O exegeta da reforma e seu zelo pelas Escrituras Sagradas

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João Calvino ainda é um personagem na história do cristianismo muito mal interpretado. Por muito, João Calvino tem caído no tão famigerado método interpretativo que classifico como “Histórico Auditivo”, é aquele que a pessoa interpreta um personagem a partir do que se fala dele, mas nunca do que o próprio personagem deixou registrado. Calvino, além de seus comentários Bíblicos, nos deixou outras obras que são de suma importância para quem quiser lhe compreender – Assim são suas cartas, seus sermões e As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, esta última figurando como sua obra magna. Além disso, Calvino confeccionou um vasto material litúrgico, por exemplo, um manual de culto que publicou entre o final de 1539 e início de 1540, completo em língua francesa e contendo diversos salmos e versos acompanhados de suas respectivas melodias para o canto congregacional.

Posteriormente, em meados de 1536 – 1537, Calvino elabora uma espécie de Catecismo que posteriormente receberia o nome de “Instrução e Confissão de Fé, Segundo o Uso da Igreja de Genebra”. Segundo muitos estudiosos do pensamento calvinista, essa obra possuía um caráter mais didático em relação a outros catecismos, pois a mesma não era composta de perguntas e respostas, mas sim de um modo que Calvino julgou acessível aos fiéis. Ainda em 1539, João Calvino elabora aquele que seria conhecido como o Saltério de Genebra, onde traduzira alguns salmos (19 inicialmente). Esta obra fora iniciada por Calvino, mas concluída por Thèodore de Bèze e outros expoentes da cultura musical francesa desse período. O Saltério de Genebra “tornou-se um dos livros mais importantes da reforma” LEITH (1997, apud MAIA, 2000, p. 59). Esta obra teve “um verdadeiro ‘dom de línguas’, já que foi traduzido para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico, malaio, tamis, inglês etc., e usado por católicos, luteranos e outras denominações” LEITH (1997, apud MAIA, 2000, p. 60)

Com estas obras, Calvino não só nos mostra sua preocupação com a correta liturgia cristã, mas também seu zelo e cuidado no manuseio para com as Escrituras Sagradas. Assim o faz por conta da pesada herança litúrgica medieval cuja qual estava recebendo. Este corpus litúrgico produzido por João Calvino circulou nas igrejas de Genebra e de Estrasburgo guiando suas respectivas liturgias. Calvino era um homem que tinha receio que as atenções humanas no decorrer da liturgia do culto cristão fossem desviadas do que realmente é mais importante, a saber: as Escrituras Sagradas. A salmodia exclusiva é outro bom exemplo do cuidado e zelo bíblico-litúrgico deste reformador; entendia que o livro de salmos era uma espécie de anatomia de todas as partes da alma, uma espécie de compêndio teológico mais que salutar à igreja. Nada mais justo que cantá-los de forma congregacional. Calvino era um apreciador da harpa (instrumento musical), mas optava pela liturgia da antiga sinagoga judaica. Ou seja, sem o acompanhamento instrumental. Possuía o receio de que quaisquer outras cousas, que não fosse a essência das Sagradas Escrituras, atraísse mais atenção de quem estava cultuando. Assim, imaginemos que se um salmo era cantado com muito floreio musical, ênfase harmônica ou vocal etc., e a beleza de sua harmonia melódica chamasse mais atenção que sua letra em específico, isso seria um pecado grave para com as Escrituras Sagradas no entendimento deste reformador. Calvino nos fala sobre isso:

“Nem contudo, aqui condenamos a voz ou o canto, se não que antes, muito os recomendamos, desde que acompanhem o afeto da alma. Ora, assim exercitam a mente na cogitação de Deus e a retêm atenta, a qual, como é escorregadia e versátil, facilmente se afrouxa e a variadas direções se distrai, a menos que seja de variados adminículos sustentada. Ademais, como em cada parte de nosso corpo, uma a uma, deve luzir, de certo modo, a glória de Deus, convém especialmente seja a língua, que foi criada peculiarmente para declarar e proclamar o louvor de Deus, adjudicada e devotada a este ministério, quer cantando quer falando [...]” (CALVINO, As Institutas da Religião Cristã, III.20.31.)

Para Calvino havia um “elemento central no culto” e este não podia ser outro que não fosse a Palavra de Deus. Esta ideia fora propagada até na organização e na construção das igrejas reformadas na Europa: “As igrejas Reformadas simbolizaram isso nos edifícios que ergueram durante a Reforma, ao colocar o púlpito à frente e no centro do templo” REID (1976, apud MAIA, 2000, p 57). Um bom material para se saber com mais detalhes e informações acerca do culto histórico dos reformados, a expansão do Saltério Genebrino nas mais diversas línguas que fora traduzido, e até a possibilidade de fazer downloads dos salmos cantados, encontra-se no site Westminster hoje (em espanhol) cujo link está disponível aqui. O site reproduziu uma série de sete Artigos do Pastor John Sawtelle sobre o tema.

Conhecido como o “exegeta da reforma”, assim pela riqueza hermenêutica vista em seus comentários, como também por sua forma peculiar de expor as Escrituras Sagradas, Calvino possuía um zelo admirável pela Bíblia. Havia em seu entendimento uma regra sacra: “Que esta seja nossa regra sacra: não procurar saber nada mais se não o que as Escrituras nos ensinam. Onde o Senhor fecha seus próprios lábios, que nós igualmente impeçamos nossa mente de avançar sequer um passo a mais" (CALVINO, Exposição de Romanos (9.14), p. 330). Assim como o salmista no Salmo 139:6, João Calvino entendia que o homem possui um limite intelectual no que tange à interpretação das Escrituras Sagradas e do Deus ali revelado. Ou seja, o limite é justamente até onde Deus quis se revelar. Após isso, a mente humana, além de não ter como, não deve querer avançar. João Calvino conseguia transitar entre a erudição e a espiritualidade sem se manter polarizado em um dos dois de forma extremada. Conseguia entregar às suas ovelhas um alimento sólido, consubstanciado e extraído dos mais finos recursos exegéticos, mas com o compromisso de que todos pudessem compreendê-lo. Afinal, esta deve ser a função principal de todo e qualquer teólogo – traduzir a teologia para a linguagem popular sem que esta sofra mutilações. Não era em vão que lhe recaía outro epíteto, a saber: “Príncipe dos Expositores”. De certa forma, Calvino: “Fugia [...] e de certos refinamentos exegéticos que quando muito só servem para revelar erudição, mas não contribuem para esclarecer o texto e edificar o povo de Deus” CALVINO (1959, apud MAIA, 2000, p. 39). 

É muito importante que se destaque a real preocupação dos reformadores como um todo no que concerne à ênfase do “Sola Scriptura”, bem como a disponibilização das Escrituras Sagradas para a população em geral. Por isso a forte atividade de tradução da Bíblia para os respectivos e diversos idiomas dos países em que a reforma se deu com maior ênfase. Logo, essa era uma preocupação de todos os reformadores, uma vez que a Bíblia fora oculta por muitos anos dos olhares do povo em geral. 

A teologia de João Calvino pode, de fato, ser reconhecida como sistemática, mas também bíblica ao mesmo tempo. Tendo em vista que o trabalho do “Exegeta da Reforma” se concentrou mais em comentar o Livro Sagrado, sua teologia é bíblica. Porém, Calvino também é conhecido como um grande sistematizador das Escrituras Sagradas. Não adentraremos aqui nas nuances da complexidade da expressão “Teologia Bíblica”, uma vez que tudo que se extraí da Bíblia é bíblico, logo a Teologia Sistemática também é bíblica, pois fora extraída da Bíblia. Acreditamos que a expressão de Geerhardus vos, em seu livro “Teologia Bíblica; Antigo e Novo Testamento”, direcionada às Escrituras Sagradas como sendo “A História da Revelação Especial” seja mais adequada. Mas, discussões à parte, queremos destacar que, como poucos, Calvino consegue unir em sua teologia pontos aparentemente opostos e marcados pela tensão – Teologia Bíblica e Teologia Sistemática é um deles. 

A Teologia Exegética era, de fato, uma marca na vida de Calvino, mas que de forma única conseguia unir isso à sua teologia prática. Ele não era um teólogo puramente teórico e sem a parte prática da coisa em si. Ele conseguia converter teoria em prática e prática em teoria. E, como já falamos, conseguia transitar entre o erudito e o espiritual, e o produto disso era visto na sua teologia prática. Um bom exemplo sobre este caráter minimizador de tensões visto na teologia de Calvino é sua posição acerca da Ceia do Senhor junto aos oficiais de sua Igreja em Genebra. É sabido que na alta idade média havia o costume de se celebrar a Ceia do Senhor apenas em caráter anual – uma única vez –, mas João Calvino combate essa ideia com ênfase no costume primitivo da igreja cristã que corriqueiramente desfrutavam de momentos de comunhão “junto à mesa” (Atos 2: 44-47). O epicentro da tensão na Igreja de Genebra recai entre Calvino, que entende que a Ceia do Senhor deve ser semanalmente realizada, e os oficiais da igreja que entendem que a Ceia do Senhor deveria ser ministrada apenas quatro vezes por ano e em datas específicas. Esta tensão, se fosse em dias atuais, com toda convicção, teríamos o assunto resolvido pelo víeis da tirania ou do terrorismo proféticos que são realizados por alguns líderes que fazem de suas igrejas verdadeiros quartéis militares. Porém, a tensão entre João Calvino e seus oficiais na Igreja de Genebra foi resolvida por meio da condução do Espírito Santo, que concedeu a Calvino uma estratégia salutar para resolução da problemática. O “Exegeta da Reforma” fez acordos entre as mais diversas igrejas vizinhas em relação à data da Ceia do Senhor, conseguiu variar estas datas entre cada igreja da cidade e proporcionar que houvesse culto de Ceia semanalmente – não na sua igreja em específico –, mas entre as igrejas da cidade. Com isso, avisava aos membros de sua própria igreja que eles deveriam visitar as outras igrejas nos cultos de Ceia especificamente, e assim estimular a comunhão entre os irmãos e as igrejas vizinhas junto à mesa de Cristo. Com isso, João Calvino conseguiu estabelecer seu ideal de que a Ceia do Senhor fosse ministrada semanalmente, sem desavenças ou perseguições. Seu trabalho sempre foi em prol do crescimento harmônico do corpo de Cristo.

Percebemos em tudo isso que João Calvino era, de fato, um servo de Deus no sentido mais estrito da palavra. Um homem que possuía um zelo imenso pelas Escrituras Sagradas. Um homem a ser estudado e entendido, um exemplo de erudição e espiritualidade isento de polarizações e extremismos nessas áreas. Um reformador que transitava entre os mais refinados recursos exegéticos, mas que tudo isso desembocava numa teologia prática piedosa e que sempre apontava para um alvo cristocêntrico. Dizem que reformar dar mais trabalho que construir. Com certeza, reformar a igreja foi um trabalho árduo, mas também exitoso e que custou tempo, dedicação e a vida de muitos homens comprometidos com Deus. As bases foram refeitas e postas – Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Sola Deo Glória – devemos permanecer sempre sobre o alicerce desta tradição. 

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Bibliografia:
CALVINO, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. São Paulo, CEP, 1985
 CALVINO, João. Comentário de Romanos, Editora Fiel, Edição Virtual Autorizada (Biblioteca de Calvino)
 MAIA; LEMBO; QUADROS; GOUVEIA. O Pensamento de João Calvino. São Paulo, Mackenzie, 2000
 MCGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo, Cultura Cristã, 2004

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Autor: Thiago Azevedo
Divulgação: Bereianos
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Projeto Sola - musicalidade reformada de qualidade

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OS 5 SOLAS


O que são os cinco solas? O que eles representam? Por que colocamos o nome do nosso trabalho de "Sola"? É realmente necessário falar sobre isso nos dias atuais ou estamos tratando apenas de uma maneira cool de voltar às origens da reforma através de uma linguagem retrô ou um modismo hipster?

Os cinco solas foi o meio que a igreja reformada encontrou para determinar suas bases. Com o estabelecimento dos cinco solas a reforma rompeu com a hierarquia católica romana, com as heresias daquela época, e fez um vibrante e robusto caminho de volta à ortodoxia bíblica. São cinco estacas bem firmadas da fé cristã, baseadas na história de Deus revelada a nós, que servem de farol até hoje para a Igreja Cristã como um todo. Sola, em latim, significa somente, apenas. Os solas são:

        • Sola fide – Somente a fé
        • Sola scriptura – Somente a escritura
        • Solus Christus – Somente Cristo
        • Sola gratia – Somente a graça
        • Soli Deo gloria – Somente a Deus a glória

Somente a Deus toda a glória, que nos traz a redenção pela da graça mediante a fé. Fé esta somente em Cristo Jesus, a expressão exata de Deus, Verbo Vivo feito em carne, revelado somente na Escritura que o próprio Deus nos deixou. Pelo Espírito podemos entender tudo isso, e como Filhos do Pai, somos incluídos em seu Reino de amor, que é hoje e para sempre.

O Projeto Sola procura se firmar nessa fé ortodoxa, cada vez mais antiga e ainda assim nova a cada manhã. Procuramos uma fé bíblica no Filho do Amor. Sabemos que Ele é infinitamente maior que nós, o Deus poderoso, capaz de nos livrar de nós mesmos para uma nova vida plena de alegria nEle. Cremos que Ele e tão somente Ele, nos trouxe a redenção, e assim temos a esperança viva, e em vida. Cremos nEle, estamos firmados nEle, e em Sua graça podemos sempre descansar. 

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Autor: Guilherme Iamarino
Revisão: Lucas Freitas
Divulgação: Bereianos

Músicas que glorificam a Deus, são fieis às Escrituras e edificam a Igreja, nós recomendamos! O Projeto Sola é o encontro de dois Guilhermes (Guilherme Andrade e Guilherme Iamarino).

Veja abaixo o clipe da música Redenção:


Outra música, por sinal lindíssima, é Isaias 53:


Você pode baixar na íntegra e gratuitamente o EP Sola - Vol. 1, aqui!

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João Calvino: um homem zeloso pela Glória de Deus

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Em tempos de escuridão, a luz do Evangelho brilhou e o mundo inteiro foi impactado pela fiel pregação da Palavra. Deus levantou um homem que influenciou todas as igrejas da Europa e toda a estrutura da cultura Ocidental. João Calvino é esse homem.

Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha narra uma breve história do reformador João Calvino. Assista:




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Autor: Rev. Dorisvan Cunha
Fonte: Guerra pela Verdade
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Lutero: Reformador Destemido

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Quando tudo parecia perdido, eis que Deus levantou um homem de coragem e bravura para trazer o seu povo de volta às Escrituras, seu nome? Martinho Lutero.

"Sou rude e impetuoso ao lutar contra inúmeros monstros e demônios. Nasci para remover os tocos e as pedras, para podar os cardos e abrolhos, para arrancar os espinheiros e limpar as matas selvagens". (Martinho Lutero)

Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha narra uma breve história do reformador Martinho Lutero. Assista:



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Autor: Rev. Dorisvan Cunha
Fonte: Guerra pela Verdade
Divulgação: Bereianos
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Uma Breve História da Reforma

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Neste vídeo o Rev. Dorisvan Cunha narra uma breve história da Reforma Protestante. Assista:



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Autor: Rev. Dorisvan Cunha
Fonte: Guerra pela Verdade
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A Gênese da Revolução Civil - Uma Refutação a Olavo de Carvalho (Parte 2)

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FRANCISCO DE ASSIS - O DUX DA TERCEIRA ERA

Na primeira parte desse trabalho, publicada há algumas semanas, procurei resumir um pouco da situação conflituosa que marcou a Baixa Idade Média e verificar o conflito entre uma ordem “natural” e a influência “sobrenatural” da Igreja, bem como os efeitos disso na ordem civil antes da Reforma Protestante. Em seguida, voltei a atenção para a obra do monge cistercience Joaquim de Fiori, que representou uma ruptura com a Filosofia da História de Agostinho, e como sua interpretação milenarista influenciou o pensamento de figuras importantes, seja imperadores, papas ou poetas como Dante Alighieri. É útil ressaltar que presentemente buscamos apresentar uma visão panorâmica do processo que conduziu à Revolução Civil, da qual a “divinização do estado” (assunto central no texto escrito por Olavo de Carvalho para o Diário do Comércio) é apenas uma das etapas, que será tratada objetivamente em breve. Por ora, mostraremos um personagem importante para a difusão das ideias de Fiori no pensamento Ocidental, que é Francisco de Assis, e uma ala de seus seguidores, os Franciscanos Espirituais. Em "História das Ideias Políticas – v. II, Idade Média até Tomás de Aquino," Eric Voegelin diz:

“São Francisco não teria sido visto pelos espirituais como a figura decisiva de uma nova época na história cristã se as profecias de Joaquim não fornecessem o padrão simbólico para a sua interpretação; e as profecias de Joaquim não poderiam ter exercido a forte influência que exerceram no século XIII e em Dante a menos que o aparecimento de São Francisco confirmasse a previsão do ‘dux’ de uma nova era" [Voegelin, “História das Ideias Políticas – v. II, Idade Média até Tomás de Aquino”, p. 157].

Em outras palavras, sem Francisco de Assis, a obra de Joaquim de Fiori não teria sido tão influente.

Do meu ponto de vista, vê-se pouco cristianismo genuíno em Francisco de Assis, ao passo que sobeja certo tipo de ascetismo pagão. Talvez seja correto compreender que o monge de Assis subverteu a “tradição” ascética do monasticismo cristão. Ao contrário do neoplatonismo predominante, que buscava uma experiência contemplativa na fuga transcendente do mundo, Francisco almejava a ascensão espiritual na relação dos homens com a Criação – natureza, animais e outros seres humanos – e em sua interpretação do ideal de pobreza. Francisco não buscava Deus fora do mundo, mas na experiência dentro dele.

O cristianismo começou a ser atacado pelo platonismo desde muito cedo. O gnosticismo, tema recorrente – e controverso – na obra de Voegelin, foi uma desastrada tentativa de síntese entre o platonismo e o cristianismo. Nessa heresia, o pecado não era visto como uma ofensa moral a Deus, mas como um problema estrutural da natureza, da carne (que, na concepção gnóstica, identifica-se essencialmente com o corpo) e do mundo material. Segundo essa visão, o mundo material seria a fonte do sofrimento, e o mundo espiritual, ou da Razão, o mundo superior. O ascetismo era a alternativa óbvia, de modo que a carne seria maltratada em favor do espírito. Ascetas eram comuns no Império Romano e sua influência na igreja primitiva é notável em personagens como a “santa" Melania, por exemplo. Melania não se banhava! Para ela, tal ato equivalia a “mimar a carne”, a qual se configurava, nas palavras dela, uma "fonte de prejuízo” [Robert T. Meyer, “Palladius: The Lausiac History”, p. 136]. Nem mesmo quando os médicos lhe recomendavam o banho por questões de saúde individual, ela não tomava. Macário de Alexandria tentava – creiam – não dormia! O eremita dormia ao relento com o intuito de não ceder ao sono. Em outra ocasião, ele se dirigiu a um pântano a fim de permitir que os insetos picassem seu corpo, uma vez que havia decidido punir a si mesmo por ter matado um mosquito. Quando um asceta de Tebas chamado Doroteu foi perguntado, "O que você está fazendo, Padre, matando seu corpo desta maneira?," ele respondeu, "Ele me mata; eu o mato". A auto-mortificação suicida era erroneamente denominada de santificação. O corpo, a “carne”, era o inimigo da santificação, devendo, pois, ser flagelado, enfaixado de espinhos e degradado no intuito de sobrelevar a "espiritualidade".

Em seu livro “Flight From Humanity”, R. J. Rushdoony desnuda toda a loucura do ascetismo influenciado pelo dualismo platônico:

"Alcançar a perfeição significava abandonar cada evidência da criatura, cada elemento dos desejos e das necessidades corporais, e tornar-se puro espírito em uma carne virtualmente morta. Isto, em umas poucas ocasiões, significou castração real (uma prática pagã comum), mas era, em todas as vezes, uma forma de castração psíquica. O objetivo era tornar-se – de acordo com a concepção grega e estoica de Deus – impassível. O monge Díocles explicou que ‘o desejo era bestial, mas a raiva era demoníaca’. O fato de Cristo ter Se irado mais de uma vez não era considerado."

Desde o terceiro século, depois de Plotino, o neoplatonismo evoluiu dentro do cristianismo através das ordens monásticas, que tentaram organizar as práticas dos primeiros ascetas. No começo, o monasticismo fortaleceu-se principalmente como uma resposta dialética à conversão do Império Romano ao cristianismo. Desconfiados do novo status do cristianismo no Império, muitos cristãos começaram a fugir para desertos. Com o tempo, essas ordens foram se organizando, filtrando as aberrações comportamentais mais flagrantes e hereges, sendo aceitas oficialmente dentro do corpo da Igreja. Todas as boas obras realizadas pelas ordens monásticas no Ocidente, especialmente a da Ordem Beneditina, são dignas de nota. Francisco de Assis é um herdeiro desse processo, ao mesmo tempo em que introduziu duas significativas mudanças nele: um misticismo naturalista e uma substituição da transcendência espiritual pelo ideal de pobreza. Ele não apenas herdou as práticas ascéticas, como talvez as tenha aprofundado um pouco.

Sobre o primeiro caso, Voegelin reconhece que

“São Francisco foi um grande naturalista, um fato que fica obscurecido por sua completa espiritualização dos sofredores e da natureza silenciosa” [p. 165].

Evidentemente, o termo “naturalismo” não é adequado quando comparado ao naturalismo racionalista, mas não é esse o caso. Falamos aqui de um misticismo naturalista com pretensa roupagem cristã. Irônica mas não surpreendentemente, Celano e São Boaventura, posteriores a Francisco, usaram seu treinamento intelectual no cristianismo neoplatônico para tentar explicar o naturalismo-místico de Francisco, ignorando que seu panorama intelectual do misticismo era contrário à experiência mística catalisada pelo meio ambiente natural, o que na verdade teria prevenido o naturalismo do monge de Assis. Eles deixaram-se levar, entretanto, pela impressão de que as experiências de Francisco, seu “amor” pelos animais e pelos elementos da natureza – tudo isso mascarado pelo seu rigor ascético extremado, já característico das ordens monásticas –, eram realmente uma aplicação mais concreta e literal das ideias que eles aprenderam intelectualmente. O próprio Celano admitiria que algumas atitudes de Francisco diante dos animais não eram usuais. Em certa ocasião, tendo sido presenteado com um peixe, Francisco devolveu-o à água, chamando o peixe de “irmão”. “Ele abraçou todas as coisas com um sentimento inaudível de devoção, falando a elas do Senhor e admoestando-as a louvarem-nO,” escreveu Celano em uma biografia sobre o santo de Assis.  Celano e Boaventura acreditavam tratar-se de uma nova forma de experimentar a filosofia agostiniana, em vez de uma banalização dela [ver Roger D. Sorrell, “St. Francis and Innovation in Western Christian Attitudes towards the Environment”, p. 90-92]. Foi assim que o “naturalismo” franciscano foi incorporado à tradição.

Essa mudança promovida pela Ordem Franciscana se deve ao fato de seu fundador jamais ter recebido educação intelectual na juventude, de maneira que absorveu a atitude do cristianismo neoplatônico anterior em relação à natureza (que, nessa concepção, foi estruturada numa cuidadosa categorização dos níveis da Criação, abarcando e coerindo suas diferenças significativas, ao mesmo tempo em que se promovia a “intelectualização” da experiência mística) e ao processo de ascensão espiritual. Sendo a ascensão espiritual neoplatônica um descendente direto do ideal pagão de vida contemplativa, o monasticismo anterior à fundação da Ordem dos Frades Menores buscava uma vida de transcendência espiritual.

No segundo caso, a renúncia da vida, do mundo, do bem-estar e do status social por Francisco não foi uma renúncia da vida no mundo em busca da transcendência, como no monasticismo pregresso, mas uma tentativa de encontrar Deus através da “santa” pobreza. Eis o padrão ascético franciscano. Se Cristo havia sido pobre, segue-se que ele também deveria ser; nesse sentido, compartilhar o sofrimento de Cristo seria uma forma de estar com Ele. Uma famosa pintura de Bartolome Esteban Murillo mostra Francisco abraçando Cristo na cruz. A verdadeira identidade e a verdadeira santidade seriam encontradas na pobreza, e o sofrimento e a humanidade de Cristo, mais do que sua divindade, tornaram-se foco de atenção [ver “Franciscans at Prayer”, de Timothy J. Johnson].

Uma evidência disso é apontada por Leo Steinberg, em “The Sexuality of Christ in Renaissance Art and in Modern Oblivion”, obra que demonstra como a tendência de representar Cristo como um bebê nu com seus órgãos sexuais expostos nas artes sacras cresceu depois de Francisco. O Franciscanismo, a propósito, difundiu a imagem do presépio, onde Cristo é retratado como infante. O caráter educativo da arte tinha o interesse de mostrar que Cristo havia passado por todos os sofrimentos humanos – como um pobre bebê numa manjedoura cercado de animais – a fim de causar compadecimento. Os artistas da época, entretanto, não sentiam mais um imperativo para representar a divindade de Cristo, já demasiadamente consolidada na Alta Idade Média, e por esse motivo, a nova perspectiva ganhou o interesse teológico e o aval da Igreja.

Essa identificação entre pobreza e santidade ganhou ainda uma estreita relação com a busca pela suposta perfeição evangélica. Em um famoso escrito, a "Regra não Bulada", ou Primeira Regra, Francisco cita no capítulo 1, por exemplo: "Se queres ser perfeito, vai e vende tudo (cfr. Lc 18,22) que tens, e dá aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me" (Mt 19:21). A Regra da Ordem Franciscana Secular [OFS] traz explicitamente o termo “perfeição da caridade” no item 2 do capítulo 1, como o objetivo dos leigos na vida secular.

Lamentavelmente, a visão de Cristo esposada por Francisco é questionável pelo simples fato de Jesus e os apóstolos terem recebido dinheiro [Lc 8:2-3], ao passo que o monge se negava a receber. Facilmente se depreende do contexto de Mateus 19, citado por Francisco na “Regra Não Bulada”, que Cristo estava usando um discurso retórico para trazer à tona a idolatria do jovem rico aos bens materiais quando, em seguida, diz aos discípulos que “é impossível” para o homem salvar-se (Mt 19:26). Se Francisco tivesse mais intimidade com a Escritura, teria que levar em consideração que foi o próprio Deus quem enriqueceu Abraão, José, Davi, Salomão e tantos outros servos.

A personalidade de Francisco era impactante e possuidora de um apelo estético incrivelmente forte, embora possa ser reconhecida como excêntrica e suspeita. Justo Gonzales, em "História Ilustrada do Cristianismo – Volume I" relata uma versão do encontro entre Francisco e o papa Inocêncio III. O contraste entre ambos deve ter sido deveras curioso. De um lado, um homem no auge do papado, o papa mais poderoso da História. No outro, um mendigo. Segundo Gonzales, Inocêncio disse:

– “Vestido como estás, mais pareces porco que ser humano. Vai viver com teus irmãos."

Em resposta, Francisco não se mostrou ofendido. Antes, saiu em busca de uma pocilga. Em seguida, retornando à presença de Inocêncio III, ajoelhou-se e disse:

 “Senhor, fiz o que me mandaste."

O papa viu naquilo uma grande virtude e o monge começou a ser aceito. Voegelin afirma que Francisco produziu uma "ambiguidade constante", "ao mesmo tempo uma força e uma fraqueza [...] o fato de ter elaborado a ideia de uma vida em conformidade com Cristo".

“Quando [Francisco] ataca o "mundo", o ‘mundus’ ou o ‘saeculum’, utiliza um vocabulário evangélico, mas nem sempre com o significado evangélico. O homem não é chamado a arrepender-se porque o reino de Deus está próximo, mas porque a vida de pobreza e obediência é aconselhada como constituição permanente do mundo [supostamente] em conformidade com a vida do salvador." [História das Ideias Políticas – v. II, p. 160]

É claro que Voegelin também não possui um conceito bíblico da pobreza, e guarda uma visão errônea acerca da vida de Cristo. Mas deixaremos para discutir sua (in)consistência teológica mais adiante. O fato é que Francisco criou um ambiente no qual as riquezas eram vistas como fonte de certa espécie de mal; e, ademais, sua ordem espalhou-se pela Europa rapidamente. A pobreza era "santa", ao passo que a propriedade era uma fonte de concupiscência. Ser pobre, seguindo a falsa interpretação de Mateus 19, era uma obrigação evangélica. “Quando tiveres um saltério, quererás também um breviário. E quando tiveres um breviário te ostentarás no púlpito como um prelado,” disse Francisco a um de seus discípulos [Gonzales, “História Ilustrada do Cristianismo - Vol I”, p. 403]. Uma frase que poderia ser dita por qualquer monge budista, aliás [por sinal, as semelhanças entre a vida de Francisco de Assis e de Buda são notáveis]. A obsessão de Francisco pela pobreza, em certa ocasião, fez com que ele obrigasse um de seus discípulos a colocar uma moeda de ouro entre os dentes e enfiá-la no esterco, dizendo-lhe que esse era o lugar que cabia ao ouro [Gonzales, “História Ilustrada do Cristianismo – v. I”, p. 404].

Mas Francisco não rejeitava apenas as posses; rejeitava também a própria erudição. Ele proibia seus seguidores de procurar instrução, porque, segundo sua concepção, ela provoca orgulho. Francisco era anti-intelectualista. Antes dos estudos serem vistos como algo desejável, a ausência deles tornou-se um escudo para a preservação da virtude. Na experiência franciscana, a pureza do coração e o fruto do Espírito não são alcançados pela ação do Espírito Santo através da graça, mas sim por meio da castração psíquica e do abandono dos prazeres que provocam desejos. Inclui-se aí, como os gnósticos, a prática de autoflagelação (como muitos outros “santos” e papas católicos romanos) e o uso de uma roupa feita com pelos de cabra ou material pontiagudo (cilício) que provocam desconforto na pele; tudo isso no intuito de “mortificar” a própria carne. Nisso vemos mais claramente os resquícios da influência gnóstica explicada por Rushdoony em “Flight From Humanity,” que sobreviveu nas ordens monásticas até os dias de hoje.

Espantosamente, Francisco é reconhecido como um “grande santo”, e talvez a figura mais importante do cristianismo depois do próprio Senhor Jesus. Dante disse que ele foi “uma luz sobre o mundo”. Para a Igreja Católica Romana, foi uma espécie de "reformador.” Já para Voegelin, o “pobrezinho de Assis” criou um “Cristo intramundano”, concepção que é fortalecida diante de sua visão da humanidade de Cristo e sua interpretação da pobreza. Opinião parecida é esposada por Leff, em “The making of the myth”, quando diz que “o conceito de Cristo como homem tornou-se o mais poderoso desafio a uma igreja divina”.  Sua Ordem era ao mesmo tempo uma tentativa de retornar a essa suposta vida evangélica e uma forma de protesto contra uma Igreja enriquecida e toda a "futilidade" da cultura ao seu redor. A criação de comunidades nas quais buscar-se-ia a “perfeição da caridade” em conflito com a sociedade da época seria uma tendência inevitável. Voegelin escreveu:

“A fissura torna-se omniosamente aberta na diferenciação franciscana entre a vida do leigo, em conformidade com Cristo, e a vida sacerdotal, em conformidade com a Igreja Romana. […] A pessoa de São Francisco e a ‘religio’ que ele fundou eram inconfundivelmente forças intramundanas em oposição ao ‘imperium’ […] A evocação de São Francisco foi o sintoma mais impressionante do processo em que o ’sacrum imperium’ se desintegrou.” [História das Ideias Políticas – v. II, p. 163, 166].

A crise, contudo, tomou uma forma mais consistente depois de sua morte, e seu estopim foi exatamente uma discussão interna sobre o rigorismo da Ordem; a disputa por mudanças na Regra foi o ponto de ebulição para os Franciscanos Espirituais (inspirados por Joaquim de Fiori) tumultuarem a Igreja.

Fica a pergunta: por que os católicos romanos que citam Voegelin a fim de atacar a Reforma não mencionam tudo isso que abordamos?

Notas:

1. Em “Francis of Assisi: Christian Mysticism at the Crossroads”, Ewert H. Cousins explica que Francisco representa um divisor de águas na história do cristianismo ocidental e, depois dele, a experiência das religiões ocidentais seguem em duas correntes: (1) o neoplatonismo místico especulativo – absorvendo o misticismo naturalista –, que alcançou o cume nos místicos de Rhineland; (2) e a corrente devocional que fluiu de Francisco – com seu foco na humanidade e na paixão de Cristo –, que propagou-se amplamente pelas pessoas e tornou-se a forma característica da sensibilidade Ocidental pelos séculos por vir. [Citado por Roger D. Sorrell em “St. Francis and Nature: Tradition and Innovation in Western Christian Attitudes towards the Environment”, p. 89.]

2. Com relação aos famosos estigmas de Francisco de Assis, aos quais Voegelin parece dar demasiada credibilidade, os mais céticos acreditam terem sido na verdade um sintoma de hanseníase, na época era conhecida como lepra. Em estágios avançados, ela pode conduzir à cegueira, e Francisco de Assis, dois anos depois de manifestar os “estigmas”, morreu cego e todos reconhecem seu estado de saúde debilitado. Ele foi o primeiro “santo” na história do cristianismo a receber os supostos estigmas, depois dele tais marcas tornaram-se convenientemente comuns.


OS FRANCISCANOS ESPIRITUAIS

Francisco havia se esforçado para impedir que seu ideal ascético na Regra da Ordem fosse abrandado. Mas com o crescimento dos “frades menores”, seu modelo foi provando-se cada vez mais impossível.

Depois da morte de seu fundador, o Franciscanismo dividiu-se em dois partidos: os Franciscanos Espirituais e os Franciscanos Conventuais. Enquanto a ala dos Espirituais queria manter fielmente a regra da pobreza, a ala Conventual queria abrandá-la, para que pudessem aceitar algumas propriedades e ingressarem nas universidades, semelhantemente aos monges dominicanos. Nesse momento, os Espirituais assumiram a profecia de Joaquim de Fiori para si, e viram, nos outros Franciscanos e na Igreja como um todo, uma falsa hierarquia que seria deixada para trás na Nova Era do Espírito. Se a perfeição cristã está no ascetismo da pobreza absoluta, a transigência dos Franciscanos Conventuais e da Igreja, já enriquecida e desmoralizada, seria uma força retrógrada contra a Terceira Era e contra a “evolução” do processo histórico.

Timothy George, professor de história da Igreja e doutor em teologia pela Harvard University, escreveu sobre o assunto:

"O poder de seus adeptos (franciscanos radicais) brotou de duas fontes: o ideal de Francisco da pobreza absoluta e a filosofia da história apresentada por Joaquim de Fiori, que eles aplicaram à sua própria ordem e época. Combinados, esses elementos resultaram numa crítica explosiva à igreja da época. [...] Os franciscanos espirituais (radicais), exacerbados por suas lutas com o papado, que se aliava aos franciscanos conventuais (seus oponentes) na discussão sobre a pobreza absoluta, identificaram-se como essa nova ordem. […] Por serem um movimento de protesto dentro da Igreja, os Espirituais foram irremediavelmente esmagados. A influência deles continuou em vários grupos sectários no sul da França e da Itália. [...] Francisco de Assis, que desejava consertar a igreja, deu à luz um movimento que desintegrou-a gravemente." [Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 40.]

Os Franciscanos Espirituais foram uma das maiores forças dissidentes da Baixa Idade Média. Para Voegelin, o próprio ideal de vida de Francisco, falsamente confundido com o Evangelho, era, em si, revolucionário.

“O movimento era cada vez mais dirigido contra a organização feudal da sociedade, incluindo a igreja sacramental. Quando o movimento encontrava apoio das massas, adotava a forma de fundações sectárias, criando atritos com a Igreja, […] o ideal de pobreza, juntamente com outros conselhos evangélicos, estava destinado a ser o símbolo da revolução." [História das Ideias Políticas – v. II, pg. 161]

Parte desse movimento foi abrandado, como explica Voegelin, através de sua oficialização e submissão à Igreja. Por um momento Voegelin questiona quais teriam sido as implicações caso isso não tivesse acontecido. São Boaventura assumiu a Ordem e conseguiu reconciliar a maior parte dos franciscanos com a Igreja, mas o conflito foi inevitável.

Como vimos, o padrão moral anti-intelectualista e de pobreza absoluta começou a criar um conflito com a Igreja rica e perpassada por escândalos, enraizando essa moral alternativa avessa às autoridades constituídas e às classes abastadas. A riqueza era vista com desconfiança por eles. A moral Franciscana apenas reforçou o apelo pelos pobres, materialmente falando, e sofredores deste mundo.

Agora, podemos perceber muitas semelhanças entre o Franciscanismo e o movimento socialista: a tensão escatológica, um conceito de justiça materialmente avesso à propriedade – embora seja diferente do socialismo de Karl Marx – e uma revolta contra as instituições. Há, pois, alguma relação entre o Franciscanismo e o movimento socialista? O próprio Voegelin o admite.

"[...] a substância cristã se enfraquecia cada vez mais; no grande processo de "desespiritualização" do cristianismo, [...] agora vemos a vida de Cristo ser discutida sob a ótica da propriedade privada ou comunal. [...] nem a indiferença escatológica à propriedade dos primeiros cristãos é uma forma de comunismo, como a maior parte dos franciscanos a considerava em função do ideal de pobreza intramundana da ordem. Não obstante, este debate representou na história das ideias o começo da discussão sobre "comunismo" dos primeiros cristãos ainda em andamento" [Voegelin, “História das Ideias Políticas – v. III, Idade Média Tardia”, p. 136]

Quando, portanto, Thomas Muntzer, o revolucionário dissidente do luteranismo citado por Engels em “The Peasent War in Germany”, uniu-se aos hussitas radicais formando um movimento anabatista combatido por Lutero nas Guerras Camponesas, ele já estava inserido dentro de um contexto avesso ao direito de propriedade.

Diante de tudo isso, é mister que reconheçamos todas as consequências de más interpretações bíblicas. Francisco de Assis é resultado de uma cultura na qual a teologia era questionável, e, mais do que isso, só existia superficialmente entre as massas, através de ritualismos que são incompreensíveis até para a maioria dos católicos romanos de hoje.

Atualmente, o papa Francisco I causa não pequena controvérsia dentro do Catolicismo Romano, sendo acusado de socialista por muitos conservadores católicos brasileiros. Entretanto, é preciso reconhecer que Bergoglio não está distante de uma linha que já existe dentro do Catolicismo Romano desde a Baixa Idade Média, e muitos de seus posicionamentos não são incoerentes com a Doutrina Social da Igreja Romana.

Joaquim de Fiori, impulsionado pelos Franciscanos, representou uma grande descontinuidade em relação à tradição agostiniana. A segunda descontinuidade radical contra Agostinho veio com a obra do filósofo católico romano Tomás de Aquino, a qual modificaria a filosofia da Igreja de Roma para sempre. Pra compreendermos melhor a filosofia tomista e suas consequências, precisaremos fazer uma breve exposição da obra do filósofo calvinista holandês Herman Dooyeweerd na próxima parte da nossa exposição.

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Continua em breve...

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Autor: Vitor Barreto
Divulgação: Bereianos

Leia também: 
A Gênese da Revolução Civil - Uma Refutação a Olavo de Carvalho (Parte 1)
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O problema de uma democracia sem Deus

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A democracia hoje é uma referência comum em debates políticos no que diz respeito às liberdades civis. Não é exagero dizer que, pra muitas pessoas, ela tornou-se um ídolo, quase sempre incompreendido, e dona de uma suposta superioridade inquestionável. É certo que a democracia americana tem uma clara contribuição dos princípios reformados e que a Reforma Protestante tem uma participação direta no desenvolvimento dos direitos civis da modernidade. Abraham Kuyper considera a democracia uma verdadeira benção de Deus. No livro "Calvinismo", ele escreveu:

"A questão sobre como aquelas pessoas, que pela autoridade divina devem ser revestidas de poder, são indicadas, segundo Calvino não pode ser assegurado semelhantemente para todas as pessoas e para todos os tempos. E, contudo, ele não hesita em afirmar, num sentido ideal, que as condições mais desejáveis existem onde o próprio povo escolhe seus próprios magistrados. Onde existe uma condição como esta, ele conclui, o povo deveria agradecidamente reconhecer nisto um favor de Deus, precisamente como tem sido expresso no preâmbulo de mais de uma de suas constituições; - "Graças ao Deus Todo-Poderoso que deu a nós o poder de escolher nossos próprios magistrados." Em seu Comentário sobre Samuel, Calvino entretanto admoesta tais povos: 'E vós, Ó povos, a quem Deus deu a liberdade de escolher seus próprios magistrados, cuidem-se de não se privarem deste favor, elegendo para a posição de mais alta honra, patifes e inimigos de Deus.' 
Posso adicionar que a escolha popular é bem sucedida, naturalmente, onde nenhum outro governo existe, ou onde um governo existente se enfraquece. Onde quer que novos Estados tem sido instituídos, exceto pela conquista ou pela força, o primeiro governo sempre tem sido instituído pela escolha popular; e assim também onde a mais alta autoridade tem caído em desordem, quer pelo desejo de fixação de direito de sucessão, quer através de revolução violenta, sempre tem sido o povo que, através de seus representantes, reivindicou o direito de restaurá-lo. Mas com igual resolução, Calvino afirma que Deus tem o poder soberano no modo de administração de sua providência, para tirar de um povo esta condição mais desejável, ou nunca concedê-la absolutamente quando uma nação é inapta para ele, ou, por seu pecado tem sido completamente privada da benção." 

A Reforma foi muito abençoada até determinado momento; a liberdade civil e a prosperidade seguiram os rastros dos teólogos reformados ortodoxos. Contudo, há um grande perigo quando as leis de um povo não estão pautadas na Lei transcendente de Deus, e sim na soberania popular, que é o entendimento de democracia que vem sendo defendido especialmente no séc. XX. 

No paganismo do Império Romano, a soberania estava no Imperador. Na Baixa Idade Média, havia uma disputa entre o papado e os reis absolutistas por soberania. Na Reforma Calvinista, Deus é o soberano sobre o Estado e sobre a Igreja. A soberania popular nasce - para explicar de forma grosseira um processo histórico dono de certa complexidade - como uma proposta de defesa humanista contra a tirania e contra a soberania, tanto dos absolutistas quanto da igreja. Tornar-se-á evidente que esse conceito de democracia não pode ser considerado cristão, embora a liberdade civil seja cristã e a democracia americana tenha emergido como fruto de uma luta evangélica que deixou seus mártires. Margaret Thatcher, membro de uma igreja metodista, durante um discurso para a "General Assembly of the Church of Scotland", afirmou que

"Quando Abraham Lincoln falou em seu famoso discurso de Gettysburg em 1863 sobre "governo para o povo", ele deu ao mundo uma definição nítida de democracia que desde então tem sido selvagem e entusiasticamente adotada. Mas o que ele anunciou como uma forma de governo não era em si mesmo algo Cristão, já que em nenhum lugar na Bíblia a palavra 'democracia' é mencionada. Idealmente, quando Cristãos reúnem-se, como Cristãos, para tomar conselho juntos, seu propósito não é (ou não deveria ser) determinar qual é a mente da maioria, mas qual é a mente do Espírito Santo - algo que deve ser bem diferente."

Abraham Lincoln era um humanista. Seu governo foi marcante na história dos EUA por diversos motivos. Quando os revolucionários americanos construíram o sistema americano - que na verdade era, no período colonial, o modelo britânico de um sistema feudal -, influenciados pelos trabalhos de outros puritanos, incluindo John Knox, eles não tinham em mente a ideia de uma "soberania popular," mas o desejo da manutenção de uma ordem Cristã com liberdade civil diante de um Estado limitado. O Rev. John Cotton, um dos grandes fundadores do sistema americano, tornou básica para o governo colonial "a premissa que a lei e a ordem piedosa significam poder limitado e liberdade limitada." Mas o sistema americano foi paulatinamente subvertido durante os séculos.

A Constituição Americana foi escrita para um povo fortemente comprometido com o Cristianismo, e ela não tem estabilidade de outra forma. A limitação estatal era equilibrada pelo freio moral das igrejas locais. Na Reforma Calvinista, a liberdade civil era uma liberdade sob Deus, dentro dos limites da verdadeira religião Cristã, donde a Palavra de Deus soberana impunha as funções específicas para o Estado e para a Igreja, cada qual com seu limite. Mas para os revolucionários franceses, a liberdade significava outra coisa. Guillaume Groen Van Prinsterer, historiador calvinista e estadista holandês, percebeu, em seu livro "Incredulidade e Revolução", que a premissa das revoluções modernas é um conceito ateísta de liberdade. Não é de forma alguma uma liberdade Cristã, mas antes uma liberdade que finalmente rebelaria-se contra a própria ordem moral de Deus. Se o Rev. John Cotton enfatizava uma liberdade limitada e um poder limitado, as demandas humanistas pedem ao mesmo tempo uma liberdade ilimitada e um poder ilimitado, ainda que sua contradição seja explícita. O dualismo desses dois conceitos antitéticos de liberdade está fortemente presente nos debates atuais entre Conservadores e Liberais nos EUA. Os Conservadores buscam interpretar a Constituição Americana com a intenção original dos seus fundadores, cristãos. Os Liberais procuram interpretar a mesma Constituição removendo os conceitos originais dos termos nela escritos. Dessa forma, o atual presidente Barack Obama pode dizer que o casamento gay é coerente com os "ideais americanos," quando na verdade ele nunca foi pensado pela América cristã original.

Nesse contexto, R. J. Rushdoony, especialista na relação entre Igreja e Estado, tece uma pertinente crítica contra o conceito de democracia predominante hoje, mostrando que, uma vez que ela baseia-se na soberania popular, e não na soberania de Deus e de sua Palavra-Lei, ela torna-se ímpia, totalitária e uma maldição para os homens.

Por obedecer sumamente à "vontade do povo", a democracia não serve necessariamente ao princípio de justiça, mas transforma toda vontade da maioria em "justiça" e lei, enquanto a justiça objetiva, a verdadeira, simplesmente deixa de existir. Ela dá lugar à "justiça" relativa, fruto da convenção e conveniência humanas. Nesse modelo político, tudo aquilo que for contra a vontade do povo passa a ser considerado crime. O problema é que os homens são pecadores rebeldes, e, portanto, a vontade da maioria geralmente tende a harmonizar-se com a injustiça, não com a justiça. Dessa forma, a maioria pode decidir roubar a minoria e o roubo torna-se-á legalizado, como vemos no Socialismo.

Por causa dos princípios que norteiam a mentalidade humanista, toda noção objetiva de justiça passa a ser considerada injusta quando ela fere o conceito de liberdade autônoma do ateísmo e quando, consequentemente, fere a vontade "soberana" do indivíduo - que não é mais indivíduo, mas conjunto. É por isso que Deus é entendido como "opressor" por aqueles de mentalidade humanista, por trazer princípios de justiça que não são a vontade da maioria. O resultado é uma confusão sem fim. 

Um exemplo claro disso pode ser visto nas acusações lançadas pelo movimento LGBT contra o pastor pentecostal Silas Malafaia em março desse ano, na ocasião da campanha pelo boicote contra a marca de perfumes "O Boticário." Poucos meses antes, Elton John lançou uma campanha de boicote contra a marca "Dolce & Gabbana" por causa de uma declaração de seus donos - a saber, um "casal" homossexual - contra a adoção de crianças por "casais" gays. Mas para os que tomaram as dores do movimento homossexual, apenas Silas Malafaia pode ser considerado "opressor" e "antidemocrático", não Elton John. Para a maioria dessas pessoas, esse julgamento não é fruto de uma malícia política consciente, mas da conclusão de seus pressupostos. De fato, Saul Alinsky e outros ideólogos de esquerda inventaram a "tolerância intolerante" e muitos dos esquerdistas que sustentam esse discurso são realmente cínicos de marca maior, guardando em suas mentes o objetivo consciente de destruir a cultura ocidental. Para os demais, os idiotas úteis da rev. gramsciana, trata-se do pressuposto religioso do humanismo sendo exposto. Para eles, a liberdade autônoma é o únivo bem moral a ser preservado. A Lei de Deus, por limitar o comportamento humano, é, portanto, contra a vontade soberana do indivíduo livre, e contra seu poder de auto-determinação, que ascendeu mais fortemente desde o pós-Guerra com o existencialismo de Sartre. O Estado humanista é servo do indivíduo, ou da maioria, e todas as obrigações morais reais são anuladas em favor de uma demanda cada vez mais exaustiva de direitos, direitos e mais direitos. A premissa agora é: "seja feita a minha vontade." E essa vontade é a vontade de pecar. A democracia sem a orientação da Lei de Deus tende a transformar o pecado em lei. O homem deixa de ser responsável por seus atos e passa a ser vítima das condições externas, precisando do amparo do Estado, o justiceiro e justificador. Em outras palavras, o Estado é o messias do humanismo.

A democracia sem a soberania de Deus não apenas cria uma nova justiça, mas enxerga a si mesma como a encarnação da justiça. Ela é inimiga da Justiça de Deus e da ordem criacional, e os países que sustentam-na já estão sofrendo com a ira divina há algum tempo. Em nome da democracia, os revolucionários estão atacando a Igreja Cristã que a fundou. Eis o preço que a Igreja está pagando por ter abandonado a liderança intelectual no Ocidente e por ter se tornado irrelevante para a cultura. 

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Autor: Vitor Barreto
Fonte: Uma Visão Reformada
Imagem: The Forgotten Man - Jon McNaughton. Arte: Bereianos
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A Gênese da Revolução Civil - Uma Refutação a Olavo de Carvalho (Parte 1)

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Nosso problema básico hoje é que temos duas religiões em conflito, o humanismo e o cristianismo, cada um com sua própria moralidade e as leis dessa moralidade.” R. J. Rushdoony

Nos últimos dias, o meio evangélico brasileiro voltou sua atenção para as declarações do jornalista, ensaísta e professor Olavo de Carvalho nas redes sociais. Natural de Campinas, Olavo de Carvalho hoje mora na Virgínia, que faz parte do "Bible Belt", o cinturão bíblico dos Estados Unidos. Ele destacou-se em anos recentes especialmente por suas opiniões políticas. Suas últimas declarações, apimentadas por sua personalidade controversa, causaram desconforto e irritação entre os protestantes. Nosso propósito aqui será fornecer informações e elementos alternativos aos usados por Olavo de Carvalho, especialmente no ensaio “Herança de Confusõespublicado no Diário do Comércio no dia 8 de setembro de 2015, com algumas poucas referências a outras opiniões no mesmo contexto publicadas em sua comunidade no Facebook. A tese defendida por ele é que as liberdades modernas não são de forma alguma herança da Reforma Protestante, e que a Reforma na verdade seria a responsável pela divinização do Estado e muitos males modernos.

O primeiro erro visível no texto parece ser uma incompreensão ou negligência, tanto da diferença entre as cosmovisões luterana e calvinista quanto das consequências e desenvolvimentos heterogêneos da Reforma em cada país que alcançou, nos quais ela enfrentou problemas diferentes e encontrou estruturas políticas, sociais e tensões históricas também diferentes. Ademais, há a mais absoluta falta de referência ao contexto histórico e filosófico que precedeu a Reforma Protestante. Diga-se de passagem, a eleição da Reforma como "bode expiatório" dos católicos romanos não é uma opinião original, mas já sustentada há alguns séculos por católicos como o visconde de Bonald.

Contudo, a opinião historicista, que influenciou de Bonald e até mesmo Guillaume Groen Van Prinsterer, estadista holandês e precursor de Abraham Kuyper (embora Prinsterer tenha escrito trabalhos no intuito de refutar a acusação papista), não pode ser considerada suficiente ou adequada para explicar a complexidade do tema. Herman Dooyeweerd explica que "[se] identificamos o aspecto histórico com 'o que aconteceu', então esquecemo-nos de que os acontecimentos concretos exibem muitos outros aspectos que não são de caráter histórico. Consequentemente, a realidade é equiparada a apenas um de seus aspectos (o aspecto abstraído da ciência da História). Abandonamos então o motivo cristão da criação e nos tornamos historicistas." 

Mas, como Groen mostrou, o período anterior à Reforma já dá indícios que o secularismo e a Revolução Civil estavam vivos antes da Reforma Protestante, o que dificulta mais ainda a abordagem tradicional de muitos deles. Groen Van Prinsterer, em seu livro mais famoso, Incredulidade e Revolução”, nos dá algumas informações importantes:

"Pouco antes da Reforma, o cristianismo experimentava grandes doses de superstição acompanhada, como de costume, pela incredulidade. Aos eruditos interessava-lhes mais a mitologia grega do que as verdades cristãs. O brilho das cerimônias não podia esconder o espírito de dúvida e apostasia entre o clero corrupto. Em tempos como esses, um concílio viu-se na necessidade de proclamar a importância de crer na imortalidade da alma [Decreto do V Laterano, em 1513, contra o reavivamento do averroísmo aristotélico]. Isto necessariamente afetaria a lei constitucional. Primeiro na própria Roma. Seus ensinamentos sobre esse assunto nem sempre foram consistentes. Mas eles concordam em um ponto: os interesses e a supremacia da cadeira papal. A doutrina das duas espadas foi interpretada como se a espada espiritual fosse a usada pela igreja e a espada temporal, pelos soldados e governantes que dominavam como representantes da igreja, por seu mandato e permissão. Esta teoria continha a semente da incredulidade. Primeiro, moveu a soberania de Deus para a do Papa, convertendo o vicário em um rebelde, e o culto, em idolatria. Além disso, o que a igreja e o estado juntos reprimiram e coagiram a consciência provocou aversão à religião, e uma reação negativa à autoridade levou as pessoas a situações de perigo real. [...] A confusão na teoria leva ao caos na prática. O efeito prático da incredulidade é maior e mais geral do que se supõe. Alguns países gozaram de uma ordem aparente, que se manifestou e estabeleceu pela força arbitrária. Luís XI reprimiu com crueldade a seus súditos franceses. Henrique VII da Inglaterra pavimentou o caminho para o governo arbitrário de seus sucessores. A resposta de Carlos V na Espanha e nos Países Baixos à monarquia foi a supressão de todas as liberdades. Em terras germânicas, prevaleceu a anarquia. Pouca obediência inspirava o Imperador. Particularmente antes da Reforma, verificou-se uma terrível agitação entre os nobres, os camponeses e as pessoas das cidades. Por toda a Europa, as relações estavam por um fio, dava-se livre expressão às paixões, a liberdade foi além da legalidade e os estados foram atingidos por tumultos, se não pela insurreição. A tradição chegou a ser desprezada e o clamor por mudanças tornou-se universal. Essas eram as condições do cristianismo sob as doutrinas religiosas e políticas do papado, que não conseguiram curar ou proteger da enfermidade" (p. 99-101).


A desmoralização e a confusão eram generalizadas. Não apenas a igreja tinha problemas de corrupção, mas, devido aos problemas religiosos, políticos e filosóficos, o próprio povo tornara-se profundamente imoral e rebelde. Muitos dos problemas sociais vistos hoje também se faziam presentes na Baixa Idade Média. As universidades, embora criadas pela igreja, viviam em conflito com ela. Algumas mulheres tinham o propósito de seduzir jovens padres. Surgiram movimentos heréticos e de grande tensão apocalíptica, como os "adamitas", pregando o nascimento de uma nova era na qual o pecado haveria de ser definitivamente retirado do mundo, e, por essa razão, andavam nus. Franciscanos entraram em guerra entre si. O Franciscanismo radical, influenciado pelas ideias do monge Joaquim de Fiori, atacavam a estrutura da igreja na tentativa de produzir uma nova era. Os novelistas começaram a entender as paixões humanas como "naturais", e a fidelidade marital como meramente religiosa. Francis Schaeffer, por exemplo, fala sobre a ascensão do realismo e da natureza na arte, com Von Eyck, Masaccio e outros. Antes da Baixa Idade Média, a arte ocidental era basicamente simbólica. Cristo e Maria eram pintados sem realismo, em posições rígidas, quase sempre sem panos de fundo retratando a natureza. Mas com Filippo Lippi (1406-1469) e Fouquet (1416-1480), Schaeffer mostra como a "natureza" começou a ganhar atenção e a devorar a graça:


"Bem poucos anos antes, artista nenhum ousaria pensar em pintar Maria em moldes naturais – pintar-lhes-ia apenas um símbolo. Quando, porém, Filippo Lippi executou o quadro da Madona em 1465, a mudança que se patenteava era surpreendente. Retratava uma jovem extremamente formosa com uma criança nos braços e uma paisagem que sem dúvida fora grandemente influenciada pela obra de Van Eyck. Esta Madona já não era mais um símbolo remoto, distante, de cunho transcendente, era uma linda jovem com uma criança. Mas hã algo ainda que devemos saber acerca deste quadro. A jovem que representava Maria era nada menos que sua amante, fato conhecido de toda Florença. Ninguém teria ousado fazer isso alguns anos antes. Na França, Fouquet pintou, por volta de 1450, a amante do rei, Agnes Sorel, como Maria. Todos quantos conheciam a Corte de perto, vendo o quadro, sabiam tratar-se da então amante do rei. Ademais, Fouquet pintou-a com um dos seios a mostra. Enquanto nos tempos precedentes a representação de Maria amamentando o menino Jesus, agora era a amante do rei, com um seio à vista – e a graça estava morta!" (A Morte da Razão, p. 6 e 7).


Em todos os lugares era possível perceber como o cristianismo começara a dividir espaço com a cultura pagã romana e grega. No teto da Capela Sistina, no Vaticano, pintada por Michelangelo, as profetisas pagãs como a Sibila Délfica, Cumana, Eritréia e Líbica dividiam espaço com os profetas do Antigo Testamento. Os escritos de Dante apresentaram a mesma hibridização. No campo filosófico, uma grande síntese entre o cristianismo e Aristóteles começou a ser feita por Pedro Abelardo (m. 1142) e seu pupilo Pedro Lombardo (m. 1160), cujos Quatro Livros das Sentenças tornaram-se padrão para estudo, sendo, inclusive, alvo de crítica pelos reformadores.


A autoridade da igreja de Roma estava em crise inclusive dentro de seus próprios portões. No século XI, os papas quiseram afirmar seu poder secular, enfraquecido pelo feudalismo. Era o Curialismo, que tem sua raiz na carta do papa Gelásio I ao imperador Anastácio (494), e donde nasceu a teoria das duas espadas, conforme anteriormente citada por Groen. Em 1075, o papa Gregório VII lançou o Dictatus Papae, documento no qual reivindicava, por exemplo, que o papa "é o único que deveria ter os pés beijados por todos os príncipes”. Pouco depois, Inocêncio III viveu o auge do papado, vivendo os ditames de Gregório, afirmando que o papa ocupava uma posição intermediária entre o divino e o humano – “inferior a Deus, porém superior ao homem”. E Bonifácio VIII, em sua bula Unam Sanctam (1302), definiu que “para a salvação, é necessário que toda criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano”. A morte do papa Bonifácio VIII marcou a decadência desse poder soberano e iniciou aquilo que ficaria conhecido como o Cativeiro Babilônico do papado (1309-1377), quando o papa ficou exilado em Avinhão. Entre 1378 e 1417, aconteceu o Grande Cisma do Ocidente, quando, durante algum tempo, dois, e depois três papas, alegaram simultaneamente ser o cabeça supremo da Igreja. Dante, a quem nos referimos agora há pouco, colocou Bonifácio num dos mais baixos círculos do inferno em sua obra magna, “A Divina Comédia [Inferno]”, junto a dois outros papas simoníacos maculados pela soberba do Curialismo de Gelásio I (494), que reivindicava poder sobre ambas as esferas temporal e espiritual. Dante escreveu que, “[…] visto que a Igreja procurou ser dois governos ao mesmo tempo, ela está afundando muito, conspurcando tanto seu poder quanto seu ministério”.  

No início do século XV, mais perto de Martinho Lutero, as demandas por uma reforma na igreja eram enormes. Da crise do Grande Cisma do Ocidente surgiu o Conciliarismo, que afirmava a superioridade dos concílios ecumênicos sobre o papa no governo e na reforma da igreja, no caso deste cair em heresia ou tomar atitudes contra a integridade da Igreja. Grandes implicações políticas eram trazidas nessa visão. Ela não queria abolir o papado, mas declarar que a plenitudo potestatis, a “plenitude do poder”, residia somente em Deus. A soberania seria cambiada. O papa Pio II, em 1460, enterraria completamente o movimento com a bula Execrabilis, ameaçando de excomunhão todos que tentassem burlar seu decreto. Anulavam-se as tentativas de reforma por outros meios senão pela autoridade papal. Ressurgia assim a monarquia papal e o papado fechava os ouvidos para os clamores por reforma. O papado reivindicava a soberania intramundana do paganismo para si, em vez de combatê-la como fizeram os primeiros cristãos dentro do Império Romano. Gregório XII disse que “Eu sou o papa, e não preciso do conselho de ninguém. Sim, eu estou acima da lei, e vocês devem conformar-se às minhas decisões." [Herbert B. Workman, The Dawn of the Reformation, vol. II, The Age of Hus (New York, NY: AMS Press, [1902] 1978), 68. Sov. 51]

Em 1440, o humanista Lorenzo Valla provou a falsidade de alguns documentos papais, conhecidos hoje como "Falsa Doação de Constantino" e as "Falsas Decretais de Isidoro". Alguns governantes já confiscavam terras da igreja. Eles preferiam uma igreja corrupta e fraca para assegurarem seu próprio poder. E devemos nos atentar ao fato de que o próprio poder secular já começava a questionar e rebelar-se contra a autoridade da igreja de Roma, uma vez que ansiavam por uma igreja sob controle (por exemplo, o Galicanismo na França). Rousas J. Rushdoony, também historiador, falou a esse respeito:


"O reino do Vaticano progressivamente tornou-se administração, arquitetura, arte, e, com o tempo, estado papal. Era mais fácil para os papas ser cabeças do estado do que de uma igreja que ameaçava reis com ultimatos morais. Uma Europa Erastiana estava em construção, uma em que o estado controlou a igreja dentro de seus domínios. Na Inglaterra, em 1514-1515, as pessoas de Londres manifestaram-se contra a igreja por causa do assassinato de Richard Hunne, considerado herege, na prisão do bispo em Saint Paul. Charles VIII, Louis XII, e outros monarcas franceses eram campeões de uma igreja Galicana, uma controlada por eles, não pelos papas, e aos católicos da Espanha não era permitido um apelo ao papa, contra o rei ou contra a Inquisição do rei. Antes, Ferdinando e Isabella haviam sido 'vigorosamente Erastianos'. Maximiliano I (1459-1519) esperava ganhar o trono papal depois da morte do papa ou pela deposição dele. Todos esses homens confiscaram propriedades e bens da igreja quando lhes aprouve fazê-lo. Estes eram 'bons católicos' que fizeram tanto dano à igreja quanto Henrique VIII. Thomas More, um 'bom católico' posteriormente feito santo, aconselhou Henrique VIII a tomar os mesmos passos aos quais ele opôs-se posteriormente. […] A Renascença estava ansiosa com a tradição, mas não a tradição cristã, e sim aquela da antiguidade pagã. Lorenzo Ghiberti deixou transparecer algum ressentimento pelo triunfo do Cristianismo. A arte começou a perder seu panorama e referência sobrenatural, e, progredindo na arte renascentista, ‘não há referência além do que nós vemos’”  (Sovereignty, p. 261-262).


Como pode, pois, a Reforma Protestante ser a causa de um fenômeno que lhe precede, ainda que tal tendência só tenha assumido uma forma consistente posteriormente, com o Iluminismo? Como a Reforma pode ser causa para a Revolução Civil se essa começou a tomar forma antes de Lutero nascer? É necessário, portanto, buscar a verdadeira causa da transformação do "homem cristão" em "homem civil".


JOAQUIM DE FIORI E A TENSÃO ESCATOLÓGICA

O abade Joaquim de Fiori (m. 1202), monge cisterciense, é muito pouco conhecido, especialmente entre os evangélicos. Eric Voegelin, de quem trataremos adiante, citado por Olavo de Carvalho em seu ensaio no Diário do Comércio, cita-o diversas vezes como uma das figuras-chave para o entendimento das tensões escatológicas que marcam as revoluções modernas. A interpretação agostiniana da estrutura da história, tendo marcado a Idade Média até aquele momento, chegava ao ocaso. Joaquim dividiu a história em três eras, associadas às três pessoas da Trindade através de uma interpretação simbólica que é inaceitável do ponto de vista da Reforma Protestante, mas não incomum naquele período. A Primeira Era (ou Reino), a Era do Pai; a Segunda Era, a Era do Filho, que começou com o advento do Cristianismo até o ano 1260, segundo os cálculos de Fiori; e a Terceira Era, por vir, a Era do Espírito Santo. Essa Terceira Era seria anunciada pelo aparecimento de uma nova ordem de homens espirituais descalços, que se oporiam à falsa autoridade da igreja e abririam caminho para um milênio de paz entre as nações e as religiões que duraria até o juízo final. [Eric Voegelin, A Nova Ciência Política, p. 88-89]

O pensamento fioriano invadiu a Igreja a tal ponto que Inocêncio III subscreveu-a, quando o papado viveu uma grande concentração de forças, tanto na Igreja quanto no Estado. Frederico II (1194-1250), um dos maiores imperadores de todos os tempos, também foi influenciado pela profecia fioriana. Frederico viu-se como o grande fundador dessa Terceira Era, de maneira que ele estava então acima do bem e do mal, e além da religião, que seu Império tentou eliminar as diferenças, por exemplo, entre muçulmanos e cristãos. As Cruzadas contra islâmicos aconteceram antes de Frederico II, no entanto, ele negociou com os muçulmanos e conseguiu reabrir Jerusalém para os cristãos, já que, conforme dito, ele se encontrava além da religião. É interessante que Frederico II tenha chamado sua cidade natal de Nova Belém. Dante Alighieri, citado por Voegelin [p. 82], também aderiu a esta Terceira Era. Hoje, é claro, ele é visto como um poeta muito devoto ao catolicismo romano. Em “Monarquia”, há certa confusão neste ponto:

"Todas estas ações são servas da especulação, bem supremo, para o qual a Bondade Suma criou o gênero humano. Bastante se insistiu já sobre este ponto: a tarefa própria do gênero humano, tomado na totalidade, é de pôr continuamente em ato toda a potência do intelecto possível, em vista, primeiro, da especulação, em vista da prática, e por via de consequência, depois. […] Viu-se que o meio mais imediato para chegar ao fim supremo é a paz universal. […] Mas o gênero humano tanto mais imita Deus quanto mais se unifica, dado que a razão verdadeira da unidade apenas em Deus se encontra.”

Escreve ele em termos bem escolásticos. Dante já vislumbra o objetivo civilizacional além dos objetivos nacionais, locais e familiares, e estabeleceu a necessidade de uma Monarquia sobre o mundo, para assim estar submisso a Deus. Nas palavras dele, "toda a humanidade se ordena a um fim único. É preciso, então, que um só coordene. Tal chefe deverá chamar-se o monarca ou imperador. Torna-se evidente que o bem-estar do mundo exige a Monarquia ou Império."


Não vemos aqui nada além do propósito da Organização das Nações Unidas, e da salvação pela lei e pela razão prática, não pela graça mediante a fé. Dante continua: "Viu-se que o meio mais imediato para chegar ao fim supremo é a paz universal. […] Se consideramos o homem, verificamos que, porque todas as suas forças se ordenam à felicidade, importa que todas sejam dirigidas e reguladas pela inteligência. […] Resulta que toda a razão das coisas ordenadas a um fim se deve colher no mesmo fim” – ou seja, a paz deve ser buscada como meio para atingir o fim da paz. Se a fé não é importante, a coexistência o é. A fé cristã nessa obra foi substituída pela teologia natural. A Teologia Liberal, que enfraqueceu severamente o protestantismo, é apenas um tipo moderno de Teologia Natural, como Karl Barth notou. Dante elege o Monarca como o ordenador mundial, não a fé cristã, embora cite as Escrituras algumas vezes, com clara descontextualização. Ademais, seu conceito de felicidade é o mesmo de Aristóteles. Mostra-se aqui o padrão moral humanista, que utilizaria a Lei Natural de Tomás de Aquino como substituto para a religião na política, como veremos a seguir. Foi uma conclusão lógica para os humanistas o entendimento de que, se existem muitos povos com crenças diversas, a lei deveria basear-se na natureza, naquilo que eles têm em comum. Ainda para Dante, o Bem da unidade é maior do que o Bem das partes. Se a unidade consiste no Bem Supremo, aqueles que promovem divisão são, portanto, maus, porque são contra a unidade. Por isso ele povoou o inferno com muitos papas e clérigos. As diferenças doutrinárias, assim, tornam-se más e motivo de divisão como uma conclusão lógica desse pensamento. Finalmente, o objetivo do Império na visão dantesca é a perfeição da raça humana. Isso não soa marxista? Ou nazista? Mais clareza nesse aspecto podemos ver ainda no capítulo XV do seu Purgatório, no qual um anjo diz: "Mas se o amor da esfera suprema elevasse o desejo de vossos corações, não terias no peito tal temor, pois quanto mais existissem pessoas que pudessem falar “nosso” ao invés de “meu”, mais cada um iria possuir de bem." [p. 48]. Rushdoony é categórico em dizer que a Divina Comédia é a história da salvação política.

Voegelin notou quatro símbolos pertinentes na filosofia da história de Joaquim de Fiori que ecoam pela modernidade: (1) a concepção de história como uma sequência de eras; (2) o líder da Nova Era, o Dux; (3) o profeta dessa nova era; e (4) a irmandade de pessoas autônomas.

O primeiro pode ser reconhecido na teoria de Turgot e Comte sobre a sequência das fases teológica, filosófica e científica, bem como na dialética hegeliana. O segundo foi reconhecido na pessoa de S. Francisco de Assis pelos próprios franciscanos. Dante especula em sua obra “A Divina Comédia” sobre quem seria o Dux. O terceiro símbolo poderia incluir o próprio Joaquim de Fiori. O quarto, por sua vez, seria representado por uma comunidade de perfeição espiritual que aboliria qualquer necessidade institucional, e é exatamente a meta comunista.

Algumas acusações de Voegelin contra a Reforma serão discutidas num tópico à parte no transcorrer deste texto. No momento, vamos atentar para algo que os inimigos da Reforma convenientemente se esquecem de mencionar quando usam Voegelin como argumento: a figura de Francisco de Assis como o Dux, o Líder, da Nova Era.

Em nenhum momento, pois, foi necessário citar a Reforma Protestante como causa das conclusões acima.

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Autor: Vitor Barreto
Divulgação: Bereianos

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A Gênese da Revolução Civil - Uma Refutação a Olavo de Carvalho (Parte 2)
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