Pequeno Excerto da Obra A Doutrina Protestante das Escrituras, de Cornelius Van Til

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PEQUENO EXCERTO DA OBRA THE PROTESTANT DOCTRINE OF SCRIPTURE [A DOUTRINA PROTESTANTE DAS ESCRITURAS], DE CORNELIUS VAN TIL


1. A NECESSIDADE DA REVELAÇÃO NATURAL

A fim de apresentar a inter-relação existente entre a revelação de Deus nas Escrituras e Sua revelação na natureza, devemos primeiramente tratar da necessidade da Revelação Natural. É costume apresentar a necessidade da Revelação Sobrenatural devido ao fato de não existir, em toda a extensão da natureza, nenhum tipo de revelação a respeito da graça. Contudo, é igualmente verdadeiro que a revelação da graça operar-se-ia num vácuo caso não se operasse na natureza, revelando, assim, a Deus. É impossível reconhecer o sobrenatural por aquilo que é, a menos que o natural também o seja: ambos devem ser reconhecidos mediante a luz da revelação sobrenatural de Deus. Tudo aquilo que o homem faz em relação à natureza, ele o faz como uma forma de manutenção ou de transgressão do pacto de graça que Deus estabeleceu com o homem. Dessa forma, tanto o cientista no seu laboratório quanto o filósofo em seu estudo estão lidando com seus materiais, quer como mantenedores do pacto ou como seus transgressores. Todos os atos do homem, todos seus questionamentos, todas suas afirmações – de fato, todas as suas negações em qualquer domínio de seus interesses, são pactualmente condicionadas.

2. A AUTORIDADE DA REVELAÇÃO NATURAL

Naturalmente, se, de fato, todos os atos humanos realizados tanto no que concerne à natureza quanto às Escrituras são pactualmente condicionados, isso se dá porque Cristo se comunica com o homem de forma ubíqua, e Se comunica sempre com absoluta autoridade. O cientista pode ou não reconhecer este fato. Se ele não é um cristão, ele há de argumentar que o fato de Cristo possuir autoridade, uma absoluta autoridade no que diz respeito ao seu procedimento científico, é algo que destrói totalmente a própria ideia de ciência. Ele há de argumentar que a ideia de ciência pressupõe liberdade por parte do cientista para conceber quaisquer hipóteses que julgue se encaixar aos fatos. Qualquer autoridade absoluta – como aquela mencionada anteriormente – também exclui (no raciocínio do cientista) a ideia de que as palavras de Cristo podem e devem ser testadas pelos fatos e pela ordem dos fatos, isto é, pelas leis naturais já conhecidas pelos homens, a partir de seus experimentos e experiências prévias. “Suponha”, o cientista talvez diga, “que eu tenha de trabalhar sob a absoluta restrição da ideia de uma Providência redentora e soberana de Deus, tal como ensinado pela Bíblia – isto seria contra a ideia de um universo absolutamente aberto. Assim, minha hipótese teria que ser de uma natureza tal que esteja em total concordância e mesmo subordinada à ideia dessa Providência soberana. Isso excluiria quaisquer novidades e descobertas na ciência. Tudo já estaria de antemão fixado. Por outro lado, a ideia de uma Providência redentora que abarcasse todas as coisas exigira, de minha parte, a aceitação, de bom grado, da possibilidade de Deus, arbitrariamente, Se manifestar na ‘unidade’ da natureza que a ciência descobriu mediante árduos esforços, e, dessa forma, destruísse essa ‘unidade’ com inserções miraculosas. Teríamos, então, que aceitar que todos os fatos com os quais lidamos são, essencialmente, criações arbitrárias de Deus. Portanto, teríamos que interpretar a ideia de ‘lei’ científica como sendo subserviente àquela lei do relato bíblico acerca do pecado e redenção, a qual é controlada pelo fiat do Deus soberano. Isso não pode ser assim, e, portanto, não aceitaremos tal coisa!

Dito de outro modo, a metodologia científica que não é definitivamente baseada sobre a história redentiva da Bíblia é baseada, na verdade, sobre a suposição de que, de um lado, o universo deve ser totalmente aberto e, de outro, que ele deve ser totalmente fechado. Aludindo a essa ideia, Morris Cohen diz que a ciência necessita tanto da ideia do universo aberto quanto da ideia do universo fechado, mas delas necessita não como elementos constituintes, antes, como conceitos que se limitam reciprocamente.

Caso o homem não possua a autoridade de Cristo no campo da ciência, ele passa a considerar a si mesmo como a autoridade definitiva, como a retaguarda de seu esforço. A controvérsia entre aquele que guarda o pacto e aquele que o quebra nunca se dá, exclusivamente, a respeito de um fato particular ou a respeito de certo número de fatos. É sempre, e ao mesmo tempo, sobre a natureza dos fatos. Além disso, atrás do argumento a respeito da natureza dos fatos, há ainda o argumento sobre a natureza do homem. Por mais restrito que o debate entre o crente e o cético possa ser a qualquer momento, em última análise há sempre duas cosmovisões em desacordo entre si. De um lado, é um homem que vê a si mesmo como incapaz de encontrar uma interpretação inteligível da experiência sem referência a Deus como seu Criador e a Cristo como seu Redentor. De outro lado, é o homem que está certo de que ele não pode encontrar qualquer interpretação desse tipo. Ele supõe que reside junto a ele o poder de fazer um juízo universal negativo acerca da natureza de toda a realidade.

Consequentemente, o cientista que é um cristão possui o dever de mostrar ao seu amigo e colega que não é cristão que, a menos que este último esteja disposto a se posicionar a partir da narrativa cristã com respeito ao mundo que tem sido redimido por meio de Cristo, não há nada para ele, a não ser o fracasso. O labor científico é totalmente ininteligível a não ser que seja francamente baseado sobre a ordem disposta no universo de fatos criados por Cristo, o Redentor.

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Autor: Cornelius Van Til
Fonte: WTSBooks
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos
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Calvino e a semente da religião

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Por Thiago Oliveira

Introdução

João Calvino, foi o mais proeminente teólogo do século XVI. Lutero, embora muito respeitado pelo reformador de Genebra, e também sendo um exímio doutor no campo da teologia, não foi capaz de superá-lo em produção e em profundidade. Se Lutero foi um instrumento de Deus para levantar a sua voz contra os abusos da Sé Romana, Calvino foi o grande sistematizador da teologia reformada. Foi um exímio compilador e sistematizador das doutrinas defendidas pelo protestantismo, fortemente influenciado pelo monergismo agostiniano. 

Com apenas 26 anos de idade, Calvino publicou a sua obra mais importante, As Institutas da Religião Cristã, ou simplesmente, As Institutas. A importância deste livro para a Cristandade é imensurável, pois se trata de um apuradíssimo tratado teológico e sistemático (aqui sistemático não se refere ao sentido moderno do termo). Todavia, a literatura calvinista não se resume as Institutas. Ele produziu catecismos, uma breve confissão de fé e diversos comentários bíblicos.

O primeiro capítulo das Institutas fala sobre o conhecimento de Deus e a forma com que os homens chegam a este conhecimento. Obviamente, Calvino parte da premissa revelacional para afirmar que os homens só podem achegar-se a Deus a medida que Ele se revela aos homens. Para a Teologia, existem dois tipos de revelação: A Específica e a Geral.

A Revelação Específica é aquela que tem por base a revelação por meio da Escritura, que é a Sua Palavra e de Cristo, que é a própria Palavra. Já a Revelação Geral é aquela que está manifesta nas obras da criação, da Providência e no coração dos próprios homens. 

O objetivo deste texto é explorar o entendimento calvinista acerca deste segundo tipo de revelação, que é a geral. Calvino dá um nome específico para ela, chamando-a de “semente da religião” ou o “sentido da divindade”.

A semente da religião

Quando inicia as Institutas com a temática do conhecimento de Deus, João Calvino nos dá uma mostra de que a centralidade da relevação domina o seu pensamento. E a primeira frase deste primeiro capítulo é a seguinte: “A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos.” (CALVINO, 2006 p. 55).

A pergunta que muitas vezes pode surgir é a de qual conhecimento ocorre primeiro, se o acerca Deus ou o acerca de nós mesmos. Todavia, o que Calvino enfatiza é que ambos são verdadeiros. Não há como conhecer a Deus sem o autoconhecimento. Mas também ninguém poderá se conhecer sem considerar a face de Deus. Não são dois níveis de conhecimento, onde primeiro eu conheço um e depois alço o degrau para o próximo. Os dois são duplamente desassociados, por isso são chamados de conhecimento duplo de Deus (duplex cognitio dei). 

Este conhecimento duplo está presente em cada ser humano. Nenhum homem está isento de fazer “negócios com Deus” (negotium cum Deo). Calvino acreditava e ensinava que dentro de cada indivíduo Deus plantou uma percepção dEle. Esta “semente” não estava limitada ao coração humano, ela também foi “plantada” nas obras da criação. Deus é visto como sendo um trabalhador (Opifex) que fixou diversas evidências de Sua Glória em todo o Universo por Ele criado e regido.

A natureza que revela a divindade exige do homem uma resposta dentre duas possíveis: piedade e idolatria. Daí o homem não fica neutro, ou ele adora ao Deus verdadeiro, em amor e reverência, ou forja ídolos e se curva a deuses criados. Daqui concluímos que Calvino expõe uma teologia puramente natural, mas ela só serve para tornar os homens indesculpáveis diante do quadro da idolatria.

Porém, nada é mais evidente dessa “semente da religião” do que a própria idolatria. O sentido religioso existente na humanidade seria uma prova cabal de que existe em nós um senso de divindade. Tal percepção foi dotada aos homens afim de refutar a alegação daqueles que se disserem ignorantes e por isso não glorificaram ao Senhor da Criação, Deus único e verdadeiro.

Calvino (2006, p. 58) escreve o seguinte: “Portanto, visto que desde o princípio do mundo não há região, nem cidade, nem mesmo casa alguma que não tenha nada de religião, nesse fato nós temos uma confissão tácita de que há um senso de Divindade gravado no coração de todos os seres humanos”.

Aqueles que negam o Divino, na verdade O negam por temor. Os homens até tentam se esconder de Deus, tentam apaga-lo de suas mentes, mas na percepção calvinista, o próprio Deus, com zelo pela Sua Glória, os aflige a medida em que tais homem tentam negá-lo.

Conclusão

Todo o segmento reformado irá concordar com a ideia da “semente da religião”. Mas visto que ela não é capaz de gerar nada além de condenação para os idólatras, faz-se necessária a revelação presente na pessoa de Cristo. Jesus Cristo é aquele que revela o Deus-Redentor, e não apenas o Deus-Criador. Ele nos apresenta a salvação, daí a necessidade de nos conhecermos e vermos o quão carentes somos dessa salvação que nos é ofertada graciosamente.

Os escritos de Calvino não têm a intenção de nos deixar em completo desespero. Ele aponta para a nossa miserabilidade para depois anunciar a redenção em Cristo. Assim prepara a mensagem da salvação, pois para receber as bênçãos do Senhor, faz-se necessário ter a noção de nossa incapacidade e pobreza espiritual. Por isso há a associação entre o autoconhecimento e conhecimento sobre Deus. Porque o desejo do Senhor é que os que são seus sejam salvos e livres do pecado, para assim poder estar em Sua presença e gozá-lO para sempre.

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Referências:
- CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Volume 1, Editora Cultura Cristã,2006.
- GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.

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Divulgação: Bereianos

Dica: Para um estudo complementar, sugerimos um ótimo artigo acadêmico sobre o tema, publicado na revista Fides Reformata em 2009: Apontamentos Introdutórios sobre a Epistemologia Religiosa de joão Calvino nas Institutas.
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Debate: Teologia Natural

Assista o debate realizado durante o 8º Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova, de 13 a 16 de Março de 2012 no Hotel Majestic em Águas de Lindoia - SP.

Tema geral do Congresso: Apologética contemporânea para um mundo de incertezas. Participação de William Laine Craig, Guilherme de Carvalho, Davi Charles Gomes e Jonas Madureira, com Fabiano Medeiros como interprete. 


Fonte: Dica do Jonas Madureira, via Facebook.
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