Ética Puritana do Trabalho

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Por Leland Ryken


Mesmo as pessoas que sabem pouco sobre os Puritanos usam a frase “ética Puritana do trabalho” com confiança. Para a maioria, entretanto, é simplesmente um rótulo de múltiplo alcance para cobrir toda uma classe de males correntes: a síndrome do vício de trabalhar, trabalho escravizador, competitividade, culto do sucesso, materialismo e o culto da pessoa auto-realizada.

O “Background”: Divisão Entre Sagrado e Secular

Para entender as atitudes Puritanas em relação ao trabalho, devemos ver o pano de fundo contra o qual estavam reagindo. Durante séculos, foi costume dividir tipos de trabalho nas duas categorias, “sagrado” e “secular”. O trabalho sagrado era realizado por membros de uma profissão religiosa. Todos os outros tipos de trabalho carregavam o estigma de serem seculares.

Esta divisão entre o trabalho sagrado e o secular pode reportar-se ao Talmude Judaico. Uma das orações, obviamente escrita do ponto de vista do escriba, é como segue:

Eu te agradeço, ó Senhor, meu Deus, por me haveres dado minha porção com aqueles que se assentam à casa do saber, e não com aqueles que se assentam pelas esquinas das ruas; pois eu cedo trabalho, e eles cedo trabalham; eu cedo labuto nas palavras da Torah, e eles cedo labutam nas coisas sem importância. Eu me afadigo, e eles se afadigam; eu me afadigo e lucro com isso, e eles se afadigam sem beneficio. Eu corro, e eles correm; eu corro em direção à vida por vir, e eles correm em direção ao abismo da destruição.

A mesma divisão de trabalho em categorias de sagrado e secular tornou-se uma característica principal do catolicismo romano medieval. A atitude foi formulada já no quarto século por Eusébio, que escreveu:

Dois modos de vida foram dados pela lei de Cristo à sua igreja. Um está acima da natureza e além do viver humano comum… Inteira e permanente­mente separado da vida habitual comum da humanidade, dedica-se somente ao serviço de Deus… Tal é então a forma perfeita da vida cristã. E o outro, mais humilde, mais humano, permite aos homens… ter mentalidade para a lavoura, para o comércio e os outros interesses mais seculares do que a religião… E um tipo de grau secundário de piedade é atribuído a eles.

Esta dicotomia sagrado-secular foi exatamente o que os Puritanos rejeitaram como ponto de partida para sua teoria do trabalho.

A Santidade de Todos os Tipos Legítimos de Trabalho

Foi Martinho Lutero, mais do que qualquer outro, que derrubou a noção de que clérigos, monges e freiras engajavam-se em trabalho mais santo do que a dona de casa e o comerciante. Calvino rapidamente acrescentou seu peso ao argumento.

Como os reformadores, os Puritanos igualmente rejeitaram a dicotomia sagrado-secular. William Tyndale disse que se olhamos externamente “há uma diferença entre lavar louças e pregar a palavra de Deus; mas no tocante a agradar a Deus, nenhuma em absoluto”. Essa rejeição da dicotomia entre trabalho sagrado e secular teve implicações de longo alcance.

Primeiro, considera toda tarefa de valor intrínseco e integra toda vocação com a vida espiritual de um cristão. Torna todo trabalho con­seqüencial, fazendo-o arena para glorificação e obediência a Deus e expressão do amor pessoal (através do serviço) ao seu próximo.

A convicção Puritana quanto à dignidade de todo trabalho tem também o importante efeito de santificar o comum. John Cotton disse isto sobre a habilidade da fé cristã de santificar a vida e o trabalho comuns:

A fé… encoraja um homem em seu chamado por mais simples e difícil que seja… A tais empregos simples um coração carnal não sabe como submeter-se; mas agora a fé havendo-nos convocado, se requer algum emprego simples, encoraja-nos nele. Assim a fé dispõe-se a abraçar qualquer serviço sim­ples que faz parte do seu chamado, no qual um coração carnal ficaria envergonhado de ser visto.

William Perkins declarou que as pessoas podem servir a Deus “em qualquer espécie de chamado, embora seja apenas varrer a casa ou guardar ovelhas”. Nathaniel Mather disse que a graça de Deus “espiritualiza toda ação”; mesmo as mais simples, como “um homem amar sua mu­lher e filho”, tornam-se “atos graciosos”, e o “seu comer e beber são atos de obediência e, portanto, acham-se em grande conta aos olhos de Deus”.

Os Puritanos revolucionaram as atitudes em relação ao trabalho diário quando levantaram a possibilidade de que “cada passo e aspecto do seu ofício é santificado”. O objetivo era servir a Deus, não simplesmente no trabalho no mundo, mas através do trabalho.

O Conceito Puritano de Chamado

Uma segunda forte afirmação dos Puritanos, além de declarar a santidade de todos os tipos de trabalho, foi que Deus chama cada pessoa para a sua vocação. Todo cristão, diziam os Puritanos, tem um chamado (1 Co 7.17). Segui-lo é obedecer a Deus. O efeito importante desta atitude é que ela torna o trabalho uma forma de corresponder a Deus.

Para começar, a ênfase Puritana em tais doutrinas como Eleição e Providência tornou fácil afirmarem que cada pessoa tem um chamado em relação ao trabalho. William Perkins, em seu clássico Treatise of The Vocations or Callings of Men (Tratado de Vocações ou Chamados dos Homens), escreveu:

Uma vocação ou chamado é um certo tipo de vida, ordenado e imposto ao homem por Deus, para o bem comum… Toda pessoa de todo grau, estado, sexo ou condição, sem exceção, deve ter algum chamado pessoal e particular em que caminhar.

Um efeito do conceito Puritano de chamado é fazer do trabalhador um mordomo que serve a Deus. Deus, de fato, é aquele que designa às pessoas as suas tarefas. Nesta perspectiva, o trabalho deixa de ser impessoal. Além do mais, sua importância não repousa em si; o trabalho é antes um meio pelo qual uma pessoa vive sua relação pessoal com Deus.

Um outro resultado prático da doutrina do chamado cristão é que leva ao contentamento pessoal no trabalho. Cotton Mather escreveu que:

um cristão deveria seguir sua ocupação com contentamento… É o favor singular de Deus a um homem que este possa atender à sua ocupação com contentamento e satisfação… Seu negócio neste assunto está entravado com quaisquer dificuldades ou inconveniências? O contentamento sob essas dificuldades não é parte pequena da sua homenagem àquele Deus que o colocou onde você está.

Se todos têm um chamado, como as pessoas podem saber para o quê foram chamadas? Os Puritanos desenvolveram uma metodologia para determinar seu chamado; não mistificaram o processo. Richard Steele, de fato, declarou que Deus raramente chama as pessoas diretamente “nos últimos dias”, e que qualquer um que alega ter tido uma revelação de Deus “deve produzir dons e qualificações extraordinárias, a menos que não passe de presunção e engano”.

Os Puritanos preferiam confiar em tais coisas como “os dotes e inclinações internos”, “circunstâncias externas que podem levar… a um curso de vida em vez de outro”, o conselho de “pais, guardiões e, em alguns casos, magistrados”, e “a natureza, a educação e os dons… adquiridos”. Eles também criam que se as pessoas estivessem no cha­mado certo, Deus as equiparia para realizar seu trabalho: “Quando Deus me convoca para uma posição, ele me dá alguns dons para aquela posição”.

Sobre o assunto de escolha da vocação, Milton, que desde a infância teve um forte cha­mado para ser poeta, escreveu que “a natureza de cada pessoa deveria ser especialmente observada e não desviada noutra direção, porque Deus não pretende todas as pessoas para uma só coisa, mas cada uma para seu próprio trabalho”.

Os Puritanos acreditavam na lealdade a um chamado. Uma vocação não era para ser assumida nem abandonada levianamente. Enquanto os Puritanos em geral não criam que uma pessoa nunca pudesse legitimamente mudar de ocupação, eram claramente cautelosos quanto à prática. William Perkins falou de “uma perseverança nos bons deveres” e alertou contra “ambição, inveja, impaciência”, acrescentando que “a inveja… quando vemos outros co­locados em melhores chamados e condições do que nós… é um pecado comum, e a causa de muita dissensão na comunidade”.

Para resumir, a idéia Puritana de chamado cobria um conjunto de idéias correlatas: a providência de Deus em arranjar tarefas humanas, trabalho como resposta de um mordomo a Deus, contentamento com as tarefas pessoais e lealdade à vocação pessoal. Estas idéias foram ad­miravelmente captadas na exortação de John Cotton de “servir a Deus no seu chamado, e fazê-lo com regozijo, fidelidade e uma mentalidade celeste”.

A Motivação e as Recompensas do Trabalho

Desde a época em que Benjamin Franklin proferiu seus provérbios experientes sobre a riqueza como o objetivo do trabalho até nosso próprio século, quando gigantes industriais têm reivindicado que o seu sucesso era prova de que eram os eleitos de Deus, nossa cultura tem visto o trabalho primordialmente como o caminho para as riquezas e posses. Essa ética do trabalho secularizada tem sido atribuída aos Puritanos e a seu precursor Calvino, e tem sido aceita como um axioma de que a ética Puritana baseia-se na riqueza como a recompensa máxima pelo trabalho e a prosperidade como um sinal de santidade.

Mas é nisso que os Puritanos realmente criam? As recompensas do trabalho, de acordo com a teoria puritana, eram morais e espirituais, isto é, o trabalho glorificava a Deus e beneficiava a sociedade. Ao ver o trabalho como uma mordomia para com Deus, os Puritanos abriram o caminho para uma nova concepção das recompensas do trabalho, como no comentário de Richard Steele: “Vocês trabalham para Deus, que certamente os recompensará para contentamento do seu coração”. Que essas recompensas eram primariamente espirituais e morais é abundantemente claro nos comentários Puritanos.

William Perkins afirmou que:

o principal fim das nossas vidas… é servir a Deus no serviço aos homens nos afazeres de nossos chamados… Alguns homens talvez dirão: O quê, não devemos labutar nos nossos chamados para manter nossas famílias? Respondo: isso deve ser feito; mas esse não é o escopo e a finalidade de nossas vidas. A verdadeira finalidade de nossas vidas é prestar serviço a Deus no serviço ao homem.

Quanto às riquezas que devem vir do trabalho, elas “podem nos capacitar para aliviarmos nossos irmãos ne­cessitados e promover boas obras para a igreja e o Estado” (Richard Baxter).

De acordo com John Cotton, “a fé não pensará que teve um chamado satisfatório a menos que sirva não somente para seu próprio proveito, mas também para o proveito de outros homens” .

O que é notável com respeito a tais frases é a integração entre Deus, a sociedade e o “ego” que convergem no exercício do chamado pessoal. O interesse próprio não é totalmente negado, mas é definiti­vamente minimizado nas recompensas do trabalho.

Ao manter sua visão dos fins morais e espirituais do trabalho, os Puritanos extraíram a conclusão lógica de que esses mesmos objetivos deveriam governar a escolha pessoal de uma vocação. Richard Baxter instou:

Escolha aquele emprego ou chamado no qual você pode ser mais útil a Deus. Não escolha aquele no qual possa ser mais rico ou ilustre no mundo, mas aquele no qual possa fazer maior bem e melhor escapar de pecar. Quando dois chamados igualmente conduzem ao bem público, e um deles tem a vantagem das riquezas, e o outro é mais vantajoso à alma, o último deve ser preferido.

O complemento desta ênfase nas recompensas morais e espirituais do trabalho é a freqüente denúncia de pessoas que usam o trabalho para gratificar ambições egoístas. Contrário ao que muitos pensam, a idéia da pessoa “auto-realizada” não atraía os Puritanos, se por “auto-realizada” ­queremos dizer pessoas que alegam ter sido bem-sucedidas por seus próprios esforços e que ostensivamente gratificam suas inclinações materialistas com o dinheiro que ganham.

Baxter falou desdenhosamente da auto-exaltação: “Cuidem para que, sob a pretensão de diligência no seu chamado, não sejam inclinados à mentalidade terrena e a cuidados excessivos ou cobiçosos planos de prosperar no mundo”. “Cada homem por si, e Deus por nós todos”, escreveu Perkins, “é vil e diretamente contra o propósito de todo chamado”. Ele, então, acrescentou:

Profanam suas vidas e chamados os que os aplicam à aquisição de honras, prazeres, benefícios, comodidades do mundo etc., pois assim vivemos para outro fim diferente do que Deus indicou, e desse modo servimos a nós mesmos, e, por conseguinte, nem servimos a Deus nem aos homens.

Sucesso é bênção de Deus, não algo conquistado

O Puritanismo e o calvinismo mais comumente consideravam o trabalho como o meio pelo qual as pessoas conquistam seu próprio sucesso e riqueza? É normalmente afirmado que sim, mas procuro em vão pela substanciação da afirmativa. O calvinismo não ensina uma ética de autoconfiança, como ensina nossa ética moderna do trabalho. É, ao contrário, uma ética da graça: quaisquer recompensas tangíveis advindas do trabalho são o dom da graça de Deus.

Calvino mesmo havia negado que o sucesso material é sempre o resultado do trabalho. Era Benjamin Franklin, e não os primeiros protestantes, que tinha a confiança que “cedo dormir e cedo levantar tornam um homem saudável, abastado e sábio”.

De acordo com George Swinnock, o homem de negócios bem-sucedido nunca pode dizer que seus próprios esforços foram responsáveis pelo seu sucesso; muito embora os humanos façam a sua parte ativa, “não há a menor roda na engrenagem da natureza que não dependa de Deus para seu movimento a cada instante”.

É verdade que o estilo de vida Puritano, uma mistura de diligência e frugalidade, tendia a fazer as pessoas relativamente prósperas, ao menos parte do tempo. A coisa importante, porém, é como os Puritanos viam sua riqueza. A atitude Puritana era de que riqueza era um bem social, não uma propriedade pessoal – um dom de Deus, não o resultado de esforço humano somente ou um sinal da aprovação de Deus.

Na ética Puritana, a virtude de trabalho dependia quase completamente dos motivos pelos quais as pessoas o realizavam.

Moderação no Trabalho

Uma última herança que os Puritanos legaram na sua visão de trabalho foi a necessidade de um senso de moderação. Eles tentaram em teoria manter uma posição intermediária entre os extremos da ociosidade ou preguiça por um lado e escravismo ao trabalho por outro. Na prática, possivelmente erraram na direção do excesso de trabalho.

Há um ponto no qual a moderna interpretação da ética Puritana está correta – que os Puritanos escarneciam do ócio e louvavam a diligência. Baxter expôs sua rudeza usual na questão da ociosidade: “É suíno e pecaminoso não trabalhar”. Robert Bolton chamou a ociosidade de “a própria ferrugem e o câncer da alma”.

Mesmo a “espiritualidade” não era desculpa alguma para a ociosidade na visão dos Puritanos. Thomas Shepard tinha o seguinte conselho para um zelote religioso que reclamava que os pensamentos religiosos o distraíam enquanto estava no trabalho:

Como é pecado nutrir pensamentos mundanos quando Deus lhe designou um trabalho em empregos espirituais e celestiais, assim é, em alguns aspectos, tão grande pecado fazer-se distrair por pensamentos espirituais quando Deus lhe põe a trabalhar em empregos… civis.

Parte da repulsa Puritana contra a ociosidade por um lado e o louvor ao trabalho por outro era a convicção de que o trabalho era uma ordenança da criação e, portanto, uma necessidade para o bem-estar humano. “Adão na sua inocência tinha todas as coisas à sua disposição”, escreveu William Perkins, “no entanto, Deus o ocupou num chamado”.

Mas a ética Puritana não levaria inevitavelmente à síndrome do trabalho excessivo? Não, de acordo com os Puritanos. Eles tentaram equi­librar sua diligência com restrições definidas contra o excesso de trabalho. “Cuidado com muitos negócios ou com o planejá-lo demais ou desordenadamente”, advertiu John Preston. Philip Stubbes advertiu que “todo cristão está comprometido pela cons­ciência diante de Deus” a não permitir que “seus cuidados imoderados” ultrapassem “os limites da verdadeira santidade”.

Sobre o assunto de “fazer bicos”, Richard Steele alegou que uma pessoa não deve “acumular dois ou três chamados meramente para aumentar suas riquezas”.

Trabalhar com zelo, mas não dar sua própria alma pelo trabalho era aquilo pelo que lutavam. John Preston expressou-se desta forma:

Você deve lidar com as coisas no mundo e não se corromper por elas, tendo afeições puras, mas quando você tem cobiça desordenada por qualquer coisa, então ela profana seu espírito.

Sumário

Para um resumo da doutrina de trabalho dos Puritanos, fazemos bem em voltar ao épico de John Milton, Paradise Lost (Paraíso Perdido). Milton incorporou muito do que os Puritanos criam sobre o trabalho em seu retrato da vida de perfeição de Adão e Eva, no Jardim do Éden. Milton repetidamente enfatizou que o trabalho no Paraíso não era apenas agradável, mas também necessário.

Não há melhor sumário da ética Puritana do trabalho do que estas palavras de Adão para Eva em Paradise Lost:

      O homem tem seu trabalho diário de corpo ou mente.
      Designado, o que declara sua dignidade,
      E a estima do céu em todos os seus caminhos.

Podemos vislumbrar aqui a crença Puritana sobre Deus como aquele que chama as pessoas a realizar tarefas, sobre a dignidade do trabalho, sobre como a atitude apropriada dirigida aos objetivos do trabalho pode transformar toda tarefa em atividade sagrada.

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Fonte: Santos no mundo – Os puritanos como realmente eram, Leland Ryken, Ed. Fiel, 1992.
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Os peregrinos e os puritanos

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Por Samuel T. Logan Jr.


Qual é a diferença entre os peregrinos e os puritanos? Todos eles são as mesmas pessoas? Qual dos dois grupos nasceu primeiro? E por que eles surgem como grupos religiosos distintos?

Excelentes perguntas, cada uma!

Ao responder a todas as perguntas acima, o ano de 1517 foi especialmente crucial.

A maioria sabe uma razão para isso, em outubro de 1517, Martinho Lutero pregou suas teses teológicas (declarações) na porta do castelo em Wittenberg, na Alemanha. Mas 1517 é um ano crucial por outro motivo, bem como, no mesmo ano, em Boston, na Inglaterra, em um local onde agora está um pub Inglês chamado de Martha Vineyard, de 1526, (bastante subversivo) discussões teológicas regulares estavam sendo conduzidas na Taverna White Horse em Cambridge. Entre os participantes, alguns futuros luminares como Thomas Bilney, Hugh Latimer, Nicholas Ridley e Thomas Cranmer. Cada um dos quatro foram martirizados posteriormente.

Entretanto, no final dos anos 1520 e início dos anos 1530 Henry VIII estava passando por dificuldades matrimoniais e políticas de tal forma que, em 1533, ele insistiu que a convocação de Canterbury declarasse seu casamento com Catarina de Aragão anulado. No ano seguinte, Henry declarou o Parlamento Inglês como Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra, cortando, assim, todos os laços com a Igreja Romana.

Enquanto Henry não tinha nenhum desejo especial de "reformar" a teologia da igreja, aqueles que haviam se reunido no White Horse (e muitos de seus colegas e simpatizantes) viram isso como uma oportunidade "do Senhor." Talvez agora somente as Escrituras pudessem realmente tornar-se o fundamento da igreja e da nação.

Tais esperanças encontraram pouco apoio real durante a vida de Henry, mas, quando o rei morreu, em 1547, seu filho de nove anos de idade, Edward assumiu oficialmente o trono, governando principalmente através de regentes, ambos (primeiro duque de Somerset e, em seguida, o Duque de Northumberland) tiveram mais simpatia pela visão que tinha iluminado essas discussões em White Horse. O impulso pela purificação da igreja e do estado ganhou grande força na Inglaterra entre 1547 e a morte de Edward em 1553.

Mas a próxima Tudor no trono era Mary Tudor, mais conhecida pelas gerações posteriores como "Maria, a Sanguinária". Mary não queria nada mais a não ser voltar "seu" país para o rebanho católico romano, não importasse o custo.

Entre 1553 e 1558, protestantes exilados inundaram a Europa, na esperança de escapar da espada de Maria, reunindo-se em tais bastiões protestantes como Genebra e Frankfurt. Neste último, veio John Foxe, com 38 anos. Foxe desenvolveu uma visão poderosa do que a Inglaterra poderia ser, se a Palavra de Deus fosse seguida total e fielmente.

A morte de Maria em 1558 e a ascensão ao trono Inglês de Elizabeth, irmã protestante de Mary reverteu à maré mais cedo e trouxe de volta ingleses e inglesas para suas casas em massa. A semente que se tornou o puritanismo recebeu um tiro cheio de fertilizante teológico da pena de John Foxe.

Durante o reinado de Maria, centenas morreram por sua fé. Será que o povo da Inglaterra homenageou essas mortes, aproveitando a oportunidade maravilhosa que o Senhor tinha dado a Inglaterra, removendo Mary e substituindo-a com Elizabeth? Será que o povo da Inglaterra agora insiste que sua igreja e seu estado devem ser completamente purificados de todos os elementos não bíblicos para que ambas as instituições (e todas as pessoas nele) possam trazer honra singular para o Senhor, o Deus da Bíblia?

Estas foram as perguntas no trabalho monumental de Foxe que conhecemos como O Livro dos Mártires. Publicado pela primeira vez em 1563 o trabalho de Foxe foi um relato da intensa a dor sofrida pelos mártires de Maria e uma convocação para trazer a nação e a Igreja da Inglaterra em plena conformidade com a Palavra de Deus.

Muitos daqueles que compartilharam o sonho que tinha sido alimentado na Taverna White Horse agora se apoderaram da expressão das expectativas de Deus para com seu povo de Foxe que insistiu, com fervor cada vez maior, de que tanto a sua realeza e seus líderes eclesiásticos direcionassem todos os assuntos da Inglaterra somente pelas Escrituras, Sola Scriptura. 

A Rainha Elizabeth I, no entanto, viu as coisas de forma diferente. Sua visão era de estabilidade política e de ordem. Elizabeth não tinha nenhum interesse em qualquer tipo de extremismo, especialmente o tipo de extremismo religioso, que os herdeiros teológicos desses debatedores da Taverna White Horse pareciam representar para ela.

A Inglaterra (incluindo a igreja Inglesa) devia, nessa visão elisabetana, ser ampla e inclusiva e basear a sua vida na tradição e na razão, bem como sobre os ensinamentos da Bíblia.

Então, por 1570, havia se desenvolvido na Inglaterra dois grupos:

1) os que favoreciam esse entendimento mais racionalista da Igreja e do Estado, e; 2) aqueles que continuaram a insistir que a purificação dessas duas entidades era exigido pela Escritura e que a Inglaterra deveria agora aproveitar a oportunidade espiritual tão brilhantemente descrita por John Foxe. E foi em meio a essa polêmica que o termo "puritano" começou a ser usado regularmente pelo primeiro grupo como um epíteto irônico de ataque em cima do segundo grupo.

O ano de 1570 viu a intensificação do conflito com pouco "progresso", pelo menos do ponto de vista do partido puritano. Na verdade, com a demissão de Thomas Cartwright de seu cargo de professor na Universidade de Cambridge para promulgar o presbiterianismo, pareceu a alguns puritanos que a causa estava sendo perdida e essa percepção levou à primeira grande cisão dentro do partido puritano.

À medida que o impulso Puritano pode ser principalmente associado (embora, na verdade, precedido) do Livro dos Mártires de Foxe, de modo que o caráter "Peregrino" pode ser rastreado de forma adequada do livro de Robert Browne, Reforma Sem Permanência de Anie, publicado pela primeira vez em 1580. Browne pode ser chamado de puritano desiludido. Ele compartilhou a visão que informou o trabalho de Foxe, mas depois de mais de uma década de busca de renascimento dentro da igreja Inglesa, ele chegou à conclusão de que isso simplesmente não iria acontecer. Browne "separado" da igreja Inglesa e, com a mesma opinião de Robert Harrison, iniciou sua própria congregação em Norwich em 1581.

Assim, formou-se o movimento "separatista", um movimento que mais tarde produziu líderes tais como John Smyth (a quem alguns consideram como o pai dos batistas ingleses), John Robinson, William Brewster, e William Bradford. Os três últimos foram diretamente envolvidos nesse grupo de separatistas, que, em 1608, deixou a Inglaterra para a Holanda e, posteriormente, decidiu emigrar para o Novo Mundo, e desembarcou em Plymouth, Massachusetts, em 1620.

Muitos puritanos (provavelmente a maioria) optaram por permanecer dentro da igreja Inglesa trabalhando por uma reforma, e foi a partir desse grupo que um grupo muito maior de imigrantes saíram da Inglaterra para a Nova Inglaterra no final dos anos 1620, estabelecendo sua colônia na Baía de Massachusetts.

As colônias de Boston e Plymouth eram entidades políticas e religiosas distintas (pelo menos até a época em que o governo Inglês as uniu no final de 1680) e, enquanto as relações entre eles eram geralmente amigáveis, os membros de ambos os grupos eram claros sobre suas diferenças.

"Os Puritanos" queriam permanecer como parte do estabelecimento Inglês, trabalhando por uma reforma bíblica dentro da Igreja da Inglaterra. Mesmo quando eles emigraram para a Nova Inglaterra, eles afirmaram o seu "anglicanismo" e viu o principal objetivo da sua nova colônia como sendo dar um testemunho bíblico, uma "cidade em uma colina", que deu um exemplo de justiça bíblica na igreja e estado para Velha Inglaterra e o mundo inteiro verem. Como teólogos do pacto profundamente comprometidos, eles enfatizaram especialmente fortemente a justiça social de toda a comunidade diante de Deus. 

"Os Peregrinos" queriam alcançar "reforma sem tardança", mesmo que isso significasse a separação de sua igreja e sua nação. Enquanto eles continuaram a pensar em si como Ingleses, sua ênfase estava em sua nova identidade política e identidade espiritual. Por causa de seu compromisso apaixonado com a necessidade de reforma imediata e sem compromisso, eles enfatizaram especialmente fortemente justiça do indivíduo diante de Deus.

O que unia a Baia de Massachusetts e Plymouth, que uniu ambos os puritanos e peregrinos era muito mais significativo do que o que os distingue. Todos os filhos da Reforma sabiam que a salvação era somente pela graça através da fé em Cristo. E eles sabiam disso, porque eles tomaram, como sua autoridade, somente as Escrituras.

Todos sabiam que somente a Deus deve ser dada toda a glória e, em suas diferentes formas, eles procuraram trazer cada pensamento e cada ação religiosa, política, social cativos ao senhorio de Jesus.

Poderia haver alguma meta mais importante para os cristãos americanos de hoje?

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Sobre o autor: Dr. Logan é o presidente do Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, Pensilvânia, onde leciona história da igreja.

Fonte: Reproduzido da revista Tabletalk, vol. 20, 11 de Novembro de 1996, com a permissão do Ligonier Ministries.
Tradução: César Augustos Vargas Américo
Imagem: "Embarkation of the Pilgrims" by Robert Walter Weir, adaptada ao Bereianos.
Divulgação: Bereianos
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Alerta aos Reformados sobre a santidade de vida



Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Amo a literatura produzida pelos antigos puritanos. Sólida, bíblica, profunda, muito pastoral e prática. A santidade defendida e pregada pelos puritanos aqueceu meu coração, quando eu era novo convertido, e se tornou o ideal que eu decidi perseguir até hoje. Um breve resumo do pensamento puritano sobre a santidade está na Confissão de Fé de Westminster, no capítulo “Santificação”:

I - Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita. 
II - Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável - a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne.
III - Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.

Era esse conceito de santificação que eu gostaria de ver difundido como sendo o conceito reformado. Como sempre existe alguma confusão sobre este assunto, apresento aqui algumas reflexões adicionais sobre o tema da santidade.

(1) A santidade deve ser buscada ardorosamente sem, contudo, perder-se de vista que a salvação é pela fé, e não pela santidade – Muitos reformados tendem à introspecção e a buscar a certeza da salvação dentro de si próprios, analisando as evidências da obra da graça em si para certificar-se que são eleitos. Se a busca contínua pela santidade não for feita à luz da doutrina da justificação pela graça, mediante a fé, levará ao desespero, às trevas e à confusão. Devemos buscar ser santos olhando para Cristo crucificado e morto pelos nossos pecados. Somente conscientes da graça de Deus é que podemos prosseguir na santificação, reconhecendo que esse processo é evidência da salvação.

(2) A santidade não se expressa sempre da mesma forma; ela tem elementos culturais, temporais e regionais – Sei que não é fácil distinguir entre a forma e a essência da santidade. Para mim, adultério é pecado aqui e na China, independentemente da visão cultural que os chineses tenham da infidelidade conjugal. Contudo, coisas como o uso do véu pelas mulheres me parecem claramente culturais. Quero insistir nesse ponto. A santidade pode se expressar de maneira contemporânea e cultural, não está presa a uma época ou a um local. Reformados modernos devem resistir a tentação de recuperar o estilo dos antigos puritanos da Inglaterra, Escócia, Holanda e Estados Unidos. 

(3) A santidade pessoal pode existir mesmo em um ambiente não totalmente puro – Chega um momento em que devemos nos separar daqueles que se professam irmãos, mas que vivem na prática da iniqüidade (1Coríntios 5). Contudo, creio que há um caminho a ser percorrido antes de empregarmos a separação como meio de preservar a santidade bíblica. Os crentes são chamados a se separar de todo mal, inclusive dos pecadores (Salmo 1). Mas a separação bíblica é bem diferente daquela defendida por alguns reformados modernos, que têm dificuldade de conviver inclusive com outros reformados dos quais discordam em questões que considero absolutamente secundárias. Não é fácil, mas teoricamente posso ser santo dentro de Sodoma e Gomorra. Posso ser santo na minha denominação, mesmo que ela abrigue gente de pensamento divergente do meu. 

(4) A santidade pode ocorrer mesmo onde não haja plena ortodoxia – Por incrível que pareça, a tolerância e a misericórdia marcaram os puritanos ingleses do século XVII. Foi somente a fase posterior do puritanismo que lhe deu a fama de intolerância. John Owen, o famoso puritano, pregou em 1648 um extenso sermão no Parlamento Britânico, na Câmara dos Comuns, intitulado “Sobre Intolerância”, no qual defendeu, mais uma vez, a demonstração do amor cristão e a não-intervenção dos poderes governamentais nas diferenças de opiniões eclesiásticas (Works, VIII, 163-206). Para mim, a graça de Deus é muito maior do que imaginamos e o Senhor tem eleitos onde menos pensamos. Assim, creio que exista santidade genuína além do arraial reformado. Não estou negando a relação entre doutrina correta e santidade. O Cristianismo bíblico enfatiza as duas coisas como necessárias e existe uma relação entre elas. Contudo, por causa da incoerência que nos aflige a todos, é possível vivermos mais santamente do que a lógica das nossas convicções teológicas permitiria. Cito o famoso puritano John Owen mais uma vez:

“A consciência de nossos próprios males, falhas, incompreensões, escuridão e o nosso conhecimento parcial, deveria operar em nós uma opinião caridosa para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro, assim estão com os corações sinceros e retos, com postura semelhante aos que estão com a verdade” (Works, VIII, 61).

Acredito que a teologia reformada é a que tem melhores condições de oferecer suporte doutrinário para a espiritualidade, a santidade e o andar com Deus. Os reformados brasileiros são responsáveis por mostrar que a teologia reformada é prática, plena de bom senso, brasileira e cheia de misericórdia.

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Fonte: Rev. Augustus Nicodemus, via Facebook
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Os Puritanos

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por André Fernandes Dantas


Spurgeon foi um homem de valor
Considerado o príncipe dos pregadores
Já Owen tributava a Deus louvor
Expondo a corrupção dos pecadores.

Whitefield, Knox, Bunyan, Goodwin, Gill
Não se acovardaram ante um mundo vil;
Pregando a autoridades e reis
A proclamar de Deus as Suas leis.

Eles foram pregadores da divina Verdade
Não se corromperam com a famigerada modernidade
Antes, foram arautos do Reino celestial
Os quais anunciaram uma mensagem sem igual.

Vida piedosa e de intensa oração
Para eles eram evidências da santificação
Além de a Bíblia ser a sua norma
Pois para conhecer a Deus não há outra forma.

Necessitamos de um avivamento tal
Porque vivemos em um mundo mau
Onde espiritualidade é sinônimo de emoção
E a Escritura fica em segunda mão.

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Fonte: Perfil do autor no Facebook
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Ação Social Puritana

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por Leland Ryken


Os Puritanos foram protótipos da ação social evangélica. Preocupação pelos pobres é virtualmente a primeira coisa que vem à nossa mente quando usamos a frase "ação social", e é um bom lugar para iniciar uma discussão sobre a consciência social dos Puritanos. Uma fonte de dados é um grande número de exortações em sermões e folhetos.

De acordo com uma dessas fontes, "um fim principal de todas nossas ações sociais, empregos políticos e empreendimentos tangíveis em nossos chamados particulares, deve ser dar aos pobres". Um tratado anônimo, chamado St. Paul the Tent-Maker (S. Paulo, o Fazedor de Tenda), afirmou que "quanto mais diligentemente buscarmos nossos diversos chamados, mais somos capacitados para estender nossa caridade aos que encontram-se na pobreza e em apuro". William Perkins era da opinião de que quaisquer ganhos acima de uma justa manutenção patrimonial deve ir diretamente para "o bem dos outros,... o alívio do pobre,... a manutenção da igreja". Thomas Lever disse num sermão que "homens ricos deveriam guardar para si mesmos não mais do que necessitam, e dar aos pobres tanto quanto eles necessitam".

Mas falar sai barato em tais assuntos. O que os Puritanos realmente fizeram para ajudar aos pobres? O teólogo anglicano Lancelot Andrews observou em 1588 que as igrejas calvinistas de refugiados em Londres foram capazes "de fazer tanto bem que nenhum de seus pobres é visto nas ruas a pedir", e ele lamentou que, "esta cidade, a abrigadora e mantenedora deles, não seja capaz de fazer o mesmo bem". W.K. Jordan reuniu uma enorme quantidade de dados sobre padrões de filantropia na Inglaterra durante a época da Reforma. Ele contrasta tempos medievais católicos, que "foram extremamente sensíveis às necessidades espirituais da humanidade enquanto demonstraram apenas uma preocupação escassa e ineficaz com o alívio" da pobreza, da miséria e da ignorância, com as notáveis doações particulares na Inglaterra de 1480-1660. "Uma vasta porção [dos doadores] eram Puritanos", conclui Jordan, e menciona como um dos "grandes impulsos condutores" por trás do crescimento da caridade voluntária "a emergência da ética protestante".

É digno de nota que pregadores Puritanos, eles mesmos relativamente pobres, foram modelos especiais da caridade cristã aos pobres. Samuel Ward registrou "que homem bom é o Sr. Chadderton, que tem tão viva afeição pelos pobres, o que é sinal certo de um cristão verdadeiro". John Foxe escreveu sobre ver na casa de John Hooper, em Worcester, "uma mesa posta com boa quantidade de carne e cheia de mendigos e gente pobre"; por investigação, Foxe soube que Hooper fazia do alimentar os pobres uma prática regular. Richard Greenham elaborou um esquema de compra cooperativa em sua paróquia para ajudar os pobres a comprarem milho barato em tempo de crise.

Os Puritanos mostraram igual preocupação pelos desempregados. Um século após Calvino comparecer diante do conselho da cidade de Genebra para instar com os magistrados a acharem trabalho para os desempregados, Samuel Hartlib, o utópico Puritano, sugeriu que se fizesse uma clara distinção entre os incorrigivelmente ociosos e os involuntariamente desempregados. Os "pobres sem conforto", disse ele, "esperam por uma reforma, como os sedentos ansiam pela chuva... e há... grande necessidade do Parlamento encontrar modos e meios de preservar o povo da pobreza".

Os Puritanos também encorajavam a ação pública contra certas formas de injustiça social. Eles eram, por exemplo, capazes de agir contra preços exorbitantes. Às vezes os Puritanos usavam o púlpito para influenciar os preços. Em 1673 o Puritano da Nova Inglaterra, Urian Oakes, falou contra o muito "apertar, e espremer, e moer os pobres”. Increase Mather exortou seus congregados assim:

O homem pobre chega entre vós e necessita uma mercadoria a qualquer preço, e você o fará pagar o que satisfaz você, e porá qualquer preço que lhe agrade sobre o que ele tem a oferecer... sem respeitar o justo valor da coisa.

Há o comentado caso de Robert Keayne, de Boston. De acordo com o jornal de Winthrop, Keayne era um comerciante que "era notoriamente acima dos outros observado e censurado" porque cobrava preços excessivos. "Sendo discutida a questão pela igreja, alguns acharam que devia ser excomungado, mas a maioria pensou que a admoestação seria suficiente". Keayne foi multado em duzentas libras pelo magistrado, embora sua defesa de si mesmo em seu último testamento deixa impressão de que a sociedade Puritana havia sido excessivamente zelosa em proteger os direitos do consumidor.

Na Inglaterra, Richard Baxter mostrou uma preocupação semelhante com relação aos abusos econômicos na sociedade em geral. Incluídos numa lista de práticas comerciais que ele proibiu, estavam: ganhar mais pelos bens do que eles valem, fazer um produto parecer melhor do que é, esconder falhas no produto, pedir um preço tão alto quanto se pensa poder conseguir, e tirar vantagem das necessidades dos outros.

A consciência social Puritana não estava limitada aos cristãos em necessidade, mas estendia-se a toda a sociedade. Baxter disse que "tamanha é a ternura de um olho santo que ele tem lágrimas para derramar até pelos inimigos". John Preston, ao responder à questão "Você nos 'faria amar a ninguém, senão a santos?", replicou: "Devemos amar todos os outros com um amor de piedade, devemos mostrar abundância deste amor a toda humanidade". E Thomas Doolittle disse a seus companheiros Puritanos, na Londres assolada da peste; a "ter um sentimento de companheirismo em relação às misérias com as quais os outros são incitados... e isto independe de sua condição espiritual".

A caricatura comum dos Puritanos como preocupados apenas com os pecados particulares e despreocupados com os pecados sociais é inexata. Quando William Perkins pregou na Feira Rural de Sturbridge, por volta de 1592, denunciou os pecados da sua cultura. A lista resultante incluía tanto pecados pessoais como sociais: "Ignorância da vontade de Deus e do culto", "desprezo pela religião cristã", "blasfêmia", "profanação do domingo", "acordos injustos nos negócios entre homem e homem", "assassinatos, adultérios, usuras, subornos, extorsões".

A Base Moral e Teológica para a Ação Social Cristã

O que estava por trás deste posicionamento Puritano pela ação social? A resposta é tanto moral como teológica. No lado moral, os Puritanos estavam convencidos de que os cristãos são responsáveis por aqueles em necessidade. Sua ação social estava arraigada na consciência moral cristã. "A verdadeira moralidade, ou a ética cristã", escreveu Baxter, "é o amor a Deus e ao homem, incitado pelo Espírito de Cristo pela fé; e exercido nas obras de piedade, justiça, caridade e temperança". Noutro lugar Baxter advertiu: "Cuidado para não perder aquele amor comum que deves à humanidade". Para William Ames: "servir ou beneficiar os outros é um dever que pertence a todos os homens... Amor a Deus não pode subsistir sem esta caridade pelo nosso próximo nem o pode qualquer verdadeira religião".

Houve também um lado teológico do envolvimento social Puritano. Em contraste com as perspectivas católicas das boas obras como algo que ajuda a assegurar a salvação, os Puritanos acreditavam que o Novo Nascimento resulta em preocupação social. A piedade genuína produz boas obras, que são atos de gratidão, não de mérito. Cotton Mather disse de seu pai:

Uma nobre demonstração deu ele de que aqueles que fazem boas obras porque já são justificados, não farão menos do que aqueles que fazem boas obras para que possam ser justificados; e que aqueles que renunciam a toda pretensão de mérito por suas boas obras, abundarão mais em boas obras do que os maiores negociantes de méritos no mundo.

Este tema de piedade produzindo moralidade foi um dos tópicos mais comuns entre os Puritanos. "Preceitos sem padrões farão pouco bem", escreveu Eleazar Mather; "deve-se... falar pela vida assim como pelas palavras; deve-se viver a religião, tanto quanto falar em religião”. William Ames concordou: "Obediência interna não é suficiente por si, porque todo o homem deve sujeitar-se a Deus. Nossos corpos devem ser oferecidos a Deus".

Ação Social Pessoal em vez de Institucional

Os Puritanos tinham muito mais confiança na responsabilidade social individual do que nas agências governamentais e sociais. Para eles, a ação social eficaz começava com o indivíduo. Richard Greenham escreveu:

Certamente se os homens fossem cuidadosos em reformar a si mesmos primeiro, e então suas próprias famílias, veriam as múltiplas bênçãos de Deus na nossa terra e sobre a igreja e a comunidade. Pois de pessoas particulares vêm famílias; de famílias, cidades; de cidades, províncias e de províncias, regiões inteiras.

Tal declaração é uma rejeição implícita à posição liberal moderna de que o modo de combater os males sociais é multiplicar agências sociais. Que as pessoas como indivíduos são decaídas os Puritanos sabiam tão bem quanto nós, mas eles também sabiam que as instituições não escapavam aos efeitos da Queda e são, de fato, o produto de pessoas decaídas. M.M. Knappen resume a teoria Puritana quando escreve:

Quando o Puritanismo é comparado com os sistemas modernos coletivistas, seu individualismo também aparece. Os pensadores do século dezesseis não depositavam fé no Estado como tal. A integridade de um sistema não salvaria alguém. Integridade deve haver, mas também deve haver cooperação pessoal e responsabilidade pessoal.

Os Puritanos eram igualmente individualistas em sua abordagem da ajuda financeira. Eles opunham-se à caridade indiscriminada e insistiam que ajuda fosse dada apenas àqueles em genuína necessidade. William Perkins pode ser considerado como típico quanto ao pensamento Puritano a respeito de mendigos e vagabundos. Perkins disse que eles "são (na maior parte) uma geração maldita", "pragas e chatos" tanto para a igreja quanto para o Estado. "É a boa lei da nossa terra", acrescentou ele, "agradável à lei de Deus, que ninguém deveria pedir, se é capaz de trabalhar". A injunção de Paulo de que "se alguém não quer trabalhar, que não coma" (2 Tessalonicenses 3.10) foi um dos textos citados mais freqüentemente entre os Puritanos.

Christopher Hill resume a atitude Puritana como uma questão de pensar que "a caridade indiscriminada... era uma ameaça social. Ela impedia o pobre de realizar suas responsabilidades e seriamente procurar emprego". Como resultado, muitos Puritanos preferiam que as igrejas tomassem conta dos pobres em suas próprias paróquias, onde julgariam entre a necessidade genuína e a fraudulenta.

O plano positivo de contra-ataque ao dolo era pôr as pessoas para trabalhar e torná-las membros produtivos da sociedade. Richard Stock reivindicou que esta é a melhor caridade, aliviar os pobres, ao fornecer-lhes trabalho. Beneficia ao doador tê-los a trabalhar; beneficia a comunidade não sofrer parasitismos, nem nutrir qualquer ociosidade; beneficia aos próprios pobres.

Quando Hugh Peter retornou à Inglaterra da América, disse ao Parlamento num sermão: "Tenho vivido num país onde em sete anos nunca vi um pedinte, nem ouvi palavrões, nem olhei para um bêbado; por que deveria haver mendigos na sua Israel, onde há tanto trabalho a fazer?” Richard Baxter, pastor em Kidderminster, empreendeu um programa bem-sucedido para capacitar os pobres para trabalhar na indústria têxtil.

Os Puritanos estavam profundamente preocupados com a qualidade da sua sociedade. Increase Mather resumiu seus pontos de vista quando disse que o propósito da Bíblia é mostrar-nos "como devemos servir a Deus, e como devemos servir à geração na qual vivemos". Servir à geração na qual vivemos: este sempre tem sido o lema dos cristãos que estão preocupados em viver sua fé no mundo.

Nenhum Povo Pequeno: A Tendência à Igualdade no Puritanismo

Apesar de toda sua ênfase na comunidade, o Puritanismo também é conhecido como um movimento que defendia o individualismo. A base teológica desse individualismo era o sacerdócio de todos os crentes. Este individualismo não era o humanístico da Renascença, o qual era uma forma de auto-realização baseada na bondade inerente em cada pessoa. Era ao invés disso um "individualismo... para o homem comum".

Este individualismo pode ser visto no impulso "nivelador" dos Puritanos de tratar todas as pessoas como iguais diante de Deus e proteger a importância de cada indivíduo. Para ilustrar, considere as seguintes declarações representativas que cobrem uma variedade de situações:

A pessoa mais desprezada na região deve ser tratada como se fosse um irmão do rei e membro-companheiro com ele no reino de Deus e de Cristo. Que o rei, portanto, não se considere bom demais para prestar serviço a tais pessoas humildes.
O mais pobre lavrador é em Cristo igual ao maior príncipe.
Nenhum homem deverá firmar-se no seu nascimento ilustre, ou gloriar-se em seu parentesco pela nobreza e pelo bom sangue, mas apenas regozije-se nisto: que foi retirado do reino das trevas.
Um povo não é feito para regras, mas regras para um povo.
Todos os cristãos... são feitos sacerdotes igualmente para Deus; e assim não há entre eles clero ou laicato, mas os ministros são aqueles escolhidos pelos cristãos...; eles não têm nem direito nem autoridade alguma neste ofício, senão pelo consentimento da igreja.

Todas estas frases tendem na direção de pôr as pessoas em pé de igualdade, especialmente em assuntos espirituais. Todas elas desafiam séculos de pensamentos, nos quais a sociedade havia automaticamente concedido alguns privilégios e poderes a uma elite exaltada. Lawrence Stone escreveu sobre "o efeito da consciência Puritana em solapar o respeito por posição e títulos em todos os níveis da hierarquia social". Um resultado desta tendência era exaltar a dignidade e o valor da cada indivíduo. Um estudioso moderno crê que "o mais profundo laço entre o Puritanismo e a democracia é seu respeito comum por todo indivíduo humano, independente do seu lugar em qualquer instituição eclesiástica, política, econômica, ou outra". Isto não é para alegar, é claro, que os Puritanos poderiam ter vislumbrado as instituições democráticas que eventualmente se originariam de seu pensamento.

Os Puritanos estavam todos cientes de que havia algo revolucionário em sua ênfase sobre a pessoa comum. Cromwell organizou o New Model Army (Exército Novo Modelo) com base no mérito em vez de status; ele escreveu: "Os oficiais não são de melhor família do que os soldados comuns". Outro Puritano escreveu:

A voz de Jesus Cristo reinando em sua igreja vem primeiro das... pessoas comuns... Deus usou o povo comum e a multidão para proclamar que o Senhor Deus Onipotente reina... Vocês que são da ordem inferior, povo comum, não sejam desencorajados; pois Deus pretende fazer uso do povo comum na grande obra de proclamar o reino de seu Filho.

De acordo com John Benbrigge, uma marca essencial de um verdadeiro convertido é que ele ou ela "estima o homem ou a mulher mais pobre que é rico(a) em Cristo", e denunciou pessoas que preferem "ricos mundanos a cristãos pobres".

Tais atitudes sobre igualdade eram inerentes na teologia Reformada. Ao atribuir primazia a assuntos espirituais em vez de externos, os Puritanos abriram a porta para o enfraquecimento de qualquer privilégio baseado exclusivamente em nascimento ou posição. Isto, por sua vez, foi unido à doutrina do sacerdócio de todo crente. Em tal clima de pensamento, cada santo torna-se igual ao outro e superior às pessoas cuja única reivindicação de status é social ou institucional. De acordo com William Dell, é uma regra na igreja manter a igualdade entre cristãos. Pois, embora de acordo com nosso primeiro nascimento,., há grande desigualdade... entretanto, de acordo com nosso novo ou segundo nascimento, pelo qual somos nascidos de Deus, há exata igualdade, pois aqui não há melhor ou pior, maior ou menor.

Thomas Hooker fez uma reivindicação semelhante:

Tome o santo mais inferior que já respirou sobre a terra, e o mais bem preparado e estudado erudito...; a mais inferior alma ignorante, que é quase um tolo natural; esta alma sabe e entende mais sobre a graça e a misericórdia em Cristo do que todos os mais sábios e entendidos no mundo, do que todos os grandes eruditos.

Para que não pensemos que isto é simplesmente uma preferência pela pessoa ignorante, podemos emparelhá-la com a frase do mais conhecido de todos os poetas ingleses, John Milton: "Um mero homem inculto, que vive por aquela luz que ele tem, é melhor e mais sábio e edifica aos outros mais na direção de uma vida mais santa e feliz" que um clérigo treinado em todas as universidades. Como fundamento de todas estas frases está o princípio de que o cristianismo introduz todo um novo conjunto de critérios pelos quais julgar o valor de uma pessoa.

A direção mais obviamente "democrática" que o pensamento Puritano tomou foi uma nova ênfase no controle pelo consentimento daqueles que são governados. No século dezessete, as pessoas progressivamente presumiram que tinham um direito de rejeitar o governo de magistrados ou oficiais da igreja, cujas decisões não gozassem do apoio da maioria das pessoas. Onde quer que os Puritanos ganhavam certo domínio, as congregações tinham uma voz na escolha de seus ministros.

No âmbito político, John Winthrop teorizou que as pessoas não deveriam ser submetidas ao governo de ninguém, exceto "de acordo com sua vontade e pacto", e considerava como ilegítima qualquer situação "onde um povo tem homens dominando sobre eles sem sua escolha ou permissão". John Davenport disse, num sermão sob o tema de eleição, que o povo consente com um governo "condicionalmente... de forma que, se a condição for violada, eles podem retomar seu poder de escolher a outro". Na Inglaterra, John Milton defendeu a deposição do rei sob exatamente a mesma base:

Visto que o rei ou magistrado mantém sua autoridade pelo povo..., então pode o povo, com a freqüência com que o julgar para melhor, ou escolhê-lo ou rejeitá-lo, retê-lo ou depô-lo..., meramente pela liberdade e o direito de homens nascidos livres de serem governados como melhor lhes parece.

Estas aspirações democráticas não eram necessariamente baseadas em fundamentos bíblicos ou teológicos. Num tratado que leva título re-levador The Throne Established by Righteousness (O Trono Estabelecido pela Justiça), John Barnard negava que qualquer instituição política, por si mesma, garanta o sucesso de uma sociedade:

Não sei de qualquer forma particular de governo civil que o próprio Deus tenha designado, direta ou imediatamente, em qualquer revelação clara de sua mente e sua vontade, a qualquer povo que seja.

Os Puritanos foram responsáveis pela ascensão da democracia moderna? Toda sua situação política era tão diferente da nossa própria que é difícil responder a essa questão. No mínimo, eles produziram um clima de pensamento e prática que tornou possível o desenvolvimento da democracia. Alguém falou a respeito do Puritanismo da Nova Inglaterra que poucas sociedades, na cultura ocidental, jamais dependeram mais inteiramente e mais auto-conscientemente do consentimento de seus membros do que as alegadamente repressivas "teocracias" da Nova Inglaterra antiga... Cada aspecto da vida pública na Nova Inglaterra exigia o assentimento formal do público. Membros de igreja elegiam seus ministros; associações comunitárias, seus homens seletos; homens livres, seus delegados e magistrados; e os militares, seus oficiais.

Certamente o espírito da democracia era inerente ao pensamento Puritano.

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Fonte: Santos No Mundo - Leland Ryken - Editora Fiel.
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Teocentrismo ou Antropocentrismo?



Por - Josafá Vascocelos


Os puritanos viveram uma vida de luta sob a força da Palavra e para a glória de Deus. Estavam preocupados com a sã doutrina e a piedade; com vida de oração, de comunhão com Deus e santidade. O puritanismo foi um período curto, de cem anos, em que homens e mulheres viveram de maneira fiel à Palavra de Deus, o que levou alguém a dizer que nunca se viveu as doutrinas da graça em tal nível de espiritualidade e prática como os puritanos, desde o período apostólico.

Alguém poderia perguntar: por que nós hoje ainda falamos sobre eles e o que têm a ver conosco? Respondo dizendo que eles são nossa origem. Eu sou pastor presbiteriano e sei que o presbiterianismo nasceu do puritanismo. Um pastor presbiteriano subscreve a Confissão de Fé de Westminster como sua confissão oficial (Igreja Presbiteriana do Brasil). Este documento foi fruto daquela reunião na Abadia de Westminster, Inglaterra, de julho de 1643 a fevereiro 1648, onde renomados teólogos estiveram juntos numa assembléia que durou quase cinco anos, em oração, piedade e subjugados à Palavra de Deus, para redigir esta "fiel exposição das Escrituras". Foram santos que, debruçados sobre a Palavra, extraíram o que hoje temos como nossos Símbolos de Fé (Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve).

O "Projeto Os Puritanos", iniciado em 1991, visa trazer de volta as doutrinas da Palavra de Deus que foram esquecidas; busca reaver as antigas doutrinas da graça tão fortemente defendidas pelos puritanos e sucessores. Mais do que isso, o Projeto busca considerar uma ênfase na piedade, consagração e santidade. Os puritanos viveram um grande avivamento espiritual e nós sonhamos com isso para a nossa Igreja. Este é o grande objetivo do "Projeto Os Puritanos", que é ainda muito tímido, e de forma humilde semeia a verdade com oração, aqui e ali, instando com as pessoas para que voltem para o antigo Evangelho, as antigas doutrinas da graça.

O passado vagueei procurando um lugar onde "repousar" e com um desejo imenso de acertar, de ser uma bênção, até que Deus me fez conhecer os puritanos. Foi assim que encontrei um "porto seguro" e agora tenho desejado no meu coração, mais que tudo, ser como eles foram - cheios do Espírito Santo, cheios da verdade e fiéis ao Senhor. Não tenho receio de falar isso, pois foi o que mudou minha vida de forma radical. Na verdade, o que mudou minha vida e ministério foi o conhecer a Deus de forma mais profunda mediante Sua Palavra. Ela, sim, é o nosso referencial maior.

O que vamos apresentar aqui tem tudo a ver com o desvio da verdade, com este afastamento da verdadeira doutrina, dos padrões que Deus mesmo tem estabelecido, e no qual lamentavelmente nossa própria Igreja já se encontra altamente envolvida. Que Deus, pela Sua misericórdia, venha nos visitar, pois ninguém mais do que Ele ama a Sua Igreja, comprada com Seu próprio sangue. O Senhor está olhando para a Sua Igreja e pode libertá-la daquilo que não está em Seu coração.

Nós sabemos que há uma eterna luta que experimentamos contra a nossa carne e nosso eu; contra nossa natureza pecaminosa. Foi o que disse Paulo: há uma luta do espírito contra a carne e da carne contra o espírito; uma luta contra o inimigo das nossas almas que como um leão ruge ao nosso derredor procurando ocasião para tragar-nos. Temos que resisti-lo firmes na fé. Toda aquela armadura de Deus é para nosso auxílio contra as hostes infernais. Mas temos ainda uma luta contra o mundo. Que mundo? Temos de definir essa palavra que tem múltiplos significados nas Escrituras. Precisamos sempre definir as coisas. Temos que nos firmar no significado da palavra "mundo" dentro deste contexto nestas duas passagens: I Jo 2:15 e Tiago 4:4-5.

"Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (I Jo 2:15).

"Infiéis," ("adúlteros e adúlteras" — revista e corrigida) não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Ou supondes que em vão afirma a Escritura: É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós?" (Tg 4:4-5).

Que "mundo" é este nestes textos? É descrito como algo hostil e inimigo de Deus. Certamente Deus está se referindo aqui à filosofia de vida estabelecida no mundo, ou modos vivendi. Aqueles princípios de vida que o mundo tem estabelecido pela própria impiedade do coração humano e também pela inspiração de Satanás que é o príncipe deste mundo. Percebemos que a Palavra de Deus estabelece claramente um confronto entre princípios do Reino do Senhor Jesus Cristo que Ele mesmo veio estabelecer e estão muito claros nas Escrituras, de um modo bem específico no Sermão do Monte, e os princípios do mundo, onde os homens sem Deus simplesmente estabeleceram como consenso geral do que deve ser. Nós devemos nos guardar e ter cuidado de ter envolvimento com esta filosofia mundana, deste princípio do mundo ou "conselho dos ímpios", ou estratégia de ação conforme o mundo ímpio estabelece. Não devemos nos identificar com estes princípios. Deus coloca isso de uma maneira forte quando lemos nas Escrituras as palavras "adúlteros e adúlteras" para se referir a esta comunhão com estes princípios do mundo. Isto é muito sério para Deus e por isso deve ficar bem vivo em nossa mente. Temos que abominar o "princípio do mundo"; a Igreja precisa sentir nojo dele, sendo para isso necessário identificá-lo a fim de ficar bem longe de sua influência, pois o Senhor nos deu o princípio verdadeiro de vida; deu uma estratégia santa para a Sua Igreja, para os cidadãos do Reino, para nós.

Vemos nas Escrituras o Senhor dizendo que devemos estar no mundo, mas não ser do mundo. Isto tudo nos mostra de forma clara que Deus tem estabelecido na Sua Palavra esta distância e separação. Esta é a essência da palavra "santo". Quando somos chamados "santos", significa que somos separados do mundo, não no sentido de não estarmos fisicamente nele, porque temos que ser "sal e luz", mas em termos ontológicos; com ele não podemos nos misturar e estabelecer qualquer tipo de comunhão.

Hoje isso tem se diluído, essa linha que foi tão claramente estabelecida pelo Senhor já não se distingue mais; não se pode saber o que é do mundo e o que é da Igreja. Parece que há uma mistura causada pelo afastamento daqueles princípios que foram estabelecidos pelos apóstolos, retomados pelos reformadores e ratificados pelos puritanos: aqueles marcos antigos tão claros e bem definidos. Hoje a Igreja se afastou de tal forma que nós temos uma grande mistura que não nos permite saber o que é mundano e o que não é.

Creio que uma forma de distinguir estas coisas é usando dois princípios que nos ajudarão a enxergar o problema. É como se colocássemos lentes para ver nitidamente o que é do mundo e o que é de Deus. São dois princípios que precisamos usar para tomar uma decisão e firmar o nosso coração naquilo que é verdadeiro.

Antropocentrismo e Teocentrismo.

O primeiro quer dizer que o homem está no centro. O segundo, Deus é que está no centro. O primeiro busca o favor dos homens e seus interesses, o segundo visa a glória de Deus. O antropocentrismo vai identificar princípios e estratégias que são do mundo (humanismo) e o teocentrismo é o princípio que Jesus vê para sua Igreja: a glória de Deus. Ele veio para glorificar o Pai e o nosso propósito como Igreja é esse também. Com estas duas "lentes" poderemos identificar o que é do mundo é o que é de Deus. Com estas lentes vamos olhar para a Igreja de hoje e ver quais as propostas que estão sendo feitas e identificar o que é e o que não é de Deus; vamos ver o que visa o interesse dos homens e o que visa a glória de Deus.

Antes, quero dizer uma coisa importante. Não podemos fazer confusão de nossa relação com o mundo. Nem separatismo, nem mundanismo. Não podemos cair naquele "buraco" do maniqueísmo, uma forma de gnosticismo que enfatizava a existência do "deus do bem" e o "deus do mal". Mas temos de nos lembrar de que quem governa este mundo é o Deus Todo-poderoso, criador e o sustentador de tudo. Ele é o Soberano do Universo e até o diabo e suas hostes estão sob Seu comando. Podemos muito bem trabalhar no mundo secular fazendo a vontade de Deus e para Sua glória, sem sair do mundo, visto que tudo é dEle e para Ele. Temos de ser cristãos no mundo. Lutero e os reformadores entenderam isso e buscaram viver uma vida piedosa no mundo em vez de separar-se dele. Por isso, em virtude de Soli Deo Gloria, surgiram tantas figuras e entidades famosas nas artes (Albrecht Dürer, Rembrandt, Vermeer de Hootsch); na música (Johann Sebastian Bach e G.F. Händel); na ciência (Newton, Kepler, os puritanos que fundaram a famosa Sociedade Real de Ciências na Inglaterra, Blaise Pascal); na política (Cromwell, Abraão Kuyper); na educação (John Comenius, a academia de Genebra, Universidades de Harvard, Yale, Princeton, Leiden); na literatura (Milton, Calvino, Herbert, Donne). David Livingstone, o grande missionário inglês na África, lutou com todas as forças para acabar com o mercado de escravos e o cristão e membro do Parlamento britânico, William Wilberforce, finalmente levou ao fim este comércio condenável. Cristãos verdadeiros nunca pensam em se retirar do mundo (visto que o mundo é do Senhor), mas cumprir seus deveres com vistas à glória de Deus e ao serviço da família e do próximo.

Mas temos de ver o que é de Deus e o que é do mundo no sentido carnal.

Na Evangelização

Quando falamos dos puritanos, falamos inevitavelmente de calvinismo. Os presbiterianos deveriam saber bem o que é calvinismo, pois a Igreja Presbiteriana é calvinista. O que é calvinismo? O que é arminianismo? Na verdade estas duas expressões também têm os seus comprometimentos: ou com a glória de Deus ou com o favor dos homens. Calvinismo nada mais é do que a expressão do Evangelho da graça do nosso Senhor Jesus Cristo. O grande pregador Spurgeon dizia que calvinismo é um apelido, mas na verdade é uma exposição da Bíblia, uma visão mais apropriada e fiel do que é o Evangelho da graça. Este é um apelido em virtude de João Calvino ter sido usado para sistematizar de modo claro, e, para nosso entendimento, o que a Bíblia ensina sobre a essência e natureza do Evangelho da graça. Na questão da salvação (Sotereologia) temos os cinco pontos do calvinismo, que na verdade é uma resposta aos cinco pontos do arminianismo. Isto foi estabelecido melhor no Sínodo de Dort quando foi examinado o documento arminiano (Remonstrancia). "Arminiano" vem de Armínio (Jacobus) e seus seguidores que haviam proposto a natureza do Evangelho do ponto de vista humano. Este Sínodo (de Dort), baseado nos pensamentos de Calvino, estabeleceu uma resposta ao documento arminiano de forma precisa, mostrando o que era a essência do Evangelho segundo Jesus Cristo e como é apresentado nas Escrituras. Os cinco pontos são: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada (ou definida), Chamada Eficaz e Perseverança dos Santos.

O primeiro ponto é Depravação Total – o calvinismo diz que o homem está morto em seus delitos e pecados e não pode se levantar por si mesmo, nem sequer compreender o Evangelho e muito menos se decidir por Cristo; o livre-arbítrio foi totalmente escravizado ao pecado após a queda; o homem só virá a Cristo se a graça atingir seu coração. Mas os arminianos dizem: Não! O homem é pecador, é verdade, mas nele sobrou o livre-arbítrio que o capacitará a tomar sua decisão, fazer sua parte, tornar eficaz a obra de Cristo.

O segundo ponto é Eleição Incondicional. A Bíblia é clara nisso, quando afirma que Deus escolheu os Seus de forma incondicional, pela Sua graça soberana. Ele não é injusto fazendo assim, visto que os homens caíram perecendo em condenação; mas Ele, por Sua graça, ainda quis salvar os Seus escolhidos.

O terceiro ponto é Expiação Limitada (ou definida). Ele diz que Cristo morreu só pelos eleitos. Nunca se prega sobre isto e assim o povo evangélico desconhece esta verdade bíblica. Alguns nunca ouviram isto: que a morte de Cristo foi em favor dos eleitos de Deus. A Bíblia afirma assim e eu mesmo quase caí "duro para trás", quando, depois de muitos anos como pregador e evangelista em várias cruzadas, tomei conhecimento desta verdade, de que Cristo morreu por aqueles que o Pai elegeu e entregou-os para serem salvos – os eleitos. Na verdade, todos os versículos que aparentemente defendem uma expiação universal têm uma explicação que fazem com que estes não se choquem com o ensino bíblico de que Jesus morreu só pelos eleitos. Mas não se vê explicação por parte dos arminianos para os textos que claramente dizem que Deus deu ao Filho aqueles que Ele elegeu "desde o princípio" para serem salvos. Quando a Bíblia diz "que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho" é porque Ele não amou só a judeus, mas porque tem eleitos em todas as nações e raças do mundo. Não podemos aceitar que Deus tenha substituído cada pessoa na cruz, mas só os eleitos, doutra sorte, todos estariam salvos. Por isso, teologicamente, não é certo dizer às pessoas indistintamente que Jesus morreu por elas. O correto é dizer que Jesus morreu por pecadores e os salva completamente. É isso que a Bíblia ensina. Você não encontrará nenhum apóstolo dizendo: "Jesus te ama", mas que os homens se arrependam e creiam no Evangelho. Nós pregamos a todos indistintamente, pois a oferta do Evangelho é para todos, mas é certo que só aqueles que são do Senhor virão. Existem tantos versículos que falam sobre isso e eu antes não conseguia ver.

O quarto ponto é a Graça Irresistível que é a obra do Espírito Santo atingindo os corações e atraindo-os de forma irresistível. Esta graça vai diretamente para os eleitos de Deus e neles opera, infunde arrependimento, fé, dando capacidade ao homem para responder ao Evangelho. Esta é a Graça Irresistível.

O quinto ponto é a Perseverança dos Santos que afirma que um eleito não pode jamais se perder e vai viver de modo santo. O eleito vai viver em santidade, pois este é o propósito da eleição: "Sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor" (Ef.1:4). Santidade é sinal de eleição. Este é o Evangelho da graça que visa a glória de Deus porque mostra que Deus salva soberanamente a quem Ele quer; a glória é dEle.

Por que estou afirmando tudo isso? Porque quero mostrar a diferença com o pensamento arminiano. O Evangelho que os calvinistas pregam é duro, pois diz: "Não foram vocês que escolheram a Cristo, mas Cristo é quem os escolheu. Não é você quem decide ou aceita, não! Mas é Deus quem salva por Sua graça, pois é soberano. O que você tem de fazer é buscar esta salvação clamando com toda a força do seu coração; tem de clamar e suplicar pedindo a Deus que lhe dê arrependimento e fé para crer no Senhor Jesus". Isto é o que a Bíblia ensina. A soberania de Deus é vista assim e a glória é toda dEle. Mas a pregação arminiana diz: "Dê uma chance para Jesus, Ele morreu pelo mundo; coitado, lá na cruz Ele sofreu e você não faz nada; abra o seu coração, você precisa vir e terá isto e aquilo...; terá prosperidade e vai melhorar em tudo". Veja que a glória é colocada no homem quando se afirma que ele pode fazer através do seu livre-arbítrio, e que a salvação depende dele, pois a decisão está nas suas mãos. Para o arminiano é você que vai, com sua iniciativa salvar a reputação de Deus. Eles perguntam: "Você não vai fazer nada?".

Perguntamos: Qual das pregações é a teocêntrica e qual é a antropocêntrica? Qual a que visa a glória de Deus? Está claro que o arminianismo é antropocêntrico visando a glória do homem, mas o calvinismo é teocêntrico, visa a glória de Deus. O arminianismo diz que Deus existe para nos ajudar, para nos abençoar; Deus existe para nos satisfazer. Mas é o contrário, nós existimos para a glória de Deus. Infelizmente nossas igrejas, presbitérios e a direção da Igreja não têm visto isso. Não há uma preocupação no sentido de reciclar os pastores (com exceções, isso é óbvio) e restaurar a doutrina da Igreja conforme está expressa na Confissão de Fé de Westminster.

Outro comprometimento grave na evangelização tem chegado aqui no Brasil e muitos pastores estão envolvidos com ele. É o Movimento de Crescimento de Igreja (leia Fazendo A Igreja Crescer - Editora Os Puritanos) que começou com McGravan. Seu discípulo, Peter Wagner, que tem sido muito apreciado hoje por seus livros, "comprou" a ideia e o princípio deste movimento nasceu da dificuldade que encontrou McGravan quando era missionário na Índia, para ver convertidos. Ele pensou que alguma coisa estava errada com a forma de evangelizar e concluiu que precisava fazer alguma coisa para "a coisa funcionar". Por isso, começou a examinar a evangelização pela ótica do pragmatismo. Ou seja, "se funciona, está certo". Então, a pergunta mais importante é: o que temos de fazer para funcionar, para que as pessoas se interessem em vir para a igreja? Ele começou a usar as "ciências" para ajudá-lo: sociologia, psicologia, marketing, ciência da comunicação, gerenciamento de empresa, etc. Ele estabeleceu uma metodologia dentro deste princípio pragmático. Usando estes recursos ele estruturou um sistema para evangelizar. Naturalmente que ele não iria usar o costumeiro método de mandar alguém a qualquer lugar para pregar o Evangelho, mas procurava identificar se aquele local era propício para se semear a Palavra, ou seja, se os resultados poderiam ser imediatos, se funcionariam logo. Se você insistisse em um lugar e não visse resultados estaria desperdiçando tempo e os recursos empregados. A orientação era: vá para um lugar onde é fácil a aceitação e não para um onde seja difícil. Por isso, defendia o chamado "mapeamento". O que é isso? Você deve chegar a uma cidade ou lugar e começar a colher informações sobre a existência de igrejas, o número de habitantes (número pequeno é desaconselhável), a receptividade das pessoas, etc. A isto ele deu o nome de "teste de solo". Se aquele "solo" não é favorável, nem tente! Vá a outro lugar onde o crescimento é mais rápido, quem sabe, depois poderá voltar ali. Essa metodologia está sendo muito utilizada no mundo evangélico. Veja o "marketing" sendo usado na Igreja. Temos de fazer propaganda para atrair, usar fórmulas que façam as pessoas se interessarem e assim venham para Cristo. Hoje, temos igrejas nos Estados Unidos onde não se têm mais púlpito. No seu lugar há um sofá grande onde o pregador senta-se para "bater papo", ou um telão onde aparece um filme ou uma partida de basquetebol; é sempre usado o testemunho de alguém que "encontrou" a Cristo; chegam até a usar o seu cachorrinho para fazer uma aplicação... tudo para tornar o ambiente agradável e propício aos ouvintes. Tudo isso está dentro deste programa pragmático. O plantador de igreja tem que ter um número "x" de pessoas convertidas, dentro de um tempo "x" para ser considerado plantador de igrejas. Deste modo ele terá de utilizar estas coisas para plantar e para "segurar" as pessoas. O mais importante não é a mensagem, mas a audiência. Você deve pregar o que elas querem ouvir. Teologia não é importante, doutrina não é importante e sim a metodologia que faz a igreja crescer mais rapidamente. É a era do pragmatismo na evangelização, onde o que interessa são os números. Hoje há uma pressão em relação aos números. Pobre daquele pastor que quer ser fiel e luta na sua igreja pregando o Evangelho na sua essência, muitas vezes com as verdades duras da graça. Esses serão condenados por este Movimento de Crescimento de Igrejas e pelos pragmáticos.

Mas, se Cristo fosse um pragmático e visse aquela multidão procurando o "pãozinho", Ele faria mais um milagre na intenção de conquistá-la. Porém, Jesus disse que eles estavam enganados. Ele pregou um sermão duro: "Vocês têm de comer minha carne e beber o meu sangue". Ele estava dizendo que para ser cristão, um seguidor dEle, teria de lutar. Jesus foi tão duro com eles que começaram a abandoná-lo. Quando vejo este texto em João 6, visualizo os discípulos atrás de Jesus vendo a multidão e os seguidores indo embora, e então penso que eles comentaram uns com os outros dizendo: "Se o mestre não maneirar não vai ficar ninguém." Mas Jesus se dirige a eles e diz: "Vocês também não querem se retirar?". Mas acho que o mais importante é o versículo 44 e o 65 (João 6) quando Jesus diz que ninguém pode vir a Ele se o Pai não o trouxer, se do Pai não for concedido. É como se Jesus dissesse: "Não vou maneirar de modo algum, o Evangelho é este aí que tenho apresentado; não é fácil, vocês têm de tomar a cruz, entrar pela porta estreita, pelo caminho apertado, e só aqueles que são do Pai virão, seja a mensagem dura quanto for; eles virão!"

No entanto hoje percebemos que há um movimento para você ser "amável", "amigável", na sua maneira de pregar; esconder algumas verdades mais duras e falar só o que é agradável. Estive em um certo país do primeiro mundo e fui visitar uma destas igrejas que estão adequadas ao programa de Crescimento de Igreja. Fiquei preocupado com o pastor daquela igreja. Ele estava nesta "pressão". Se não cumprisse com o programa não seria considerado um "plantador" e perderia seu salário. Eu iria pregar naquela igreja e antes ele conversou comigo e me deu algumas explicações do contexto daquele lugar. Ele disse: "Preste atenção, aqui temos pessoas que saem de seus países e vêm para cá em busca de emprego e dinheiro e não podem logo trazer a família. Esperam alguns anos e por não poderem trazer a família 'arranjam' outra mulher e outra família. Nós temos de ser 'compreensivos' com esta situação. Além do mais, eles ficam no país ilegalmente e conseguem trabalho para sobreviver, muitas vezes escusos e também ilegal; se envolvem com falcatruas e outras coisa ilegais. O que posso fazer, senão ser tolerante?"

Quando você começa a trabalhar basicamente com os resultados como alvo principal, está pecando tremendamente contra Deus. Por quê? Porque os resultados pertencem a Deus, ao Espírito Santo. O resultado é terreno sagrado. Nós abominamos isso. Podemos ter alvos de alcançar pecadores, podemos até programar atingir determinada área da cidade, etc. Mas ter alvos de plantar trezentas igrejas até tal ano é errado, porque igrejas são formadas por convertidos, regenerados. É o mesmo que se estabelecer um alvo de "x" convertidos num determinado espaço de tempo. Quando fazemos alvos de ter um número fixo de convertidos em determinado tempo, extrapolamos nossa capacidade e entramos na área de Deus. O pior é que para isso temos de "ajeitar" a mensagem e baratear a graça até alcançarmos estes alvos.

Devemos sempre lembrar: pragmatismo é antropocentrismo. É usar recursos humanos na evangelização, metodologia humana e isso não é bíblico.

Liturgia x Entretenimento

O propósito hoje é fazer um culto agradável, animado, "vivo". Ouço pessoas dizerem: "Vamos cantar tal música porque é uma maneira gostosa de louvar a Deus. Este é meu estilo". Mas se há preferência por estilo, o que na verdade existe é uma ênfase no que agrada ao homem e não naquilo que agrada a Deus na adoração. O que agrada a Deus é essencial e só encontramos como está explicitado nas Escrituras. O culto pertence a Deus, pertence exclusivamente a Ele; não é nosso. Culto é o encontro de Deus com Seu povo, onde Ele estabelece o que Lhe agrada para sua adoração. Ele tem já estabelecido na sua Palavra como deve ser o culto agradável aos seus olhos. As pessoas ficam muitas vezes tentando fazer uma liturgia para os incrédulos se sentirem bem e saírem satisfeitos. Mas os incrédulos têm de ser quebrantados e evangelizados para que se arrependam e não para serem agradados no culto; nunca foi este o propósito de Deus. Não vemos na Bíblia esta orientação de que se deve evangelizar com os cânticos, como se Deus tivesse dito: "Ide por todo mundo e cantai." Não, este não é o ensino da Palavra de Deus. A fé vem pelo ouvir e ouvir o louvor? Não! A fé vem pela pregação. Louvor é para Deus e devemos usá-lo para adorar ao Senhor. É verdade que Deus pode usar o louvor a fim de, em algumas ocasiões, predispor o coração de alguém para ouvir a exposição da Palavra. Não existe na Bíblia nenhuma orientação para se usar louvor para evangelizar. Precisamos corrigir isto.

Muitas vezes somos tentados a fazer certas coisas pensando que Deus vai gostar porque fazemos com toda sinceridade, devoção e boa intenção, mas não é correto, não serve. A boa intenção que agrada a Deus é ir à Bíblia e perguntar: o que devo fazer para agradar ao Senhor e ganharmos os incrédulos para Cristo? Culto é algo tão sério para Deus que qualquer coisa que não seja o que Ele ordenou é fogo estranho e sabemos que a resposta de Deus foi muito séria contra Nadabe e Abiú; Deus os matou. A conversão vem sempre pela Palavra de Deus, pois a Bíblia diz que nós fomos regenerados mediante semente incorruptível da genuína Palavra de Deus. As pessoas esquecem que na adoração a Palavra de Deus é central. A pregação e o ensino foram o centro do ministério de Cristo e dos apóstolos. Muitos pensam que pregar é só falar aos outros, porque ninguém prega para Deus. Nada mais equivocado, pois na pregação não só falamos às pessoas, mas falamos das grandezas de Deus e nisso Ele é glorificado. Pregação, além de ser adoração e um meio de graça, é o método de Deus para converter pessoas. O jovem e famoso pastor escocês, Robert McCheyne, dizia que os ministros deviam estar sempre lembrados de que as almas são livres do inferno e salvas para Deus através da pregação. Esta é a maior obra do ministro do Evangelho - pregação.

Doutrina

O que temos hoje na igreja é o pluralismo teológico e a tolerância doutrinária. Dizem que ao combatermos isso nós nos tornamos radicais e extremistas. Mas, pluralismo é do diabo, foi maquinado no mais profundo inferno. O pluralismo religioso diz assim: "Você quer ser dono da verdade, é? Ninguém é dono da verdade! Há várias formas de se ver a verdade; você tem o seu jeito de interpretar, mas outros podem pensar diferentemente". Pluralismo é o irmão gêmeo do relativismo. Não há uma posição definida. Hoje há uma ojeriza à verdade absoluta; não existe verdade absoluta, isto não é politicamente correto - dizem. Vivemos uma época em que não damos o menor valor às confissões de fé reformadas - no meio presbiteriano hoje, muitos nem conhecem os padrões de fé de Westminster e as crianças nunca memorizaram nada dos catecismos. Muitos dizem que aceitar as Confissões é radicalizar, pois é dogmatizar a verdade. O pensamento liberal afirma que cada um tem sua interpretação. Isto é antropocentrismo, é filosofia humana introduzida na Igreja. Se você tiver posições definidas será acusado de radical, prejudicará a mensagem e no fim sobrarão poucas pessoas. Acham que se sua mensagem for forte, direta e bíblica, as pessoas ficarão ofendidas, pois devemos respeitar as ideias dos outros. Irmãos, cuidado com pregações que não trazem a verdade absoluta e não nos confrontam com a verdade, na suposição de que, se assim for, as pessoas serão feridas na sua sensibilidade. Temos de pensar como Spurgeon, o qual afirmava que a instrução deve ser ministrada de forma definida e dogmática; que os professores dos seminários não deveriam ensinar de modo vago e liberal, apresentando "diferentes pontos de vista" e deixando para o aluno a escolha daquilo que lhe convier; pelo contrário, devem mostrar de modo convincente e inconfundível a mente de Deus e posicionar-se de forma resoluta pelo "antigo Evangelho", saturar-se com ele e por ele estar dispostos a morrer. 

Temos que jogar fora tudo isso que for mundanismo dentro da Igreja: o pluralismo e tolerância doutrinária. É claro que temos de ser tolerantes, mas não com o erro. Temos que voltar à verdade e a Igreja Presbiteriana, que é confessional (temos uma Confissão de Fé de Westminster), deve louvar a Deus por esta bênção. O diabo tem horror à Confissão de Fé e a igreja está à beira da ruína por desprezá-la. A verdade da Palavra de Deus é infalível. Sei que a Confissão não é infalível e os que a redigiram seriam os primeiros a dizer isto, mas não existe nenhuma expressão doutrinária retirada das Escrituras com mais coerência e exatidão da verdade do que este documento. Este legado tem sido desprezado, "jogado para trás" e por isso a Igreja está cada vez mais parecida com o mundo. Nossa luta é por restaurar a verdade absoluta de Deus. Se nós fizermos assim vamos excomungar o lixo e estabelecer a única unidade proposta nas Sagradas Escrituras: em torno da doutrina, em torno do ensino verdadeiro. Devemos ter um só batismo e uma só fé. Até que cheguemos à unidade da fé. Que fé? A doutrina! Devemos ter unidade na doutrina e aí teremos um só pensamento. Isto é teocentrismo!

Liberalismo ético

Temos que analisar I Co. 9:19-23. Alguém pode dizer: "Está vendo, Paulo usa de estratégia, ele é pragmático, ele fez concessões, cedeu nas suas convicções, se fez de fraco para alcançar os fracos". Isto é desconhecer Paulo. Se Paulo tivesse negado suas convicções ele jamais teria sido apedrejado, não teria sofrido perseguição nenhuma. Paulo não está aqui dizendo que sacrificaria a verdade, a mensagem do Evangelho para ganhar alguém - nunca! Ele diz que pessoalmente se sacrifica, que estaria disposto a sofrer o que fosse necessário, mas não "negociaria" a verdade do Evangelho. Alguns dizem que Paulo falou que não importava que o Evangelho fosse pregado por inveja, porfia, contenda, contanto que o Evangelho seja pregado. Então, concluem que não importa o que é dito ou como é feito. Seria isso? Mas Paulo está dizendo que as pessoas podem ter até desejos e objetivos errados no seu coração, mas se estão pregando a verdade como ela deve ser pregada, até isso Deus usará. Porém, Paulo nunca aceitou negociar o Evangelho. Vejamos em I Co 2.1-5: "...não o fiz (anunciar o Evangelho) com ostentação de linguagem, ou de sabedoria....A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus." Paulo disse ainda em I Ts 2.3-6: "Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo...assim falamos, não para que agrademos a homens, e, sim, a Deus...nunca usamos linguagem de bajulação...jamais andamos buscando a glória de homens..." Gl 1.10: "Porventura procuro eu agora o favor dos homens, ou de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo". Como podemos, diante destes textos, pensar que Paulo fizesse concessões em favor dos homens? Paulo nunca negociou a verdade do Evangelho e nunca abriu mão da sua santidade e da sua ética. Ele falou que, por causa da consciência e da liberdade cristã, você não deveria comer aquilo que pudesse escandalizar um irmão mais fraco.

Não podemos abrir mão da verdade. O que vemos na igreja de hoje é o liberalismo ético. Muitos dizem que não há importância se você burla o fisco, vende produtos sem nota e dá propina, ou se está vivendo maritalmente com alguém, mas está cheio de boa intenção, está desejando o crescimento da Igreja, dá um bom dízimo... Isto é antropocentrismo; é igreja mundanizada.

Como ser teocêntrico?

1. Na evangelização, temos de ser fiéis à Palavra de Deus; é pregarmos o Evangelho da graça do nosso Senhor Jesus Cristo, todo conselho de Deus. Muitas vezes temos um sermão para a igreja e um sermão evangelístico. Muitos dizem: "Pastor, faça um sermão evangelístico, nós temos muitos visitantes". O que é um sermão evangelístico? Eles dizem que é falar do amor de Cristo, que se deve voltar para Ele, e fazer um apelo, etc. A verdade é que nós achamos que a conversão das pessoas só é possível se falarmos o que as pessoas querem ouvir, aquilo que satisfaça seus interesses. Mas Deus converte uma pessoa através da Palavra, pela pregação expositiva da Palavra de Deus e todo conselho de Deus; exatamente através de uma pregação que muitos consideram ofensiva às pessoas. Não temos de escolher coisas mais amenas e pregá-las, mas temos de pregar a Palavra, explicando-a e fazendo a aplicação devida do texto para os crentes, para os incrédulos e para adultos e jovens. Ou seja, para os crentes e descrentes que estiverem ouvindo. Uma mensagem fiel às Escrituras, que mostra o amor de Deus e Sua justiça, mesmo que seja dura muitas vezes. A mensagem pode ser aguda, mas sempre deve trazer o bálsamo da graça. É exatamente através dela que o Espírito de Deus trabalha nos corações e não pelo desempenho do pregador, pelo seu jeito de falar. Isto é teocentrismo: ser fiel na pregação da Palavra de Deus que exalta a pessoa de Deus e abate o homem e o coloca no seu lugar devido: "boca no pó". Temos de crer que o Espírito Santo fará a Sua obra e que a Palavra não volta vazia, mas fará aquilo para a qual Deus a tem designado.

O pregador precisa orar e pregar com autoridade, poder e fidelidade à Palavra do Senhor; as consequências estarão com o Senhor, pois Ele fará a obra.

2. Na liturgia, temos de ter um culto simples que vise a glória de Deus, sabendo que no culto reformado, a prioridade não são os cânticos, não é a oração, mas é a pregação e exposição da Palavra; ela tem de ter lugar central e temos de retomar isto. É ela que exalta a Deus, que exorta e edifica os crentes e que converte pecadores.

3. Na doutrina, temos de ser reformados e usar a Bíblia como toda suficiente, autoritativa e inerrante. Temos de usar a Confissão de Fé, pois é uma arma potente para aferirmos nossos conceitos e identificarmos os erros que hoje adentram no arraial evangélico. Temos de usar os catecismos para as crianças, a fim de criarmos uma mentalidade teocêntrica nas gerações que virão.

4. Vida de santidade. Precisamos de vida santa mais do que de metodologia, de palavreado, de ser amigável para que as pessoas venham; o testemunho de uma vida santa é o que fala alto. Disso, estamos precisando hoje, vida de compromisso, vida pura, irrepreensível diante de Deus. Fomos eleitos para isso, disse o apóstolo Paulo aos efésios.

Mas eu pergunto: devemos nos interessar pelo crescimento da igreja em números ou não? Sim, não devemos nos acomodar com o fato de que só haja cinco pessoas na igreja e o que importa é que estejamos pregando a Palavra de Deus. Não deve ser assim. Devemos pregar sentindo no coração o incômodo por ver pecadores caminhando para perdição e crentes que fraquejam em sua devoção por uma vida de frieza espiritual e na busca de um viver santo. Precisamos chorar aos pés do Senhor em favor dos perdidos, clamando a Deus por um genuíno quebrantamento, arrependimento e um verdadeiro avivamento. No passado, os puritanos derramavam a alma diante de Deus por avivamento. Lembramos de David Brainerd. Foi um moço de vinte e poucos anos que foi trabalhar entre os "pele-vermelhas", nos Estados Unidos. Começou a pregar aos índios, mas era muito difícil, pois ele tinha dificuldades em falar a língua deles. Muitas vezes, David Brainerd tinha de se utilizar de um intérprete completamente bêbado, mas mesmo assim pregou um ano, dois anos, e nada acontecia. Ele conta no seu diário que ficava orando pela alma daqueles índios indiferentes, de tal forma e em tal agonia que mesmo na neve sua camisa ficava molhada de suor ao implorar diante de Deus, diante do Seu trono, em favor daquelas almas. Por que David Brainerd não procurou fazer uma festinha lá entre os índios para atraí-los, mas insistiu em pregar, pregar e pregar a Palavra de Deus? Por que ele insistiu em falar da morte de Cristo que nos faz mais alvos que a neve, se eles não queriam nada com o Evangelho? Mas esta era a palavra que ele tinha de pregar, era a palavra que Deus estabelecera e a qual ele foi enviado a anunciar como fiel ministro. Por isso ele insistiu na pregação até à agonia. Em vista do seu trabalho naquela região fria, David Brainerd adoeceu de tuberculose por perder suas defesas físicas, mas Deus, por fim, fendeu os céus e derramou um grande e poderoso avivamento entre aqueles índios "pele-vermelhas". Numa reunião tão pequena, com algumas mulheres, de repente a onda do Espírito veio e aquelas índias se prostraram em choro e quebrantamento pelos seus pecados diante do Senhor. Outros e outros índios vieram e muitas conversões aconteceram em meio a choro, arrependimento, quebrantamento, rendição aos pés do Senhor; em meio a um grande avivamento que atingiu a todos. A Palavra fez isso!

O mesmo aconteceu com Jonathan Edwards, cuja filha era noiva de David Brainerd e que também morreu de tuberculose cuidando do seu noivo. Jonathan viu o grande avivamento acontecer na Nova Inglaterra quando pregou aquele sermão tão rejeitado hoje: Pecadores Nas Mãos De Um Deus Irado. Se há um sermão que o pragmatismo abomina é este. Um pragmático diz: nunca pregarei um sermão assim. Mas foi este sermão, essencialmente teocêntrico, que Deus usou para trazer o grande despertamento, onde milhares se converteram a Cristo, no século XVIII. Temos de crer no avivamento, devemos desejar avivamento, quebrantamento, arrependimento nas nossas vidas e na Igreja. Devemos rejeitar estas práticas mundanas antropocêntricas dentro da Igreja e lutar por um retorno à verdade para a glória de Deus. Eu desejo este arrependimento na nossa Igreja no Brasil; desejo que nela haja choro, lamento e arrependimento genuínos no poder do Espírito Santo atingindo os corações pela pregação fiel da Palavra de Deus.

Irmãos, desejo intensamente ver, com meus olhos, esta bênção na minha amada e querida Igreja. Que Deus faça isso! Teocentrismo e não antropocentrismo. Uma Igreja conforme o padrão de Deus e não conforme o mundo.

Amém!

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Sobre o autor: Josafá Vascocelos é Pastor da Igreja Presbiteriana da Herança Reformada em Salvador; foi Presidente do Presbitério da Bahia; conferencista reformado no Brasil e exterior; foi membro da Comissão de Evangelização da Igreja Presbiteriana do Brasil. Autor e tradutor de diversos artigos publicados na revista Os Puritanos e dos livros: "Nada se Acrescentará" e "O Outdoor de Deus".

Fonte: Editora Fiel
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