O Calvinismo Torna Deus o Autor do Mal/Pecado?

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A Confissão de Fé de Westminster nega explicitamente que Deus é "o autor ou aprova o pecado", contudo, ela também afirma explicitamente que Deus predestina todos os eventos, incluindo atos humanos pecaminosos. Segundo a doutrina da providência calvinista, tudo o que existe ou acontece está decretado por Deus. Nada acontece ou existe à parte da ordem de Deus de que isso aconteça ou exista.

Dado essa compreensão acerca da soberania de Deus, os críticos objetam dizendo que o calvinismo torna Deus o autor do mal. A questão não é se Deus é todo-bondoso e todo-poderoso, como pode haver mal no mundo. Mas como pode Deus causar pelo seu decreto tudo o que acontece e não ser culpado pelas ações malignas de suas criaturas? A ação de Deus, dessa maneira, estaria sendo contaminada pelo pecado. Porém, isso é uma conclusão teologicamente inaceitável, e, portanto, o calvinismo é falso.

Uma resposta proeminente a este tipo de objeção que os calvinistas têm oferecido é o que eu irei chamar de Modelo de Autoria. A estratégia basilar é entender o que se quer dizer por “causa”. Quando Deus decreta algo, ele causa a ocorrência deste algo. Entretanto, o modo de causar de Deus é único e diferente do modo de causar de suas criaturas.

À luz da distinção Criador-criatura em que há dois níveis de realidade completamente diferentes, o do Criador e da criatura, devemos reconhecer que a causalidade divina é de uma ordem totalmente diferente da causalidade das criaturas.

A causalidade de Deus não é como se fosse um tipo de efeito dominó. Em que Deus cria o organiza um sistema complexo de dominós e inicia seu plano providencial com um peteleco. Conforme demonstrado na imagem a seguir. Esse modelo dominó da providência falha em refletir a realidade de que a causalidade divina opera em um nível fundamentalmente diferente da causalidade intramundana.


Um modelo muito mais adequado seria o que poderíamos chamar de Modelo de Autoria da Providência. Nesta maneira de pensar, os atos de criação e providência de Deus são análogos à criação humana de um romance. No nível fundamental, o autor determina tudo o que ocorre em seu romance. Ele cria o mundo, circunstâncias e personagens com determinadas personalidades e papéis no enredo geral. Alguns dos personagens podem cometer ações moralmente condenáveis, até perversas - ações que o próprio autor desaprova, mas que são necessárias para o objetivo da história e seu resultado. O Modelo de Autoria pode ser representado na imagem a seguir.


O modelo de autoria ensina que Deus é o autor de toda a história, incluindo das ações malignas de suas criaturas. Porém, ele é autor em um sentido moralmente inofensivo. Pois o autor desaprova e não prática atos malignos. A verdadeira questão é se o calvinismo implica que Deus é "o autor do pecado" em qualquer sentido moralmente condenável.


A partir das nossas distinções, podemos dizer que as criaturas, no sentido intramundano, causam o mal, mas Deus nunca, no sentido intramundano, causa o mal. Deus, no entanto, no sentido autoral, causa as criaturas que, no sentido intramundano, são causadoras do mal.

Mesmo que seja errado no sentido intramundano causar o mal ou causar outras pessoas causarem o mal, tal princípio não se aplica à causalidade divina. A causalidade divina é sui generis. Ela opera em um nível diferente da causalidade intramundana. Ela é única em vários aspectos. A causalidade divina cria coisas do nada, sustenta e destrói as coisas da existência. Além de serem atemporais e não-espaciais. Propriedades que a causalidade intramundana não exibe. Até que algum argumento seja dado contra isso, o calvinista está justificado a acreditar que a culpabilidade moral é mais um ponto de diferença entre causalidade intramundana e divina. Em que Deus, mesmo causando tudo o que acontece, a sua causalidade é de tal tipo que não o torna culpado num sentido moralmente condenável pelas ações malignas de suas criaturas.

Confira neste vídeo uma explicação mais abrangente:


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Autor:Gabriel Reis
Divulgação: Bereianos
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Objeções à doutrina da eleição soberana de Deus

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Esta edição de Sound of Grace lida com alguns dos argumentos usados por aqueles que discordam com a visão histórica de que a Bíblia fala sobre “eleição”. Uma das objeções mais comuns é algo parecido com isso:

“Eu concordo de coração que Deus ‘escolhe algumas pessoas para serem salvas’. Entretanto, Sua escolha é baseada inteiramente em Sua presciência. Como Deus vê o futuro e ‘prevê’ todas as coisas que acontecerão, Ele claramente pré-conhece aqueles que desejarão aceitar Jesus quando a oportunidade for apresentada. Deus, com base nessa ‘presciência’ (conhecimento prévio), escolhe aqueles que Ele ‘prevê’ que aceitarão a Cristo por seu próprio livre-arbítrio”.

Não é necessário pensar muito para ver que esta ideia nega completamente que Deus, no sentido que for, soberanamente escolhe homens para salvação. De forma simples, uma visão como esta, na verdade, diz o seguinte:

O marco zero da vontade de Deus

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Era sempre inverno, nunca Natal.

Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa de C.W. Lewis, a terra de Nárnia estava sob o cruel domínio da Feiticeira Branca. Mas, Aslan estava a caminho. Quando a feiticeira e o leão finalmente se encontraram, ela diz a Aslan que uma das crianças, Edmundo, revelara-se um traidor. A lei de Nárnia dizia que todo traidor pertence à Feiticeira Branca e deve ser punido com morte.

Então, Aslan propõe um acordo e concorda em morrer no lugar de Edmundo. Mas, Aslan então ressuscita. Quando ele retorna, as crianças ficam confusas.

“Mas, o que tudo isso significa?”, perguntou a irmã de Edmundo, Susana.

“Explico”, disse Aslan, “a feiticeira pode conhecer a Magia Profunda, mas não sabe que há outra magia ainda mais profunda. O que ela sabe não vai além da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio. Saberia que, se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás”.

Por trás da cortina da Eternidade

Neste conto infantil, Lewis magistralmente expõe o cerne da nossa redenção. E ele nos ajuda a enxergar o amor do Deus triúno por nós “no silêncio que reinava antes da aurora do tempo”. Ali, na eternidade passada, Pai, Filho e Espírito conspiraram amar um povo para si. Eles determinaram criar-nos e – sabendo que arruinaríamos a sua boa criação – também decidiram fixar seu amoroso e eterno olhar em nós, como filhos escolhidos, valiosos e particulares.

É uma pena que a doutrina bíblica do “decreto de Deus” (como os teólogos a chamam) e sua glória predestinadora tenha azedado para tantos cristãos. Quando algo tão biblicamente rico e espiritualmente nutritivo torna-se tão desagradável ao paladar que nos recusamos a consumi-lo, precisamos reconsiderar nossa dieta.

No silêncio antes do tempo

No primeiro capítulo de Efésios, o apóstolo Paulo fica tão perplexo com a majestade de nossa redenção que mal consegue parar para colocar pontuação em suas declarações. Assim, sua longa e única sentença vai do verso 3 ao verso 11. Mas o que permeia cada poro dessa longa frase é seu começo:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele. os predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1.3-5).

O servo de Deus é inspirado pelo Espírito de Deus a nos mostrar o que Deus fazia antes do mundo começar. Nesses versos, temos o que somente Deus pode nos dar: um vislumbre do eterno momento de seu glorioso plano. O Deus triúno preparou cada detalhe do projeto de seu reino eterno. Não somente ele planejou tudo, mas ele mesmo operou todo aquele projeto de acordo com o conselho de sua soberana vontade (Efésios 1.11).

Sem o sólido alimento dessa verdade bíblica, nossas almas esmorecerão. A não ser que escutemos a eternidade, desenvolveremos catarata espiritual. Para ver claramente, precisamos primeiro ouvir claramente. Devemos ocupar nossas mentes com o transcendente para que o imanente tenha o seu lugar adequado em nossas vidas.

Não a nós, Senhor

Paulo começa bendizendo Deus Pai pelo que ele cumpriu em seu Filho. Mas, ele não nos permite que o foco seja esse cumprimento em nós. Seu interesse imediato não são os benefícios que recebemos de Cristo, por mais importantes que sejam. Sua mente imediatamente vai do louvor a Deus à eterna escolha de Deus. O interesse de Paulo é nos ajudar a ver que o que temos do Pai, por meio do Filho, é resultado da determinação do Pai “antes da fundação do mundo” de nos amar de tal forma que nos salvaria de nossos pecados.

Nós acabamos de ter outro ano olímpico. Atletas americanos ganharam um número recorde de medalhas. Esses atletas dedicaram todas as suas vidas a suas tarefas atléticas. É natural, então, que eles tenham orgulho de suas conquistas.

Porém, o cristão jamais pode pensar que a salvação que temos em Cristo é algo semelhante aos rigores do treinamento esportivo. Não somente não conquistamos nada do que temos em Cristo, como o que temos é resultado das decisões tomadas pelo Deus triúno antes que nós, ou alguma outra coisa na criação, sequer existisse.

Quem fica com a glória?

Muitos cristãos reconhecem que, fora de Cristo, não há salvação. Porém, muito poucos reconhecem que nossa salvação teve seu princípio antes do tempo começar. Foi ali que o Deus triúno determinou amar você pela eternidade. Foi ali que o Filho não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas esvaziou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte em uma cruz (Fp 2.6-8).

Até que vejamos essa determinação divina como o “marco zero” eterno da nossa salvação, nossa adoração a Deus está simplesmente incompleta. Se Deus não iniciou unilateralmente, desde a eternidade, seu soberano plano de salvação por mim, então minha salvação deve, mesmo que de um jeito bem pequeno, ficar “por minha conta”. Se contribuímos em algo para nossa salvação, nossos cânticos de louvor à glória de Deus sempre estarão tocando nossa própria melodia em tom menor.

Paulo não nos permite ter parte na eternidade passada; nós podemos olhar, mas não tocar. Somente desta forma a luz brilhará no lugar certo – no palco, não na audiência. Somente dessa forma é possível dizer “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” sem sussurrar baixinho,“e eu também”.

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Autor: K. Scott Oliphint 
Fonte: desiringGod
Tradução: Josaías Jr
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Uma pequena nota sobre a Perseverança dos Santos

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A DOUTRINA DA PERSEVERANÇA DOS SANTOS diz respeito à preservação da salvação do eleito. Trata-se de uma afirmação de que o que Deus começa, ele completa. Louis Berkhof definiu a perseverança dos santos como segue: "A perseverança pode ser definida como a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina que é iniciada no coração, é continuada e levada à conclusão" (Systematic Theology).

Registre-se que tal perseverança é na graça de Deus e na fé, e fé definida em termos de fiducia, de confiança na suficiência dos méritos de Cristo, de descanso quanto à perfeição do seu poder para levar a salvação da pessoa à sua plena realização. A Confissão de Fé de Westminster, Padrão doutrinário presbiteriano, no capítulo 17.1, afirma de maneira suficientemente clara: "Aqueles a quem Deus aceitou em seu Amado, chamou eficazmente, e santificou por seu Espírito, nunca podem cair total nem finalmente DO ESTADO DE GRAÇA, mas, certamente perseverarão até ao fim, e serão eternamente salvos". James Montgomery Boice e Philip Graham Ryken definem a perseverança dos santos da seguinte maneira: "Ela é a verdade de que aqueles que foram levados à fé em Jesus Cristo - conhecidos de antemão e predestinados à fé por Deus desde a eternidade passada, tendo sido chamados, regenerados e justificados nesta vida e de tal modo colocados no caminho para a glorificação final que se pode falar nessa glorificação como algo já concluído - nunca serão e jamais poderão ser perdidos" (As Doutrinas da Graça. p. 177).

A doutrina da perseverança trata da imperecibilidade do relacionamento de amor, iniciado pela livre graça, entre Jesus Cristo e a pessoa. A doutrina da perseverança dos santos não ensina que, por causa da obra do Espírito Santo no coração do pecador, este está isento ou imune a cometer pecados específicos. A bem da verdade, o único pecado do qual o eleito é preservado e, por essa razão, jamais o cometerá, é a blasfêmia contra o Espírito Santo, definido pelo próprio Jesus como o único pecado, a única blasfêmia sem perdão (Mateus 12.31). Mais uma vez citando Boice e Ryken, eles fazem algumas observações a respeito do que a perseverança dos santos não significa: "1. Perseverança não significa que os cristãos são imunes a todo perigo espiritual só por serem cristãos [...] 2. Perseverança não significa que os cristãos são sempre impedidos de cair em pecado, só por serem cristãos" (op. cit., p. 178). Dessa maneira, é preciso compreender que "perseverança não significa que os cristãos não cairão, mas apenas que eles não se perderão" (op. cit., p. 178).

A perseverança dos santos não imuniza o crente de cometer determinados pecados nem estabelece um index de causa mortis inaplicáveis aos crentes. Esta bendita e gloriosa doutrina ensina que o pecado não terá a vitória final sobre o crente, a saber, quebrar a sua comunhão, o seu vínculo de amor com o doce Redentor. Jesus afirmou algo belo, em João 10.27-29: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar". Algumas expressões nesse texto precisam saltar aos nossos olhos: "JAMAIS perecerão", "NINGUÉM as arrebatará da minha mão", "aquilo que o Pai me deu é maior do que TUDO" e "e da mão do Pai NINGUÉM pode arrebatar". A metáfora utilizada nos proporciona uma terna imagem pastoral da verdade de que o próprio Cristo, que nos salvou, assume a responsabilidade de me guardar da danação eterna. Ninguém pode me arrebatar da sua mão. Nem mesmo eu. Ainda que eu abra as minhas mãos, na tentativa de me soltar, ele me sustentará firme. Eu nunca me apartarei definitiva e completamente do meu Salvador. E mais, a segurança retratada na passagem é dupla, por assim dizer. Somos agarrados pelo Pai e pelo Filho.

A mesma verdade é afirmada pelo apóstolo Paulo numa passagem clássica sobre a segurança da salvação e o caráter absoluto da justificação pela fé: "Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós" (Romanos 8.32-34). Nos versículos seguintes, o apóstolo assevera, de maneira enfática, que ninguém, absolutamente ninguém, pode separar um eleito do amor de Deus em Cristo Jesus: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (vv. 8.35-39). Chamo a atenção para dois detalhes importantes dessa passagem.

O primeiro deles é que é muito interessante a referência à "morte" no versículo 38. O apóstolo Paulo fala de morte (thánatos) de modo generalizado, ou seja, a morte, em suas mais variadas formas, não é capaz de nos apartar do amor de Deus em Cristo Jesus. O segundo detalhe é a afirmação de Paulo, no sentido de que ninguém pode nos condenar, uma vez que Jesus morreu por nós, ressuscitou por nós e está à direita de Deus intercedendo por nós (v. 34). Precisamos dar o devido peso, a devida importância à continuidade da obra sacerdotal de Jesus no céu. Ele não apenas morreu por nós na cruz do Calvário. Ele não apenas levantou da sepultura para a nossa justificação, mas ascendeu aos céus e, como coloca o autor aos Hebreus: "também pode SALVAR TOTALMENTE os que por ele se chegam a Deus, vivendo SEMPRE PARA INTERCEDER POR ELES" (7.25). Podemos contar com a intercessão do nosso precioso Redentor, inclusive no momento em que, à semelhança de Cristão, tivermos que atravessar o caudaloso rio da morte. Não podemos fazer outra coisa, senão bradar juntamente com o apóstolo Paulo: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1Coríntios 15.55).

Você que lê esta nota precisa se firmar nesta verdade: "O Salvador que ordenou a tua salvação antes da fundação do mundo, que enviou seu Filho para viver e morrer por você na cruz do Calvário, que enviou o seu Espírito reivindicar você como seu filho, nunca deixará você. E nem mesmo a aproximação da morte pode agora apartar você de Cristo, pois é Cristo quem te sustenta. Ele manterá você seguro no caminho para casa" (Michael A. Milton. What Is Perseverance of the Saints? p. 31).

Ah, como precisamos resgatar a devida compreensão desta bendita verdade. Na verdade, a saúde das nossas igrejas passa pela recuperação das antigas doutrinas da graça. O puritano Thomas Watson percebeu a importância dessa bendita doutrina: "O principal conforto de um cristão depende dessa doutrina da perseverança" (A Body of Divinity. p. 279).

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Perfil do autor no Facebook
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Meu Pai Me Ensinou a Como Morrer

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Será que nos atreveríamos a pensar na morte como uma vocação? O autor de Eclesiastes fez esta declaração:


Tudo tem o seu tempo determinado, e há o tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer.” (Ec. 3.1, 2a) 

Da mesma forma, o escritor de Hebreus diz:

E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois, o juízo.” (Hb 9.27)

A Escritura fala da morte em termos de um “propósito debaixo do céu” e de “ordenamento”. A morte é um ordenamento divino. É parte do propósito de Deus em nossas vidas. Deus chama pessoas para morrer. Ele é soberano sobre tudo da vida, incluindo a experiência final de vida. 

Estou ciente de que há professores nos dizendo que Deus não tem nada a ver com a morte. A morte é vista estritamente como um dispositivo demoníaco do Diabo. Toda dor, doença, sofrimento e tragédia são atribuídos ao Maligno. Deus é absolvido de qualquer responsabilidade. Essa visão é formulada para se certificar de que Deus seja absolvido da culpa por qualquer coisa que dê errado neste mundo. “Deus sempre deseja curar”, nos é dito. Se essa cura não acontece, então a culpa recai sobre Satanás - ou a nós mesmos. A morte, eles dizem, não é o plano de Deus. Ela representa a vitória de Satanás sobre o Reino de Deus.

Tais visões podem trazer alívio temporário para o aflito. Mas elas não são verdadeiras. Elas não têm nada a ver com o cristianismo bíblico. Em um esforço para absolver Deus de qualquer culpa, eles fazem isso à custa da soberania de Deus.

Sim, existe um Diabo. Ele é o nosso arqui-inimigo. Ele fará qualquer coisa ao seu alcance para trazer miséria para as nossas vidas. Mas Satanás não é soberano. Satanás não guarda as chaves da morte. 

Quando Jesus apareceu em uma visão a João na ilha de Patmos, ele se identificou com estas palavras:

Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.” (Ap. 1.17, 18)

Jesus segura as chaves da morte. Satanás não pode apanhar essas chaves de suas mãos. O pulso de Cristo é firme. Ele segura as chaves, porque são propriedades dele. Toda a autoridade no céu e na terra foi dada a ele. Essa autoridade inclui toda a autoridade sobre a vida e toda a autoridade sobre a morte. O anjo da morte está à disposição e chamado dele. 

Acima de todo sofrimento e da morte está o Senhor crucificado e ressurreto. Ele derrotou o último inimigo da vida. Ele venceu o poder da morte. Ele nos chama para morrer, mas esse chamado é um chamado à obediência para a transição final da vida. Por causa de Cristo, a morte não é o final. É uma passagem de um mundo para o outro. 

Eu nunca esquecerei as últimas palavras que o meu pai disse para mim. Estávamos sentados juntos no sofá da sala. O seu corpo havia sido arruinado por três derrames. Um lado do seu rosto estava distorcido pela paralisia. Seu olho e lábio do lado esquerdo pendiam de maneira incontrolável. Ele falou comigo com uma pronúncia pesada. Suas palavras eram difíceis de entender, mas o seu significado estava muito claro. Ele proferiu estas palavras: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”.

Essas foram as últimas palavras que ele me falou. Horas mais tarde, ele sofreu a sua última hemorragia cerebral. Encontrei-o caído no chão, um fio de sangue escorrendo no canto da sua boca. Ele estava em coma. Misericordiosamente, ele morreu um dia e meio depois, sem recuperar a consciência. 

Enquanto as suas últimas palavras para mim foram heroicas, minhas últimas palavras para ele foram covardes. Eu protestei suas palavras premonitórias. Eu disse de forma rude: “Não diga isso, pai”. 

Há várias coisas que eu disse em minha vida que desejo desesperadamente que não tivesse dito. Nenhuma das minhas palavras é mais vergonhosa para mim do que essa. Mas as palavras não podem ser trazidas de volta, assim como uma flecha acelerando após a corda do arco ter vibrado em lançamento pleno. 

Minhas palavras foram repreensão a ele. Eu me recusei a lhe permitir a dignidade de um último testemunho para mim. Ele sabia que estava morrendo. Eu me recusei a aceitar o que ele já havia aceitado graciosamente. 

Eu tinha 17 anos. Não sabia nada sobre a morte. Não foi um ano muito bom. Eu vi meu pai morrer um pouco de cada vez durante um período de três anos. Eu nunca o vi reclamar. Nunca o ouvi protestar. Ele sentava na mesma cadeira dia após dia, semana após semana, ano após ano. Ele lia a Bíblia com uma lupa enorme. Eu estava cego para as ansiedades que deve tê-lo atormentado. Ele não podia trabalhar. Não havia renda nenhuma. Nenhum seguro por invalidez. Ele sentava lá, esperando morrer, observando as suas economias da vida esvaírem-se juntamente com a sua própria vida. 

Eu estava zangado com Deus. Meu pai não estava zangado com ninguém. Ele viveu os seus últimos dias fiel à sua vocação. Ele combateu o bom combate. Um bom combate é um combate travado sem hostilidade, sem amargura, sem autopiedade. Eu nunca havia estado em um combate assim. 

Quando meu pai morreu, eu não era cristão. A fé era algo além da minha experiência e além da minha compreensão. Quando ele disse, “guardei a fé”, não me dei conta do peso de suas palavras. Eu me fechei para elas. Eu não tinha ideia de que ele estava citando a última mensagem do apóstolo Paulo para o seu discípulo amado, Timóteo. O seu testemunho eloquente foi desperdiçado comigo naquele momento. Mas não agora. Agora eu compreendo. Agora eu quero perseverar como ele perseverou. Quero completar a carreira e terminar o percurso como ele fez antes de mim. Não tenho nenhum desejo de sofrer como ele sofreu. Mas quero guardar a fé como ele guardou. 

Se meu pai ensinou alguma coisa, foi a como morrer. Meu pai completou a carreira porque Deus o chamou a completa-la. Ele terminou o percurso porque Deus estava com ele ao passar por cada obstáculo. Ele guardou a fé porque a fé o guardou. 

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Autor: R. C. Sproul
Fonte: GUTHRIE, Nancy. Antes de Partir: Encarando a Morte Com Confiança Corajosa em Deus. São José dos Campos, SP: Fiel, 2013, pp. 75-79
Divulgação: Bereianos
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A TULIP e o Dogma Romano - Um estudo comparativo entre a soteriologia Calvinista e Católico Romana

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A Confissão de Fé de Westminster diz que tudo o que precisamos saber para nossa salvação, “ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I.6). Jesus assevera: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6:37). De fato, essa palavra não poderia ser mais clara. Nossa salvação não acontece por acaso, ela está bem definida dentro do plano eterno do Pai, foi executada com perfeição pelo Filho e é aplicada eficazmente pelo Espírito. 

Por isso, o calvinismo sustenta que a salvação é um ato da livre e exclusiva graça de Deus, visto que o homem está morto espiritualmente (Ef 2.1) e não pode responder à oferta de reconciliação, de modo que Deus mesmo transforma a sua vontade ao lhe regenerar o coração (At 16.14). 

Porque todos os arminianos são calvinistas

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Quero apresentar um argumento contra o arminianismo baseado em uma falha interna dentro do esquema arminiano de predestinação.

Meu argumento, em poucas palavras:

“A posição arminiana sobre a predestinação é inescapavelmente calvinista (mais ou menos). Por causa disso, a única opção é aceitar o teísmo aberto ou o calvinismo”.

No século XVI, o teólogo católico romano e jesuíta Luis de Molina (1535–1600) propôs a ideia do conhecimento médio, mais tarde adotada (mas modificada) por Jacob Armínio (1560–1609).

Essa posição ficou conhecida como Molinismo. Pode ser que o “conhecimento médio” de Molina refere-se a liberdade de escolha, não predestinação. Mais tarde, os arminianos sequestraram o conhecimento médio de Molina para seus propósitos pessoais. Em outras palavras, Molina não é o vilão que presumimos, o que coloca os arminianos em uma posição precária de serem meio que inovadores.

Geralmente, os arminianos defendem que Deus poderia saber, antes de escolher indivíduos, o que um certo número de seres humanos, que são livres, fariam em certas circunstâncias. Em outras palavras, Deus sabe o que acontecerá e o que poderia acontecer sob certas condições.

Como resultado, para o arminiano, Deus elege baseado em seu “conhecimento médio” de que certos indivíduos responderão favoravelmente ao evangelho sob circunstâncias específicas. Deus não elege independente e incondicionalmente em Cristo, mas “reage” à escolha de um ser finito, a qual ele conheceu de antemão. Ele escolhe baseado em um condição futura (escolha).

Se a presciência de Deus depende de condicionais futuras, devemos perguntar se ela é ignorante em algum sentido (daí, o “teísmo aberto”). Mas, isso é um assunto pra outra hora.

No esquema arminiano, Deus “vê” o que aconteceria baseado em uma condicional futura e, então, escolhe com base no que ele “vê” acontecer em um mundo puramente condicional. Nesse esquema, Deus conhece condicionais condicionalmente.

Em resumo, o arminianismo introduz uma categoria separada, na qual a decisão humana se torna o fator causal que determina o evento. Essa é uma forma de semi-pelagianismo.

Entretanto, há uma falha para a qual eu gostaria de chamar atenção neste esquema, e uma que não vi ainda proposta antes. Pode ser que alguém tenha feito isso, mas não li ainda esse argumento em particular.

A Falha

Primeiro, certamente todos nós concordamos que Deus tem conhecimento de todos os mundos possíveis. Seu conhecimento não é limitado a um mundo, mas a todos os mundos possíveis no qual há um número infinito de possibilidades (por exemplo, não há cachorros em um certo mundo).

Por causa de sua liberdade absoluta, Deus não foi coagido a criar esse mundo particular em que vivemos. Teoricamente, ele poderia ter criado um mundo diferente em particular com base em seu conhecimento de um número infinito de outros mundos possíveis.

Ao eleger com base em uma condição futura, Deus está elegendo com base em um certo mundo possível que, então, ele escolhe trazer à existência. Daí, este mundo em que vivemos.

Neste mundo (i.e., um mundo possível A), ele escolhe a {pessoa x} com base na fé prevista.

Mas, neste mesmo mundo, ele não escolhe a {pessoa y} porque não houve fé prevista.

A pessoa x está predestinada à vida eternal, mas a pessoa y não está. Tudo porque a pessoa x creu (pela liberdade de sua vontade) com base em uma condicional futura.

Entretanto, em outro mundo possível (i.e., mundo possível B), a {pessoa y} crê, enquanto a {pessoa x} não.

Devemos nos perguntar o seguinte:

Por que Deus escolheu trazer à existência o mundo possível A, mas não o mundo possível B?

Ele escolheu assim, diz o calvinista, por causa de sua decisão livre e soberana de criar o mundo possível A, mas não o mundo possível B. Mas, o arminiano deve conceder que Deus, assim, elege um mundo no qual alguns creem e outros não, quando ele poderia ter eleito um mundo diferente no qual os resultados seriam diferentes. No final, a eleição ainda é, em última análise, escolha de Deus.

Deus poderia ter trazido à existência o mundo possível B? Claro. O fato de que ele não traz à existência o mundo possível B mostra que, portanto, ele está elegendo a {pessoa x} e não a {pessoa y} porque ele poderia ter criado um mundo possível diferente (mundo possível B) onde a {pessoa y} seria salva.

No fim, para o arminiano, Deus ainda elege. Ele elege um certo mundo no qual alguns têm a fé prevista e outros não, quando, de fato, ele poderia ter escolhido criar um mundo diferente em que pessoas diferentes seriam salvas. O arminiano não consegue escapar da eleição soberana. Em certo sentido, o arminiano ainda é um calvinista, ainda que um “calvinista anônimo”.

Claro, o conhecimento médio é uma bobagem. É semi-pelagiano. Ele se rende ao deus da liberdade humana e torna Deus um servo dos homens. Mas, mesmo quando isso é feito, o arminiano não pode escapar de uma forma de calvinismo onde, em última análise, Deus elege com base em sua escolha soberana. Não surpreende, então, que tantos arminianos tenham se tornado socinianos ou virado teístas abertos. Ou eles se voltam para Leibniz e argumentam que Deus escolheu este mundo porque é o melhor de todos os mundos possíveis.

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Autor: Mark Jones
Fonte: The Calvinist International
Tradução: Josaías Jr 
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Depravação Total - Graças a Deus pela Eleição em Cristo

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Desde a queda de Adão, todos nascem espiritualmente separados da presença de Deus ou espiritualmente mortos e, assim, dependem de uma intervenção divina que é a regeneração para a vida para a qual são incapazes. O texto de Efésios 2. 1 – 10 nos fornece material para podemos entender que estávamos mortos, a nossa natureza era mundana, fomos salvos pela graça de Cristo, não podemos nos gloriar e somos criados em Cristo. Assim, para o homem não resta capacidade alguma que o possibilite alcançar a salvação de sua vida a não ser que a misericórdia e a graça de Deus o alcance e o regenere para a vida eterna. O autor R. K. McGregor Wright escreve que “as aspirações morais da alma não-regenerada são limitadas espiritualmente pelo seu próprio compromisso com os princípios da natureza adâmica” (p. 120)¹. Conclui-se, portanto, que as inclinações do ser humano estão comprometidas por sua natureza caída, carecendo do amor de Deus para socorrê-la.


Nesta condição o homem é escravo de sua natureza pecaminosa, podendo ser liberto apenas e somente pelo poder da cruz de Cristo. O autor Tim Chester, sobre a cruz de Cristo em seu livro Sobre o Deus Trino, escreve que “a cruz não é somente um ato de redenção. É também ato de revelação” (p. 72)². A partir dessa ideia de Tim podemos perceber que o ato da regeneração é a revelação de um salvador capaz ao homem perdido e prisioneiro de sua natureza pecaminosa. Assim, como está na CFW, “Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, Ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e a fazer com toda liberdade o que é espiritualmente bom” (P. 90)³.

Qual o conceito de Depravação Total, afinal? Augustus H. Strong escreve que “a expressão 'depravação total', contudo, é passível de falsa interpretação, e não deve ser usada sem qualquer explicação” (vol II, p. 1128)⁴. Para Augustus o pecador não é “destituído de consciência [...] desprovido de todas as qualidades agradáveis ao homem e úteis quando julgadas segundo os padrões humanos [...] inclinação para toda sorte de pecado [...] o seu mais intenso egoísmo e oposição á Deus” (vol II, p. 1128)⁵. Assim, “depravação total” não quer dizer que as faculdades inerentes do ser humano não produzam resultados bons na esfera humana. 

O conceito sobre “depravação total” apresentado por Millard J. Erickson está da seguinte maneira: “já comentamos (p. 605 - 8) a questão da depravação total, que não significa que os seres humanos sejam tão perversos quanto poderiam ser, mas, sim, que são totalmente incapazes de fazer algo para se salvarem ou para se libertarem de sua condição pecaminosa” (p. 771)⁶. O mesmo autor deixa bem claro, em relação à aceitação da oferta de salvação, que “a posição adotada aqui não é a de que os que são chamados que Deus devem obrigatoriamente responder, mas a de que Deus torna a sua oferta tão atraente que eles responderão de forma afirmativa” (p. 898)⁷.

Sobre este conceito Wayne Gruden afirma que “não é certo dizer que algumas partes de nós são pecaminosas, e outras puras. Antes, cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado – o intelecto, as emoções e desejos, o coração [...] as metas e motivos e até mesmo o corpo físico” (p. 409)⁸. Portanto, para Gruden, todas as partes do ser humano estão afetadas pelo pecado, impossibilitando o mesmo a alcançar a salvação.

Charles Hodge, sobre a doutrina do pecado original, escreve a respeito da incapacidade do homem para fazer de si próprio algo espiritualmente bom, e assim descreve três argumentos que permeiam o pensamento da igreja que são a doutrina pelagiana, a semipelagiana e a doutrina agostiniana que “ensina que tal é a natureza da depravação inerente e hereditária, que os homens, desde a queda, são totalmente incapazes de converter-se a Deus, ou de fazer algo verdadeiramente bom diante Dele” (p. 675)⁹, e aponta que as confissões reformadas que subscrevem a respeito.

Joel R. Beeke e Mark Jones, sobre o pecado original, em sua obra diz que “o homem é culpado não apenas de ter participado, por representação, da transgressão de Adão no jardim, mas também de uma contaminação universal, total e pecaminosa, espalhadas por todas as faculdades da alma e do corpo, com uma inexistência ou falta de todo bem e com uma inclinação para todo o mal” (p. 314)¹⁰.

Então, em linhas gerais, Depravação Total seria, conforme McGregor, “doutrina segundo a qual a natureza caída do homem, incluindo a vontade, está totalmente escravizada ao pecado, sendo incapaz de escolher o bem” (p. 242)¹¹, inclusive se salvar.

Então, graças a Deus que quis, segundo o seu amor, revelar-se aos seus eleitos pela cruz de Cristo, para das trevas resgatá-los para o seu eterno Reino. Sem esta intervenção seria impossível para qualquer homem alcançar, por qualquer meio, a graça do Nosso Senhor Jesus.

Amém.

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Notas:
[1] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.
[2] CHESTER, Tim. Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são as boas novas. São Paulo: Fiel, 2016. 187 p.
[3] Confissão de fé de Westminster. 17 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 240 p.
[4] STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. 2 ed. rev. São Paulo: Hagnos, 2007.
[5] Idem.
[6] ERICKSON, Millard. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015. 1232 p.
[7] Idem.
[8] GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
[9] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
[10] BEEKE, Joel R.; JONES, Mark. Teologia puritana: doutrina para a vida. Paulo: Vida Nova, 2016.
[11] WRIGHT, R. K. McGregor. A soberania banida. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 256 p.

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Autor: Seminarista Rogério Vilaça
Divulgação: Bereianos
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Deus é amor ou o Amor é deus?

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Diante de algum conflito moral alguém sempre lança mão da afirmativa ‘
Deus é amor’ no intuito de apaziguar algum desconforto ou mesmo dar uma resposta ao conflito que pareça indissolúvel por outros termos. ‘Deus é amor’ virou um mantra para nossa geração e tudo que parece ser feito em amor toma logo uma roupagem de divinamente inspirado ou divinamente tolerado.

Mas claro que Deus é amor! Apesar de muitas vezes Ele ter sido tomado na cultura como alguém distante e indiferente ao permitir a banalização do mal ao longo da história, a Bíblia é repleta de demonstrações não só dos traços amorosos de Deus, mas também da riqueza da operação desse amor entre nós. O amor é a essência fundamental da natureza de Deus e carácter de seu próprio Ser. Deus é perfeito em amor. O amor de Deus é manifesto por Seu desejo absolutamente puro de doar, compartilhar e cuidar. Tais prerrogativas podem ser observadas em episódios distintos da narrativa bíblica, em nossas experiências cotidianas e ao longo do caminho histórico (criação-queda-redenção), no qual Deus nos convida a participar e dar respostas a quem nos pedir a razão dessa fé e experiência transformadora. Tenhamos em mente que, apesar do ódio, apesar de todos os motivos para a violência e degradação humanas, o bem e a ordem, a justiça e a misericórdia, o cuidado e a proximidade se manifestam no mundo. O Deus distante é signo da ausência da humanidade, o Deus amoroso é revelado no exercício do amor – não há outro veículo para o amor de Deus que o próprio homem. Esse é o mistério da encarnação.

Mas, então, qual o problema da resposta ‘Deus é amor’ para a justificação de nossas condutas diárias?

O que acontece é que tal justificativa parece ter se tornado bastante simplista. Ela tem sido comunicada sistematicamente de forma acrítica no embalo do que parece ser a mais pura irresponsabilidade ou falta de sabedoria cristã, seja, por ignorância sincera ou omissão voluntária. Ela está presente em cenas corriqueiras que parecem não favorecer qualquer desejo de solução do problema, isentando aqueles que dialogam, na maioria das vezes, da compreensão, do juízo e da mudança independente dos prejuízos produzidos por uma nova tomada de posição.

A invocação de Deus como amor associada à uma possível renúncia da responsabilidade humana é sintoma da diluição ou enfraquecimento da mensagem bíblica e também do próprio humano. Deus é amor em sua ira. Deus é amor na punição. Deus é amor em qualquer coisa que faça. O humano é portador do amor de Deus quando se encontra no lugar da obediência, quando compreende e cumpre o seu papel, quando não foge à sua vocação de agente e presença de um impasse que denuncie uma crise e uma fragilidade nesse estado de coisas que temos presenciado em nossa cultura.

Pensemos nisso em uma época de crescente oposição ao outro através da patologização – ou seja, transformar uma característica humana em doença, desordem ou inadequação ao meio, e consequente desabono da opinião de alguém através da rotulação de tudo como questão de ‘ódio’ que temos visto rotineiramente na discussão pública. A possível ignorância deixou de ser ausência de sabedoria e conhecimento – dirimida através do ensino-aprendizagem na relação mútua, para se tornar um sentimento irracional e aniquilador do outro. Esse outro que deveria ser antropologicamente tão íntimo que o chamado a serem filhos de Deus por amor Dele (Rm. 11:36) faria qualquer diferença ocasional virar sombra pálida a ser prontamente administrada. Mas quem quer entrar na lista do politicamente incorreto de nossos dias? Quem quer cair nesse lugar que incorporou cores mais fortes que o inferno de Dante? Ninguém. O ‘ódio’ é o oposto extremo do lugar santo da geração #MaisAmor, #PorFavor. E fim de conversa. Melhor, por exemplo, deixar Paulo sendo tachado de misógino (que denota ‘ódio’ por, ao contrário do termo machista) e seguirmos firmes e contextualizados em nossa fé. Pois é… Mas não deveria ser. Sejamos luz e cuidemos dos outros na verdade.

E por que tal justificativa se mostra simplista, irresponsável e sem qualquer sabedoria?

Primeiro, porque quando falamos amor, falamos o amor de muitas maneiras (storge, philia, eros e agapé) e em muitos sentidos, incorrendo sempre no risco de fazer o seu mau uso através de uma compreensão errada ou do exercício errado em condições, por exemplo, disfuncionais ou adoecidas.

Sim, os amores são bíblicos e cada um tem seu traço distintivo. Mas, como nos lembrou C. S. Lewis, “os amores humanos podem ser imagens gloriosas do amor divino. Nada menos que isso, mas também nada mais – proximidades de semelhança que de um lado podem ajudar, mas de outro servir de impedimento…”, quando, por exemplo, embalado pela obstinação de uma causa ou pessoa, esse amor se torna fonte de cruéis violações contra pessoas, causas e coisas, tirando-as, na maioria das vezes, de seu lugar de correspondência e benefício. Quer um exemplo atual dessa dificuldade e risco? Família é amor! Família é onde tem amor! Mas estamos falando de qual natureza amorosa? Há critérios ou exigências distintivas para este amor? Toda forma de amor vale a pena? Se cremos haver alguma ordem criacional para a família, temos então alguns parâmetros para essas respostas.

Segundo, porque o amor sem a correspondência adequada se torna puro sentimento passível de muitas grosserias. Moralidade fundada em sentimento como experiência de aprovação e desaprovação acaba por se tornar meios de sutis tiranias. Cria um tipo de raciocínio onde o certo e o errado são dados por motivos subjetivos e não por padrões universais – e objetivos, como aqueles presentes na Bíblia. Imagine essa baliza como prática de uma cultura inteira? Alguns podem dizer, se tem o sentimento certo, o motivo correto, logo a ação é a correta e desejável. Se é por amor, como poderia estar errado? Deus é amor! Mas que amor é este? Calcado na riqueza do caráter e operação de Deus ou em nossas ambíguas subjetividades? Precisamos responder. Afinal, a cultura do sentimento e da valorização das experiências emotivas do sujeito é uma questão séria em nossos dias e a espiritualidade cristã já se encontra sob pressão de um tipo de sentimentalismo bastante acentuado. Não por acaso, este já tenha contaminado as questões e posturas éticas de muitos cristãos.

No artigo The Meanings of Love in the Bible (Os Significados do Amor na Bíblia), disponível na Web, John Piper percorre de Gênesis a Apocalipse apontando versículo a versículo onde aparecem o (1) amor de Deus, (2) amor do humano por Deus, (3) amor do humano pelo humano, (4) amor do humano pelas coisas, (5) amor de Deus pelo seu Filho, (6) amor de Deus pelo humano e (7) amor do humano por Deus e por Cristo. Ele é profícuo em demonstrar as dimensões e as diferentes naturezas do amor e do seu exercício, nos fazendo lembrar que generalizações podem nos roubar a natureza e a responsabilidade de fazê-lo coincidir com o amor do próprio Deus, fonte primária de todos os amores. Portanto, estejamos atentos. Deus é amor (1 Jo. 4:8), mas também é justo (Sl. 7:11), santo (Ap. 4:8), soberano (Ap. 1:5) e imutável (Hb. 7:24) e quando lida conosco o faz sem precisar compensar ou negociar qualquer desses atributos.

Não poderia deixar de mencionar que na esteira do uso torpe da verdade bíblica fundamental, Deus é amor, se encontra também aquela máxima popular: Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Fico aqui pensado se o que João viu no Apocalipse eram objetos inanimados reconhecidos como pecado ou seres humanos irreconciliáveis. Mas melhor deixar esse papo para outra hora.

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Autora: Isabella Passos
Fonte: Reforma 21
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Sobre a resposta de um arminiano ao Granconato

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Anda circulando na internet a resposta de um arminiano ao Granconato, sobre o texto de Mt 11:21-24. Não vou tratar sobre esse texto. Deixo os comentários para os exegetas de plantão. Quero falar sobre a presciência divina como a solução mágica para explicar o caráter divino.

Para o arminiano, não existe qualquer possibilidade de coexistência da eleição incondicional, vulgo predestinação, com o amor, misericórdia e justiça divinos. Ou Deus é estas três últimas coisas ou ele predestina. Na percepção de muitos respeitáveis e dedicados teólogos, Deus eleger de acordo unicamente com a sua vontade o tornaria um cruel e desamoroso tirano, pois estaria impedindo que alguns fossem ao céu, ao mesmo tempo que a outros concederia  esse privilégio de “mão beijada”. Está bem, então, vamos trabalhar com a mesma lógica, mas em sentido oposto.

Ora, sendo Deus bom, amoroso, misericordioso e justo, ele deveria conceder, pela lógica arminiana, a todos os homens iguais oportunidades de conversão e “acesso” a sua graça. Mas nós sabemos que isso não acontece. Deus não dá a todos os homens a mesma chance de conversão. Alguns ouvem o evangelho uma vez, outros uma centena. Há quem se converta somente na centésima. E então, como é que fica a justiça divina nesse caso?

Seguindo em frente, vamos considerar agora que Deus prevê quem irá se converter e quem não, e partir para uma ilustração. José e João têm, hoje, dez anos. Deus já viu que José se converterá, e que João não. Imaginemos agora que você tivesse acesso a essa informação. Você até poderia pregar para João, mas saberia que ele sempre permaneceria na incredulidade. “Sim, claro, por escolha dele”, objeta o arminiano. Mas seja sincero: não lhe parece o destino de João tão determinado quanto o de um não predestinado? Para se livrar dessa pedra no sapato, alguns arminianos e(in)voluíram para a Teologia do Processo ou Teísmo Aberto. Pronto, problema resolvido. Ninguém está mais com o destino selado, nem por você mesmo, nem por Deus. 

Mas o ponto chave é este: não estaria Deus sendo cruel ao mandar para o inferno uma pessoa, quem quer que seja? Se Deus é amor, misericordioso e justo, não haveria um modo diferente de resolver o problema que não enviando pecadores insensatos para o inferno? Afinal, Deus é Deus, e não seria difícil para ele achar outra solução.

Você enxerga o problema nessa argumentação? Se não, eu deixarei mais claro aqui. Sempre que tentamos encaixotar o amor, a bondade, a misericórdia e justiça de Deus, impondo limites ao que é ou não bom e justo, nós nos tornamos juízes de Deus. A ânsia de servir a um deus politicamente correto tem levado muitos a tentar explicar a participação divina nas tragédias de uma maneira mais adocicada, boazinha.

Falta ao arminiano aceitar que Deus é tudo isso que vivem repetindo dentro de Seu próprio padrão de conduta, que não é igual ao nosso. Ele não está sujeito ao tempo, espaço e à matéria como nós. Por que, então, estaria sujeito às mesmas regras morais? Deus mandou dizimar povos, matou “inocentes” criancinhas primogênitas no Egito, e Ele manda para o inferno pessoas boas aos nossos olhos. Mas aí está o problema. Tudo isso que entendemos como bom ou ruim, espiritualmente falando, está distorcido. É por isso que pessoas boas (aos nossos olhos) vão para o inferno. As pessoas boas de verdade vão para o Paraíso.

O calvinista verdadeiro aceita o que a Bíblia diz. Deus é amor, é justo e todo aquele leque de qualidades que podemos enumerar, ao mesmo tempo que reconhece que Deus também elege segundo bem quer e endurece o coração de alguns para recusarem sua vontade.

A verdade é que não dá para um calvinista discutir com um arminiano, porque o arminiano quer entender e explicar Deus, enquanto o calvinista se limita a aceitar Deus como Ele é, mesmo que não possa, é claro, compreender todos os mistérios.

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Autor: Renato César
Divulgação: Bereianos
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Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador

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INTRODUÇÃO

Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”.

O Credo, como visto no texto anterior, tem uma estrutura trinitariana. O Deus confessado pelos cristãos não é outro senão o Pai, Filho e Espírito Santo. Três personas que dividem entre si a essência Divina, de modo que não existe hierarquia e subordinação. As três personas da Trindade são iguais em seus atributos, por isso que há unidade na pluralidade. O Deus Triúno é o Deus verdadeiro, confessado pelos cristãos.

No primeiro postulado do Credo, o enfoque recai sobre Deus Pai. E aqui vale ressaltar que chama-lo de “Pai” é imprescindível para todo aquele que deseja ser fiel a revelação da Escritura. O motivo da ressalva é que em alguns círculos, onde impera o liberalismo teológico, fazem a alegação de que chamar Deus de Pai é uma atitude sexista que endossa a visão patriarcal da antiguidade. As feministas até dizem que esse nome revela o machismo que há na Bíblia e subvertem a nomenclatura - alguns coletivos de mulheres que se dizem cristãs e feministas adotaram a palavra “Mãe” para se referir ao SENHOR.

Obviamente, Deus não tem gênero, mas se manifesta na Escritura como Pai. Isso não é apenas um termo usado pelos patriarcas do Antigo Testamento. Jesus, que é o ápice da revelação, diz que Deus é Pai e até mesmo nos instruí a orar, nos dirigindo ao “Pai nosso que está no céu”.  Acusar a Bíblia de ser um livro sexista ou machista é de uma leviandade imensa. Tais baboseiras são fruto de quem carrega pressupostos que não são bíblicos e trazem esses pressupostos para a interpretação do texto sagrado. Nós não podemos interpretar a Escritura com outro ponto de partida que não seja o conteúdo da própria Escritura. Nisso, o credo nos ajuda a nos mantermos fieis aos pressupostos bíblicos, pois resume o conteúdo da revelação contida nas páginas sagradas da Bíblia.

Como cristãos, precisamos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, pois o próprio Cristo pregou isso e adotou, na prática, o lema do sola Scriptura (somente a Escritura). Vejamos:

  • Cristo leu Isaías em Nazaré, textos que falavam acerca dele mesmo (Lucas 4. 14-30).
  • Cita três vezes o livro de Deuteronômio ao ser tentado pelo Diabo (Lucas 4.1-13).
  • Cita Gênesis ao ser indagado sobre o divórcio (Mateus 19).
  • Menciona uma passagem de 1 Samuel ao ser questionado por fariseus (Mateus 12).
  • Explana todo o Antigo Testamento no caminho de Emaús (Lucas 24.14-35).

Logo, se Cristo atestou a veracidade da Escritura, nós também devemos. Toda a Bíblia é inspirada e nos serve como fonte de revelação para que sejamos edificados mediante o seu conteúdo. A Escritura precisa assumir o seu lugar central em nossas vidas. Os homens são conduzidos à fé através da Palavra e este é o método ordinário que Deus usa para chamar o seu povo para Si. O Credo nos dá uma excelente contribuição ao ser formulado com base no texto sagrado. Ele nos lembra de que por sermos cristãos, somos o povo da Bíblia, detentores da revelação.

TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA

Pai Todo Poderoso revela que Deus é transcendente e imanente. Esse Deus a quem chamamos de “nosso Pai” é aquele que vai até as suas criaturas, revelando coisas sobre Si mesmo e instando os homens a se relacionarem com Ele através de um pacto. A revelação e a interação de Deus com a sua criação, sobretudo no relacionamento com os homens é o que na Teologia se chama imanência.

Mas, a imanência só faz sentido quando nos damos conta de que este Deus, que por sua soberana vontade se faz presente em nosso meio, é transcendente. O que isto quer dizer? A transcendência nos lembra que Deus está acima da criação, ele não pode ser confundido com nada do cosmos. Ele está para além de tudo o que existe no mundo criado. Como diz a segunda parte do primeiro postulado do Credo, Ele é o “Criador do céu e da terra”.

Quando paramos para contemplar a dimensão do mundo criado, muitas vezes nos surpreendemos com a sua imensidão. Todavia, nosso planeta é apenas um ponto azul no Universo que possui inúmeras galáxias. Mas o Criador é maior que a sua criação. O mundo criado não é “o corpo de Deus”. A matéria não é eterna, pois, Deus criou do nada (ex nihilo). Ele fez a matéria pelo poder de Sua palavra. O relato da criação demonstra o poderio do Senhor. Lemos em Gênesis 1 que bastava Deus falar “haja” e as coisas surgiam. Tudo bom e perfeito, refletindo a excelência do Autor da criação.

É pensando na transcendência divina que a imanência nos salta aos olhos como uma dádiva graciosa. Esse Deus, que está para além das coisas criadas, interage com a sua criação e, por graça, se relaciona com homens, chamando para si um povo, que pode se chegar ousadamente diante do trono da graça e chama-lo de Pai, a fim de obter misericórdia (Hb 4.16).

OS ATRIBUTOS DE DEUS

Quando o Credo afirma que Deus é Todo-Poderoso, nos remete aos seus atributos. Em sua essência, desde a Eternidade, Deus sempre foi o que Ele é. Quando se revela a Moisés, e este lhe pede seu nome para dizer ao povo. E a resposta de Deus é a seguinte:

Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês”. Êxodo 3:14

“Eu sou o que sou” reflete a imutabilidade de Deus. Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Não muda em sua essência por já ser pleno, ser perfeito. Deus não evolui e nem se aperfeiçoa. Ele é! Diante de sua essência imutável, ficamos cientes de que tudo o que Ele revela sobre si mesmo são atributos que sempre fizeram parte de Deus, de modo que desde a eternidade Ele é o Deus Todo-Poderoso, justo, santo e fiel.

Os atributos divinos revelam a singularidade do Pai Celestial. Ele pode todas as coisas (onipotência), pois nada pode frustrar os seus desígnios. Aquilo que foi arquitetado pelo SENHOR não pode deixar de ser cumprido. Com seu poderio Ele controla todas as coisas e sabe todas as coisas (onisciência). Não há nada que podemos esconder, pois Deus está em todos os lugares (onipresença).  Nem mesmo o futuro surpreende a Deus, pois Ele tem conhecimento das coisas por vir, pois, toda História é de sua autoria e tudo está decretado de maneira que ninguém pode dar um passo fora de seu roteiro. Como Deus é eterno, não limitado ao tempo, passado e futuro são contemplados por Ele, tal qual o presente.

CRIADOR

Esse Deus Todo-Poderoso, ao criar céus e terra, não faz isso por sentir que algo lhe falta. Não é a solidão que move o projeto da criação. Deus se autossatisfaz. No relacionamento trinitário, sempre houve amor entre os componentes da Trindade, de modo que em si mesmo há pleno contentamento. Quando Deus cria o mundo e todos os seres que povoam o mesmo, faz para o louvor de Sua glória. E por graça, faz do homem a coroa da criação e põe nele a Sua imagem. Mas o motivo para Deus fazer tal coisa não pode ser “humanizado”. Não devemos enxergar nenhuma necessidade em Deus que o levou a criar o mundo e os seres humanos.

Outra coisa que devemos ressaltar é que todo elemento criacional, ou seja, a matéria, não faz parte de Deus. Como vimos, Ele transcende a sua própria criação. Mesmo relacionando-se com ela, e intervindo no mundo criado, o SENHOR é totalmente outro. Nenhuma partícula do universo faz parte da essência eterna do “Eu sou”. Nisso, os panteístas, que acreditam que a essência divina está em cada parte da natureza, estão equivocados em sua crença.

O mandamento que proíbe fazer imagens de Deus (Êxodo 20.4) reflete essa questão. Pois, ao retratarmos Deus com alguma figura da criação, o estaríamos rebaixando. Os israelitas fizeram um bezerro de ouro fundido quando estavam no deserto e Arão falou: “aí está o teu deus” (Êxodo 32.4). Seu pecado foi muito grave, quebraram o mandamento e reduziram o Deus Todo Poderoso a uma imagem de um animal quadrúpede. Não foi sem motivo que a ira do SENHOR foi manifesta entre o seu povo.

CONCLUSÃO

O Deus da Bíblia é este que o Credo nos mostra como sendo Pai, Todo-Poderoso e Criador. É assim que ele se revela e assim podemos adorá-lO com base no conteúdo revelado. É por termos a revelação que podemos falar sobre o Divino. Na Escritura sabemos quem Deus é e o que Ele requer de nós, suas criaturas. Mesmo que o conteúdo não seja exaustivo, de modo que há muita coisa sobre Deus que nos é mistério, em contrapartida, existe um abrangente conteúdo revelado que nos informa coisas sobre o SENHOR que nos são suficientes para adorá-lO e devotar a Ele nossas vidas.

Louvamos a Deus por Ele ter se revelado a nós e partilhado informações tão importantes que também nos ajudam a conhecermos a nós mesmos, pois, ao saber que existe um Criador, ficamos cientes de que somos suas criaturas. Também sabemos que somos seus filhos, por ser Ele o nosso Pai. Além do mais, é consolador ter o conhecimento de que Deus pode todas as coisas e que diante de tamanho poderio, temos esperança de que Ele há de nos conduzir com braço forte, nos protegendo de todo mal, agindo para o nosso bem, segundo o beneplácito de Sua vontade.

Soli Deo Gloria

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Sobre o autor: Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.

Divulgação: Bereianos

Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
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