abraão continuadamente diminuiu o preço, e a cada vez Deus se comprometeu, sem nenhuma hesitação, garantindo a Abraão que se houvesse até mesmo 10 pessoas corretas na cidade, Ele não a destruiria por causa deles.

Então o que é que Javé está fazendo comandando o exército judeu para exterminar o povo cananita? É precisamente porque nós esperamos que Javé agisse justamente e com compaixão que nós achamos estas histórias tão difíceis de compreender. Como pode Ele comandar soldados para matar crianças?

Agora, antes de tentar dizer algo em forma de responda para esta difícil questão, nós devemos por bem primeiramente parar e perguntar a nós mesmos o que está em jogo aqui. Suponha que nós concordemos que se Deus (que é perfeitamente bom) existe, Ele não poderia ter emitido semelhante ordem. O que se segue? Que Jesus não ressuscitou dos mortos? Que Deus não existe? Dificilmente! Então qual é o suposto problema?

Eu tenho freqüentemente ouvido populares levantarem esta ordem como uma refutação do argumento moral para a existência de Deus. Mas eles estão obviamente enganados. A afirmação de que Deus não pode ter emitido tal ordem não falsifica ou diminui qualquer das duas premissas no argumento moral que eu defendo:

  1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem;

  2. Valores morais objetivos existem;

  3. Então, Deus existe.

De fato, à medida que os ateus pensam que Deus fez algo moralmente errado na ordenação do extermínio dos cananitas, eles afirmam a premissa (2). Então, qual é o suposto problema?

O problema, parece-me, é que se Deus não emitiu tal ordem, então a história bíblica deve ser falsa. Qualquer um dos incidentes nunca realmente aconteceu, mas é apenas folclore israelita; ou senão, se elas aconteceram então Israel, cheio de um completo fervor nacionalista, pensando que Deus estivesse do lado dele, afirmou que Deus os comandou para cometer estas atrocidades, quando de fato Ele não os comandou. Em outras palavras, este problema realmente é uma objeção à inerrância bíblica.

De fato, ironicamente, muitos críticos do Antigo Testamento são céticos que os eventos da conquista de Canaã ocorreram. Eles tomam estas histórias como parte da lenda da fundação de Israel, de forma semelhante ao mito de Rômulo e Remo e a fundação de Roma. Para tais críticos o problema das ordenações de Deus desaparece.

Agora vamos colocar esta ordem em uma perspectiva totalmente diferente! A questão da inerrância bíblica é importante, mas não é como a existência de Deus ou a deidade de Cristo! Se os cristãos não podem encontrar uma boa resposta para a questão antes de nós e estão, além disso, convencidos que tal comando é inconsistente com a natureza de Deus, então nós teremos que desistir da inerrância bíblica. Mas nós não devemos deixar um descrente levantar esta questão enganando-se pensando que ele implica mais do que ele realmente faz.

Eu penso que um bom começo para este problema é enunciar nossa teoria ética que fundamenta nossos julgamentos morais. De acordo com a versão do mandamento divino ético que eu defendo, nossas obrigações morais são constituídas pelos mandamentos de um santo e amoroso Deus. Uma vez que Deus não emite ordens a si mesmo, Ele não tem obrigações morais para cumprir. Ele certamente não esta sujeito às mesmas obrigações e proibições a que nós estamos. Por exemplo, eu não tenho nenhum direito de tirar a vida de um inocente. Para mim, fazer isto me tornaria um assassino. Mas Deus não tem tal proibição. Ele pode dar e tirar a vida como Ele decidir. Nós todos reconhecemos isto quando censuramos alguma autoridade que presume tirar vidas como “brincar de Deus”. Autoridades humanas arrogam a si mesmas direitos os quais cabem somente a Deus. Deus não está sob qualquer obrigação para estender minha vida por mais um segundo. Se Ele quiser me desferir a morte agora, esta é Sua prerrogativa.

O que isto implica é que Deus tem o direito de tomar as vidas dos cananitas quando Ele achar melhor. Quanto tempo eles vivem e quando eles morrem é decisão Dele.

Então o problema não é que Deus terminou com a vida dos cananitas. O problema é que Deus mandou os exércitos israelenses acabarem com elas. Não é como mandar alguém cometer assassinato? Não, não é. Antes, uma vez que nossas obrigações morais são determinadas pelos mandamentos de Deus, Ele está mandando fazer algo que, na ausência da ordem divina, poderia ser assassinato. O ato era moralmente obrigatório para os soldados israelitas em virtude do mandamento divino, ainda que, tivessem eles o tratado em sua própria iniciativa, eles estivessem errados.

Na teoria do mandamento divino, então, Deus tem o direito de ordenar uma ação, a qual, ausente de um mandamento divino, seria pecado, mas a qual é moralmente obrigatória em virtude deste mandamento.

Muito bem; mas tal ordem não é contrária à natureza de Deus? Vamos olhar este caso mais de perto. É talvez significativo que a história da destruição de Sodoma por Javé – juntamente com Suas sérias garantias a Abraão que se houvessem tantas quanto até mesmo 10 pessoas retas em Sodoma, a cidade não seria destruída – dá forma a parte do fundo para a conquista de Canaã e ao mandamento de Javé de destruir as cidades lá. A implicação é que os cananitas não são pessoas retas, mas estão sob o julgamento de Deus.

De fato, antes da escravidão no Egito, Deus falou a Abraão,

Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos... e a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.” (Gn. 15:13,16)

Pense nisto! Deus suspende seu julgamento aos cananitas por 400 anos porque sua perversidade ainda não tinha atingido o ponto de intolerabilidade! Este é o Deus que suporta a dor que nós conhecemos das Escrituras hebraicas. Ele até mesmo permite que Seu povo escolhido definhe na escravidão por 4 séculos antes de determinar que o povo cananita esteja pronto para o julgamento e tirar o Seu povo do Egito.

No tempo de sua destruição, a cultura cananita era, de fato, devassa e cruel, abraçando práticas tais como prostituição cultual e até mesmo sacrifício de crianças. Os cananitas estão para ser destruídos “Para que não vos ensinem a fazer conforme a todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, e pequeis contra o SENHOR vosso Deus.” (Dt 20:18). Deus tinha razões moralmente suficientes para Seu julgamento sobre Canaã, e Israel era meramente o instrumento da Sua justiça, da mesma fora que centenas de anos depois Deus usaria as nações pagãs da Assíria e Babilônia para julgar Israel.

Mas tirar a vida de crianças inocentes? A terrível totalidade da destruição foi incontestavelmente à proibição da assimilação de nações pagãs. No ordenamento da destruição completa dos cananitas, o Senhor falou: “Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria.” (Dt 7:3-4). Este mandamento é parte e parcela de toda a estrutura da complexa e característica lei judia de práticas puras e impuras. Para a contemporânea mente ocidental muitas das regras da lei do Antigo Testamento parecem absolutamente bizarras e sem sentido: não misturar linho com lã, não usar os mesmos recipientes para carnes e laticínios, etc. O impulso que sobrepujava estas regras é a proibição de vários tipos de mistura. Linhas claras de distinção são esboçadas: isto e não aquilo. Isto serviu como um tangível e diário lembrete que Israel é um conjunto especial de pessoas separado para Deus.

Eu falei uma vez com um missionário indiano que me contou que a mente oriental tem uma tendência inveterada com respeito à amalgamação (fusão). Ele falou que os Hindus ouvem o evangelho sorrindo e dizem “Sub ehki eh, sahib, sub ehki eh!” (Tudo é Um, sahib, Tudo é Um!). Faz quase o impossível para alcançá-los por causa até mesmo das contradições lógicas incluídas no todo. Ele disse que ele pensa que a razão de que Deus deu a Israel tantas ordens arbitrárias sobre pureza e impureza era para ensiná-los a Lei da Contradição!

Por definição em tal grau forte, severa dicotomia Deus ensinou Israel que qualquer assimilação com a idolatria pagã era intolerável. Era Sua forma de preservar a saúde e posteridade espiritual de Israel. A matança das crianças cananitas não apenas serviu para prevenir uma assimilação da identidade cananita, mas também serviu como uma ilustração tangível e detalhada da separação de Israel como um povo exclusivo de Deus.

Além do mais, se nós acreditarmos, como eu acredito, que a graça de Deus é estendida para aqueles que morreram na infância ou como pequenas crianças, a morte destas crianças era verdadeiramente sua salvação. Nós somos tão apegados à perspectiva naturalista terrena, que nós esquecemos que aqueles que morrem estão felizes por deixar esta terra pela alegria incomparável do paraíso. Então, Deus não faz nada errado ao tomar suas vidas.

Então o que Deus faz de errado ao comandar a destruição dos cananitas? Não os cananitas adultos, porque eles eram corruptos e mereciam o julgamento. Não as crianças, porque eles herdaram a vida eterna. Então quem é o transgressor? Ironicamente, eu penso que a maior dificuldade de todo este debate é o aparente erro que os soldados israelenses fizeram a si mesmos. Você pode imaginar que seria como ter que invadir uma casa e matar uma mulher aterrorizada e seus filhos? O efeito brutal nestes soldados israelenses são perturbadores.

Mas então, novamente, nós estamos pensando de um ponto de vista ocidental cristianizado. Para as pessoas do mundo antigo, a vida já era brutal. Violência e guerra eram fatos da vida na vivência das pessoas no oriente antigo. Evidências deste fato é que as pessoas que contam estas histórias aparentemente não pensam nada do que os soldados israelenses estavam ordenados a fazer (especialmente se estas são lendas da fundação de uma nação). Ninguém estava com peso na consciência pelos soldados terem matado os cananitas; aqueles que o fizeram se tornaram heróis nacionais.

Além do mais, meu ponto acima retorna. Nada podia ilustrar para os israelitas a seriedade de sua chamada como povo escolhido de Deus somente. Javé não estava brincando com eles. Ele estava falando sério, e se Israel apostatasse, a mesma coisa aconteceria com eles. Como C. S. Lewis colocou, “Aslan não é um leão manso”.

Agora, como relacionar tudo isto a Jihad Islâmica? O islamismo vê a violência como um meio para propagar a fé muçulmana. O Islamismo divide o mundo em duas partes: a dar al-Islam (Casa da Submissão) e a dar al-harb (Casa da Guerra). A primeira são aquelas terras as quais têm sido adquiridas em submissão ao Islamismo; a última são aquelas nações que ainda não se submeteram. Assim é como o Islamismo verdadeiramente vê o mundo!

Em contraste, a conquista de Canaã representa o justo julgamento de Deus sobre aquelas pessoas. O propósito não era fazê-los se converterem ao judaísmo! A guerra não foi usado como um instrumento de propagação da fé judaica. Além do mais, o extermínio dos cananitas representou uma circunstância histórica incomum, não uma habitual forma de comportamento.

O problema com o Islamismo, então, não é que ele tem a teoria moral errada; é que ele tem o Deus errado. Se os muçulmanos pensam que nossas obrigações morais são constituídas de mandamentos de Deus, então eu concordo com eles. Mas os muçulmanos e os cristãos diferem radicalmente sobre a natureza de Deus. Os cristãos crêem que Deus é um Deus amoroso, enquanto os muçulmanos acreditam que Deus ama somente os muçulmanos. Alá não tem amor pelos incrédulos e pecadores. Então, eles podem ser mortos indiscriminadamente. Além do mais, no Islamismo, a onipotência de Deus supera tudo, inclusive sua própria natureza. Ele é então absolutamente arbitrário na sua conduta com a humanidade. Em contraste, os cristãos sustentam que a natureza santa e amorosa de Deus determina seus mandamentos.

A questão não é, então, de qual a teoria moral está correta, mas qual é o verdadeiro Deus?

Traduzido e adaptado por Leandro Teixeira.