As heresias fatais do "Amor"

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Por Richardson Gomes


Nesses últimos dias tenho ouvido alguns discursos de certos mestres da atualidade, frutos de uma teologia pós-modernista, que têm como base ideológica o que eles chamam de amor. São doutrinas estranhas, porém muito conhecidas, que têm sido abraçadas e pregadas por pastores e líderes que são referências no cenário evangélico de hoje. Eloquentes, donos de excelentes oratórias, pastores como Ed René Kivitz, Caio Fábio, Ariovaldo(s), Ricardo Gondim, dentre outros, que afirmam heresias que acabam negando muitas verdades centrais de todo o cristianismo.

Creio que se os pastores não atentarem para um rigoroso zelo pelas verdades bíblicas, alinhando-se e adequando-se à teologia ortodoxa, serão certamente seduzidos pelo universalismo (que afirma que todo humano será salvo), pelo teísmo aberto (que tira de Deus o controle do mundo em que vivemos), pela teologia liberal (que nega a inerrância e a infabilidade da Bíblia), pela missão integral (coloca a ação social acima da pregação do evangelho) e outros pensamentos fatais. Com isso, permitirão que, aos poucos, essas ideias adentrem em suas igrejas e, com elas, o mundanismo e a secularização ganharão força e deixarão a Bíblia, a Palavra de Deus, de lado, caracterizando igrejas verdadeiramente doentes. Esse é o motivo porque isso é tão perigoso - e este alerta é tão importante.

Me preocupo muito quando observo no discurso de todos esses propagadores, uma carga superficialmente piedosa, tão grande que chega realmente a enganar quem quer que esteja ouvindo, se não houver forte teor crítico baseado nas Escrituras. Seus pensamentos se baseiam em valores como o amor de forma tal como se Deus, em nome desse amor, pudesse contradizer o que Ele revelou de si mesmo nas Sagradas Escrituras. Nem tudo que carrega palavras bonitas, carismáticas e até piedosas é bíblico. Não podemos nunca deixar princípios bíblicos de lado em nome do "amor". Deus é o próprio amor e ir contra ele não é amar (I Jo 4:8).

Cria-se então um "deus" que é feito de acordo com os princípios e valores humanos. Não é que Deus vai estar sempre contra todos os nossos princípios morais, uma vez que a moral nos foi dada pelo próprio Deus, mas, como diz Tim Keller: "se o seu deus nunca discorda de você, você pode apenas estar adorando uma versão idealizada de si mesmo". Diante de uma humanidade caída e pecadora, um deus baseado no pensamento humano seria, no mínimo, finito e pecador. E nesse deus, nenhum cristão deveria crer. O Deus da Bíblia não é separado em seus atributos. Ainda que Deus seja amor, Ele também é justiça. Ele também é santo e odeia o pecado. E se somos pecadores, sempre há momentos em que somos confrontados com verdades duras para nosso coração depravado. E o que fazer? Moldar Deus a nós mesmos ou sermos moldados por Ele?  

Uma grande parte de pregadores, líderes e pastores têm trazido às suas ovelhas mensagens que agradam ao homem e que são de fácil aceitação. São muito bonitas, carregam até alguns valores, mas negam verdades bíblicas e prejudicam o verdadeiro e fiel cristianismo. O problema do "falar o que os outros querem ouvir" têm crescido fortemente em muitas igrejas evangélicas. Através deles a Escritura começa a ser deixada de lado, a paixão pela santidade é esquecida e uma verdadeira piedade não é mais vivida. Em nome do "amor" muitos estão negando a Bíblia; em nome do "amor", estão barateando a graça de Cristo; em nome do "amor", estão deixando de pregar um Deus santo; em nome do "amor", estão mantendo crentes sem nenhum compromisso nas igrejas; em nome do "amor", estão deixando de lado o verdadeiro Amor, o amor cristão, o amor bíblico, o amor que vem de Deus e que nunca, em nenhuma hipótese, negará os Seus princípios. 

É isto que temos ouvido nesses difíceis tempos: "Deus é amor, Ele não te punirá", "o inferno estará vazio", "todos serão salvos", "continue como está", "é só amar, dar comida aos pobres e pronto, estarão quites com Deus", "Deus não iria se importar com isso", "o que vale é o amor", "Deus não se ira", e muitas outras frases que demonstram a falta de compromisso bíblico na pregação. Estes pensamentos movidos por Satanás são frutos de uma graça barata, que exclui a santidade em detrimento da "graça". Como se Deus tivesse deixado sua justiça de lado por ser Ele o amor. Não! Deus é amor e justiça e, ao mostrar sua misericórdia para conosco, aplicou sua justiça em Jesus Cristo. A verdadeira Graça Valiosa de Deus nos salva para que sejamos irrepreensíveis e que procuremos, a todo modo, agradar a Deus e amá-lo acima de qualquer coisa.  

Se não desembainharmos a espada do evangelho e lutarmos contra estas ideologias que pregam o respeito e a aceitação como se fossem contrárias ao zelo doutrinário, estaremos nos conformando com o mundo (Rm 12:2) e deixando-o entrar em nossas igrejas. O evangelho não é socialismo, não é uma ONG, nem autoajuda. O evangelho é o poder de Deus para salvar todo aquele que crê (Rm 1:16) e se não o conhecermos tal como ele é nas Escrituras, erraremos feio (Mt 22:29). Se olharmos apenas para o segundo mandamento mais importante (que é amar ao próximo como a nós mesmos) e taparmos os olhos para o primeiro (que é amar a Deus sobre todas as coisas) estaremos cumprindo de maneira totalmente errada e pecaminosa o segundo mandamento (Mt 22:37-39). Nunca poderemos amar ao próximo com um amor bíblico e cristão se não amarmos a Deus e a sua glória acima de qualquer outra coisa. Pois se amamos a Jesus, obedeceremos os seus mandamentos (Jo 14:15) mesmo que não agrademos os homens ou a nós mesmos. Atente-se para o que J. C. Ryle diz em um de seus livros:

"Estão se levantando mestres que atacam abertamente a doutrina da punição eterna, ou que estão procurando invalidá-la mediante as suas distorcidas explicações. Muitos estão ouvindo declarações plausíveis sobre 'o amor de Deus' e a impossibilidade de um Deus amoroso permitir um inferno de chamas eternas para os homens. Assim, a eternidade da punição é divulgada como uma mera 'questão especulativa' acerca da qual os homens podem acreditar da forma que mais lhes agradar. Em meio a todo esse dilúvio de falsas doutrinas, retenhamos firmemente a antiga verdade da Bíblia. Não nos envergonhemos de crer que existe um Deus eterno, um céu eterno e uma eterna punição. Lembremo-nos que o pecado é um mal infinito. Foi necessário uma expiação de infinito valor para livrar o crente das consequências do pecado; e há uma infinita perda, para o incrédulo que recusa o único remédio providenciado para resolver o problema do pecado. Acima de tudo, depositemos toda a nossa confiança nas claras afirmações bíblicas, como esta que temos à nossa frente. Um texto bíblico claro vale mais do que mil argumentos confusos."

Não quero, de maneira nenhuma, menosprezar o amor. Apenas quero ajudá-los a compreender o verdadeiro amor cristão. E este nunca será como é no mundo fora de Cristo. O amor verdadeiro não lança mão das Escrituras, não menospreza a glória de Deus, nem sua santidade, nem sua ira e nenhum de seus atributos. Este amor nunca fará parte de nenhum tipo de teologia liberal e nenhum discurso humanista. O amor cristão, no qual cremos, é aquele que exalta um Deus santo que se doou verdadeiramente para que pecadores como nós sejamos resgatados e totalmente transformados para o louvor da glória da Sua graça (Ef 1:4-6). 

"Amem o Senhor, todos vocês, os seus santos! O Senhor preserva os fiéis, mas aos arrogantes dá o que merecem." - Salmos 31:23

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Fonte: Electus
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Deus está encaixotado?

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Por Thiago Oliveira


Não me recordo do que era a propaganda, só sei que dizia: “Não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”. Vi, numa fonte não muito confiável, que essa frase usada numa obra publicitária era do Albert Einstein. É uma boa frase e faz sentido. Todavia, se a isolarmos, podemos concluir erroneamente que as respostas não são importantes. E elas são. Toda interrogação que se levanta anseia por uma exclamação. Logicamente, nem sempre as encontrará, mas está em busca. Afinal, quem estaria disposto a dar uma vida por uma interrogação sabendo que nunca encontraria uma resposta? A humanidade anseia por respostas, e elas têm valor semelhante ao das perguntas.

Esse texto surge para contrapor uma ideia que vem sendo propagada na teologia e, através da internet, ganha adeptos nas fileiras das igrejas. Nomes como os de Caio Fábio e Ricardo Gondim[1] ventilam a ideia de que questionar é bem mais válido do que afirmar. Para esses e outros nomes da “teologia do livre pensamento”, termos ou expressões, tais como: soberania divina, inerrância bíblica, ortodoxia, apologética, dogmática e etc., não fazem mais sentido e poderiam até mesmo ser abolidos, pois – como afirmam – não é possível limitar Deus dentro de um sistema teológico. Há uma frase que gostam muito de usar: “Deus não cabe dentro de uma caixa”. Mas, será esse o xis da questão?

Antes de abordar o assunto da caixa, gostaria de voltar ao assunto Interrogação X Exclamação. Pois, precisamos desmistificar a superioridade das perguntas em detrimento das respostas. Rubem Alves, falecido recentemente, homem que largou o ministério (era pastor presbiteriano) e costumava vilipendiar a fé protestante, é um dos maiores nomes dessa teologia que despreza proposições. Para ele, os teólogos são como um galo que se vangloriava por achar que o sol dependia do seu canto para nascer. Alves gostava de fazer uso de analogia com aves. Costumava dizer que não era preso em gaiolas douradas[2], e por isso, decidiu voar mais alto, por cima dos dogmas e da religião institucionalizada. Muitos de seus admiradores querem voar também, e para isso, livram-se de todo corpo doutrinário que se baseia em sentenças afirmativas.

Mas, o Evangelho embora tenha muito espaço para o questionamento e, seja tolerante para com as dúvidas (Jd 22 diz: tenham compaixão daqueles que duvidam), é uma mensagem que reclama para si o exclusivismo da verdade. E se existe apenas uma verdade, logo todo o restante é mentira. Se o Evangelho é verdadeiro, e só ele o é, logo, todos os demais credos são enganosos, por mais que os seus adeptos sejam sinceros em sua maneira de crer, eles estão crendo numa inverdade. Se isso nos incomoda no cristianismo, deve nos incomodar o fato de Cristo ter feito diversas afirmações dogmáticas acerca do céu e do inferno. Toda vez que Jesus dizia, o “Reino dos Céus é semelhante a...” e toda vez que ele referiu-se a si mesmo como o “Eu sou”, estava sendo dogmático e dando respostas aos questionamentos de seus discípulos e/ou seus adversários.[3] De igual modo, os apóstolos, como podemos ver nas epístolas que compõem o Novo Testamento, falam de maneira proposicional e são bem taxativos. Então, se você considera o dogma uma gaiola e quer voar não sei para onde, saiba que eu prefiro ficar numa gaiola com o ensino de Cristo e dos apóstolos do que experimentar de uma liberdade que me leva para longe de seus princípios. Pois, as suas palavras, são palavras de vida eterna (Jo 6.68).

Daí a gente retoma a questão da caixa. Como dito anteriormente, os teólogos liberais dizem que Deus não pode ser encaixotado. Mas eu gostaria de fazer outra pergunta: E se Deus decidiu se encaixotar? Absurdo! Impossível! Talvez não, e eu explico.

Há dois termos teológicos usados sobre a divindade, são eles: transcendência e imanência. O primeiro discorre sobre o caráter intangível do ser divino, que está muito aquém da nossa total compreensão. Precisamos ser honestos, não sabemos tudo acerca de Deus. Há muitas coisas que não conseguimos entender. Mas, como cristão apenas temos fé. Por exemplo: Trindade. Há diversas explicações sobre ela. Tertuliano sentenciou: “três pessoas, uma substância” de modo que Deus é único, mas Ele é três pessoas. Isso está muito além de nosso intelecto. Apenas cremos e devemos crer. O segundo termo, imanência, refere-se à forma como esse Deus transcendente se relaciona com os homens, um relacionamento revelacional. Deus se revela e intervém na história humana. Imanência é isso. E como Ele se revela?

Existe uma dupla revelação: a Geral (Natureza) e a Especial (o Filho e as Escrituras). Deus se revela através das obras de Suas mãos e através da Palavra. Esta segunda, mais específica, se deu de maneira processual. Tomemos por exemplo, o Tabernáculo e a Arca da Aliança. Neles, habitava a presença e a glória de Deus. Mas sabemos que os objetos não continham Deus. Todavia, quando a Sua glória enchia o lugar Santíssimo, não há dúvidas de que Ele estava presente naquele recinto. Deus é bem maior que o santuário e bem maior que a Arca. Mas, Ele se revelou através deles e também se fez sentir presente entre a congregação de Israel. E nessa revelação processual o ápice é o Cristo na forma humana. Ele era totalmente divino, mesmo quando um bebezinho carregado por Maria de um lado para outro. Podemos limitar a grandeza divina a um corpo de uma criança? Não! Mas, quis Deus se revelar assim ao mundo, esvaziando a si mesmo para habitar entre nós (ver Fl 2.5-11), não deixando de ser Deus. Aonde quero chegar com isso?

Quero chegar até à Bíblia e até as informações que ela nos fornece sobre o Divino. Obviamente o SENHOR é bem maior, no entanto, quis Ele deixar este conhecimento fixo, que não pode sofrer acréscimos, para que os homens tivessem noção de quem Ele é, e de tabela descobrissem também algo sobre si, ou seja, que são pecadores que se encontram sobre a Ira divina, necessitados da graça para obter o perdão de seus pecados, e consequentemente a salvação. Aprouve ao Soberano deixar-nos um livro sagrado que nos conte aquilo que precisamos saber. A Bíblia não nos fornece todas as informações sobre Deus. Mas, ela nos dá as informações que são necessárias. Se quiserem tratar as Escrituras, isto é, o seu conteúdo, como uma caixa, que seja, Deus quis se encaixotar e se encaixotou.

Para concluir, direciono esse texto a você que está deslumbrado com essa teologia das interrogações. Já diz a máxima: “sem um caminho a seguir, qualquer caminho serve”. Esta frase é dita pelo gato, da obra “Alice no País das Maravilhas”. Portanto, cuidado com esse perguntado sem fim que não leva a lugar (resposta) algum. Se você é nascido nos anos de 1980, como eu, deve lembrar-se do desenho animado “Caverna do Dragão”. Nele, as crianças perdidas num mundo paralelo queriam saber o caminho de volta para casa. O Mestre dos Magos, um guia sábio e eloquente, nunca lhes dava uma resposta direta (dogmática), e com isso, os garotos nunca encontravam a passagem de volta ao lar. Pense nisso!

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Notas:
[1] Citando apenas dois nomes nacionais e excluindo nomes norte-americanos do movimento “Igreja Emergente” tais como o Rob Bell.
[2] Esta ideia do Rubem Alves está no livro Religião e Repressão, antes chamado Protestantismo e Repressão, da Editora Loyola.                             
[3] Exemplos: Em João 14.6 é uma declaração exclusivista. Jesus é o único caminho para o Pai. E em João 3.18 a ênfase é na condenação de quem não crê nele.

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Divulgação: Bereianos
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Deus Absconditus ou deus "Agnósticus"?

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Por Rev. Hélio de Oliveira Silva


O redator-chefe, Gerard Biard, defendeu a publicação da nova edição do Charlie Hebdo no domingo 18/01 afirmando que “cada vez que desenhamos a caricatura de Maomé, de profetas, de Deus, defendemos a liberdade de religião”, disse. “Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim privada.” (veja aqui, acesso em 21/01/2015). Esse comentário publicado pela Folha diz respeito à destruição de duas igrejas presbiterianas brasileiras na capital do Niger no sábado, dia 17/01, como represália muçulmana à nova edição do jornal.

Há duas incoerências contraditórias nessa dupla afirmação. Primeiramente, como a sátira irônica e ácida travestida de humor pode servir na defesa do que quer que seja, especialmente a religião? O único objetivo desse tipo de humor negro é denegrir o caricaturado! Em segundo, quando foi que Deus franqueou à humanidade o direito de lhe dizer como ele deve ser conhecido e adorado? O Deus absconditus (secreto, que vê em secreto) das Escrituras não é o deus “agnósticus” (que não pode ser conhecido) do secularismo.

Deus se deu a conhecer por meio da revelação que faz de si mesmo de forma geral na criação, pois os céus proclamam a sua glória e as suas obras (Salmo 19.1) como também de forma especial e específica nas Escrituras (2 Pe 1.20,21; 2 Tm 3.14-16) e plenamente em Jesus Cristo, que é a expressão exata de seu ser (Cl 1.15,19; Hb 1.3). Nunca pertenceu ao homem a prerrogativa de escolher como e quando conhecer a Deus, Ele simplesmente veio e vem a nós para revelar-se. Só pode conhecer o Pai aquele que o Pai deixar conhecê-lo e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11.27; Lc 10.22).

Não cabe aos cristãos defender um conhecimento privativo de Deus e nem aceitar o conceito secularizado de uma religião privada, particular e sem expressão pública. Deus se revelou para que fosse conhecido e adorado por todas as nações que precisam conhecê-lo (Sl 100.1). A adoração ao seu nome é tanto particular quanto pública, aberta ao conhecimento de todos que precisam de sua graça e receber o seu convite para nos libertar de todos os tipos de escravidão, inclusive a escravidão de nossas consciências; seja por meio da intimidação das armas ou da ridicularização impressa de nossas crenças!

Com amor, Pr. Hélio.

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Sobre o autor: Rev. Hélio de Oliveira Silva é Bacharel em Teologia (BTh-SPBC-1990). Mestre em Teologia Histórica (STM-CPPGAJ/2004). Bacharel em Teologia (Convalidação - FAIFA/2011). Pastor em Uruaçu-GO (1991-94); Rubiataba-GO (1995-96); Goianésia-GO (1997-98); Aparecida de Goiânia-GO (1999-2001); Pastor auxiliar na Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia (2002-14 - C.P.Balneário Meia Ponte [2002-2007] e C.P.Jd. Goiás [2008-2010]). Pastor auxiliar na I.P.Jd. Goiás (2015...). Professor no SPBC desde 1999 onde leciona atualmente Homilética, Prática de Pregação, História do Pensamento Cristão, História da IPB, História das Missões. Membro da Assembléia da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT/IPB - quadriênio 2010-2014) e Associação de Professores de Missões do Brasil (APMB) desde 2008. Co-autor do livro Interpretação e Pregação (Ed. Logos - 2005) e Números - O Juízo e a Graça de Deus na Peregrinação de Seu Povo (Ed. Primícias - 2012). Casado com Ednéia. Pai de Lívia Sally e Joice.

Fonte: Anunciando Todo o Desígnio de Deus
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Deus e o Gênero: Macho e Fêmea

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Por John Frame


Atualmente algumas teologias têm focalizado sobre a conveniência de se usar uma linguagem feminina para Deus. O recente teólogo evangélico Paul K. Jewett fez esta central questão em seu God, Creation, and Revelation.[1] 

Apesar de negar em seu prefácio que “tenha algum pensamento de acomodação da exposição da fé cristã ao cânons da modernidade,”[2] às vezes, usa “ela” para Deus [3] e concede muito espaço para a defesa de argumentos feministas. O livro She Who Is [4] de Elizabeth Johnson é um amplo tratado acerca da doutrina de Deus, tem como sua tese principal a necessidade de se usar uma linguagem feminina (mais ou menos exclusivamente)[5] com referência a Deus. Estes títulos são característicos de muitos.

Esta questão certamente não é a maior no que diz a respeito à própria Escritura, nem é a mais alta prioridade do presente volume. Mas, desde que a teologia é aplicação, e ela se torna importante para aplicarmos os princípios bíblicos aos interesses emitidos das pessoas contemporâneas. Certamente, há princípios bíblicos que são relevantes para esta questão.

Como Deus poderia ser Fêmea?

Podemos primeiramente esclarecer que esta questão envolve o uso da linguagem figurada. Ninguém argumentaria que Deus é literalmente macho ou fêmea, assim os cristãos em geral concordam que Deus é incorpóreo (como a Bíblia ensina).[6] Elizabeth Johnson crê que Deus é físico num sentido panenteístico: o corpo de Deus é o mundo.[7] Mas ela não baseia o seu argumento da feminilidade de Deus sobre as características físicas.

Apesar da Escritura, às vezes, representar Deus antropomorficamente pelo uso de figuras de partes do corpo humano, estas partes não incluem os órgãos sexuais.[8] Deste modo, a sexualidade não é parte das figuras visuais da Escritura. As afirmações que consideram as figuras femininas de Deus, portanto, são sutis. Elas fazem analogias entre a posição, o caráter, a personalidade e as ações de Deus, e que associamos com a mulher.

A real natureza desta questão levanta problemas para o feminismo. Existem traços do caráter ou da personalidade que são característicos na mulher em algum grau? Às vezes, feministas dizem que não. Em sua concepção, toda característica humana e traços de personalidade são comuns tanto a homens como a mulheres, e pensar de outro modo é comprometer-se com estereótipos. Em outras circunstâncias, elas têm reconhecido que há diferenças (em menor grau), mas têm preferido dar maior honra àqueles traços associados com a mulher.

Johnson e algumas outras feministas procuram ter ambos os conceitos. Ela insiste que nossa noção do feminino (logo, o Deus feminino) poderia incluir “intelectual, artístico,” e “liderança pública”, e igualmente “orgulho e ira”.[9] Ela elogia a religião de Ishtar (no Antigo Testamento, Astarte ou Astoreth, a esposa de Baal, Jz 2:13; 10:6; 1 Sm 7:3-4; 12:10) ao encontrar em sua deusa “a fonte do poder e soberania divina personificada na forma feminina,” que promove guerra e exerce julgamentos.[10] Sobre esta base, traços de masculinidade e feminilidade são essencialmente os mesmos. O que a sociedade necessita entender é que eles podem ser encontrados tanto nas mulheres como nos homens.[11]

Entretanto, esta ênfase conflita com o desagrado de Johnson pela noção de “ter o poder sobre”, o governo e submissão. Ela vê estas concepções como sendo tipicamente características masculinas que a teologia feminista poderia evitar descrever Deus. Porventura, o “ter o poder sobre” é um traço masculino que a teologia feminista poderia substituir em favor dos traços femininos? Ou ela é um traço que as feministas poderia admitir como sendo uma propriedade feminina e encontrar numa deidade feminina?

Portanto, não está claro, que espécie de deus uma deidade feminina poderia ser. Poderia ela ser mais nutridora, bondosa, receptiva e afetuosa do que a deidade masculina da teologia patriarcal? Ou, ela seria tão poderosa, dominante e agressiva como qualquer homem, não obstante, de algum modo ainda ser feminina? Johnson usualmente parece favorecer a última alternativa, com alguma inconsistência, como temos visto. Mas, qual é a característica feminina acerca desta deidade? Se a sua feminilidade não é física, podemos julgar sua natureza somente pelos traços do caráter e personalidade. Mas acerca da descrição de Johnson, os traços da deusa são comuns a machos e fêmeas. Assim, é difícil discernir o que Johnson realmente entende ao afirmar quando diz que Deus é feminino.

Figuras Femininas de Deus na Escritura

Não poderíamos continuar sem antes verificar os dados bíblicos. Poderia ser acrescentado que, apesar de Deus ser o Criador, e por isso o modelo tanto para as virtudes “masculinas” e “femininas” (mas que estas sejam bem definidas), as figuras bíblicas de Deus como gênero, lhes é relevante, e que são predominantemente masculinas. Os pronomes e verbos que se referem a Deus são sempre masculinas na Escritura, e as figuras que usa para si (Senhor, Rei, Juiz, Pai, marido) são tipicamente masculinas.[12] 

Todavia, há algumas figuras femininas de Deus na Bíblia. Em Deuteronômio 32:18, Deus, através de Moisés, repreende Israel, dizendo:

               Abandonaste a Rocha que te gerou;
               E te esqueceste do Deus que te deu o nascimento.

Nesta figura, Deus usa tanto funções masculinas como femininas na origem de Israel. Em Números 11:12, Moisés frustrado com a murmuração dos israelitas, nega que não foi ele, mas Deus, quem havia concebido aquele povo e conduzido-os. Assim ele pergunta: “porque, Tu ordenas-me para conduzi-los em meus braços, como uma ama conduz uma criança?” Talvez o pensamento expresso em Deuteronômio 32:18 descansa nas palavras de Moisés: Deus concebeu Israel e lhe deu o nascimento, e assim Deus deveria ser sua ama. Estas duas passagens são mencionadas muitas vezes na literatura feminista, mas a figura feminina não é enfatizada. No contexto, nada mais é feito pelo fato de que Deus concede o nascimento ou pode ser uma ama. A figura aqui é menos impressionante do que de Gálatas 4:19, onde o apóstolo Paulo descreve a si mesmo como em dores de parto pela igreja, e em 1 Tessalonicenses 2:7, onde diz que ele e seus cooperadores foram “carinhosos entre vocês, como uma mãe acaricia aos seus pequeninos bebês.” Ninguém sugeriria com base nestas passagens que podemos concluir que Paulo era uma mulher. Nem que Números 11:12 e Deuteronômio 32:18 nos exigem repensar o gênero de Deus.[13] 

Em Isaías 42:14, Deus declara um ameaçador julgamento:

               Por muito tempo me calei
               Estive em silêncio e me contive;
               Mas agora darei gritos como a parturiente,
               E ao mesmo tempo ofegarei,
               E estarei esbaforido.

Escritoras feministas mencionam diversas vezes esta passagem apresentando-a como uma figura de Deus. A figura aqui certamente é feminina. Uma mãe ansiosa pode passar muitos meses em modesto silêncio, mas quando chega o seu tempo de dar a luz, ela gritará! Semelhantemente, Deus demora o seu julgamento, mas quando o tempo certo vem, ele certamente fará a sua presença conhecida. De fato, a Escritura menciona muitas vezes, o sofrimento do nascimento como uma figura da maldição de Deus (Gn 3:16) e, proverbialmente, o pior sofrimento imaginável. Assim, como uma metáfora, ela se aplica natural e freqüentemente tanto a homens como a mulheres. Salmo 48:4-6 diz:

               Por isso, eis que os reis se coligaram
               E juntos sumiram-se;
               Bastou-lhes vê-los, e se espantaram,
               Tomaram-se de assombro
               E fugiram apressados.
               O terror ali os venceu,
               E sentiram dores como de parturiente.

Os reis são homens, mas eles tremeram como uma mulher em momento de parto (cf. Is 13:8; 21:3; 26:17; Jr 4:31; 6:24; Mq 4:9). Enquanto a Escritura usa esta metáfora feminina para Deus, ela não nos dá mais coragem para pensar de Deus como fêmea, do que nos dá a pensar daqueles reis como mulheres. A figura feminina usada para Deus em Is 42:14-15 é comum na Escritura, e muitas vezes é usada para personagens masculinos.

Em Lucas 15:8-10, Jesus nos conta uma parábola acerca de uma mulher que acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente para encontrar uma moeda perdida. Quando ela a encontra, chama as suas amigas para junto regozijarem. Alguns crêem que a mulher representa Deus, talvez, especificamente Jesus, como faz o pastor e o pai nas outras duas parábolas em Lucas 15. Todavia, a parábola enfoca mais sobre a alegria dos amigos (i.e., os anjos, vs. 10) do que sobre o esforço doméstico. Em Mateus 23:37, Jesus compara a si mesmo a uma galinha que deseja ajuntar os seus pintinhos debaixo de suas asas. Esta é certamente uma metáfora feminina, mas certamente não é algo que leva em questão o gênero de Jesus.

Além destas passagens específicas, há algumas idéias bíblicas mais latas em que alguns pressupõem um elemento feminino de alguma espécie em Deus. Uma é o uso de raham e splanchnizomai para compaixão divina, um uso que discuto brevemente numa nota de roda-pé anterior. Veja o capítulo 20 para maiores discussões.

Outro é o uso da palavra Espírito (heb. Ruah, gr. Pneuma). Ruah é um substantivo feminino, e Gn 1:2 ilustra o Espírito “chocando” como uma ave mãe. A Escritura também representa o Espírito como o doador da vida (Sl 104:30), particularmente do novo nascimento (Jo 3:5-6).

Não se pode, entretanto, deduzir muita coisa deste ponto gramatical. Substantivos femininos, necessariamente, não denotam personagens femininos,[14] e o termo grego correspondente pneuma é neutro. Além do mais, “pairar” é também uma interpretação possível da palavra rahaf em Gênesis 1:2. E em João 3, a palavra traduzida “nascido” (gennao) pode significar “gerado” bem como “conduzido”, podendo se referir a função masculina de procriar. Todavia, a interpretação “conduzido” é preferível em João 3:5 por causa da resposta de Nicodemos no verso 4. Poderia concluir que é possível ser um conjunto de figuras femininas do Espírito na Escritura, mas que dificilmente sugeriria que o Espírito é um personagem feminino da Trindade.[15] Se o grupo de figuras, como discutimos anteriormente, é insuficiente para justificar em falar-se da divina feminilidade, certamente que duas figuras não são suficientes para provar a feminilidade do Espírito.

Outro conceito sob discussão é acerca da sabedoria (heb. Hokmah, gr. Sophia). Os termos, tanto no grego como no hebraico, são substantivos femininos, e em Provérbios, a sabedoria é personificada como uma mulher (7:4; 8:1-9:18). Sabedoria é uma figura divina em Provérbios 8:22-31, e o Novo Testamento identifica-a com Cristo (1 Co 1:24, 30; Cl 2:3; cf. Is 11:2; Jr 23:5), ela também é usada em relação ao termo Palavra (João 1:1-18). Igualmente, têm-se concluído que a segunda pessoa da Trindade é feminina.[16] 

Contudo, este argumento é muito fraco. A primeira coisa a ser notada é que, Jesus é inquestionavelmente homem. Entretanto, a sugestão de que sabedoria requer uma personificação feminina é simplesmente errada. Pois a personificação da sabedoria em Provérbios possui perfeitamente uma óbvia razão para isto, que nada tem haver com um elemento de feminilidade na Divindade. Provérbios 1-9 apresenta ao leitor a figura de duas mulheres chamadas de “Senhora Sabedoria” e a “Senhora Loucura”. A Senhora Loucura é a prostituta que seduz um jovem para a imoralidade. A Senhora Sabedoria também chama aos homens da cidade (8:1-4), persuadindo-os a levar uma vida piedosa. A Sabedoria é uma senhora, não porque o escritor procurou afirmar um elemento de feminilidade na Divindade, mas simplesmente como um recurso literário apresentando como uma alternativa positiva para a prostituta.

Minha conclusão destas referências bíblicas é que existem poucas figuras femininas de Deus nas Escrituras, mas elas não sugerem nenhuma ambivalência sexual na natureza divina. Elas não justificam, nenhuma necessidade, do uso de “Mãe” ou pronomes femininos para Deus. Nem justifica a tentativa de reprimir o uso majoritário de figuras e pronomes masculinos em referência a Deus.

A Importância Teológica da Figura Masculina

Mas a feminista poderia replicar aqui que desde que Deus não é literalmente macho, e a Escritura contêm algumas figuras femininas assim como figuras masculinas, seria aceitável falar livremente de Deus tanto em termos masculinos como femininos. Johnson pergunta “se não significa que Deus é macho quando uma figura masculina é usada, o por que da objeção, quando figuras femininas são apresentadas?” [17] 

Esta réplica poderia ser irrefutável se a predominância de figuras masculinas na Bíblia fossem teologicamente insignificantes. As feministas argumentam enfaticamente que a Escritura coloca pouca importância sobre a masculinidade de Jesus, ou sobre a importância de falar de Deus em termos masculinos. A figura masculina, elas argumentam, é aceitável na concepção patriarcal da cultura antiga, mas ela não faz diferença na mensagem essencial da Escritura.

Todavia, existe um número de razões para pensarmos que a predominância de usos de figuras masculinas tem alguma importância teológica:

1. Como temos visto, os nomes de Deus são de grande importância teológica. Eles revelam-no. Não existe razão para assumir que as proporções das figuras masculinas e femininas não são parte desta revelação da sua natureza. Embora Johnson e outras insistem, entendo que uma mudança na balança da figura sexual não é teologicamente neutra; isto mudaria o nosso conceito de Deus.[18] Por acaso temos o direito de mudar nosso conceito bíblico de Deus?

2. Para ressaltar o último ponto, é também importante reconhecer que na Escritura, Deus nomeia a si mesmo. Seus nomes, atributos e figuras não são o resultado da especulação ou imaginação humana, mas da revelação.[19] Ele não nos autorizou de nenhuma mudança de equilíbrio das figuras de macho e fêmea, e não podemos tencionar fazer tais mudanças baseados em nossa própria autoridade.[20] 

3. Deidades femininas eram bem conhecidas pelos escritores bíblicos. Ashtoreth (Jz 10:6; 1 Sm 7:4; 12:10) foi adorada pelos cananitas como esposa de Baal. A junção de deidades masculinas e femininas foi um aspecto importante da adoração de fertilidade pagã. Assim, ao escrever sobre Yahweh, os escritores do Antigo Testamento não escolheram uma linguagem masculina irrefletidamente, inconscientes de outra alternativa. Eles não foram influenciados por um unânime consenso cultural. Antes, eles claramente rejeitaram qualquer adoração de uma deusa ou de uma junção divina.

4. Como dissemos no capítulo 15, a criação é um ato divino que produz uma realidade externa do próprio Deus, uma “outra criatura”. O mundo não é divino, nem uma emanação de sua essência. Deus não criou “formando ‘consigo’ para o não-divino.” [21] Como uma metáfora para esta concepção bíblica da criação, a função masculina na procriação é mais adequado do que o feminino.

5. Na Escritura o principal nome de Deus é Senhor, que indica sua liderança nas alianças, entre si e as suas criaturas. Na Escritura, a relação na comunidade da aliança é tipicamente uma prerrogativa masculina. Reis, sacerdotes e profetas são sempre homens. Autoridade na igreja concedida aos anciãos (1 Co 14:35; 1 Tm 2:11-15).[22] O marido é a cabeça da aliança formada pelo casamento.[23] Um desvio para a figura feminina de Deus poderia certamente diluir a sólida ênfase sobre a autoridade pactual que é centralizada na doutrina de Deus. Esta não seria a única razão, pois, como tenho indicado no capítulo 2, algumas teólogas feministas, incluindo Johnson, atualmente se opõe a idéia do senhorio de Deus.

6. Como tenho falado neste capítulo, Deus se relaciona com o seu povo, como um marido com a sua esposa. Certamente esta profunda figura pode ser obscurecida, se considerarmos Deus como feminina. Isto é importante, não apenas para a doutrina de Deus, mas também para a doutrina do homem (antropologia teológica). Ela é importante, tanto para homens como mulheres cristãs, saber e meditar profundamente sobre este fato, que na relação com Deus como sendo fêmea – esposas são chamadas para submeter-se em amor aos seus graciosos maridos. É a igreja, e não Deus, que é feminina em sua natureza espiritual.[24] 

7. Uma freqüente sugestão de compromisso é que eliminamos toda sexualidade na distinção lingüística, entre macho e fêmea, ao nos referirmos a Deus. Em vez de chamar Deus de nosso Pai, poderíamos falar de nosso Parente ou Criador.[25] Uma linguagem unissex, todavia, sugere inevitavelmente que Deus é impessoal, o que é completamente inaceitável de um ponto de vista bíblico.[26] Certamente ao eliminar Pai em favor de termos mais abstratos eliminaria algo muito precioso aos Cristãos.[27]  

8. O uso majoritário da figura masculina para Deus resulta numa opressão da mulher? [28] Existe uma precisa divisão entre feministas e não-feministas cristãs como aquelas que fazem parte da opressão. No Cristianismo tradicional, não é um rebaixamento para a mulher ser submissa ao seu marido e exclui-la dos ofícios de governo na igreja. Muitas vezes, na concepção de escritoras feministas, é um rebaixamento para alguém ser submisso a autoridade de outro, se são iguais diante de Deus. Mas, submissão à autoridade de outros é algo inevitável na vida humana, tanto para os homens quanto para as mulheres; esta é uma das mais difíceis lições que o ser humano caído tem que aprender. Muito mais pode ser declarado sobre este assunto. Certamente homens têm abusado das mulheres no decorrer da história. E certamente tanto homens, como mulheres têm, às vezes, justificado este abuso como sendo uma distorção da liderança masculina. Mas, dificilmente, argumentar que um melhor entendimento de Deus, ou que um benéfico relacionamento entre os sexos, poderia ser produzido por uma substituição da figura feminina ou impessoal de Deus. 

Minha conclusão é que podemos seguir o modelo bíblico e uso predominante da figura masculina para Deus, com uma ocasional figura feminina. Posso não desaprovar que um pregador ocasionalmente diga que Deus é a “mãe” da igreja. Como em Deuteronômio 32:18, podemos observar que apesar de nosso nascimento físico vir de duas fontes, nosso nascimento espiritual procede apenas de uma: Yahweh, que é tanto nossa mãe como nosso pai. Nem mesmo, é errado o uso do parto, a ama, uma ave fêmea, e outras figuras extra-bíblicas femininas como figuras de Deus e ilustrações para as suas ações. Como observamos, penso que muito mais poderia ser aproveitado da submissão das pessoas da Trindade de uma com a outra, como um modelo da piedosa submissão da esposa para com o seu marido. Mas não existe uma justificação bíblica para se usar predominantemente a figura feminina para Deus, ou representa-lo com pronomes femininos.

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Notas:
[1] Paul K. Jewett, God, Creation, and Revelation (Grand Rapids: Eerdmans, 1991).
[2] Ibid., xvi.
[3] Ibid., 336-347.
[4] Elizabeth Johnson, She Who Is (New York: Crossroad Publishing, 1996). Estarei interagindo com alguns de seus argumentos nesta seção.
[5] Ibid. 54.
[6] Veja minha discussão da incorporealidade no capítulo 25.
[7] Johnson, She Who Is, 230-233. Ela apresenta o seu panenteísmo próximo do fim do livro. Seu principal argumento não depende deste conceito.
[8] O verbo hebraico raham (“tenho compaixão) é derivado do substantivo rehem “útero”. Às vezes tem se pensado que trata-se de uma alusão ao “útero” de Deus em Sl 103:13 e Jr 31:20. Alguns argumentos foram desenvolvidos considerando o termo do Novo Testamento splanchnizomai. Todavia, este termo e suas formas correlatas nunca se referem claramente a um útero no Novo Testamento. Este argumento força a etimologia. 
[9] Johnson, She Who Is, 53. Cf. pp. 181-185, 256-259.
[10] Ibid., 55-56. Johnson freqüentemente recorre a religiões não-cristãs para comentar a sua teologia do gênero. Esta prática levanta legitimas dúvidas acerca da integridade bíblica de sua teologia.
[11] Observe a sua crítica dos estereótipos, ibid., 47-54.
[12] Há apenas uma juíza, Débora (Jz 4-5).
[13] Obviamente, não poderíamos tirar tal conclusão de Is 46:3. Passagens que mencionam a concepção e nascimento de Israel, não sugerem que Deus concebeu e formou a nação. De fato, ele o fez, num sentido, e a passagem pode fazer uma recordação de Dt 32:18. Todavia, Is 46:3 não contribui para fortalecer a tese teológica do Deus feminino. O mesmo poderia ser declarado de Is 49:15, que muitas vezes é mencionado na literatura feminista. Nesta passagem, Deus coloca o seu amor pelo seu povo acima e além do amor de uma mãe pelo seu bebê. Há uma semelhança entre Deus e a mãe, mas a ênfase de contraste é mais predominante. Deus reivindica, ser não a mãe, mas ser maior que qualquer mãe. E, em Is 66, é Sião quem está em trabalho de parto (vs. 8), e quem amamentará (vs. 11-12). A única função maternal de Deus nesta passagem é confortar (vs. 13). 
[14] Desde que exemplos podem, às vezes, ajudar a induzir-nos ao hábito de demasiada confiança na forma gramatical, eu poderia ilustrar que o termo latino uterus (útero, em português) é masculino.
[15] Veja Johnson, She Who Is, 50-54, para algumas referências. Johnson prefere não limitar a feminilidade de Deus a pessoa do Espírito, apesar de discutir extensivamente acerca do Espírito (pp. 124-149).
[16] Ibid., 150-169.
[17] Ibid., 34.
[18] Elas realmente não querem crer, ainda que às vezes reivindiquem, que a figura sexual a respeito de Deus é insignificante.
[19] A concepção de Johnson é diferente. Em seu entendimento, Deus é um grande mistério, e não há linguagem apropriada para descreve-lo (veja She Who Is, 6-7, 44-45, 104-112). Ele tem “muitos nomes” (117-120), de modo que, poderíamos livremente nomeá-lo com designações masculinas e femininas. Aqui percebo um conceito não-bíblico da transcendência  ao qual me opus nos capítulos 7 e 11. Deus revelou-se em linguagem que é apropriada à sua natureza.
[20] Não estou sugerindo que precisamos reproduzir a ênfase da Escritura com precisão matemática. Teologia e pregação sempre mudam a ênfase da Escritura, pois elas aplicam a verdade bíblica ao povo, antes do que simplesmente ler a Bíblia. Mas pode não ser boa a aplicação do discursar sobre Deus como sendo “ela”, ou levantar o nível de figuras femininas por assim dizer, 80 por cento de nossas referências a Deus. 
[21] Johnson, She Who Is, 234. Ela cita William Hill, The Three-Personal God (Whashington: Catholic University of America Press, 1982), 76, n.53. Este é um modelo panenteístico de Deus se relacionar com o mundo.
[22] Não posso, de fato, começar a entrar aqui na controvérsia envolvida neste ponto. Creio que há lugar para o debate, e em quais circunstâncias, uma mulher pode “falar na igreja”, ou se ela pode ser diaconisa. Mas isto parece-me óbvio daquelas passagens que as mulheres não são admitidas naqueles ofícios que fazem com que tenham decisões finais sobre os negócios da igreja. Veja Susan Foh, Women and the Word of God (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1979); James B. Hurley, Man and Woman in Biblical Perspective (Grand Rapids: Zondervan, 1981); “Report of the Committee on Women in Office”, in Minutes of the Fifty-fifth General Assembly (Philidelphia: Orthodox Presbyterian Church, 1988), 310-373; John Piper and Wayne Grudem, eds., Recovering Manhood and Womanhood (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 1991); Mil Am Yi, Women and the Church: A Biblical Perspective (Columbus, Ga.: Brentwood Christian Press, 1990), para idôneos debates destes assuntos.  
[23] Casamento é uma aliança na Escritura (Ez 16:8, 59; Ml 2:14), uma forte analogia com a aliança entre Deus e o homem. No casamento, o marido é a cabeça da esposa (1 Co 11:3; Ef 5:23). Feministas às vezes argumentam que “cabeça” significa “fonte” e não possui uma conotação de autoridade. Mas veja Wayne Grudem argumentando solidamente ao contrário “The Meaning of Kephale” in Recovering biblical Manhood and Womanhood, ed. Piper and Grudem, 425-468. Em muitos casos, a Escritura atribui a autoridade do marido sobre a esposa em várias passagens, mesmo onde a palavra cabeça não é usada. Veja Nm 30:6-16; Ef 5:22; Cl 3:18; 1 Tm 3:12-13; Tt 2:5.
[24] Agradeço a Jim Jordan (em correspondência) por esta observação.
[25] Alguns têm sugerido para nos referirmos as pessoas da Trindade como Criador, Redentor e Santificador, ou conforme a preferência. Mas esta proposta reduz a Trindade ontológica (as eternas pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito) para a Trindade econômica (as ações destas pessoas em, e pelo mundo). Também ignora o circumincessio, o envolvimento de cada pessoa em todo ato da outra.
[26] Mais óbvio é a impessoalidade que poderia resultar se substituíssemos o neutro no lugar de pronomes masculinos. Mas algo precisa ser feito com os pronomes se o nosso propósito é eliminar as distinções sexuais na linguagem usada para Deus. Ou podemos tentar a impossibilidade desajeitada de continuar a evitar todos os pronomes?
[27] Um autor (desculpe-me por não lembrar quem) comenta que não podemos, depois de tudo, discursar aos nossos próprios pais como sendo “Parentes”. De fato, as conotações de tal discurso poderiam ser totalmente inapropriadas para o relacionamento.
[28] Johnson disse “engenhosamente, ou não, ela mina a dignidade humana da mulher como igualmente criada a imagem de Deus” (She Who Is, 5). Observe os seus exemplos na pp. 23-28, 34-38. Ela procura argumentar que o uso da linguagem feminina para Deus, de fato, é mais exata do que a alternativa, pois ela conduz a verdade bíblica que as mulheres não devem ser oprimidas. De fato, esta verdade é importante, mas ela poderia ser apresentada por textos bíblicos que possuem maior relevância para este assunto, mas, não por uma interpretação distorcida da figura bíblica de Deus.

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Fonte: John M. Frame, The Doctrine of God (Phillipsburg, P&R Publishing, 2002), pp. 378-386.
Tradução: Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki
Divulgação: Bereianos
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Calvino e a semente da religião

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Por Thiago Oliveira

Introdução

João Calvino, foi o mais proeminente teólogo do século XVI. Lutero, embora muito respeitado pelo reformador de Genebra, e também sendo um exímio doutor no campo da teologia, não foi capaz de superá-lo em produção e em profundidade. Se Lutero foi um instrumento de Deus para levantar a sua voz contra os abusos da Sé Romana, Calvino foi o grande sistematizador da teologia reformada. Foi um exímio compilador e sistematizador das doutrinas defendidas pelo protestantismo, fortemente influenciado pelo monergismo agostiniano. 

Com apenas 26 anos de idade, Calvino publicou a sua obra mais importante, As Institutas da Religião Cristã, ou simplesmente, As Institutas. A importância deste livro para a Cristandade é imensurável, pois se trata de um apuradíssimo tratado teológico e sistemático (aqui sistemático não se refere ao sentido moderno do termo). Todavia, a literatura calvinista não se resume as Institutas. Ele produziu catecismos, uma breve confissão de fé e diversos comentários bíblicos.

O primeiro capítulo das Institutas fala sobre o conhecimento de Deus e a forma com que os homens chegam a este conhecimento. Obviamente, Calvino parte da premissa revelacional para afirmar que os homens só podem achegar-se a Deus a medida que Ele se revela aos homens. Para a Teologia, existem dois tipos de revelação: A Específica e a Geral.

A Revelação Específica é aquela que tem por base a revelação por meio da Escritura, que é a Sua Palavra e de Cristo, que é a própria Palavra. Já a Revelação Geral é aquela que está manifesta nas obras da criação, da Providência e no coração dos próprios homens. 

O objetivo deste texto é explorar o entendimento calvinista acerca deste segundo tipo de revelação, que é a geral. Calvino dá um nome específico para ela, chamando-a de “semente da religião” ou o “sentido da divindade”.

A semente da religião

Quando inicia as Institutas com a temática do conhecimento de Deus, João Calvino nos dá uma mostra de que a centralidade da relevação domina o seu pensamento. E a primeira frase deste primeiro capítulo é a seguinte: “A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos.” (CALVINO, 2006 p. 55).

A pergunta que muitas vezes pode surgir é a de qual conhecimento ocorre primeiro, se o acerca Deus ou o acerca de nós mesmos. Todavia, o que Calvino enfatiza é que ambos são verdadeiros. Não há como conhecer a Deus sem o autoconhecimento. Mas também ninguém poderá se conhecer sem considerar a face de Deus. Não são dois níveis de conhecimento, onde primeiro eu conheço um e depois alço o degrau para o próximo. Os dois são duplamente desassociados, por isso são chamados de conhecimento duplo de Deus (duplex cognitio dei). 

Este conhecimento duplo está presente em cada ser humano. Nenhum homem está isento de fazer “negócios com Deus” (negotium cum Deo). Calvino acreditava e ensinava que dentro de cada indivíduo Deus plantou uma percepção dEle. Esta “semente” não estava limitada ao coração humano, ela também foi “plantada” nas obras da criação. Deus é visto como sendo um trabalhador (Opifex) que fixou diversas evidências de Sua Glória em todo o Universo por Ele criado e regido.

A natureza que revela a divindade exige do homem uma resposta dentre duas possíveis: piedade e idolatria. Daí o homem não fica neutro, ou ele adora ao Deus verdadeiro, em amor e reverência, ou forja ídolos e se curva a deuses criados. Daqui concluímos que Calvino expõe uma teologia puramente natural, mas ela só serve para tornar os homens indesculpáveis diante do quadro da idolatria.

Porém, nada é mais evidente dessa “semente da religião” do que a própria idolatria. O sentido religioso existente na humanidade seria uma prova cabal de que existe em nós um senso de divindade. Tal percepção foi dotada aos homens afim de refutar a alegação daqueles que se disserem ignorantes e por isso não glorificaram ao Senhor da Criação, Deus único e verdadeiro.

Calvino (2006, p. 58) escreve o seguinte: “Portanto, visto que desde o princípio do mundo não há região, nem cidade, nem mesmo casa alguma que não tenha nada de religião, nesse fato nós temos uma confissão tácita de que há um senso de Divindade gravado no coração de todos os seres humanos”.

Aqueles que negam o Divino, na verdade O negam por temor. Os homens até tentam se esconder de Deus, tentam apaga-lo de suas mentes, mas na percepção calvinista, o próprio Deus, com zelo pela Sua Glória, os aflige a medida em que tais homem tentam negá-lo.

Conclusão

Todo o segmento reformado irá concordar com a ideia da “semente da religião”. Mas visto que ela não é capaz de gerar nada além de condenação para os idólatras, faz-se necessária a revelação presente na pessoa de Cristo. Jesus Cristo é aquele que revela o Deus-Redentor, e não apenas o Deus-Criador. Ele nos apresenta a salvação, daí a necessidade de nos conhecermos e vermos o quão carentes somos dessa salvação que nos é ofertada graciosamente.

Os escritos de Calvino não têm a intenção de nos deixar em completo desespero. Ele aponta para a nossa miserabilidade para depois anunciar a redenção em Cristo. Assim prepara a mensagem da salvação, pois para receber as bênçãos do Senhor, faz-se necessário ter a noção de nossa incapacidade e pobreza espiritual. Por isso há a associação entre o autoconhecimento e conhecimento sobre Deus. Porque o desejo do Senhor é que os que são seus sejam salvos e livres do pecado, para assim poder estar em Sua presença e gozá-lO para sempre.

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Referências:
- CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.
- GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.

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Divulgação: Bereianos

Dica: Para um estudo complementar, sugerimos um ótimo artigo acadêmico sobre o tema, publicado na revista Fides Reformata em 2009: Apontamentos Introdutórios sobre a Epistemologia Religiosa de joão Calvino nas Institutas.
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Conhecendo Deus e conhecendo a nós mesmos



Por João Calvino


1. Todos os homens vivem para conhecer Deus

Não se pode achar nenhum homem, em parte alguma, por mais incivilizado ou selvagem que seja, que não tenha alguma ideia de religião. Isso porque todos nós fomos criados para conhecer a majestade do nosso Criador e, ao conhecê-la, pensar nela mais elevadamente do que em qualquer outra coisa. Devemos honrar a majestade de Deus com pleno temor, amor e reverência. 

Os incrédulos só procuram apagar toda a lembrança deste senso de Deus, que está arraigado em seus corações. Deixando-os de lado, nós, que alegamos que temos uma religião pessoal, devemos trazer à mente que a presente vida não durará, e logo acabará. Devemos passá-la pensando na imortalidade.

Pois bem, não se pode achar a vida eterna e imortal em parte alguma, exceto em Deus. Segue-se, então, que o principal cuidado e interesse da nossa vida devem consistir em buscar Deus com todo o afeto dos nossos corações, e não pretender encontrar descanso e paz em lugar nenhum, senão unicamente nEle.

2. A diferença entre a religião verdadeira e a falsa

Em geral se concorda que viver sem religião é viver numa verdadeira miséria, e que em nenhum aspecto viver assim é ser melhor que os animais selvagens. Sendo assim, ninguém vai querer ser considerado como uma pessoa inteiramente indiferente a uma religião pessoal e ao conhecimento de Deus.

Entretanto, há muitas diferenças quanto à forma visível que a religião toma. Assim é porque a maioria dos homens não é afetada pelo temor de Deus. Não obstante, querendo ou não, eles não podem escapar da ideia de que existe algum ser divino cujo poder ou os exalta ou os humilha. Essa ideia sempre volta às suas mentes. Impactados pelo pensamento que lhes vem acerca de um poder tão grande, de um modo ou de outro eles o reverenciam. Isso para evitar desprezá-lo demais, temendo provocar a Sua ação contra eles. Contudo, vivendo desordenadamente e rejeitando toda forma de honestidade, eles exibem uma óbvia falta de preocupação com a maneira pela qual desconsideram o juízo de Deus.

Em acréscimo, uma vez que a sua avaliação de Deus é governada pelo tolo, impensado e presunçoso conceito formulado por sua própria mente, e não pela majestade infinita do próprio Deus, eles de fato ficam afastados do Deus verdadeiro. É por isso que, mesmo quando eles fazem reais e zelosos esforços para servir a Deus, isso tudo acaba sendo pura perda de tempo. Não é ao Deus eterno que eles estão adorando, mas, antes, aos sonhos e ilusões dos seus corações.

Bem, existe um temor que, tendo o maior desejo de fugir do juízo de Deus e não podendo fazê-lo, cresce mais que nunca. A verdadeira piedade não está nesse terror. Ela consiste, antes, de um zelo puro e verdadeiro que ama Deus como um Pai de verdade e O contempla como um Senhor de verdade; ela abraça a Sua justiça e detesta mais ofendê-lO do que morrer.

E todos aqueles que têm este zelo não se dispõem a fabricar, imprudentemente, um deus que esteja de acordo com os seus desejos. Em vez disso, eles procuram obter do próprio Deus um verdadeiro conhecimento dEle mesmo, e não o concebem como diferente do que Ele Se revela e do que Ele lhes dá a conhecer.

3. O que devemos saber acerca de Deus

Desde que a majestade de Deus está intrinsecamente acima e além do poder do entendimento humano, e simplesmente não pode ser compreendida por este, devemos adorar a Sua posição exaltada, e não investigá-la criticamente, para que não sucumbamos inteiramente sob tão grande brilho.

Por isso devemos buscar e considerar Deus em Suas obras, as quais, por essa razão, as Escrituras denominam manifestações daquilo que é invisível (Romanos 1: 19, 20; Hebreus 11: 1), porque estas obras retratam para nós o que de outra maneira não poderíamos conhecer do Senhor.

Não estamos falando aqui de especulações vãs e frívolas, coisas que manteriam as nossas mentes num estado de incerteza, mas de algo que é essencial que saibamos - algo que nos faz bem, que estabelece em nós uma piedade sólida e veraz, isto é, fé mesclada com temor.

Então, ao observarmos este universo, contemplamos com êxtase a imortalidade do nosso Deus. É esta imortalidade que dá surgimento ao princípio e à origem de tudo quanto existe. Contemplamos com êxtase a imortalidade do nosso Deus. É esta imortalidade que dá surgimento ao princípio e à origem de tudo quanto existe. Contemplamos com êxtase o Seu poder, que criou um sistema tão vasto e que ora o sustém. Contemplamos com êxtase a Sua sabedoria, que trouxe à existência uma tão grande e variegada fileira de criaturas, e que as governa de maneira finamente equilibrada e ordenada. Contemplamos com êxtase a Sua bondade, que é propriamente a razão pela qual todas estas coisas foram criadas e continuam a existir. Contemplamos com êxtase a Sua justiça, que se desdobra maravilhosamente para a proteção dos bons e para a punição dos maus. Contemplamos com êxtase a Sua misericórdia, que tão gentilmente suporta os nossos pecados tendo em vista exigir que endireitemos as nossas vidas.

É realmente muitíssimo necessário que sejamos instruídos acerca de Deus, e de fato deveríamos deixar que o universo nos fizesse isso. E ele o faria, não fora o fato de que a nossa rude insensibilidade é cega para tão grandiosa luz. Mas não pecamos somente por sermos cegos. Tão grande é a nossa perversidade que, quando ela considera as obras de Deus, não há coisa alguma na qual ela não veja um sentido mau e perverso. Ela põe abaixo toda a sabedoria do céu que, sem essa perversão, fulge tão esplendidamente ali.

Temos, pois, que vir à Palavra de Deus onde, por meio das obras de Deus, Ele é descrito muito bem para nós. Ali as Suas obras não são avaliadas segundo a perversão do nosso julgamento, mas pelo padrão da verdade eterna. Nela aprendemos que o nosso Deus, que é o único Deus, e que é eterno, é a fonte de onde emana toda vida, justiça, sabedoria, força, bondade e misericórdia. Tudo o que é bom, sem absolutamente nenhuma exceção, vem unicamente dEle. E assim é que todo louvor deve, com pleno direito, retornar a Ele.

E, embora todas estas coisas se manifestem claramente em cada parte do céu e da terra, é supremamente na Palavra de Deus que sempre entendemos, verdadeiramente, qual é a meta maior para a qual elas nos fazem avançar, qual é o valor delas e em que sentido as devemos entender. Então nos aprofundamos em nosso próprio ser interior e consideramos como o Senhor exibe em nós a Sua vida, a Sua sabedoria e o Seu poder, e como Ele exerce para conosco a Sua justiça, a Sua bondade e a Sua generosidade.

4. O que devemos saber acerca do homem

No princípio, o homem foi formado à imagem e semelhança de Deus, para que admirasse o seu Criador na dignidade da qual Deus tão nobremente o investira, e o honrasse com a adequada gratidão.

Mas o homem, confiando na enorme excelência da sua natureza e esquecendo de onde viera e por quem continuava a existir, empenhou-se em exaltar-se independentemente do Senhor. Por isso teve que ser despojado de todos os dons de Deus dos quais estultamente se orgulhara, a fim de que, privado de toda glória, conhecesse este Deus que o enriquecera tanto com o Seus generosos dons e que ele se atreveu a desprezar.

Por essa causa, todos nós - que devemos a nossa origem aos descendentes de Adão, e em quem a semelhança com Deus foi apagada - somos carne oriunda de carne. Sim, pois, apesar de sermos constituídos de alma e corpo, nuca sentimos nada senão a carne. O resultado é que, seja qual for o aspecto do homem pelo qual o observemos, é-nos impossível ver nele outra coisa além daquilo que é impuro, irreverente e abominável para Deus. Porquanto a sabedoria do homem, cega e mergulhada em numerosos erros, posta-se contra a sabedoria de Deus; a vontade, iníqua e cheia de afetos corruptos, odeia a justiça de Deus mais do que qualquer outra coisa; e o poder humano, incapaz de qualquer bem, seja este qual for, inclina-se desenfreadamente para a iniquidade.

5. O livre-arbítrio

As Escrituras asseveram muitas vezes que o homem é escravo do pecado. O que isso significa é que sua mente acha-se tão longe da justiça de Deus que só pensa, deseja e empreende o que é mau, perverso, iníquo e sujo; pois o coração, cheio do veneno do pecado, não pode emitir nada senão frutos do pecado.

Todavia, não devemos pensar que existe uma imperiosa necessidade impelindo o homem a pecar. Ele peca com pleno acordo da sua vontade, e ele o faz avidamente, seguindo suas próprias inclinações.

A corrupção do seu coração indica que o homem tem forte e persistente ódio a toda a justiça de Deus. Acresce que ele se vota a toda espécie de mal. Por causa disso se diz que ele não tem livre poder de escolha entre o bem e o mal - não tem o chamado livre-arbítrio.

6. O pecado e a morte


Nas Escrituras, pecado significa tanto aquela versão da natureza humana que é a fonte de todo erro e vício, como os maus desejos que daí nascem, e também os atos injustos e vergonhosos que brotam desses desejos: homicídios, roubos, adultérios e outras coisas do gênero.

Todos nós, então, pecadores que somos desde o ventre de nossa mãe, nascemos expostos à ira e à retribuição de Deus.

Tornando-nos adultos, aumentamos sobre nós - mais pesadamente - o juízo de Deus.

Finalmente, no transcurso de toda a nossa vida, aceleramos os passos para a morte.

Pois não há dúvida de que a justiça de Deus acha toda iniquidade repugnante. Que podemos esperar, então, da face de Deus - nós, pessoas miseráveis, sobrecarregadas por tão grande peso do pecado e corrompidas por inumeráveis impurezas - senão que a Sua justa indignação com toda a certeza nos vai fazer corar de vergonha?

Temos necessidade de conhecer esta verdade, muito embora ela ponha abaixo o homem pelo terror e o esmague pelo desespero. Despojados da nossa justiça própria, escoimados de toda a nossa confiança em nossas forças, distanciados de toda a esperança de sequer ter vida, o entendimento da nossa própria pobreza, miséria e desgraça dessa forma nos ensina a prostrar-nos diante do Senhor. Mas, reconhecendo a nossa iniquidade, a nossa falta de poder e a nossa ruína, aprendemos a dar-lhe toda a glória por Sua santidade, por Seu poder e por Sua obra de salvação.

7. Como somos conduzidos à salvação e à vida

Este conhecimento de nós mesmos, se entrou realmente em nossos corações, mostra-nos a nossa nulidade e, por seu intermédio, o caminho para o verdadeiro conhecimento de Deus é facilitado para nós. E o Deus de quem estamos falando já abriu para nós, digamos assim, uma primeira porta para o seu reino quando destruiu estas duas pragas medonhas: o sentimento de segurança quando defrontados por Sua retribuição, e uma falsa confiança em nós mesmos. Pois é depois disso que começamos a elevar os nossos olhos para o céu, olhos anteriormente fitos e fixos na terra. E nós, antes acostumados a buscar descanso em nós mesmos, anelamos pelo Senhor.

E também, por outro lado, embora a nossa iniquidade mereça algo inteiramente diferente, este Pai misericordioso, por Sua estupenda bondade, revela-se então voluntariamente a nós, que dessa forma nos sentimos aflitos e abatidos pelo medo. E, fazendo uso desse meios, que Ele sabe ser úteis para nós, em nossa fraqueza Ele nos chama de volta do rumo errado para o caminho certo, da morte para a vida, da ruína para a salvação, do domínio do diabo para o Seu próprio domínio.

A todos aqueles a quem Lhe apraz restabelecer como herdeiros da vida eterna o Senhor ordenou, como primeiro passo, que sejam afligidos em sua consciência, curvem-se sob o peso dos seus pecados e passem a viver no temor do Seu nome. Portanto, para começar, Ele nos expõe e Sua Lei, a qual nos conduz a esse estado.

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Fonte: João Calvino, A Verdade Para Todos os Tempos, PES, pp. 13-22.
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