Batalhando pela segurança eterna dos santos

image from google

A pergunta que nunca se cala: O crente pode perder a salvação? Essa questão inquieta teólogos e cristãos não acadêmicos de diversas denominações. Enquanto alguns se agarram nas promessas de Jesus: “ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10.28); outros lutam para cumprir as advertências do próprio Cristo: “quem perseverar até o fim será salvo” (Mc 13.13).

Nos deteremos à posição reformada apenas: a posição de que o crente não perde a salvação. Porém, dentro da posição reformada existe divergência entre os teólogos acerca do significado das advertências. Para limitarmos nosso estudo, focaremos em apenas uma das posições e a defenderemos como posição mais coerente na interpretação das Escrituras.

Um estudo de caso

O Novo Testamento trata de alguns casos em que há uma afirmação acerca da salvação das pessoas envolvidas. Dois deles são exemplos clássicos: Pedro e Judas. Jesus estava reunido com seus discípulos em seus últimos momentos e em sua oração por eles, Jesus afirmou:

Enquanto eu estava com eles, eu os guardei e os preservei no teu nome que me deste. Nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. - João 17.12

Jesus afirmou categoricamente que Judas não fora guardado por ele para que a Escritura se cumprisse. Uma dura verdade. Mas, a salvação dos discípulos, assim como a nossa, dependia exclusivamente da preservação de Jesus. Ainda no mesmo período de tempo desta afirmação de Jesus, o Mestre previu a traição de Pedro:

Simão, Simão, Satanás vos pediu para peneirá-lo como trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não esmoreça; e quando te converteres, fortalece teus irmãos. Pedro lhe disse: Senhor, estou pronto para ir contigo tanto para a prisão como para a morte. Disse-lhe Jesus: Pedro, eu te digo que o galo não cantará hoje antes que tenhas negado três vezes que me conheces.” - Lucas 22.31-34

Observe que Jesus impediu Satanás de tirar-lhe a fé. Jesus o preservou. Porém, no que dependia de Pedro, ele trairia Jesus. No entanto, Jesus afirmou que Pedro seria restaurado (QUANDO te converteres e não SE te converteres). Jesus preservou a fé final (a perseverança) dos seus discípulos, assim como faz conosco, mesmo em meio às suas quedas momentâneas.

“Minha confiança em ser preservado, não consiste na minha habilidade em preservar, mas minha confiança repousa no poder de Cristo em sustentar-me em sua graça e em sua intercessão por nós”¹ - R.C. Sproul

2. As advertências do Evangelho:

Como podemos entender as advertências do Evangelho, então? Claramente na Escritura há um chamado a examinarmos se estamos ou não em Cristo:

Examinai a vós mesmos, para ver se estais na fé. Provai a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? A não ser que já estais reprovados.2 Coríntios 13.5

Em nosso ponto de vista esta questão facilmente se resolve quando entendemos o texto de Hebreus 6.4-9. Esse texto, embora muito disputado, pode ser esclarecido com o contexto da carta:

Porque temos nos tornado participantes de Cristo, se mantivermos a nossa confiança inicial firme até o fim.- Hebreus 3.14

Entendemos que esse versículo elucida que os verdadeiros crentes são aqueles que permanecem até o fim em sua “confiança inicial”. São aqueles que professaram sua fé em Jesus e a conservaram até o fim. A Manutenção da confiança inicial até o fim é prova de que temos nos tornado participantes de Cristo.

Tendo este texto em mente, entendemos o texto de Hebreus 6.4-9:

Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública. Pois a terra que absorve a chuva, que cai frequentemente e dá colheita proveitosa àqueles que a cultivam, recebe a bênção de Deus. Mas a terra que produz espinhos e ervas daninhas, é inútil e logo será amaldiçoada. Seu fim é ser queimada. Amados, mesmo falando dessa forma, estamos convictos de coisas melhores em relação a vocês, coisas próprias da salvação.

Entendemos que as pessoas das quais falam os versículos, provaram mas não “nasceram de novo” (Jo 3) de fato. Elas conheceram as verdades do Evangelho, e até foram influenciadas por ele, mas não são filhos de Deus (Jo 1.12). Elas se tornaram participantes ao serem apenas companheiras de caminhada, assim como haviam companheiros do povo que saiu do Egito, porém não entraram na terra prometida² (1 Cor 10.1-13). Assim, elas chegaram até a mudar certos hábitos pecaminosos, mas nunca foram regeneradas pelo Espírito Santo (Tt3.4-7).

Wayne Grudem elucida muito bem esta explicação com a seguinte ideia:

“Portanto, o autor quer fazer um grave alerta àqueles em perigo de cair da fé cristã (pressupondo que na comunidade da carta haja não regenerados). Ele quer usar a linguagem mais forte possível para dizer: ‘vejam aqui até onde a pessoa pode chegar na experiência das bênçãos temporárias, sem, no entanto, realmente estar salva’. Ele os exorta a vigiar, pois não basta depender de bênçãos e experiências temporárias. Para isso, ele fala não de uma verdadeira mudança no coração ou de algum bom fruto, mas simplesmente das bênçãos e experiências temporárias que essas pessoas tiveram e que lhes deram uma compreensão parcial do cristianismo.”³

A parábola do semeador (Mt 13.1-23) deixa bem claro a possibilidade de que na comunidade da fé exista aqueles que não são verdadeiros cristãos. A parábola afirma que em alguns dos solos houve uma “germinação”, porém não se sustiveram. Entendemos que o “solo bom” é o coração genuinamente trabalhado pelo Espírito Santo, para que possa produzir os “resultados” do Evangelho (Jo 16.7-11). Ou seja, os verdadeiros crentes permanecem:

Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos, pois se fossem dos nossos teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram, para que se manifestasse que não eram dos nossos.1 João 2.19

Por fim, embora tenhamos a segurança da salvação prometida com toda a expressão possível no Novo Testamento (Jo 10.27-29; Rm 8; Ef 1.13-14; 1 Pd 1.5; Jd 24,25; etc.), não somos chamados a uma “preguiça espiritual”. Somos convidados por Jesus e os apóstolos a perseverarmos. Somos convidados a batalhar pela nossa fé na esperança confiante de que Deus vencerá por nós e nos guardará até o fim.

Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele. - Filipenses 2.12,13

_______________
Fontes:
[1] R.C. Sproul. Disponível em: O que é teologia reformada? (DVD – Fiel)
[2] Carson, D.A. Disponível em: Análise da carta de Hebreus (aula 3)
[3] Grudem, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2011.

***
Sobre o autor: Rafael Moraes Bezerra é formado em Direito pela UFJF; mestre no programa Master of Divinity pela EPPIBA (Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia) em parceria com a TLI (Training Leaders International); Pastor auxiliar da Primeira Igreja Batista em Ubá/MG
Fonte: Bem Vindo ao Evangelho
.

Lutero e o Ensino da Depravação Total

image from google

Quando Lutero, no século XVI, deu início ao que ficaria conhecido por Reforma Protestante, ele foi completamente impactado pelo seguinte verso, presente em Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”. Foi com esta palavra que o “papado” começou a morrer dentro daquele monge alemão, que também havia se tornado um excelente professor de exegese, em Wittenberg.

A justificação pela fé, para Lutero, era o resumo de toda a doutrina cristã. Os méritos humanos não são capazes de tornar nenhum ser humano justo diante de Deus. Lutero acreditava no que veio a ficar conhecido por Depravação Total (DT). Essa depravação havia tomado o homem na queda. Na sua antropologia, Lutero afirma que nós somos possuidores de corpo e alma vivente, sendo que o pecado afetou tanto um como o outro. Para o reformador alemão, portanto, já nascemos com os desejos maus enraizados em nossos corações. Essa foi uma das grandes controvérsias que Lutero teve com o humanista Erasmo de Roterdã.

Igualmente, a teologia luterana contemplava um homem que peca por já ser um pecador, e não que se tornava um à medida que cometia os seus delitos. Lutero explica, ainda, que o pecado original está encravado em cada pessoa, de forma que não podemos nos desatrelar dele. Por esta razão é que o pecado é pessoal e natural. O ser humano é um ser corrompido, envenenado e pecaminoso. Os efeitos contidos na queda e a herança que ela relegou a todos os humanos fizeram com que Lutero escrevesse a seguinte pérola:

Assim, Adão e Eva eram puros e saudáveis. Tinham uma visão tão aguçada que podiam enxergar através de uma parede e ouvidos tão bons que podiam ouvir qualquer coisa a 3 km de distância. Todos os animais eram-lhes obedientes: até mesmo o sol e a lua sorriam para eles. Mas depois o diabo veio e disse: “Vocês se tomarão como os deuses”, e assim por diante. Eles pensaram: “Deus é paciente. Que diferença faria uma maçã?”. E num estalar de dedos ela estava diante deles. E isso ainda nos está pendurando a todos pelo pescoço.[1]

Embora esta citação possua linguagem especulativa quanto às façanhas físicas do homem antes do lapsus, ela ilustra muito bem o entendimento luterano acerca da DT. A sua concepção de depravação está atrelada com o seu ensino acerca da justificação. Desta forma, para o reformador, Deus aceita a justiça de Cristo, por isso, mesmo os nossos pecados não sendo removidos, eles não são mais denunciados contra nós. Esta é a clássica diferença entre o “tornar justo”, defendido por Agostinho, e o seu “declarar justo”. A justificação ocorre pela fé, somente, e quem a recebe passa a ser, ao mesmo tempo, justo e pecador. Sobre este paradoxo, Lutero afirma:

Somos verdadeira e totalmente pecadores, com respeito a nós mesmos e ao nosso primeiro nascimento. Inversamente, já que Cristo nos foi dado, somos santos e justos, totalmente. Então, de diferentes aspectos, somos considerados justos e pecadores ao mesmo tempo. Assim, podemos concluir que Lutero aniquilou a teologia romanista da salvação meritória, ao doutrinar que a justificação se dá somente pela fé. Também podemos celebrar o seu legado na luta contra a falsa doutrina do livre-arbítrio.[2]

Entendida a capacidade vinda de Deus para tomar decisões ordinárias, resta evidente que, para cumprirmos as responsabilidades no mundo, o livre-arbítrio permanece. O que ele é incapaz de realizar é fazer com que o homem salve a si mesmo. Nesse sentido, o livre-arbítrio está totalmente corrompido, tornando-se, assim, escravo do pecado e do próprio Satanás. Essa vontade escravizada nos faz desejar o que é mau. Apenas com o auxilio da Graça somos libertos. A tragédia da existência humana se resume no fato de que o homem não regenerado se considera livre, e, deste modo, se entrega cada vez mais àquilo que o aprisiona. Esse trágico quadro que Lutero pintou resume o seu ensinamento a respeito da DT e leva-o ao entendimento da salvação mediante a graça: “Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão somente pela graça de Deus”.[3]

Neste ano em que a Reforma completará seus 500 anos, é preciso resgatar esta doutrina, que foi sendo solapada das igrejas brasileiras através de ensinamentos equivocados e heréticos. Precisamos falar mais da DT pois, como nos diz Berkhof: “O correlativo natural da doutrina da depravação total é o ensino da total dependência do homem da graça divina quanto à renovação. Lutero, Calvino e Zwínglio apresentaram frente unida quanto a isso”[4]. E para glória de Cristo, devemos resgatar o Evangelho da Graça preservando o legado do protestantismo.

____________________
Notas:
[1] Citado por Thimoty George no excelente livro Teologia dos Reformadores, p. 69.
[2] Ibdem, p. 73.
[3] Nascido Escravo, p.39.
[4] A História das Doutrinas Cristãs, p.134.

***
Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
.

O Jesus real ofende todo mundo!

image from google

A ofensividade de Cristo é um ponto nevrálgico numa época de tanta “sensibilidade” ególatra como a nossa. Se essa ofensividade sempre foi um problema, imagine hoje?

O Jesus dos Evangelhos é ofensivo por ser muito inclusivo. Ao mesmo tempo, o Jesus dos Evangelhos é ofensivo por ser excessivamente exclusivo.

A igreja muitas vezes, os religiosos, os bons cidadãos... são ofendidos por Sua inclusividade, e o mundo e nossa cultura são ofendidos por Sua exclusividade.

Assim, todos ficamos até certo ponto inclinados a enfraquecer a ofensa, seja minimizando Seu chamado inclusivo ou minimizando Suas reivindicações exclusivas. Mas devemos saber com clareza que, sempre que saímos de um lado ou do outro, acabamos com um Jesus à nossa imagem – um ídolo.

Somos chamados a celebrar a inclusividade de Jesus e Sua exclusividade, pois esta é a polaridade que torna Jesus tão irresistivelmente atraente e o evangelho ser evangelho.

Os Evangelhos retratam Jesus como um Messias que constantemente e deliberadamente irritou muitos dos mais religiosos e melhores cidadãos de seus dias. Os mais respeitáveis.

Jesus não se inclina para a elite religiosa. Ele não vai respeitar suas categorias de quem está dentro e quem está fora. Ele não se juntará a eles para condenar” os pecadores comuns enquanto se excluem. Ele come com coletores de impostos, prostitutas... os párias da sociedade. Ele não tem medo de se aproximar deles.

A inclusividade de Jesus choca os líderes religiosos, os melhores cidadãos. Ele abre as portas do reino aos pecadores de todas as raias, e Ele fala duramente contra os religiosos por sua “justiça” auto-declarada de exclusividade pelos seus próprios méritos.

Evangélicos muitas vezes falam sobre como as reivindicações exclusivas de Cristo são ofensivas para nossa cultura hoje, mas às vezes não sentimos como a inclusividade de Cristo era tão ofensiva em seu contexto do primeiro século. E, ao perder essa verdade, é improvável que detectem as formas em que lançamos barreiras e erguemos muros em torno do “evangelho”.

A postura inclusiva de Jesus para com as mulheres (desprezadas naquela cultura), para com os doentes, para com os marginalizados, para com os piores pecadores representa um desafio para a igreja de hoje, tal como aconteceu com os fariseus há dois mil anos.

A prostituta na igreja pode estar mais perto de Deus do que o melhor cidadão de nossa sociedade, escreveu C. S. Lewis, ecoando as palavras de Jesus de que os coletores de impostos e prostitutas estavam entrando no reino na frente dos fariseus. Até que a inclusão radicalmente ofensiva da graça de Deus penetre em nossos ossos, nunca nos uniremos a Jesus nas margens da sociedade, acolhendo e abençoando pecadores ARREPENDIDOS de todos os tipos.

Mas o mesmo Jesus que chama os cansados ​​para virem a Ele para descansar é Aquele que exige que neguemos a nós mesmos – não algumas coisas, mas a nós mesmos, e o sigamos até nossa morte.

Ele diz que Ele é o único caminho para Deus, a Verdade, a Vida. Ninguém vem a Deus senão por meio d'Ele. Percebeu?

Seu caminho é estreito.

A porta é apertada.

Ele é o Pão do Céu, e a menos que você O consuma com fome, deleite e prazer, você perecerá.

Se você está ofendido pela natureza chocante dessas reivindicações exclusivas, então você pode ir embora, assim como as multidões fizeram em João 6.

Você vê? Com uma mão, Jesus está acenando a todos em todos os lugares para irem a Ele. Com a outra mão, Ele está afastando as pessoas. Você contou o custo? A menos que você se arrependa, você perecerá! Você está disposto a desistir de seus direitos e dobrar o joelho agora e para sempre?

Sejamos francos. A exclusividade é ofensiva quando estamos acostumados a ter nossas escolhas, quando pensamos que a tolerância deve significar nos aceitar como nós somos e concordar com o que somos. Jesus parece pensar que Ele é especial, que a graça de Deus vem somente por Ele, e que Ele nada deve a nós – mas que devemos tudo a Ele.

O único coração que pode receber tal graça é o coração que recebe o dom do arrependimento. Arrependimento é a troca de sua agenda, do seu  “reino” pessoal para a agenda do reino de Jesus Cristo, e isso é uma agenda que inclui TODAS as esferas de sua vida - como você vive, como você ama, como você dá, como você adora, como você se comporta sexualmente, como você fala, como você O segue como Senhor.

Não se engane, Jesus é duplamente ofensivo. Jesus disse que Ele veio chamar os pecadores ao arrependimento. Muitos na igreja estão ofendidos que o chamado de Jesus é para os pecadores e que não há diferença – “todos pecaram!”. Ninguém está numa situação melhor e todos dependem da Graça Soberana. O mundo está ofendido que Ele chama pelo arrependimento, negação a si mesmo, abandono do pecado... por isso só o Chamado Eficaz quebra a inimizade a Deus daqueles (todos os homens) que amam as trevas. Pois “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser.” - Romanos 8:7

É por isso que o mundo e a cultura minimizam Suas reivindicações exclusivas até que Jesus seja reduzido a um guerreiro da justiça social, contra a pobreza, pela ecologia... e  que afirma as pessoas como elas são. E é por isso que muitos na igreja minimizam Seu chamado soberano inclusivo até que Jesus seja reduzido a um distintivo de honra para os que acreditam, pelos que se diferenciaram dos outro pelo “livre-arbítrio”, humildade... que por sua própria obediência se tornam bons diante de Deus.

A boa notícia é que Jesus pode mudar a todos nós. Por graça soberana, Ele abre o punho fechado do hipócrita religioso, e Ele estreita a visão do pecador de “mente aberta” até que Ele seja o único ponto na vista de todos, a única coisa preciosa. Como? Ao destruir a auto-justiça através de Sua morte e ressurreição.

Você vê, a igreja se auto-justifica quando encontra em si o que a diferenciou do mundo e não vê que só a Graça Soberana fez isso sozinha.  Quando condena o chamado inclusivo e soberano aos pecadores que Deus quiser chamar eficazmente. E o mundo se auto-justifica quando condena o chamado exclusivo ao arrependimento, negação de si mesmo, tomar a Cruz... ao querer ser aceito como é... Mas os Evangelhos nos dão um Jesus que explode a justiça em todas as suas formas quando Ele dá Seu corpo para ser golpeado e ferido e pendurado em uma cruz.

Portanto, não desista do desafio inclusivo ou exclusivo de Jesus. É o que o torna diferente de todos os outros. É o que é tão atraente sobre Ele. É o sinal de que Ele é verdadeiramente Deus, que Ele nos ama o suficiente para não nos deixar sozinhos.

Num dia em que é comum a igreja oferecer um Jesus exclusivo sem Sua inclusividade e o mundo é provável crer em um Jesus inclusivo sem Sua exclusividade (se acomodando ao homem e não o chamando para morrer), eu digo: “Dê-me o Jesus duplamente ofensivo do Novo Testamento, por favor. Deixe Ele ofender a todos nós” – Precisamos do Jesus real.

***
Autor: Josemar Bessa
Fonte: Fides Reformata
.

O Calvinismo Estimula as Missões

image from google

“O Calvinismo mata as missões!”, dizem muitos. Afinal, se Deus já escolheu alguns para salvar antes da fundação do mundo, deixando outros para serem condenados, então por que nos incomodaríamos pregando o evangelho às nações? Os eleitos serão salvos e nenhum dos outros será. Mas quando fazemos uma pausa para examinar de perto o Calvinismo, descobrimos que ele não mata missões — ele, de fato, é combustível para missões! Consideremos os bem conhecidos cinco pontos do calvinismo para ver como eles se relacionam com as missões.

Depravação Total — A necessidade de Missões

Como Calvinistas, acreditamos que “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12). Assim, todos os homens nascem como pecadores; todos nascemos em rebelião contra Deus. Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:10-11). Somos totalmente depravados por natureza, o que não significa que somos tão completamente perversos quanto possível, mas que nossa pecaminosidade afeta todas as áreas da vida. Nenhum aspecto das nossas vidas está livre da corrupção do pecado.

Uma vez que todos os seres humanos são pecadores, todos nós nascemos sob o juízo de Deus. Não importa onde vamos no mundo de hoje, separados de Cristo, aqueles que encontramos enfrentam a ira de Deus por seus pecados. “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da nossa carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3). Uma eternidade no inferno espera as pessoas ao redor do mundo, como castigo por seus pecados. Como esta realidade pode não nos levar a encontrar maneiras de levar as boas novas de Jesus Cristo para as nações? Jesus é o único que pode salvá-los de um futuro terrível e lamentável!

Eleição incondicional — A esperança através das Missões

Porque Deus não tem prazer na morte dos ímpios, mas chama os ímpios para que se convertam do seu caminho e vivam (Ezequiel 33:11), Ele predestinou um povo para a adoção de filhos por Jesus Cristo, de acordo com o beneplácito da Sua vontade (Efésios 1:5). A escolha de Deus, ou eleição, de um povo para manifestar a Sua graça foi incondicional, já que não há nada em nós como pecadores que faria com que Deus nos amasse (1 João 4:10).

Os eleitos de Deus são uma grande multidão que ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas (Apocalipse 7:9). E Ele escolheu esta grande multidão para receber a Sua gloriosa graça. É com essa certa esperança de sucesso nas missões que os Calvinistas vão às nações proclamando o Evangelho de Jesus Cristo.

Expiação limitada — A mensagem das Missões

Deus, o Pai, dá o Seu povo eleito ao seu Filho, Jesus Cristo, para que todos os que veem o Filho e creem n'Ele possam ter a vida eterna (João 6:40). Ele usa pregadores para levar o Evangelho de Jesus Cristo para as nações, pois como eles invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouviram sem um pregador? (Romanos 10:14).

A mensagem de todos os pregadores Cristãos é resumida pelo apóstolo Paulo: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze” (1 Coríntios 15:3-5). Cristo morreu para pagar pelos nossos pecados, “assim assegurando uma eterna redenção” (Hebreus 9:12). Ele não morreu apenas para tornar possível o perdão dos pecados. Cristo realmente nos redimiu para Deus por meio do Seu sangue. Ele redimiu homens e mulheres de todas as tribos, línguas, povos e nações (Apocalipse 5:9). Os Calvinistas querem que o povo de Deus, de toda tribo, língua, povo e nação, ouça sobre a expiação substitutiva de Cristo pelos pecadores, para que sejam perdoados dos seus pecados e adotados como filhos e filhas de Deus.

Graça irresistível — O poder nas Missões

Os seres humanos nascem em estado de total depravação, completamente depravados, espiritualmente mortos em seus delitos e pecados (Efésios 2:1). Isso significa que ninguém virá a Cristo por si mesmo. Mas nos regozijamos em lembrar que Deus está operando através do Espírito Santo, efetivamente atraindo os Seus eleitos para Cristo (João 6:44). E a graça de Deus é irresistível, porque Ele determinou salvar um povo para Sua glória.

Portanto, os Calvinistas apelam a todos os homens em todos os lugares para se arrependerem (Atos 17:30), porque sabemos que aqueles eleitos por Deus se arrependerão e crerão em Cristo! Esta poderosa graça de Deus nos dá confiança nas missões, sabendo que todos os que creem em Cristo serão salvos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Sim, os Calvinistas acreditam em João 3:16!

Perseverança dos santos — O sucesso com as Missões

Finalmente, os Calvinistas descansam por saberem que nosso trabalho missionário será finalmente bem-sucedido. Pois, a Palavra de Deus não retornará a Ele vazia, mas cumprirá o que Lhe apraz (Isaías 55:11). Se não vemos o fruto do nosso trabalho entre as nações, então não precisamos desesperar. Não é ele o que planta, nem o que rega, mas Deus é quem dá o aumento (1 Coríntios 3:7). Ao mesmo tempo, sabemos que Deus está agindo e atraindo as pessoas para Si mesmo, então continuamos a proclamar as boas novas confiando n'Ele para remover os corações de pedra e dar corações de carne (Ezequiel 36:26).

Além disso, quando as pessoas em todo o mundo nascem de novo, reconhecemos que Aquele que começou uma boa obra nelas a completará (Filipenses 1:6). Deus nos apresentará irrepreensíveis diante da presença de Sua glória com grande alegria (Judas 24). Portanto, aguardamos com expectativa o dia em que nos uniremos com nossos irmãos e irmãs em Cristo de todo o mundo, louvando nosso Salvador pela redenção que Ele realizou na cruz. Que estas gloriosas verdades estimulem os nossos corações para missões como Calvinistas, para que Cristo seja glorificado!

***
Autor: John Divito
Fonte: Founders Ministries
Tradução: Tayllon Gabriel
Revisão: Camila Rebeca Almeida Teixeira
.

Reflexões para o ano novo

image from google

Ora, irmãos, com respeito ao ano que se aproxima, eu espero que ele seja um ano de felicidade para vocês, — de forma muito enfática desejo a todos vocês um Feliz Ano Novo, — mas ninguém pode ter certeza de que ele será um ano livre de dificuldades. Pelo contrário, tenha a segura confiança de que não será assim, porque, como é certo que as faíscas sobem para o alto, o homem nasce para as dificuldades. Cada um de nós possui, amados amigos, muitos rostos queridos com os quais nos regozijamos — que eles possam sorrir para nós ainda por muito tempo: mas lembre-se de que cada um deles pode vir a ser ocasião de tristeza durante o próximo ano, porque não existe nenhum filho imortal, nenhum marido imortal, nenhuma esposa imortal, nenhum amigo imortal, e, portanto, alguns deles podem morrer durante o ano. 

Além do mais, os confortos com os quais nos cercamos podem tomar para si asas antes que o ano cumpra seus meses. As alegrias terrenas são todas como que feitas de neve, se desfazem com a mais leve brisa, e se vão antes de terminarmos de agradecer sua chegada. Pode ser que você tenha um ano de seca e escassez de pão; pode ser que anos magros e desagradáveis lhe estejam reservados. Sim, e ainda mais, talvez durante o ano que já está quase amanhecendo você possa recolher seus pés à cama e morrer, para encontrar-se com Deus Pai. 

Pois bem, com relação a este ano que está próximo e suas possibilidades desoladoras, devemos viver cabisbaixos e tristonhos? Devemos pedir a morte ou desejar nunca ter nascido? De modo algum. Devemos, por outro lado, viver de forma despreocupada e risonha em todas as circunstâncias? Não, isso soaria doentio nos filhos de Deus. O que faremos? Iremos pronunciar esta oração: “Pai, glorifica teu nome.” Isto significa dizer: se devo perder minha propriedade, glorifica teu nome na minha pobreza; se devo ser roubado, glorifica teu nome em meu sofrimento; se devo ser morto, glorifica teu nome em minha partida. 

Quando você ora nesta disposição, seu conflito finda, nenhum pavor exterior permanece se tal oração surge de seu íntimo, você tem nela rejeitado todos os presságios fatídicos e pode, de forma lúcida e tranquila, trilhar seu caminho pelo desconhecido amanhã.

***
Autor: Charles H. Spurgeon
Fonte: A Golden Prayer, 30 de dezembro de 1877
Tradução: Márcio Santana Sobrinho
.

Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 4)

image from google

[Este será o quarto post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10]

Nesta série embaraçosamente intermitente, eu tenho tratado da seguinte pergunta: Quão bem o Molinismo é apoiado pela Bíblia? No primeiro post, eu argumentei que o Agostinianismo e o Molinismo podem igualmente acomodar a providência divina abrangente e o conhecimento de Deus sobre os contrafactuais de liberdade das criaturas, ambos claramente afirmados pela Bíblia. Concluí observando que, para mostrar que o Molinismo é mais bíblico do que o Agostinianismo, precisaríamos identificar uma proposição p que (i) fosse afirmada pelo Molinismo, mas negada pelo agostinianismo, e (ii) que fosse afirmada ou que estivesse claramente implícita em algum ensinamento bíblico.

Romanos 11:22-24 ensina que a salvação pode ser perdida?

image from google

Romanos 11. 22-24 ensina que a salvação pode ser perdida? E que depois de perdida pode ser recuperada? Vejamos:

Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado. E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar. Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!” Romanos 11. 22-24 - ACF

Paulo, argumentando contra a soberba gentílica (que foi um efeito colateral do orgulho israelense, por ser a nação eleita, que causou uma soberba nos gentios agora alcançados pelo evangelho, uma vez que se sentiam superiores aos judeus – que o recusaram), usa a alegoria da videira para ilustrar seu ponto de vista. Os gentios deveriam ver no exemplo da severidade divina dada aos judeus motivos para temer ao Senhor e demonstrarem gratidão ao invés de orgulho. 

Os termos não vêm dos termos

image from google

Vern Poythress escreveu um livro sobre a validade da multiplicidade de perspectivas – é o must! De forma sucinta ele lida com questões da linguagem e demonstra como esta revela que há uma perspectiva, tendo em vista que os termos são utilizados pelo que os utiliza a partir de seu entendimento ou arcabouço de significado. Segundo ele, há uma grande dificuldade na definição de termos, pois, em regra, eles não têm apenas um significado e, na teologia, a dificuldade vem do fato de que nenhum termo da sistemática equivale ao termo bíblico.[1] 

O fato é que os termos são utilizados de modo elástico nas Escrituras e de modo estrito na Sistemática. A Bíblia estabelece o sentido do termo pelo contexto, a Sistemática tem o objetivo de reproduzir um grande conteúdo com um termo. A coisa piora, ao meu ver, quando tentamos abarcar a terminologia extrabíblica, querendo enxergar conceitos e pressupostos na Escritura, advindos da filosofia, psicologia, história, sociologia e por ai vai.

Um belo exemplo disto é a liberdade. Liberdade ligada a arbítrio tem, para alguns, o sentido mais pleno da palavra nos conceitos filosóficos e históricos. É aquele atributo de algo que é livre de influências, com a possibilidade de ir a qualquer direção, sem qualquer pré-arranjo. Seria algo totalmente definido pelo ente que a possui, sem “externalidades”.

Bom, quando vejo esse tipo de proposição penso: - “cadê Deus?” Mesmo Nietsche reconhecia que, se Deus existe, tudo muda. Nesse sentido, o que muda em nossos termos, se considerarmos que estamos numa realidade criada? O que será da liberdade, amor, responsabilidade, graça, paz e tudo mais, no caso de Deus existir?

A existência de Deus nos dá um pressuposto único para nossas definições. Partimos de que tudo que vivemos é criado. Todo e qualquer termo, seja uma representação de aspectos concretos ou abstratos da vida, devem ser definidos a partir desta premissa. Sendo assim, olhemos novamente para a liberdade, agora, com a ajuda de Jesus.

Em João 8.32 nosso Redentor arrumou um problemão com os judeus. Mesmo sob o domínio dos romanos, os judeus se viam livres, afinal, eram filhos de Abraão. A verdade é que eles eram tão prisioneiros que não sabiam a verdade sobre si e sobre o discurso de Cristo. Jesus não estava falando de cadeias e de liberdades civis, mas sobre nossa natureza. Sua resposta à indagação dos judeus apontou o problema do entendimento do termo: “Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado.” (Jo 8.34)

Se conhecer a verdade liberta, a conexão correta não é entre os termos liberdade e possibilidade, mas entre os significados de conhecer, verdade e liberdade. Justamente esse foi o ponto de Poythress: qual a perspectiva do escritor, locutor, narrador, enfim? No caso, como é possível ver em João 14.6, a perspectiva do Mestre sobre a verdade é que ele é a verdade. Ainda, sob a perspectiva bíblica, evidenciada por Jesus em Mateus 7.23, conhecer infere relacionamento. Portanto, o conhecimento da verdade é um relacionamento com Cristo. Se há relacionamento com o Filho, você tem a verdade e ela lhe liberta. John Frame elucida mais o assunto:

…todas as coisas estão sob o controle de Deus, e, como veremos, todo conhecimento é um reconhecimento das normas divinas para a verdade; é um reconhecimento da autoridade de Deus. Daí, conhecer alguma coisa, qualquer coisa, é conhecer Deus.[2]

Daí, liberdade não está ligada a possibilidades, mas a estado. É seu estado em relação a Deus que lhe define como livre ou não. 

Para entendermos melhor, voltemos ao pressuposto de que somos criados. Salmo 19 demonstra que a criação existe para revelar seu criador; é uma voz silenciosa e presente em todo canto. A forma como fomos criados, à imagem de Deus, aponta para o fato de que nossa existência não foge a esse propósito. Sendo assim, nossos atributos ou capacidades não existem como uma expressão de nós, mas como uma expressão da forma como Deus nos criou. Portanto, nossa vontade estará sendo plena em existência e capacidade, quando for inclinada para Deus.

O ponto é que o conceito de liberdade em geral está mais ligado à “Liberté, Egalité, Fraternité”, do que a Deus. O sonho de autonomia ou é um levante revolucionário contra o opressor, ou é um coringa lançado para resolver a relação do Criador com a criatura – neste caso, afastando o Criador de sua criação, um deísmo ocasional. O problema é que esta autonomia não tem respaldo bíblico, mesmo que se queira citar aqueles textos que descrevem escolhas humanas.[3]

De fato, nunca se afirmou que as escolhas não existem - essa discussão nunca esteve em pauta nas Escrituras. O ponto é o que torna as escolhas possíveis; como elas se relacionam com a soberania de Deus; o que é uma escolha verdadeira e o que mais vier nessa linha. Conforme Jesus expõe no texto de João 8, nossa liberdade de fazer escolhas está ligada à nossa relação com Deus e não numa relação nossa com as possibilidades. Como bem explicou Matt Pierman:

As muitas passagens na Bíblia onde nos é dito escolher certas coisas não interessam a esse assunto, por elas não dizerem como é que nós fazemos as escolhas que fazemos. Tudo o que eles dizem é que fazemos escolhas. Com isso, predestinação concorda. Mas os textos não dizem que nós temos autodeterminação. Eles não lidam com o assunto de se Deus é ou não a causa última atrás de nossas escolhas. Para esse assunto, nós devemos nos voltar para outros textos das Escrituras, que nós vimos que claramente ensinam o controle de Deus sobre todas as coisas. Assim, nós devemos concluir que humanos fazem, realmente, genuínas escolhas. Mas Deus é a causa última que determina o que nós iremos escolher.[4]

A existência criada nos dá um conceito de liberdade que se fundamenta numa existência dependente de um criador. Portanto, nossa liberdade foi definida por Cristo como sendo algo próprio da existência plena de um ser humano: quando está em comunhão com seu criador. O inverso, ser escravo, prisioneiro, não foi descrito como impossibilidade de escolha, mas estar debaixo do pecado, afastado do Criador.  

Em Efésios 2, Paulo parece ir na mesma linha, ao tratar das inclinações humanas. O morto, alguém incapacitado, é descrito como sendo de natureza ímpia, inclinada para a carne, isso é, pecado, andando segundo o curso do mundo e Satanás. Depois, o apóstolo descreve aquele que poderá andar nas boas obras preparadas de antemão como sendo alguém vivo, ativo, crente, ou seja, com as inclinações para Deus. Isso significa que, a questão da liberdade não se trata de uma possibilidade, mas de estado.

De um lado, quanto mais autonomia, mais liberdade. Do outro, quanto mais comunhão, mais liberdade. Poderíamos acrescentar, seguindo João 8, conceitos e entender que: quanto mais relacionamento com Cristo, quanto maior conhecimento de sua revelação, quanto mais verdade, mais liberdade.

Resumindo: os termos não vêm dos termos, mas de Deus. As definições bíblicas são teoreferentes e não mutuamente referentes, portanto, nossas definições deveriam seguir nesta direção. A dificuldade reside em possuirmos uma perspectiva não bíblica da linguagem e lermos as Escrituras a partir desta perspectiva. Buscando uma adaptação em nossa linguagem, então, aqueles que pensam em termos de autonomia e possibilidades deveriam olhar para os termos bíblicos prisão, escravidão, morto – e similares –, como seus sinônimos.

Diante disto, faço a pergunta: você quer ser livre? Creio que não mais da mesma forma. Isso nos lembra a pensarmos melhor os termos e a procurarmos melhor os pressupostos de nossa linguagem. 

_____________________
Notas:
[1] POYTHRESS, Vern. Teologia Sinfônica. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 92.
[2] FRAME, John. A doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 34. O DITNT, São Paulo: Vida Nova, 2000, pp. 397-399, aponta para um ganho de significado na comunicação entre cristãos judeus que escreveram os textos neotestamentários com os gentios convertidos, porém, reconhece a perspectiva veterotestamentária do termo gnosko, apontando para uma ordem de conhecimento que infere ligação, intimidade, sexualidade, pessoalidade, relacionamento.
[3] Poythress ressaltou que “Os perigos também existem porque algumas perspectivas trazem consigo pressupostos anticristãos que passam a condicionar toda a investigação posterior.” Op. cit., p. 14.
[4] PEARMAN, Matt. A consistência da soberania e da responsabilidade humana. Arquivo eletrônico. Tradução livre.1

***
Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Fonte: Alegria Indizível
.

Comentário de João Capítulo 6

image from google

Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Neste fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas — porém bastante distintas — que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem. Assim como o autor, eu espero que este comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são. 

Erving Ximendes, agosto de 2016.


Provas Escriturísticas da Segurança Eterna

image from google

As passagens seguintes proporcionam evidência em duas etapas de que os crentes não podem se perder de um modo irrevogável.

1. Os eleitos de Deus são conhecidos como tendo vida eterna no instante em que creem. Ver Mateus 18.12-14; João 3.16,36; 5.24,25; 6.35-40; 10.27-30; 17.11-15; Romanos 8.1,29,30,35-39.

2. Deus guardará o seu povo fiel. Ver Romanos 8.37-39; 1 Coríntios 1.7-9; Efésios 1.5,13,14; 4.30; 1 Tessalonicenses 5.23,24; Hebreus 9.12-15; 10.14; 1 Pedro 1.3-5; 1 João 5.4,11-13, 20; Judas 24,25.

Duas passagens-chave

Algumas dessas passagens acima mostram muito explicitamente que a vida eterna (não meramente a possibilidade dela) é uma possessão de cada crente a partir da regeneração. Outras claramente parecem basear a segurança do crente no próprio Deus, seja no seu poder ou nas suas promessas, sem qualquer referência a que o crente tenha a necessidade de se escorar no poder de sua própria resposta ao evangelho ou em sua permanência nele.

Em 2 Coríntios 1.22, Efésios 1.13,14 e 4.30, encontramos referências a um selo de propriedade pessoal sendo aplicado à nossa alma pelo próprio Espírito Santo que presumivelmente não pode ser apagado. Imaginar que um selo sobrenatural dentro da nossa alma possa ser apagado é como tentar imaginar que nós decidimos que nunca mais vamos ter sonhos durante a noite. Simplesmente não temos qualquer tipo de controle sobre a nossa própria natureza inferior.

Para um tratamento abrangente deste tópico, incluindo uma refutação cuidadosa de todos os argumentos imagináveis dos arminianos contra ele, ver o livro de John Owen, de cerca de seiscentas páginas, chamado The Perseverance of the Saints (1654), que foi completado às carreiras quando o Parlamento pediu-lhe para entrar num outro projeto sobre sonicianismo. (Não obstante, essa obra permanece como uma obra definitiva sobre o assunto e deveria ser estudada cuidadosamente.) Contudo, nós nos ocuparemos aqui de duas passagens decisivas que fornecem uma prova direta da segurança eterna dos regenerados: João 10 e Romanos 8.

João 10

Esta é a bem-conhecida passagem sobre o Bom Pastor e sua ovelhas. Ela inicia-se com a imagem de um aprisco e com advertências contra tentativas carnais de evadir-se da verdade e da graça. Jesus aponta para o cuidado individual que o Pastor tem por suas ovelhas e chama a atenção para o fato de que o Pastor conhece as suas ovelhas pelo nome (10.3). Então, ele acrescenta que essas ovelhas conhecem e reconhecem a voz de seu próprio Pastor (vs.4,5). Isso parece indicar que, para Jesus, os eleitos são sobrenaturalmente afetados pela Palavra pregada de tal modo que eles são especialmente iluminados para responder a ela. Em outras palavras, Deus faz com que os eleitos reconheçam o seu Salvador no evangelho.

Então, tendo se identificado como a porta do aprisco e como o próprio Bom Pastor, Jesus caminha para o supremo sacrifício de dar a sua vida pelas ovelhas. Nos versículos 14,15, ele coloca juntas as duas verdades de que ele conhece as suas ovelhas e que elas o conhecem. Ele, então, liga esse mútuo conhecimento ao conhecimento mútuo entre as duas primeiras pessoas da Trindade. Esse conhecimento dificilmente pode ser inexato ou um conhecimento meramente provável. 

Mais adiante, nessa passagem, Jesus confronta novamente seus inimigos na multidão (vs.22-30). Ele os adverte de que eles não haviam crido nele porque eles não estavam no grupo chamado de "minhas ovelhas", e que ele, portanto, não os conhecia como seus. Se eles fossem suas ovelhas, eles haveriam de reconhecer quem Jesus era. Ele identifica suas ovelhas com os eleitos santos, um conceito familiar aos judeus do século 1º, por causa dos escritos dos profetas: "Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão" (v.28). Esse versículo assinala três coisas a respeito das ovelhas. Primeira, elas possuem a vida eterna agora, não apenas uma possibilidade de uma vida futura eterna. Segunda, elas nunca poderão perecer ("jamais perecerão"); e, finalmente, ninguém pode arrancá-las das mãos seguras do Filho. A expressão "ninguém" deve presumivelmente incluir as pessoas salvas, Satanás e qualquer outro possível candidato que desafie o poder guardador do Bom Pastor. Essas três coisas sozinhas garantem a segurança eterna dessas ovelhas. Elas excluem especificamente o costumeiro comentário arminiano sobre esse versículo: "Ninguém mais pode arrancar-nos das mãos do Pai, mas nós podemos sair". "Ninguém" deve excluir o nós mesmos, também, a menos que Deus não tenha pretendido que nós levássemos a sério a totalidade dessa passagem.

Romanos 8.28-39

Essa passagem inclui uma prova extensa da segurança dos crentes em Cristo. Ela afirma primeiro que os crentes podem estar confiantes de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que "amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (v.28). Então, segue-se o que os puritanos chamaram de "Corrente Dourada" dos atos divinos para assegurar a salvação dos eleitos (vs.29-33). Esse grupo é rotulado como "aos que [Deus] de antemão conheceu" (v.29).

Nesse ponto o arminiano diz: "É isso! Aqueles a quem Deus predestinou são aqueles que Deus sabia antecipadamente que haveriam de crer. A eleição é baseada nesse pré-conhecimento de Deus. A mesma coisa é afirmada em 1 Pedro 1.2: 'eleitos, segundo a presciência de Deus'. O que poderia ser mais claro do que isso?".

Bem, o calvinista pensa que a exegese arminiana poderia ser mais clara. Os versículos citados aqui não afirmam que a eleição é baseada na presciência. A passagem de Romanos diz que o grupo daqueles rotulados como os chamados e "aos que de antemão conheceu" é da mesma natureza do grupo rotulado como os predestinados, e o segundo diz que a eleição é de acordo com o pré-conhecimento. isso não diz nada além de que a eleição está em harmonia com o pré-conhecimento e tem os mesmos sujeitos, mas não que a presciência deve preceder a eleição, como a teoria arminiana requer. Pode ser fato que o ensino calvinista da presciência de Deus seja simplesmente o pré-conhecimento de seu próprio plano escolhido, no caso de cada indivíduo em particular. Afinal de contas, a passagem diz que "os que de antemão conheceu, também os predestinou" (v.29). Ele fala claramente de pessoas, não meramente acontecimentos ou generalidades, que Deus conhece de antemão.

A questão das classes coextensivas é muito mais interessante à medida que Paulo continua com a ideia no versículo 30: "Todos aqueles na categoria dos predestinados, estes e somente estes, e todos eles, foram os sujeitos da chamada mencionada há pouco. E aqueles no grupo dos chamados, estes e somente estes, são aqueles a quem ele declara justos e justificados, no exercício da fé salvadora. Então, aqueles, neste grupo dos chamados, são aqueles que ele conduz para a glória; estes, e todos estes, e ninguém mais, apenas estes" (paráfrase minha). Assim, as classes dos chamados, dos predestinados, dos justificados e dos glorificados correspondem às mesmas pessoas. Para Paulo, é simplesmente uma questão de definir claramente o conteúdo e os limites desses grupos.

Essa corrente de raciocínio é totalmente devastadora para a posição arminiana. Ainda que a Bíblia realmente possuísse versículos que ensinassem o livre-arbítrio, eles não fariam nenhuma diferença para a exegese desses versículos de Romanos 8. A "Corrente Dourada", como os puritanos a chamaram, é completa na abrangência dos grupos descritos, não apenas na menção dos elos individuais mencionados. (Iluminação, santificação e ressurreição são os outros elos dessa corrente, mas são omitidos aqui.) "Aos que de antemão conheceu, também os predestinou" - cada elo da corrente por chamar os glorificados do versículo 30 de "os eleitos", no versículo 33.

O destino preciso dos predestinados é serem "conformados à imagem do seu Filho" (v.29). Incidentalmente, essa é uma descrição do processo de santificação, que esperaríamos que tivesse sido mencionado entre a justificação e a glorificação, no versículo 30. O destino dos eleitos, então, está predestinado. Todos os elos estão no lugar, juntando os que são efetivamente chamados com a sua glorificação final. Sem a santificação, "ninguém verá o Senhor", diz Hebreus 12.14.

Mas Paulo não terminou o seu argumento aqui. Ele convida os seus leitores a registrarem as conclusões apropriadas. "Que diremos, pois, à vista destas coisas?", ele pergunta no versículo 31. A primeira coisa que devemos dizer é que, embora sejam de fato pecadores, os eleitos não terão nenhuma objeção levantada contra a sua salvação no juízo final, porque o próprio Deus é quem os justificou, tendo ouvido o testemunho do seu Filho, o advogado deles (v.34). Então, ele lista algumas coisas que deveriam concebivelmente induzir os eleitos a serem separados do amor eletivo de Deus. Após uma lista previsível (vs.35-37), ele diz que está convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os poderes angelicais, nem as entidades demoníacas, nada do que existe, nada do que poderá existir no futuro, nos domínios superiores ou inferiores que pertencem à grande cadeia do ser dos filósofos, ou outra coisa qualquer criada, pode separar os eleitos do amor eletivo e predestinador de Deus. 

Essa é uma lista totalmente abrangente - e incluiria também o livre-arbítrio humano, se nós o concedêssemos aos arminianos em benefício da discussão. Nenhuma prova adicional da segurança eterna poderia ser pedida, embora muito mais pudesse ser oferecido. A lista de leituras sugeridas, no final deste capítulo indica que John Gill trata de cerca de vinte versículos mais do que eu o fiz aqui, e a maioria deles torna o arminianismo impossível.


Conclusões

1. Segue-se irresistivelmente dos outros quatro pontos de Dort que os que são verdadeiramente regenerados estão eternamente seguros no amor eletivo de Deus.

2. Nada na criação pode separar os eleitos do seu destino em glória. 

3. "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo" (Ef 1.3). A expressão "toda" com relação às bênçãos espirituais deve incluir a bênção da perseverança, caso contrário todas as outras são neutralizadas e não seriam bênçãos, afinal de contas. Sem a graça da perseverança, nenhuma das outras poderia ser completamente efetiva. O plano de um ser racional não pode ser incoerente. Seus meios devem estar de acordo com os fins pretendidos.

4. Deus, sendo tanto racional como onipotente, não pode falhar em nenhum dos seus propósitos (Is 43.13). "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação", diz Paulo em 1 Tessalonicenses 4.3; assim, essa vontade de Deus deve necessariamente ser cumprida na conformação das ovelhas de Deus à imagem do Bom Pastor. Os meios de um Deus soberano devem necessariamente cumprir os fins que ele planeja.

5. os remonstrantes posteriores, pressupondo o livre-arbítrio, estavam totalmente certos em desistir da ideia da perseverança dos santos. Ela não pode ser sustentada de modo consistente sem os outros quatro pontos de Dort, e nem pode ser racionalmente mantida na suposição do livre-arbítrio. Os evangélicos modernos que declaram ser calvinistas pela crença no "uma vez salvos, salvos para sempre", não possuem nenhum direito lógico à sua crença na segurança eterna e são simplesmente arminianos inconsistentes.

Leitura Adicional

Para maior exposição e defesa da perseverança dos santos, ver The Saint's Perseverance Explained and Confirmed, de John Owen, vol. 11, publicado pela Banner of Truth Trust (Londres, 1966. Essa é a obra mais extensa (mais de seiscentas páginas), mas que deveria ser consultada. O capítulo 3, intitulado "The Immutability of the Purposes of God", seria um bom início, porque ele tem somente vinte páginas. A maior parte do livro é uma resposta aos argumentos arminianos de John Goodwin, um dos poucos arminianos puritanos.

Para uma cuidadosa exposição dos versículos-chave que dão apoio à perseverança, ver também as porções relevantes de John Gill em The Cause of God and Truth (publicado em quatro partes, de 1735 a 1738; reeditado em Londres: W. H. Collingridge, 1855). Gill tem sido avaliado por críticos reformados criteriosos como tendo elementos *hipercalvinistas, mas isso não faz muita diferença para o tratamento que ele faz dos "versículos arminianos". Na primeira parte, mais de cinquenta passagens são examinadas.

Para uma fonte moderna sobre a perseverança, ver Grace and Perseverance, de G. C. Berkouwver (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958).

Para a relação entre a verdadeira doutrina e a vida devocional, ver o clássico do bispo E. H. Bickersteth, The Trinity (reedição Grand Rapids, Michigan: Kregel, 1957). Esse talvez seja o livro de maior ajuda a respeito da Trindade publicado nos anos 1800.

***
Autor: R. K. McGregor Wright
Fonte: A Soberania Banida, Redenção para a cultura pós-moderna. Cultura Cristã, págs. 143-148.
.

Eleitos enganados?

image from google

Uma investigação exegética de Mateus 24.24, em resposta a interpretação arminiana.

Introdução

Este breve artigo é uma resposta ao artigo “Mateus 24.24: É possível enganar os escolhidos?” (publicado em cacp.org.br). Irei não apenas mostrar os erros da interpretação desse artigo, mas pretendo construir exegeticamente uma compreensão correta do significado do texto.

1. O erro interpretativo


A interpretação arminiana usa textos como At 20.16 e Rm 12.18 para fundamentar a compreensão de que os eleitos podem ser “enganados” se desviando da verdade para seguir os falsos mestres. Entretanto, não vejo como tal interpretação não comete a falácia exegética chamada “paralelismo verbal”. Paralelismo verbal é a enumeração de paralelismos verbais de obras literárias como se esses meros fenômenos demonstrassem elos conceituais ou mesmo dependência.[1] Ou seja, tanto o texto de Atos como o texto de Romanos estão tratando de coisas diferentes em contextos diferentes. Além dessa, o artigo comete outras falácias como: A falácia da sinonímia, a falácia do uso seletivo e preconceituoso das evidências, a falácia das disjunções e restrições semânticas injustificadas, etc.

Portanto, toda a interpretação não somente falha em sua análise exegética (não há discussão quanto a gramática, contexto, etc) como foi completamente erguido sobre o fundamento de areia das falácias.

2. Contexto da passagem

Sem sombra de dúvidas, Mateus 24 é uma crux interpretum. No contexto mais amplo, Jesus está na Judéia (19.1-25.46). Em 24.1-24.46 temos o sermão da oliveira, o último grande discurso de Jesus nesse evangelho, mas como nosso interesse se limita ao v.24, não irei entrar em maiores detalhes contextuais.

Principalmente com a destruição do templo judaico em 70 d.C., iriam surgir vários falsos mestres, dizendo que são messias, e é nesse contexto que temos a expressão “...para enganar, se possível, os próprios eleitos”.

3. Análise exegética

O “se possível” não questiona a segurança do eleito, mais do que questiona a inevitabilidade do cálice de Jesus (26.39).[2] O verbo aoristo ativo “enganar” (πλανῆσαι) é um infinitivo propositivo (ou seja, para enganar, expressando o propósito), o “se possível” refere-se a intenção dos impostores, como Carson notou: “eles pretendem, se possível, enganar até mesmo os eleitos – sem nenhum comentário sobre o quanto, no final, esses ataques serão bem sucedidos.[3] 

O termo eleito é repetido no v. 22 e depois no v. 33. Esses são aqueles a quem Deus elegeu soberanamente, os quais, entretanto, serão finalmente identificados somente na revelação escatológica. No entanto, é evidente que há aqueles que são patentemente relacionados com os propósitos de Deus nesta terra e aqueles que não são. 

Certamente existe a inter-relação entre a soberania eletiva de Deus e a responsabilidade humana. Na perspectiva do evangelho, alguém se protege dos erros (pelo menos em parte) ao tomar as precauções apropriadas, contra o erro, e isso não contraria o imutável fiat Divino. A tentação sempre é uma realidade e precisa ser fortemente resistida.

Se tomarmos a linguagem de “eleito” no seu sentido mais forte, então nenhum desvio para a perdição ocorrerá. Não por causa de algo invencível e intrínseco ao eleito, mas por causa da “esfera conceitual” (do termo eleito), a questão nem deve ser levantada.[4] 

O próximo verso sustenta nossa interpretação. O verso 25 contém no original, três palavras gregas, onde Jesus acentua sua predição. Os discípulos não terão desculpas quando a feroz tribulação chegar, pois foram avisados. Por causa desse aviso eles não serão perturbados, antes sua fé em Jesus será confirmada.[5] Jesus estava dizendo que, se fosse possível tais falsos mestres enganarem os eleitos, eles o fariam. No entanto, ao saberem coisas que iriam passar, isso deveria fortalecê-los, e quando a tribulação chegasse, eles iriam lembrar-se da profecia, e isso os ajudaria a não ficarem impressionados.[6]

4. O uso do Antigo Testamento

Os ecos veterotestamentários são evidências cumulativas para nossa interpretação. Podemos perceber ecos de Deuteronômio 13.1-3:1

Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma.

Os falsos profetas dessa perícope não eram pra desviar os eleitos, mas eram uma “prova” para ver quem realmente amava a Deus. O texto também pode ecoar Zacarias 9.14, com a figura do Senhor e suas flechas que reluzem como relâmpagos.[7]  


Conclusão

Concluímos que os eleitos não podem ser enganados, no sentido de seguirem os falsos mestres para a perdição. Nossa interpretação discorda da interpretação arminiana, por não considerar não somente o contexto imediato, mas também o restante da teologia do Novo Testamento, que claramente ensina que Deus guarda e preserva seus amados filhos.

Excurso: Esboço clausal do texto grego

  • Explanação - ἐγερθήσονται γὰρ ψευδόχριστοι καὶ ψευδοπροφῆται
  • Verbo - καὶ δώσουσι σημεῖα μεγάλα καὶ τέρατα
  • Infinitivo - ὥστε πλανῆσαι
  • Questão indireta - εἰ δυνατόν
  • Objeto direto / Cláusula resultante - καὶ τοὺς ἐκλεκτούς

________________
Notas:
[1] D. A. Carson, Perigos da interpretação bíblica, p. 41. 
[2] D. A. Carson, O comentário de Mateus, p.584.
[3] Ibid
[4] Nolland John. (2005). Preface. In The Gospel of Matthew: a commentary on the Greek text (p. 979). Grand Rapids, MI; Carlisle: W.B. Eerdmans; Paternoster Press.
[5] William Hendriksen, Mateus,  p. 505.
[6] Morris, L. (1992). The Gospel according to Matthew (p. 607). Grand Rapids, MI; Leicester, England: W.B. Eerdmans; Inter-Varsity Press..
[7] Craig L. Blomberg, Mateus, em O comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento,  eds, D. A. Carson e G. K. Beale, p. 107.

***
Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
.