A Presença Real de Cristo na Ceia

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78. Pão e vinho, então, se transformam no próprio corpo e sangue de Cristo?
R. Não (1). Neste ponto há igualdade entre o batismo e a ceia. A água do batismo não se transforma no sangue de Cristo, nem tira os pecados. Ela é somente um sinal divino e uma garantia disto (2). Igualmente o pão da santa ceia não se transforma no próprio corpo de Cristo (3) , mesmo que seja chamado "corpo de Cristo", conforme a natureza e o uso dos sacramentos (4).
(1) Mt 26:29. (2) Ef 5:26; Tt 3:5. (3) 1Co 10:16; 1Co 11:26. (4) Gn 17:10,11; Êx 12: 11,13; Êx 12:26,27; Êx 13:9; Êx 24:8; At 22:16; 1Co 10:1-4; 1Pe 3:21.
79. Por que, então, Cristo chama o pão "seu corpo" e o cálice "seu sangue" ou "a nova aliança em seu sangue", e por que Paulo fala sobre "a comunhão do corpo e do sangue de Cristo"?
R. É por motivo muito sério que Cristo fala assim. Ele nos quer ensinar que seu corpo crucificado e seu sangue derramado são o verdadeiro alimento e bebida de nossas almas para a vida eterna, assim como pão e vinho mantêm a vida temporária (1). E, ainda mais, Ele nos quer assegurar por estes visíveis sinais e garantias,primeiro: que participamos de seu corpo e sangue, pela obra do Espírito Santo, tão realmente como recebemos com nossa própria boca estes santos sinais, em memória dEle (2) ;e segundo: que todo o seu sofrimento e obediência são nossos, tão certo, como se nós mesmos tivéssemos sofrido e pago por nossos pecados.
(1) Jo 6:51,53-55. (2) 1Co 10:16.

Após a doutrina da Justificação, outro tema que virou debate na Reforma Protestante foi a Santa Ceia. Todos os Reformadores negavam o ensinamento propagado pelo catolicismo (transubstanciação), mas discordavam entre si. Zwinglio defendia que a Santa Ceia era apenas um memorial, Lutero defendia a consubstanciação e Calvino defendia que Cristo estava presente (espiritualmente) na Santa Ceia – E é essa a posição defendida pelo Catecismo de Heidelberg.

No entanto, o ensinamento do Catecismo é claro e didático da mesma forma que ele tratou o Dia do Senhor 27 onde fala-se sobre o Batismo: Ele aponta o que não se deve crer e como devemos entender.

O que não se deve crer

A P/R 78 nos mostra que o erro do catolicismo deve ser evitado, mostrando que “o pão não se transforma no sangue real de Cristo”, mesmo que Jesus tenha dito que o pão é o seu corpo e que o vinho é o seu sangue (Mt 26.26,27), isso não quer dizer que o pão e o vinho, em suas substâncias, se transformaram em carne e sangue. Mas é uma figura de linguagem, assim como pode ser visto em outras passagens do NT, por exemplo: “Eu sou a porta” ou “Quem crer em mim do seu interior fluirão rios de água”; isso não quer dizer que Cristo é uma porta com maçanetas e dobradiças e nem que aquele que crê em Cristo seja uma cisterna d’agua, mas são tudo figuras de linguagem para indicar algo espiritual, mas real.

Como devemos entender

Após o Catecismo rejeitar o ensino católico sobre a santa Ceia, ele agora vem nos mostrar duas coisas que devemos entender as quais estão contidas na P/R 79.

Primeiro, assim como o pão e o vinho nos alimentam fisicamente, esses mesmos elementos nos alimentam espiritualmente, pois Cristo disse: Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida (Jo 6.55).

Segundo, que pela obra do Espirito Santo nós somos participantes do Seu corpo por meio desses sinais visíveis. No entanto, não somente de Cristo somos participantes, mas do Seu Corpo mostrando que a nossa comunhão com Cristo é refletida na comunhão da igreja, como mostra o próprio apóstolo: Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão (1Co 10.16,17).

E, por fim, assim como temos a certeza de nos alimentarmos espiritualmente do corpo e do sangue de Cristo, a Ceia nos mostra que a justiça de Cristo foi imputada e, sempre que vemos pão sendo partido diante de nós, é uma representação da carne partida e do sangue derramado do Filho de Deus em nosso lugar, onde, se tomamos o cálice da comunhão é porque Cristo tomou o cálice da ira em nosso lugar.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos
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As promessas da Aliança se estendem até aos nossos filhos

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Desde o Dia 25 o Catecismo de Heidelberg vem tratando dos sacramentos, mais necessariamente sobre o Batismo, pois dos Dias 27-30 o Catecismo irá tratar sobre a Santa Ceia. Diante de tanta confusão sobre os Sacramentos, a Reforma decidiu ficar com o testemunho das Escrituras, pois para a religião predominante da época (e infelizmente para alguns evangélicos atuais) o Batismo (assim como a Ceia que será tratada mais adiante) era sobrenatural com poderes miraculosos.

No entanto, os Reformadores não só combateram os erros aplicados aos Sacramentos como mostraram que o Batismo, por exemplo, nos garante as promessas da Aliança estabelecida pelo próprio Deus:

A) Elas são reais e seguras

72. Então, a própria água do batismo é a purificação dos pecados?
R. Não (1), pois somente o sangue de Jesus Cristo e o Espírito Santo nos purificam de todos os pecados (2).

(1) Mt 3:11; Ef 5:26; 1Pe 3:21. (2) 1Co 6:11; 1Jo 1:7.
73. Por que, então, o Espírito Santo chama o batismo "lavagem da regeneração" e "purificação dos pecados"?
R. É por motivo muito sério que Deus fala assim. Ele nos quer ensinar que nossos pecados são tirados pelo sangue e Espírito de Cristo assim como a sujeira do corpo é tirada por água (1). E, ainda mais, Ele nos quer assegurar por este divino sinal e garantia que somos lavados espiritualmente dos nossos pecados tão realmente como nosso corpo fica limpo com água (2).

(1) 1Co 6:11; Ap 1:5; Ap 7:14. (2) Mt 16:16; Gl 3:27.

As promessas contidas nas explicações das P/R 72 e 73 é que o único meio de um pecador ser lavado de seus pecados é por meio do sangue de Jesus Cristo, não há outro meio do pecador ficar mais alvo do que a neve (Is 1.18), se Cristo não lava-lo com Seu sangue. No entanto, se o batismo não nos lava da mesma forma que o sangue de Cristo, então por que receber o sinal do batismo? Creio que para explicar essa pergunta vale uma ilustração: Um rapaz viaja a trabalho. Ele vai passar uma temporada fora de seu estado, longe de sua família principalmente de sua noiva. Pois, segundo os seus planos, em seu retorno, eles irão se casar. Durante esse tempo longe de casa o noivo mantém contato com sua noiva pelas redes sócias e telefonemas. No entanto, mesmo com todos esses contatos diariamente, ele mantém guardado em seu celular uma foto de sua noiva a qual ele a olha todos os dias. Em certo dia, seus amigos de trabalho o percebem olhando para a foto e perguntam: “Quem é ela?”. Ele responde: “É minha noiva, vou casar com ela quando eu voltar”.


Pense um pouco. O rapaz possui um celular com uma imagem de sua noiva, que é uma representação dela. Quando ele ouve a pergunta de seus amigos, ele levanta o celular e diz: “É minha noiva”. Será que ao dizer que se casaria com ela, os amigos entenderiam que ele se casaria com aquele celular com foto da noiva? De forma alguma. Todos nós sabemos que essa foto representa a noiva do rapaz, mas essa representação é tão viva que o rapaz pode até afirmar categoricamente que é a foto é como se fosse sua noiva mesmo.

Da mesma forma é o sacramento, ele é uma representação de uma realidade. O símbolo não tem poder em si mesmo, mas aquilo na qual ele representa é tão vivo e real que nos faz ter a certeza de que, aquilo que fora aplicado externamente, Cristo com Seu sangue, por meio do Espirito Santo, nos lavaram internamente.

B) São para nós e nossos filhos

74. As crianças pequenas devem ser batizadas?
R. Devem, sim, porque tanto as crianças como os adultos pertencem à aliança de Deus e à sua igreja (1). Também a elas como aos adultos são prometidos, no sangue de Cristo, a salvação do pecado e o Espírito Santo que produz a fé (2).

Por isso, as crianças, pelo batismo como sinal da aliança, devem ser incorporadas à igreja cristã e distinguidas dos filhos dos incrédulos (3). Na época do Antigo Testamento se fazia isto pela circuncisão (4). No Novo Testamento foi instituído o batismo, no lugar da circuncisão (5).

(1) Gn 17:7. (2) Sl 22:10; Is 44:1-3; Mt 19:14; At 2:39. (3) At 10:47. (4) Gn 17:14. (5) Cl 2:11,12.

Após o Catecismo nos mostrar que o único meio de nossos pecados serem lavados é por meio do sangue de Cristo no lavar regenerador do Espírito Santo, ele nos mostra que este sinal, o qual nos aponta para uma viva e real esperança, devem ser aplicados nas crianças.


E por quais motivos este sinal deve ser aplicado? O Catecismo enumera dois:

Primeiro, o Catecismo nos mostra que o batismo das crianças de pais crentes serve para distingui-los dos filhos dos descrentes, pois Deus sempre tratou a família como uma unidade e não como membros distintos:

Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos(1Co 7.14);
E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia. E, depois que foi batizada, ela e a sua casa, nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrai em minha casa, e ficai ali. E nos constrangeu a isso (At 16.14,15);
E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa (At 16.31).

Isso nos mostra que Deus faz com que as crianças participem do mesmo Pacto em que seus pais estão marcando a sua entrada no Pacto da mesma forma que era feito na Antiga Aliança.

Sendo assim, a ultima enumeração do Catecismo que nos mostra o motivo de batizar nossos filhos é que o batismo tem a mesma função da circuncisão na Nova Aliança. No entanto, algumas pessoas fazem objeção dizendo que o batismo é para aqueles que têm a capacidade de se arrepender. Concordo, e creio que aqui vale algumas explicações. Vimos acima que o batismo é um sinal externo daquilo que fora ocorrido internamente. Ou seja, a lavagem com a água externamente representa a lavagem com sangue que ocorrera internamente. Da mesma forma, é a circuncisão. Um ato externo, de cortar o prepúcio, na Antiga Aliança, era comparado com tirar o “prepúcio” do coração como sinal de humildade, novo nascimento e um novo modo de vida:

Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10.16);
E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30.6);
Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração” (Jr 4.4).

Da mesma forma na Nova Aliança:

De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6.4);
Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12);
E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada” (Rm 4.11).

Veja, tanto no Antigo Testamento como no Novo a circuncisão e o batismo eram vistos como sinais de uma graça invisível. Agora, se nos dois Testamentos tanto a circuncisão como o batismo eram vistos como questões internas demonstrando um novo nascimento, por que era aplicado em crianças, sendo que elas não tinham consciência para crer e se arrepender (cf. Jl 2.16)? Obediência e esperança na promessa.

Em Gn 15 Deus instituiu uma aliança com Abraão. Essa aliança foi selada com o sinal da circuncisão (Gn 17) e a promessa era que tanto Abraão como seus filhos seriam abençoados (Gn 17.7,8). E mesmo assim, Abraão sabendo sobre quem era o filho prometido, ele circuncida Ismael e Isaque como sinal de obediência (Gn 17.25; 21.4). Da mesma forma os pais da Nova Aliança batizam seus filhos tendo em vista a mesma obediência e promessa. Obediência porque Paulo nos mostra que a aliança abraamica está em vigor mesmo após a morte de Cristo (cf. Gl 3) e promessa, porque é a mesma feita em Gn 15:

E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (At 2.38,39).

Conclusão

Mesmo que nossos filhos não sejam salvos temos que cumprir com o mandamento, assim como fez Abraão circuncidando Ismael, pois nós não sabemos quem será salvo ou não. No entanto, cremos nas promessas de Deus de salvar nossa família. Não obstante, o batismo infantil não é somente um ato de fé, mas de responsabilidade. Uma responsabilidade que leva os pais entender que dos tais é o reino dos céus (Mt 19.14), que a Bíblia deve ser ensinada a eles continuamente (Dt 6.6-8) e que devem participar do culto também, pois se são participantes do pacto, eles também possuem um relacionamento pactual com Deus. Portanto, cumpramos com aquilo que prometemos diante da igreja quando fomos batizar nossos filhos.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos 
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Sinais visíveis de uma graça invisível

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Dos Dias 8 e 22 o Catecismo de Heidelberg tratou dos pontos concernentes à fé cristã, ou seja, aquilo que a Bíblia mostra como verdade a ser crida, professada e proclamada. Nos Dias 23 e 24 vemos que a fé é o único meio que o pecador tem de ser justificado diante de Deus, e que nada que fizermos contribuirá para a nossa salvação.

Já no Dia 25 veremos que não há salvação fora de Cristo e essa declaração “de que não há salvação fora de Cristo” para a mente moderna é antiquada. Há pessoas que colocam, como na explicação do 23º Dia do Senhor, a fé em sua própria fé. Outros creem que qualquer tipo de caminho, pode ser viável para alcançarmos salvação, outros ainda, por acharem a igreja corrupta e formada por pecadores, afirmam que participar dos cultos e dos sacramentos não seja obrigatório.

Mas alguém poderá questionar: isso não seria uma contradição, analisando o último ponto levantado? Pois, se não há salvação fora de Jesus Cristo, como podemos dizer que é errado o participar dos cultos e dos sacramentos; tal ato não seria um meio de salvação?

Sim e não. Se nós colocarmos qualquer coisa que venhamos fazer como meio para sermos salvos, isso é errado, visto que não fazemos boas obras para sermos salvos, mas fazemos boas obras porque somos salvos e foi para isso que Deus nos destinou (Tg 2.24; cf. Ef 2.10).

Da mesma forma é com os sacramentos os quais são como meios de graça que o nosso Senhor instituiu à igreja para que possamos fortalecer a nossa fé, como mostra o Catecismo (P/R 67).

Dito isso, podemos dizer que esse é o diferencial de qualquer outra religião ou ideologia que colocam vários caminhos para as pessoas serem salvas. Porque o Catecismo vai nos ensinar três coisas básicas: De onde vem à fé? Como a fé é produzida? E como a fé é fortalecida?

De onde vem a fé e como ela é produzida?

65. Visto que somente a fé nos faz participar de Cristo e de todos os seus benefícios, de onde vem esta fé?
R. Vem do Espírito Santo (1) que a produz em nossos corações pela pregação do Evangelho (2), e a fortalece pelo uso dos sacramentos (3). 
(1) Jo 3:5; 1Co 2:12; 1Co 12:3; Ef 1:17, 18; Ef 2:8; Fp 1:29. (2) At 16:14; Rm 10:17; 1Pe 1:23. (3) Mt 28:19.

A fé para salvação não é um produto humano. Mesmo que o homem fora criado à imagem e semelhança de Deus, isso não lhe garante qualquer meio em si mesmo para que possa ser salvo. A Bíblia é bem clara em mostrar que a fé é dom de Deus (Ef 2.8), pois outrora o homem estava morto em pecado necessitando de um novo nascimento.

Portanto, se a Bíblia mostra que a condição do homem é uma “morte espiritual”, logo, o pecador não consegue ouvir e entender, como mostra Isaías 6 e Jo 12.37-43, a pregação do Evangelho. No entanto, nos escolhidos, o Espirito Santo age poderosamente por intermédio da pregação do Evangelho fazendo com que este pecador nasça de novo e creia em Jesus Cristo:

De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.” (Rm 10.17)

Em quem também vós estais depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Ef 1.13)

Não obstante, o Catecismo continua nos mostrando que essa fé que recebemos pelo Espirito Santo através da pregação é fortalecida por meio dos sacramentos. E assim surge o nosso terceiro ponto básico.

Como a fé é fortalecida?

66. Que são sacramentos?
R. São visíveis e santos sinais e selos. Deus os instituiu para nos fazer compreender melhor e para garantir a promessa do Evangelho, pelo uso deles. Essa promessa é que Deus nos dá, de graça, o perdão dos pecados e a vida eterna, por causa do único sacrifício de Cristo na cruz (1).
(1) Gn 17:11; Lv 6:25; Dt 30:6; Is 6:6,7; Is 54:9; Ez 20:12; Rm 4:11; Hb 9:7,9; Hb 9:24.
67. Então, tanto a Palavra como os sacramentos têm a finalidade de apontar nossa fé para o sacrifício de Jesus Cristo na cruz, como o único fundamento de nossa salvação (1) ?
R. Sim, pois o Espírito Santo ensina no Evangelho e confirma pelos sacramentos que toda a nossa salvação está baseada no único sacrifício de Cristo na cruz.
(1) Rm 6:3; Gl 3:27.
68. Quantos sacramentos Cristo instituiu na nova aliança?
R. Dois: o santo batismo e a santa ceia.

A nossa fé é fortalecida por meio daquilo que chamamos “meios de graça”. Meios de graça são instrumentos que a Bíblia nos mostra onde Deus concede benção para seu povo. No entanto, temos que entender que os meios de graça em si não possuem nenhum poder miraculoso ou sobrenatural. Pense em um fio de energia de uma residência. O fio desta instalação elétrica não é nada em si mesmo, porém é por meio deste fio que vem a energia elétrica e faz a lâmpada acender e o aparelho de som toque a nossa música preferida. Da mesma forma são os meios de graça, eles são os canais pelos quais Deus nos concede força, paz, conforto, instrução, disciplina, orientação, alegria e muitas outras coisas necessárias à vida cristã.

E os sacramentos, como explicado na (P/R 66 e 68), são sinais visíveis de uma graça invisível, os únicos instituídos por Jesus Cristo “para nos fazer compreender e garantir a promessa do evangelho, pelo uso deles”. No entanto, eles só possuem tal função por causa da obra sacrificial feita na cruz por nosso Senhor.

Conclusão

Voltando a pergunta inicial: Por que então eu devo participar dos sacramentos se a salvação está em Cristo?

O próprio Catecismo nos responde:

“pois o Espírito Santo ensina no Evangelho e confirma pelos sacramentos que toda a nossa salvação está baseada no único sacrifício de Cristo na cruz.”

Ou seja, é por intermédio dos sacramentos que lembramos daquilo que Cristo fez por nós e em nós. No batismo nós nos lembramos da purificação de nossos pecados e do novo nascimento produzido pelo Santo Espirito, e que não pertencemos a nós mesmos, mas pertencemos a Cristo sendo um sinal distintivo do mundo.

Na Santa Ceia nós nos lembramos da morte de Jesus em nosso lugar derramando o Seu sangue e tendo o seu corpo ferido em nosso lugar, no entanto, além da Ceia nos lembrar da morte substitutiva de Jesus Cristo, nós temos a certeza de nossa comunhão com Ele sendo renovados e fortalecidos, e testificando o nosso amor por Cristo e por nossos irmãos na fé.

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Autor: Denis Monteiro
Fonte: Bereianos
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Algumas objeções contemporâneas no âmbito do Culto consideradas e refutadas - 2/4

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3. Argumento de que “O Princípio Regulador do Culto Aplica-se apenas ao Templo”.

Um outro argumento popular contra o princípio regulador do culto baseia-se na ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao culto no tabernáculo e no templo. Esta ideia baseia-se no contexto da citação clássica do princípio regulador, Dt 12:32, e na noção de que Deus era muito exigente com o culto do tabernáculo/templo apenas porque o serviço do templo tipificava a pessoa e a obra de Jesus Cristo. Se este argumento for aceito, pode-se concluir que: (1) O culto descentralizado em Israel que ocorria na sinagoga não era estritamente regulado. Em outras palavras, os israelitas podiam fazer o que bem desejassem no culto desde que não violasse o ensinamento expresso da Escritura (esta é essencialmente a concepção episcopal-luterana do culto aceitável); (2) O princípio regulador foi ab-rogado com a morte de Cristo quando o Seu sacrifício perfeito tornou desnecessário o culto do templo; (3) Portanto, a igreja da nova aliança não tem nada a ver com o princípio regulador e tem a liberdade para criar ritos, cerimônias e dias santos conforme desejar, desde que as invenções humanas não violem ou contradigam a Palavra de Deus.

A ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao serviço do santuário central deve ser rejeitada por várias razões. Primeira, a noção de que Dt 12:32, pelo fato de ser dado numa seção que trata primariamente do tabernáculo, aplica-se apenas ao tabernáculo é simplesmente adotada sem comprovação exegética. É-nos dito em alguma parte do capítulo 12, ou em qualquer outro lugar em todo Velho ou Novo Testamentos, que o princípio de acrescentar ou subtrair está limitado ao tabernáculo ou templo? Não, não nos é dito. Mas, será que não podemos inferir do contexto que este princípio extremamente explícito aplicava-se apenas ao tabernáculo/templo? Não. Na verdade, o contexto prova exatamente o oposto. Conquanto é verdade que o capítulo 12 contém uma extensa discussão sobre o santuário central (em particular sobre a necessidade de se oferecer sacrifícios e oferendas no santuário central) o contexto de Dt 12:32 fala também da repressão à idolatria e ao sincretismo com o culto pagão que podem ocorrer não apenas no tabernáculo, mas em toda a terra de Israel. Observe o contexto imediato da passagem:


Quando o SENHOR, teu Deus, eliminar de diante de ti as nações, para as quais vais para possuí-las, e as desapossares e habitares na sua terra, guarda-te, não te enlaces com imitá-las, após terem sido destruídas diante de ti; e que não indagues acerca dos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações aos seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Não farás assim ao SENHOR, teu Deus, porque tudo o que é abominável ao SENHOR e que ele odeia fizeram eles a seus deuses, pois até seus filhos e suas filhas queimaram aos seus deuses. Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás (Dt 12:29-32).

A passagem aplica-se não apenas ao comportamento no tabernáculo, mas às praticas de culto em toda a terra de Israel. Se Dt 12:32 aplicava-se apenas ao santuário central, por que razão seria ele usado como texto fundamental para suprimir a idolatria pagã em todo o país? O culto pagão cananeu era descentralizado, com ídolos do lar, sítios pagãos, lugares altos e bosques sagrados. Será que devemos crer que Dt 12:32 preocupa-se apenas com o sincretismo dentro do tabernáculo? O versículo 31 preocupa-se apenas em suprimir o sacrifício de crianças dentro do tabernáculo? É claro que não! O contexto de Dt. 12:32 prova que ele não está restrito apenas ao tabernáculo/templo.


A segunda razão é que Dt 12:32 não pode ser interpretado à parte de passagens virtualmente idênticas, que afirmam sola scriptura, que se aplicam não apenas ao tabernáculo/templo, mas à vida como um todo. As passagens de sola scriptura ensinam que a igreja não tem autonomia ou autoridade legislativa quanto a ordenanças de doutrina, ética ou culto. Observe as seguintes passagens: ―Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando (Dt 4:2). Toda palavra de Deus é pura... Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso (Pv 30:5-6).

Já chamamos a atenção, na nossa discussão de Dt 4:2, que é pecaminoso para o homem criar as suas próprias regras éticas. Os membros da igreja ficariam justamente irados e ultrajados se seu pastor ou conselho decretasse que comer carne às sextas-feiras, ou usar jeans, ou andar de bicicleta era agora pecaminoso e merecedor de censura eclesiástica. Deuteronômio 4:2 também proíbe as autoridades da igreja de fazerem subtrações ou acréscimos ao culto prescrito na Escritura. A única forma de Dt 4:2 ser contornado pelos opositores do princípio regulador é pretextar que o culto a Deus não é assunto prescrito da lei, mas que pertence à esfera das coisas indiferentes (adiaforia). A ideia de que o culto a Jeová (o dever mais sagrado e importante da igreja) é adiafórico é impossível por dois motivos. Primeiro, a adiaforia refere-se apenas aos assuntos indiferentes que não são ordenados nem proibidos, que não são diretamente regulados pela Escritura. O culto, entretanto, é ordenado por Deus. Segundo, as áreas da adiaforia são opcionais. O culto não é opcional. Dt 12:32, que é virtualmente idêntico a 4:2, é dado no contexto do culto para enfatizar: (1) a autoridade exclusiva da Escritura sobre o culto, (2) a falta de autoridade legislativa do povo da aliança para determinar ou criar o seu próprio culto e (3) a necessidade de ater-se estritamente ao que diz a Palavra de Deus para evitar os acréscimos humanos que, por causa da depravação humana herdada, levam ao sincretismo e ao pecado. O princípio regulador é simplesmente o sola scriptura aplicado à esfera do culto. Aqueles que aplicam Dt 12:32 apenas ao templo, fazem-no somente porque não entendem Dt 4:2 e a completa aplicação da sola scriptura.

Terceira razão, a ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao templo ignora o fato de que o culto no tabernáculo/templo continha ordenanças cerimoniais e não cerimoniais. O sacrifício de animais, a queima de incenso e o uso sacerdotal e levítico de instrumentos durante o sacrifício eram cerimoniais. Mas a leitura da Escritura (1Ts 5:27; Cl 4:16; 1Tm 4:13), a oração (Mt 6:9; 1Ts 5:17; At 4:31; 1Co 11:13-15; Fp 4:7; Tg 1:5) e o cântico de louvor (Mt 26:30; At 16:25; 1Co 14:26; Ef 5:19; Cl 3:16; Hb 13:15; Tg 5:13) não eram cerimoniais. Tal afirmação prova-se pelo fato de que a leitura da Escritura, a oração e o cântico de louvor são, todos eles, aspectos integrais do culto cristão após a dissolução do templo e a ab-rogação das ordenanças cerimoniais. Por isso, é extremamente simplista e exegeticamente falaz argumentar que o princípio regulador foi anulado juntamente com a ordem cerimonial. Se o princípio regulador aplicava-se ao culto do templo, então, ele regulava o culto não cerimonial que lá ocorria.

Aqueles que argumentam que o princípio regulador aplicava-se somente ao templo que foi, portanto, ab-rogado com a lei cerimonial, são culpados de fazerem uma antítese total entre o culto no templo e o culto público na sinagoga/culto público cristão. Não se pode negar que o culto no templo tipificava Cristo e Sua obra. Não se deve, entretanto, subestimar o fato de que o templo era também um lugar de culto (Jo 4:21) e oração (Mt 21:13). Alguns dos elementos cruciais do culto público cristão foram praticados primeiramente no templo. Bushell escreve:

Para o judeu do Velho Testamento o ritual do templo era a imagem viva da adoração e todos os exercícios de piedade estavam, de uma forma ou de outra, atrelados àquela fonte. As práticas litúrgicas na sinagoga correspondiam, em muitos casos, diretamente às do templo. A oração, por exemplo, era oferecida na sinagoga no mesmo momento das oferendas do templo. Fora deste lugar de culto, a oração era sempre feita com a face voltada para o Templo, ou Jerusalém. As sinagogas eram consideradas santuários em miniatura, a ponto de sua mobília (tais como a arca e o candelabro de sete braços) ser calcada na do templo. Por isso, considerando a importância do templo até mesmo para o culto fora de Jerusalém, seria razoável postular um grau maior de continuidade entre a prática do culto cristão e certos aspectos da liturgia do templo; uma continuidade maior do que grande parte das autoridades está disposta a admitir. A escassez de referências na literatura quanto à influência da liturgia do templo no culto cristão é uma situação desequilibrada que precisa muito ser corrigida. É nossa opinião que o templo, e não a sinagoga, é a referência final para certos aspectos mais importantes no culto cristão. O fato de que muitos desses aspectos podem ter sido intermediados pela sinagoga está além da questão, pelo menos até onde vai a nossa preocupação com o assunto. [78]

Apesar de serem feitas certas tentativas de se limitar o princípio regulador ao templo, elas não têm absolutamente qualquer fundamento na Escritura. O culto do templo prova em si mesmo que o princípio regulador não pode estar restrito às ordenanças cerimoniais.

Quarta razão, há algumas passagens que aplicam o princípio regulador fora da esfera do culto do tabernáculo/templo. Se existir na Escritura pelo menos uma palavra que aplique o princípio regulador fora do culto do tabernáculo/templo, então a afirmativa de que o princípio regulador aplica-se apenas ao templo cai por terra. Vamos examinar três passagens.  

Em Mt 15:1-3 Jesus condenou os fariseus por acrescentarem a lavagem ritualística, que ocorria em casa e não no templo, à lei. Então, vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, lhes respondeu: Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Esta passagem constitui um sério problema para aqueles que ensinam que o princípio regulador aplicava-se apenas ao templo, e que as tradições criadas pelos homens são permitidas desde que não violem o claro ensinamento da Escritura. Onde, na Palavra de Deus, condena-se a lavagem das mãos? Se os acréscimos humanos são permitidos na esfera religiosa, o que poderia ser mais inocente, útil e prático do que um simples lavar de mãos? Entretanto o nosso Senhor não apenas recusou submeter-se a esse ritual religioso criado pelo homem como também repreendeu vigorosamente os fariseus por adicionarem uma regra humana à Palavra de Deus. Lavar as mãos é algo bem apropriado; pode-se desejar que fosse sempre praticado; mas elevá-lo à condição de ritual religioso é estultícia e pecado[79]. Os discípulos de Cristo foram bem treinados, pois sabiam que qualquer tradição humana, não importa quão boa e inocente, não deve ser observada quando recebe do homem, sem a sanção divina, status e significado religioso. Observe, as imposições ilegais [tradições humanas no culto] ficarão sob a responsabilidade dos que as sustentam, defendem, e as fazem vigorar, tanto quanto dos que primeiramente as inventaram e delas gozaram[80]. A antiguidade e os Pais [da Igreja] sem a Escritura são a velha cartilha dos supersticiosos formalistas... Daqui aprende-se que Deus em sabedoria põe em discussão as cerimônias dos homens para que sejam refutadas e condenadas.[81]

Jesus é um ardente defensor do princípio regulador. Ele rejeita a mais inofensiva das tradições religiosas e mostra-nos também como as tradições e leis humanas desviam e, portanto, invalidam a sentença sobre aquilo que Deus condenou. Rutherford escreve:

Os fariseus criticaram quando viram alguns dos discípulos comendo pão com as mãos sem lavar. Exigia-se a justificativa para a omissão de um ritual exterior, visível aos olhos. Essas tradições, entretanto, não são condenadas por Cristo por serem contrárias à Palavra de Deus ou por serem ímpias, mas por não serem ordenadas. Eles não acusavam os discípulos de Cristo da impiedade de qualquer sentimento perverso quanto a essas tradições, ou de crítica íntima ao ritual religioso de lavar as mãos, nem disputavam com eles sobre se as tradições dos anciãos deveriam, ou não, ser estimadas como a essência e a totalidade de todas as religiões, como disse Vasquez*, mas altercavam tão somente sobre a concordância externa em seguir, ou não seguir, a tradição dos anciãos, como está mais do que claro no texto. Cristo, na verdade, desaprovou o fato de terem maior consideração às tradições dos homens do que aos mandamentos de Deus, como os papistas e os formalistas o fazem; mas não era esse o ponto em questão entre os discípulos de Cristo e os fariseus. Cristo rejeita tais tradições com o argumento da falta de um Autor legal, quando as chama de preceitos de homens em oposição aos mandamentos de Deus.[82]  

As pessoas que se opõem ao princípio regulador tentam, frequentemente, contornar a importância óbvia dessas passagens apelando para o contexto. Dizem que o exemplo apresentado por Cristo nos versículos 4 e 5 (de alguém que segue a tradição para esquivar-se de sustentar seus pais na velhice) nos informa que Cristo tinha na mente apenas as tradições negativas, isto é, as tradições que anulavam, abandonavam ou contradiziam à Palavra de Deus. O problema dessa interpretação é que ela ignora completamente o versículo 2, o confronto original que resultou na respostas de Jesus nos versículos de 3 a 9. Jesus exemplifica por que é errado acrescentar exigências humanas à Palavra de Deus. Elas terminam por suplantar a Palavra de Deus. (Quem conhece o judaísmo ou a história da igreja sabe que o ensinamento de nosso Senhor é verdadeiro). O fato de Cristo dar tal exemplo não minimiza jamais o verso 2, onde a mais inocente e aparentemente inofensiva das tradições humanas (lavar as mãos) é considerada totalmente imprópria. Como é que o fato de alguém lavar as mãos pode contradizer, violar, ou pôr de lado a Palavra de Deus? Jesus condena os fariseus por presumirem (ao contrário da Palavra de Deus) que os líderes religiosos têm autoridade legislativa na igreja. Quando tais líderes atribuem a si mesmos a autoridade de inventarem doutrinas ou mandamentos, o resultado final é decadência e mesmo apostasia. Observe que nos versículo 9 Jesus condena claramente todas as doutrinas e mandamentos humanos na religião. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens (Mt 15:9; cf. Is 29:13).

Além disso, a passagem paralela de Marcos 7 põe termo ao assunto definindo-o, porque nessa narrativa Jesus identifica explicitamente as tradições que Ele condena, como inclusive as lavagens religiosas[83]. Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens, como o lavar dos jarros e dos copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição (Mc 7:6-9). É tão fácil destruir a autoridade da Palavra de Deus pelo acréscimo quanto o é pela subtração, tanto soterrando-a sob as invenções humanas quanto negando a sua verdade. A Bíblia toda, e nada a não ser a Bíblia, tem de ser a nossa regra de fé — sem acréscimos ou amputações.[84] O nosso Senhor não só condena as tradições humanas negativas, más ou contraditórias, mas a todas elas sem exceção. Spurgeon escreve:

A religião baseada na autoridade humana é inútil; devemos adorar ao verdadeiro Deus da maneira que Ele mesmo determina, ou não estaremos adorando-O jamais. Doutrinas e mandamentos só devem ser aceitos quando têm a sustentação da Palavra, e só por esta razão é que serão aceitos. A forma mais meticulosa de devoção será vã adoração, se for regulamentada por ordenanças humanas à parte dos próprios mandamentos de Deus.[85]  

Após um breve exame do ensinamento de Cristo no contexto só se pode concluir que o argumento de que nosso Senhor está condenando apenas certas tradições religiosas perniciosas, e não a toda e qualquer tradição humana, é "eisegesis" da pior qualidade. A tentativa de se burlar passagens que provam o princípio regulador, como Mateus 15:2-9, não são novas, mas são (de forma geral) reedições de antigos argumentos papistas e de lideranças eclesiásticas há muito rejeitados pelas igrejas reformadas. Observe as palavras de Zacarias Ursinus (escritas na década de 1570 e publicadas pela primeira vez na década de 1580):

Alguns há que se opõem ao que dissemos aqui, afirmando, como apoio à pretensa religiosidade, que as passagens que citamos condenando-a referem-se apenas às cerimônias instituídas por Moisés e aos mandamentos humanos ilegítimos que não fazem parte do culto a Deus, e não aos preceitos sancionados pela igreja, e bispos que nada ordenam contrário à Palavra de Deus. Mas a falsidade deste argumento pode ser provada por certas declarações, análogas às passagens da Escritura que citamos, que também rejeitam àquelas leis humanas, que, em sua própria autoridade, nada prescrevem com referência ao culto divino que Deus não tenha ordenado, embora, em si mesma, a coisa não seja pecaminosa nem proibida por Deus. Embora não fosse pecaminosa em si mesma, Cristo rejeita a tradição dos judeus quanto ao lavar as mãos, pois associavam a ela a ideia de culto divino, dizendo assim: Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem e Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! (Mt 15:11; 23:25). O mesmo se aplica ao celibato e à discriminação entre dias e tipos de carnes, ao que Ele chama de doutrinas de demônios, embora sejam intrinsecamente legítimas ao piedoso, como Ele ensina noutra parte. Por isso, aquelas coisas que são em si mesmas indiferentes, que não são ordenadas nem proibidas por Deus, se forem prescritas e realizadas como culto a Deus, ou se delas se supor que Deus seja honrado quando as executamos e desonrado quando as negligenciamos, é claramente manifesto que a Escritura as condena, nestas e em outras referências.[86]

Outra passagem da Escritura que desaprova a teoria do apenas ao templo é Cl 2:20-23: Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. O apóstolo Paulo, escrevendo sob a inspiração do Espírito Santo, vários anos após o princípio regulador ter sido supostamente abolido, impôs rigorosamente o princípio regulador.

Paulo diz que qualquer adição ao que Deus ordenou ou autorizou é religião auto-imposta, ou como diz a versão do rei Tiago, culto da vontade [ou culto de si mesmo, ARA ou pretensa religiosidade, NVI]. A palavra grega usada por Paulo (ethelothreskeia) significa culto que se origina da própria vontade do homem. Este não é o culto ordenado por Deus, mas que brota da própria ingenuidade do homem; é devoção não autorizada... O referido culto não é solicitado nem aceito. É superstição...[87]

O essencial é que essas ordenanças são formas de culto ou de ato religioso escolhido pelo homem, conforme a vontade do homem, não significa escolhidos por Deus. Este é o cerne do culto corrupto: quando os homens procuram estabelecer as suas próprias formas de culto. Podemos chamá-lo de culto tipo livre escolha, pois os advogados do culto feito pelo homem alegam que o homem tem o direito (ou a liberdade) de instituir meios aceitáveis para adorar a Deus.[88] 

Paulo diz que fazer acréscimos à Palavra de Deus é uma demonstração de falsa humildade. Será que o homem é capaz de melhorar a adoração e o ato de culto que Deus instituiu? É o ápice da arrogância e da estupidez pensar que o homem pecador pode melhorar as ordenanças de Deus. É provocar a Deus, pois isso recai sobre a Sua honra, como se Ele não fosse sábio o suficiente para determinar o modo do Seu próprio culto. Ele odeia todo fogo estranho oferecido em Seu templo. Lv 10:11. Uma cerimônia [qualquer] pode a um tempo [qualquer] levar a um crucifixo. Aqueles que defendem o uso do sinal da cruz no batismo, por que não defendem também o óleo, o sal e o creme?[89] Como diz Paulo: a regras e regulamentos feitos pelo homem não têm valor algum para o que crer (Cl 2:23).

Os oponentes do princípio regulador tentam contornar o ensinamento de Colossenses de modo semelhante à passagem de Mt 15:2. Eles pretendem que Paulo não está condenando a todas as tradições humanas, mas que só está preocupado com a eliminação de certos tipos de ascetismo. Em outras palavras, é errado criar regras que proíbam comer carne e outros alimentos, mas é inteiramente aceitável inventar práticas de culto, dias santos e rituais.

Há uma série de razões pelas quais a condenação de Paulo aos preceitos humanos não pode estar limitada a certas práticas ascéticas. Primeira, o amplo contexto da passagem indica que Paulo rejeita enfaticamente todas as tradições humanas na esfera religiosa, e não meramente leis dietéticas ascéticas. O provável problema na igreja de Colossos era a influência de uma forma primitiva de ascetismo gnóstico. Paulo, no capítulo 2, condena enfaticamente o legalismo gnóstico. Entretanto, ao condenar esta filosofia em particular, e ao falso sistema ético que dela deriva, Paulo condena todas as formas de filosofia não cristã e todo culto e ética fundamentados na filosofia e tradição de homens. Nesta epístola, Paulo primeiro aponta Jesus Cristo aos colossenses. Os crentes colossenses precisam trazer à memória que Cristo é preeminente (1:18); que em Cristo, que é o Cabeça de todos, eles estão completos (2:10); que alguns não têm se mantido fiéis à Cabeça (2:19); que em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (2:3). Cristo, sozinho, é Rei e Cabeça da igreja. Somente Ele é a nossa santificação. Somente através de Cristo e da Sua palavra-lei procede justa doutrina, propósito e ética. Por isso Paulo escreve: Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo (Cl 2:8). Calvino escreve:

Conforme a tradição dos homens. Ele [Paulo] aponta mais precisamente qual é o tipo de filosofia que reprova, e ao mesmo tempo condena-a duplamente como inútil: porque não é segundo Cristo, mas conforme as inclinações dos homens; e porque consiste dos rudimentos do mundo. Note, entretanto, que ele opõe Cristo aos rudimentos do mundo, e igualmente, às tradições dos homens; com isso, o que ele quer dizer realmente é que, qualquer coisa produzida pela imaginação do homem não está de acordo com Cristo, a quem o Pai designou como nosso único mestre, para que Ele nos guarde na simplicidade do Seu evangelho, que se corrompe até mesmo pela menor partícula do fermento das tradições humanas. Ele também quer dizer que são estranhas a Cristo todas as doutrinas que tornam o culto a Deus — que, segundo a lei de Cristo, sabemos ser espiritual — em rudimentos do mundo, e que, como tais, escravizam as mentes dos homens com ninharias e frivolidades, ao passo que Cristo chama-nos diretamente para Ele.[90]

É universal, a condenação de Paulo à filosofia conforme as tradições dos homens. Não se pode argumentar que, nessa passagem, Paulo condena apenas o ascetismo gnóstico e não condene as filosofias de Kant, Hegel, Schleiermacher, Marx e Dewey. Para Paulo não existe neutralidade filosófica ou ética. Uma doutrina ou prática ou está, ou não está, em concordância com Cristo. E se não estiver, ela procede, então, da imaginação autônoma do homem e é (segundo Paulo) uma tradição de homens. Por isso, quando em 2:20-23 Paulo condena os preceitos humanos, ele usa a mesma linguagem universal. No versículo 20 Paulo pergunta àqueles que estão em erro em Colossos o seguinte (numa paráfrase): Por que é que vocês agem como pessoas perdidas que continuam a viver sob uma visão pagã e sujeitando-se assim a preceitos humanos? E então, no versículo 21, Paulo dá exemplos específicos. Seriam os preceitos humanos, mencionados no versículo 21, as únicas tradições humanas que Paulo proíbe? Não. Por causa da condenação universal da filosofia e tradição humanas, que tanto precedem quanto sucedem o versículo 21, os preceitos humanos desse versículo devem ser vistos como uns poucos exemplos tirados da categoria universal das filosofias e tradições humanas. Não há como limitar a assertiva de Paulo no versículo 22 segundo os preceitos e doutrinas dos homens apenas aos preceitos do ascetismo gnóstico, tanto quanto a condenação da filosofia humana no versículo 8 não pode ser restrita a uma única comunidade grega. Além disso, a declaração do versículo 22, segundo os preceitos e doutrinas dos homens, espelha a condenação às tradições judaicas quanto à doutrina e a ética encontradas em Is 19:13 e Mt 15:2-9. A Bíblia condena os acréscimos e os preceitos criados pelo homem, na doutrina, na ética e no culto, sejam eles judaicos, gregos, persas, romanos, alemães, ingleses ou americanos.

Segundo, a interpretação que diz que Paulo proíbe o acréscimo de algumas filosofias e tradições humanas à doutrina, ética e culto da igreja, mas permite outras tradições humanas, viola o padrão ortodoxo dos métodos de interpretação protestante. Um estudo tanto do Velho quanto do Novo Testamentos prova, sem qualquer sombra de dúvida, que Deus proíbe acréscimos ou subtrações à doutrina, ética e culto estabelecidos na divina revelação (Dt 4:2; 12:32; Pv 30:6; Gn 4:3-5; Lv 10:1-2; 2Sm. 6:3-7; 1Cr 15:13-15; Jr 7:24,31; 19:5; Is 29:13; Nm 15:39-40; Mt 15:2-9; Jo 4:24; Ap 2:18, 19; etc.). Essa afirmação é simplesmente o entendimento confessional reformado de sola scriptura que tem sido discutido nas partes anteriores desse estudo. A tentativa de fazer de Paulo um bom episcopal, luterano, ou católico, quanto às tradições humanas, envolve a ignorância proposital de todo o ensinamento da Escritura. O coração do homem é tão enganoso que, pelo autoengano e sutilezas da razão humana, ele cria onde não existe brecha para a autonomia humana. Por isso, a nossa única esperança em manter a pureza na doutrina, na ética e no culto está em adotar e obedecer estritamente aos mandamentos de Deus sem se desviar para direita ou esquerda.

Outra passagem que desaprova a teoria do apenas ao templo é Jo 4:21-24: Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.

Quando Jesus discutiu sobre adoração com a mulher samaritana e contrastou o culto da velha aliança com o da nova, Ele ensinou que em ambas as dispensações o culto deveria ser realizado sob os mesmos princípios. Observe a frase: mas vem a hora e já chegou (v. 23). Embora a morte de Cristo tenha eliminado todos os aspectos e cerimônias típicas do culto da velha aliança, a necessidade de adorar a Deus em espírito e em verdade não era um princípio novo, pois já vigorava quando Jesus disse essas palavras. Segundo Jesus, Deus deve ser adorado em espírito e em verdade, não porque o templo represente a Cristo e ao evangelho, mas devido à natureza e ao caráter de Deus. Bushell escreve:

O Espírito, que é a fonte da vida eterna, precisa ser também a fonte da verdadeira adoração. Se admitirmos que o Espírito apenas opera em e através da Sua Palavra, tal princípio tem por justa inferência que todo o culto verdadeiro deve estar fundamentado nas Sagradas Escrituras... O culto aceitável precisa ser conforme o caráter de Deus, como nos está revelado nas Escrituras, e em conformidade com tal e suficiente regra, em todos os seus aspectos. Somente o culto que procede em última instância do Espírito através da Sua Palavra é agradável a Deus.[91] 

Essa passagem da Escritura refuta por si mesma a ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao templo, porque quando Jesus começa essa discussão, fica claro que Ele falava do culto no templo em Jerusalém (v. 21). Portanto, quando Ele diz que o mesmo princípio de adoração em espírito e em verdade‖, que está em vigor agora na era da velha aliança, estará também em vigor na era da nova aliança, Ele está ligando à igreja da nova aliança o rígido princípio de adoração que regulamentava o templo. Se os crentes tanto da velha quanto da nova aliança querem adorar adequadamente a Deus, eles só podem fazê-lo em conformidade com a Sua natureza e caráter. E a única forma de aproximar-se de Deus num modo que O agrade é achegar-se a Ele nos Seus próprios termos conforme as Sua próprias regras. Isso significa que o culto tem de ser prescrito pela Escritura e não por homens pecadores. Deus que é em si mesmo a verdade tem de ser adorado conforme a verdade e não segundo a imaginação do homem. O Catecismo Maior de Westminster diz: “Os pecados proibidos no segundo mandamento são: o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus mesmo”... (Catecismo Maior de Westminster, resposta 109). A ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao culto do tabernáculo/templo não tem respaldo bíblico, contradiz o óbvio ensino da Escritura e, portanto, tem de ser rejeitado.

_____________
NOTAS: 
[78] Michael Bushell. The Songs of Zion, pág 71-72.
[79] Charles Haddon Spurgeon. The Gospel of Matthew (Grand Rapids: Revell, 1987), 201.
[80] Matthew Henry. Commentary (McLean, VA: MacDonald, s.d.), 5:210-211.
[81] David Dickson. Mathew (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1987 [1647]), 207.
* Gabriel Vasquez (1549-1604). Filósofo e teólogo jesuíta, também conhecido como ―Bellomontanus. Sua obra mais importante é Commentari ac Disputationes sobre a Summa Theologica de Tomás de Aquino.
[82] Samuel Rutherford, The Divine Right of Church Government and Excommunication (London: John Field, 1647), 138.
[83] A segunda metade do versículo 8, que começa com ― o lavar dos, não foi incluída nas edições críticas modernas do Novo Testamento grego (e.g., 3a. edição do Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas; 26a. edição do Novo Testamento Grego Nestle-Aland). A maioria das traduções modernas em inglês (ASV, RSV, NASB, NEB, JB, NIV) refletem a crítica textual moderna deixando fora a segunda metade do versículo 8 [Em português o mesmo ocorre com ARA, NVI e BLH]. A versão ampliada do versículo 8 encontra-se no Textus Receptus (ou Texto Recebido) e no Texto Majoritário (ou bizantino/texto tradicional). As versões KJV (Versão do Rei Tiago) e NKJV (Nova Versão do Rei Tiago) têm por base o Textus Receptus. Em síntese, as edições críticas do Novo Testamento grego (em que estão baseadas virtualmente todas as traduções modernas) dependem primariamente de uns poucos manuscritos mais antigos que foram descobertos principalmente entre o final do século XIX e começo do século XX (e.g., o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus). Os textos majoritários não são tão antigos quanto os utilizados nas edições críticas, mas são bem mais numerosos e são usados pela igreja de Cristo aproximadamente desde os primórdios do quinto século, no mínimo. O conhecimento erudito moderno dos textos majoritários (i.é, a arqueologia, a verificação de várias versões de papiros mais antigos, versões e citações dos primitivos pais da igreja [e.g., por exemplo, o polêmico texto final de Marcos foi aceito como canônico lá pelo segundo século d.C.]), sérios problemas com as pressuposições e metodologia dos primeiros mestres da crítica, como Wescott e Hort, e as grandes diferenças entre os manuscritos Vaticanus e Sinaiticus, fizeram muitos cristãos apontarem de volta o Texto Majoritário como superior ao texto da crítica moderna. Este autor considera que as versões da KJV e da NKJV para Marcos 7:8 refletem as verdadeiras palavras de Jesus. Entretanto, a aceitação do princípio regulador não depende da aceitação da versão do Texto Majoritário para Marcos 7:8.
[84] J. C. Ryle. Expository Thoughts on the Gospels: Mark (Wheaton, IL: Crossway Books, 1993), 101-102. Não obstante sejam verdadeiros seus comentários sobre Marcos, citados acima, Ryle (1816-1900) foi ministro anglicano e bispo (de Liverpool) e, portanto, não adotava o princípio regulador.
[85] Spurgeon. Matthew, 203.
[86] Zacarias Ursinus. Commentary on the Heidelberg Catechism (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, s.d. [de uma edição de 1852]), 518-519.
[87] John Eadie. Commentary on the Greek Text of the Epistle of Paul to the Colossians (Grand Rapids: Baker, 1979 [1884]), 199-200.
[88] Kevin Reed. Biblical Worship (Dallas: Presbyterian Heritage, 1995), 56.
[89] Thomas Watson. The Ten Commandments (Edinburgh: Banner of Truth, 1986 [1692]), 63.
[90] John Calvin. Commentary on the Epistle to the Colossians (Grand Rapids: Baker, 1981), 181.
[91] Michael Bushell. The Songs of Zion, 149, 151-152.

***
Autor: Brian Schwertley
Fonte: 
Sola Scriptura e o Princípio Regulador do culto, pág 76-89. Editora Os puritanos

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Hoje, a maior parte das vozes que criticam o sola scriptura aplicado no âmbito do culto (i.é, o princípio regulador) são os que se consideram como verdadeiramente reformados.[60]

Esses apologistas da decadência e da manutenção da situação dominante trazem alguns argumentos interessantes que pensam justificar o abandono generalizado do princípio regulador do culto em favor de uma concepção de culto luterana/episcopal. Com o intuito de aguçar a nossa compreensão quanto ao relacionamento do sola scriptura com o culto bíblico, iremos examinar e refutar tais argumentos.

1. O Argumento da “Falsa Compreensão da Ética e da Adiaforia”

O primeiro argumento utilizado contra o princípio regulador do culto baseia-se numa falsa compreensão do sentido e relacionamento do sola scriptura, do princípio regulador e da liberdade cristã ou adiaforia. Schlissel escreve:

Devem os cristãos comemorar a páscoa usando os tipos cerimoniais do Antigo Testamento?

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Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gálatas 1.6-9).

I – INTRODUÇÃO

Estamos no período comumente conhecido como “Semana Santa”, uma data promovida, a princípio, pelo Catolicismo Romano, mas que em virtude da “alma católica dos evangélicos brasileiros”[1], foi assimilada pelo evangelicalismo e até mesmo pelas denominações protestantes reformadas. Em 2010 postei aqui, no Cristão Reformado, o meu posicionamento e o que entendo ser a postura do presbiterianismo histórico em relação à Páscoa (aqui, aqui e aqui).

Apesar do meu posicionamento, convivo bem com irmãos amados que não possuem o mesmo entendimento que eu. Não brigo, não crio um clima beligerante com aqueles que desejam celebrar a Páscoa em suas igrejas, culminando com a celebração do chamado “culto da ressurreição” no domingo pela manhã. Não obstante, não consigo admitir que pastores, homens incumbidos de ensinar a Palavra de Deus em sua inteireza à igreja local entregue aos seus cuidados, levem as ovelhas do Senhor de volta às sombras veterotestamentárias, e que, para tentar justificar isso, apelem para decisões conciliares claramente discutíveis. Não consigo ficar calmo quando vejo igrejas desprezando o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário, por celebrarem o que chamam de Páscoa se reunindo no dia do Senhor, no domingo, para juntos comerem um cordeiro assado, pães sem fermento e ervas amargas (alface). E o mais aberrante é que, logo depois celebram a Ceia do Senhor, resultando assim, num sincretismo pernicioso.

II – “FUNDAMENTAÇÃO” DA PRÁTICA

Três justificativas são apresentadas:

1) Trata-se de uma simples lembrança da primeira páscoa, em Êxodo 12, quando os israelitas receberam o mandamento referente à instituição da Sêder, a páscoa veterotestamentária. Argumenta-se que é um simples memorial de um dos grandes eventos da História da Redenção, quando o Senhor, com mão poderosa, libertou o seu povo do jugo egípcio;
2) Os adeptos dessa prática dizem que, além de ser uma simples lembrança da primeira páscoa, o fato de a igreja se reunir para comer um cordeiro assado, pães sem fermento e alface se constitui numa simples encenação, ou seja, uma simples representação teatral da primeira páscoa. Diz-se que a igreja não está sendo ensinada a celebrar a Páscoa. Na verdade, a igreja está apenas apresentando uma peça; e
3) Há afirmação de que seja apenas um recurso didático, uma forma de ensino. Diz-se que a igreja não está sendo ensinada a celebrar a páscoa nos moldes veterotestamentários, mas está sendo ensinada, simplesmente acerca de como se deu a primeira páscoa, em Êxodo 12.

Gostaria de fazer alguns comentários pontuais a respeito das três justificativas apresentadas em favor daquilo que, escrituristicamente, é uma abominação:

1) Em Mateus 28.19-20, encontramos Jesus dizendo o seguinte aos seus doze discípulos: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”. Os discípulos deveriam fazer com que a Igreja praticasse tudo aquilo que foi ordenado pelo Senhor Jesus Cristo. Apenas isso! Encontramos alguma ordem de Jesus referente à observância da páscoa? Sim e não. Em Lucas 22.19, Jesus, estando reunido com os Doze, ordena o seguinte: “E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim”. Jesus não ordenou, em absoluto, que os seus discípulos organizassem um memorial ou uma lembrança da páscoa judaica. A partir daquele instante, os discípulos deveriam lembrar a sua morte através da celebração da Ceia do Senhor, o que é confirmado pelo apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 11.23-25: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim”. A razão para tal descontinuidade entre a celebração pascoalina veterotestamentária e a Ceia da Nova Aliança é apontada pelo mesmo apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 5.7: “Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado”. Jesus Cristo é o cumprimento da páscoa do Antigo Testamento. O Dr. John Sittema diz o seguinte a este respeito: “Jesus, um rabino do século 1º, celebrou a festa do modo como foi transmitida à sua geração, uma comemoração envolta em séculos de costumes. Honrou todos os requisitos de uma celebração pascal tradicional. Sua ‘Última Ceia’ foi, evidentemente, uma refeição Sêder. Porém, Jesus fez mais do que celebrar a Páscoa. Ele a encarnou”.[2] Interessantemente, apesar de a refeição de Jesus ter sido uma Sêder, ele não ordenou que os discípulos se reunissem para comer um cordeiro assado, porém, apenas pão e vinho. Nada mais que isso.

2) A afirmação de que se trata simplesmente de uma lembrança da primeira páscoa é falaciosa, visto que a primeira páscoa foi caracterizada por ser uma celebração familiar. Cada família deveria providenciar e imolar o seu próprio cordeiro. Cada família deveria se reunir em seu lar para comer o cordeiro, os pães asmos e as ervas amargas. Cada família deveria espalhar o sangue nos umbrais das portas e janelas de sua própria casa. É o que diz Êxodo 12.3-4: “Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família. Mas, se a família for pequena para um cordeiro, então, convidará ele o seu vizinho mais próximo, conforme o número das almas; conforme o que cada um puder comer, por aí calculareis quantos bastem para o cordeiro”. Reunir a igreja para comer cordeiro, pão e alface em nada lembra a primeira páscoa – a não ser nos alimentos oferecidos. Tal prática lembra, sim, a páscoa celebrada no tabernáculo e no templo, já na terra de Canaã, a partir de Deuteronômio 16.1-8, particularmente o versículo 2: “Então, sacrificarás como oferta de Páscoa ao SENHOR, teu Deus, do rebanho e do gado, no lugar que o SENHOR escolher para ali fazer habitar o seu nome”. Tal celebração era parte inextricável do que ficou conhecido como “lei cerimonial”. Sobre o caráter da primeira páscoa, as palavras do Dr. John Sittema são pertinentes: “Os participantes pertenciam ao círculo íntimo: tratava-se de uma celebração familiar e cada homem deveria escolher um cordeiro para a sua casa e só compartilhá-lo com o vizinho se sua família fosse pequena demais para consumir o cordeiro inteiro”.[3] Ele diz ainda que, a mudança para o tabernáculo e, posteriormente, para o templo “transformou a Páscoa na primeira das ‘festas peregrinação’ para as quais os israelitas deviam se deslocar até a casa do Senhor”.[4] O Pr. Moisés Bezerril, respeitado teólogo, afirma ainda que: “A Santa Ceia tem aspectos característicos da Nova Aliança. A páscoa era somente para Israel e alguns peregrinos estrangeiros que deveriam ser circuncidados para participarem daquele sacramento. Certamente que a páscoa era o sacramento familiar, daquela família com exclusividade, mas a santa ceia é o sacramento de todas as famílias juntas ao mesmo tempo”.[5] Isto posto, os adeptos da celebração pascoalina judaizante deveriam ser sinceros a respeito de seu apego às sombras do Antigo Testamento e do seu descaso para a com a viva realidade que é Jesus Cristo.

3) Ainda no que tange à afirmação de que reunir a igreja para comer cordeiro assado, pães sem fermento e alface é um simples memorial da primeira páscoa, podemos afirmar que, isso se constitui em um retorno ao cerimonialismo judaico, o qual deveria ser repetido todos os anos. Com a celebração da primeira páscoa, em Êxodo 12, foi estabelecida também a cerimônia anual da Pêsah: “Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao SENHOR; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (v. 14). Sobre isso, o comentário de L. S. Chafer é interessante: “Tão profunda foi esta redenção que de Israel era exigido que, em reconhecimento dela, fosse estabelecida a Páscoa por todas as gerações – não como uma renovação da redenção, mas como um memorial”.[6] Devemos compreender que, aqueles que estavam debaixo das sombras do Antigo Testamento é quem deveriam celebrar a primeira páscoa. Os israelitas tinham o dever de lembrar a libertação ocorrida naquela noite extraordinária. Então, como deve ser entendida a ação de reunir a igreja, no dia do Senhor, para relembrar a primeira páscoa? Não seria essa uma prática judaizante? E não foi justamente contra esse tipo de prática que o apóstolo Paulo lançou os seus anátemas (Gálatas 1.8-9)?

4) Dizer que reunir a igreja, no domingo, para comer cordeiro assado, pães asmos e alface se trata, apenas de uma simples e inofensiva encenação e que a igreja não está sendo ensinada a celebrar a páscoa judaica é um argumento extremamente débil e falacioso. Quando alguém argumenta dessa maneira, a intenção é descaracterizar o cerimonialismo inerente ao ritual judaico e, assim, não ser acusado de fazer de tal ritual um ato de culto. Apesar desse esforço, tal tentativa é ineficaz, pois essa “encenação”, quando repetida ano após ano, adquire, sim, um caráter ritualístico e cerimonial. Essa “encenação”, quando repetida ano após ano, acaba por se constituir em uma tradição vista como correta e, daí por diante, como legítima expressão cúltica. À medida que a “Semana Santa” se aproxima, os membros da igreja criam uma grande expectativa a respeito do cordeiro que será comido pela igreja reunida no domingo. Com isso, estabelece-se um perigoso e maléfico misticismo no seio da igreja. Além disso, se é necessário que exista alguma encenação acerca do sofrimento do Redentor, creio que a Ceia do Senhor é a melhor e mais apropriada encenação pascal (1 Coríntios 5.7). Sendo assim, quando um pastor “encena” ano após ano a páscoa judaica, reunindo a igreja sob seus auspícios para comer um cordeiro assado e os demais alimentos, ele está, sim, ensinando a sua igreja a fazer aquilo. Ele está fazendo com que a sua igreja se devote às sombras cerimoniais. Sem saber, ele faz com que sua igreja despreze o sacrifício perfeito de nosso Senhor Jesus Cristo.

5) Sobre o argumento de que se trata apenas de um recurso didático, o mesmo nada mais é do que uma tentativa de eufemizar a prática, pois a execução da mesma mostra que se trata, sim, de um ritual. Quando isso acontece, é comum vermos os presbíteros postados à mesa, os membros da igreja em fila no corredor central da nave, prontos e ávidos por receberem uma porção da carne do cordeiro, do pão sem fermento e da hortaliça. Além disso, o pastor está no púlpito, dando a palavra de ordem para que os membros se dirijam até à mesa. Pra tornar o caso ainda mais sério, logo após celebra-se a Ceia do Senhor, na mesma mesa onde o cordeiro foi servido à congregação, e no mesmo serviço litúrgico. Creio que, se a intenção fosse simplesmente a de ensinar à igreja como se processou a primeira páscoa de Êxodo 12, uma ocasião excelente seria a realização de um almoço logo após à Escola Dominical.

O que pode ser percebido nos argumentos apresentados em favor da prática abominável de celebrar a páscoa nos moldes veterotestamentários, é que os mesmos carecem de fundamentação escriturística. Não é apresentada sequer uma passagem que justifique a inserção do cerimonialismo judaico em um culto segundo os princípios da Nova Aliança. Quando muito, apresenta-se uma resolução conciliar que, numa leitura distorcida, apóia a prática.

III – SOBRE O APEGO AOS TIPOS E O DESPREZO PELO ANTÍTIPO

Etimologicamente, a palavra grega tipos “significa uma estampa que pode servir como um molde ou padrão, e que é típica no Antigo Testamento como um molde ou padrão do que é antitípico no Novo Testamento”.[7] Um tipo pode ser definido como: “um modelo ou exemplo que antecipa ou precede uma realização última”.[8] Nesse sentido, pessoas, lugares, coisas, rituais, fatos e animais podem aparecer nas Sagradas Escrituras como tipos. O Dr. Heber Carlos de Campos define “tipo” da seguinte maneira: “Um tipo diz respeito a uma pessoa, a uma ação, a um evento, a uma cerimônia, etc., mencionado no Antigo Testamento, que prefigura um Antítipo da mesma natureza no Novo Testamento”.[9] O scholar Louis Berkhof afirma que, “a ideia fundamental [do tipo] é a da ‘relação representativa preordenada que certas pessoas, eventos, e instituições do Antigo Testamento têm com pessoas, eventos, e instituições correspondentes do Novo’”.[10] Chafer diz que, “um tipo é uma descrição estruturada que retrata o seu antítipo. Ele é a própria ilustração que Deus dá de sua verdade desenhada por sua própria mão”.[11]

Assim, objetos como a arca que livrou Noé e seus familiares do dilúvio, a serpente de bronze, o tabernáculo e o templo são claramente tipológicos. Eles funcionam nas Sagradas Escrituras como tipos de Jesus Cristo, aquele que livrou o povo de Deus do derramamento de Sua ira, que pendurado no madeiro trouxe salvação àqueles que olham com confiança para Ele e que é a perfeita habitação de Deus entre o seu povo. Homens como Abraão, José, Moisés, Josué também serviram como tipos de Jesus, por retratarem aspectos da obra que seria realizada e consumada futuramente por Jesus Cristo, em sua encarnação e ministério terreno.

Claramente, o cordeiro pascal de Êxodo 12 é um tipo de Jesus Cristo. Na verdade, todos os sacrifícios realizados durante a administração pactual do Antigo Testamento apontavam, prefiguravam o sacrifício perfeito de nosso Senhor Jesus. O Dr. Gerard van Groningen afirma que, “o relato sobre o cordeiro pascal em Êx 12.3-11 é o ponto de partida para todas as outras referências a esse cordeiro”.[12] Esse cordeiro pascal era um tipo do Cordeiro que seria revelado plenamente no Novo Testamento. Ele era um tipo de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus: “No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1.29). Em Atos dos Apóstolos 8.32, somos informados de que, “a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca”. Filipe disse ao Eunuco etíope que, a passagem de Isaías 53.7-8 estava falando a respeito de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus. O fator central relativo ao cordeiro de Êxodo 12 é o sangue marcado nos umbrais das portas dos israelitas:

O sangue foi o meio que Yahweh empregou para poupar os primogênitos de Israel. O cordeiro, para que seu sangue fosse útil, tinha de morrer. Assim, o cordeiro tornou-se um substituto para todos os primogênitos em Israel. Sem que o sangue do cordeiro fosse derramado, recolhido e aplicado, não haveria nenhuma libertação, nenhuma redenção para o povo escolhido de Yahweh. O sangue do cordeiro usado no tempo do êxodo apontava, como um tipo, para o sangue de Cristo derramado, sem o qual não há redenção do cativeiro do pecado (Hb 9.22). O sangue do cordeiro funcionava redentivamente e, portanto, tem um significado messiânico definido.[13]

Algo que não deve ser esquecido a respeito dos tipos, é que, por natureza, eles são imperfeitos, isto é, “o Antítipo é superior e maior em significado do que Tipo”.[14] A imperfeição dos tipos é claramente afirmada em Hebreus 9.9-11: “É isto uma parábola para a época presente; e, segundo esta, se oferecem tanto dons como sacrifícios, embora estes, no tocante à consciência, sejam ineficazes para aperfeiçoar aquele que presta culto, os quais não passam de ordenanças da carne, baseadas somente em comidas, e bebidas, e diversas abluções, impostas até ao tempo oportuno de reforma. Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação”. No Antigo Testamento, os cordeiros oferecidos eram imperfeitos no sentido de não serem, em si mesmos, a razão pela qual Deus perdoava os pecados do povo. O perdão concedido tinha por base o sangue derramado do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Apenas o seu sangue é eficaz para a remissão dos pecados do povo de Deus. A morte do cordeiro pascal de Êxodo 12, em si mesma, era ineficaz.

Dado o caráter imperfeito dos tipos e o caráter perfeito do Antítipo, é pertinente a observação do Dr. Heber Carlos de Campos: “A revelação é progressiva porque ela parte do imperfeito para o perfeito. Por essa razão, quando o Cordeiro veio, não mais precisamos de outros cordeiros. Quando o antítipo chega, os tipos cessam. Quando perfeito chega, o imperfeito desaparece”.[15] Hebreus 10.1-4 afirma de forma inequívoca a imperfeição dos sacrifícios veterotestamentários:

Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem. Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados? Entretanto, nesses sacrifícios faz-se recordação de pecados todos os anos, porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados.

Já o versículo 12 assevera a perfeição inerente ao sacrifício de Jesus Cristo na cruz do Calvário: “Jesus, porém, tendo oferecido,para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus”.

Com a vinda de Jesus Cristo, seu sofrimento e morte na cruz, os tipos cessaram. As sombras cerimoniais e sacrificiais do Antigo Testamento foram banidas com a obra expiatória de Jesus. Depois da chegada da realidade, Cristo, as sombras tipológicas cessaram, perderam a sua razão de ser, de maneira que, os cristãos devem se alegrar pela realidade de Cristo Jesus, e não devem, de forma alguma, retornar às sombras veterotestamentárias. Os crentes, hoje, desfrutam de uma bênção maravilhosa que é poder relembrar a morte substitutiva de Jesus na Ceia instituída pelo próprio Cordeiro de Deus. Por conseguinte, inserir no culto o que é chamado de “rememoração da primeira páscoa” é inserir um elemento estranho à realidade da Nova Aliança e uma abominação aos olhos da tradição apostólica legada pelo apóstolo Paulo: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gálatas 1.8-9).

Já disse em outra ocasião: NOSSA PÁSCOA É A CEIA DO SENHOR! Trata-se de uma grande abominação, um culto sincrético, colocar no mesmo culto uma “lembrança” da páscoa cerimonial veterotestamentária e a Ceia do Senhor. É necessário que haja arrependimento, pois maldito é aquele que ensina outro evangelho que não aquele recebido por Paulo do próprio Senhor Jesus Cristo.

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Notas:
[1] Esta frase é o título de um artigo escrito pelo Dr. Augustus Nicodemus Lopes. Ele identifica cinco características dessa alma católica: 1) o gosto por bispos e apóstolos; 2) a ideia que pastores são mediadores entre Deus e os homens; 3) o misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados; 4) a separação entre sagrado e profano; e 5) somente pecados sexuais são realmente graves. Disponível em http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/11/alma-catlica-dos-evanglicos-no-brasil.html. Particularmente, creio que o apego às festividades do calendário litúrgico da Igreja de Roma seja a sexta característica.
[2] John Sittema. Encontrei Jesus numa Festa de Israel: Os Festivais do Antigo Testamento à Luz do Evangelho de Jesus Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 37.
[3] Ibid. p. 33.
[4] Ibid. p. 34.
[5] Moisés C. Bezerril. Sacramentos e Clericalismo. Artigo disponível em: http://www.monergismo.com/textos/sacramentos/sacramentos_moises_bezerril.htm. Acessado em 21 Abr 2011.
[6] Lewis Sperry Chafer. Teologia Sistemática. Volume 1 & 2. São Paulo: Hagnos, 2008. p.
[7] Lewis Sperry Chafer. Teologia Sistemática. Volume 1 & 2. São Paulo: Hagnos, 2008. p. 27.
[8] Louw-Nida Greek Lexicon (58.63) in BIBLEWORKS 7.0. Minha tradução.
[9] Heber Carlos de Campos. Teologia da Revelação. Apostila do curso de TST 301 – Teologia da Revelação. São Paulo: Andrew Jumper, 2011. p. 90.
[10] Louis Berkhof. Princípios de Interpretação Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 142.
[11] Lewis Sperry Chafer. Teologia Sistemática. Volume 1 & 2. p. 72.
[12] Gerard van Groningen. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 214.
[13] Ibid. p. 216.
[14] Heber Carlos de Campos. Teologia da Revelação. p. 91.
[15] Ibid. p. 94.

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Fonte: Cristão Reformado
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