Política sob Perspectiva Reformacional: O Motivo Básico Cristão

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O que conhecemos como motivo básico cristão é a linha histórico/redentiva de: Criação/Queda/Redenção. A importância dessa questão se expande por toda teologia reformada como uma importante questão para uma hermenêutica redentiva. O relevante livro: A Missão de Deus, de Christopher J. H. Wright, nos mostra que há uma linha hermenêutica missional nas Escrituras, sua abordagem é uma excelente defesa do método histórico/redentivo para uma perspectiva missional. Podemos dizer que o lastro é bem maior que não se aplica somente ao pensamento missiológico ou a teologia da missão, mas, o motivo básico cristão se aplica as mais variadas áreas da teologia e da cosmovisão cristã e a todas as atividades exercidas pela igreja. 

Muito se tem debatido no Brasil sobre questões políticas devido aos freqüentes escândalos envolvendo importantes nomes do governo nacional. O crescimento da inflação causa interesse no povo pela informação econômica, o fato é que quando temos alterações em nossos bolsos é quando nos interessamos mais em entender de economia, na verdade, na maioria das vezes perdemos o tempo, a banda passou enquanto o país estava numa doce ilusão semelhante a Alice nos País das Maravilhas. Enquanto era dito que os cofres públicos estavam muito bem, obrigado, e muito da riqueza do país estava indo para vários lugares menos para o crescimento do país, enquanto não afetava diretamente os bolsos do povo, as multidões nesse Brasil varonil não se preocupavam com política, nem com o que se estava fazendo com verbas e mais verbas em apoio a conchavos políticos na América Latina, com interesses escusos que são uma realidade quase sendo esfregada no rosto de cada brasileiro. Enfim, perdoe-me a divagação, mas, o crescente interesse político por um dos lados é porque estamos sendo extremamente prejudicados diretamente. Mas, por outro lado, existe um crescente interesse de cristãos, principalmente jovens, por política. O que preocupa é que tais interesses não são regados por um olhar teológico e, consequentemente, acarretará erros na formação de um pensamento político. 

Podemos exemplificar isso de forma muito simples, a teologia reformada tem trabalhado questões relacionadas à cosmovisão cristã de forma muito importante, isso é resultado da ênfase dada pelos reformadores na vocacionalidade dos crentes ou ao que conhecemos como sacerdócio universal de todos os crentes. Essa vocação se estende a todas as áreas de atuação da vida e conhecimento humano. Francis Schaeffer dizia que o Marxismo é uma heresia cristã porque tem um fim soteriológico que é empregado no proletariado que atua como um messias que trará a igualdade através da revolução. Temos aqui uma substituição do Cristo como libertador, resgatador, redentor dos eleitos. Temos uma distorção da redenção. 

Ao termos o motivo básico cristão: criação - queda - redenção, podemos avaliar toda e qualquer ideologia ofensiva ao homem pelo homem. Quando o ideal criacional é subjugado por ideologias que acabam tendo também um motivo básico que confrontam com o motivo cristão, o sistema entra em colapso com a realidade última do telos humano. Ao termos uma substituição do conceito de queda, se corrompe o conceito de justiça na sociedade e quebra o sentido de juízo do crime e da maldade, seja pelo poder despótico, seja no âmbito civil/jurídico. E ao substituirmos o conceito redentivo, teremos um messianismo ideológico que tomará assento soberano com ideologias totalitárias, detonando os conceitos de liberdade seja na religião, educação, economia, arte, etc. Quando o conceito da redenção é substituído por uma ideologia, automaticamente temos um ato idolátrico.

Toda cosmovisão está fundamentada em um motivo básico, por isso toda ideologia tem reais intenções redentivas, alterando o sentido de pecado e, provavelmente, o transferindo para um outro ponto que representará a culpa que não seja o próprio homem, mas, a fatores externos e que não estão sob seu controle. A solução para esse ideário será uma alternativa redentiva, como no caso do marxismo que totalitariza o Estado, ou no caso do Liberalismo que põe o homem entronizado. Temos, como segue, um exemplo disso.


Veja que a visão Totalitária tem o Estado como cabeça, na análise das demais visões vemos que o motivo básico é evidentemente corrompido também. Ao corromper a perspectiva criacional também, se corrompe o conceito de queda e redenção e se sobrepõe esses conceitos, com alternativas que tomam o lugar deles, mas, exercendo a mesma função na cosmovisão. Como nos diz o professor David T. Koysis:

A maior parte dos movimentos políticos tenta recrutar entusiastas com lemas concisos e populares que ficam bem na faixa e soam bem nos lábios de que marcha pelas ruas. “Liberté, égalité, fraternité!” “Vida, liberdade e busca da felicidade!” “Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos” “Todo poder para o povo!” Estas bandeiras têm a vantagem de ser facilmente compreendidas, de simplificar o que é complexo em vista de uma finalidade política. Contudo, elas também enganam seus potenciais seguidores, levando-os a crer que a salvação é um assunto simples – mera questão de, por exemplo, proclamar a emancipação, garantir os direitos do povo, decretar a prosperidade universal ou legislar para acabar com a pobreza, a opressão, os sem-teto e assim por diante. Junto com tudo isso, vem também a tendência a pressupor que fazer justiça significa apenas remover os obstáculos que se interpõe no caminho dela; depois disso, a “sociedade justa” surgirá sem nenhum esforço, como que por encanto. Talvez o exemplo mais famoso dessa filosofia seja o postulado marxiano de que um breve episódio revolucionário pelo qual o proletariado exproprie os bens da burguesia poderá produzir imediatamente a sociedade sem classes. [1]

Não poderemos ter uma correta percepção se, como cristãos, não identificarmos o motivo básico que rege a vida humana e todas as esferas que a cercam. Fica claro que, quando temos uma falsa concepção do homem e do que ele é e em seu estado alocado num contexto social e psicológico apontado pela realidade descrita nas verdades da revelação de Deus, que é a única forma que o mostrará quem realmente ele é ontologicamente, pelo fato de que, ao se retirar da conjuntura social o conceito bíblico de Queda temos uma erupção de desordem e um alargamento da maldade descontrolada, temos uma barbárie.

Diferenças na visão da natureza humana refletem-se em diferenças na visão dos processos sociais. Isso não significa apenas que os processos sociais são vistos como atenuadores das fraquezas da natureza humana em uma visão e como agravadores em outra. A própria forma de funcionar e de não funcionar dos processos sociais é vista de modo diferente [...] Os processos sociais englobam uma enorme gama de elementos, do idioma à guerra, do amor aos sistemas econômicos.[2] 

Ainda podemos nos aperceber disso, de forma mais clarificada, no que nos diz o filósofo holandês Herman Dooyeweerd:

O Motivo básico da religião cristão – criação, queda e redenção por meio de Cristo Jesus – opera por meio do Espírito de Deus como força motriz na raiz religiosa da vida temporal. Assim que toma conta de nós por completo, promove uma conversão radical da nossa posição diante da vida e de toda a concepção da vida temporal. A profundidade dessa conversão só pode ser negada por aqueles que não conseguem fazer justiça à integralidade e do caráter radical do motivo básico cristão. Aqueles que atenuam a antítese absoluta, buscando inutilmente ligar esse motivo básico cristão aos das religiões apóstatas, acabam de fato tomando parte nessa negação.
Mas aqueles que, pela graça, chegam ao verdadeiro conhecimento de Deus e deles próprios, inevitavelmente vivenciam a libertação espiritual do jugo e do fardo do pecado sobre a concepção que têm da realidade, mesmo sabendo que o pecado não deixará de existir em suas vidas. Eles percebem que nada na realidade criada fornece alicerces nem uma base sólida para a existência. Compreendem como a realidade temporal e seus aspectos e suas estruturas multifacetadas e cheias de nuances estão concentrados como um todo na comunidade  básica religiosa  da dimensão espiritual da humanidade. Veem que a realidade temporal procura incansavelmente sua origem divina no coração humano, e compreendem que a criação não pode descansar até que ela descanse em Deus.[3] 

A compreensão e a defesa de que a teologia reformada faz do motivo básico, bem como de uma cosmovisão que tem suas raízes na teologia do pacto, são a melhor alternativa teológica para uma leitura de mundo genuinamente cristã. O calvinismo tem refletido numa base teológica solidificada pelas Escrituras e que Deus é soberano sobre a criação e sobre todas as esferas que existem nela, que Ele mesmo criou e designou o homem para cumprimento dos mandatos da criação. Portanto, observando toda e qualquer ideologia político/social, notamos uma deformação dos mandatos criacionais – Espiritual, Social e Cultural. Kuyper nos elucida sobre as teses calvinistas de governo:

1 - Somente Deus – e nunca qualquer outra criatura – possui direitos soberanos sobre o destino das nações, porque somente Deus as criou, as sustenta por seu grande poder, e as governa por suas ordenanças.
2 - O pecado tem, no campo da política, demolido o governo direto de Deus, e por isso o exercício da autoridade com o propósito de governo tem sido subsequentemente conferido aos homens como um remédio mecânico.
3 - E, em qualquer forma que esta autoridade possa revelar-se, o homem nunca possui poder sobre seu semelhante em qualquer outro modo senão por uma autoridade que desce sobre ele da majestade de Deus.[4]
A Soberania das Esferas é a forma ideal de compreendermos o motivo básico cristão de Criação – Queda – Redenção. Mas, vejamos então o que é Soberania das Esferas, nos diz Solano Portela que

Em resumo, ele ensina que cada instituição criada por Deus (a família, a escola, o estado), possui uma área específica de autoridade e regência, ou seja, são esferas bem delimitadas e específicas.
Isso não significa que tais esferas sejam autônomas. Ainda que independentes, cada uma deve responder a Deus, o doador desta autoridade. A soberania de cada uma quer dizer que elas não devem usurpar ou interferir na autoridade da outra esfera. Cada uma dessas esferas, autoridades em si, é responsável por sua missão e pelas suas ações, na providência divina, perante Deus.
Por exemplo, no caso de uma escola cristã, ela deve entender que não usurpa a autoridade da família, nem da igreja. Muito menos substitui essas outras esferas, mas deve trabalhar conjuntamente, em colaboração e respeito. A esfera da escola, e nisso ela tem autoridade, é ministrar conhecimento, sendo responsável, perante Deus, de transmitir esse conhecimento reconhecendo o Criador em todas as áreas do saber.[5]

Com esse esclarecimento podemos ilustrar a importância do motivo básico cristão da seguinte forma:



Nos diz o falecido teólogo bíblico do Antigo Testamento Gerard Van Gronigen que

Era para o homem e a mulher exercitarem suas prerrogativas reais governando sobre o cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o. Todas as formas de vida na terra foram, de forma específica, colocadas sob a supervisão dos vice-gerentes humanos. Com esta responsabilidade, veio o privilégio de usar plantas, seus frutos e sua semente para manter a vida e a energia para realizar as tarefas reais. A humanidade poderia responder obedientemente ao mandato cultural para a glória de Deus por causa da sua criação à imagem e semelhança de Deus. Deus, por meio da sua exposição deste mandato, colocou a humanidade em um relacionamento de governador sobre o domínio cósmico. Mas este governo envolvia trabalho. O trabalho é, consequentemente, tanto um privilégio real como também uma responsabilidade.[6]  

Essa é a importância de compreendermos a política a luz das Escrituras, há um mandato cultural que envolve nossa atividade nas esferas criadas por Deus, essa responsabilidade cultural não se esvaiu com o pecado, certo é que após a queda o pecado afeta totalmente a percepção de mundo, sobre a vontade de Deus que Adão e Eva tinham, o que sua semente teve e o que temos hoje, toda maldade, depravação moral, aversão a religião e a verdade é decorrente do pecado. Ao identificarmos que Deus é criador e soberano e que em todas as esferas deve ser Ele glorificado, precisamos entender um pouco mais sobre a Soberania das Esferas e sua relação com o Estado.

Num sentido calvinista nós entendemos que a família, os negócios, a ciência, a arte e assim por diante, todas as esferas sociais que não devem sua existência ao Estado, e que não derivam a lei de sua vida da superioridade do Estado, mas obedecem uma alta autoridade dentro de seu próprio seio; uma autoridade que governa pela graça de Deus, do mesmo modo como faz a soberania do Estado.
Isso envolve a antítese entre o Estado e a Sociedade, mas com a condição de não concebermos esta sociedade como um conglomerado, porém como analisada em suas partes orgânicas, para honrar, em cada uma destas partes, o caráter independente que pertence a elas. 
Neste caráter independente está necessariamente envolvida uma autoridade superior especial, a que intencionalmente chamamos de soberania nas esferas sociais individuais, a fim de que possa estar claro e decididamente  expresso que estes diferentes desenvolvimentos da vida  social nada tem acima deles exceto Deus, e que o Estado não pode intrometer-se aqui e nada tem a ordenar em seu campo. Como vocês imediatamente percebem, esta é a questão profundamente interessante de nossas liberdades civis.[7]  

As Esferas de Soberania nos mostram e garantem a liberdade das instituições civis e também o dever para com Deus que é o soberano sobre todas as esferas sociais. Gostaria de destacar aqui alguns pontos importantes no pensamento de Kuyper sobre uma teoria política reformada calvinista. 

- A Liberdade: O calvinismo levou a lei pública a novos caminhos, primeiro na Europa Ocidental, depois nos dois Continentes, e hoje mais e mais entre todas as nações civilizadas, é admitido por todos os estudantes científicos, se não ainda, plenamente pela opinião pública. 

- A Visão Abrangente da Soberania de Deus: Este princípio dominante não era, soteriologicamente, a justificação pela fé, mas, no sentido cosmologicamente mais amplo, a Soberania do Deus Trino sobre todo cosmos, em todas as suas esferas e reinos, visíveis e invisíveis. Essa é uma soberania primordial que se irradia na humanidade numa tríplice supremacia, a saber:

• A Soberania do Estado
• A Soberania da Sociedade
• A Soberania da Igreja

Portanto teremos alguns princípios do mandato cultural, relacionados à política.

1 - Deus é o grande Soberano e todo governo pertence a Ele;
Todo governo humano deve estar submisso a Deus, pois seu poder foi delegado por Ele próprio; 
2 - Todo governo deve atentar para os mandamentos de Deus, tais mandamentos são a expressão da vontade de Deus, seja por expressa aplicação ou aplicação por princípio;  
3 - A humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus, por isso deve ser governada com dignidade, liberdade e integralidade.

Conclusão

O crescente interesse pela política no Brasil, também por parte de cristãos, tem se dado ao estado caótico da moral parlamentar e do desmoronamento econômico no país com grandes escândalos recorrentes como mensalão, petrolão e tudo que tem decorrido das mazelas da ideologia socialista que tem herdado o Brasil. O calvinismo tem uma teoria política que pode atender a uma demanda para esse país, precisamos de crentes versados nas ciências sociais e teologicamente orientados para lerem suas áreas de conhecimento com lentes bíblicas e centralizadas em Cristo e na redenção. O motivo básico cristão é a melhor forma de contribuirmos para um crescimento no país. A Igreja deve estar envolvida nisso e sair do gueto teológico e aplicar sua teologia a realidade do mundo, devemos debater, estudar, mas, devemos empregar isso e não nos perdermos em discussões que não saem da internet, da academia e dos seminários. A Igreja pode fazer algo, atentemos para a Escritura. 

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Notas:
[1] Visões e Ilusões Políticas, ed. Vida Nova, 2014, p.319. 
[2] Thomas Sowell, Conflitos de Visões – Origens Ideológicas das Lutas Políticas, p. 83 – Ed. É Realizações 
[3] Herman Dooyeweerd, Raízes da Cultura Ocidental, Ed. Cultura Cristã, 2015, p.55. 
[4] Abraham Kuyper, Calvinismo, Ed. Cultura Cristã, 1ª edição 2002, p.92 
[5] Solano Portela, Artigo publicado no blog – O Tempora, O Mores. 
[6] Gerard Van Groningen, Criação e Consumação, vol.1. Ed. Cultura Cristã, p.90. 
[7] Calvinismo, p.98. 

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Autor: Thomas Magnum
Divulgação: Bereianos
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O Calvinismo e o Conceito de Cultura - Uma Antítese ao Marxismo Cultural

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"Nossas críticas à cultura não terão poder de persuasão a menos que estejam baseadas em algo que possamos endossar nas crenças e nos valores dessa cultura". - Timothy Keller

Cultura é uma palavra bem gasta, com muitas conotações e nuances em cada contexto que é aplicada. Vemos um florescer benéfico do interesse de muitos cristãos brasileiros pela cultura, de como a igreja pode engajar-se nela e entende-la. Será que tudo na cultura é ruim? Ou a igreja deve enxergar a cultura como bênção de Deus e desfrutá-la sem medida? Ou será que deveríamos nos afastar definitivamente da cultura popular e termos realmente uma cultura evangélica? Quem nunca ouviu: “Devemos apenas evangelizar, nada de nos envolvermos com política ou com arte”; “um crente músico somente pode tocar seu instrumento na igreja ou com músicas cristãs, ele não deve envolver-se com coisas desse 'mundo', o mundo jaz no maligno”. Essas são afirmações que ainda ouvimos muito. Lembro na época em que fui para o seminário (que ainda era tolerável porque se ia estudar a Palavra de Deus), mas o jovem que queria ir a faculdade era imediatamente repreendido por alguns irmãos da igreja – cuidado para não se desviar! Quando comecei minha graduação em jornalismo, um irmão me exortou: cuidado para não virar ateu! E por aí vai...

Cristianismo e Ciência são opostos?

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"O homem é um ser pensante. Não é nos bens que busco a minha dignidade, mas no controle de minha mente. Eu não teria mais capacidade mental pela simples possessão de mais terras. Por intermédio do espaço, o universo me contém e, de fato, me absorve como a um simples borrão. No entanto, é por meio do pensamento que eu compreendo o universo". - Blaise Pascal; Cientista, filósofo, teólogo e matemático cristão.

"Graças te dou, Criador e Deus, pois tu me concedeste esta alegria em tua criação e me alegro com as obras de tuas mãos. Vê, pois, que completei o trabalho para o qual fui chamado. Nele, usei todos os talentos que tu concedestes ao meu espírito". - Johannes Kepler; Astrônomo.

Quando tratamos de ciência somos remetidos imediatamente e diametralmente a dedução de que a ciência aniquila a fé; em nosso recorte aqui, o cristianismo. Mas seria isso realmente procedente? Será que um verdadeiro cristão não pode fazer ciência? Será que o cristianismo condena a ciência? Perguntas como essas são comuns, principalmente entre jovens cristãos que estão prestes a escolher um curso universitário. Visto vivermos hoje em um contexto utilitarista e niilista, que muitas pessoas não estudam mais para crescerem em vários aspectos espirituais, intelectuais, culturais; o que temos são pessoas, inclusive cristãos, que escolhem determinados cursos universitários apenas pelo dinheiro e, às vezes, por qualquer outro motivo, e até mesmo sem motivo nenhum. A corrida utilitária tem sido mais disputada do que a São Silvestre. O que diz a história sobre o cristianismo e a ciência? Diz muito! Houveram cientistas cristãos famosos? Sim, e muitos! Ninguém disse isso na escola, não é? Mas iremos examinar, ainda que brevemente, alguns pontos fundamentais em relação ao cristianismo e ciência. Claro que minha intenção aqui não é fazer um opúsculo sobre história da ciência, mas, minha intenção é ajudar jovens cristãos a conhecerem um pouco da história, bem como poder fazer ciência sem que isso não contradiga a nossa fé e glorifique a Deus.

O que é a ciência? A palavra ciência vem do termo latino scientia, que significa conhecimento. A ciência moderna é uma mistura de dedução e indução, de racionalismo e empirismo, que surgiu no século XVI e deu origem ao que conhecemos como a era científica. E o que o cristianismo tem haver com a era científica? Francis Schaeffer nos diz:

Tanto Alfred North Whitehead (1861-1947) como J. Robert Oppenheimer (1904-1967) enfatizaram que a ciência moderna surgiu a partir da perspectiva cristã do mundo. Whitehead foi um matemático e filósofo extremamente respeitado, e Oppenheimer, após tornar-se diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, em 1947, escreveu sobre uma gama de assuntos relacionados a ciência "[...] Whitehead (em seu livro A ciência e o mundo moderno) disse que o cristianismo é a mãe da ciência, em virtude da 'insistência medieval sobre a racionalidade de Deus".[i]

Não há nada mais falacioso do que dizer que a história nega uma proximidade entre o cristianismo e a ciência, a fé não é antagônica a pesquisa científica. É claro que existirá um antagonismo quando os pressupostos da ciência estão na autonomia da razão, no cientificismo e no historicismo. Nos diz D. James Kennedy: "A religião não foi sempre inimiga da ciência? Não! Além do que, muitos estudiosos concordam que a revolução científica, que teve seu grande momento no século XVII, foi originada em sua maior parte pelo cristianismo reformado".[ii]

No campo científico moderno, diferentemente do que muitos dizem e tocam trombeta nos quatro cantos do planeta, existe uma quantidade considerável de cientistas que acreditam na existência de um Criador.

Em 1916 e 1997 realizaram-se dois estudos famosos que servem de base para essa disputa. O psicólogo americano James Leuda conduziu a primeira pesquisa com cientistas, na qual indagava se eles acreditavam em um Deus que se dispõe a se comunicar com a humanidade, ao menos por meio da oração. Quarenta por cento responderam “sim”, 40% “não” e 20% disseram não ter certeza "[...] Alister McGrath, teólogo, com doutorado em biofísica pela Universidade de Oxford, escreve que a maioria dos vários cientistas incrédulos que conhece são ateus por outros motivos e não por causa da ciência que praticam".[iii]

Ainda colhendo depoimentos sobre a importância do cristianismo no desenvolvimento científico, no excelente livro A Alma da Ciência, Nancy Pearcey e Charles Thaxton nos dizem que:

De acordo com o escritor científico Loren Eiseley, o aspecto curioso do mundo científico em que vivemos é justamente o fato de esse mundo existir. Com frequência, os ocidentais pressupõem, de modo inconsciente, uma doutrina do Progresso Inexorável, como se a simples passagem de tempo conduzisse inevitavelmente a um conhecimento cada vez maior, tão certo como uma noz se transforma numa nogueira. De acordo com Eiseley, Os arqueólogos seriam obrigados a nos dizer, porém, que várias grandes civilizações surgiram e desapareceram sem terem desenvolvido uma filosofia científica. O tipo de pensamento conhecido hoje em dia como científico, com sua ênfase na experimentação e na formulação matemática, surgiu numa cultura específica – a Europa Ocidental – e em nenhuma outra.
Eiseley conclui que a ciência não é, de modo algum, “natural” para a humanidade. A curiosidade sobre o mundo é, de fato, uma atitude natural, mas a ciência institucional é mais do que isso. “Ela possui regras que devem ser aprendidas e práticas e técnicas que devem ser transmitidas de uma geração para outra pelo processo formal do ensino”, observa Eiseley. Em resumo, é “uma instituição cultural inventada, que não se encontra presente em todas as sociedades, e não uma instituição que se pode esperar surgir do instinto humano”. A ciência “exige um tipo de substrato único para se desenvolver”. Sem esse substrato “está tão sujeita à decomposição e à morte quanto qualquer outra atividade humana”. 
Qual é esse substrato singular? Eiseley o identifica, de modo um tanto relutante, como sendo a fé cristã. “Numa dessas estranhas permutações das quais a história oferece raros exemplos ocasionais”, diz ele “foi o mundo cristão que, por fim, deu à luz de maneira clara e sistematizada ao método experimental da ciência propriamente dita.”
Eiseley não é o único a observar que a fé cristã inspirou, de várias formas, o nascimento da ciência moderna. Os historiadores da ciência desenvolveram um respeito renovado pela Idade Média, incluindo uma reverência semelhante pela visão de mundo cristã cultural e intelectualmente predominante ao longo desse período. Nos dias de hoje, os mais diversos estudiosos reconhecem que o cristianismo forneceu, tanto os pressupostos intelectuais, quanto a sansão moral para o desenvolvimento da ciência moderna.[iv]

Somente a cosmovisão do cristianismo poderia propiciar o desenvolvimento da ciência de forma institucionalizada. As demais visões de mundo contrariam e impossibilitavam o surgimento e desenvolvimento da ciência como campo de trabalho do conhecimento, somente uma epistemologia cristã foi capaz de dar ao mundo o que conhecemos hoje como ciência moderna.


Ao pensarmos sobre a questão epistemológica, estamos num campo que concerne à possibilidade do conhecimento, da teoria do conhecimento e da realidade do conhecer e empregar esse saber, esse conhecer é inteiramente ligado ao propósito, ao telos, queira ou não, a ciência tem de ter um viés teleológico, tem de ter uma finalidade. Do contrário, não há propósito nem um motivo para o emprego científico. Ninguém faz ciência por nada, ciência obriga necessariamente a mente para uma finalidade de pesquisa. Essa possibilidade de conhecer, só pode ser defendida a partir de pressupostos cristãos. Se existe uma finalidade, existe uma origem, existe um originador, existe um criador. A ciência só tem sentido se é fundamentada em pressupostos epistemológicos, se não se pode conhecer, por que pesquisar?

Ao dobrar-se sobre a pesquisa científica o pesquisador não deve concluir o inverso sobre a lei e a ordem da natureza. Não deve deduzir que o fato de a natureza possuir leis e ordens, isso aponta para o Deus criador, mas o fato de existir e ser necessário o Deus criador é que gera lei e ordem na natureza. O decreto imutável de Deus não deixa de fora nada em sua criação. Nem as leis da natureza, nem a matemática. Até os resultados de cálculos matemáticos estão sob o decreto de Deus. A verdadeira ciência não contradiz o cristianismo, a verdadeira ciência glorifica o Criador. Mas, como falamos anteriormente, se os pressupostos científicos estão errados, a ciência será má. Se os pressupostos estão corretos, a ciência será boa. A verdadeira ciência exulta: Somente a Deus toda glória!

A Teologia Reformada e a Ciência
           
Como já vimos, a reforma protestante deu grande impulso ao pensamento científico, não é nossa proposta aqui analisar e esquadrinhar historicamente o processo de desenvolvimento e contribuições dadas à ciência a partir da reforma, mas somente pontuar esse fato que é de alta relevância ao nosso argumento. É importante notar que as doutrinas defendidas pela reforma foram de grande valia para o desenvolvimento científico, a exemplo disso temos o conceito de desgraça e caridade em Blaise Pascal que pertenceu a um grupo reformista chamado jansenistas que advogavam conceitos calvinistas em sua doutrina.[v]
            
Tanto a doutrina dos mandatos – espiritual, social e cultural, como a doutrina da depravação total foram importantes no pensamento científico. Podemos frisar o mandato cultural que impele o homem a ler a criação e dominá-la como descrito no Gênesis 1.26-30. A reforma protestante foi uma alavanca para o progresso da pesquisa científica que já tinha considerável expressão na idade média como vimos anteriormente. A proliferação do conhecimento por conta da imprensa e da distribuição de livros que agora estavam sendo distribuídos para o povo, isso inicia-se de forma expressiva com os escritos de Lutero e depois dos demais reformadores, embora já tivéssemos algo expressivo com os pré-reformadores.

As Raízes Cristãs da Ciência

A ciência moderna teve uma força motriz cristã, meu apontamento aqui vai para três grandes pensadores: Johannes Kepler, Blaise Pascal e Isaac Newton, que eram cristãos comprometidos e ninguém em sã consciência no mundo científico pode negar a importância e influência desses três homens no desenvolvimento científico. Johannes Kepler cunhou a frase “Pensando os pensamentos de Deus depois dele” e escreveu: “Uma vez que nós, os astrônomos, somos sacerdotes do grande Deus no que se refere ao livro da natureza, nos será de grande benefício refletirmos, não sobre a glória da nossa mente, mas acima de tudo, sobre a glória de Deus”. Pascal, como já dissemos, foi alguém muito importante e sua epistemologia científica estava baseada na teologia calvinista. Pascal, foi matemático, filósofo e um cientista profícuo. Disse Pascal: “A fé nos diz o que os sentidos não percebem, mas sem contradizer suas percepções. Ela apenas transcende sem contradizer”, ela aponta para o conhecimento de Deus dizendo que:

O Deus dos cristãos não é apenas um Deus autor de verdades matemáticas e da ordem dos elementos. Esta é a noção dos pagãos e dos epicuristas [...] Mas o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, O Deus de Jacó, O Deus dos cristãos é um Deus de amor e consolação.[vi] 

Newton é outro nome que queria mencionar, certa vez ele disse em Principia (Princípios Fundamentais): “O belíssimo sistema do sol, planetas e cometas, só poderia provir da vontade e do controle de um Ser inteligente e Poderoso”.

Outra grande citação de Newton, esta contra o ateísmo dizia o seguinte:

O ateísmo é completamente sem sentido. Quando olho para o sistema solar, vejo a terra na distância correta do sol para receber a quantidade de luz e calor apropriadas. Isso não acontece por acaso.[vii]

E, por fim, Michael Faraday. Ele deu uma das maiores contribuições na área da eletricidade. Faraday descobriu a indução eletromagnética e inventou o gerador. Francis Schaeffer menciona que Faraday pertencia a um grupo de cientistas cuja posição era: “Onde as Escrituras silenciam, nós silenciamos”.[viii]

Chegando ao fim de nosso breve passeio na história da ciência, reproduzo a lista de cientistas criacionistas, descrita por D. James Kennedy em que nos mostra uma pequena parte da influência do ensino bíblico da criação reconhecido na ciência, ainda que não seja regra todo criacionista ser crente na Bíblia, de qualquer forma temos aqui um pressuposto ancorado no Deus Criador.


        Cirurgia anti-séptica – Joseph Lister

        Bacteriologia – Louis Pasteur
        Cálculo e Dinâmica – Isaac Newton
        Mecânica celestial – Johannes Kepler
        Química – Robert Boyle
        Anatomia comparativa – Georges Cuvier
        Ciências da computação – Charles Babbage
        Análise dimensional – Lord Rayleig
        Eletrônica – John Ambrose Fleming
        Eletrodinâmica – James Clerk Maxwell
        Eletromagnetismo – Michael Faradey 
        Energética – Lord Kelvin
        Entomologia de insetos vivos – Henri Fabre
        Teoria de campo – Michael Faraday
        Mecânica dos fluidos – George Stokes
        Astronomia galáctica – William Herschel
        Dinâmica dos gases – Robert Boyle
        Genética – Gregor Mendel
        Geologia glacial – Louis Agassiz
        Ginecologia – James Simpson
        Hidrografia – Matthew Maury
        Hidrostática – Blaise Pascal


Só para citar alguns nomes. Voltamos a pergunta do nosso título – Cristianismo e Ciência são opostos? Não. O cristianismo se opõe a falsa ciência, que baseia-se em falsos pressupostos e, consequentemente, numa epistemologia incoerente com a realidade. Somente o cristianismo pode explicar a realidade, somente a Bíblia pode conduzir o homem à verdade. Por isso, um trabalho científico que desenvolve pesquisa no campo da filosofia natural, precisa ter uma sólida base na revelação especial de Deus, a Bíblia, e dobrar-se ao Deus criador e soberano sobre céus e Terra. Concluo com a famosa frase de um cientista cristão:



"Pensemos os pensamentos de Deus depois dele". - Johannes Kepler


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Notas:

[i] How should we the live?, Old Tamppan: Fleming H. Revell, 1976, p.132.
[ii] E se Jesus não tivesse nascido, São Paulo – SP: Editora Vida, 2001, p.125.
[iii] Fé na era do ceticismo, São Paulo – SP: Editora Vida Nova, 2015, pp. 118,119.
[iv] A alma da ciência, fé cristã e filosofia natural, São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2005, pp.15,16.
[v] Havendo interesse da parte do leitor sobre a epistemologia pascaliana, poderá encontrar um excelente estudo sobre o tema no ensaio sobre epistemologia pascaliana do filósofo Luiz Felipe Pondé – Conhecimento na desgraça, editora Edusp.
[vi] Citação extraída do livro E se Jesus não tivesse nascido, São Paulo – SP: Editora Vida, 2001, p.135.
[vii] Ibid., p.136.
[viii] Ibid

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Autor: Thomas Magnum
Fonte: Electus
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Deuses falsos – a idolatria não está longe

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O coração é uma fábrica de ídolos
. - 
João Calvino

O homem se afasta daquele que o fez quando acima dele coloca o que ele próprio fez. - Agostinho

Geralmente, quando tratamos de idolatria, associamos de forma quase imediata o culto prestado as imagens feitas por homens, associamos tais cultos a religiões pagãs ou a um cristianismo corrompido, como o do Catolicismo Romano. Na verdade, têm importância a frase de Friedrich Nietzsche: “Há mais ídolos que realidades no mundo”.[i]

Como dizia Calvino, nosso coração é uma fábrica de ídolos. Na verdade, nosso comprometimento com o pecado é um ato de idolatria, ainda que não estejamos diante de um poste ídolo como nos tempos antigos, estamos prestando culto e obediência a um ídolo ou ídolos do nosso coração. A idolatria, sem sombra de dúvida, é o pecado mais presente em nossa vida, nos diz Timothy Keller:

Nossa sociedade atual não é fundamentalmente diferente dessas antigas culturas. Cada uma delas é dominada por seu próprio conjunto de ídolos. Cada uma tem o seu “sacerdócio”, seus totens e rituais. Cada uma delas tem seus templos – sejam eles torres empresariais, spas, academias, estúdios ou estádios – onde os sacrifícios têm de ser feitos para que as bênçãos da boa vida sejam obtidas e os desastres sejam evitados. Quais são os deuses da beleza, do poder, do dinheiro, e do sucesso, se não os assumiram proporções míticas em nossa vida individual e em nossa sociedade? Podemos não ajoelhar fisicamente diante de uma estátua de Afrodite, mas muitas jovens de hoje são levadas a depressão e disfunções alimentares por uma preocupação obsessiva com a imagem. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevadas a proporções cósmicas, realizamos algo como um verdadeiro sacrifício de criança, negligenciando a família e a comunidade para conquistar um lugar mais elevado no mundo empresarial e angariar mais riqueza e prestigio.[ii]

Ao sondarmos nosso coração com as lentes das Sagradas Escrituras, é fato concluirmos que toda idolatria do coração é promovida por autocomiseração, hedonismo e egoísmo. Quando não realizamos algo para glória de Deus isso é um ato idolátrico, porque tem um propósito último que não é Deus. Quando o homem firma um compromisso consigo mesmo que exclui Deus de seu bem, satisfação e felicidade, ele está contido nas amarras da idolatria, seus ídolos são seus sonhos, seus prazeres, seus bens, seu dinheiro, seu sexo, sua beleza, seu ego, sua vaidade. Todo aquele que não vive para a glória de Deus é um idolatra.

            
Diante disso, precisamos identificar as causas e o que nos levam a idolatria, como isso se desenvolve em nosso coração e como combater os ídolos do nosso coração. Na verdade qualquer coisa em nossa vida pode se tornar fonte de idolatria, até mesmo bênçãos que Deus nos deu podem ser tornar um ídolo. O desejo de Deus é que nosso coração esteja nele e não nas coisas. O desejo de Deus é que desfrutemos de suas bênçãos com santo temor. Quando digo temor não digo que devemos ser restritos em nos alegrarmos com o que Deus nos dá, não é isso, mas, digo que devemos sondar as motivações dos nossos corações.
            
Ao lidarmos com isso é necessário que entendamos que, por motivos legítimos, podem-se gerar atitudes idolátricas, exemplo: o desejo sexual é um motivo legítimo para se fazer sexo, mas, como prescreve a Bíblia, apenas dentro do casamento. Sexo fora do casamento, seja ele adultério ou fornicação, e ainda, pornografia e masturbação, são distorções do plano de Deus para a sexualidade humana como fato legítimo. É um ato idolátrico. Onde o prazer exalta-se em detrimento da vontade de Deus prescrita nas Escrituras. Outro exemplo, alguém pode desejar um bom emprego e ganhar um bom salário, mas, qual o fim supremo desse desejo? Será ser uma pessoa reconhecida e famosa, ou venerada e prestigiada por sua boa condição financeira? Ou cuidar bem da família, ajudar os mais necessitados, usar seus talentos para abençoar outras pessoas? O motivo pode ser legítimo, mas qual o fim último do desejo? Se não é a glória de Deus, é pecado, é idolatria.

A idolatria, um ato cultual
            
Ao palmilharmos no Antigo Testamento veremos que muitas vezes o povo de Deus cometeu atos absurdos de idolatria, tais como; o bezerro de ouro (Êx 32.4) que foi feito quando Moisés subiu ao monte e os bezerros feitos por Jeroboão (2 Rs 10.29). Algo interessante mencionarmos com relação aos cultos, tanto de Israel, quanto dos povos que o circundavam, são alguns fatores relacionados a sua estrutura:

       a) Um lugar sagrado
       b) Preceitos e mandamentos
       c) O sacerdócio
       d) Os sacrifícios

De forma íntima todas essas questões também estão ligadas a idolatria do nosso coração. O lugar sagrado é o ambiente que eleva o ídolo, que o exalta, que o adora. Os preceitos nos dizem claramente que, ao sucumbirmos a idolatria, estamos seguindo algum tipo de preceituação que não é a Palavra de Deus, estamos seguindo falsos deuses, falsos ensinos. O sacerdócio nos fala daquele que conduz o culto, comumente somos nós mesmos, quando pecamos deliberadamente contra Deus, quando violamos seus mandamentos e como rebeldes insubordinados, dizemos com nossa atitude pecaminosa que Deus não nos é suficiente. Os sacrifícios são nossos atos, nossa oferta ao ídolo, nossa fidelidade ao pecado. Existem mais alguns fatores que precisamos listar.

A exigência de todo ídolo – amor, confiança e obediência

Todo ídolo requer do homem três coisas: Amor, confiança e obediência. Em muitas passagens a Bíblia usa de forma metafórica os modelos de comportamentos para com os ídolos, nós os amamos, confiamos e obedecemos. Um exemplo bíblico que podemos usar aqui em relação ao amor é a história descrita no livro do profeta Oseias, sua mulher dada à prostituição ilustra Israel que adulterou o relacionamento de aliança com YHWH. Os ídolos nos cativam em amor, um amor platônico, cego, vazio, enganoso, amor que não satisfaz e é aí que muitas vezes desabrocha o vício, seja ele nas drogas, sexo, pornografia, dinheiro, poder. O segundo fator é a confiança, exercemos “fé” ou algum tipo de segurança no ídolo, uma falsa certeza. O ídolo é enganoso. Mentiroso! Falso! O terceiro ponto é a obediência que está ligada ao que falamos acima, sobre preceitos e mandamentos que vão de encontro a vontade revelada de Deus nas Escrituras, essa obediência ao ídolo nos torna incrédulos para com Deus, não cremos na providência divina, mas, na força do braço, do homem, do sistema, isso é idolatria.

As amarras da idolatria – sexo, poder e dinheiro

Temos aqui os três ídolos modernos que ocupam os templos dos corações pós-modernos – Sexo, dinheiro e Poder. Como podemos ver, tais ídolos são presentes em nossa época de forma evidente, não preciso exemplificar muito aqui para que você saiba do que estou falando. Com base em que recursos as grandes indústrias investem em propaganda e marketing? Sexo, dinheiro e poder. Quais as chamadas de comerciais das cervejarias? Mulheres seminuas, saradas, sugestionando-se aos homens que assistem o comercial. O que alimenta a jogatina no nosso país? O desejo por dinheiro! O que alimenta o tráfico de drogas em nosso país? O Dinheiro! O que leva jovens universitárias virarem prostitutas de luxo? Dinheiro! Como disse o Apóstolo Paulo, o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Veja bem, não é o dinheiro em si, mas o amor a ele. O motivo de buscar dinheiro é legítimo, precisamos de dinheiro, mas, os meios usados de forma apaixonada são manifestações idolátricas. 

Por último fica o poder. O desejo de sobressair-se, de ser notório, poderoso, acima dos demais, concentrador de forças controladoras. Isso se manifesta em várias instâncias; no casamento, no namoro, na igreja, no trabalho, na convivência social. A questão aqui não é ter o poder, você pode ser um chefe na sua empresa, ou conseguir um doutorado, ou passar num concurso muito concorrido. A questão é o comportamento não condizente com o evangelho, que nos ensina a sermos humildes, pobres de espírito, reconhecendo que tudo que temos e somos é pela graça de Deus e não por simples mérito nosso, se conseguimos algo foi porque Deus nos dotou de capacidade. Ao nos portarmos de forma orgulhosa e soberba estamos cometendo idolatria, porque a soberba destrona a Deus e nos coloca no lugar que só cabe a ele.

O motivo da nossa existência 

A primeira pergunta do Catecismo Menor de Westminster diz:

Qual é o fim principal do homem?
Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.

Para lutarmos contra os ídolos do nosso coração devemos seguir alguns conselhos das Escrituras.


Sonde o seu coração"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice." 1 Coríntios 11.28

Peça a Deus que esquadrinhe suas intensões"E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno." Salmos 139.24

Onde está o seu maior prazer? "Tenho desejado a tua salvação, ó Senhor; a tua lei é todo o meu prazer." Salmos 119.174

Quem são os seus conselheiros?"Também os teus testemunhos são o meu prazer e os meus conselheiros." Salmos 119.24

A quem você está servindo? "Ao Senhor teu Deus temerás; a ele servirás, e a ele te chegarás, e pelo seu nome jurarás." Deuteronômio 10.20

Conclusão

A vida cristã de fidelidade ao Senhor requer de nós uma adoração permanente, como dizia Spurgeon “Se somos fracos na nossa comunhão com Deus, somos fracos em tudo”. A idolatria é uma ameaça permanente ao povo da aliança, contanto nos vale a advertência bíblica.

"E serviram aos seus ídolos, que vieram a ser-lhes um laço"Salmos 106.36

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Notas:

[1] Crepúsculo dos Ídolos, Friedrich Nietzsche. 
[2] Deuses Falsos, Timothy Keller, ed. Thomas Nelson

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Imagem: “Adoração ao bezerro de ouro”, óleo sobre tela do século XVII, do pintor italiano Andrea di Lione. Arte: Blog Bereianos.
Divulgação: Bereianos
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Vivificados para a morte

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Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria.” - Colossenses 3.5

O que é central na mensagem cristã das boas-novas, o Evangelho para o mundo? Uma coisa somente, a morte redentora do Senhor Jesus Cristo”. - Francis Schaeffer

Ao lidarmos com a morte estamos tratando de algum tipo de separação, algum tipo de distanciamento necessário por algum motivo - seja ele evidente ou não. A morte física é a separação da nossa parte imaterial da nossa parte material; a morte espiritual é a separação de nosso ser interior, nossa alma, de Deus. Esse distanciamento de Deus nos destituiu da sua glória. Na sua glória existe vida e morte, a majestade e julgamento, o poder e a graça, santidade e luz. Mas as Escrituras não tratam apenas dos tipos de morte citadas acima, tratam também da morte do cristão, da mortificação de nossa natureza caída. E não é só isso, mas, como dizia Francis Schaeffer, trata da centralidade da morte.
           
No limiar do pensamento moderno, a vontade do homem é colocada em evidência e entronizada como senhora da vida e da morte. As Sagradas Escrituras não ensinam assim. As Escrituras nos mostram que somente Deus pode vivificar o homem caído, vide o texto de Ezequiel 37.13,14:

E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos sepulcros, e vos fizer subir das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR.
        
O Texto aqui nos mostra que o Senhor é o Deus da vida, ele vivifica seu povo. No conhecido livro A morte da morte na morte de Cristo vemos que a morte também tem um papel central no pensamento do teólogo puritano John Owen, tratando sobre o triunfo de Cristo por sua morte e ressurreição. A morte que foi imputada ao homem como juízo de Deus ao pecado na queda. Sobre as consequências da queda de Adão e os efeitos de sua morte nos diz o Bavinck:

Portanto o pecado que Adão cometeu não ficou restrito somente à sua pessoa. Ele continuou a operar em e através de toda a raça humana. Nós não lemos que por um homem entrou o pecado em uma pessoa, mas no mundo (Rm 5.12), e também a morte sobreveio a todos os homens por causa do pecado desse homem.[i]

Na queda a morte entrou no mundo de Deus, esse fato é de suma importância para teologia cristã, visto que não somente a morte de Adão vai ocupar um lugar importante, mas toda teologia do Antigo Testamento parte de uma questão ou questões relacionadas à morte e a redenção. Em Adão a morte entrou no mundo, mas, pela morte a vida e reconciliação com Deus foram concedidas por Cristo, o segundo Adão, como Romanos 5.8 nos diz: 
Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” Também em Romanos 4.25 lemos: O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação. 

Isso não é de somenos importância na teologia cristã, a morte do primeiro Adão trouxe juízo e destituiu o homem da glória de Deus, a morte do segundo Adão (Cristo) trouxe reconciliação ao que estava separado pela morte e o restaurou a glória de Deus, “Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória” (Colossenses 1.27). Diz Calvino:

[Paulo] denomina Cristo a esperança da glória, para que soubessem que nada lhes está faltando para a completa bem-aventurança, quando já possuem a Cristo. Não obstante, esta é uma maravilhosa obra de Deus, que em vasos de barro e frágeis (2Co 4.7) rende a esperança da glória celestial.[ii]       

Ao compreendermos então a centralidade da morte expiatória de Cristo e seus gloriosos efeitos redentores sobre os homens, a Bíblia nos continua a mostrar que essa morte tem significado para a vida cristã, não somente no ato salvador de Cristo, mas em nossa união com ele também, Cristo morreu pelo seu povo (Mt 1.21) para que seu povo fosse salvo e santificado, para que os seus continuassem morrendo para o pecado, isso fala de nossa luta contra nossa natureza carnal, pecadora. Nos diz a Escritura em Colossenses 3.5:


Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria.

Diante da importância do tema estamos perante um espectro maravilhoso da Escritura, o sacrifício de Cristo gera em nós na regeneração do Espírito Santo uma vida de santidade e santificação, ato posicional e contínuo. Essa mortificação se dá pela gloriosa operação do Espírito em nós que nos capacita por seu poder a resistirmos e lutarmos contra o pecado, e agora com os olhos do entendimento abertos para o conhecimento da glória, vivermos como mortos para o pecado. Gosto do que Schaeffer diz sobre essa questão:

[...] a Bíblia nos dá uma negativa, de fato, muito definida – uma que não pode se tornar uma abstração, mas que marca as coisas difíceis da vida normal. Já vimos que a Palavra de Deus é clara ao dizer que em todas as coisas, inclusive naquelas que são difíceis, devemos estar contentes e dizer “muito obrigado” a Deus. É uma verdadeira  negativa, a negativa de dizer “não” a qualquer domínio das coisas e do eu.[iii]       

A Bíblia nos mostra que a vida cristã prova essa negativa que Schaeffer nos diz. E essa negativa nos eleva a uma “positividade”, ou seja, uma vida satisfeita em Deus, uma vida que se contenta e se deleita na vontade de Deus que é melhor que a nossa (Rm 12.1,2). Essa negativa só pode ser vivida quando se tem uma correta perspectiva da verdade e da vida, uma vida não vivida pela morte não pode ser mortificada pela vida. Essa mortificação só pode acontecer quando conhecemos a Deus, e como diz o primeiro capítulo das Institutas de Calvino, o homem só conhece a si mesmo se conhecer a Deus, o conhecimento de Deus é a porta para o entendimento da realidade, fora desse conhecimento real não é possível um conhecimento do que é, sem essa morte posicional e contínua não se conhece de fato o real, mas, o que temos é um efeito noético do pecado dominando a mente do homem. Ainda que pela graça comum algum bem possa ser desfrutado, mesmo manchado pelo pecado, é impossível um conhecimento verdadeiro e real sobre o homem interior e sua verdadeira posição e condição no mundo. Somente pela morte de Cristo e por nossa união com ele podemos conhecer de fato. Continua Schaeffer:

É uma perspectiva diferente. É uma perspectiva que é a antítese daquela que o mundo tem, aquela que normalmente nos rodeia. Quando começamos a contemplar essas palavras nesse cenário – a perspectiva é totalmente outra – a perspectiva do Reino de Deus em vez da do mundo caído e de nossa própria natureza caída – é bem diferente. Somos pressionados por um mundo que não quer dizer não ao eu – não só por uma razão menor, mas por falta de princípio, porque os homens estão decididos a ser o centro do universo. Quando nós saímos um pouco dessa perspectiva muito sombria deles e entramos na perspectiva do Reino de Deus, então essas negativas que são colocadas sobre nós assumem um aspecto inteiramente diferente.[iv]

Logo, segundo a linguagem de Schaeffer a perspectiva do reino pode nos dar a dimensão correta da realidade, da verdade. Ainda sobre Colossenses 3.5, Calvino diz:


Até aqui ele esteve falando do desprezo do mundo. Agora avança mais e aborda uma filosofia mais elevada, a saber, a mortificação da carne. Para que isso seja mais bem compreendido, notemos bem que há uma dupla mortificação. A primeira se relaciona com as coisas que nos cercam. Ele tratou desta até aqui. A outra é a interior – a do entendimento e da vontade, bem como de toda nossa natureza corrupta. Ele faz menção de certos vícios a que chama, não com estrita exatidão, mas, ao mesmo tempo, elegantemente: membros. Pois ele concebe nossa natureza como sendo, por assim dizer, uma massa formada de diferentes vícios. Portanto, estes são nossos membros, visto que, de certa maneira, estão fundidos em nós. Ele os chama também de terrenos, aludindo ao que dissera: “Não nas coisas que não da terra” [v.2], mas num sentido diferente. “Tenho-vos admoestado para que as coisas terrenas sejam desconsideradas; no entanto, deveis tomar como vosso alvo a mortificação desses vícios que vos detêm na terra.” Entretanto, ele notifica que somos terrenos na medida em que os vícios de nossa carne são vigorosos em nós, e que se tornam celestiais pela renovação do Espírito.[v]

Fica claro que é legada a nós uma vida santa pela renovação do Espírito e isso promove uma transformação espiritual, social e cultural no homem, a mortificação em nossa vida é fruto da nossa união com Cristo, é fruto do nosso compromisso com o evangelho, é a vida vivida na morte.

          
Não poderia deixar de mencionar o clássico livro do pastor congregacional John Owen, considerado o príncipe dos puritanos, A Mortificação do Pecado:

Cada pecado não mortificado produzirá duas coisas:
a) Enfraquecerá a alma e a privará da sua força. Quando Davi permitiu que um desejo pecaminoso não mortificado se alojasse no seu coração ele ficou sem vigor espiritual [...] Qualquer desejo pecaminoso que não seja mortificado fará murchar o espírito  e todo o vigor da alma de desse modo enfraquecerá para o cumprimento de todos os seus deveres.
b) Assim como o pecado enfraquece, ele também obscurece a alma e a priva do seu conforto e da sua paz. O pecado é como uma nuvem espessa que se espalha sobre a face da terra e a separa dos raios do amor e do favor de Deus. Rouba a pessoa da sua percepção e do gozo dos privilégios da sua adoção. A mortificação é o único remédio contra esses dois efeitos malignos do pecado na alma.[vi]

No entanto meu objetivo não é concluir de forma negativa sobre a negativização do pecado, ou a mortificação. Ainda tomando as palavras de Owen, vejamos:


A Mortificação também tem um efeito muito benéfico sobre o crescimento da graça de Deus no coração humano.Se compararmos o coração humano a um jardim então a mortificação pode ser assemelhada ao trabalho de se remover as ervas daninhas que impediriam o crescimento das plantas da graça de Deus. Pense num jardim onde uma planta preciosa tenha sido plantada. Se o jardim for regularmente cuidado a planta florescerá. Se, porém, ervas daninhas forem deixadas, a planta será fraca, murcha e sem utilidade. Onde a mortificação não consegue destruir as ervas daninhas do pecado, as plantas da graça de Deus estão prestes a morrer (Ap. 3.2). Estão murchando e morrendo. Tal coração é como o campo do preguiçoso – tomado tanto por ervas daninhas que mal podem ver o trigo. Quando você olha para esse coração, as graças da fé, do amor e do zelo lá estão; todavia são tão fracas, tão entrelaçadas de ervas daninhas do pecado, que não tem utilidade. Que esse coração seja liberto do pecado pela mortificação; e então, estas plantas da fé, do amor e do zelo começarão a florescer e estarão em condições de ser utilizadas para todo bom propósito.[vii]

Nosso jardim irá desfrutar mais vida e beleza, ao retirarmos as ervas daninhas, isso só será feito pela morte, só será possível quando nosso desejo e satisfação por Deus for maior que nossa inclinação ao pecado.


Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. - Gálatas 2.20

Deus é mais glorificado em nós quando somos mais satisfeitos nele.” - John Piper

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Notas:
[i] - Teologia Sistemática, Herman Bavinck, p.197 – Sinodal. (Arquivo em PDF)
[ii] - Comentário de Colossenses, João Calvino, p.526,528 – Ed. FIEL
[iii] - A Verdadeira Espiritualidade, Francis Schaeffer, p. 36 – Ed. Cultura Cristã
[iv] - Ibd, p. 40
[v] - Comentário de Colossenses, João Calvino p.566 – Ed. FIEL
[vi] - A Mortificação do Pecado, John Owen, p. 108,109 – Ed. PES
[vii] - Ibd, p.110.

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Autor: Thomas Magnum de Almeida
Fonte: Electus
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