Parabéns, ignorante! Uma resposta a Gregório Duvivier

image from google

Parabéns, ignorante!

Gregório Duvivier, quero lhe agradecer por deixar tantas coisas claras, tanto sobre o comunismo, quanto sobre sua pessoa e sobre nosso país. Obrigado por mostrar que o comunismo gera pobreza, gosta de drogas e se alegra em livrar a cara de bandidos. Obrigado por mostrar que só no Brasil um jornal de grande circulação dá espaço para alguém que não tem ideia do que fala escrever um artigo banalizando a fé dos outros. Obrigado por mostrar que órgãos públicos como a Defensoria Pública de São Paulo e o Ministério Público do Trabalho de São Paulo, nada mais são do que aparelhos de promoção da agenda esquerdista e LGBT, pois nada fazem contra atitudes como a sua, mas fazem contra um empresário, que manifesta sua opinião com um livreto simples, que reflete a fé cristã milenar.

Mas vamos a sua analogia tola...

Você fala que Jesus não gosta de riqueza, porque disse a um rapaz cheio de si dar tudo o que tem. Ficou concentrado na discussão da tradução e não atentou para o contexto. Não é só para o rico que é difícil entrar no Reino dos céus, para todo homem é impossível – bastava você ter continuado a leitura e perceber que o problema não é a riqueza, mas como aquele jovem lidava com ela. Se lesse mais a Bíblia, descobriria que Jesus não fez o mesmo tipo de exigência a Zaqueu, cobrador de impostos rico, que convertido, simplesmente devolveu o que pegou a mais. Ele não fez voto de pobreza, apenas reparou o dano causado.

Se lesse mais a Bíblia, também saberia que Jesus não andou descalço. Sim, ele era simples e não se dedicava à riqueza, terras, exércitos e tudo mais, pois seu Reino não é deste mundo. Isso significa que, seu reino não se fundamenta nas coisas que este mundo vê como necessárias para que se haja um reino. O Reino de Deus não é de pobreza, mas de uma riqueza que não se estabelece na matéria. Para tanto, dinheiro não é um problema, ou algo a ser evitado, mas a ser dedicado corretamente a serviço de Deus. A tensão não é ter dinheiro ou não, mas ter Deus como fundamento de sua segurança e satisfação. Ou sua satisfação está em Deus, ou é um idólatra. Ou você ama a Deus, ou às riquezas. Comunas amam tanto as riquezas, que não suportam ver aqueles que a têm, sempre entendendo que roubaram dos outros – talvez porque seja assim que comunas ficam ricos (não comunas também fazem, mas comunas ricos são puro estelionato): enganando, desviando, roubando e etc.

Quando ele entra no templo, ele não age como um black block. Estes destroem o que não lhes pertence e desvirtuam manifestações legítimas e pacíficas. Jesus estava em sua casa e expulsava aqueles que a destruíam, ou seja, ele queria preservar e não destruir. E mais, para sua informação, já que seu desconhecimento de algo que tanto fala é assombroso, o templo era de Herodes e não o templo de Salomão. Este fora destruído séculos antes, na ocupação babilônica. Isso afasta Jesus da figura nefasta e criminosa de Maringhella.

Entenda: Jesus andava cercado de gente necessitada. Não eram pobres, mas necessitados de toda forma. Ele curava, aconselhava e falava a verdade, mas não era conivente com seus pecados. Além de abençoá-las com cura e perdão, deixava claro que não deveriam pecar mais. Ele tanto odiava o que essas pessoas faziam, que entregou sua vida para pagar por essas coisas. Você está me dizendo que comunista quer ir pra cadeia no lugar do ladrão? Você está me dizendo que comunista quer tomar o lugar do necessitado? Com certeza não. Comunista não toma o lugar de ninguém, toma o que a pessoa construiu e finge distribuir, deixando todos na miséria e uns poucos muito bem. 

Sua graça em atender as pessoas sem nada cobrar vem de sua posição. Como Deus que é, Jesus não tem nada a receber dos necessitados. Não há nada que leprosos, cobradores de impostos e prostitutas poderiam dar a Jesus – nem mesmo reis e imperadores. Ele, em um conceito que comunista conhece pouco, deu de graça. Comunista não dá nada de graça, toma de todos e dá a quem bem entende. Não há mais médicos nisso, pois todos morrem de fome no comunismo. Jesus não encaminhou ninguém a outros além de si mesmo. Comunista, encaminha todos para longe de si, pois gostam apenas de alardear igualitarismos, mas só o fazem com o que pertence aos outros. 

Ao transformar água em vinho, fez o que o Salmo 104.15 já reconhecia. Neste salmo, Deus é louvado como o provedor de todas as coisas, desde as mais necessárias, até as que dão prazer ao homem. Deus não é contra festas, pelo contrário, as ordenou no pentateuco. Jesus entregou algo para dar prazer àqueles convidados, não para lhes tirar o juízo e fazê-los entregarem-se a viagens – é só ler a história toda, para notar que eles perceberam a diferença entre os vinhos, coisa que bêbado algum conseguiria distinguir. Já comunas, não distinguem a mão direita da esquerda. Vivem numa viagem utópica, que não são capazes de aplicar em suas próprias vidas – a não ser no discurso.

O resumo de seu desconhecimento é a prova de que o Brasil deve rejeitar novamente a esquerda: gostam de causar problemas, drogas, quebrar coisas, bandidagem, distorções e preconceitos. 

***
Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Divulgação: Bereianos
.

Os termos não vêm dos termos

image from google

Vern Poythress escreveu um livro sobre a validade da multiplicidade de perspectivas – é o must! De forma sucinta ele lida com questões da linguagem e demonstra como esta revela que há uma perspectiva, tendo em vista que os termos são utilizados pelo que os utiliza a partir de seu entendimento ou arcabouço de significado. Segundo ele, há uma grande dificuldade na definição de termos, pois, em regra, eles não têm apenas um significado e, na teologia, a dificuldade vem do fato de que nenhum termo da sistemática equivale ao termo bíblico.[1] 

O fato é que os termos são utilizados de modo elástico nas Escrituras e de modo estrito na Sistemática. A Bíblia estabelece o sentido do termo pelo contexto, a Sistemática tem o objetivo de reproduzir um grande conteúdo com um termo. A coisa piora, ao meu ver, quando tentamos abarcar a terminologia extrabíblica, querendo enxergar conceitos e pressupostos na Escritura, advindos da filosofia, psicologia, história, sociologia e por ai vai.

Um belo exemplo disto é a liberdade. Liberdade ligada a arbítrio tem, para alguns, o sentido mais pleno da palavra nos conceitos filosóficos e históricos. É aquele atributo de algo que é livre de influências, com a possibilidade de ir a qualquer direção, sem qualquer pré-arranjo. Seria algo totalmente definido pelo ente que a possui, sem “externalidades”.

Bom, quando vejo esse tipo de proposição penso: - “cadê Deus?” Mesmo Nietsche reconhecia que, se Deus existe, tudo muda. Nesse sentido, o que muda em nossos termos, se considerarmos que estamos numa realidade criada? O que será da liberdade, amor, responsabilidade, graça, paz e tudo mais, no caso de Deus existir?

A existência de Deus nos dá um pressuposto único para nossas definições. Partimos de que tudo que vivemos é criado. Todo e qualquer termo, seja uma representação de aspectos concretos ou abstratos da vida, devem ser definidos a partir desta premissa. Sendo assim, olhemos novamente para a liberdade, agora, com a ajuda de Jesus.

Em João 8.32 nosso Redentor arrumou um problemão com os judeus. Mesmo sob o domínio dos romanos, os judeus se viam livres, afinal, eram filhos de Abraão. A verdade é que eles eram tão prisioneiros que não sabiam a verdade sobre si e sobre o discurso de Cristo. Jesus não estava falando de cadeias e de liberdades civis, mas sobre nossa natureza. Sua resposta à indagação dos judeus apontou o problema do entendimento do termo: “Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado.” (Jo 8.34)

Se conhecer a verdade liberta, a conexão correta não é entre os termos liberdade e possibilidade, mas entre os significados de conhecer, verdade e liberdade. Justamente esse foi o ponto de Poythress: qual a perspectiva do escritor, locutor, narrador, enfim? No caso, como é possível ver em João 14.6, a perspectiva do Mestre sobre a verdade é que ele é a verdade. Ainda, sob a perspectiva bíblica, evidenciada por Jesus em Mateus 7.23, conhecer infere relacionamento. Portanto, o conhecimento da verdade é um relacionamento com Cristo. Se há relacionamento com o Filho, você tem a verdade e ela lhe liberta. John Frame elucida mais o assunto:

…todas as coisas estão sob o controle de Deus, e, como veremos, todo conhecimento é um reconhecimento das normas divinas para a verdade; é um reconhecimento da autoridade de Deus. Daí, conhecer alguma coisa, qualquer coisa, é conhecer Deus.[2]

Daí, liberdade não está ligada a possibilidades, mas a estado. É seu estado em relação a Deus que lhe define como livre ou não. 

Para entendermos melhor, voltemos ao pressuposto de que somos criados. Salmo 19 demonstra que a criação existe para revelar seu criador; é uma voz silenciosa e presente em todo canto. A forma como fomos criados, à imagem de Deus, aponta para o fato de que nossa existência não foge a esse propósito. Sendo assim, nossos atributos ou capacidades não existem como uma expressão de nós, mas como uma expressão da forma como Deus nos criou. Portanto, nossa vontade estará sendo plena em existência e capacidade, quando for inclinada para Deus.

O ponto é que o conceito de liberdade em geral está mais ligado à “Liberté, Egalité, Fraternité”, do que a Deus. O sonho de autonomia ou é um levante revolucionário contra o opressor, ou é um coringa lançado para resolver a relação do Criador com a criatura – neste caso, afastando o Criador de sua criação, um deísmo ocasional. O problema é que esta autonomia não tem respaldo bíblico, mesmo que se queira citar aqueles textos que descrevem escolhas humanas.[3]

De fato, nunca se afirmou que as escolhas não existem - essa discussão nunca esteve em pauta nas Escrituras. O ponto é o que torna as escolhas possíveis; como elas se relacionam com a soberania de Deus; o que é uma escolha verdadeira e o que mais vier nessa linha. Conforme Jesus expõe no texto de João 8, nossa liberdade de fazer escolhas está ligada à nossa relação com Deus e não numa relação nossa com as possibilidades. Como bem explicou Matt Pierman:

As muitas passagens na Bíblia onde nos é dito escolher certas coisas não interessam a esse assunto, por elas não dizerem como é que nós fazemos as escolhas que fazemos. Tudo o que eles dizem é que fazemos escolhas. Com isso, predestinação concorda. Mas os textos não dizem que nós temos autodeterminação. Eles não lidam com o assunto de se Deus é ou não a causa última atrás de nossas escolhas. Para esse assunto, nós devemos nos voltar para outros textos das Escrituras, que nós vimos que claramente ensinam o controle de Deus sobre todas as coisas. Assim, nós devemos concluir que humanos fazem, realmente, genuínas escolhas. Mas Deus é a causa última que determina o que nós iremos escolher.[4]

A existência criada nos dá um conceito de liberdade que se fundamenta numa existência dependente de um criador. Portanto, nossa liberdade foi definida por Cristo como sendo algo próprio da existência plena de um ser humano: quando está em comunhão com seu criador. O inverso, ser escravo, prisioneiro, não foi descrito como impossibilidade de escolha, mas estar debaixo do pecado, afastado do Criador.  

Em Efésios 2, Paulo parece ir na mesma linha, ao tratar das inclinações humanas. O morto, alguém incapacitado, é descrito como sendo de natureza ímpia, inclinada para a carne, isso é, pecado, andando segundo o curso do mundo e Satanás. Depois, o apóstolo descreve aquele que poderá andar nas boas obras preparadas de antemão como sendo alguém vivo, ativo, crente, ou seja, com as inclinações para Deus. Isso significa que, a questão da liberdade não se trata de uma possibilidade, mas de estado.

De um lado, quanto mais autonomia, mais liberdade. Do outro, quanto mais comunhão, mais liberdade. Poderíamos acrescentar, seguindo João 8, conceitos e entender que: quanto mais relacionamento com Cristo, quanto maior conhecimento de sua revelação, quanto mais verdade, mais liberdade.

Resumindo: os termos não vêm dos termos, mas de Deus. As definições bíblicas são teoreferentes e não mutuamente referentes, portanto, nossas definições deveriam seguir nesta direção. A dificuldade reside em possuirmos uma perspectiva não bíblica da linguagem e lermos as Escrituras a partir desta perspectiva. Buscando uma adaptação em nossa linguagem, então, aqueles que pensam em termos de autonomia e possibilidades deveriam olhar para os termos bíblicos prisão, escravidão, morto – e similares –, como seus sinônimos.

Diante disto, faço a pergunta: você quer ser livre? Creio que não mais da mesma forma. Isso nos lembra a pensarmos melhor os termos e a procurarmos melhor os pressupostos de nossa linguagem. 

_____________________
Notas:
[1] POYTHRESS, Vern. Teologia Sinfônica. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 92.
[2] FRAME, John. A doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 34. O DITNT, São Paulo: Vida Nova, 2000, pp. 397-399, aponta para um ganho de significado na comunicação entre cristãos judeus que escreveram os textos neotestamentários com os gentios convertidos, porém, reconhece a perspectiva veterotestamentária do termo gnosko, apontando para uma ordem de conhecimento que infere ligação, intimidade, sexualidade, pessoalidade, relacionamento.
[3] Poythress ressaltou que “Os perigos também existem porque algumas perspectivas trazem consigo pressupostos anticristãos que passam a condicionar toda a investigação posterior.” Op. cit., p. 14.
[4] PEARMAN, Matt. A consistência da soberania e da responsabilidade humana. Arquivo eletrônico. Tradução livre.1

***
Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Fonte: Alegria Indizível
.

Deus, por meio de Sua presciência, já sabia que o homem pecaria?

.


Neste vídeo o Rev. Ricardo Moura responde a seguinte pergunta: Deus, por meio de Sua presciência, já sabia que o homem pecaria? Assista:



Para ver o debate na íntegra, clique aqui!
***
Autor: Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho
Fonte: Vídeo extraído do debate no programa Vejam Só, no dia 28/08/2015, entre o Rev. Ricardo Moura Lopes Coelho e o Bp. José Ildo Mello, sob o tema: O que a Bíblia quer ensinar quando afirma que o cordeiro foi morto desde a fundação do mundo? (Ap. 13.8)
.

O exclusivismo de João 3:16

.

Por Rev. Ricardo Moura 


Me impressiona a soberania de Cristo demonstrada no evangelho de João. É um espetáculo o absurdo que se faz com João 3.16, tornando o texto inclusivista, enquanto, de fato, ele é exclusivista. 

Nicodemos estava indo ter com Jesus, de noite, para não ser visto. Chega cheio de elogios e Jesus já manda logo a real, para mostrar que ele não entendia nada: "Tem de nascer de novo!". Nicodemos fica bolado e pede maiores esclarecimentos. Jesus lhe acode: "Quem não nascer da água e do Espírito NÃO PODE ENTRAR NO REINO DE DEUS". Bom a água é uma referência ao batismo; era um puxão de orelha, mencionando o símbolo visível de fé, mas visibilidade era tudo que Nicodemos não queria. Isso é óbvio, pois o Reino é do Espírito e quem é da carne (não regenerado, caído, pecado) não faz parte deste Reino. Por ser isso óbvio é que o Senhor falou ao pobre Nicós: "Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo." Mas, para não deixar brecha, Jesus afirma: "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito." - penso que Jesus usou a palavra vento como sinônimo de Espírito, pois no hebraico vento e espírito são a mesma palavra; trata-se de um hebraísmo. Isso significa que o que nasce do Espírito nasce da vontade desse "vento" soprar sobre ele. Não adiantava a Nicodemos ir com as próprias pernas, pois, ao fazer isso, só o pode fazer à noite, pois não tinha nada além de admiração por Cristo. Ele queria que suas obras ficassem escondidas, mas os do Espírito amam a luz e fazem tudo de dia, para que seja vista sua fé (vv.18-21). Por isso, ele não entendia nada do que Jesus falava, mesmo sendo mestre em Israel - ele não era do Espírito. Os do Espírito são como o povo no deserto que olhavam para a serpente e lembravam de seus pecados de rebeldia e que esta trouxe morte pelas cobras venenosas, enviadas por Deus (Nm 21). Quando olhamos para a cruz, lembramos de nossos pecados e que Cristo foi erguido por causa deles. Quem crê nele não apenas curado do veneno de serpentes, mas tem a vida eterna (aqui mostra-se a superioridade do arquétipo sobre o tipo: a serpente de Nm 21 salva só do veneno, a fé na Palavra de Deus é que ajudava no resto). 

Então, Cristo fecha a porta de vez a Nicodemos: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (v.16). Perceba a maneira como Deus ama o mundo: dando seu Filho, de modo que o que crê possa viver, caso contrário, sem a justiça da cruz, não haveria salvação. Então, Cristo prossegue mostrando a Nicodemos que sem fé não adianta ir até ele que não tem salvação, mas condenação. Mas não podemos esquecer que o "vento" sopra onde quer, não onde o nascido do Espírito quer. Portanto, crer não é da vontade do homem, da carne, mas de Deus (1.13).

Desta forma, mundo não tem a ver com especificidade do amor de Deus, mas com a amplitude deste amor. Mundo é o fato de que Deus tem eleitos, crentes, pessoas a quem o "vento" vai de todos os povos, línguas e nações, segundo sua própria vontade. Vento este que não soprou sobre Nicós.

Nicodemos, se o Pai não o deu a Jesus, não adianta ir até ele. Mas não pense que foi só contigo, o jovem rico, cheio de justiça própria, também foi falar com Jesus sem saber bem diante de quem estava.

***
Via: Facebook
.

A reforma protestante e sua importância para a juventude





A Reforma Protestante foi um passo decisivo para a sociedade ocidental. Seu alcance não se restringiu ao aspecto eclesiásticos. Nas mais diversas áreas da existência humana, podemos ver sua influência, devido à liberdade de pensamento e expressão que ela garantiu ao enfrentar o domínio católico da produção intelectual da humanidade. Certamente, os jovens têm muito que aprender com esse movimento tão decisivo para a humanidade, iniciado por um jovem monge agostiniano.

A Reforma iniciou-se no dia 31 de outubro de 1517. Martinho Lutero cuidava da igreja do Castelo de Wittemberg, Alemanha, enviado para lá pelo seu mentor, este do convento em que estudava. O intuito era ajudar o jovem Lutero a resolver suas dúvidas de fé. No tempo que se seguiu à sua chegada a Wittemberg, o jovem monge dedicou-se ao estudo e à leitura da Bíblia. Focado em Romanos, Martinho Lutero chegou à conclusão que a prática da Igreja Católica estava errada e que uma reforma era necessária.

No dia mencionado, Lutero pregou suas famosas 95 teses, que ia de encontro à autoridade papal, a cobrança de indulgências e a salvação pelas obras. Diferentemente do que parece, isso não trouxe uma reação imediata. Wittemberg até hoje é uma cidade pequena e as teses foram escritas em Latim, numa época em que poucos sabiam ler, ainda mais em Latim. Demoraram alguns meses para que tudo chegasse ao conhecimento do alto clero católico, mas quando isso se concretizou, a reação foi rápida e severa.

Nos dias que se seguiram, Martinho foi interrogado, ameaçado e desafiado. Suas obras foram proibidas, queimadas e execradas pela "autoridade espiritual' da época. Não fora o apoio de poderosos que se convenceram que Lutero estava certo, sua morte seria uma questão de dias. Ainda assim, a ação deste homem de Deus e daqueles que o seguiram muito tem nos dizer. Devemos olhar para a Reforma buscando algo além da teologia, da doutrina, da hermenêutica e outros aspectos importantes do estudo da Bíblia. Ela nos ensina sobre atitudes importantes quanto ao nosso relacionamento com Deus. 

Primeiro, a Reforma nos fala sobre fidelidade a Deus e à sua Palavra. Com uma igreja completamente desviada da verdade das Escrituras, Martinho, certamente, teve a graça de Deus ao seu lado para ter uma visão completamente diferente da dominante na Igreja Romana. Atualmente, o desvio das Escrituras pode ser visto por todos os lados, em diversas denominações cristãs. Assim como a Igreja Católica, elas se cercam de misticismos e ritos estranhos, porém, que impressionam e causam admiração. Por isso, é de extrema importância que o jovem, sempre à procura de novidades, não se deixe levar por emoções e pelo visual das coisas, buscando sempre adequar-se ao que a Palavra de Deus nos ensina e vivendo pela graça.

Em segundo lugar, a Reforma nos ensina sobre a coragem em defender a verdade. Nos tempos de Lutero, o herege era morto. Aqueles que discordavam do alto clero eram considerados traidores de Deus. Nosso reformador não se deixou levar pela intimidação e foi fiel à sua consciência, cativa à Palavra de Deus. Em certa ocasião, na chamada Dieta de Worms, proclamada pelo Imperador Carlos V, Lutero foi intimado para confirmar ou negar seus ensinos. Sua resposta foi um brado pelo que hoje denominamos liberdade de expressão:

"Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão, porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável."

Será que teríamos essa coragem? Em nossos dias, somos desafiados a defender a verdade. Infelizmente, muitos são os covardes que, por medo da desaprovação dos amigos, ou por simples pressão no local de trabalho, na faculdade, ou mesmo na família, sede a ideias contrárias às Escrituras. Pior ainda, não são poucos que sucumbem totalmente e negam as verdades bíblicas só para fugir da possibilidade de ficar isolado. Enquanto pré-reformadores com John Huss, ou reformadores como Lutero agiram com coragem, como você tem reagido às pressões do dia a dia?

Em último lugar, gostaria de olhar para dependência epistêmica desses homens. Essas palavras parece difícil, mas ela se refere a uma coisa bem simples: conhecimento. Homens como Lutero, Calvino, Huss, Wyclif, Martin Bucer foram totalmente submissos às Escrituras. Por mais que haja diferença entre os pensamentos destes teólogos, resultado das incertezas e debilidades humanas, todos eram submissos à Bíblia. Se no tempo desses homens foi um fator decisivo serem dependentes de Deus para se alcançar conhecimento verdadeiro, hoje, com os avanço e com a relativização da verdade, é salutar que o jovem, servo do Senhor Jesus, sinta-se dependente de Deus para alcançar tal conhecimento. Por mais convincentes que algumas descobertas pareçam ser, mesmo aquelas que contradizem diretamente a Bíblia, precisamos confiar que a Palavra de Deus é a revelação infalível do Criador. Basta lembramos que a ciência  vive em idas e vindas em suas descobertas, tendo suas principais postulações cheias de furos e contradições. Por sua vez, a Bíblia é a mesma desde os tempos antigos, mostrando que devemos tê-la como óculos pelos quais enxergaremos o mundo. 

Fidelidade, coragem e dependência: um legado invejável e honroso. Somos jovens protestantes que têm muita história para contar e raízes profundas com as quais firmamos nossos passos. Nesses [496] anos de Reforma protestante, lembre-se que não só tivemos nossas doutrinas definidas, mas que temos desafios grandiosos a fim de nos relacionarmos com Deus e sermos testemunhas de sua verdade. Termino com as palavras de João Calvino:

"Para que nossa fé repouse verdeira e firmemente em Deus, devemos levar em consideração, ao mesmo tempo, estas duas partes de seu caráter - seu imensurável poder, pelo qual ele pode manter o mundo inteiro sob seus pés; e seu amor paternal, o qual manisfestou em sua Palavra. Quando estas duas coisas vão juntas, não há nada que possa impedir nossa fé de desafiar todos os inimigos que porventura se ergam contra nós, nem devemos ter dúvidas de que Deus nos socorrerá, uma vez que já nos prometeu fazê-lo" (João Calvino: Edições Paracletos, 1999, p.335,336). 

***
Autor: Rev. Ricardo Moura
Fonte: Revista Mocidade Presbiteriana, Nº 38 - 4º Trimestre 2011, p. 17-18
.