Nós não somos pecadores?

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A cantora Priscilla Alcântara realmente foi infeliz em seu comentário. Segundo ela, a religião diz que somos pecadores, mas nós (os cristãos) não somos, pois, Cristo tirou o nosso pecado. E agora nós somos santos. Por pertencemos a um Deus que é perfeito, também nos tornamos perfeitos, segundo sua fala.

Antes de entrar no cerne da questão, acredito que a forma como muitos procederam com relação a pessoa da Priscilla foi algo que passou do tom. Sei que dá para corrigir sem taxá-la de herege e adjetivos afins. Também alerto que o seu equívoco doutrinário não é termômetro para julgar a veracidade de sua fé. Há um mal no Brasil de que cantor gospel tem que sair pregando sem ter dom nem chamado para tal. Ela está inserida nessa - digamos - "cultura" prejudicial ao Ministério da Palavra. E isso pode e deve ser combatido, mas que não se misture alhos com bugalhos: o zelo doutrinário não pode virar um neo-gnosticismo. Não sei a quanto tempo ela professa o credo cristão e desconheço a igreja que a mesma frequenta. As respostas para essas duas questões devem ser levadas em conta, pois, ainda há tempo para a Priscilla crescer em graça e no conhecimento do SENHOR, evitando assim algumas interpretações truncadas do Evangelho. Para isso, é bom sentar e aprender, não se considerar apta para ministrar a Palavra. Enfim...

A Priscilla erra ao desconsiderar que em Cristo somos justificados e nossos pecados não mais serão contados no Dia do Juízo. Somos salvos pela graça, mas o Cordeiro de Deus pagou o preço. Em outras palavras, somos salvos da condenação e libertos do poder do pecado, declarados justos diante do Supremo Juiz pelos méritos de Cristo. O que não anula a nossa inclinação adâmica para pecar. O fato de sermos santos em Cristo, é real, todavia não consumado. Deixaremos de sermos pecadores em definitivo apenas no advento da segunda vinda, quando adentrarmos no Reino dos Céus "ele transformará os nossos corpos humilhados, para serem semelhantes ao seu corpo glorioso". Filipenses 3:21

Até lá, temos que reconhecer diante de Deus que somos pecadores, carentes da graça diariamente. Paulo diz: "Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia!" 1 Coríntios 10:12. E João é taxativo ao afirmar que: "Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós." 1 João 1:8. Por isso a confissão de pecados é essencial para uma vida piedosa. Lutero foi sábio ao dizer que o cristão é simultaneamente justo e pecador. Esta tensão é vivenciada por todos os remidos até estarmos em definitivo com o nosso Redentor. Lemos na Escritura o seguinte: "Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam". Gálatas 5:17

Então, sendo bíblicos, há que se discordar veementemente da ideia de que não somos pecadores. E nem a doutrina da justificação, que nos torna santos posicionalmente em Cristo, servirá para amenizar o que foi dito pela Priscilla. Nosso status em Cristo (repito: real, mas na espera da consumação) não nos torna livres da inclinação pecaminosa, que provém de nossa carne. Aqui, neste mundo, estamos em santificação, que é um processo. E faz parte deste processo, o reconhecimento de nossa condição pecaminosa aliado a uma vida constante de confissão e contrição por nossos pecados. Que todo cristão venha entender isso, incluindo a Priscilla Alcântara, pois esta é a sã doutrina, Palavra que gera vida e nos coloca na dependência do nosso Deus bendito.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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Casamento obrigatório? Respondendo...

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Determinado pastor fez um recorte de uma fala de O. Palmer Robertson: “Portanto, o casamento pode ser considerado como uma dimensão altamente significativa na ordenança divina da criação. Essa ordenança continua a ter importância obrigatória para o homem na redenção”.

A fala está no livro O Cristo dos Pactos” (p. 64) e encerra a questão do casamento na aliança da criação. Após fazer o resgate dessa frase, ele cita 1 Coríntios 7. 1,27: “E aos solteiros e viúvas digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo... Estás casado? Não procures separar-te. Estás livre de mulher? Não procures casamento.

Na citação de Robertson, ele coloca o título “Teologia Aliancista”. Já o texto de coríntios, intitula como “Teologia Bíblica”, dando a entender que existe uma contradição, forçando o julgamento de que o aliancismo não é bíblico. Todavia, o pastor além de ser tendencioso em seu recorte, também foi desonesto. O próprio Robertson não ignora o texto mencionado e dá uma explicação. Vejamos:

O argumento de Robertson, que é um eminente teólogo aliancista, repousa no fato de que na criação Deus institui o casamento como sendo uma ordenança para o homem criado. “...não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Ao ser questionado sobre o divórcio, que é a anulação do casamento, Jesus evocou a criação para defender a indissolubilidade do matrimônio “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher’” (Mt 19.4). Cristo então prossegue: “‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe (Mt 19.5,6).

Vejam que aquilo que Deus estabelece na criação é paradigma para a humanidade. O casamento é a base da sociedade e é responsável pelo povoamento da terra. “Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se!” (Gn 1.28). A multiplicação se dá através da geração de filhos mediante o ato sexual, e este só é abençoado no leito do matrimônio. A sexualidade foi algo criado por Deus para o deleite do casamento. Adão e Eva foram criados para formar uma família, dando origem a outras famílias. Por isso que em Levítico 20 há uma lista de pecados envolvendo relações íntimas. O adultério, o incesto, a sodomia, relações sexuais com parentes de primeiro grau e zoofilia são atos pecaminosos que desagradam a Deus. Sendo assim, o casamento é normativo e é obrigatório para a raça humana continuar aquilo que começou lá no Éden. Essa é a citação de Palmer em seu devido contexto:

“A propagação da raça por meio da instituição do casamento indica o meio primário pelo qual os propósitos de Deus na redenção encontram cumprimento. Deus realiza seus propósitos de redenção não por um método contrário às estruturas da criação, mas por método em conformidade com a criação.
Portanto, o casamento pode ser considerado como uma dimensão altamente significativa na ordenança divina da criação. Essa ordenança continua a ter importância obrigatória para o homem na redenção”. (O Cristo dos Pactos, p. 64)

A obrigação não é em relação aos indivíduos, pois alguns destes não se casarão - o que diz o texto de Paulo aos coríntios, e que Robertson já havia comentado anteriormente, na pág. 63:

“Embora a injunção de Deus para multiplicar e encher a terra aplique-se ainda aos homens de hoje, e o casamento ainda permaneça como a intenção criacionalmente ordenada ao homem, não se deve ver nenhuma contradição quando a expressão apostólica ‘é bom que o homem não toque mulher’ (1Co 7.1) é colocada ao lado da ordem da criação ‘não é bom que o homem esteja só’ (Gn 2.18). Com base no ‘dom’ necessário para permanecer no estado de solteiro (1Co 7.7), e devido aos sofrimentos do tempo presente (1Co 7.26), o homem ou a mulher pode deixar de casar-se”.

As dificuldades do casamento, isto é, dificuldades de se relacionar, resultam do pecado: “Mas aqueles que se casarem enfrentarão muitas dificuldades na vida, e eu gostaria de poupá-los disso” (1 Co 7.28b). Um pouco antes Paulo diz que sua recomendação para não casar não é mandamento, é um parecer que ele dá para evitar os que são virgens e jovens para que não sofram com as pressões da vida matrimonial (vide 1 Co7:25,26). Gosto de uma frase que diz: “Enquanto o pecado for amargo, o casamento não poderá ser doce” (Extraída de “Quando Pecadores Dizem Sim”). Isso quer dizer que é o fato dos cônjuges serem pecadores causam as aflições da vida de casado, todavia, a percepção de que somos pecadores também opera nos cristãos a dependência e o desejo de andar com Cristo, tendo fé de que ele nos santifica mediante a obra realizada pelo Espírito Santo em nós.


Dito tudo isso, chegamos então a duas conclusões:

1. O que o aliancismo prega sobre o casamento não é contrário a Bíblia, nem mesmo é contrário ao texto específico de 1 Coríntios 7. O casamento é obrigatório para a RAÇA HUMANA sim, além disso, ele é o meio ordinário para que Deus cumpra seu propósito redentor. Não se pode negar tal fato por conta de alguns poucos indivíduos que, por dom ou por outras razões, optam por não casar.

2. O tal pastor, além de infeliz em sua saga para enfraquecer o aliancismo, usou um meio desonesto para fazer isso. O recorte intencionalmente distorceu o que disse Palmer Robertson. Isso é dar falso testemunho, quebra do nono mandamento (Coisa grave!) Mas, não sei se por conta de seu dispensacionalismo, talvez ele ache que o decálogo não seja válido, podendo então ser assim descumprido. Será? Bem, a certeza que pode se ter é que o episódio é muito triste. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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A perigosa interpretação de Mateus 24.36 feita pelo Pr. Marcos Granconato

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Recentemente deu-se uma polêmica envolvendo o pastor batista Marcos Granconato, devido a um vídeo em que o mesmo fala que Jesus não é onisciente quando se considerado as relações intratrinitárias, limitando sua onisciência às relações extratrinitárias. Em outras palavras, Granconato disse que Jesus só seria onisciente na relação da Trindade com as coisas criadas, pois, segundo o mesmo diz em sua mensagem, Deus-Pai guardou certas coisas apenas para si. Alguns o acusaram de heresia, já outros foram mais brandos, discordando de sua posição, todavia não o chamando de herege. O fato é que o Granconato foi infeliz em suas afirmações, ditas ao expor o difícil texto de Mateus 24.36, que diz o seguinte: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”. Mais à frente voltarei a esse texto, mas antes gostaria de dizer o porquê considero o ensino do Marcos Granconato perigoso.

Dizer que Deus-Pai guarda coisas para si que não são reveladas ao Deus-Filho, inferioriza Jesus. Ele não poderia ser uma divindade da mesma “estatura” do Pai, já que não seria onisciente por completo, sendo que a onisciência é um atributo divino. Mas, a máxima cunhada por Tertuliano, que foi reafirmada pela ortodoxia cristã diz “uma substância, três pessoas”. Por substância, devemos entender que é o elo incomum entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no qual se baseia a unidade da Trindade. É devido à substância ser a mesma que não ocorre uma divisão entre as três pessoas da Deidade, gerando uma unidade na diversidade. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo desempenham papéis diferentes no plano de salvação (Trindade econômica), sem que haja a perda dessa unidade.

Após Tertuliano, talvez Agostinho de Hipona tenha sido o teólogo que mais contribuiu com a doutrina trinitária, principalmente na tradição ocidental. Ele então afirma que não se pode subordinar (ontologicamente) as pessoas da Trindade. Na eternidade eles são iguais em atributos, poder e glória. Portanto, se afirmarmos, como fez o Granconato, que Deus-Pai retém algum conhecimento para si, logo, caímos no equívoco da subordinação eterna. Contudo, como defende Berkhof[1], a natureza divina é indivisível, isto é, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade. Franklin Ferreira até recomenda rejeitarmos a prática de enumerar os membros da Deidade (e.g. Jesus é a segunda pessoa da Trindade) e diz que a razão para não fazermos isso está na indivisibilidade da natureza divina, inexistindo subordinação entre elas. Logo, embora sendo três personas distintas, elas não se somam.[2]

Granconato, frente ao que já foi exposto, ainda pode argumentar que isso não resolve a dificuldade presente no texto de Mateus 24.36. O que é verdade. Mas o ponto aqui deveria ser o seguinte: no afã de responder esse mistério, é válido prejudicar a doutrina trinitariana? Pois, se a Trindade é o cerne da adoração cristã, não podemos ter uma compreensão equivocada da mesma. Embora reconhecendo que o assunto é complexo, podemos subir “nos ombros de gigantes” e falar sobre a Trindade sem que a plena igualdade de seus membros seja distorcida.[3]

Para interpretarmos Mateus 24.36, a teoria da kenosis não seria a melhor resposta, como alguns deram ao Granconato em debates nas redes sociais. Pois, dizer que Cristo se esvazia, no sentido de deixar de ter seus atributos, seria o mesmo que afirmar que ele não mais teria a substância que concede unicidade à Trindade. O esvaziamento a que a Escritura se refere (vide Fp 2.6-8) não é referente a atributos, mas sim a posição de Cristo, que sendo igual a Deus-Pai em soberania e glória, encarna, e num estado de humilhação se coloca em condição de subserviência.

Então, para sermos coerentes com a doutrina reformada da unipersonalidade de Cristo, presente nas confissões e catecismos, que dizem existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta concomitantemente o status divino-humano, devemos observar a contribuição do extra-calvinisticum.[4] A contribuição em questão, que foi o ponto de discordância entre calvinistas e luteranos, diz, em suma, que os atributos divinos não devem ser limitados pela encarnação. Embora haja completa divindade no Verbo encarnado, pois a natureza divina se uniu a natureza humana numa mesma pessoa, seus atributos não estão confinados na carne, eles estão presentes dentro e fora do corpo de Cristo. Por isso que quando Cristo morre na cruz, a divindade não morreu, pois, a natureza divina não participa da fraqueza humana. Assim como também, as limitações da natureza humana não alcançam os atributos divinos. Por isso que Cristo foi limitado circunstancialmente, mesmo que na sua eterna essência ele nunca tenha deixado de lado a sua onisciência. Esta é uma posição que se enquadra com os postulados de Calcedônia e que faz jus ao fato de Cristo responder que não sabia o futuro, todavia sem deixar de ser onisciente.

Para ficar mais claro, tomemos outro atributo como exemplo: a onipresença. Quando Jesus, em sua forma corpórea deslocava-se de um lugar para o outro, não seria ele, como membro da Trindade, um ser onipresente? O conceito extra-calvinisticum vai dizer que mesmo ele ascendendo aos céus corporalmente, e estando à destra do Pai, se faz presente na ceia. Logo, a encarnação não pode delimitar a divindade de Cristo. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg:

Pergunta 47- “Mas não está Cristo conosco até o fim do mundo, como nos prometeu?” 
Resposta - “Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; quanto à sua natureza humana, agora já não está na terra; mas, quanto à sua divindade, majestade, graça e espírito, em nenhum momento está ausente de nós.”
Pergunta 48 – “Se a sua humanidade não está onde quer que esteja a sua divindade, então não estão as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra?”
Resposta - “Certamente não. Visto que a divindade não está limitada e está presente em toda parte, fica evidente que a divindade de Cristo está certamente além dos limites da humanidade que ele tomou, mas ao mesmo tempo sua divindade está em e pessoalmente permanece unida à sua humanidade.”

Como bem observa o Dr. Heber Campos[5] “Segundo o pensamento reformado, o Logos está no Cristo total, mas a natureza divina do Logos extrapola os limites físicos da natureza humana”. Pois, o infinito não cabe no finito. Se esta não é uma resposta totalmente satisfatória, é de longe a melhor resposta para lhe dar com a dificuldade em questão, pelo simples fato de não trazer prejuízo a cristologia, e nem desembocar numa concepção equivocada da Trindade.


Concluo dizendo que entendo a complexidade do assunto e que todo teólogo está sujeito a dar suas “escorregadas”. O pastor Marcos Granconato é alguém teologicamente gabaritado e que possui anos e anos de labor ministerial, contudo, não está imune aos erros. No entanto, acredito que ele tenha escolhido muito mal a sua resposta frente a uma questão difícil. Talvez, diante da dificuldade de expor o texto, seria melhor apenas dizer que a questão da união hipostática é um mistério inefável, para usar palavras do próprio Calvino. E não negar a ontológica onisciência do divino Logos, como preferiu. Não apenas por sua imagem, mas por zelo pela sã doutrina, cairia bem uma revisão de sua concepção, reconhecendo que seu ensino abre um precedente muito perigoso que pode resultar em noções heréticas da doutrina trinitária. 

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P.S. Gostaria de esclarecer três coisas: A primeira delas é que optei por fazer um texto breve, por achar mais propício devido à densidade do assunto. A segunda é que o Granconato é um irmão em Cristo, não o trato como um adversário. E por fim, não tenho a mínima intenção de gerar um debate cheio de desdobramentos, portanto, esse texto será o único em que exponho o que outros autores já expuseram com maestria. Destaco aqui o Dr. Heber Campos e suas obras sobre a união hipostática das naturezas de Cristo. 

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Notas:
[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, p.84.
[2] Franklin Ferreira usa como referência a obra de Basílio de Cesaréia para defender a plena igualdade entre a trindade. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=bfmLE6SjpLI.
[3] Mesmo havendo alguns teólogos renomados que defendem uma subordinação ontológica, como o Wayne Grudem e Bruce Ware, isso não pode ser tomado como argumento favorável. John Stott, um dos mais eminentes e profícuos teólogos do século XX, defendeu o aniquilacionismo, e nem por isso a ideia ortodoxa do castigo eterno foi flexibilizada apenas porque o Stott ensinou o oposto.
[4] Um ótimo texto sobre o Extra-Calvinisticum escrito pelo Rev. Alan Rennê Alexandrino está disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370.
[5] CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor. Ed. Cultura Cristã, p.284. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Uma crítica ao anarquismo cristão pregado por Liev Tolstói

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Introdução

Quando se fala de Anarquia e Cristianismo, logo se identifica duas doutrinas antagônicas. A primeira é uma doutrina política, libertária e materialista. A segunda, metafísica e proposicional. Porém, ambas se encontram no pensamento de Liev Tolstói, que as sintetizou ao interpretar o Evangelho de uma forma moralmente radical, livre do caráter sobrenatural das Escrituras, desenvolvendo argumentos muito próximos à ideologia anárquica de Bakunin, de Proudhon e de Thoreau. Essa simbiose pode ser explicada através de um conceito presente na sociologia: a Afinidade Eletiva.

Entende-se por “Afinidade Eletiva” um movimento de convergência capaz de se chegar a uma fusão entre duas configurações sociais ou culturais. O termo aqui não é sinônimo de influência ou correlação, mas sim um conceito que nos permite explicar processos de interação irredutíveis à causalidade direta. A expressão é oriunda de alquimistas medievais, mas é Max Webber que a emprega numa perspectiva sociológica para analisar a relação entre a religião e o ethos econômico. O termo já mencionado ganha fundamentação na clássica obra: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em 1989, o cientista social Michel Löwi lança no Brasil o livro: Redenção e Utopia: O Judaísmo Libertário na Europa Central, que analisa, utilizando-se da “Afinidade Eletiva”, para entender a ligação entre o messianismo e as ideias libertárias de um grupo de intelectuais judeus que surge – na Europa Central – no fim do século XIX. Este é o conceito comum empregado por aqueles que estudam o anarquismo tolstoiano. Ao se converter (à sua maneira), o escritor russo sequer imaginaria que a sua experiência espiritualista o conduzisse ao legítimo anarquismo. Isso só acontece quando a “Não Resistência” passa a ser rigidamente observada por ele. Neste artigo será apresentado o pensamento de Tolstói, principalmente o contido no livro O Reino de Deus Está em Vós. Ao final, serão feitos alguns apontamentos críticos. Mas, antes, é preciso situar o leitor sobre o que é anarquismo conforme os seus principais expoentes. 

O anarquismo e seus expoentes teóricos

Anarquia é a ausência de senhor, de soberano, tal é a forma de governo que nos aproximamos todos os dias e que o hábito inveterado de tornar o homem por regra e sua vontade por lei nos faz olhar como o cúmulo da desordem e a expressão do caos (PRODHON, 2007).

George Woodcock definiu o Anarquismo como sendo um “movimento de filosofia social” [1] que tem por objetivo final a transformação da sociedade. Embora existam várias correntes, todas elas “desembocariam no mesmo rio”, pois é comum a todas substituir o Estado autoritário por alguma forma de cooperação mútua entre homens livres, ou seja, uma autogestão que não precisasse mais da tutela estatal, utilizando-se do poder coercitivo para determinar aquilo que está dentro ou fora da legalidade.


O Estado é o mal que precisa ser aniquilado, para que enfim a humanidade seja livre e estabeleça uma relação de igualdade ainda não experimentada, uma vez que o Governo está a serviço de uma classe dominante que, para assegurar sua dominação, necessariamente promove uma distribuição desigual de renda e oportunidade. Esse Estado além de deter o monopólio da força – com seus exércitos, guardas pretorianas e departamentos de polícia – também conta com aparelhos ideológicos que manipulam a população e induzem o povo a viver resignado em meio a tanta miséria. Dentre esses aparelhos, a Religião, de forma institucionalizada, é um dos alvos principais dos que se professam anarquistas. É tanto que um dos lemas mais populares do movimento dizia: “Nem Deus, nem Senhor”. 

O anarquismo, em seu bojo, é antiteísta. Bakunin, o russo que ambicionava “destruir para criar”, tornou-se um dos mais atuantes do movimento libertário, chegando a participar da I Internacional, divergindo de Marx e ameaçando a sua hegemonia até ser expulso em 1872. Cria então a Internacional “Antiautoritária” e rompe os vínculos com o marxismo. O pensamento bakuniniano foi bastante assimilado pelos anarquistas, sendo mais influente do que o próprio Proudhon, considerado por muitos o pai do Anarquismo. Segundo ele, o desenvolvimento humano é composto por três elementos: 1- a animalidade, 2- o pensamento e 3- a revolta. O primeiro corresponde à economia individual e social, o segundo, à ciência e o último, à liberdade.

Contrariando os idealistas, afirma ser o homem produto da “vil matéria” e não um ser criado por um ente ou inteligência superior. No entanto, essa matéria é extremamente dinâmica e produtiva. Está sempre em movimento e, no caso dos homens, os direcionam para libertá-los da sua condição primitiva: através da razão, estes se tornam conhecedores de sua própria existência, emancipando-se. Tal o percurso da evolução. Eis a origem de seu antiteísmo. A partir do momento em que os teólogos atribuem toda a vileza aos homens e tudo o que for de belo, justo e puro como sendo atributos de Deus, o homem torna-se escravo da divindade e isso é um entrave ao seu próprio desenvolvimento que tem por finalidade a libertação. A ideia de Deus faz com que o homem abandone a razão e, sem ela, ele nunca atingirá a liberdade. Por isso Bakunin (2011) propõe a abolição da divindade: “inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo”.

Um texto escrito em 1871, onde é evidente todo o seu entusiasmo, Bakunun afirma:

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencidos de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas (BAKUNIN, 2011, p.58).

Foi Proudhon quem primeiro reclamou para si o status de anarquista. E fez através de uma prosa vigorosa, simulando um diálogo repleto de questionamentos sobre seu posicionamento político, desembocando na seguinte afirmação: “(...) vós acabais de ouvir a minha profissão de fé, séria e maduramente refletida; ainda que muito amigo da ordem, eu sou, com toda a força do termo, anarquista. Escutai-me”.[2]  Proudhon é um opositor de toda a forma de autoridade, denunciando os seus malefícios, seja esta oriunda da religião, do governo, do sistema econômico ou até mesmo do socialismo.


Proudhon descarrega toda sua raiva ao redigir Contradições Econômicas, acentuando o discurso antirreligioso. Devido às condições miseráveis da humanidade, questiona o conceito de uma deidade benevolente e conclui que se Deus existe, de fato, então ele é mau. Para triunfar sobre a tirania, faz-se necessário opor-se a Deus. Note-se que ele não nega a existência do Divino, apenas se opõe a ela. Nesse ponto, assemelha-se aos anarquistas que o sucederam, dentre eles o próprio Bakunin. Criticava o dogmatismo com ênfase, por isso mesmo não adotava o extremo de se declarar ateu. Proudhon enxergava Deus e o homem como duas forças antagônicas, realidades incompletas, que se opõem. Para o bem da humanidade, essa divindade dominadora precisava ser rejeitada.

Tolstói e a nova doutrina

Leon Tolstói dedicou três anos de sua longa vida – morreu aos 92 anos – ao escrever O Reino de Deus está em Vós. A obra gerou imensa polêmica e dividia os leitores entre os que aplaudiam e concordavam e os que rechaçavam o seu conteúdo. Seu livro foi tirado de circulação na Rússia czarista dos Romanov e a Igreja Ortodoxa determinou a sua excomunhão. Qual o conteúdo da obra afinal? O subtítulo do ensaio começa por nos elucidar: O Cristianismo apresentado não como uma doutrina mística, mas como uma moral nova. 

Segundo ele, o verdadeiro Cristianismo estava longe de ser compreendido tal como é, e o motivo disso é a deturpação das palavras de Jesus Cristo e a ação do clero que não focava no ensino do Mestre, ao invés disso, elaborava catecismos, liturgias e sacramentos que apenas serviam para tornar as pessoas cada vez mais supersticiosas e manipuláveis. A sua tese central dá-se a partir do preceito encontrado no Sermão do Monte: “Não resistais ao mal” (Mateus 5:39). O sentido defendido por ele é de que a “Não Resistência” é a não utilização da violência. Sob nenhum aspecto Tolstói considera legítimo o uso da força. Aquela máxima jurídica de repudiar a violência usando a própria violência é totalmente anticristã. Por isso não gostava de ser chamado anarquista, por não compactuar com os métodos terroristas ligados ao movimento. Denominava-se apenas cristão.

Rejeitando o Estado e a propriedade, defende a abolição de ambas para que a humanidade venha gozar do Reino de Deus na Terra. Não existe o Paraíso ensinado pelos sacerdotes, tampouco a salvação vicária resultado do derramamento de sangue na cruz. Jesus Cristo não é divindade, é homem. É o professor que disseminou a Lei do Amor como sendo inerente do espírito humano. Essa Lei é a única que deve reger as relações sociais. É universal e atemporal, gradativamente pode ser vivenciada por todos os homens. E por que ainda não foi assimilada? Porque vem sendo ensinada por uma minoria de pessoas, ao passo que o “pseudocristianismo” ganhou vários adeptos que inculcaram através da tradição de séculos esse ensinamento deturpado no qual acreditam ser a Palavra de Deus transmitida por seus representantes. 

Destacando-se pela sua singularidade, até então, em conciliar o Evangelho com a anarquia, Tolstói, sem abolir e nem tampouco se opor a Deus, teve seu pensamento inserido na pesquisa pioneira de Paul Eltzbacher[3] sobre as várias correntes anárquicas, realizada em 1900. É no lançamento de O Reino Deus está em Vós, que enfim demonstra a sua fé na Anarquia. Esta é a obra central e de transição entre um anarquista latente e um anarquista convicto, embora recusasse ser chamado assim.

Para entendermos a ligação entre o Evangelho e a Anarquia em Tolstói, é necessário tomar ciência de que o deísmo é a sua crença, e que, como deísta, ele concebe a ideia de uma divindade impessoal. Deus é uma força mística, criadora do Universo e a humanidade é autônoma em suas decisões. Essa impessoalidade faz com que o mesmo não tenha um nome. Logo, Iavé, Alá, Shiva e outras nomenclaturas, estão todas se referindo ao mesmo ser. Tolstói, além dos Evangelhos, mergulhou em outras crenças, tal como o hinduísmo para sistematizar aquilo que viria chamar de “Doutrina da Não Resistência ao Mal”.

A tolerância religiosa, num sentido lato, a busca pela unidade entre os credos (também conhecido por ecumenismo) é uma característica do deísta. Nessa perspectiva, toda religião cultua o mesmo deus, mesmo que a terminologia seja distinta. No fundo, os valores religiosos são idênticos. O próprio Tolstói fala isso, num artigo intitulado O que é religião e em que consiste sua essência?:

(...) Esses valores são: que existe um Deus e é o princípio de tudo; que no ser humano há uma partícula desse princípio divino, que ele pode enfraquecer ou fortalecer de acordo com o modo em que conduz a própria vida; que, para fortalecer esse princípio, o ser humano deve conter suas paixões e cultivar dentro de si o amor; que o meio prático de alcançar isso é fazer aos outros aquilo que queremos que façam a nós. Todos esses valores são comuns ao bramanismo, ao judaísmo, ao confucionismo, ao taoismo, ao budismo, ao cristianismo e ao judaísmo (.TOLSTÓI, 2011, p.203).

Devido a essa concepção, o cristianismo adotado por Tolstói não promove Jesus Cristo a divindade. Mais absurdo ainda o conceito da trindade. Deus é um ser superior, Jesus, apenas um homem que deve ser visto como exemplo ético. Suas palavras e ações, deixando os milagres de fora, devem ser seguidas a risca, pois a perfeição é alcançada à medida que negamos nossas paixões em detrimento do bem coletivo. O amor ao próximo é o fim supremo e principal do homem. O próprio Cristo teria dito que todo aquele que ama, cumpriu a Lei e os profetas. Tolstói empenha-se em traduzir os quatro Evangelhos a seu modo, retirando dele toda a metafísica. Durante anos esmera-se nesse trabalho e é a partir dele que a “Não Resistência” surge como o principal conceito do pensamento tolstoiano:

Eu compreendi, não por meio de fantasias exegéticas ou de combinações textuais profundas e engenhosas; compreendi tudo porque joguei fora de minha mente todos os comentários. Esta foi a passagem que me deu a chave do todo. ‘Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao mal.’ (Mateus 5:38,39). (TOLSTÓI, 2011, p.28).

O conceito da “Não Resistência”, ou como chamam os adeptos do movimento Humanista: “Não Violência Ativa” é o cerne do anarquismo tolstoiano. É a ideia central de O Reino de Deus está em Vós, livro que o próprio Tolstói considera o mais importante de todos que escreveu. O princípio já havia sido abordado em Uma Confissão, mas é com “O Reino” que o Apóstolo da Não Violência (assim Gandhi o classificou) sistematiza a doutrina que lhe abriu os olhos, tornando-o um cristão convicto de que a moral incutida no Sermão do Monte era a chave para libertação dos indivíduos.


Logo no primeiro capítulo de “O Reino” lemos que a doutrina da Não Resistência foi ensinada por outros homens e grupos cristãos, que embora sendo minoria, contribuíram para elucidar o verdadeiro significado do evangelho: o amor. Através do exemplo de concórdia e paz entre os seguidores de Jesus, a doutrina evangélica penetrará na consciência dos homens. Não se pode impor a aceitação dessa doutrina, é a atitude humilde de resistir ao mal sem uso da força que levará a sua aceitação. O amor é o guia para levar a humanidade a atingir a perfeição:

O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do cristianismo (TOLSTÓI, 2011, p.10).

Se o amor fraterno é o mandamento necessário para o cumprimento da vontade de Deus e nisto consiste a salvação da alma humana, logo toda e qualquer ordem que leve o cristão ao descumprimento dessa doutrina, é um entrave ao aperfeiçoamento. Daí surge a resistente figura do Estado, pois Tolstói o vê como um obstáculo na observância desse mandamento. Colocando a “não violência” como base da doutrina cristã, Tolstói afirma que o cristianismo destrói qualquer governo, pelo simples fato deste ser uma violência:

O homem submisso ao poder não age como quer, mas como é obrigado; e é somente por meio da violência física, isto é, da prisão, da tortura, da mutilação ou da ameaça desses castigos que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder (TOLSTÓI, 2011, p.167).

Tolstói também aderiu a “desobediência civil” e declarou guerra ao Estado. A luta acontece quando as pessoas deixam de colaborar com a máquina, rebentando assim o sustentáculo do poder que, segundo ele, oprime e sufoca os homens. Para aniquilar o governo, basta aderir à desobediência. É o que diz claramente em Os Acontecimentos Atuais Na Rússia, texto escrito em Fevereiro de 1905:

Para livrar-se do governo não é necessário lutar contra eles pelas formas exteriores (insignificantes até o ridículo diante dos meios de que dispõem os governos) é preciso unicamente não participar em nada, basta não sustentá-los e então cairão aniquilados. E para não participar em nada dos governos nem sustentá-los é preciso estar livre da fragilidade que arrasta os homens aos laços do governo que lhes fazem seus escravos ou seus cúmplices (TOLSTÓI, 2011, p.23).

Como os demais anarquistas, Tolstói não nos oferece uma visão nítida de como seria a sociedade sem a tutela de um governo, apenas denuncia o que considera ser um grande mal que este comete no presente. O embrutecimento, a pobreza, a opressão, a injustiça e a negação da consciência são produtos do que chama “Estado-Violência”. Ele precisa acabar, e só terá um fim quando o Cristianismo for compreendido e aceito pela grande maioria dos homens. Mas não é o misticismo pregado pela Igreja, mas a moral resumida no Sermão do Monte, que condena todo e qualquer tipo de violência, instruindo as pessoas a não pagarem o mal com o mal.


O anarquismo cristão tolstoiano foi e continua sendo singular. Embora existam outros nomes nesse segmento, como por exemplo, Jacques Ellul, ninguém foi tão sistemático como Tolstói. A influência do pensamento tolstoiano levou diversos homens a fundarem colônias baseadas numa economia comunitária e com estilo de vida ascético. Não há muitas informações acerca delas. O que sabemos é que fracassaram em um curto espaço de tempo.

Os problemas do pensamento Tolstoiano

A doutrina proposta por Tolstói tem alguns problemas. Um deles é a crença no caráter inerentemente bom do ser humano. Isso contraria o relato da Queda em Gênesis 3 e a doutrina da Depravação Total. O ensino de que o homem já nasce pecador e depravado está presente em textos como o Salmos 51:5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”. Agostinho, mergulhando na teologia paulina, sobretudo na Epístola aos Romanos, desenvolve a depravação como sendo uma doutrina indispensável ao cristianismo. Combatendo a neutralidade pelagiana, ele afirma que o homem perdeu o livre-arbítrio quando o pecado entrou no mundo por meio de Adão. Após a catástrofe do Éden, a humanidade herda o pecado natural, que escraviza o homem em seu desejo de querer pecar mais e mais. Sendo assim, o pecado priva o homem de escolher aquilo que é inerentemente bom (privatio boni), o que não significa, entretanto, que o homem perdeu toda sua capacidade de fazer escolhas. Em diversas ocasiões o pecador escolhe entre diversas alternativas. A única incapacidade do homem degenerado é escolher não mais pecar. O pecado é uma gangrena que aprisiona o ser humano. Foi ele o grande responsável pela morte, pois, para Agostinho, Adão era detentor da imortalidade, antes da queda. E isso foi transmitido a todos que se seguiram. Sobre essa transmissão da natureza pecaminosa, escreveu Berkhof [1992, p.122]:

Através do vínculo orgânico entre Adão e seus descendentes é que aquele transmite a eles a sua natureza caída, juntamente com a culpa e a corrupção que lhe segue o rastro. Agostinho concebe a unidade da raça humana não de modo federal, e sim, realista. Toda a raça humana estava germinalmente presente no primeiro homem, pelo que também ela realmente pecou em Adão.

Os reformadores seguiram Agostinho e as confissões de fé registram o mesmo ensinamento em seus artigos. Vejamos o que diz Segunda Confissão Helvética, 1566, artigo 8:

Por pecado entendemos a corrupção inata do homem, que se comunicou ou propagou de nossos primeiros pais, a todos nós, pela qual nós - mergulhados em más concupiscências, avessos a todo o bem, inclinados a todo o mal, cheios de toda impiedade, de descrenças, de desprezo e de ódio a Deus - nada de bom podemos fazer, e, até, nem ao menos podemos pensar por nós mesmos. Além disso, à medida que passam os anos, por pensamentos, palavras e obras más, contrárias à lei de Deus, produzimos frutos corrompidos, dignos de uma árvore má (Mat 12,33 ss).

De igual modo subscreve Catecismo de Heidelberg, 1563, questão 7:

De onde vem, então, esta natureza corrompida do homem? Resposta: Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no paraíso. Ali, nossa natureza tornou-se tão envenenada, que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. (1) Gn 3; Rm 5:12,18,19. (2) Sl 51:5; Jo 3:6.

Logo, Tolstói se equivoca ao apregoar a possibilidade de ensinar a moral cristã a homens que possuem a natureza caída. Os homens só passarão a cumprir a vontade de Deus a partir de uma atuação sobrenatural. A remissão e a restauração do arbítrio são obras divinas, González [2002, p.213] comenta:

Quando somos redimidos, a Graça de Deus passa a atuar em nós, levando-nos do estado miserável em que nos encontramos para um estado novo, em que a nossa liberdade é restaurada, tanto para pecar como para não pecar. No céu, por fim, teremos somente liberdade para não pecar. Como no caso anterior, isto não quer dizer que não teremos liberdade alguma. Ao contrário, na vida celestial, continuaremos tendo diversas alternativas, mas nenhuma delas será pecado.

A questão é que não poderíamos esperar outra coisa de alguém que mutila o texto sagrado para retirar dele toda a metafísica. Quanto à doutrina anárquica, esta não pode ser sustentada pelo cristão que tem apreço pela Escritura. Esta legitima o poder governamental e o coloca como um instrumento que Deus utiliza para refrear a depravação humana (vide Romanos 13. 1-7). Precisamos do governo e, como cristãos, temos obrigações para com o Estado. Calvino nos lembra que “é da vontade de Deus que o mundo seja governado dessa maneira”, e diz mais: “desprezar a providência daquele que é o Autor do governo civil [iuris politici] é declarar guerra contra ele mesmo”.[4]


O Estado não pode se agigantar e atuar em áreas que não são de sua competência. Ele não tem a autoridade derradeira, mas serve a Deus, incumbiu aos governantes punir o mal e promover o bem. Contudo, abolir o poder estatal é algo que não podemos apregoar, pois, contradiz o ensinamento bíblico e nos coloca como rivais do Soberano, que instituiu os poderes terrenos. E se o Estado é autoridade que provém de Deus, logo, ele deve ser visto como uma dádiva para a sociedade e não como um empecilho ao seu desenvolvimento. Diante do que foi exposto, concluímos que o anarquismo tolstoiano deve ser rejeitado. 

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Referências bibliográficas:

BAKUNIN, Deus e o Estado, São Paulo: Hedra, 2011.
BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,1992.
GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Volumes 1. Edições Vida Nova, 2002.
LÖWY, Michel, Redenção e Utopia: O judaísmo libertário na Europa Central: um estudo de afinidade eletiva, São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M, 2008.
TOLSTÓI, Liev, Minha Religião. São Paulo. A girafa,2011.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬_____________, O Reino de Deus está em Vós, Rio de Janeiro: BestBolso,2011.
_____________, Os Últimos Dias. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2011.
THOREAU, Henry David, A Desobediência Civil. Porto Alegre: LP&M, 1997.
WOODCOCK, George, História das Idéias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.

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Notas:
[1] WOODCOCK, George. História das ideias e Movimentos Anarquistas, Vol.1. A Ideia. Porto Alegre: LP&M 2010.
[2] PROUDHON, Pierre Joseph, A Propriedade é um Roubo e outros escritos anarquistas. Porto Alegre: LP&M 2008, pág 26.
[3] Paul Eltzbacher, judeu alemão, Doutor em Direito e pesquisador do Anarquismo.
[4] CALVINO. João, Romanos. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, p. 460-461. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Teologia Brasileira
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Bíblia, Estupro e Pena de Morte

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Há uma semana que os noticiários estampam o caso bárbaro de uma jovem, de 16 anos, que teria sido estuprada por mais de 30 elementos, que sordidamente filmaram e publicaram as imagens. Algumas pessoas descobriram – posteriormente – que a jovem em questão exibia nas redes sociais um comportamento vulgar e postagens onde fazia apologia à “vida louca”, com direito até a ser fotografada com armas. O primeiro delegado que cuidou do caso, ao interrogar a garota quis saber se a mesma trabalhava para o tráfico e chegou a negar que ela tenha sido estuprada. O mesmo foi afastado e a nova pessoa que está à frente do caso diz não haver nenhuma dúvida de que o estupro, de fato, ocorreu. Alguns destes homens tiveram sua prisão decretada, um deles seria “namorado” da jovem. 

Uma coisa precisa ser dita: nada no comportamento da jovem justifica o estupro. Absolutamente nada. Também não nos compete emitir opiniões precipitadas, como fazem alguns, alegando que o ato foi consentido. Isso quem vai apurar é a polícia, deixe que ela faça o seu trabalho de investigação. Como cristãos, devemos sentir tristeza por saber que o sexo é visto e praticado de uma maneira bestial por boa parte da sociedade. O movimento feminista pegou carona no caso para fazer panfletagem e lançou uma campanha nas redes sociais com os seguintes dizeres: “Eu luto contra a cultura do estupro”. O termo “cultura de estupro” é totalmente infeliz e não ajuda em nada as vítimas que já foram sexualmente violentadas. Em artigo publicado na revista Time (em 2014), sobre estupros nas universidades norte-americanas, a RAINN (Rape, Abuse & Incest National Network), principal organização que combate e luta na prevenção de estupros nos EUA, afirma que:

Nos anos recentes, tem havido uma tendência despropositada de culpar a "Cultura do Estupro" pelos extensos problemas de violência sexual nas universidades. Enquanto é útil apontar as barreiras sistêmicas para lidar com o problema, é importante não perder de vista um simples fato: o estupro não é causado por fatores culturais, mas pelas decisões conscientes de um pequeno percentual da comunidade de cometer um crime violento.[1]

Não existe cultura de estupro, não no sentido de que homens são estimulados a realizar ato tão espúrio. Até mesmo entre os criminosos o estupro é visto como algo condenável, e os estupradores ou ficam em celas separadas dos demais presos ou pagarão com a vida, sendo violentados e executados pelos próprios presidiários. O que existe é uma cultura que vulgariza o sexo e faz com que o corpo vire um objeto consumível e descartável. É inegável que a mulher sofre mais com esta “objetização”, mas não é a única. Dia desses, um “carinha fortão" tentou se promover postando uma foto usando um vestido curto, desafiando para ver se algum homem teria coragem de lhe estuprar por conta da roupa. Ele quis "surfar" na onda da campanha feminista que se alastrou nas redes sociais, mas daí várias MULHERES comentaram que ESTUPRARIAM ele. Ou seja: não é problema de machismo, mas sim uma questão que podemos chamar, endossando o termo da ortodoxia reformada, “depravação total”. Também podemos culpabilizar o feminismo por ver esse tipo de comportamento partindo das mulheres pós-modernas, pois, em seu discurso, o feminismo promoveu uma libertação sexual que serviu apenas para intensificar a objetização feminina e promover uma “cultura do sexo animalesco e irresponsável”.


Seguindo uma cosmovisão que esteja de acordo com a Escritura, umas das formas de se combater o estupro seria através da aplicação da pena capital, i.é., pena de morte.

Dizer isto é algo que choca muitos que professam ser cristãos, que acham incompatível o ensino do perdão e do amor com a execução penal. O choque é resultado de uma influência humanista (mesmo que inconsciente), além de ser uma confusão sobre o que pertence a esfera privada e o que seria cabível ao Estado. Segundo o apóstolo Paulo afirma, em Romanos 13, os governos são servos de Deus e portadores da espada para punir os malfeitores, não os deixando impunes. Obviamente que a espada aqui representa o poder coercitivo dos magistrados, que tem uma autoridade derivada do próprio Criador e Senhor para punir os criminosos. E nesta punição legal, a morte é o preço a ser pago em alguns casos.

Mais isso não fere o sexto mandamento que diz: “não matarás”? Muito pelo contrário, ele é um mecanismo para a preservação da vida, como diz um trecho do Catecismo de Heidelberg: “por isso as autoridades dispõem das armas para impedir homicídios” [2] .  Como dito anteriormente, é preciso distinguir o assassinato pessoal, por motivações escusas, o que proíbe o sexto mandamento, com uma atribuição governamental. O Catecismo Maior de Westminster (CMW) esclarece:

136. Quais são os pecados proibidos no sexto mandamento?
Os pecados proibidos no sexto mandamento são: o tirar a nossa vida ou a de outrem, exceto no caso de justiça pública, guerra legítima, ou defesa necessária; a negligência ou retirada dos meios lícitos ou necessários para a preservação da vida; a ira pecaminosa, o ódio, a inveja, o desejo de vingança; todas as paixões excessivas e cuidados demasiados; o uso imoderado de comida, bebida, trabalho e recreios; as palavras provocadoras; a opressão, a contenda, os espancamentos, os ferimentos e tudo o que tende à destruição da vida de alguém. (ênfase acrescentada) 
Gn 9:6; Ex 1:14;20:9,10;21:18-36;22:2; Nm 35:16,31,33; Dt 20.1-20; Is 3:15; Pv 10:12;12:18;14:30;15:1;28:17; Mt 5:22;6:31,34;25:42,43; Lc 21:34; At 16:28; Rm 12:19; Gl 5:;15; Ef 4:31; Hb 11.32-34; I Pe 4:3,4; I Jo 3:15; Tg 2:5,16;4:1.

A única justificativa para o assassinato pessoal - conforme o CMW - seria em caso de legítima defesa, onde numa situação de extremo perigo um cristão mataria para se defender ou defender uma pessoa próxima. Nos casos de justiça pública e guerra legítima, as ações pessoais estão imbuídas da representação governamental, ou seja, não se referem a motivação pessoal.


Outra coisa importante que precisa ser dita a respeito da pena capital é que ela antecede a lei mosaica. Quando Deus ordenou que Noé recomeçasse a exercer o mandato cultural, que seria povoar a terra e exercer sobre ela domínio, deu-lhe a incumbência de executar homicidas (Gn 9.6). Deus fez isso por considerar a vida sagrada e não deixar impune aquele que a violar. É uma forma de inibição para que não se haja o intento de prejudicar o próximo, o que corrobora com a lei do amor, pois quem ama não intenta o mal contra o seu irmão. Os textos de Gn 9.6 e Rm 13.1-5 nos dão base para dizer que a pena capital é defensável em nossos dias[3] e que ela reflete o horror que a divindade possui diante do assassinato e da violência, coisas que em nossa atual conjuntura ficam impunes em muitos casos, pois, nossa legislação é frouxa. Até mesmo um serial killer pode voltar ao convívio social após passar algumas décadas encarcerado[4]. Sendo assim, há uma incoerência entre as nossas práticas jurídicas e a ordem divina.

Diante do que já foi exposto, segue mais uma dúvida: Mas a pena capital não seria restrita ao crime de homicídio? Leiamos Deuteronômio 22. 25-26: Se, contudo, um homem encontrar no campo uma jovem prometida em casamento e a forçar, somente o homem morrerá. Não façam nada, pois ela não cometeu pecado algum que mereça a morte. Este caso é semelhante ao daquele que ataca e mata o seu próximo, pois o homem encontrou a moça virgem no campo, e, ainda que a jovem prometida em casamento gritasse, ninguém poderia socorrê-la (ênfase acrescentada).

Vemos que para Deus a violência sexual é equivalente ao assassinato. O Catecismo de Heidelberg ao interpretar o sexto mandamento (na questão 105) diz que tal mandamento exige que “Eu não devo desonrar, odiar, ofender ou matar meu próximo”.  E na resposta a pergunta 136 do CMW, estão entre as proibições contidas no sexto mandamento “a opressão, a contenda, os espancamentos, os ferimentos e tudo o que tende à destruição da vida de alguém”. Quando pensamos no estupro ou temos a oportunidade de ouvir um depoimento de quem o sofreu, podemos identificar as palavras “desonra, ferimento e destruição da vida”. Mulheres que passam por tal trauma, muitas vezes, não conseguem mais ter uma vida normal, tendo sonhos e projeções destruídas por conta da violência que sofreram.

À guisa de conclusão, punir estupradores com a pena capital está de acordo com a cosmovisão cristã pautada nos preceitos escriturísticos. Acabará com os estupros? Não. Mas não se trata de acabar, a questão é punir. Nenhuma lei é capaz de acabar com a infração, todavia, esse não é motivo suficiente para que as leis deixem de penitenciar – com justiça – quem as infringe. Além do mais, toda lei possui um caráter didático, que visa refrear aquele que maquina executar o que é expressamente proibido por temer a represália. Assim sendo, lutar para que haja maior severidade na punição dos estupradores é uma maneira legítima e sensata de combater essa prática horrenda. Falar em “cultura de estupro” pode até dar visibilidade a uma pauta ideológica, mas é só. O termo cunhado em nada contribui - eficazmente - para minorar o crime, exercer a justiça e apoiar as vitimas. 

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Notas:
[1] O artigo foi postado por Rodolfo Amorim em seu perfil pessoal no Facebook, e pode ser lido na íntegra aqui: http://time.com/30545/its-time-to-end-rape-culture-hysteria/
[2] Parte da resposta dada a pergunta 105 e que usa os seguintes versículos para respaldar a resposta: Gn 9:6; Êx 21:14; Rm 13:4.
[3] O que não seria defensável é a aplicação da pena capital com base na legislação civil de Israel, que foi uma teocracia temporal. Exemplo: não poderíamos executar aqueles que violam o sábado. 
[4] Caso de Pedrinho, o matador e João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha, ambos soltos após cumprir 30 anos previstos na legislação penal. 

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Evangelismo com Mentira: a nova loucura do Lucinho

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E lá vamos nós outra vez. Um texto escrito por mim, criticando o Lucinho Barreto... Já fiz isso antes, mas torno a fazer por motivos óbvios: alertar jovens para que não caiam nas loucuras que esse sujeito propõe. A mais nova está bem aqui. Assista ao vídeo e depois volte a ler este pequeno artigo.

Presumindo que você tenha assistido a “loucura de maio”, vamos ao cerne da questão: Esse dito cujo propõe que uma dupla de jovens use o artifício da mentira para obter “conversões” dentro do transporte coletivo. Isso mesmo. Dois jovens entram, enquanto um distribui panfletos evangélicos, outro finge que se opõe ao evangelismo, ambos entram numa discussão teológica/apologética e por fim, o que já é crente, fingindo não ser, dirá que se convenceu e “aceitará” a Jesus após um apelo. EVANGELISMO MENTIROSO É DOSE!

Algumas pessoas - advogando em prol do Lucinho - argumentam que isso é um teatro. Mas daí me vem algumas questões: i) o Lucinho em nenhum momento diz que aquilo é uma peça teatral e nem orienta que os jovens digam isso ao público ouvinte. ii) as pessoas quando assistem a uma peça teatral estão ali conscientes de que estão vendo atores em cena. O método que o Lucinho propõe faz com que as pessoas acreditem que os dois jovens não se conhecem e discutem de verdade. A finalidade também é que o povo acredite que a conversão ocorreu. Logo, definitivamente não é teatro. Está mais para “pegadinha do Malandro”, só falta o “glu, glu, ié-ié”.

A tal “loucura de maio” consiste na quebra do 9º mandamento. O Catecismo Maior de Westminster esclarece. Na pergunta 145 lemos: “Quais são os pecados proibidos no nono mandamento?”. Eis uma parte da resposta: “falar inverdades, mentir”. Mentira é algo repugnante para Deus (Pv 12.22), por isso que os mentirosos são expulsos da Sua presença (Sl 101.7 e Ap 22.15). Quem mente é filho do Diabo, pois é ele o pai da mentira (Jo 8.44). O apóstolo Paulo ensina aos colossenses que a partir do momento em que nos despimos do velho homem e passamos a ser nova criação, moldados a imagem do próprio Deus, devemos abandonar a mentira (Cl 3.9-10). Repito: o cristão deve abandonar a mentira (Ef 4.25). Logo, o que faz uma pessoa em sã consciência faltar com a verdade e simular uma conversão? Há alguém que pode elucidar a questão.

Mark Dever, pastor e diretor do Ministério 9Marcas, escreveu sobre o que caracteriza uma igreja saudável, que por tabela vai diagnosticar também igrejas doentes. Uma das marcas para que a igreja goze de boa saúde é a compreensão exata do que vem a ser evangelização. E por exata, ele quer dizer bíblica. Observem um trecho de sua fala no livro O que é uma Igreja Saudável? : “(...) se em nossas igrejas deixamos de lado o que a Bíblia diz a respeito da obra de Deus na conversão, a evangelização se torna uma obra nossa em que fazemos o que for possível para obter uma confissão verbal”.

Dever continua:

“De acordo com as Escrituras, os cristãos são chamados a cuidar, exortar e persuadir os não-cristãos (2Co 5.11). Mas devemos fazer isso por meio da plena ‘manifestação da verdade’, que significa rejeitar ‘as coisas que, por vergonhosas se ocultam’ (2Co 4.2)”.

Quando a igreja entende que deve fazer o trabalho do Senhor do jeito do Senhor, e atentar para a Sua divina soberania em converter os pecadores de maneira sobrenatural através da simples exposição do evangelho, então ela irá parar de confiar em metodologias baratas e não ficará nessa fissura por apresentar números elevados. Isso que o Lucinho propôs retrata a enfermidade da igreja brasileira, que não tem uma compreensão bíblica da evangelização por falta de ensinamento. E como vem o ensinamento? No caso da igreja não há nada melhor que a pregação expositiva das Escrituras. Ela é alimento robusto, pois traz em seu bojo a centralidade do evangelho e busca esclarecer o conteúdo bíblico para os fiéis trazendo aplicações que servem para o dia-a-dia.


Não é coincidência que esse método espúrio de evangelizar venha de um “pastor” que se fantasiou de Superman e de Chapolim. Pastor de uma igreja que em seu púlpito já rolou de tudo: de stund-up até dicas de maquiagem. Igreja que ao invés de se ater ao Ensino da Palavra, enfatiza a adoração por meio de música e realiza “atos proféticos” sem nenhuma fundamentação bíblica. Está tudo entrelaçado meus irmãos. Se falta boa doutrina, a evangelização é comprometida, pois, quem evangeliza desconhece o conteúdo do evangelho. Por isso vemos tantas abordagens evangelísticas que falam sobre obter paz, amor e felicidade em Jesus, mas que não falam o mais importante: Jesus veio para livrar do jugo do pecado e da condenação ao inferno todo aquele que nEle crê. O perdão dos pecados é o centro da boa-nova. O resto até pode vir agregado, mas não é promessa para este mundo.

Finalizo ciente de que vão me acusar de ter inveja do Lucinho e criticá-lo por má fé, na tentativa de me promover em suas costas. Nem precisa ser profeta para saber que em alguns comentários alguém falará (fora de contexto): “não julgueis”. Mas eu teimo em escrever, e teimo na esperança de que jovens que estavam prestes a cometer tal loucura, parem para refletir, dando atenção aos versículos aqui mencionados, e não utilizem este método infame para evangelizar. Se querem compartilhar do evangelho para obter conversões genuínas, gastem tempo estudando a fundo a Bíblia, gastem tempo expondo o que aprenderam através de uma sequência de estudos com algum não-crente e gastem tempo orando para que o Senhor converta o coração daquele que você tem investido em discipular. E no tempo certo, tempo de Deus, os frutos que demonstram conversão irão aparecer.

Oro para que Deus desperte a nossa juventude para o ensino da Palavra.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Fonte: Electus
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Qual é o ponto, Ariovaldo?

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Ariovaldo Ramos, principal expoente da Teologia da Missão Integral no país, compartilhou em seu Facebook o vídeo com o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff sobre o processo de impedimento de seu governo (veja). Na legenda do post, Ariovaldo exclama: “Esse é o ponto!”. Ao terminar de assistir ao pronunciamento da ilustríssima presidente perguntei a mim mesmo: Qual é o ponto que o Ariovaldo quis salientar? 

O vídeo possui 6 minutos de muita mentira, cada minuto equivalente aos 6 anos em que está no poder, mentindo pra caramba! Novamente fala que se ela sair, os que governarão em seu lugar vão cortar o Bolsa Família, O Minha Casa, Minha Vida e entregar o pré-sal ao capital estrangeiro. O mesmo "terrorismo" já visto em campanhas eleitorais. Seria esse o ponto, Ariovaldo?

Para deslegitimar o processo de impedimento, Dilma diz que ele é articulado por golpistas que querem sentar na sua cadeira e presidir o país passando por cima das eleições. Mas espera um pouco: Há 16 anos atrás quando o PT protocolou 4 pedidos de impeachment contra FHC, e os tucanos o chamavam de golpistas, o então deputado José Genuíno afirmava que eles não faziam nada fora da Constituição. Ah! E na ocasião os petistas se aproximaram do PMDB e de Temer para tentar impedir o mandato de um presidente eleito pela maioria nas urnas. Que curioso, não? Lembrando que não é apenas o voto do povo que legitima um mandato até o fim. Segundo nossa Constituição (artigos 85 e 86) o presidente deve se legitimar em exercício, isto é, fez “besteira”, pode ter o mandato interrompido. Então, Ariovaldo, você que fala a favor da democracia, explica aí: Qual é o ponto?

Continuar dizendo que o impeachment é golpe é chamar o brasileiro de estúpido. Além de ferir o órgão máximo do judiciário, que regulamentou o processo. Dois ministros do STF já desmontaram essa falácia, dentre eles o mais antigo dos que lá estão, o ministro Celso de Mello, fez até um vídeo falando da legitimidade do processo. Até a OAB protocolou um pedido de impeachment contra a Dilma. E a mesma OAB redigiu um documento pedindo o afastamento do Eduardo Cunha, demonstrando que sua atuação é jurídica.

E mesmo não envolvida em escândalos de corrupção, como afirma, a presidente será julgada pelo Senado (caso o impeachment passe na Câmara, amanhã) por improbidade administrativa, ou melhor, por crime de responsabilidade fiscal, conforme a Constituição prevê. Isso devido às pedaladas fiscais. "Ah! as pedaladas não são crimes coisa nenhuma!" Amigos, não vamos esquecer que as contas do governo Dilma em 2014 foram rejeitadas pelo TCU (rejeição aprovada por unanimidade). Mas para o petista doente, único ser que acredita em Dilma, a Constituição, o STF, a OAB e o TCU são órgãos golpistas... aiaiaiai...

Agora, diante de tanta inverdade, o Ariovaldo vai e compartilha isso em sua timeline? Por que um pastor ainda replica essas mentiras? Cadê o ethos do cristianismo? Foi engolido pela ideologia? Maldita intoxicação política! Sabe qual é o ponto caro Ariovaldo? A nossa lealdade a um político, partido ou ideologia não pode concorrer com a lealdade devida ao Evangelho, que é a Palavra da Verdade. Friso em letras garrafais: VERDADE!

***
Sobre o autor: Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). É casado e atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.
Divulgação: Bereianos
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O que esperar de um político cristão?

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Lugar De cristão é na política? E por que não seria? Uma das coisas que herdamos da reforma é que toda vocação, inclusive a política, glorifica a Deus. João Calvino dedica parte de sua obra máxima, as Institutas, para falar sobre política e enaltece o trabalho dos magistrados, isto é, os que integram o poder do Estado. O próprio apóstolo Paulo diz que os governantes são servos de Deus e que sua autoridade é derivada do próprio SENHOR (Rm 13.1-7). Ademais, os cristãos foram chamados para exercer o que na teologia chamamos de “mandato cultural”. Exercer este mandato é se integrar ao mundo criado por Deus e administrá-lo com excelência, observando as leis divinas para o louvor do Criador. O poder político está intensamente ligado ao mandato cultural dos homens. No entanto, precisamos ressaltar que a postura política de um cristão deve ser íntegra e se ele almeja participar do poder político, deve manter-se fiel a ética contida na Bíblia Sagrada e por ela se guiar.

O teólogo Wayne Grudem, ao escrever sobre o papel do cristão na política, afirma o seguinte:

(...) os cristãos devem procurar influenciar o governo civil conforme os padrões morais de Deus e conforme os propósitos de Deus para o governo revelados na Bíblia (e devidamente compreendidos). Enquanto os cristãos exercem essa influência, porém, devem continuar a proteger a liberdade religiosa de todos os cidadãos. Além disso, a "influência expressiva" não é sinônimo de influência irada, beligerante, intolerante, julgadora, desatinada e cheia de ódio, mas sim uma influência cativante, gentil, solícita, amável, persuasiva, própria para cada circunstância e que sempre protege o direito do outro discordar. Ao mesmo tempo, é firme no que se refere à veracidade e à excelência moral dos ensinamentos da palavra de Deus.[1]

Outra coisa de suma importância é ter preparo. Uma carreira na política demanda vocação e conhecimento dos mecanismos do poder. Ademais, a política não é imparcial. Ela está encharcada de ideologia, sendo que tais ideologias são, em grande parte, antagônicas a fé cristã. O Pr. Franklin Ferreira é bastante feliz em sua colocação, ao dizer que:

Os políticos cristãos devem saber utilizar as várias disciplinas acadêmicas para desenvolver uma cosmovisão cristã que permita, de um lado, identificar as premissas das posições filosóficas e religiosas que mais influenciam a sociedade e, de outro, oferecer respostas respeitáveis satisfatórias, com base na fé cristã.[2]

Infelizmente, muitos políticos que se denominam evangélicos, têm dado um mau testemunho, parecendo ignorar o preceito bíblico de que deveriam ser luzeiros deste mundo. Muitos, não todos, também fazem das igrejas um curral eleitoral e cumprem seus mandatos beneficiando apenas os seus eleitores “crentes”. Eles promovem eventos como “marchas para Jesus” e “dia da consciência evangélica”. Fazem shows com os mais famosos artistas do segmento Gospel e elaboram projetos que não saem da órbita evangelical. Isso está errado e a Bíblia demonstra com exemplos.


José quando esteve no Egito era autoridade destacada. Acima dele apenas faraó. Ao interpretar o sonho do soberano egípcio e prever que haveria sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca, teve a ideia de estocar alimentos para que quando viesse o período das “vacas magras”, o povo egípcio tivesse como se alimentar. Além do mais, povos vizinhos também puderam comprar alimentos e assim ir sobrevivendo num período de imensa dificuldade. José, um hebreu, na posição política que exercia tratou de realizar um bem comum. Toda a população - e não um segmento dela - foi beneficiada com aquele empreendimento. De igual modo, Daniel foi um administrador político do império persa. Ele se destacou sobre os demais ao ponto do rei querer elevar a sua posição e coloca-lo como administrador de todo o reino e não apenas de uma província. A Bíblia nos diz que o político Daniel era “fiel; não era desonesto nem negligente” (Dn 6:4).

Outra passagem bíblica que não fala diretamente sobre governo, mas pode nos repassar um bom princípio, é Jeremias 29:7. O versículo diz o seguinte:

Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela”. 

O contexto corresponde ao período do cativeiro da Babilônia. O povo de Israel, deportado, teria de permanecer na cidade que não era a cidade santa de Jerusalém, mas a cidade de seus inimigos, e contribuir para a sua prosperidade. Foi uma ordem divina! Sabemos que para que um povo prospere, um cenário político favorável dá aquele empurrão para que as engrenagens da economia se movam a todo o vapor. Assim sendo, os judeus deveriam se envolver em toda e qualquer atividade que levasse a Babilônia ao caminho do progresso e da paz. Será que isso não envolve – em maior ou menor grau – um engajamento na esfera política?


O que pretendo demonstrar citando tais exemplos escriturísticos é que aquele que ingressa na política deve exercer o seu papel sem segmentar o público alvo. Os benefícios derivados da atuação de um político cristão devem refletir em toda a sociedade. E dentro de nosso ambiente plural, um político cristão também governa para ateus e pessoas de outros credos. Ele tem que ser representante destes grupos também e atender as demandas mais urgentes da sociedade. Se um político é alguém que deveria, ao menos em tese, servir a população, um cristão teria de ter uma atenção redobrada quanto a esta questão do servir, pois, este é o estilo de vida que o próprio Senhor Jesus adotou. O próprio disse que veio ao mundo para servir e não para ser servido (Mt 20:28).

Além da Bíblia, podemos extrair da história bons exemplos de cristãos que foram excelentes políticos. Lord Shaftesbury (1801-1885) foi membro do parlamento inglês por mais de quarenta anos. Um homem dedicado às causas humanitárias. Ele criou lei em prol do bem estar daqueles que eram os mais explorados pela revolução industrial, sobretudo crianças e mulheres. Seus projetos de lei eram pensados para amparar os párias da sociedade. Embora conhecido como “o evangélico dos evangélicos”, teve uma atuação não segmentada e legislou para todo o povo, sem acepções. Que os políticos brasileiros que compõem a bancada evangélica (ou conservadora) sigam tais modelos de gestão e façam com que os seus mandatos sejam relevantes para a nossa sociedade como um todo. Finalizo com mais uma citação do Pr. Franklin Ferreira:

Aqueles que servem a Deus na esfera pública, mesmo contaminada e distorcida pelo pecado, podem ver sua atuação política como um meio de glorificar ao Senhor, mas não precisam mencionar o nome santo nos palácios e centros de decisão política para justificar seu serviço público. [3]

Que o SENHOR abençoe o Brasil!


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Notas:
[1] Política Segundo a Bíblia. Edições Vida Nova, p.77.
[2] Contra a Idolatria do Estado. Edições Vida Nova, p. 45.
[3] Ibdem, p. 83. 

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Sobre o autor: Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). É casado e atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.
Fonte: Electus
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