O Que Podemos Aprender com a Teologia da Aliança?

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Ao estudar as alianças bíblicas podemos nos enveredar pelos caminhos da história de Israel ou dos elementos escatológicos por trás das profecias. Esses dois pontos explicam o contexto das alianças e sua finalidade, mas não esgotam o tema. Estudar a teologia da aliança é estudar o relacionamento de Deus com seu povo; como o soberano Criador se comunica e quais são os seus planos para os seus filhos. A doutrina do pacto é um dos tesouros da teologia reformada, por isso vou tratar daquilo que podemos aprender com a teologia da aliança. Este será o primeiro passo de nossos estudos.

Aprendemos o que é de fato uma aliança

A grande narrativa bíblica nos diz sobre como Deus criou um povo para si, o redimiu da morte e estabeleceu um reino para que pudesse habitar no meio desse povo. Como podemos ter clareza disso ao ler a Bíblia? A teologia da aliança é a resposta. Deus fez uma aliança, um pacto, com aqueles que elegeu para si. Esse tratado permeia todo o cânon e nos faz refletir sobre a natureza do Senhor e a maneira como ele se revela.

Deus no tempo

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No Natal, nós celebramos algo maravilhoso: Deus adentrando em nosso tempo e espaço. O eterno torna-se temporal; o infinito, finito; a Palavra que criou todas as coisas tornou-se carne.

Encarnação 

Oh, quão misterioso é tudo isto! Aquele que sabe todas as coisas (João 16:30, 21:17) “cresceu em sabedoria” (Lucas 2:52). O Autossuficiente teve fome e sede (Mt. 4:2, João 19:28).  O Criador de tudo não tinha casa (Mt. 8:20). O Senhor da vida padeceu e morreu. Deus encarnado foi desamparado por Deus Pai (Mt. 27:46).

A Trindade, a Criação e os “Pais e Mães de Pets”

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Tem se tornado cada vez mais comum encontrarmos proprietários de animais de estimação, como cães, gatos e pássaros, que denominam o seu relacionamento com os seus “pets” como “pais e filhos”. São homens e mulheres que se declaram “pais” e “mães de pets”, que tiram fotos com os seus animais e nas legendas escrevem frases como: “Uma selfie com a mamãe” ou “Primeira foto com a filha”. Além disso, sobrenomes de famílias são atribuídos aos animais, festas de aniversário são organizadas, decorações dispendiosas são utilizadas e até mesmo funerais, com a família em torno do caixão do animal são situações cada vez mais comuns. Toda a rotina da pessoa ou do casal é alterada, de modo a incluir o animal em todas as ocasiões. Até mesmo datas comemorativas, como o dia das mães e dos pais, são modificadas para contemplar os “pais e mães de pets”.¹

Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação

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INTRODUÇÃO

Creio no Espírito Santo”.

O Espírito Santo vem sendo mal compreendido em inúmeros arraiais evangélicos, tanto a sua pessoa como a sua atuação se resumem a demonstração de um mover que não encontra base na Escritura Sagrada. Enquanto que outros setores do evangelicalismo parecem ignorar a atuação do Espírito em nossos dias.

Para evitar este desequilíbrio, precisamos mergulhar nas páginas da Bíblia para dela tirar um conceito legítimo sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. É bem verdade que no Antigo Testamento, ao fazermos uma leitura superficial, parece que nada há em seu conteúdo que nos mostre o Espírito em ação. Mas, ao fazer um estudo mais apurado, veremos que Ele se revela desde o relato da criação. Afinal, é o próprio Espírito de Deus que conduz o processo de escrituração, e graças a Ele temos em mãos o livro sagrado. Assim sendo, difícil seria se Ele não revelasse a si mesmo.

O objetivo deste texto é fazer com que entendamos que o Espírito é Deus, sendo um componente da Santíssima Trindade. E também veremos a sua atuação por todo registro da Escritura.

O ESPÍRITO NO ANTIGO TESTAMENTO

Percorrendo o Antigo e o Novo Testamento, o conteúdo traz luz sobre a atuação daquele que é comumente chamado na teologia de a “terceira pessoa da Trindade”, pois, muitos estão apenas familiarizados com os outros dois componentes da Santa Tríade que são Deus-Pai e Jesus Cristo, Deus-Filho. No início da revelação, o termo hebraico ruach é usado para designar o Espírito Santo no Antigo Testamento. Energia e poder ativo seriam as palavras que melhor se aproximam da ideia concernente a ruach. A conotação do termo não enfatiza a imaterialidade, mas sim a presença poderosa do Espírito que ao descer sobre os indivíduos faz com que os mesmos adquiram uma energia não natural, isto é, sobrenatural (Jz 14.6). A primeira aparição do termo está em Gênesis 1.2. Em outras 107 ocorrências, ruach vai se referir à atividade de Deus (Elohim) no mundo. Só que há um erro frequente de achar que o Espírito Santo é apenas uma energia. A ideia que ruach traz consigo é a de Deus envolvendo-se pessoalmente com a sua criação, por isso que as Escrituras tratam o Espírito como um agente criador, presente em toda a etapa da construção do cosmos. Isso coloca o Espírito Santo ao lado dos demais componentes da Trindade realizando a obra de criar o mundo ex nihilo, dando sentido assim a expressão que se encontra no plural em Gênesis 1.26: “façamos”.

O Espírito de Deus é responsável por dar ordem a matéria criada, tal como ele foi o sustentador do povo escolhido, isto é, Israel, lhes concedendo leis justas e um governo para que seu povo não emergisse no caos. Moisés, Josué e outros líderes tinham o Espírito do SENHOR (Nm 11.16-17 e 27.18). Também foi de sua incumbência conceder dons artísticos aos homens (Ex 31.2-6). Ele é o Espírito da ordem e da beleza. Além de criador, o Santo Espírito também é recriador, pois, Ele atua no homem caído, regenerando-o e dando-lhe um norteamento moral, isto é, santificador. Ele é quem aplica a salvação pela graça no coração do homem. Como está escrito em Ezequiel 11.19-20: "E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne; Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus".

O ESPÍRITO NO NOVO TESTAMENTO

Em todo o Antigo Testamento a atuação distinta do Espírito não ficou muito clara para o povo de Israel. Toda ação divina era atribuída a Adonai, o SENHOR. Embora Ele tenha atuado intensamente, inclusive na inspiração dos autores que formariam o cânon bíblico, é apenas no Novo Testamento que o povo eleito passa a ter informações mais precisas acerca do seu ser e de sua obra. Na revelação neotestamentária, o Espírito é o parakletos, apresentado pelo próprio Cristo (Jo 14.16). Ele seria a testemunha em prol de Jesus. Testemunha melhor não há, uma vez que o Espírito se fez presente em todo o momento do ministério messiânico. Da concepção até a morte na Cruz, o Espírito Santo testificou que aquele homem vindo de Nazaré era o Filho de Deus prometido em todo o Antigo Testamento - desde Gênesis 3.15.

Já no momento da chegada do Cristo ao mundo, Maria concebeu virgem, milagrosamente, pela obra do Espírito. A presença do Espírito Santo neste momento é de suma importância para referendar a profecia de que a glória de Deus no segundo templo seria maior (Ag 2.7-9). A glória do antigo templo era o próprio Espírito Santo - a fumaça que envolvia o sumo-sacerdote no lugar Santíssimo. Quando Cristo nasce dessa concepção sobrenatural realizada pelo Espírito, a glória maior profetizada por Ageu se cumpre. Além disso, o Espírito teve como função preservar a santidade do Deus que se encarnava, sustentando a sua impecabilidade.

No Batismo (Mt 3.16-17), a voz audível do Pai e o Espírito Santo em sua aparição na forma de uma pomba selam o início do ministério de Jesus, endossando-o como um profeta enviado pelo próprio Deus para apregoar as boas novas (Lc 4.18). Após ser batizado, Cristo é levado pelo Espírito a ser tentado no deserto por Satanás (Lc 4.1). Diferente de Adão, Jesus resiste e derrota o diabo, confirmando-o como o segundo Adão, capaz de redimir a humanidade caída. Foi o Espírito Santo quem preservou Jesus nos momentos de aflição antes da sua morte terrível para expiar os pecados. Ele conduziu o Cristo até a cruz, mesmo quando Satanás tentou de várias maneiras fazer com que Jesus não a encontrasse. E embora a ressurreição e ascensão sejam obras atribuídas ao Pai, podemos afirmar que existe a atuação poderosa e efetiva do Santo Espírito também nestas coisas, pois, é em Seu poder ativo que os milagres acontecem.

O ESPÍRITO E O POVO DO LIVRO

A Igreja é capacitada pelo Espírito para apregoar o Evangelho. Jesus é quem diz isso antes de subir aos céus (1.8). E em pentecostes (Atos 2), vemos que a Igreja que era um grupo de centenas, passa a ter três mil pessoas inclusas após o Espírito Santo descer sobre o seus. É a era da plenitude do Espírito. O apóstolo Paulo fala claramente que o Evangelho é a pregação resultante do poder do Santo Espírito (1 Ts 1.5), e o Parakletos mata o velho homem e faz com que o mesmo viva agora em novidade de vida. As Escrituras atestam que é Ele quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), fazendo com que o mesmo vá até Cristo para salvar-se do inferno.

Ademais, aquilo que foi registrado no Novo Testamento são Palavras do próprio Espírito Santo, trazendo a revelação messiânica a todos os povos. Ele que lembraria aos escritores do NT as palavras de Jesus e ensinaria também o que haveriam de escrever (Jo 14.26). Para a Teologia isto é chamado de doutrina da inspiração. Pedro e Paulo  atestam a inspiração de toda a Escritura em suas cartas (1Tm 3.16 e 1Pd 1.21). Por isso não há fonte mais apropriada do que a Bíblia para conhecermos o Espírito Santo, o Pai e o Filho, que formam a Santíssima Trindade, a divindade cristã.

O povo de Deus, isto é, a igreja, pode ser chamada de “povo do Livro”, pois é na Escritura que baseiam o seu estilo de vida. Cabe ao Espírito ajuntar este rebanho do SENHOR e fazê-los santos a partir do entendimento e da aplicação do conteúdo bíblico. Conteúdo que, como já foi dito, é inspirado - e neste processo de inspiração – o Espírito Santo conduziu os escritores canônicos a não cometerem nenhum erro na redação da palavra revelada.

Quanto a isso, vejamos o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 1, artigo V:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.
I Tim. 3:15; I João 2:20,27; João 16:13-14; I Cor. 2:10-12.

CONCLUSÃO

Para sermos computados como cristãos, é necessário crer que o Espírito Santo é Deus. É uma pessoa, com atributos eternos e imutáveis. Assim diz o Credo de Atanásio:

O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. (...) Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus. Portanto o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. Contudo, não há três Senhores, mas um só Senhor. Porque, assim como compelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa separadamente como Deus e Senhor; assim também somos proibidos pela religião universal de dizer que há três Deuses ou Senhores.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo

A Pessoa de Cristo - o Deus-homem

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(1)

1. Há duas divisões do ensino evangélico acerca de Cristo o Redentor. A primeira trata com a sua pessoa e a segunda com a sua obra [officia].

2. O redentor em sua pessoa é o Deus-homem [theantropos]; isto é, o eterno filho de Deus encarnado, ou feito homem no tempo. Jo 1:14: “O verbo se fez carne e habitou entre nós.” Gl 4:4: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”. 1 Tm 3:15: “Evidentemente, grande é o mistério da piedade; Aquele que foi manifestado na carne.”

Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor

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INTRODUÇÃO

“Creio em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor”. O credo passa a focar, em especial, na pessoa de Jesus Cristo, e o motivo é simples: É através de Cristo que temos a plenitude da revelação. Através dele conhecemos o Pai e por seu intermédio foi nos concedido o Espírito Santo. No que se convencionou a chamarmos de “economia da salvação”, o papel de Jesus Cristo é de fundamental importância. Não é a toa que os que são integrantes do povo de Deus são identificados como cristãos.

“Jesus Cristo é o Senhor” foi uma confissão de fé surgida nos primórdios da igreja. Sua abreviação era similar a palavra “peixe” em grego, daí usarmos o peixe como um dos símbolos da religião cristã. Em tempos de perseguição, o peixe era colocado nas catacumbas dos que guardaram a sua fé até a morte.

É importante frisarmos que o Cristianismo vindica para si um caminho exclusivo para que nos cheguemos a Deus por meio de Cristo. Ele é o único mediador entre o divino e o humano, não há outro trajeto que se possa percorrer. O credo pós-moderno vai dizer que muitos caminhos levam a Deus, e que Ele pode ser encontrado em todas as religiões. Todavia, a ortodoxia cristã afirma que apenas por meio da fé em Cristo Jesus, nós somos conectados ao nosso Criador.

Não é raro vermos pessoas que se dizem conectadas com Deus, mas que rejeitam a pessoa de Cristo. Outros até o consideram, mas carregam uma imagem distorcida dele. Há quem queira puxar sardinha para o seu lado e se utiliza da figura de Jesus como se este fosse garoto propaganda de determinada ideologia. Uns vão dizer que ele foi da esquerda, outros rebaterão. Para uns Jesus é um pacificador boa praça ao estilo dos hippies dos anos 1960. Outros o veem como um filósofo popular e sincrético. O próprio Cristo falou que no fim dos tempos haveria falsos cristos. Talvez estes não sejam sempre homens (como o patético Inri), mas sim conceitos distorcidos de quem ele realmente é. A resposta de Pedro, relevada pelo Espírito Santo, é a de que ele é o Filho do Deus vivo. E João Batista deu a definição que devemos sempre professar e proclamar: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! Essa confissão de fé é uma antítese e não uma síntese. Toda vez que sintetizamos o Evangelho, é como se diluíssemos o vinho com água antes de oferecê-lo, ou seja, uma fraude.

Devemos estar atentos ao testemunho bíblico sobre Jesus. Pois, se ele não é o que diz ser nas páginas da Escritura, ou foi um lunático ou um charlatão. Estas são as duas alternativas caso não confessemos, tal como o credo nos ensina, que Jesus Cristo é o filho de Deus e o nosso senhor.

NÃO É UM SOBRENOME

Algo que precisamos compreender, antes de qualquer coisa, é que Cristo não é o sobrenome de Jesus. Cristo é o termo grego equivalente ao termo hebraico “messias”. O Messias, que por sua vez significa “o ungido”, é o enviado de Deus para governar o seu povo. Ele é o esperado por Israel, pregado pelos profetas e anelado pelo povo. Quando chamam Jesus de Cristo, estão reconhecendo que ele é aquele que fora anunciado nas páginas do Antigo Testamento. O tão aguardado salvador havia chegado.

Jesus, de fato, é nome. Quando lemos Mateus 1.21, no anúncio do nascimento de Cristo pelo anjo Gabriel, ele fala acerca deste nome, que já nos dá uma pista do que Deus planeja com aquele menino que está para nascer. Jesus significa “Deus salva”. Alguns crentes judaizantes dizem que o correto seria referir-se ao salvador como Yeshua, pois, alegam que este é o verdadeiro nome, sendo Jesus uma adulteração no nome santo. Um dos seus principais argumentos é o de que nomes próprios não são traduzidos. Todavia, Jesus não é tradução, mas sim transliteração. A transliteração é um recurso utilizado para facilitar a fonética de uma língua para outra, ela nada mais é que uma versão de letras, pois, nem todas as letras estão em todos os alfabetos.

O Novo Testamento, escrito em grego “koiné” faz a transliteração de diversos nomes. Tomemos por exemplo Jacó, um dos patriarcas. No hebraico seu nome é Yaacov, mas os redatores neotestamentários usaram Iacobo, que no português tornou-se Tiago, ou seja, Jacó e Tiago possuem o mesmo significado, que é enganador – literalmente aquele que pega pelo calcanhar. O mesmo se dá com Jesus, que é o equivalente grego para Josué. O Novo Testamento original não faz nenhuma distinção entre as nomenclaturas Jesus e Josué, apenas o contexto diferencia o sucessor de Moisés e o Messias, Filho do Deus Vivo.

Logo, quem defende o uso estrito de Yeshua, ao invés de usar Jesus, se fosse para seguir a risca, chamaria Moisés de Moshe, João de Yohanan e por aí vai. Nem Deus seria pronunciado dessa forma, ao invés disso falaríamos todos Elohin. Portanto, não há nada de errado quando falamos Jesus Cristo, embora, pelo fato do segundo ser um título, a grafia mais correta deveria ser Jesus, o Cristo.

Explicado o nome do nosso redentor, passemos agora a analisar os dois títulos que o Credo lhe confere.

FILHO DE DEUS

De uma forma geral, Deus é o pai de sua criação. Daí, todos os seres humanos podem ser vistos como filhos de Deus, no sentido de serem suas criaturas. Outra filiação se dá por adoção. Os filhos de Deus são aqueles que Ele adotou para si: “Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade” (Efésios 1:5).

Como podemos ver, esta adoção se dá por meio de Jesus, que é o Filho de Deus na eternidade. É nesse sentido que Jesus é singularmente o Filho de Deus, pois, é o filho não criado, mas eternamente gerado do Pai. O que quer dizer que compartilham da mesma essência, logo, quando é dito que Jesus é o Filho unigênito de Deus (João 3.16), reconhecemos a sua natureza divina. Lembremos que o Deus a quem professamos é Trindade, logo, o Pai e o Filho são duas personas distintas, porém, estão unidos em essência, compartilhando da substância divida na eternidade.

Alguns teólogos, baseados na filiação eterna de Cristo, dizem que ele sempre foi subordinado ao Pai, todavia, consideramos tal posição equivocada. Na eternidade Pai e Filho são iguais em atributos, poder e glória. Devido a natureza divina ser indivisível, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade.

É bem verdade que no plano da salvação, Jesus se coloca numa condição servil. Ele é o servo sofredor, conforme Isaías profetizou, pois esvaziou-se (ler Filipenses 2). Sendo assim, Jesus se subordina ao Pai enquanto encarnado em seu ministério terreno. Mas sua relação intra-trinitária não possuí esse caráter servil. Para ilustrar, mesmo sendo filho, é como se Jesus fosse um filho adulto, que não é subserviente ao seu pai, embora o estime e continue mantendo o elo do amor na filiação.

SENHOR

No Antigo Testamento, Senhor é o termo usado para referir-se a Deus. Por ser considerado sagrado ao extremo, o nome de Deus não era mencionado, e então Senhor servia para nomear o Divino. Quando Jesus é chamado de Senhor, ele está sendo reconhecido como Deus, o mesmo de Abraão, Isaque e Jacó. Os judeus tentaram matar a Cristo quando ele se colocou como sendo “Eu Sou”, o Deus revelado aos patriarcas e profetas: “Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!” (João 8:58).

Mas este termo também implica dizer que Cristo é o dono de todas as coisas e por meio dele tudo subsiste. O Novo Testamento se refere a Jesus como Salvador apenas 16 vezes; chama-o Mestre 64 vezes; mas proclama-o Senhor umas 650 vezes! Como disse, certa feita, Abrahan Kuyper: “Não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: é meu!”

CONCLUSÃO

Ter Cristo como Senhor é o que tem faltado a muitos que dizem professar a fé em sua pessoa. Os indivíduos que confessam a Jesus falam o quanto amam seu salvador e batem na tecla de que ele as salvou. Isso é uma verdade: Cristo salva! No entanto, não devemos separar o Redentor do Senhor. Cristo redime um povo e o coloca em baixo de seu senhorio, de modo que a vida que vivem os salvos não mais são as suas vidas, mas passam a ser a vida de seu Senhor Jesus Cristo.

O apóstolo Paulo resume bem o que é viver debaixo do senhorio de Cristo ao escrever aos irmãos da Galácia: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2:20).

Devemos entender que a vida cristã é de renúncia e submissão. Determinada linha doutrinária de nossos dias, que apesar de ser bem popular, é herética, coloca o homem no papel de decretar e dizer aquilo o que Deus deve fazer. Isso não é biblicamente coerente. Por isso devemos ter cuidado e refletir se em nossa relação com nosso SENHOR, somos realmente humildes e subservientes a Sua vontade.

Agora nos é importante lembrar que o nosso Senhor não é um tirano ou um despótico. Aos seus discípulos ele chama amigos (João 15.15) e, paradoxalmente, servi-lo é ter liberdade. Lembrando que quem não tem a Cristo como Senhor é servo de outro patrão: o Diabo. Vive preso em suas redes e tem um trágico fim. Ele geralmente vem bem apresentado, tem muitas artimanhas para escravizar o homem. Os falsos deuses são os artifícios de Satanás para seduzir. Dinheiro, sexo, poder são suas armas mais usadas. Todavia, que diante de um senhorio concorrente, possamos dizer tal qual Josué diante do povo de Israel que estavam se curvando perante ídolos:

Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao Senhor”. - Josué 24:15

Soli Deo Gloria 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
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Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
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Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador

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INTRODUÇÃO

Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”.

O Credo, como visto no texto anterior, tem uma estrutura trinitariana. O Deus confessado pelos cristãos não é outro senão o Pai, Filho e Espírito Santo. Três personas que dividem entre si a essência Divina, de modo que não existe hierarquia e subordinação. As três personas da Trindade são iguais em seus atributos, por isso que há unidade na pluralidade. O Deus Triúno é o Deus verdadeiro, confessado pelos cristãos.

No primeiro postulado do Credo, o enfoque recai sobre Deus Pai. E aqui vale ressaltar que chama-lo de “Pai” é imprescindível para todo aquele que deseja ser fiel a revelação da Escritura. O motivo da ressalva é que em alguns círculos, onde impera o liberalismo teológico, fazem a alegação de que chamar Deus de Pai é uma atitude sexista que endossa a visão patriarcal da antiguidade. As feministas até dizem que esse nome revela o machismo que há na Bíblia e subvertem a nomenclatura - alguns coletivos de mulheres que se dizem cristãs e feministas adotaram a palavra “Mãe” para se referir ao SENHOR.

Obviamente, Deus não tem gênero, mas se manifesta na Escritura como Pai. Isso não é apenas um termo usado pelos patriarcas do Antigo Testamento. Jesus, que é o ápice da revelação, diz que Deus é Pai e até mesmo nos instruí a orar, nos dirigindo ao “Pai nosso que está no céu”.  Acusar a Bíblia de ser um livro sexista ou machista é de uma leviandade imensa. Tais baboseiras são fruto de quem carrega pressupostos que não são bíblicos e trazem esses pressupostos para a interpretação do texto sagrado. Nós não podemos interpretar a Escritura com outro ponto de partida que não seja o conteúdo da própria Escritura. Nisso, o credo nos ajuda a nos mantermos fieis aos pressupostos bíblicos, pois resume o conteúdo da revelação contida nas páginas sagradas da Bíblia.

Como cristãos, precisamos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, pois o próprio Cristo pregou isso e adotou, na prática, o lema do sola Scriptura (somente a Escritura). Vejamos:

  • Cristo leu Isaías em Nazaré, textos que falavam acerca dele mesmo (Lucas 4. 14-30).
  • Cita três vezes o livro de Deuteronômio ao ser tentado pelo Diabo (Lucas 4.1-13).
  • Cita Gênesis ao ser indagado sobre o divórcio (Mateus 19).
  • Menciona uma passagem de 1 Samuel ao ser questionado por fariseus (Mateus 12).
  • Explana todo o Antigo Testamento no caminho de Emaús (Lucas 24.14-35).

Logo, se Cristo atestou a veracidade da Escritura, nós também devemos. Toda a Bíblia é inspirada e nos serve como fonte de revelação para que sejamos edificados mediante o seu conteúdo. A Escritura precisa assumir o seu lugar central em nossas vidas. Os homens são conduzidos à fé através da Palavra e este é o método ordinário que Deus usa para chamar o seu povo para Si. O Credo nos dá uma excelente contribuição ao ser formulado com base no texto sagrado. Ele nos lembra de que por sermos cristãos, somos o povo da Bíblia, detentores da revelação.

TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA

Pai Todo Poderoso revela que Deus é transcendente e imanente. Esse Deus a quem chamamos de “nosso Pai” é aquele que vai até as suas criaturas, revelando coisas sobre Si mesmo e instando os homens a se relacionarem com Ele através de um pacto. A revelação e a interação de Deus com a sua criação, sobretudo no relacionamento com os homens é o que na Teologia se chama imanência.

Mas, a imanência só faz sentido quando nos damos conta de que este Deus, que por sua soberana vontade se faz presente em nosso meio, é transcendente. O que isto quer dizer? A transcendência nos lembra que Deus está acima da criação, ele não pode ser confundido com nada do cosmos. Ele está para além de tudo o que existe no mundo criado. Como diz a segunda parte do primeiro postulado do Credo, Ele é o “Criador do céu e da terra”.

Quando paramos para contemplar a dimensão do mundo criado, muitas vezes nos surpreendemos com a sua imensidão. Todavia, nosso planeta é apenas um ponto azul no Universo que possui inúmeras galáxias. Mas o Criador é maior que a sua criação. O mundo criado não é “o corpo de Deus”. A matéria não é eterna, pois, Deus criou do nada (ex nihilo). Ele fez a matéria pelo poder de Sua palavra. O relato da criação demonstra o poderio do Senhor. Lemos em Gênesis 1 que bastava Deus falar “haja” e as coisas surgiam. Tudo bom e perfeito, refletindo a excelência do Autor da criação.

É pensando na transcendência divina que a imanência nos salta aos olhos como uma dádiva graciosa. Esse Deus, que está para além das coisas criadas, interage com a sua criação e, por graça, se relaciona com homens, chamando para si um povo, que pode se chegar ousadamente diante do trono da graça e chama-lo de Pai, a fim de obter misericórdia (Hb 4.16).

OS ATRIBUTOS DE DEUS

Quando o Credo afirma que Deus é Todo-Poderoso, nos remete aos seus atributos. Em sua essência, desde a Eternidade, Deus sempre foi o que Ele é. Quando se revela a Moisés, e este lhe pede seu nome para dizer ao povo. E a resposta de Deus é a seguinte:

Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês”. Êxodo 3:14

“Eu sou o que sou” reflete a imutabilidade de Deus. Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Não muda em sua essência por já ser pleno, ser perfeito. Deus não evolui e nem se aperfeiçoa. Ele é! Diante de sua essência imutável, ficamos cientes de que tudo o que Ele revela sobre si mesmo são atributos que sempre fizeram parte de Deus, de modo que desde a eternidade Ele é o Deus Todo-Poderoso, justo, santo e fiel.

Os atributos divinos revelam a singularidade do Pai Celestial. Ele pode todas as coisas (onipotência), pois nada pode frustrar os seus desígnios. Aquilo que foi arquitetado pelo SENHOR não pode deixar de ser cumprido. Com seu poderio Ele controla todas as coisas e sabe todas as coisas (onisciência). Não há nada que podemos esconder, pois Deus está em todos os lugares (onipresença).  Nem mesmo o futuro surpreende a Deus, pois Ele tem conhecimento das coisas por vir, pois, toda História é de sua autoria e tudo está decretado de maneira que ninguém pode dar um passo fora de seu roteiro. Como Deus é eterno, não limitado ao tempo, passado e futuro são contemplados por Ele, tal qual o presente.

CRIADOR

Esse Deus Todo-Poderoso, ao criar céus e terra, não faz isso por sentir que algo lhe falta. Não é a solidão que move o projeto da criação. Deus se autossatisfaz. No relacionamento trinitário, sempre houve amor entre os componentes da Trindade, de modo que em si mesmo há pleno contentamento. Quando Deus cria o mundo e todos os seres que povoam o mesmo, faz para o louvor de Sua glória. E por graça, faz do homem a coroa da criação e põe nele a Sua imagem. Mas o motivo para Deus fazer tal coisa não pode ser “humanizado”. Não devemos enxergar nenhuma necessidade em Deus que o levou a criar o mundo e os seres humanos.

Outra coisa que devemos ressaltar é que todo elemento criacional, ou seja, a matéria, não faz parte de Deus. Como vimos, Ele transcende a sua própria criação. Mesmo relacionando-se com ela, e intervindo no mundo criado, o SENHOR é totalmente outro. Nenhuma partícula do universo faz parte da essência eterna do “Eu sou”. Nisso, os panteístas, que acreditam que a essência divina está em cada parte da natureza, estão equivocados em sua crença.

O mandamento que proíbe fazer imagens de Deus (Êxodo 20.4) reflete essa questão. Pois, ao retratarmos Deus com alguma figura da criação, o estaríamos rebaixando. Os israelitas fizeram um bezerro de ouro fundido quando estavam no deserto e Arão falou: “aí está o teu deus” (Êxodo 32.4). Seu pecado foi muito grave, quebraram o mandamento e reduziram o Deus Todo Poderoso a uma imagem de um animal quadrúpede. Não foi sem motivo que a ira do SENHOR foi manifesta entre o seu povo.

CONCLUSÃO

O Deus da Bíblia é este que o Credo nos mostra como sendo Pai, Todo-Poderoso e Criador. É assim que ele se revela e assim podemos adorá-lO com base no conteúdo revelado. É por termos a revelação que podemos falar sobre o Divino. Na Escritura sabemos quem Deus é e o que Ele requer de nós, suas criaturas. Mesmo que o conteúdo não seja exaustivo, de modo que há muita coisa sobre Deus que nos é mistério, em contrapartida, existe um abrangente conteúdo revelado que nos informa coisas sobre o SENHOR que nos são suficientes para adorá-lO e devotar a Ele nossas vidas.

Louvamos a Deus por Ele ter se revelado a nós e partilhado informações tão importantes que também nos ajudam a conhecermos a nós mesmos, pois, ao saber que existe um Criador, ficamos cientes de que somos suas criaturas. Também sabemos que somos seus filhos, por ser Ele o nosso Pai. Além do mais, é consolador ter o conhecimento de que Deus pode todas as coisas e que diante de tamanho poderio, temos esperança de que Ele há de nos conduzir com braço forte, nos protegendo de todo mal, agindo para o nosso bem, segundo o beneplácito de Sua vontade.

Soli Deo Gloria

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Sobre o autor: Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.

Divulgação: Bereianos

Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
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Refutação ao livro “A Cabana”

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Introdução 

Um dos livros que mais tem sido lido e vendido nestes últimos meses é “A Cabana” de William P. Young.[1] Um livro que se propõe a ajudar a entender a trindade e o sofrimento tem sido amplamente aceito no meio evangélico. Uma rápida pesquisa na internet é possível encontrar pessoas testemunhando como o livro ajudou a suportar o sofrimento e a entender quem é Deus. Alguns chegam até a afirmar que tiveram um encontro real com Deus somente depois de ter lido o livro.

A questão a ser tratada neste trabalho é se a visão apresentada neste livro de fato é bíblica. Será apresentado os principais pontos explorados pelo autor e analisado à partir de textos bíblicos. Este trabalho tem o objetivo de mostrar que tipo de influência os leitores tem recebido deste livro. 

Se conhecemos, então a Trindade existe: um argumento transcendental a partir e para a Trindade

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O argumento a partir e para a Trindade é a peça central do método apologético de Cornelius Van Til.[1] A inspiração para esse argumento é o problema filosófico que iniciou-se nos pré-socráticos[2], chamado de “problema de um e muitos”. Na visão de Van Til, apenas o teísmo – na verdade, apenas o teísmo cristão, com sua visão trinitária de Deus – pode fornecer uma solução para este problema. O que se segue é uma explicação exemplificada do problema. Com a advertência de que exigirá do leitor paciência e reflexão para entender cada parágrafo antes de passar para o próximo.

Uma característica intrigante da realidade é que ela existe em aspectos de unidade e pluralidade: por exemplo, João e Maria manifestam a unidade em virtude do fato de serem humanos e de pluralidade em virtude do fato de que não são os mesmos humanos, mas duas pessoas distintas. Além disso, para ter conhecimento de João, preciso ser capaz (pelo menos em princípio) de compreender tanto o que o unifica com outras coisas no mundo como o que o distingue dessas outras coisas. Se, em princípio, não posso compreender o que distingue João de outras coisas, por que qualquer conhecimento que eu possuir de João seja considerado realmente conhecimento de João, ao invés de Maria ou qualquer outra coisa? E se, em princípio, eu não posso nem mesmo entender o que unifica João com outras coisas (por exemplo, que ele tem qualidades que não são somente dele, mas podem ser exemplificadas[3] por outras coisas, como Maria), por que eu deveria pensar possuir qualquer informação significativa sobre ele?

Segue-se como um princípio geral que, para ter conhecimento de objetos no mundo, o mundo deve ser tal que sua unidade e pluralidade sejam relacionadas, mas distintas. Por essa razão, as expressões de unidade e pluralidade no mundo devem manifestar-se pela unidade (através de relações comuns) e pluralidade (através de distinções).

ARGUMENTOS CONTRA OS PLURALISTAS

A questão que surgiu na Grécia antiga questiona qual o aspecto da realidade é o final[4]: unidade ou pluralidade? Suponhamos que a pluralidade é final. Segue-se que a realidade, em última análise, consiste em um agregado de coisas que são completamente diferentes e não relacionadas entre si, uma vez que qualquer coisa que sirva para conectá-las equivaleria a um princípio unificador mais final, que por hipótese não existe. Na verdade, é ilusório falarmos de um “agregado” de “coisas”, uma vez que tais termos pressupõem uma unidade subjacente pelo qual as coisas podem ser “agregadas” como instâncias de “coisa”. No entanto, como eu observei em princípio nada pode ser conhecido sobre coisas completamente diferentes e não relacionadas.

Outros problemas podem ser derivados a partir deste princípio de pluralidade final. O pluralista abraça uma visão da realidade como uma esfera do acaso dentro do qual todas as verdades empíricas, racionais e éticas existem em indiferença relativa para com o outro, não há nenhuma coerência ou ligação entre um e outro. Problematicamente, isso nos dá todas as razões para duvidar de nossas capacidades cognitivas para conhecermos algo. Pois que princípio garante que nosso raciocínio é equipado para entender o mundo como ele realmente é, visto que todas as coisas são desconexas, incluindo a minha razão e a realidade? Se mesmo o menor pedaço de realidade fugir a compreensão da razão, haveria uma área de realidade totalmente desconhecida para todos. E ainda, esta área pode ter alguma influência sobre a realidade que parece termos conhecimento. Por isso, não teríamos nem mesmo conhecimento daquilo que pensávamos ter conhecimento. Van Til considera Kant como indubitavelmente correto em assegurar que a mente do homem e os fatos do universo nunca deveriam ter sido separados.[5]

Podemos pensar também que o mundo só é inteligível se houver princípios abstratos imutáveis. Precisamos pressupor, por exemplo, o princípio da não-contradição[6], até para nos comunicarmos. Sem esse princípio, a Trindade poderia existir e não existir, na verdade, até a comunicação seria impossível. Pois quando eu digo que algo é, não significa que não é. O significado pressupõe o princípio imutável da não-contradição. Mas, numa metafísica pluralista, esse princípio é algo evidente por si mesmo como existindo sem ter qualquer relação com a realidade, pois não há nada que unifique os dois. Assim, a realidade está completamente a mercê do acaso[7] e sujeito a contradições. Talvez a única característica confiável da realidade é o fato de estar constantemente flutuando e passando para o seu oposto. Mas um universo que está constantemente e imprevisivelmente mudando pode muito bem passar para a não-existência completamente, no qual cada característica do universo, incluindo a própria mudança, seria perdida.

Na teoria, o pluralista considera os fatos como objetos básicos e mais imediatos do conhecimento. Ele, por sua vez, se considera um recipiente igualmente vazio e indiferente desses fatos. Mas, na prática, esse ponto de vista revela-se auto-destrutivo. Cada tentativa de identificar conscientemente um fato bruto revela a dependência de qualidades universais (unas) – por exemplo, “ele é um homem”, “isto é vermelho”, etc.

ARGUMENTOS CONTRA OS MONISTAS

Suponhamos que a unidade é final. Segue-se que a realidade é fundamentalmente monista[8]: é uma coisa indiferenciada. Porém, em princípio, mais uma vez, nada pode ser conhecimento sobre tal coisa, porque não pode haver algo a partir do qual distingui-lo, incluindo o “nada” – pois nesse caso até a distinção entre ser e não-ser é dissolvida. Além disso, não poderíamos sequer nos conhecer. Pois para conhecermos qualquer coisa significativa sobre si mesmo, é preciso ser capaz de julgar que se exemplificam certas qualidades e não outras; contudo, se a realidade é uma unidade final, não pode haver distinção genuína entre uma qualidade e outra.

Até as ideias racionais[9] do monista, como “homem”, precisariam ser contrastadas e unificadas entre si em fatos concretos diferentes para serem definidas. O que poderia significar conhecer “homem” a parte de uma consciência empírica de que ele é incompatível com “os animais irracionais” e ainda perfeitamente capaz de união com outras qualidades universais diferentes como “gordo” ou “baixo”. Nesse caso, os universais não são autodefinidos, mas têm sua definição mediada por combinações factuais. Somos levados à conclusão de que os universais são ininteligíveis e indistinguíveis quando tomados em si e por si mesmos.

Em ambos os casos, uma vez que a realidade não pode ser conhecida em seu nível mais básico, a compreensão de qualquer coisa dela é obscura. Na verdade, em ambos os casos, como dito, a noção de “coisa” seria ininteligível.

Mas será que qualquer deus poderia criar a realidade de maneira una e múltipla? Pense em um deus unitário. Nada pode ser precisamente predicado de uma divindade estritamente unitária, uma vez que a multiplicidade envolvida na predicação está em desacordo com sua natureza. Uma coisa que não tem nada a distinguir é impensável, mas igualmente impensável é uma coisa que está tão separado de todas as outras coisas que não tem nada em comum com elas. Se tal ser tivesse uma definição negativa de como ela existe em contraste com a criação, ele só demonstraria sua dependência do universo temporal para ter diferenciação e relação que ele não tem em si mesmo. E mesmo que esse deus fosse considerado como tendo distinções internas entre princípios, faculdades, motivos, interesses que são distintos de sua pessoa, ele então seria um efeito de princípios sub-pessoais.[10] Tal deus não pode ser uma deidade verdadeira.

ARGUMENTO TRANSCENDENTAL A PARTIR E PARA A TRINDADE

Por que Van Til pensa que o teísmo cristão escapa desse dilema? Seu pensamento é que, em uma ontologia[11] teísta cristã, nem a unidade nem a pluralidade é final em relação ao outro, mas sim os dois aspectos da realidade são co-finais, na medida em que eles são expressões da tri-unidade de Deus. Deus exibe tanto unidade última quanto pluralidade última: ele é um em “essência” e três em “pessoa”. Além disso, a criação reflete a unidade e a pluralidade de seu Criador de uma forma derivada e análoga.

Assim, o “único” Deus não pode cair no esquecimento como um universal abstrato e indistinto, pois Ele é definido concreta e infinitamente em relação às “três” pessoas. Os “três” também não se rebaixam em particulares irracionais que evitam a definição, pois são exaustivamente definidos pela dinâmica trinitária. Nada, então, ficaria fora da compreensão pessoal de Deus, incluindo a relação entre Seu ser tríplice e seu autoconhecimento abrangente. Deus seria uma pessoa auto-contido, auto-definida e auto-suficiente.

Dessa maneira, não é que tal esquema crie uma compreensão abrangente do universo possível para nós, mas sim torna possível a Deus, que por sua vez pode nos fornecer uma compreensão parcial e derivada do universo. Em todo o caso, o ponto principal aqui é que somente uma ontologia na qual unidade e pluralidade são co-finais no nível mais fundamental pode permitir o conhecimento.

Se quisermos ter coerência em nossa experiência, deve haver uma correspondência de nossa experiência com a experiência eternamente coerente de Deus. O conhecimento humano, em última análise, repousa sobre a coerência interna dentro da divindade; nosso conhecimento repousa sobre a Trindade ontológica como o seu pressuposto.

A surpreendente conclusão é que até a negação da existência da Trindade, afirma-o. Todo ato de conhecimento ou predicação pressupõe a existência da harmonia absoluta e pessoal da unidade e da pluralidade, dentro do Deus Trino. Negações que a Trindade existe são afirmações de posse de conhecimento e atos de predicação. Portanto, o Deus Triúno existe.[12]

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Notas:
[1]Cornelius Van Til foi o fundador do método apologético chamado pressuposicionalismo. Neste mesmo blog você pode encontrar mais informações sobre essa metodologia em minha autoria.
[2] Os pré-socráticos foram os primeiros filósofos. Movimento que surgiu na Grécia Antiga.
[3] Como, por exemplo, ambos serem uma pessoa. “Exemplificados” é um termo que os filósofos usam para se referir que um universal está instanciado em algum particular.
[4] Por “final” eu quero dizer aquilo que é último ou definitivo, o que tem primazia.
[5] Você pode observar que a visão pluralista de mundo costuma ser o pressuposto dos cientistas contemporâneos que se professam ateus.
[6] Este princípio afirma que algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e no mesmo sentido.
[7] Esse argumento serve para qualquer outro princípio lógico que tem a utilidade de tornar o mundo inteligível, isto é, entendível para a mente humana.
[8] Monismo afirma a unidade da realidade como um todo.
[9] Por ideias racionais, eu me refiro a tanto universais quanto a princípios lógicos e éticos.
[10] Isto é, ele não é uma pessoa em si mesmo. Mas o resultado de diversas partes juntas que em si mesmo são menores que uma pessoa. A exemplo temos o Exodia do desenho animado Yu-Gi-Oh! que só se torna quem ele é devido a junção de suas partes, e ele é o efeito dessas partes. Mas, novamente, falar de “partes” aqui seria ilusório conforme argumentei em pontos anteriores. Outro artigo será necessário para esclarecer melhor o argumento contra um deus estritamente unitário.
[11] “Ontologia” é o estudo daquilo que existe.
[12] Está é uma versão de um argumento transcendental para a existência de Deus. Esse modo de argumento transcendental busca as condições de possibilidade para a experiência inteligível. E dado que Deus é essa condição, tanto a afirmação quanto a negação de sua existência irá afirmá-lo.

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Sobre o autor: Gabriel Reis é Aspirante ao seminário na 1ª Igreja Presbiteriana do Brasil em Duque de Caxias-RJ. Graduando em filosofia pela UFRJ. Namora a Márcia Dias. Sonha em atuar no campo missionário transcultural junto com sua futura esposa. E fundador da Página Apologética Reformada.
Fonte: Gospel Prime
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A Triunidade Intelectual de Deus

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A doutrina da Trindade é essencial para a fé cristã ortodoxa. O pensamento trinitariano impregna todo o Novo Testamento e é pressuposto nas doutrinas centrais da encarnação (Lucas 1:35), expiação (Hebreus 9:14), ressurreição (Romanos 8:11) e salvação (1 Pedro 1:2), bem como nas práticas do batismo com água (Mateus 28:19) e oração (Efésios 2:18). Consequentemente, não pode haver nenhuma dúvida que a falha em aceitar a Trindade conduzirá a erros fatais no restante da teologia de uma pessoa. Contudo, a Trindade é frequentemente vista como um conceito difícil, se não contraditório. A Trindade é incoerente? O presente artigo procura responder essa pergunta com um enfático “Não”.

Pequenos detalhes que todo cristão deveria saber (Parte 1)

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Esta série de posts terá o propósito de apresentar detalhes que passam desapercebidos ou são desconhecidos por grande parte dos cristãos mas que tem uma influência muito grande na eficácia de argumentos na apologética. Neste primeiro post iremos tratar de um detalhe útil nas discussões com arianos e antitrinitarianos em geral. Ele é conhecido como a regra de Granville Sharp.

No Grego Koiné existe uma regra gramatical simples, porém muito importante, que está diretamente relacionada à Divindade do Senhor Jesus Cristo conforme exposta nas Escrituras: a regra de Granville Sharp. Ela basicamente lida com o sentido de passagens como Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1, cujas traduções são deturpadas por grupos antitrinitarianos. Sendo assim, acreditamos que todo cristão deve estar informado a respeito desse assunto (ainda que de maneira breve).

A regra de Granville Sharp afirma que caso encontremos dois substantivos descrevendo uma pessoa (que não sejam substantivos próprios como Paulo, Silas ou Timóteo) e eles estejam ligados pelo conectivo “e”, com o primeiro apresentando o artigo (“o”) e o segundo não, então ambos substantivos estarão se referindo à mesma pessoa. Isso é exemplificado em nossos textos pelas palavras “Deus” e “Salvador” em Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1:

“…enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.” (Tito 2:13)
Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, mediante a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé igualmente valiosa” (2 Pedro 1:1)

No grego, a palavra “Deus” possui o artigo e é seguido pelo conectivo “e”. Enquanto isso, a palavra “Salvador” não apresenta o artigo. Logo, ambos os termos estão sendo aplicados ao mesmo indivíduo, Jesus Cristo. Essa regra não possui exceções. Somente tendo uma predisposição teológica é que alguém pode se opor a essas passagens. Não é possível levantar qualquer tipo de objeção gramatical verdadeira. Não que já não tenham tentado, mas a evidência a favor da interpretação acima é simplesmente esmagadora. Olhemos por um momento para a evidência interna do próprio texto.


Em primeiro lugar, vemos Paulo se referindo à “epiphaneia” do Senhor, isto é, Sua “manifestação” em Tito 2:13. No Novo Testamento essa palavra sempre é reservada a Cristo e a Ele apenas. [1] Isso é evidenciado pelo verso 14 que afirma que “Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras. A referência óbvia aqui é a Cristo que “se entregou por nós” na cruz do Calvário. Tampouco existe indicação de um antecedente plural para que o “que” do verso 14 esteja se referindo a mais de uma pessoa. Deve-se também mencionar que o verso 14, apesar de estar se referindo diretamente a Cristo, é uma paráfrase de passagens veterotestamentárias que se referem a Jeová (Salmos 130:8, Deuteronômio 7:6, etc). É difícil alguém poder questionar a identificação de Cristo como Deus nessa passagem uma vez que o apóstolo segue a descrever Suas obras como as obras do próprio Deus!

A passagem que se encontra em 2 Pedro 1:1 é ainda mais atraente. Algumas pessoas tem simplesmente ignorado as regras e considerações gramaticais e decidido dar uma tradução inferior com base no verso 2 que, segundo elas, claramente faz “distinção” entre Jesus e Deus. [2] Uma tradução feita com base em preconceitos teológicos é dificilmente digna de confiança. O pequeno livro de 2 Pedro contem um total de cinco construções de Granville Sharp. Elas são: 1:1, 1:11, 2:20, 3:2 e 3:18. Nenhuma pessoa argumentaria que as outras quatro são exceções à regra. Por exemplo, em 2:20, é bem óbvio que tanto “Senhor” quanto “Salvador” se referem a Cristo. Tal é o caso em 3:2 e 3:18. Até aqui ninguém levanta objeção alguma ao uso da regra de Granville Sharp uma vez que a tradução feita não está pisando nos calos da teologia de ninguém. No entanto, o verso 1:11 demonstra a completa desonestidade daqueles que tentam negar a divindade de Cristo. A construção do verso 1:11 é idêntica àquela que é encontrada em 1:1, com apenas uma palavra diferente! Analise com os seus próprios olhos as passagens (conforme transliteradas para o português):

1:1: του Θεου ημων και Σωτηρος Ιησου Χριστου· (tou Theou imon kai Sotiros Iisou Christou)
1:11: του Κυριου ημων και Σωτηρος Ιησου Χριστου (tou kuriou imon kai Sotiros Iisou Christou)

Página 22 e 23 do P72, o mais antigo manuscrito contendo as epístolas de Judas, I e II Pedro conhecido até hoje. A linha destacada em amarelo corresponde ao texto referido aqui. Para acessar o documento online, entre em P72 – Vatican Library . Para ver o verso 1:11, basta ir na imagem correspondente à página 25.

Note a nítida correspondência que existe entre essas duas passagens! A única diferença está na substituição de “kuriou” por “theou” (em negrito). Ninguém questionaria a tradução de “nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” no verso 1:11, mas, surpreendentemente encontramos gente questionando a tradução de “nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo” em 1:1. Um pouco suspeito, não acha? Ser consistente na tradução exige que não deixemos nossos preconceitos pessoais interferirem na representação das Escrituras.

Com esperança, os envolvidos nessa questão poderão ver qual dos lados está representando a Bíblia sem preconceitos. Não precisamos cair na falácia de que a Bíblia é nossa inimiga ou que precisamos distorcer a Palavra de Deus para suprir nossas necessidades e defender nossa denominação. A verdade de Deus permanecerá firme, ainda que a humanidade tente escondê-la. Quanto a você, apologista cristão, espero ter lhe fornecido uma ótima maneira de questionar um ariano…

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Referências:
1 – II Tes. 2:8, I Tim. 6:14, II Tim. 1:10, 4:1, 4:8, Tit. 2:13. W. F. Moulton, A. S. Geden, H. K. Moulton, Concordance to the Greek Testament, 5th edition, (Edinburgh: T & T Clark, 1980) p. 374
2 – Alford, New Testament for English Readers, p. 1671.

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Autor: Erving Ximendes
Fonte: Olhai e vivei
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A perigosa interpretação de Mateus 24.36 feita pelo Pr. Marcos Granconato

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Recentemente deu-se uma polêmica envolvendo o pastor batista Marcos Granconato, devido a um vídeo em que o mesmo fala que Jesus não é onisciente quando se considerado as relações intratrinitárias, limitando sua onisciência às relações extratrinitárias. Em outras palavras, Granconato disse que Jesus só seria onisciente na relação da Trindade com as coisas criadas, pois, segundo o mesmo diz em sua mensagem, Deus-Pai guardou certas coisas apenas para si. Alguns o acusaram de heresia, já outros foram mais brandos, discordando de sua posição, todavia não o chamando de herege. O fato é que o Granconato foi infeliz em suas afirmações, ditas ao expor o difícil texto de Mateus 24.36, que diz o seguinte: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”. Mais à frente voltarei a esse texto, mas antes gostaria de dizer o porquê considero o ensino do Marcos Granconato perigoso.

Dizer que Deus-Pai guarda coisas para si que não são reveladas ao Deus-Filho, inferioriza Jesus. Ele não poderia ser uma divindade da mesma “estatura” do Pai, já que não seria onisciente por completo, sendo que a onisciência é um atributo divino. Mas, a máxima cunhada por Tertuliano, que foi reafirmada pela ortodoxia cristã diz “uma substância, três pessoas”. Por substância, devemos entender que é o elo incomum entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no qual se baseia a unidade da Trindade. É devido à substância ser a mesma que não ocorre uma divisão entre as três pessoas da Deidade, gerando uma unidade na diversidade. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo desempenham papéis diferentes no plano de salvação (Trindade econômica), sem que haja a perda dessa unidade.

Após Tertuliano, talvez Agostinho de Hipona tenha sido o teólogo que mais contribuiu com a doutrina trinitária, principalmente na tradição ocidental. Ele então afirma que não se pode subordinar (ontologicamente) as pessoas da Trindade. Na eternidade eles são iguais em atributos, poder e glória. Portanto, se afirmarmos, como fez o Granconato, que Deus-Pai retém algum conhecimento para si, logo, caímos no equívoco da subordinação eterna. Contudo, como defende Berkhof[1], a natureza divina é indivisível, isto é, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade. Franklin Ferreira até recomenda rejeitarmos a prática de enumerar os membros da Deidade (e.g. Jesus é a segunda pessoa da Trindade) e diz que a razão para não fazermos isso está na indivisibilidade da natureza divina, inexistindo subordinação entre elas. Logo, embora sendo três personas distintas, elas não se somam.[2]

Granconato, frente ao que já foi exposto, ainda pode argumentar que isso não resolve a dificuldade presente no texto de Mateus 24.36. O que é verdade. Mas o ponto aqui deveria ser o seguinte: no afã de responder esse mistério, é válido prejudicar a doutrina trinitariana? Pois, se a Trindade é o cerne da adoração cristã, não podemos ter uma compreensão equivocada da mesma. Embora reconhecendo que o assunto é complexo, podemos subir “nos ombros de gigantes” e falar sobre a Trindade sem que a plena igualdade de seus membros seja distorcida.[3]

Para interpretarmos Mateus 24.36, a teoria da kenosis não seria a melhor resposta, como alguns deram ao Granconato em debates nas redes sociais. Pois, dizer que Cristo se esvazia, no sentido de deixar de ter seus atributos, seria o mesmo que afirmar que ele não mais teria a substância que concede unicidade à Trindade. O esvaziamento a que a Escritura se refere (vide Fp 2.6-8) não é referente a atributos, mas sim a posição de Cristo, que sendo igual a Deus-Pai em soberania e glória, encarna, e num estado de humilhação se coloca em condição de subserviência.

Então, para sermos coerentes com a doutrina reformada da unipersonalidade de Cristo, presente nas confissões e catecismos, que dizem existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta concomitantemente o status divino-humano, devemos observar a contribuição do extra-calvinisticum.[4] A contribuição em questão, que foi o ponto de discordância entre calvinistas e luteranos, diz, em suma, que os atributos divinos não devem ser limitados pela encarnação. Embora haja completa divindade no Verbo encarnado, pois a natureza divina se uniu a natureza humana numa mesma pessoa, seus atributos não estão confinados na carne, eles estão presentes dentro e fora do corpo de Cristo. Por isso que quando Cristo morre na cruz, a divindade não morreu, pois, a natureza divina não participa da fraqueza humana. Assim como também, as limitações da natureza humana não alcançam os atributos divinos. Por isso que Cristo foi limitado circunstancialmente, mesmo que na sua eterna essência ele nunca tenha deixado de lado a sua onisciência. Esta é uma posição que se enquadra com os postulados de Calcedônia e que faz jus ao fato de Cristo responder que não sabia o futuro, todavia sem deixar de ser onisciente.

Para ficar mais claro, tomemos outro atributo como exemplo: a onipresença. Quando Jesus, em sua forma corpórea deslocava-se de um lugar para o outro, não seria ele, como membro da Trindade, um ser onipresente? O conceito extra-calvinisticum vai dizer que mesmo ele ascendendo aos céus corporalmente, e estando à destra do Pai, se faz presente na ceia. Logo, a encarnação não pode delimitar a divindade de Cristo. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg:

Pergunta 47- “Mas não está Cristo conosco até o fim do mundo, como nos prometeu?” 
Resposta - “Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; quanto à sua natureza humana, agora já não está na terra; mas, quanto à sua divindade, majestade, graça e espírito, em nenhum momento está ausente de nós.”
Pergunta 48 – “Se a sua humanidade não está onde quer que esteja a sua divindade, então não estão as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra?”
Resposta - “Certamente não. Visto que a divindade não está limitada e está presente em toda parte, fica evidente que a divindade de Cristo está certamente além dos limites da humanidade que ele tomou, mas ao mesmo tempo sua divindade está em e pessoalmente permanece unida à sua humanidade.”

Como bem observa o Dr. Heber Campos[5] “Segundo o pensamento reformado, o Logos está no Cristo total, mas a natureza divina do Logos extrapola os limites físicos da natureza humana”. Pois, o infinito não cabe no finito. Se esta não é uma resposta totalmente satisfatória, é de longe a melhor resposta para lhe dar com a dificuldade em questão, pelo simples fato de não trazer prejuízo a cristologia, e nem desembocar numa concepção equivocada da Trindade.


Concluo dizendo que entendo a complexidade do assunto e que todo teólogo está sujeito a dar suas “escorregadas”. O pastor Marcos Granconato é alguém teologicamente gabaritado e que possui anos e anos de labor ministerial, contudo, não está imune aos erros. No entanto, acredito que ele tenha escolhido muito mal a sua resposta frente a uma questão difícil. Talvez, diante da dificuldade de expor o texto, seria melhor apenas dizer que a questão da união hipostática é um mistério inefável, para usar palavras do próprio Calvino. E não negar a ontológica onisciência do divino Logos, como preferiu. Não apenas por sua imagem, mas por zelo pela sã doutrina, cairia bem uma revisão de sua concepção, reconhecendo que seu ensino abre um precedente muito perigoso que pode resultar em noções heréticas da doutrina trinitária. 

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P.S. Gostaria de esclarecer três coisas: A primeira delas é que optei por fazer um texto breve, por achar mais propício devido à densidade do assunto. A segunda é que o Granconato é um irmão em Cristo, não o trato como um adversário. E por fim, não tenho a mínima intenção de gerar um debate cheio de desdobramentos, portanto, esse texto será o único em que exponho o que outros autores já expuseram com maestria. Destaco aqui o Dr. Heber Campos e suas obras sobre a união hipostática das naturezas de Cristo. 

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Notas:
[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, p.84.
[2] Franklin Ferreira usa como referência a obra de Basílio de Cesaréia para defender a plena igualdade entre a trindade. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=bfmLE6SjpLI.
[3] Mesmo havendo alguns teólogos renomados que defendem uma subordinação ontológica, como o Wayne Grudem e Bruce Ware, isso não pode ser tomado como argumento favorável. John Stott, um dos mais eminentes e profícuos teólogos do século XX, defendeu o aniquilacionismo, e nem por isso a ideia ortodoxa do castigo eterno foi flexibilizada apenas porque o Stott ensinou o oposto.
[4] Um ótimo texto sobre o Extra-Calvinisticum escrito pelo Rev. Alan Rennê Alexandrino está disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370.
[5] CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor. Ed. Cultura Cristã, p.284. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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