A TULIP e o Dogma Romano - Um estudo comparativo entre a soteriologia Calvinista e Católico Romana

image from google

A Confissão de Fé de Westminster diz que tudo o que precisamos saber para nossa salvação, “ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.6). Jesus assevera: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6:37). De fato, essa palavra não poderia ser mais clara. Nossa salvação não acontece por acaso, ela está bem definida dentro do plano eterno do Pai, foi executada com perfeição pelo Filho e é aplicada eficazmente pelo Espírito. 

Por isso, o calvinismo sustenta que a salvação é um ato da livre e exclusiva graça de Deus, visto que o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1) e não pode responder à oferta de reconciliação, de modo que Deus mesmo transforma a sua vontade ao lhe regenerar o coração (At 16.14). 

O Calvinismo Estimula as Missões

image from google

“O Calvinismo mata as missões!”, dizem muitos. Afinal, se Deus já escolheu alguns para salvar antes da fundação do mundo, deixando outros para serem condenados, então por que nos incomodaríamos pregando o evangelho às nações? Os eleitos serão salvos e nenhum dos outros será. Mas quando fazemos uma pausa para examinar de perto o Calvinismo, descobrimos que ele não mata missões — ele, de fato, é combustível para missões! Consideremos os bem conhecidos cinco pontos do calvinismo para ver como eles se relacionam com as missões.

Depravação Total — A necessidade de Missões

Como Calvinistas, acreditamos que “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12). Assim, todos os homens nascem como pecadores; todos nascemos em rebelião contra Deus. Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:10-11). Somos totalmente depravados por natureza, o que não significa que somos tão completamente perversos quanto possível, mas que nossa pecaminosidade afeta todas as áreas da vida. Nenhum aspecto das nossas vidas está livre da corrupção do pecado.

Uma vez que todos os seres humanos são pecadores, todos nós nascemos sob o juízo de Deus. Não importa onde vamos no mundo de hoje, separados de Cristo, aqueles que encontramos enfrentam a ira de Deus por seus pecados. “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da nossa carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3). Uma eternidade no inferno espera as pessoas ao redor do mundo, como castigo por seus pecados. Como esta realidade pode não nos levar a encontrar maneiras de levar as boas novas de Jesus Cristo para as nações? Jesus é o único que pode salvá-los de um futuro terrível e lamentável!

Eleição incondicional — A esperança através das Missões

Porque Deus não tem prazer na morte dos ímpios, mas chama os ímpios para que se convertam do seu caminho e vivam (Ezequiel 33:11), Ele predestinou um povo para a adoção de filhos por Jesus Cristo, de acordo com o beneplácito da Sua vontade (Efésios 1:5). A escolha de Deus, ou eleição, de um povo para manifestar a Sua graça foi incondicional, já que não há nada em nós como pecadores que faria com que Deus nos amasse (1 João 4:10).

Os eleitos de Deus são uma grande multidão que ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas (Apocalipse 7:9). E Ele escolheu esta grande multidão para receber a Sua gloriosa graça. É com essa certa esperança de sucesso nas missões que os Calvinistas vão às nações proclamando o Evangelho de Jesus Cristo.

Expiação limitada — A mensagem das Missões

Deus, o Pai, dá o Seu povo eleito ao seu Filho, Jesus Cristo, para que todos os que veem o Filho e creem n'Ele possam ter a vida eterna (João 6:40). Ele usa pregadores para levar o Evangelho de Jesus Cristo para as nações, pois como eles invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouviram sem um pregador? (Romanos 10:14).

A mensagem de todos os pregadores Cristãos é resumida pelo apóstolo Paulo: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze” (1 Coríntios 15:3-5). Cristo morreu para pagar pelos nossos pecados, “assim assegurando uma eterna redenção” (Hebreus 9:12). Ele não morreu apenas para tornar possível o perdão dos pecados. Cristo realmente nos redimiu para Deus por meio do Seu sangue. Ele redimiu homens e mulheres de todas as tribos, línguas, povos e nações (Apocalipse 5:9). Os Calvinistas querem que o povo de Deus, de toda tribo, língua, povo e nação, ouça sobre a expiação substitutiva de Cristo pelos pecadores, para que sejam perdoados dos seus pecados e adotados como filhos e filhas de Deus.

Graça irresistível — O poder nas Missões

Os seres humanos nascem em estado de total depravação, completamente depravados, espiritualmente mortos em seus delitos e pecados (Efésios 2:1). Isso significa que ninguém virá a Cristo por si mesmo. Mas nos regozijamos em lembrar que Deus está operando através do Espírito Santo, efetivamente atraindo os Seus eleitos para Cristo (João 6:44). E a graça de Deus é irresistível, porque Ele determinou salvar um povo para Sua glória.

Portanto, os Calvinistas apelam a todos os homens em todos os lugares para se arrependerem (Atos 17:30), porque sabemos que aqueles eleitos por Deus se arrependerão e crerão em Cristo! Esta poderosa graça de Deus nos dá confiança nas missões, sabendo que todos os que creem em Cristo serão salvos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Sim, os Calvinistas acreditam em João 3:16!

Perseverança dos santos — O sucesso com as Missões

Finalmente, os Calvinistas descansam por saberem que nosso trabalho missionário será finalmente bem-sucedido. Pois, a Palavra de Deus não retornará a Ele vazia, mas cumprirá o que Lhe apraz (Isaías 55:11). Se não vemos o fruto do nosso trabalho entre as nações, então não precisamos desesperar. Não é ele o que planta, nem o que rega, mas Deus é quem dá o aumento (1 Coríntios 3:7). Ao mesmo tempo, sabemos que Deus está agindo e atraindo as pessoas para Si mesmo, então continuamos a proclamar as boas novas confiando n'Ele para remover os corações de pedra e dar corações de carne (Ezequiel 36:26).

Além disso, quando as pessoas em todo o mundo nascem de novo, reconhecemos que Aquele que começou uma boa obra nelas a completará (Filipenses 1:6). Deus nos apresentará irrepreensíveis diante da presença de Sua glória com grande alegria (Judas 24). Portanto, aguardamos com expectativa o dia em que nos uniremos com nossos irmãos e irmãs em Cristo de todo o mundo, louvando nosso Salvador pela redenção que Ele realizou na cruz. Que estas gloriosas verdades estimulem os nossos corações para missões como Calvinistas, para que Cristo seja glorificado!

***
Autor: John Divito
Fonte: Founders Ministries
Tradução: Tayllon Gabriel
Revisão: Camila Rebeca Almeida Teixeira
.

Um Deus preso no tempo

.


É sempre complicado falar das coisas de Deus, mesmo guiados pelo Espírito Santo, a nossa visão é limitada pela infinitude, transcendência e perfeição divinas, então entender e compreender tudo é impossível, sendo seres limitados e imperfeitos, muitas coisas nos serão ininteligíveis e incompreensíveis, no sentido de sabermos em detalhes explica-las. Devemos, logo, ter a humildade de reconhecer os termos demarcados pelo Senhor a impedir-nos de esmiuçar e descrever toda a verdade. Ainda que nos seja revelado tudo nas Escrituras, tudo aquilo que ele quis manifestar, muitas delas serão aceitas pela fé, sabendo ser a Bíblia a palavra divina, ela é a verdade, e de que, se o Senhor escreveu, independente da capacidade de entender um ou outro enunciado, deve ser simplesmente aceita e jamais questionada, evitando-se a especulação, exatamente por sua complexidade. Enquanto Deus vê o todo, vemos, quando atentamos corretamente, fracionada e parcial. Deve bastar-nos, e ser suficiente para deleitarmo-nos, reconhecer a realidade da Escritura, posto Deus tê-la escrito e revelado, mesmo sem nos dar maiores explicações. Rejeitar algo maravilhoso, sublime, porque não as alcançamos, pela insignificância e limitação da mente e espírito, torna-nos em arrogantes, presunçosos, incapazes de admitir a própria realidade, auspiciando nas divagações e especulações uma vantagem suficiente para igualar-nos a Deus (ou até mesmo tornar-nos superiores), e assim encobrir a debilidade inerente e contemplada na natureza humana.

Eleição incondicional é, então, o ato divino de escolher pessoas entre a totalidade da humanidade caída, condenada, morta espiritualmente, e fazer delas o seu povo, regenerando-as e salvando-as da condenação advinda pelo pecado; sem que elas tivessem condição alguma a favorecê-las na escolha, pois a escolha é dele, feita exclusivamente por ele, pela liberdade e vontade soberanas que ele tem de escolher sem qualquer restrição, coação ou limitação exterior a ele. Deus é absoluto, supremo em suas decisões, implicando ser ele livre para escolher quem quer, da maneira que quer, sem ninguém poder questioná-lo, como Paulo, peremptoriamente, declara em Romanos:

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” (Rm 9.20)

Deus livremente escolhe, segundo a sua vontade, de entre os seus inimigos, pessoas as quais separou para serem o seu povo.

Como Deus é eterno, e tudo relacionado com ele é eterno, a eleição também é eterna. Há várias passagens na Escritura afirmando a nossa eleição antes da fundação do mundo. Esta expressão não está limitada a um momento histórico, a um evento temporal, mas significa que, desde sempre, desde quando o Senhor existe, ela foi planejada, estando sempre em sua mente, assim como a sua causa também é eterna. Pense um pouco, e tente responder: Você pode dizer o motivo pelo qual, não havendo nada em nós a agradá-lo, Deus elege?

Seria por ele ter antevisto, no tempo, que responderíamos prontamente ao chamado santo do Senhor? De ter ele previsto que alguns creriam e, por isso, predestinou-os à salvação? Esta é, certamente, a resposta mais óbvia, uma solução humana que não contempla a realidade divina, porém tem uma aceitação quase unânime, em nossos dias. Também chamado de presciência, advoga o conhecimento prévio de Deus de todas as coisas como o motivo para a eleição. Acontece haver duas definições de presciência, uma antibiblica e a outra bíblica. A primeira, definida como Deus não estando no tempo, mas este sendo parte da criação, vê tudo e todos num mesmo instante. A dificuldade em se dar um sentido exato à sentença é facilmente verificada em como dispomos de uma linguagem restrita para um conhecimento também restrito. Um instante é uma fração de tempo, contido no tempo, mas não há como abandoná-lo na tentativa de trazer significado ao termo “presciência”, pois, de outra maneira, tornar-se-ia, por completo, incompreensível. Ao dizer que Deus vê tudo num instante, mesmo esse “instante” sendo infinito e eterno, é prova da delimitação reservada ao homem de não alcançar a amplitude indeterminada, a perfeição intangível, a santidade ilimitada, da mente divina. É preciso, muitas vezes, para a nossa compreensão, rebaixarmos a magnitude de Deus ao nível da insignificância humana.
  
Prosseguindo, a ideia de presciência, definida segundo uma ótica não bíblica, tem a conotação de Deus prever, antever, conhecer de antemão, todos os atos e eventos históricos, antes deles se realizarem. Assim, Deus, conhecendo que fulano responderia positivamente ao chamado ou “esforço” do Espírito, através da fé, crendo para a sua salvação, tornou-se um eleito, em definição corrente e usual entre os cristãos. Ao ver os eventos descortinados diante dos olhos, e a resposta positiva do homem, Deus o predestinou, elegendo-o. Encontramos um sério problema nesta definição, posto Deus escolher quem o escolheu, mesmo o fazendo antes dos eventos, mas apenas um momento após vislumbrá-los, antevê-los, significando, de qualquer maneira, que a escolha divina se deu após a decisão, a escolha humana estabelecendo-se efetivamente. Ou seja, do ponto de vista lógico, Deus escolheu depois da escolha do homem, logo, não é, na verdade, a escolha divina, mas a ratificação divina à escolha humana. Somente depois de confirmado pelo antever, Deus tornou-a firme, validando a eleição, cuja causa e origem está no homem, cuja atitude de responder positivamente ao chamado divino é a razão, o agente eficaz que justifica a existência do não existente, sendo a origem da eleição, o ato motivador e o princípio gerador. Deus nada pode fazer, como um agente passivo, se tornando prisioneiro da vontade humana. Mas há algo ainda pior: este esquema faz de Deus prisioneiro do tempo, ou seja, prisioneiro da sua própria criação. 

Se a presciência é a antevisão de Deus dos fatos futuros, e ele elege o homem a partir dessa visão, mesmo Deus não estando no tempo, ele estaria “refém” do tempo, posto somente "validar" a eleição após certificar-se da resposta positiva do homem. Ora, há uma visão do futuro, o próprio futuro é um fragmento temporal, e a resposta humana se dará nele, então a presciência, como um “decreto comprobatório” dessa visão, depende essencialmente da resposta transitória do homem, levando a uma decisão temporal, não eterna, tornando o próprio Deus em um ser limitado por sua própria criação. Neste sentido, Deus elegeria e predestinaria somente "após" observar a resposta positiva ou negativa do homem. Há, aqui, uma condição de subordinação de Deus, passível de afetar o atributo da soberania, na qual ele pode tudo, ontologicamente, mas está condicionado à iniciativa humana, no tempo, no sentido de o seu conhecimento, ainda que completo, amplo, o restringe e o faz dependente, podendo tornar-se imobilizado nos casos das respostas serem negativas. Sendo eterno, se sujeitaria a efemeridade, resignando-se a uma mera coadjuvância, não o causador e gerador do ato, mas uma testemunha ocular; onde a sua vontade não é imperiosa, determinante, mas sancionada por uma ação futura, temporal, a não apenas influenciar, mas ocasionar a eternidade. Ou seja, não é o eterno a fundar o tempo, mas uma fração ou frações dele a sedimentar o perene. E a própria ideia de Deus conforme revelado na Escritura tornar-se-ia impossível, ou, no mínimo, questionável. 

Uma analogia possível, guardadas as devidas proporções, seria um copo de suco de laranja ser a causa da existência da laranjeira e seus frutos; em outras palavras, o menor, o suco de laranja, fundacionaria o maior, a laranjeira, quando na verdade acontece o contrário. O temporal nunca poderá justificar e fundamentar o eterno, posto ser este a instituir aquele. E Deus estaria aprisionado em sua própria criação, não somente agora mas para sempre, dadas as consequências da eternidade firmarem-se nas ações transitórias, das quais ele não tem poder de decisão, nem são por ele controladas.

Podemos resumir este estado de coisas em duas frases:

Deus escolhe, elege, o salvo”. Esta proposição não fere, enfraquece a soberania divina, ou transforma-o em um mero espectador, mas em um agente ativo na ação de escolher. É ele quem, por sua exclusiva vontade, decide, a partir de si mesmo, quem será eleito, sem atentar para nenhum fator externo a ele. 

O homem, ao responder positivamente, pela fé, é escolhido por Deus”. Esta proposição faz de Deus um agente passivo, que decide a partir de uma ação exterior a si, como uma reação à resposta positiva ou negativa do homem; pois, antes, a sua motivação está associada, ou melhor, parte da resposta humana, da manifestação da sua vontade, sem a qual Deus está incapacitado de condenar ou não, posto o homem ser autônomo e detentor do livre-arbítrio. Em linhas gerais, Deus está em uma camisa de força, imóvel, podendo apenas assentir ao movimento humano, concordando ou discordando mentalmente, mas ratificando-o, independente da resolução tomada pelo homem, a qual, em última instância, põe termo à questão, dando-lhe o desfecho final. 

Isso faz de Deus, em algum aspecto, refém da autonomia humana, de tal maneira que ele estará condicionado a ela, submetendo-se (e a ideia de voluntariedade inexiste como explicação), numa posição subjacente, secundária, ao desígnio estabelecido pelo homem a partir da própria vontade; esta, sim, determinante da eleição, enquanto a divina é apenas confirmatória, e não causativa, ratificando o que Deus já havia vislumbrado, por verdadeiro, pela antevisão. 

Nesse aspecto, a soberania divina é frágil, enquanto a força encontra-se na vontade determinada do homem; e nem mesmo Deus pode demovê-lo para o bem, pois sua vontade permanece imperiosa; assim, se o homem desejar permanecer em sua rebeldia, Deus não poderá fazer nada. Como observador, resta-lhe a condição de testemunha, estando apto a confirmar e declarar o assistido, cumprindo o papel de passividade cabível. Ainda mais angustiante é saber que, segundo essa definição, o Senhor ama a todos os homens, indistintamente, e não pode exercer nenhuma ação visando preservar o objeto do seu amor, antes, porém, deve respeitar e salvaguardar as decisões tolas de suas criaturas, culminando em lança-las, os amados, no Inferno. Após a condenação, o amado tornar-se-á em odiado, e sobre ele a ira e justiça divinas recairá. Temos, via de regra, um deus esquizofrênico, o qual ama suas criaturas, derramando sobre elas a sua graça, morrendo por todas elas na cruz, pagando o sacrifício impossível de ser quitado, mas, na hora “h”, nada disso se torna relevante, pois se o homem não quiser receber todas essas dádivas, pode recusá-las, anulando os seus eventuais efeitos, tornando-os inócuos como uma rosca espanada. 

Outra analogia seria a de um garoto, de dez anos, subir no alto de um prédio de cinco andares, vestido de Super-Homem, e ameaçar atirar-se do telhado. Ele acredita possível voar, e espera alcançar a mesma velocidade do Homem-de-aço, vista no último filme. Ainda que tenha machucado algumas vezes, e tirado sangue de joelhos e cotovelos, sempre reputou ser aquilo fruto de uma kriptonita invisível, enfraquecendo-o. Porém, agora, ele está certo de não haver nenhuma ameaça, nem mesmo tênue. Sente-se corajoso como nunca para realizar o mesmo feito do seu ídolo. Seu avô chega a tempo de impedi-lo, e tenta demovê-lo dessa ideia, dizendo que, se pular, ele morrerá, não verá mais seus pais, seus irmãos, os colegas de escola, não tomará mais sorvete, nem jogará futebol, o seu PlayStation será dado ao irmão caçula, que herdará também o quarto e todos os demais brinquedos... Além do mais, diz, você não é o Super-Homem, o Super-Homem não existe, é uma história, e homem nenhum jamais voou por si mesmo. Então, durante a conversa, ele se aproxima o suficiente para agarrar a criança, salvando-a de precipitar-se no vazio, mas insiste em convencê-la, argumentando, crendo que ela acreditará na própria insensatez e gravidade do seu ato, e pelo seu livre-arbítrio¹ decidirá com correção. Mas o garoto está cheio da conversa do avô e, mentalmente, quer provar que está certo; o Super-Homem não é uma mentira, ele viu, estava lá, voando, atravessando paredes, segurando aviões em pleno voo, mostrando o quanto era hábil no que fazia. Num átimo, lança-se do topo do edifício, estatelando-se no chão. O avô, no momento em que podia segurá-lo, recua a mão, lembrando-se de que a decisão é do netinho, e ele não pode interferir em suas escolhas, mesmo danosas e mortais. Quase teve remorsos, mas entendeu ser impossível ir contra a decisão da criança. Mesmo sabendo que o conhecimento dela da realidade era insuficiente para tomar uma decisão acertada, mesmo sabendo que esteve, até aquele tempo, enganada com a ilusão hollywoodiana de um super-herói voador, que sua mente estava mais afeita à fantasia do que à verdade, mesmo assim, não poderia intervir. Considerou-se impotente, entristecido, mas convicto de haver preservado a vontade da criança, a qual, em última instância, não a teve cumprida, posto não ter voado, nem permanecido vivo, como supunha, chegando a um final impensado e não desejado. 

Se porventura, todos os homens negassem a graça, a expiação e a justificação de Cristo (hipoteticamente, claro, a despeito de muitos já o fazerem efetivos), as quais não saíram da categoria de possibilidades, jamais, e em tempo algum, alcançaram o estado de certezas, elas não teriam qualquer sentido, e seriam um retumbante fracasso. Deus teria malogrado em seu propósito, o de salvar alguns, e ainda hoje, segundo essa visão, ele fracassou, pois, se Cristo morreu por todos e sua graça é resistível, não há eficiência na expiação e justificação, em salvar todos, mas apenas a contingência de, eventualmente, um e outro decidir abandonar o pecado e aceitar a salvação (mais por um mérito pessoal que pelo convencimento sobrenatural); além do quê, Deus passaria o atestado de incompetência.

Diante desta descrição, como não julgar esse "Deus" um miserável, e cego, e nu, submetendo a sua sabedoria, perfeição, santidade e poder, às vontades de suas criaturas imperfeitas, tolas, pecadoras e frágeis? 

Pois bem, a maior parte desse esquema não provém da Bíblia, nem da revelação divina, mas de distorções interpretativas do texto sagrado (ainda que exista uma lógica interna culminando nessa conclusão, contudo, o pressuposto do livre-arbítrio e do tempo, onde a vontade está atrelada, e sob os efeitos da transitoriedade, não se harmoniza com a realidade bíblica, sendo um equívoco) aliadas à especulações filosóficas e a necessidade de justifica-las, tendo como ponto comum a rebeldia e intransigente autoglorificação humana, em que o seu destino depende exclusivamente de si mesmo. Mas, se nos aspectos mais comuns e insignificantes da vida, nem assim o homem tem o poder de estabelece-los, muitas vezes, por que haveria de deter praticamente a totalidade das virtudes necessárias à salvação da alma, garantindo um lugar ao lado de Deus, na eternidade (algo que demandaria uma sabedoria próxima da perfeição)? Se está à mercê de forças externas a si, capazes de determinarem parte do curso existencial terreno, em um aspecto temporal, o que dizer de algo grandioso e dependente de um grau superlativo de virtudes? Ao ponto de ser necessário um estado de harmonia absoluta entre o espírito do homem e o Espírito de Deus? De onde tiraria essa superioridade espiritual sendo detentor de uma alma caída, pecadora e corrupta? Qual transformação seria indispensável à essa conversão? Uma vontade dominada pelo pecado? Controlada pela carne? Em oposição a Deus? 

Alguém dirá: Mas o Senhor derrama a sua graça sobre aquele homem, e ele pode então ver...

Ao que digo: será? Se ele é capaz de vislumbrar as benevolências, o amor, o sacrifício, a misericórdia e a graça divinas, e permanece resoluto em manter o seu estilo de vida, depravado, corrupto, e maldito, terá entendido de verdade quem é Deus? Quem ele é? E, caso não tenha entendido, de que adiantará a graça se não pode, ao menos, movê-lo ao conhecimento divino? Será uma graça inútil, anulada por sua estupidez.
  
____________
Notas:
[1] A própria noção de "livre-arbítrio" está equivocada, posto a criança estar "presa", de alguma maneira, a uma coação exterior a si mesmo, ou seja, o personagem "Super-homem", o último filme, a sua fantasia de homem-de-aço, tudo isso cooperando para mover a sua vontade a fim de realizar o ato desejado. O livre-arbítrio não é sinônimo de vontade, pois esta é controlada pelo Espírito Santo ou pelo pecado. Não há meio termo; enquanto o livre-arbítrio pressupõe neutralidade, uma neutralidade livre de qualquer influência ou coação externa e interna (somos, desde cedo, expostos à moral, à ética, a valores sociais, leis, etc, capazes de formar o nosso caráter, e, ao se ter um caráter, levando-nos para um lado ou outro, em nossas decisões, já não somos "neutros", significando na impossibilidade da neutralidade, logo, do livre-arbítrio)
[2] Advogo que nem mesmo Deus detém o livre-arbítrio, pois ele não pode fazer, nem como hipótese, algo que contradiga o seu Ser, de maneira que ele somente fará e decidirá por atitudes segundo a sua natureza, e jamais contra ela. 
[3] Fragmento de um esboço, a tornar-se apostila ou livro, sobre a Eleição Incondicional, portanto, são ideias e exposição preliminares, podendo sofrerem alterações, no futuro.  

***
Autor: Jorge Fernandes Isah
Fonte: Kálamos
.

Por quem Cristo morreu?

.


Neste vídeo, o Rev. Dorisvan Cunha expõe um dos pontos mais controvertidos da Teologia Reformada; a extensão da expiação de Cristo. A pergunta é: por quem Cristo morreu? Ele morreu por toda a humanidade ou Ele morreu apenas pelos pecados do Seu povo?


Assista:



***
Fonte: Guerra Pela Verdade
.

A lógica calvinista na Trindade

.

Por James Montgomery Boice


As doutrinas da graça dependem umas das outras, e juntas elas apontam para uma verdade central: a salvação ocorre inteiramente pela graça, porque ela pertence inteiramente a Deus. E por ser inteiramente dele, ela é inteiramente para a sua glória.

Para que possamos apreciar a glória de Deus nas doutrinas da graça em toda sua plenitude, é útil reconhecer o papel desempenhado por cada pessoa da Trindade nos cinco Pontos do Calvinismo. A eleição é a escolha de Deus Pai. A expiação é o sacrifício de Deus Filho. A graça que nos leva a Cristo e nos capacita a perseverar até o fim é a obra de Deus Espírito Santo. Assim, a salvação é uma obra divina do início ao fim – o trabalho coordenado do Deus triúno –, como é necessário para que sejamos salvos. Leve o seguinte em consideração: se estamos realmente mortos em nossos pecados (depravação radical), só Deus poderia nos escolher em Cristo (eleição incondicional), somente Cristo poderia expiar os nossos pecados (redenção particular), e somente o Espírito poderia nos levar a Cristo (graça eficaz) e nos preservar nele (graça perseverante). Portanto, todo louvor e glória pertencem somente a Deus: “Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!” (Rm 11.36)

***
Fonte: As Doutrinas da Graça, pág. 39. Editora Anno Domini
Via: Outdoor Teológico

Recomendamos este livro para quem deseja saber mais sobre as Doutrinas da Graça. Para adquirir, clique aqui!
.

O Calvinismo enfraquece a obra missionária? Um levantamento histórico

.

Por Thomas Magnum


Ao ensinar sobre as doutrinas da graça, comumente sou questionado com algumas perguntas que são motivo de confusão na mente daqueles que não tem um devido conhecimento do que chamamos de Calvinismo. Ao usar aqui o termo Calvinismo preciso esclarecer de imediato que, por ser aderente dessa linha teológica - que para mim é a que melhor se coaduna com as Escrituras Sagradas - não sou por isso obrigado a concordar com a totalidade da teologia de Calvino ou Calvinista, embora o reformador genebrino seja para mim um dos maiores nomes da história da teologia e o maior nome da reforma protestante, sendo o seu legado para posteridade de valor inestimável. No entanto, a teologia de Calvino não é a Escritura Sagrada, por isso me denomino calvinista no que se coaduna com as Escrituras. Bem, feitos esses esclarecimentos, prossigamos.

Dentre muitas questões levantadas para um correto entendimento do Calvinismo uma delas é: Se o Calvinismo está correto em seus cinco pontos, então, para que evangelizar? Por que a igreja deve se esforçar na obra missionária se Deus tem seus eleitos, se a expiação é particular, se a graça é eficaz? Ora, se o Calvinismo está certo não precisamos evangelizar!? Errado! Neste artigo procuraremos trazer alguns dados históricos sobre o trabalho da igreja reformada e seu empenho em evangelizar as tribos, povos e nações. Procurarei traçar uma linha histórica desde a reforma até o presente ponto histórico e os esforços da igreja para levar as boas novas de salvação a todos os homens.

De forma alguma o objetivo deste texto é atacar os irmãos arminianos, mas, esclarecer que a reforma também foi um movimento histórico voltado para missões no que se refere a seus desdobramentos, embora inicialmente tenha sido um movimento voltado para a eclesiologia e não para a missiologia. Esclarecer esses fatos é importante para uma mais larga compreensão das contribuições do Calvinismo nos vários movimentos missionais ocorridos na história da igreja. Ao fim deste texto listarei alguns livros que ajudarão numa pesquisa complementar para aqueles que desejarem se aprofundar no assunto. É importante dizer também que houve movimentos importantes relacionados as missões cristãs que partiram da influencia de Moody e Wesley.

A Reforma e Missões

A historiadora de missões Ruth Turker nos diz acerca de Calvino:

"Calvino por si mesmo, entrementes, fora pelo menos exteriormente o espírito mais missionário de todos os reformadores. Ele não só enviou dezenas de evangelistas de volta à sua terra natal, a França, mas também comissionou quatro missionários, juntamente com um bom número de huguenotes franceses, para estabelecer uma colônia e evangelizar os índios no Brasil." [1]

Calvino acreditava que os missionários tinham que ser preparados para ler a Bíblia nas línguas originais e ser cuidadosamente preparados para o campo e profundamente habilitados em teologia. Michael Horton, falando da preocupação de Calvino com a preparação de obreiros para o campo, diz: "O campo missionário não merecia menos do que qualidade de ministros esperados em sua terra de origem".

Em seu comentário de 1 Timóteo 2.3-5 Calvino fala:

"Assim podemos ver o significado que São Paulo pretende quando diz: Deus deu a conhecer a todo mundo, e seu evangelho pregado a todas as criaturas. Portanto, devemos procurar, tanto quanto possível, convencer aqueles que são estranhos à fé, e parecem estar totalmente privados da bondade de Deus, a aceitar a salvação. Jesus Cristo não é apenas um Salvador de poucos, mas ele se oferece a todos."

Calvino ainda diz em um outro sermão sobre 1 Timóteo 2.3-5 : "Temos de trabalhar, tanto quanto possível para levar a salvação aqueles parecem estar distantes."

Michael Horton ainda nos diz em seu livro A favor do Calvinismo, p. 208:

"Calvino não era indiferente em seu zelo missionário. O Catecismo de Heidelberg (1564), por si mesmo era uma ferramenta evangelística, foi traduzido para o holandês, saxão, húngaro, inglês, grego, francês, polonês, lituano e italiano. No período de vinte e cinco anos de sua publicação inicial."

Vale ainda frisarmos aqui que o catecismo na era pós-reforma foi traduzido em malaio, javanês, português, espanhol, cingalês, tâmil, chinês e japonês. Algum tempo depois em navajo, zuni, tiv e hausa. Essa preocupação demonstra a intensificação da atividade missionária do calvinismo na era da reforma e pós-reforma. Essa preocupação está fundamentada no ensino de Jesus e dos apóstolos sobre a evangelização das nações e, como lemos correntemente no livro do Apocalipse, que adorarão ao Cordeiro gente de toda tribo, povo, raça e nação. O fato de o Calvinismo pregar a eleição dos santos e a expiação limitada não empobrece o ímpeto missionário provindo do ensino teológico de expoentes do pensamento reformado. A exemplo disso podemos citar o avivamento de Princeton com as preleções de Charles Hodge, que futuramente foi responsável por impelir jovens a vários lugares do mundo como veremos mais adiante.  

Portanto, ao nos depararmos com a questão que ronda a mente daqueles que não conhecem bem o calvinismo, nem sua história, vemos que as doutrinas da graça não invalidam a obra missionária, antes, a intensifica. Se Deus elegeu homens e mulheres de todas as tribos, povos e nações, e o soberano Deus decretou que essas pessoas seriam salvas ao ouvirem a pregação, esse é o maior incentivo para a igreja de Cristo, existem eleitos nesses povos e o Senhor quer que cheguemos lá com a mensagem do evangelho para que eles sejam salvos. O empenho missionário das igrejas reformadas é a demonstração do zelo do povo de Deus pela ordem que lhes foi dada, Ide, e não somente em um tempo histórico, mas, indo, indo por todas as nações e fazendo discípulos.

O Movimento Missionário Moderno

Ao chegarmos aos tempos modernos temos grandes nomes a citar nessa visão panorâmica que estamos estabelecendo aqui. Aconselho o leitor a ampliar a leitura sobre esses dados históricos.

A Sociedade Missionária de Londres, que foi organizada em 1795, era um celeiro do movimento missionário e confessionalmente Calvinista. Na primeira reunião do grupo, George Burder discursou:

“... espírito apostólico revivido nos gloriosos reformadores seguindo a ‘longa e terrível noite’ da superstição e do declínio medieval. Lutero, Calvino, outras grandes luzes da Reforma recuperaram o evangelho em seus dias. ‘Mas, oh! Onde está o zelo primitivo? Onde estão os heróis da igreja – homens que voluntariamente entregaram e se dissiparam por Cristo, onde? Que a ambição não trilhe em uma linha já preparada por eles, mas que preguem a Cristo, onde, ainda ele não foi invocado.

Vale citar aqui também David Brainerd (1718-1747), ministro calvinista, notável por sua missão entre os índios no Oeste de Massachusetts, e Jhonatas Edwards (1749) que foi missionário entre os índios também. Edwards é conhecido pelo memorável sermão – Pecadores nas mãos de um Deus irado – teólogo, escritor, ainda um filosofo influente no pensamento americano.

Não podemos deixar de citar também William Carey, conhecido como o pai das missões modernas, tradutor da Bíblia, pregador do evangelho de Cristo na índia. Os esforços de Carey são um exemplo para a igreja. A morte de duas esposas e de um filho não foram impedimentos para Carey atender o chamado para levar o evangelho a Índia. Sapateiro, com pouco estudo, aprendeu sânscrito, hebraico e grego, Carey foi um dos grandes, se não o maior tradutor das Escrituras Sagradas. Carey foi muito influenciado pelos escritos de Jhonatas Edwards, também de confissão calvinista.  

Os calvinistas também olharam para a África, Robert Moffat (1795-1862) e David Livingstone (1813-1873) foram nomes chaves na evangelização da África. A escocesa Mary Stessor, missionária pioneira na África Ocidental em 1876 com apenas 27 de idade. Ela era vice-cônsul do império Britânico e abriu mão para ser missionária tomando a missão como superior, morreu aos sessenta e seis anos de idade na sua cabana de barro.

Jonathan Goforth, conhecido como o mais notável evangelista da China, foi um presbiteriano canadense. Chegando em tempos recentes, temos a chegada de Robert Reid Kalley ao Brasil em 1855. Kalley chegou ao Brasil e um tempo depois fundou a primeira congregação de nativos brasileiros, a Igreja Evangélica Fluminense. Depois de assistir uma palestra do Dr. Charles Hodge em Princeton, o jovem Ashbel Green Simonton também veio para o Brasil e, após sua chegada oito anos depois (1867), fundou o primeiro presbitério no Rio de Janeiro e o primeiro seminário presbiteriano. Claro que poderíamos citar muitos outros nomes e trazer mais provas históricas do empenho dos calvinistas para a evangelização do mundo, mas, concluiremos citando alguns nomes contemporâneos que tem se empenhado em esforços a evangelização de povos não alcançados, temos o conhecido pastor John Piper, que segundo Russel Shedd é um dos maiores evangelistas do nosso tempo, temos também Paul David Washer, que tem percorrido o mundo pregando o evangelho de Cristo. Não poderíamos deixar de citar dois nomes importantes, o Dr. Russel Shedd, fundador das edições Vida Nova, que tem se dedicado por décadas a evangelização do Brasil e preparação de líderes da nação brasileira. O último nome que gostaria de mencionar é do missionário Ronaldo Lidório, que também tem empreendido grandes esforços na evangelização de povos não alcançados, fundador do Instituto Antropos.

Dentro desse escopo que discorremos temos reformados das mais variadas denominações como Presbiterianos, Anglicanos, Congregacionais, Reformados, Episcopais, Batistas e muitas outras denominações que professam os princípios e ensinos da Reforma do século XVI. Portanto, é um erro afirmar que o Calvinismo não promove o zelo missionário nas igrejas. Historicamente vimos que é o oposto, Calvino enviou missionários ao Brasil e a evangelização posterior do Brasil também se deu pelo trabalho Calvinista. Os Estados Unidos são frutos de uma peregrinação e colonização cristã, e aí é valioso um estudo da vida e obra dos Puritanos. O zelo por missões está em nossas raízes e deve arder em nosso coração, como foi com nossos irmãos no passado. Que esse breve texto venha servir como uma simples introdução ao estudo missiológico. 

Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda judeia e Samaria, e até os confins da terra. NVI Atos 1.8

Esperemos grandes coisas de Deus, façamos grandes coisas para Deus. - William Carey

_________
Nota:
[1] – Missões até os confins da Terra – Ruth Tucker, ed. Vida Nova

Livros indicados:

Missões até os confins da Terra – Ruth Tucker, ed. Vida Nova.
A Favor do Calvinismo – Michael Horton, ed. Reflexão.
 A Igreja Missional na Bíblia – Michael Goheen, ed. Vida Nova.
 A Missão de Deus - Christopher J. H. Wright, ed. Vida Nova.
 A Missão do Povo de Deus - Christopher J. H. Wright, ed. Vida Nova.
 Evangelização – Fundamentos Bíblicos – Russel Shedd, ed. Vida Nova.
 Igreja Centrada – Timothy Keller, ed. Vida Nova.
 História e Teologia da Evangelização – Fabio Henrique Caetano, ed. Arte Editorial.
 História da Evangelização no Brasil, dos Jesuítas aos neopentecostais – Elben César, ed. Ultimato.

***
Fonte: Electus
.

Arminianismo e o seu circo soteriológico

.

Por Jailson Serafim


Contradições nos Cinco Pontos do Arminianismo

(1) A piada do livre arbítrio

Não só o dogma do livre arbítrio é falso e blasfemo, como também contraditório. Ele entra em contradição com o segundo ponto do arminianismo - a eleição condicional. Os arminianos dizem que "desde a fundação do mundo, Deus sabia quem iria crer ou não crer em Cristo, e que, com base nessa presciência, elegeu os que iriam crer para a salvação, e da mesma forma, predestinou, designou, recusou ou reprovou de antemão [desde a eternidade] os que não iriam crer, para a condenação" (Pr. Raimundo Ferreira de Oliveira; Lições Bíblicas [CPAD], Quarto Trimestre de 1987, pp.32-33). Ora, com base nisto, perguntamos: aqueles que, pela presciência de Deus, não crerão em Cristo e que foram de antemão por Deus predestinados, designados e reprovados para a condenação, tem a capacidade para escolherem a Deus??? Se têm essa capacidade, onde fica então a presciência de Deus?

(2) A piada da eleição condicional

Não só este dogma é blasfemo e antibíblico, como também contraria o terceiro ponto do arminianismo. Ora, se em sua presciência, Deus já sabia quem vai crer e quem não vai crer em Cristo, elegendo os futuros crentes em Cristo para a salvação, bem como predestinando, designando, recusando ou reprovando de antemão os que não crerão em Cristo, como então Cristo poderia morrer por aqueles que de antemão Ele próprio havia predestinado, designado, recusado e reprovado para a condenação? Poderia Cristo morrer por aqueles que de antemão sabia que jamais creriam nEle? Morreria Cristo em vão? E onde estaria a sua presciência?

(3) A piada da expiação geral

Agora, não só o dogma arminiano (expiação geral) é blasfemo e antibíblico, como entra em contradição com o quarto ponto do arminianismo. Ora, o quarto ponto do arminianismo (resistibilidade da graça divina) ensina que a graça de Deus pode ser resistida não só por uma parte da raça humana (os eleitos), mas por toda as duas partes (eleitos e não eleitos [reprovados]). Neste sentido, se Cristo morreu por toda a raça humana para dar-lhe a vida eterna, e se qualquer uma das partes da humanidade (os eleitos ou os reprovados) pode lhe resistir (ao seu chamado interno), isto faria com que o Salvador morresse em vão!

(4) A piada da graça resistível

Todavia, este dogma arminiano não só é blasfemo e antibíblico, mas também contraria o segundo ponto do arminianismo. Ora, se é verdade que desde a eternidade, Deus já sabia quem iria crer em Cristo, e que com base nesta presciência, elegeu estes para a salvação, como então estes podem resistir ao chamado interno do Espírito Santo? Este dogma resultaria em negar a presciência de Deus, bem como todo o dogma da eleição condicional para a salvação!

(5) A piada da perda da salvação

Este dogma arminiano, não só é falso e blasfemo, como também entra em contradição com o segundo ponto do arminianismo. Ora, se desde a eternidade Deus sabia quem ia crer nele e perseverar até o fim, e que, com base nesta presciência, os elegeu para a salvação, como é possível eles se perderem? Este dogma resultaria tanto em negar a presciência de Deus, como também a negar o dogma arminiano da eleição condicional!

***
Fonte: Perfil do autor no Facebook

Leia também o artigo em sua versão integral, "Os Cinco Contraditórios Pontos do Arminianismo".
.

Expiação Limitada

.

Por Leonardo Dâmaso

Texto base: Rm 5.8-11

Introdução

Expiação limitada é o terceiro dos 5 pontos do calvinismo, e é uma doutrina que se desenvolveu especificamente na tradição reformada. Ao contrário do que muitos pensam, não foi Calvino quem escreveu esta linha doutrinária. Os 5 pontos do calvinismo são apenas uma parte, e não um resumo de toda a doutrina de Calvino baseada nas Escrituras.

Estes 5 pontos foram elaborados somente 54 anos após a sua morte (1509-1564) pelo Sínodo de Dort, “composto de 84 teólogos, 18 representantes seculares, 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 1618 até maio de 1619”.1

Contudo, o objetivo de se ter formulado os 5 pontos do Calvinismo era de responder e questionar o documento apresentado pelos “discípulos do professor reformado de um seminário holandês chamado Jacob Arminius (1560-1600), que tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era inclinado aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem”.2

No entanto, os alunos de Arminius que formularam este documento (os 5 pontos do arminianismo) tinham em mente mudar os símbolos oficiais das doutrinas das Igrejas da Holanda, que se apoiavam na Confissão Belga e no Catecismo de Heidelberg, substituindo assim pelos ensinos de Arminius. Em contra partida, a razão pela qual os 5 Pontos do Calvinismo foram elaborados.

Todavia, a doutrina da expiação limitada salienta a obra da redenção realizada por Cristo através de sua morte na cruz. Não obstante, Jesus se ofereceu como o único e perfeito sacrifício pelos pecados para satisfazer a justiça de Deus, sofrendo a ira divina, tornando-se maldição e morrendo no lugar de pecadores. Em suma, é “a obra que Cristo realizou em sua vida e morte para obter nossa salvação”.3

Esta doutrina também tem como base a doutrina da predestinação, onde se diz que, desde toda a eternidade, antes do mundo vir a existir, e antes que houvesse a queda, Deus escolheu para si um número limitado de pessoas para salvar (Ap 5.9), enquanto o restante é “entregue” aos seus próprios pecados e, por fim, como punição pela desobediência ao Senhor a morte eterna (Rm 1.18-21, 24-32; 6.23).

“A palavra expiação é usada muitas vezes no Antigo Testamento. Além de ser um termo teológico muito incomum”4, significa um “ato ou efeito de expiar; o cumprimento da pena ou castigo que se reputa equivalente à culpa ou delito de alguém.

Significa remir culpas ou delitos pelo cumprimento de pena; ou seja, sofrer as consequências de alguém, cumprir a pena que reabilita uma pessoa, e por fim, purificar”.5 Vejamos uma ilustração como exemplo que elucida esta verdade sobre a expiação:

“Se um homem não pode pagar uma dívida que tem com o banco, mas se um amigo voluntariamente paga esta dívida por ele, então, esta dívida é coberta e o homem está livre de toda obrigação. Esta é a idéia da expiação”6 e literalmente o que Cristo Jesus fez pelos seus escolhidos na obra da redenção pagando a dívida que tínhamos com Deus.

Explanação

Para que possamos compreender de forma crível todo o conteúdo que compõe a doutrina da expiação limitada, precisamos saber em:

1. O motivo da expiação

Qual foi a razão que levou a Cristo se abdicar de toda a sua glória, vindo a este mundo em forma de homem, nascer do ventre de uma mulher tendo de passar por todo o processo de nascimento, crescimento e desenvolvimento humano e sofrer todas as nossas limitações, fraquezas e tentações que nos assolam, ser perseguido, maltratado e, por fim, morto?

“Por qual motivo Deus operou deste modo para realizar seu fim e cumprir seu propósito? Por que o sacrifício do filho de Deus? Por que, ao morrer, morreu a morte maldita da cruz”? 7

Indubitavelmente, o motivo da expiação foi “afetar a relação de Deus com o pecador, o estado e a condição de Cristo como o Autor Mediatário da salvação, e o estado e a condição do pecador”.8 Contudo, o motivo da expiação é caracterizado por estes 2 pilares:

a) O imensurável amor de Deus.

Podemos ver o amor de Deus explícito como a fonte da expiação nesta passagem em pauta:

João 3.16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Esta passagem denota o quão grande amor Deus teve para com o “mundo perverso e pecador”.9 A expressão de tal maneira não se encontra no grego, mas podemos entender não somente por essa passagem, mas por todo o Novo Testamento, especificamente sobre os textos que abarcam a missão de Jesus, a intensidade do amor de Deus.

O amor de Deus é algo que não se pode medir. A atitude de dar o seu único filho para morrer no lugar e em favor de pecadores (Rm 5.8), para que aqueles que acreditarem em Cristo como o salvador e filho de Deus não serem condenados à morte eterna, mas terem a vida eterna é tremendo!

b) A Sua justiça.

Além do amor de Deus ser o motivo da expiação (Jo 3.16; Ef 2.4), todavia, a justiça de Deus também faz parte deste epítome. A justiça de Deus requeria que Ele “encontrasse o meio para que a penalidade por causa dos nossos pecados fosse paga. Deus não poderia nos aceitar em comunhão consigo mesmo a menos que a penalidade fosse paga.”10

Esta foi à razão pela qual Deus enviou a Cristo para fazer a propiciação. O sacrifício que aplacaria a ira de Deus contra nós por termos ofendido a sua santidade pelos nossos pecados foi transferido para Jesus. Nós que merecíamos todo o sofrimento que Cristo passou a cruz e por fim a morte (Ez 18.4; Rm 6.23). 

Porém, o Senhor se fez maldito por nós sendo imputado sobre si os nossos pecados, suportando a ira de Deus e morrendo na cruz derramando o seu sangue carmesim para que Deus se tornasse propício em nosso favor. Fomos reconciliados com Deus para termos comunhão com o Senhor mediante Cristo pelo Espírito Santo e glorificá-lo em toda a nossa vida.

Romanos 3.25-26 – A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impune os pecados anteriormente cometidos; Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Na versão da NBV podemos entender melhor o que Paulo quis dizer nessa passagem. Senão vejamos:

Romanos 3.25-26 – “Deus foi quem enviou a Cristo Jesus para levar o castigo pelos nossos pecados, e assim pôr fim à ira de Deus contra nós. Ele usou o seu sangue para, mediante a fé, nos salvar da sua ira. Deste modo, Ele foi justo, mesmo não tendo castigado aqueles que pecaram em tempos passados. Isto porque aguardava a chegada do dia quando Cristo viria e apagaria os pecados anteriormente cometidos”.11 (veja Rm 5.9-11).

2. A necessidade da expiação

Será que não haveria outra forma de Deus salvar a humanidade sem a necessidade da expiação? Era realmente preciso Jesus morrer em nosso lugar?

Indubitavelmente, sabemos pela doutrina da eleição incondicional, o segundo ponto do calvinismo, que o homem não escolhe se voltar para Deus através do seu livre arbítrio, mas é Deus que escolhe salvar quem Ele quiser pela sua “livre e soberana graça”12 independentemente das obras (Ef 2.8; Jo 6.44; 10.24-28; 15.16; 17.6-9,20).

“Contudo, salvar homens perdidos não era necessidade absoluta, mas bondade soberana de Deus”.13 “Portanto, a expiação não foi absolutamente necessária, mas, como conseqüência da determinação de Deus de salvar pessoas, a expiação tornou-se absolutamente necessária”.14 Esta é a visão da expiação chamada de necessidade absoluta.

No entanto, como Deus não era obrigado abrir a porta da salvação a ninguém, devido à necessidade absoluta, a expiação se tornou necessária. “Uma vez que foi proposta, a salvação deveria ser assegurada por meio da satisfação que poderia ser conquistada somente pelo sacrifício substitutivo e pela redenção comprada pelo sangue”.15

Heber Carlos de campos complementa esta verdade acerca da necessidade absoluta dizendo que em Hebreus 2.17 Cristo “teve que experimentar as coisas próprias de um ser humano, ou seja, limitações, fraquezas e tentações.

Ele teve de sofrer para entender as coisas relativas à misericórdia e tinha de ser fiel para ser um sumo sacerdote perfeito. Para que isso viesse acontecer, o redentor teve de passar por um processo de aprendizagem”.16 Também em hebreus é mencionado que é impossível que o sangue de touros e bodes remova pecados (referência aos rituais de purificação do AT) (10.4) e que um sacrifício superior é requerido (9.23).  

Conclui-se, então, que somente o sacrifício de Cristo é eficaz para aniquilar completamente o pecado (9.26), e que não havia outro modo pelo qual Deus pudesse salvar pessoas a não ser pela morte de Jesus em nosso lugar.

3. A natureza da expiação

Acerca deste tema, que trata de forma indelével sobre a obediência de Cristo, que é descrita como obediência ativa e passiva, veremos que nestes 2 aspectos estão inseridos “as categorias mais especificas com que as Escrituras apresentam a obra expiatória de Cristo, que são sacrifício, propiciação, reconciliação e redenção”.17

John Murray corrobora que “a distinção entre a obediência ativa e passiva não é a despeito de tempos.

Deve-se descrever toda a obra de obediência de nosso Senhor em cada fase e período, como ativa e passiva, e deve-se evitar o engano de pensar que a obediência ativa se aplica em sua vida, enquanto a obediência passiva em seu sofrimento final e morte. O uso e o propósito legítimos dessa fórmula servem para enfatizar 2 aspectos da obediência vicária de Nosso Senhor”.18 Senão vejamos:  

a) A obediência ativa

Este termo trata especificamente sobre a obediência de Cristo por nós. Como é impossível para o homem obedecer totalmente a Deus, Jesus teve de viver durante toda a sua vida aqui na terra em total obediência a lei de Deus em nosso favor (Fp 2.8), “de modo que os méritos positivos de sua obediência perfeita pudessem ser atribuídos a nós” 19 (Rm 5.19). Isso é o que chamamos de obediência ativa.

b) A obediência passiva
      
Este segundo termo ressalta que “Cristo tomou sobre si os sofrimentos necessários para pagar a penalidade pelos nossos pecados”,20 como havia sido profetizado em Isaías 53.3 sobre a vinda do Messias, o qual seria um homem de dores e experimentado no sofrimento. Hebreus 5.8-9 diz-nos que mesmo sendo Filho, aprendeu a obediência por aquilo que padeceu. E tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem.

Os sofrimentos durante toda a vida de Jesus como fraquezas, limitações, tentações, rejeição e oposição dos homens, a dor psicológica de suportar o pecado e a culpa como se Ele mesmo pecasse, a dor física da crucificação, o abandono do Pai na cruz, a dor de suportar a ira de Deus contra o pecado e o pecador e por fim a morte, é que fizeram de Jesus o perfeito salvador.

Por outro lado, a obra da expiação tem inúmeros efeitos sobre nós. Veremos agora os 4 efeitos da expiação, os quais eu mencionei anteriormente que são o sacrifício, a propiciação, a reconciliação e a redenção. “Estes 4 termos mostram como a morte de Cristo satisfez as 4 necessidades que temos como pecadores”.21

a) Sacrifício: Cristo morreu em nosso lugar como substituto e pagou a penalidade da morte que merecíamos por nossos pecados contra Deus (Hb 9.26). 

b) Propiciação: Para que a ira de Deus contra o pecado e contra nós (pecadores) fosse aplacada e removida, Cristo morreu em nosso favor, propicio a nós (1Jo 4.10).

c) Reconciliação: Para que a parede que nos separava de Deus fosse derrubada (Ef 2.14-18), e a barreira que nos impedia de ter comunhão com Deus fosse removida (Is 59.2), era preciso que alguém intervisse em nosso favor, nos reconciliando novamente com Deus (2Cor 5.18-19).

d) Redenção: Como pecadores somos escravos do pecado e de satanás”22 (Jo 8.34; Rm 6.16; Ef 2.2-4), por isso era necessário que alguém nos redimisse dessa escravidão.

Redenção traz a idéia de um resgate, que é “o preço pago para redimir alguém da escravidão ou do cativeiro”23. É de vital importância ressaltar que Cristo não pagou resgate algum a satanás e muito menos ao pecado, e também não digo que foi a Deus, porque não foi Ele que nos manteve na escravidão, mas satanás e nossos pecados.

Cristo comprou e buscou a redenção, e, portanto, nos “é suficiente saber que o preço foi pago e aceito por Deus (a morte de Cristo), e o resultado foi termos sido redimidos da escravidão”.24  

4. A extensão da expiação

A pergunta crucial que envolve a síntese da extensão da obra expiatória é esta: Por quem Cristo morreu? “No lugar de quem Cristo se ofereceu como sacrifício”25? Mediante a esta pergunta, existem inúmeras passagens nas Escrituras referente à morte de Cristo, onde é afirmado que a expiação “aparentemente” foi universal, ou que a morte de Cristo foi por todas ou muitas pessoas ou pelo mundo todo.

No entanto, se analisarmos detalhadamente todo o contexto em geral sobre a questão da morte de Cristo, veremos que a expiação não foi universal, mas foi limitada ou particular. Em outras palavras, Jesus não morreu por todas as pessoas e nem pelo mundo inteiro.

Embora o sangue de Jesus derramado na cruz fosse “suficiente para cobrir os pecados de todos os homens e para satisfazer a justiça de Deus contra todo o pecado, ele efetua a salvação somente aos eleitos”.26 A expiação se reduziu ou foi eficazmente aplicada somente para algumas pessoas a quem Deus escolheu salvar.

Outro fator importante que envolve a extensão da expiação é que ela também abrange os não eleitos, que desfrutam dos benefícios da morte de Jesus, no que se refere as bênçãos físicas e materiais, dentre outras coisas (Mt 5.45). Isto é o que chamamos de “graça comum” ou “providência geral”. 

Outra questão agora está em pauta – Como interpretar as diversas passagens onde é mencionado que Cristo morreu por todas as pessoas e pelo mundo todo?

Tanto os cristãos arminianos quanto os cristãos reformados concordam que “o sangue de Cristo é suficiente, em valor, e que sua morte vicária é de valor infinito aos olhos de Deus, e é eficiente ou eficaz somente em relação aos eleitos. Atualmente, o ponto de vista arminiano da expiação universal não é sustentável.

Não obstante, a única saída dos arminianos para dizer sobre os que rejeitam a Cristo é dizer que a vontade de Deus é frustrada pelo homem, porque Cristo, ao que pressupõe, morreu por todos os homens aos quais Deus quis salvar, porém, não pôde fazê-lo”27, devido ao “livre arbítrio” que o homem possui em escolher ou não se voltar para Deus.

Todavia, sabemos pelas Escrituras que só Deus possui o livre arbítrio, e que esta linha de interpretação contradiz totalmente a doutrina da eleição. Vamos analisar algumas passagens onde os termos muitos e mundo aparecem e comprovar que estes a textos, apesar de favorecer outra interpretação, falam acerca da expiação limitada.

Senão vejamos: (Is 53.4-12; Mt 26.28; Mc 10.45; Jo 1.29; Jo 3.16; Rm 5.7-10; 1Cor 15.3; Gl 1.3-4; Tito 2.14; 1Jo 2.1-2; Hb 2.9; Ap 5.8-9; Mc 4.11-12; Jo 10.11,15, 26-28; Jo 17.6-9, 19-21...)

Conforme estas passagens e várias outras, vemos que “a bíblia utiliza expressões que são universais em forma, mas que não se referem a todos os homens no sentido distributivo e inclusivo.

Palavras como mundo e todos, expressões como cada um e todo homem nem sempre significam, nas Escrituras, todos os membros da raça humana”;28 mas sim, à universalidade e diversidade dos eleitos espalhados por todo o mundo, e à inclusão dos gentios também na obra da expiação.

Nessa mesma linha de pensamento, Ronald Hanko afirma que “o que tais passagens ensinam é que Cristo morreu por todos os homens sem distinção, não por todos os homens sem exceção. Em outras palavras, tais passagens ensinam que Cristo morreu por todos os tipos de homens (1Tm 2.6a), por todos que estão nEle (1Cor 15.22), ou pelo mundo de seu povo, isto é, por seus eleitos de todas as nações”.29

Por isso cai por terra a teoria de que Jesus morreu por todos os homens mesmo que todos não sejam salvos. Seria o mesmo que dizer que a obra de Cristo no projeto da salvação não foi perfeita, sendo assim ineficaz, e que o sangue de Jesus foi derramado em vão por alguns que não o querem. Contudo, seria necessário acrescentar algo a mais para ajudar a Jesus, a saber, a livre escolha do homem. 

Não obstante, a expiação limitada não é um meio que pode vir tornar possível a salvação, mas sim, é um meio que fez, faz e fará possível a salvação de todos os eleitos que foram predestinados para ela por nosso Deus e Pai. Aleluia!

Conclusão
  
5. A perfeição da expiação

Cristo não veio fazer os pecados expiáveis; Ele veio para expiar pecados!

Hebreus 1.3 – Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da majestade, nas alturas.

Cristo não veio para fazer Deus reconciliável, Ele reconciliou Deus conosco por meio de seu sangue.30

“A expiação é uma obra completa, jamais repetida ou passível de repetição”.31 “Ela é a provisão eterna do amor no coração de Deus”.32 Ela não força nem constrange o amor de Deus; antes, o amor de Deus constrange a expiação, que se fez instrumento para a realização do propósito determinado do amor”.33

A obra expiatória foi perfeita em todos os aspectos e alcançou o seu objetivo. Cristo não morreu por todos os homens! A expiação é limitada! A redenção é particular! Só a noiva eleita de Cristo (a igreja) é o objeto do amor de Deus no plano da salvação”.34  

Efésios 5.25b – Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela...

___________
Notas:
1.Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism 
2. Duane E. Spencer, TULIP, Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrituras, pág 111-112, Parakletos.
3. Teologia sistemática Wayne Grudem, pág 259.
4. Gise J. Van Baren. Expiação limitada.
5. Dicionário Priberam da língua portuguesa.
6. Gise J. Van Baren. Expiação limitada.
7. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 12.
8. Louis Berkhof. Teologia sistemática, pág 386.
9. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé.
10. Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 271.
11. NVB.  
12. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 13.
13. Ibid.
14. Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 272.
15. Turretin, Francis. Institutio Theologiae Elencticae, Livro XIV, Q.X; Thornwell, James Henley. “The Necessity of the Atonement”, em Collected Writings, vol II (Richmond, 1886), pág 205-261; Stevenson, George. A Dissertation on the Atonement (Filadélfia, 1832), pág 5-98; e Hodge, A.A. The Atonement (Londres, 1868), pág 217-222.
16. Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 109-110.
17. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 19.
18. Ibid, pág 21.
19- Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 273.
20. Ibid, pág 274.
21. Ibid, pág 278, 279.
22. Ibid.
23. Ibid.
24. Ibid.
25. R.C. Sproul. Eleitos de Deus, pág 152.
26. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 55.
27. Duane Edward Spencer. Artigo sobre a Expiação Limitada.
28. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 53.
29. Ronald Hanko. Doctrine according to Glodiness, Reformed free publishing Association, pág 155-156.
30. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 47.
31. Ibid.
32. Ibid, pág 48.
33. Hugh Martin. The Atonement: in Relations to the Covenant, the Priesthood, the Intercession o four Lord (Edimburgo), pág 19.
34. Duane Edward Spencer. Artigo sobre a Expiação Limitada.

***
Fonte: Bereianos
.