Como Deus fala conosco?

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Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1,2)

Introdução

Quando perguntamos “como Deus fala conosco?” diversas respostas podem ser formuladas. Por exemplo, se olharmos para o texto bíblico acima, algumas respostas já podem ser dadas. Ao consideramos a progressividade do Antigo Testamento vemos em algumas passagens Deus falando de forma audível, usando um anjo, os profetas ou até mesmo com o próprio dedo.

Feliz Dia da Reforma!

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Estou vendo alguns posts sobre o Dia da Reforma e decidi tomar um tempinho para escrever alguns de meus pensamentos.

Todos nós sabemos que a escolha da data de 31 de Outubro de 1517 é (como a maioria das datas na história) arbitrária. É claro, você pode identificar 7 de Dezembro de 1941 com o Pearl Harbor porque foi um evento específico, mas (ainda assim) muitas coisas contribuíram para que ele acontecesse naquele dia. A data que escolhemos para o início da Reforma é ainda mais subjetiva. Isso porque era necessário muitos e muitos fatores para que a Reforma pudesse acontecer, e esses fatores tiveram raízes nos séculos que precederam as ações de Lutero.

Duvido, ainda mais, que Lutero colocaria algum peso sobre essa data em específico. Bem, é claro que ele veria alguma relevância sobre o desafio que havia lançado, mas não mais do que em qualquer um dos outros eventos de sua vida. Ele não tinha intenção alguma de criar uma rebelião contra Roma por suas ações, ele estava apenas fazendo o que a maioria dos professores na Europa faziam naqueles dias: convidando uma escola rival a uma versão escolástica de um jogo moderno de futebol. Em sua mente ele estava seguindo os passos de outros homens piedosos da igreja, e, nesse exato momento, ele ainda não havia reconhecido as questões epistemológicas básicas que ele haveria de ser forçado a encarar em apenas uma questão de anos.

Mas é certo sim marcar o início da Reforma (ainda que façamos isso de forma arbitrária). Poderíamos ter voltado até Wycliffe, ou ter escolhido 6 de Julho de 1415 e a morte de João Huss (pois sua morte teve muita importância). Poderíamos ter ido até a divisão entre Zuínglio e Roma ou a Dieta de Worms e o “Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa”. Em todo caso, parece adequado marcar o evento (ao menos para uma pequena minoria).

Para a maior parte do Romanismo e Protestantismo, a Reforma é um evento histórico sem qualquer significado duradouro. Para muitos, na verdade é um trágico evento, um erro, digno de arrependimento de seus adeptos e de repúdio pelos outros. Mas para a maioria é apenas uma nota de rodapé na história e, dada sua teologia e prática, não possui significado duradouro. Entre esses estão os católicos nominais que provam, por suas vidas, que eles realmente não acreditam na maioria das coisas que Roma ensinou. Mas também estão aqueles que são protestantes por conveniência e não por convicção. Para eles a Reforma claramente não apresenta qualquer razão para se celebrar ou refletir nos dias de hoje. Se alguém não aprecia a liberdade que a justificação garante, não se alegra com a imputação da justiça de Cristo (saiba que muitos dos grandes nomes de hoje da “cristandade não-católica” riem disso) e não abraça e confessa o Sola Scriptura, esse alguém não tem razão alguma para refletir sobre o Dia da Reforma (seria melhor ir comprar doces e se juntar às festividades pagãs).

Mas para aqueles que ainda abraçam aos Solas não por uma fidelidade partidária ao que é “legal”, mas por um reconhecimento do eterno valor que essas verdades representam, o Dia da Reforma é um lembrete anual do que realmente importa nesses dias de “verdades” borradas e transitórias. Então, para aqueles que entendem isso, um feliz Dia da Reforma!

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Autor: James R. White
Fonte: Página do autor no Facebook
Tradução e adaptação: Erving Ximendes
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Zwinglio e a sua importância para a Reforma Protestante

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Neste ano, em comemoração aos 500 anos da Reforma, Lutero e Calvino são figuras que serão lembradas por sua imensa contribuição a causa. Sem dúvida, são os grandes nomes do que veio ser posteriormente chamado de protestantismo, todavia, outros homens também têm a sua importância. Dentre eles um que foi contemporâneo de Lutero e que antecedeu Calvino ao levar os postulados reformados à Suíça. Este homem foi Ulrico Zwinglio.

Nascido em 1º de janeiro de 1484 — apenas dois meses após o nascimento de Lutero — na vila de Wildhaus, no Cantão de St. Gall, nordeste da Suíça, sendo o terceiro filho de uma família com sete irmãos e duas irmãs. Sua educação foi a melhor possível, lhe conferindo um altíssimo nível acadêmico. Estudou na Universidade de Viena e na Universidade da Basileia. Foi instruído em latim, música, dialética, filosofia escolástica, astronomia, física e os clássicos antigos. Influenciado pelo movimento humanista, bastante popular entre os eruditos de sua época, tornou-se Mestre em Artes no ano de 1506, com apenas 22 anos de idade. Músico talentoso, tocava alaúde, harpa, violino, flauta, gaita de foles e trompa de caça.

Após atingir o grau de mestre, Zwinglio foi ordenado ao sacerdócio. Tornou-se pároco na cidade de Glarus, onde serviu como pastor e se colocou contra os mercenários, homens que por dinheiro se alistavam em exércitos estrangeiros. Mudou-se então para Einsiedeln em 1516 e dois anos mais tarde para Zurique. Ainda em Einsiedein, tomou conhecimento de Erasmo de Roterdã e através da sua tradução grega do Novo Testamento passou a pregar sermões que iam contra muitas práticas da Igreja Católica Romana, sobretudo a venda das indulgências, condenadas por Zwinglio antes mesmo de Lutero se opor a elas. Zwinglio e Erasmo acabaram se tornando amigos, embora o semipelagianismo, defendido por Erasmo, tenha sido rejeitado pelo reformador suíço.

Mesmo sendo um erudito e tendo uma experiência pastoral por anos, Zwinglio tinha uma mente humanista e seu cristianismo era de assentimento intelectual. Durante esse tempo, caiu na prática da fornicação, e anos mais tarde, arrependido deste pecado, ainda sentia a afetação de sua vida pregressa. A conversão de Zwinglio se dá paulatinamente, quando o mesmo se torna sacerdote na principal igreja de Zurique. Cada vez mais discordante das doutrinas papais e mergulhando na Escritura para rebater os papistas, Zwinglio tornou-se um expositor bíblico e sua exposição contínua do Novo Testamento, que durou quatro anos (só deixando de explanar o Apocalipse) foi lhe impactando, vendo a necessidade de ter uma fé cada vez mais pura e centrada na Escritura. Assim como o culto também deveria refletir esta mesma pureza.

Após ter sido curado de uma peste, Zwinglio adota uma postura mais sistemática como reformador. O cristianismo, que já estava em sua cabeça, havia descido ao coração, fazendo com que ele buscasse apaixonadamente purificar a Igreja das tradições não escriturísticas. Liderando um grupo ávido por reforma, Zwinglio convocava os magistrados da cidade e expunha os erros doutrinários do catolicismo romano. Os magistrados, por sua vez, organizavam um debate com a presença de um sacerdote católico, e os argumentos deveriam ser retirados apenas da Escritura. Assim a Reforma foi avançando na Suíça, pois os debates eram facilmente vencidos, e práticas tais como a quaresma, o celibato obrigatório, o jejum como penitência e devoção as imagens foram abolidas, tidas como sendo não bíblicas. Além disso, a Bíblia passou a ser traduzida para o vernáculo. Nem sempre Zwinglio era o principal debatedor, mas ele estava envolvido em todas as disputas e num período de sete anos, em 1530, Zurique, Berna, Basiléia e a maioria do norte e leste da Suíça romperam com o catolicismo romano. Incluindo Genebra, cidade que posteriormente influenciou outros países e a partir do ministério de João Calvino e da Academia por este fundada, levou as doutrinas reformadas para toda a Europa.

Graças a estes debates, temos a primeira confissão de fé reformada, que são os Sessenta e Sete Artigos de Fé escritos por Zwinglio, redigida antes do embate em Zurique (1523). Eis alguns trechos:

“Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja, erra e blasfema contra Deus”.
“Que Cristo é o único eterno sumo sacerdote; disto nós deduzimos que todo aquele que pretende ser sumo sacerdote se opõe à honra e poder de Cristo; de fato, ele o rejeita”.
“Tudo que Deus permite ou que ele não proibiu é permitido. Disto nós aprendemos que é próprio para qualquer um se casar”.
“As verdadeiras Escrituras Sagradas nada sabem de um purgatório após esta vida”.
“Todos os superiores clericais devem se humilhar instantaneamente e levantar somente a cruz de Cristo, e não a caixa de dinheiro. Do contrário eles perecerão; o machado é deitado na raiz da árvore”.

O que hoje soa com certa normalidade, na época foi muito ousado, pois, ir de encontro à doutrina da infalibilidade papal era digno de excomunhão e martírio. Outro documento importante, elaborado nesse mesmo contexto são as Dez Teses de Berna (1528), quando a cidade adota as premissas reformadas. Vejamos algumas das teses adotadas:

“A Igreja de Cristo não pode fazer nenhuma lei ou mandamento aparte da Palavra de Deus. Deste modo, as tradições humanas não devem ser-nos exigidas se elas não estiverem fundamentadas na Palavra de Deus”.
“Que o corpo e sangue de Cristo é recebido, essencialmente e corporeamente, no pão da Eucaristia é impossível de se provar a partir da Escritura Sagrada”.
“A adoração de imagens é uma prática contrária à Escritura, tanto nos livros do Antigo como no Novo Testamento. Deste modo, como as imagens desonram a si mesmas, e são um perigo, deveriam ser abolidas como objetos de adoração”.

Como podemos ver, a sua influência foi gigantesca, todavia, sua ação como reformador foi interrompida quando morreu numa batalha envolvendo católicos e protestantes. Hanko descreve como se deu a sua morte, em 1531, quando tinha 47 anos de idade:

Zwinglio estava se inclinando para consolar um soldado morrendo, quando foi atingido na cabeça com uma pedra. Ele conseguiu se levantar mais uma vez, mas repetidos golpes e um ferimento de lança deixaram-no morrendo. Vendo suas feridas, ele gritou: “O que importa esta desgraça? Eles podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. Pelo resto do dia ele ficou deitado debaixo de uma árvore de peras, com as mãos postas como em oração e os olhos fixos no céu. No final da tarde alguns soldados dispersos do exército vitorioso pediram-lhe para confessar seus pecados a um padre. Ele balançou sua cabeça indicando sua recusa. Porém, pouco depois um dos homens, à luz da sua tocha, o reconheceu e o matou com a espada, gritando: “Morra herege obstinado!”.
Alegres com sua morte, os soldados esquartejaram seu corpo, queimaram os pedaços por heresia, misturaram as cinzas com as cinzas de porcos, e as espalharam aos quatro ventos. Assim morreu uma das fiéis testemunhas de Deus.

Mesmo tendo sido um importante reformador, Zwinglio tende a ser subestimado e quase sempre é retratado em poucas páginas nos livros que tratam da história da Reforma. Geralmente, ele é citado à sombra de Lutero, sobre a controvérsia da Ceia. Enquanto o reformador alemão ensinava a consubstanciação - a presença de Cristo nos elementos - o reformador suíço defendia um caráter memorialista. Talvez George (1994) esteja certo ao dizer que

As razões dessa desatenção são óbvias. Zuínglio compôs todos os seus escritos reformados apressadamente, em menos de uma década. Foi ofuscado durante sua vida pelo grande Lutero e sucedido pelo mais eficaz Calvino, que impeliu um estudioso a conferir-lhe o título de “terceiro homem” da Reforma. Zuínglio nunca escreveu nada comparável às Institutas. A maioria de seus sermões foi entregue improvisadamente; apenas alguns foram revisados mais tarde para a publicação. Da mesma maneira, suas conversas informais perderam-se para a posteridade, por falta de admiradores devotados que anotassem cada palavra sua.

Mas, apesar de não ter a mesma reputação de Lutero e Calvino, não ter gerado um segmento teológico que levasse seu nome e ter uma compreensão não ortodoxa em algumas doutrinas, tal como a ideia de que pode haver salvação entre pagãos que desconhecem o evangelho por completo. Zwinglio é um gigante da fé e merece ser assim lembrado nos anais da eclesiologia protestante, pois foi um pioneiro da tradição reformada.

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Referências:
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HANKO, Herman. Retrato de Santos Fiéis. Fireland, 2013.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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A Bíblia Aberta: Herança da Reforma

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Quando penso sobre a história do cristianismo, uma palavra sempre vem à mente: a palavra Zelo. O zelo pela Palavra de Deus que os cristãos tiveram para conservá-la cara e pura para que hoje pudéssemos conhecer o Caminho, a Verdade e a Vida Eterna. Mas percebe-se que o zelo varia no decorrer das épocas.

As Escrituras Sagradas são a pura e autêntica revelação da Palavra de Deus aos homens. Aos cristãos cabe o zelo de defendê-la, examiná-la, nela perseverar para que nos seja útil e nela nos seja revelado o caminho da Salvação.

O Zelo estava presente entre os apóstolos e a igreja apostólica quando perseveravam na doutrina. Mas os anos foram passando e o zelo dos cristãos diminuiu. Os homens, assim como Adão já fizera, ousaram ser iguais a Deus. Com as Escrituras fechadas passaram a promulgar "revelações", que se tornavam doutrinas. O zelo pela Palavra esvaziou e a ousadia em "revelar" chegou ao ápice quando as tornaram doutrina com a mesma autoridade da Bíblia, e, por vezes, até superior. Assim, aos poucos, a Bíblia fechada deu espaço às "revelações de doutrinas" promulgadas com fins humanos, pecaminosos e interesseiros atendendo aos anseios de poder e à astúcia política, chegando-se ao extremo de vender perdão dos pecados e o próprio céu como hoje se vende ingressos de cinema ou teatro.

Entretanto, a Palavra de Deus continuava viva e eficaz como espada de dois gumes. Ela não transformava corações e vidas porque estava fechada e inacessível às pessoas. Foi por causa dos interesses heréticos da cúpula da igreja que a Bíblia foi isolada do povo para que ninguém se "tornasse sábio para a Salvação" (1 Timóteo 3.15).

Mas a Igreja do Senhor Jesus tinha a promessa: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mateus 16.18). Deus sempre manteve homens fiéis às Sagradas Letras, e, ainda, em tempo oportuno, usou de forma especial seus homens de fé para colocar a Bíblia de volta ao Púlpito, tornando-a o centro da igreja cristã. Para tanto usou homens de diferentes épocas, culminando no Dr. Martinho Lutero, quando desencadeou-se o movimento que conhecemos como Reforma Protestante (31/10/1517).

Foi em Lutero que a Bíblia passou a ser um livro aberto para o povo, quando fez a tradução para a sua língua nacional (Novo Testamento, em 1521, e a Bíblia completa, em 1534). As Escrituras foram colocadas à venda através da recém descoberta imprensa, por um custo 280 vezes menor do que as Bíblias latinas manuscritas. Para Felipe Melachthon, "a tradução da Bíblia foi uma das maiores maravilhas que Deus realizou por intermédio de Lutero, antes do fim do mundo".

O crescimento e a força de retorno às Escrituras não foi mérito isolado da retórica, perspicácia e argumentação dos reformadores (Lutero, Melanchthon, Calvino, Zwinglio e outros) que deram o impulso da recristianização do povo. Foi a Bíblia aberta e compreensível que tornou o povo "sábio para a Salvação". É claro que existiu ambiente político, social e religioso favoráveis, mas a Bíblia aberta nas mãos do povo é que fez a diferença, pois a Bíblia é Deus falando aos corações das pessoas.

O que me preocupa é que hoje o filme começa a se repetir. Estão se proliferando instituições religiosas que, em nome da espiritualidade dos seus líderes, fecham as Escrituras para receberem revelações através da oração, da meditação ou diretamente do Espírito Santo. Em geral faltam critérios e não há quem "examine as Escrituras" para comprovar a veracidade. A Igreja Medieval também não teve a intenção de se afastar da verdade, mas quando a Bíblia foi fechada para serem ouvidas "palavras santas" ditas por "homens de fé", a igreja entrou em decadência. Hoje corremos este risco, pois, além de certas revelações tornarem-se ensino de igrejas, já surgem instituições que detêm ao seu líder o privilégio do contato com Deus e a revelação a ser seguida. Isto, sem contar que muitas doutrinas são ensinadas sem qualquer fundamento bíblico.

Amados pastores e leigos em geral, a nossa preocupação não questiona o poder do Espírito Santo e suas manifestações, pois isto é bíblico, mas chamamos a atenção ao que se faz e atribui ao Espírito Santo para alimentar poder e pensamento de homens. O Espírito, que continua o mesmo, não contradiz a revelação dada à cristandade – A Bíblia. Surgem doutrinas e preceitos sem fundamentação bíblica, ditados em nome de revelações sobrenaturais. Penso que se evidencia a advertência do apóstolo Paulo: "Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho" (Atos 20.29). A Bíblia fechada e homens loquazes são instrumentos importantes para Satanás perturbar a igreja cristã.

Zelemos pela revelação Bíblica, devolvida ao povo com a Reforma; ela é a Herança dos Céus para a Salvação da Humanidade (Jo 20.30,31). Nesta obra não estamos sozinhos nem isolados, mas esta é uma obra própria de Deus para que as portas do inferno jamais prevaleçam contra a Igreja. O discernimento é um Dom de Deus que ele nos dará para o bem da igreja.

Para nós dirige-se a Palavra: "Vigiai e Orai" (Mateus 26.41) e a promessa: "Estarei convosco" (Mateus 28.20).

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Autor: Rev. Airton S. Schroeder
Fonte: Presbiterianos Calvinistas
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Lutero e o Ensino da Depravação Total

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Quando Lutero, no século XVI, deu início ao que ficaria conhecido por Reforma Protestante, ele foi completamente impactado pelo seguinte verso, presente em Romanos 1:17: “O justo viverá pela fé”. Foi com esta palavra que o “papado” começou a morrer dentro daquele monge alemão, que também havia se tornado um excelente professor de exegese, em Wittenberg.

A justificação pela fé, para Lutero, era o resumo de toda a doutrina cristã. Os méritos humanos não são capazes de tornar nenhum ser humano justo diante de Deus. Lutero acreditava no que veio a ficar conhecido por Depravação Total (DT). Essa depravação havia tomado o homem na queda. Na sua antropologia, Lutero afirma que nós somos possuidores de corpo e alma vivente, sendo que o pecado afetou tanto um como o outro. Para o reformador alemão, portanto, já nascemos com os desejos maus enraizados em nossos corações. Essa foi uma das grandes controvérsias que Lutero teve com o humanista Erasmo de Roterdã.

Igualmente, a teologia luterana contemplava um homem que peca por já ser um pecador, e não que se tornava um à medida que cometia os seus delitos. Lutero explica, ainda, que o pecado original está encravado em cada pessoa, de forma que não podemos nos desatrelar dele. Por esta razão é que o pecado é pessoal e natural. O ser humano é um ser corrompido, envenenado e pecaminoso. Os efeitos contidos na queda e a herança que ela relegou a todos os humanos fizeram com que Lutero escrevesse a seguinte pérola:

Assim, Adão e Eva eram puros e saudáveis. Tinham uma visão tão aguçada que podiam enxergar através de uma parede e ouvidos tão bons que podiam ouvir qualquer coisa a 3 km de distância. Todos os animais eram-lhes obedientes: até mesmo o sol e a lua sorriam para eles. Mas depois o diabo veio e disse: “Vocês se tomarão como os deuses”, e assim por diante. Eles pensaram: “Deus é paciente. Que diferença faria uma maçã?”. E num estalar de dedos ela estava diante deles. E isso ainda nos está pendurando a todos pelo pescoço.[1]

Embora esta citação possua linguagem especulativa quanto às façanhas físicas do homem antes do lapsus, ela ilustra muito bem o entendimento luterano acerca da DT. A sua concepção de depravação está atrelada com o seu ensino acerca da justificação. Desta forma, para o reformador, Deus aceita a justiça de Cristo, por isso, mesmo os nossos pecados não sendo removidos, eles não são mais denunciados contra nós. Esta é a clássica diferença entre o “tornar justo”, defendido por Agostinho, e o seu “declarar justo”. A justificação ocorre pela fé, somente, e quem a recebe passa a ser, ao mesmo tempo, justo e pecador. Sobre este paradoxo, Lutero afirma:

Somos verdadeira e totalmente pecadores, com respeito a nós mesmos e ao nosso primeiro nascimento. Inversamente, já que Cristo nos foi dado, somos santos e justos, totalmente. Então, de diferentes aspectos, somos considerados justos e pecadores ao mesmo tempo. Assim, podemos concluir que Lutero aniquilou a teologia romanista da salvação meritória, ao doutrinar que a justificação se dá somente pela fé. Também podemos celebrar o seu legado na luta contra a falsa doutrina do livre-arbítrio.[2]

Entendida a capacidade vinda de Deus para tomar decisões ordinárias, resta evidente que, para cumprirmos as responsabilidades no mundo, o livre-arbítrio permanece. O que ele é incapaz de realizar é fazer com que o homem salve a si mesmo. Nesse sentido, o livre-arbítrio está totalmente corrompido, tornando-se, assim, escravo do pecado e do próprio Satanás. Essa vontade escravizada nos faz desejar o que é mau. Apenas com o auxilio da Graça somos libertos. A tragédia da existência humana se resume no fato de que o homem não regenerado se considera livre, e, deste modo, se entrega cada vez mais àquilo que o aprisiona. Esse trágico quadro que Lutero pintou resume o seu ensinamento a respeito da DT e leva-o ao entendimento da salvação mediante a graça: “Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão somente pela graça de Deus”.[3]

Neste ano em que a Reforma completará seus 500 anos, é preciso resgatar esta doutrina, que foi sendo solapada das igrejas brasileiras através de ensinamentos equivocados e heréticos. Precisamos falar mais da DT pois, como nos diz Berkhof: “O correlativo natural da doutrina da depravação total é o ensino da total dependência do homem da graça divina quanto à renovação. Lutero, Calvino e Zwínglio apresentaram frente unida quanto a isso”[4]. E para glória de Cristo, devemos resgatar o Evangelho da Graça preservando o legado do protestantismo.

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Notas:
[1] Citado por Thimoty George no excelente livro Teologia dos Reformadores, p. 69.
[2] Ibdem, p. 73.
[3] Nascido Escravo, p.39.
[4] A História das Doutrinas Cristãs, p.134.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Esclarecendo Dois Pontos Centrais da Reforma

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O sacerdócio universal e o livre exame da Escritura são duas bandeiras levantadas pela Reforma Protestante, todavia, vem sendo mal compreendidas por muitos do segmento evangélico. Busquemos entender melhor estas questões.

Conforme apregoou Lutero, todo crente é um sacerdote (1Pd 2.9), e ele pode interceder por outros na comunidade da fé, gerando dinâmica nas relações de fraternidade no convívio da igreja. Os crentes podem orar uns pelos outros, podem confessar mutuamente os seus pecados e também estão munidos de autoridade vinda de Cristo para evangelizar, apregoando as boas novas aos pagãos e incrédulos.

Já o livre exame da Escritura foi o que possibilitou que o povo tivesse a Bíblia em mãos, podendo discernir, a partir do texto sagrado, se o que era pregado coadunava com o conteúdo do Cânon. Visando que o livre exame fosse uma realidade, Lutero se empenhou em traduzir a Bíblia para o alemão - e a recém-criada imprensa de Gutemberg foi responsável por propagar a Palavra de Deus no vernáculo germânico.

Dito isto, é importante entender que mesmo não havendo no protestantismo o abismo entre clero e laicato, há na Igreja do Senhor ministros ordenados que são chamados por Cristo para o auxílio do pastoreio de seu rebanho. O sacerdócio universal não anula a ordenação pastoral e não faz de ninguém um ministro autoproclamado. Deus conferiu a certos homens a tarefa de ministrar a Palavra e os sacramentos no âmbito da igreja local. Não é qualquer um que pode subir no púlpito e ensinar a congregação. Embora sendo sacerdote e podendo evangelizar os descrentes, o cristão é pastoreado por um ministro ordenado pela imposição de mãos (1Tm 4.14; 5.22 e 2Tm 1.6). Ministro este que foi reconhecido pela própria igreja como apto ao pastoreio. Pois, Deus dá o dom, faz o chamado, mas confere a Igreja o reconhecimento da vocação ministerial. E todo ministro deve prestar contas a Deus, primariamente, mas também a Igreja. Só em contextos específicos, tal como perseguição ferrenha, que qualquer cristão - na ausência de um pastor - pode ser colocado na condição de ministrar a Palavra e os sacramentos. Timothy Georg, no excelente livro “Teologia dos Reformadores” trata a respeito do pensamento de Martinho Lutero, e assim nos informa que


Lutero considerava o ministério da Palavra o mais alto ofício da igreja. O próprio título, “servo da Palavra divina” (minister verbi divini), conota um papel essencialmente funcional. Rigorosamente falando, Lutero ensinou que todo cristão é ministro e tem o direito de pregar. Esse direito pode ser livremente exercido se alguém estiver em meio a não-cristãos, entre os turcos ou encalhado numa ilha pagã. Entretanto, numa comunidade cristã, não se deve “chamar atenção sobre si mesmo”, assumindo tal ofício por conta própria. Antes, deve-se “deixar ser chamado e escolhido para pregar e ensinar no lugar de outros e sob o comando deles”. O chamado é feito pela congregação, e o ministro continua tendo de prestar contas a ela (GEORG, 1994, p.97).

Agora, acerca do livre exame da Escritura, ele acaba sendo uma ferramenta da prestação de contas. O pastor deve ser avaliado, dentre um conjunto de fatores, mas, sobretudo, deve-se perceber nele a fidelidade na exposição da Palavra. Compete ao pastor ser fiel ao conteúdo bíblico ao ensinar em sua comunidade de fé. Os crentes desta comunidade, portando a Bíblia, tendo acesso ao seu conteúdo, estão aptos para discernir se o que o pastor prega é ortodoxo ou heterodoxo. Livre exame não é o mesmo que livre interpretação! O papel do ministro da Palavra é o de esmiuçar o Cânon para que os fiéis sejam edificados e sejam bem nutridos com a Palavra da Verdade. Horton (1997) explica que


Os Reformadores acreditavam que a Tradição era importante e que os Cristãos não a deveriam interpretar por eles mesmos, mas que todos os cristãos sejam clérigos ou leigos, deveriam chegar a um comum entendimento e interpretação das Escrituras juntos. A Bíblia não deveria ser exclusivamente deixada aos "espertos", mas isso nunca significou para os Reformadores que cada cristão deveria presumir que ele ou ela pudessem chegar a interpretações da Bíblia sem a orientação e assistência da Igreja.

A Segunda Confissão Helvética (1562), em seu artigo nº 2, diz não aprovar “quaisquer interpretações”. Com isso, ela continua “nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana”. O que não quer dizer que toda a doutrina que teve origem em Roma está automaticamente rejeitada. O que a confissão vai dizer é que a Escritura é o crivo para que julguemos a pregação.


Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.

De igual modo, a confissão escrita por Bullinger trata também “as definições e cânones dos concílios”. Assim sendo, toda doutrina vinda da Igreja passa pelo escrutínio da Bíblia e através da iluminação do Espírito, todo cristão está apto para examinar a doutrina, como dignos bereianos, discernindo se ela encontra respaldo (ou não) no Texto Sagrado. Isto é o que herdamos da Reforma, portanto, a livre interpretação não é um postulado reformado; quem advoga este princípio está se afastando totalmente da tradição reformada.

Grupos radicais - que surgiram após a Reforma eclodir - defendiam o fim do ministério pastoral ordenado, dentre eles os quakers. Eles compreenderam mal aquilo que Lutero, Calvino e outros reformadores ensinaram. O prejuízo à sã doutrina acabou comprometendo também a eclesiologia, portanto, nestes 500 anos celebrando o advento da Reforma Protestante, que seus herdeiros diretos e indiretos não façam a confusão já feita no passado. O ministro ordenado é uma benção de Deus para a igreja e


O rito da ordenação não confere nenhum caráter indelével à pessoa ordenada. É meramente a forma pública pela qual alguém é comissionado mediante a oração, as Escrituras e a imposição de mãos, a fim de servir à congregação. Argumentando curiosamente a partir da lei natural, Lutero excluía mulheres, crianças e pessoas incompetentes do ministério oficial da igreja, embora numa época de emergência ele pudesse chamá-los a exercer tal ofício, em virtude de sua parcela no sacerdócio de todos os cristãos (GEORG, 1994, p. 98).

Concluindo, não existe distinção no trato de Deus para com um ministro da Palavra. Ele é um crente como qualquer outro, agraciado com a salvação imerecida, e dependente do Espírito Santo para santificá-lo durante toda a jornada da fé. No entanto, sua vocação é um privilégio e uma responsabilidade imensa, pois, os mestres serão julgados com maior rigor (Tg 3.1).

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Referências:

BULLINGUER, Heinrich. Segunda Confissão Helvética, disponível em http://www.monergismo.com/textos/credos/seg-confissao-helvetica.pdf, acesso 16/02/2017.
GEORG, Thimoty. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.
HORTON, Michael. O que é um evangélico. Revista Os Puritanos, Ano V, nº 3, pág 33-35, São Paulo, 1997.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos
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Qual a Origem do Termo Reformado?

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Segunda retrasada foi o dia da Reforma Protestante. E com ele veio uma enxurrada de postagens sobre a importância da data. No entanto, muitas versavam sobre a questão de ser "reformado". Alguns diziam que é implicância e estupidez quando afirmam que o termo deve ser aplicado a um grupo específico, não a todos. Subjaz a este entendimento que todos os adeptos do movimento iniciado por Lutero são "reformados", afinal de contas, todos comemoram o dia da Reforma e creem em certas doutrinas.

Pois bem, transcrevo abaixo alguns testemunhos de historiadores sobre a questão do termo. Esclareço, de início, que, de modo algum, tenho a intenção de desmerecer quem quer que seja, ou de insinuar que A é melhor que B, ou que há alguns grupos não têm direito de comemorar a Reforma, ou ainda, que apenas presbiterianos são reformados. Longe disso! Meu objetivo é tão somente oferecer um esclarecimento a partir da historiografia protestante. Vamos começar com um presbiteriano, certamente o mais tendencioso na mente de muitos:

Pouco depois que o protestantismo começou na Alemanha, sob a liderança de Martinho Lutero, surgiu uma segunda manifestação do mesmo no Cantão de Zurique, na Suíça, sob a direção de outro ex-sacerdote, Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para distinguir-se da reforma alemã, esse novo movimento ficou conhecido como Segunda Reforma ou Reforma Suíça. O entendimento de que a reforma suíça foi mais profunda em sua ruptura com a igreja medieval e em seu retorno às Escrituras, fez com que recebesse o nome de MOVIMENTO REFORMADO e seus simpatizantes ficassem conhecidos simplesmente como 'reformados'. Inicialmente, o movimento reformado esteve mais ligado à pessoa de Zuínglio. Porém, com a morte prematura deste, o movimento veio a associar-se com seu maior teólogo e articulador, o francês João Calvino (1509-1564). A propósito, os 'protestantes', fossem eles luteranos ou reformados, só passaram a ter essa designação a partir da Dieta de Spira, em 1529. Portanto, o movimento reformado é o ramo do protestantismo que surgiu na Suíça, no século 16, tendo como líderes originais Ulrico Zuínglio, em Zurique, e João Calvino [...] Até hoje, as igrejas ligadas a essa tradição no continente europeu são conhecidas como Igrejas Reformadas (da Suíça, França, Holanda, Hungria, Romênia e outros países) (NASCIMENTO, Adão Carlos; MATOS, Alderi Souza de. O que Todo Presbiteriano Inteligente Deve Saber. Santa Bárbara d'Oeste, 2007. pp. 10-11).
O tipo de Protestantismo de Calvino era conhecido como "reformado". Diferia do sistema luterano no sentido de que a Igreja era uma instituição paralela ao Estado e não subordinada a ele. A Igreja era uma organização independente que mantinha sua vida própria e usava sua posição para corrigir o Estado quando necessário (CLOUSE, Robert G. et alli. Dois Reinos: A Igreja e a Cultura Interagindo ao Longo dos Séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 244).
Os milhões que aceitam a fé reformada e sua fundamentação doutrinária testemunham a importância do sistema teológico formulado por João Calvino (1509-1564), designado geralmente pelo termo 'calvinismo'. O termo 'fé reformada' APLICA-SE ao sistema de teologia desenvolvido a partir do sistema de Calvino (CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 251).

Um pouco antes, Cairns afirmou sobre Zwínglio: “Foram estas as ideias do homem que colocou os fundamentos da fé reformada na Suíça alemã. Embora Calvino tenha se tornado o herói da fé reformada, a igreja não pode esquecer o papel de Zwínglio, erudito, democrático e sincero, na libertação da Suíça das garras do papa” (p. 246).

O prestigiado estudioso Alister E. McGrath divide o protestantismo em três grandes ramos: Luterano (Reforma Luterana), Reformado (Reforma Calvinista) e Anabatista (Reforma Radical):

As origens da Reforma calvinista responsável pela constituição das Igrejas Reformadas (como a igreja presbiteriana), se encontram em acontecimentos ocorridos dentro da Confederação Suíça. Enquanto a Reforma luterana teve suas origens num contexto acadêmico, a IGREJA REFORMADA deve suas origens a uma série de tentativas de reformar a moral e o culto eclesiástico (mas não necessariamente sua doutrina) de acordo com um padrão mais bíblico. É preciso enfatizar que apesar de Calvino ter dado a esse estilo de Reforma a sua configuração definitiva, suas origens remontam a reformadores mais antigos como Zwínglio e Heinrich Bullinger, sediados em Zurique, a principal cidade da Suíça" (MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 180).

David G. Peters, um teólogo luterano, discutindo as controvérsias em torno da presença real de Cristo no sacramento da Ceia, afirmou que os luteranos "acusaram os reformados de separar as naturezas de Cristo do mesmo modo como Nestório havia feito" (PETERS, David G. The “Extra Calvinisticum” and Calvin’s Eucharistic Theology. p. 6. Disponível em: <http://www.wlsessays.net/bitstream/handle/123456789/3632/PetersCalvin.pdf>).

Na mesma página Peters afirma que "o debate eucarístico entre luteranos e reformados era simultaneamente um debate sobre cristologia" (p. 6).

Francis Pieper, dogmático luterano, faz referência aos calvinistas utilizando o termo reformado: "Cada palavra que os reformados falam contra a participação da natureza humana na divina onipresença, falam também contra sua doutrina da participação da natureza humana na Pessoa do Filho de Deus" (PIEPER, Francis. Christian Dogmatics. Vol. 2. Saint Louis, MS: Concordia Publishing House, 1951. p. 167).

Por fim, o grande historiador da Igreja, Kenneth Scott Latourette, afirma:

Paralelo ao luteranismo, outra espécie de protestantismo emergia e se desenvolvia. Esse protestantismo usualmente é conhecido como REFORMADO. Nele há variantes, inclusive o presbiterianismo em suas diversas manifestações. Todavia, de modo semelhante ao luteranismo, ele constituiu uma família de igrejas que, nos séculos 19 e 20, seriam atraídas conjuntamente em uma associação mundial (LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 1009).

Reafirmo que a intenção não é apontar o dedo para quem quer que seja, afirmando que o tal não tem direito de comemorar a Reforma Protestante. A ideia é tão somente esclarecer que o termo "reformado", em sua gênese, foi aplicado a um grupo distinto dos luteranos e anabatistas. Assim, meu desejo é que protestantes luteranos, protestantes reformados e protestantes anabatistas - ou descendentes destes grupos - juntos se alegrem em Deus pela Reforma, que no próximo ano completa 500 anos.

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Autor: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
Fonte: Electus
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Um pequeno ensaio sobre o Sola Scriptura

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Em comemoração aos 499 anos da Reforma Protestante, neste vídeo Erving Ximendes ilustra um pequeno ensaio sobre o Sola Scriptura. Assista:


Transcrição:

Em 2016 completamos 499 anos de Reforma Protestante. No entanto, ainda hoje existem controvérsias relacionadas aos princípios que os reformadores resgataram. Dentre eles, o Sola Scriptura é provavelmente o mais debatido e boa parte disso se deve, na verdade, a definições errôneas do Sola Scriptura.

Sola Scriptura literalmente significa “Somente as Escrituras”. Isso não quer dizer que consideramos as Escrituras como algo isolado da obra do Espírito de Deus dentro da Igreja.  Nada poderia estar mais longe da verdade pois sabemos que a Palavra é divina, e o Espírito que a deu não irá separá-la de sua obra-prima. Até mesmo as verdades mais claras contidas na Bíblia, que para a mente renovada e para o coração regenerado parecem tão convincentes, continuam sendo “loucura” e “pedra de tropeço” para aqueles que não tiveram a obra regeneradora do Espírito Santo em seus corações.

Sola Scriptura mais precisamente significa que “Somente as Escrituras são a única regra de fé infalível para a Igreja” e por “regra de fé” entendemos aquilo que governa e guia o que acreditamos assim como as razões pelas quais acreditamos.

É muito fácil entender o porquê as religiões dos homens negam essa verdade, pois o corolário do Sola Scriptura é que tudo aquilo que uma pessoa precisa acreditar para ser um crente em Jesus está contido na Bíblia (e em nenhuma outra fonte). Logo, se as Escrituras nos foram dadas pelo Espírito Santo, então elas são obrigatórias ao coração e à consciência do crente. Nós não podemos escolher aquilo que vamos ou não acreditar. Como bem afirma a Confissão de Fé Batista de Londres de 1689, uma das muitas Confissões Reformadas que são extremamente claras sobre o assunto:

“A autoridade da Sagrada Escritura, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas provém inteiramente de Deus, sendo Ele mesmo a verdade e o seu autor. A Escritura, portanto, tem que ser recebida, por ser a Palavra de Deus”. (CFBL 1689 1:4)

Ou seja, uma vez que sabemos que Deus é Seu Autor, não existe autoridade mais alta que possa atestar a verdade das Escrituras. Afirmar a necessidade de uma autoridade terrena para estabelecer tanto a veracidade quanto o conteúdo da Bíblia é como dizer que o testamento de um homem só é legítimo se tiver o consentimento de seus filhos. No entanto, sabemos muito bem que o fator determinante naquilo que se trata da legitimidade de um testamento não é a recepção do documento por parte de seus filhos, mas sim a assinatura do homem em questão.

Sendo um pouco mais específica sobre o princípio do Sola Scriptura, a Confissão prossegue dizendo:

“A Sagrada Escritura é a única regra suficiente, certa e infalível de conhecimento para a salvação, de fé e de obediência. A luz da natureza, e as obras da criação e da providência, manifestam a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, de tal modo que os homens ficam inescusáveis; contudo não são suficientes para dar conhecimento de Deus e de sua vontade que é necessário para a salvação. Por isso, em diversos tempos e por diferentes modos, o Senhor foi servido revelar-se a si mesmo e declarar sua vontade à sua igreja. E para a melhor preservação e propagação da verdade, e o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja, contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazer escrever por completo todo esse conhecimento de Deus e revelação de sua vontade necessários à salvação; o que torna a Escritura indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos em que Deus revelava sua vontade a seu povo”. (CFBL 1689 1:1-4)

Essas palavras foram escolhidas com muito cuidado, então preste muita atenção: suficiente, certa e infalível. Três atributos das Sagradas Escrituras que nada mais nesse mundo pode possuir. Teste qualquer outro candidato ao trono de fidelidade da igreja, e você vai descobrir que ele não é suficiente em seu âmbito e matéria, não é certo em sua natureza e conteúdo nem é infalível em sua consistência e autoridade.


A confissão também reconhece a existência de uma revelação geral presente na natureza, mas, ainda assim, ela corretamente afirma que tal revelação é insuficiente para transmitir o evangelho e que ao invés disso Deus escolheu colocar sua verdade na escrita. Porquê? “para a melhor preservação e propagação da verdade, e o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja”.

Esteja também atento ao que a Escritura é suficiente para revelar: o conhecimento para a salvação, de fé e de obediência. Obviamente, aqui não estamos afirmando que a Bíblia é o depósito completo de todo o conhecimento humano e divino. Ela é manifestamente limitada a partir do lado divino, uma vez que “as coisas encobertas pertencem a Deus” (Deut. 29:29), assim como do lado humano, isto é, a Bíblia não contém tudo o que é necessário saber para realizar uma cirurgia cerebral ou para entender física quântica. Logo, os argumentos que demonstram que a Bíblia não é capaz de fazer essas coisas não são argumentos contra o Sola Scriptura mas contra um espantalho criado por seus oponentes.

Outro argumento feito pelos opositores desse princípio é pronunciado mais ou menos da seguinte maneira:

“Existe apenas uma igreja verdadeira: a Igreja Católica Apostólica Romana! Agora, eu desafio você a olhar para o protestantismo e contar quantas denominações existem. Não parece óbvio que o Sola Scriptura só causou confusão?”

O problema nesse argumento é que ele falha miseravelmente em cada nível possível. Em primeiro lugar, como é que o apologista católico romano pode demonstrar que o
Sola Scriptura é a real causa dessas divisões? Por exemplo, quando vemos divisões nas diversas classes da igreja romana, encontramos fortes divergências em relação a questões-chaves. Será que podemos concluir então que o magistério romano é o culpado pelas diferenças de ponto de vista? Creio eu que não. Como é que se pode então chegar à conclusão de que um abuso das Sagradas Escrituras pode ser usado como um argumento contra sua suficiência? Isso não é nem um pouco lógico. As Escrituras podem ser perfeitamente suficientes, mas ainda assim os homens são pecadores. Ainda assim os homens são imperfeitos. Ainda assim os homens ainda são ignorantes. E, mais importante, ainda assim os homens possuem tradições.

Talvez isso fique um pouco mais claro com uma ilustração. Se você tem alguns anos de experiência com computadores, provavelmente já passou pela experiência de trocar de impressora. A maioria de nós apenas abre a caixa, lê as primeiras frases do manual e começa a conectá-la para ver se funciona. Uma vez impresso o primeiro documento, assumimos que ela funcionará da mesma maneira que nossa impressora antiga. O problema é que mais cedo ou mais tarde iremos nos deparar com situações complicadas. E isso tudo porque assumimos que nossa experiência era suficiente para fazer a impressora funcionar corretamente e porque não deixamos o manual falar por si mesmo.

De maneira semelhante, ir até as Escrituras com nossas tradições é como transferir nossa experiência com a impressora antiga para a nova. O fato de você assumir que a impressora funcionaria de uma determina maneira obviamente não torna o manual de instruções culpado. Tampouco ele seria responsável por esses problemas se você escolhesse a dedo as seções do manual que iria ler. Ou seja, é possível ter um manual de instruções perfeitamente claro e conciso e ainda assim haver consumidores que utilizem a impressora incorretamente. E aí está o cerne da questão, quem professa o Sola Scriptura sabe que Deus escreveu o manual de instruções com clareza. Os que abraçam uma autoridade externa à Bíblia não. E isso e bem refletido nas seguintes palavras do escritor católico Gilbert Chesterton, “a Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo”.

Em segundo lugar está a observação (dolorosamente óbvia) de que apenas uma pequena porcentagem das igrejas “protestantes” de hoje conscientemente se interessam em professar a doutrina do Sola Scriptura. Para falar a verdade, um grande número de igrejas não-católicas abraçam diversos tipos de conceitos que claramente violam o Sola Scriptura. Alguém que consistentemente se professa como Protestante acredita não somente que Deus falou através dos profetas e apóstolos mas também que Ele falou com suficiência e clareza. No momento em que alguém abandona um desses pontos, esse alguém não pode ser considerado um protestante coerente. O alto número de denominações existentes não se dá por causa do Sola Scriptura, mas apesar dele. Sendo assim, como é que se pode responsabilizar o princípio pelas ações daqueles que sequer acreditam nele? Obviamente, não podemos! Na realidade, as igrejas que procuram de fato professar, confessar e aplicar o Sola Scriptura são significativamente mais próximas em sua teologia do que aquelas igrejas que procuram uma fonte externa e inspirada de interpretação e revelação.

Tendo em vista tudo o que temos dito até então, eu espero que esse curto ensaio venha a ser um pequeno passo em direção a um melhor debate sobre a natureza, suficiência e necessidade das Escrituras dentro da comunidade cristã brasileira. 

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Autor: Erving Ximendes
Fonte: Olhai e Vivei
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Minhas impressões sobre a Reforma Protestante

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Hoje, 31 de Outubro é celebrado o Dia da Reforma Protestante pela maioria dos cristãos espalhados pelo mundo. A Reforma resgatou valores e trouxe um impacto profundo sobre os aspectos políticos, econômicos, sociais, literários e artísticos da sociedade. Foi, sobretudo, uma batalha pela fé e a redescoberta das doutrinas esquecidas ou ignoradas das Escrituras. A reforma nos deu a Bíblia, agora disponível em nossas próprias línguas; a liberdade religiosa e de consciência, o Estado de Direito. Ao mesmo tempo, os reformadores lutaram pelos princípios que somente a Escritura é nossa autoridade final, que somente Cristo é o cabeça da Igreja, a justificação é pela fé e tão somente graça de Deus nos méritos da obra consumada por Cristo na cruz do calvário. Os sacrifícios feitos pelos reformadores, o impacto de longo alcance e a aplicação corajosa da Bíblia para cada área da vida são frutos da obra divina.

O legado da Reforma nos inspira. Mais escolas e universidades foram levantadas pelos cristãos do que por qualquer outra religião, nação ou grupo. A elevação das mulheres e a luta contra a exploração degradante da poligamia e da discriminação fez parte da reforma. Os reformadores e missionários conseguiram trazer a abolição da escravatura, canibalismo, o sacrifício de crianças e queimação de viúvas. A verdade é que a influência da igreja tem, ao longo da história, contido a desumanidade do homem. Países que gozam as liberdades civis são geralmente mais aqueles onde o Evangelho de Cristo penetrou mais profunda e poderosamente.

A Reforma Protestante, ainda que não imune a erros, mudou a história do mundo e a vida da própria igreja. Oro para que Deus nos conserve fiéis ao genuíno evangelho e seus valores e, que os clamores da Reforma - Somente a Escritura, Somente a Graça, Somente Cristo, Somente pela Fé e a Deus toda Glória – sejam ouvidos, defendidos e proclamados nas igrejas evangélicas do nosso Brasil.

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Sobre o autor: Marcos Sampaio é teólogo e pastor da Igreja Batista da Caputera, Angra dos Reis-RJ.
Divulgação: Bereianos
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O “Bezerro de Ouro” Dentro da Igreja Evangélica Brasileira

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Em 31 de Outubro de 1517 eclodiu em toda Europa, partindo da Alemanha, a Reforma Protestante. O monge católico da ordem agostiniana, Martinho Lutero, catedrático de teologia na Universidade de Wittenberg, afixou suas noventa e cinco teses convocando a Igreja de Roma para debate. O impacto das teses de Lutero foi revolucionário. Em poucos meses as teses se espalharam por toda Europa através do invento da prensa de tipos móveis de Gutenberg. Deste momento em diante a Igreja Ocidental jamais seria a mesma. O estudioso da história da igreja Roger Olson, comentando em seu livro História da Teologia Cristã, destaca a Reforma Protestante como o terceiro grande Cisma dentro da vasta história da cristandade, depois da divisão em 1054, entre Ocidente e Oriente, e a luta medieval entre os três papas no período de 1378 a 1417 (pg.380).  

Em 1520, Martinho Lutero foi excomungado da Igreja de Roma. E, em 1521, convocado pelo Vaticano para comparecer na Dieta, na cidade alemã de Worms, para dar explicações sobre suas teses e se retratar diante da igreja romana e do imperador Carlos I. O que aconteceu em Worms ficou registrado na história. Martinho Lutero foi obrigado pelo Vaticano a se retratar. Mas, nestas palavras se expressou: “Minha consciência serve à Palavra de Deus. Por isso não posso nem quero me retratar, pois ir contra a minha consciência não é seguro nem salutar. Não posso agir de outra maneira, esta é minha posição. Que Deus me ajude. Amém” (apud, pg. 388). Assim nasceu o Protestantismo. O movimento protestante se espalhou fortemente por vários países. Na Alemanha, Luteranismo. Na Suíça e Países Baixos, Calvinismo. Na Escócia, Presbiterianismo. Na Inglaterra, Puritanismo.

O pensamento e teologia protestante foram se solidificando de acordo com as necessidades através das históricas Confissões. As principais Confissões protestantes são: Confissão Luterana de Augsburgo, Alemanha (1530), Confissão de Westminster, Inglaterra (1647/1648) e o Documento Confessional Calvinista de Dort, na Holanda (1618/1619).

A Reforma Protestante irá completar 499 anos de História. Uma grande herança legada à posteridade, sem dúvida foi o amor a Deus, a Cristo e às Escrituras na total dependência do Espírito Santo. O cristianismo oriundo da Reforma transformou tremendamente o mundo, sobretudo cristão. E uma área de grande relevância da igreja que sofreu fortemente esta transformação foi o culto. O culto Protestante deste momento em diante seria regido somente pela Escritura – Sola Scriptura. Aprendemos com os reformadores que o culto público deve ser bíblico. E o princípio que deve reger este culto está inquestionavelmente registrado nas Escrituras. Sobre a importância do culto e de seu princípio regulador, Paulo Anglada, em seu livro Princípio Regulador do Culto, faz uma citação importante do grande reformador de Genebra, João Calvino:

“... a regra que distingue entre o culto puro e o culto corrompido é de aplicação universal, a fim de que não adotemos nenhum artifício que pareça apropriado, mas atentemos para as instruções do Único que está autorizado a legislar quanto ao assunto. Portanto, se quisermos que Ele (Deus) aprove o nosso culto, esta regra, que Ele impõe nas Escrituras com o máximo rigor, deve ser cuidadosamente observada. Pois há duas razões pelas quais o Senhor, ao condenar e proibir todo culto fictício, requer que obedeçamos apenas à Sua voz: primeiro, porque não seguir o nosso prazer, mas depender inteiramente da Sua soberania, promove grandemente a Sua autoridade. Segundo, porque a nossa corrupção é de tal ordem, que quando somos deixados em liberdade, tudo o que estamos habilitados a fazer é nos extraviar. E então, uma vez desviados do reto caminho, a nossa viagem não termina, enquanto não nos soterremos numa infinidade de superstições...” (p.14. Editora: Pes).

Há um fato bíblico em que esta declaração de João Calvino jamais deve ser desprezada e esquecida. Em Êxodo 32.1 – 35 contêm um registro muito triste e vergonhoso na história do povo de Deus envolvendo um ambiente de culto. Os dois principais personagens desta história são: Moisés e seu irmão, Arão. Para termos uma ideia da importância deles, só em Êxodo, seus nomes até o capítulo 32 aparecem mais de 330 vezes. Foram chamados ao ministério pessoalmente por Deus. Foram instrumentos para libertar Israel do cativeiro egípcio:

Depois, foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto. Respondeu Faraó: Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel. Eles prosseguiram: O Deus dos hebreus nos encontrou; deixa-nos ir, pois, caminho de três dias ao deserto, para que ofereçamos sacrifícios ao Senhor, nosso Deus, e não venha ele sobre nós com pestilência ou com espada” (Êx 5.1-3).

Ambos tiveram experiências extraordinárias com Deus. Conheciam muito bem a obstinada idolatria de Israel. Em Êx 32.21, 22 Moisés pergunta a Arão que acabara de fabricar o bezerro fundido de ouro: “Que te fez este povo, que trouxeste sobre ele tamanho pecado?”. Arão respondeu com estas palavras: “Não se acenda a ira do meu senhor, tu sabes que o povo é propenso para o mal”. Estas são algumas características peculiares entre os irmãos. Mas no que se refere à liderança em conduzir o povo em adoração a Deus às diferenças tomam proporções gigantescas. Eis o contraste entre uma liderança bíblica e uma antibíblica.

Podemos aprender muito com estes dois líderes. Creio que a liderança e postura exercida por Moisés neste episódio devem servir de orientação e motivação para igreja buscar a verdadeira reforma que precisa. Creio que Arão representa a maior parte da liderança evangélica brasileira. Creio que a grande maioria dos crentes brasileiros é tão adoradora do “bezerro de ouro” quanto Israel o foi no deserto. Creio que Deus tem reservado um remanescente fiel à semelhança dos fiéis no deserto que não adoraram ao bezerro fundido. Creio que os Reformadores do século XVI foram instrumentos nas mãos do Criador para resgatar a verdadeira adoração, assim como Moisés o foi no deserto. Creio que Arão e seus seguidores representam a adoração em que o princípio regulador do culto é antropocêntrico. Creio que a liderança evangélica tem se acovardado em geral ao enfrentar a pressão do povo em adorar o “bezerro do ouro” dentro da igreja, assim como Arão no deserto.

No período da Reforma Protestante o culto a Deus voltara a ser regido pelo Princípio Regulador: A Escritura.

Quais são os elementos bíblicos que fazem parte de um culto verdadeiro a Deus? Quais são as suas circunstâncias? Citarei elementos e circunstâncias de um culto reconhecendo que não existe unanimidade entre os estudiosos, principalmente nos dízimos, ofertas e bênção apostólica. Espero explorar detalhadamente em outro estudo tais elementos e circunstâncias.

          Elementos:
          1 – Leitura da Palavra
          2 – Louvor
          3 – Oração
          4 – Ordenanças
          5 – Dízimos e Ofertas
          6 – Bênção Apostólica

          Circunstâncias:
          1 – Lugar
          2 – Horário
          3 – Acentos
          4 – Iluminação
          5 – Climatização
          6 – Instrumentos
          7 – Vestes, dentre outros.

Não devemos como igreja desprezar as circunstâncias que envolvem um culto a Deus. Estes elementos circunstanciais devem potencializar a adoração a Deus. Mas não são permanentes nem devem corromper o culto.

O culto Reformado era marcado por confissão de pecados e arrependimento sob a direção do Espírito Santo. A verdadeira alegria cristã protestante tinha este fundamento. Era resultado da adoração cristocêntrica e bíblica. No culto Reformado regido pelo princípio regulador o que a Bíblia não autorizava de maneira explícita ou implícita não era de forma alguma inserida. Quanta diferença para os dias de hoje! Os reformadores em tudo na vida buscavam sempre em primeiro lugar honrar a Deus em a Sua perfeita justiça e santidade. Na adoração não era diferente. Hoje na igreja brasileira o que tem predominado é uma inversão:

  • A bênção no lugar do Deus da bênção;
  • O assistir ao culto no lugar do prestar culto;
  • O culto sentimental no lugar do culto racional;
  • O culto hedonista e místico no lugar do culto reflexivo e bíblico.

Neste contexto se valoriza mais um culto informal e livre do que um regido por princípios bíblicos. Não é de se admirar o porquê as mais estranhas e inimagináveis inserções fazem parte “fundamental” de nossa adoração!

Neste momento, lamentavelmente a “síndrome de Arão no deserto” tem exercido imensa influência sobre grande parte da igreja brasileira. Há um “bezerro de ouro” dentro de nossa igreja! Há muito tempo deixamos de lado o princípio regulador do culto fundamentado na Escritura, representado por Moisés pelo princípio antibíblico regido por Arão:

Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele e, apregoando, disse: Amanhã, será festa ao Senhor. No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou – se para comer e beber e levantou – se para divertir – se” (Êx 32.5, 6).

Quando o princípio regulador do culto cai na mão do homem, a adoração a Deus é mesclada e até mesma substituída por outra desviada, estranha e idólatra:

Então, disse o Senhor a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êx 32.7, 8).

O “bezerro de ouro” na igreja atual tem se materializado de várias formas:

  • Danças
  • Coreografias
  • Teatros
  • Apresentações
  • Cerimoniais
  • Vendas
  • Indulgências, entre outros elementos estranhos.

Estes elementos foram sistematicamente inseridos no culto que estamos prestando a Deus. Estão tão impregnados que muitos pensam fazer parte integral e permanente de um verdadeiro culto ao Senhor. É fogo estranho sobre o altar. Tem que ser removido. Arão não removeu. Disse ele a Moisés depois de ter fabricado o bezerro de ouro levando o povo à idolatria: “
Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que este povo é propenso para o mal” (Êx 32.22). Todo líder da escola de Arão jamais enfrentará com êxito a pressão daqueles que desejam idolatrar o “bezerro de ouro”. É muito fácil discernir por este prisma porque a igreja no Brasil está assim! Podemos até dividi–la em três partes: Na entrada, uma banca para venda. No meio, um palco para apresentações. No púlpito, a presença de um palhaço. Lamentável. Triste e decadente. Idolatria pura! Há esperança? Há esperança. Graças a Deus. Deus é grande. Ele ainda procura verdadeiros adoradores.

Quando a idolatria ao bezerro de ouro no deserto começou, Deus chamou seu fiel servo Moisés e disse–lhe:

Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êx 32.7, 8).

Quando Moisés desceu do monte para enfrentar a idólatra de Israel, o desfecho terrível fora registrado nestes termos: “... e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens” (Êx 32.28). Deus é fogo consumidor. Ele é santo três vezes. Ele é temível. Depois de tantas mortes, disse ainda ao servo Moisés:

Vai, pois, agora, e conduze o povo para onde te disse; eis que o meu Anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, vingarei, neles, o seu pecado. Feriu, pois, o Senhor, porque fizeram o bezerro que Arão fabricara” (Êx 32.34, 35).

Fica claro que a adoração a Deus deve ser do jeito que Ele quer e não da maneira que queremos ou achamos. Adoração é vida ou morte. É notório que a grande massa da igreja brasileira tem adorado ao “bezerro de ouro” à semelhança de Arão e os seus discípulos no deserto. É fato também que Deus tem levantado líderes e adoradores à semelhança de Moisés e todos aqueles que não se dobraram nem apostataram diante dos deuses estranhos materializados no bezerro fundido. A igreja e o princípio regulador do culto sempre estarão nas mãos de Deus. Os Reformadores criam assim. Creio que nestes últimos dias Deus tem tirado o princípio regulador do culto das mãos de “Arão” e entregue nas mãos de “Moisés”. Que a verdadeira reforma e o verdadeiro avivamento venham sobre nós. Pois, a igreja evangélica brasileira está na “UTI” urgentemente precisando.
Soli Deo Gloria. Glória somente a Deus. Amém!

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Autor: Pr. Vilmar Rodrigues Nascimento
Divulgação: Bereianos
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