Compreendendo a morte e a vida

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Texto base: Eclesiastes 9.1-18

INTRODUÇÃO

No final do capítulo anterior (8.9-15), Salomão esmera-se em conhecer a obra de Deus neste mundo. Nessa busca, ele sofreu bastante. O maior obstáculo com que Salomão se deparou ao meditar na providência divina foi a separação que é delineada entre os bons e os maus, no que tange o decreto das bênçãos, adversidades e a disposição desses acontecimentos no mundo.

Este modo soberano de Deus agir gerou indagação em muitos homens sábios. Portanto, Salomão discorre acerca da inescrutável providência divina. Sabendo que homem algum pode descobrir os pormenores da obra de Deus, o pregador salienta aquilo que pode evitar a nossa “queda” emocional e espiritual, ou seja, a perda do sentido de viver.
     
Nesta perícope, Salomão aborda dois temas – “a sabedoria humana em contraste com os desígnios de Deus”. Este terceiro ciclo que antecede a conclusão do livro de Eclesiastes (6.8–12.7) recomenda-nos a usufruir com diligência dos prazeres que a vida e o trabalho proporcionam, tendo em vista a possibilidade de não sermos recompensados apropriadamente nesta vida pelo esforço e a integridade de caráter que demonstramos.

O esboço analítico deste trecho pode ser dividido em três partes. Na primeira parte, Salomão reflete sobre a infalibilidade da morte (9.1-6). Na segunda parte, ele recomenda que desfrutemos integramente dos prazeres da vida (9.7-10). E, na terceira parte, Salomão fala sobre como a vida é imprevisível (9.11-18).   


EXPLANAÇÃO

1. A infalibilidade da morte (9.1-6)

Nos versículos 1-3, Salomão observa que, no tocante as coisas externas, as boas e as más pessoas são praticamente similares. Nos versículos 4-6, por sua vez, o pregador descreve que os prazeres e o trabalho findam-se com a morte. Por conseguinte, cinco observações são destacadas.
     
a) Deus governa a vida de todas as pessoas (vs.1)

Após refletir de coração sobre as “desigualdades na vida” (8.9-15) e “a obra de Deus nesse mundo”, Salomão ressalta que chegou à conclusão de que os justos e os sábios, e tudo o que fazem é governado pela vontade soberana de Deus. A vida de todas as pessoas está nas mãos de Deus. Assim, não é possível saber se mais coisas boas ou se mais coisas ruins estão decretadas para a nossa vida. “O futuro do ser humano é desconhecido e incompreensível; tudo pode acontecer”.[1] Somente Deus conhece o nosso futuro, o qual Ele mesmo estabeleceu (veja alguns exemplos em Jó 23.13-14; Pv 19.21; 42.2; Is 14.24,27; 43.13; 46.8-11; Lc 24.44-47; Hb 6.17; Jo 21.18-19).

Heber Carlos de Campos salienta que os decretos de Deus são as resoluções que o Senhor Deus toma (na eternidade) a fim de que sejam cumpridas ou realizadas na história do mundo. Ele decreta todos os acontecimentos, grandes ou pequenos, sejam diretamente relacionados com a história da redenção ou não. Tudo o que acontece em nosso mundo e em nossa vida pessoal é produto da vontade decretiva de Deus.[2] Certamente, até o retorno glorioso de Cristo para a consumação de todas as coisas, tanto os bons como os maus irão experimentar “momentos de felicidade e momentos de adversidade” na vida (vs.2-3a).

b) A uniformidade da vida (vs.2-3a)

A vida é igual para todos. As mesmas coisas que sucedem ao justo sucedem ao perverso, afirma Salomão. A expressão tudo sucede igualmente a todos não é aplicada somente à morte, apesar de a passagem seguir nesse sentido. O foco do pregador é demonstrar através de uma série de contrastes que “o justo não é favorecido de modo visível pela providência, nem o injusto admoestado de modo visível pela providência. A própria morte chega, sem discriminação, a todos”.[3] É bem provável que a expressão ao que jura refira-se ao juramento pelo nome do Senhor (Dt 6.13; 10.20), que era parte da fidelidade à aliança de Deus. A expressão ao que teme o juramento é mais bem traduzida por aquele que evita o juramento; refere-se aquele que evita ser fiel à aliança de Deus.

Matthew Henry sintetiza o contraste descrito por Salomão:

Os justos são puros, possuem mãos puras e corações puros; os ímpios são impuros, estão sob o domínio da cobiça impura, puros talvez em seus próprios olhos, mas não purificados de sua indecência. [...] Os justos sacrificam, isto é, eles têm consciência da adoração a Deus segundo a sua vontade, tanto na adoração mais íntima quanto na pública; os ímpios não sacrificam, ou seja, eles vivem negligenciando a adoração a Deus e têm raiva de participar de qualquer coisa para a honra dele. Quem é o Todo-Poderoso, para que eles o sirvam? Os justos são bons, bons aos olhos de Deus, eles fazem o bem no mundo; os ímpios são pecadores, violando as leis de Deus e do homem, e provocando a ambos. O homem ímpio jura, não tem veneração alguma pelo nome de Deus, mas o profana ao jurar de forma precipitada e falsa; porém o homem justo teme o juramento, não jura, mas é ajuramentado, e isso com grande reverência; ele teme fazer um juramento, porque este é um apelo solene a Deus como testemunha e juiz; quando faz um juramento, ele teme quebrá-lo, porque Deus é justo para tomar vingança. Existe uma grande diferença entre a origem, o desígnio e a natureza do mesmo acontecimento para um e para o outro; os seus efeitos e questões são igualmente muito diferentes; a mesma providência para um é cheiro de vida para vida, e para o outro, de morte para morte, ainda que, aparentemente, seja a mesma coisa.[4]

O fato de todas as coisas terminarem da mesma forma para os bons e os maus é denominado por Salomão de mal. Ele estava consternado por não ter nenhuma mensagem de consolo para ser transmitida. O pregador apenas classificou os eventos da vida como “o mal que acontece neste mundo” (vs.3a). 
                
c) A corrupção universal (vs.3b)

Salomão alude que o coração dos homens está repleto de perversidade e loucura até a morte chegar. Steven Lawson diz que o pregador se refere ao pecado como loucura. A rebelião contra Deus é insanidade espiritual.[5] O pregador não considera a morte um “fenômeno natural”, mas um mal invencível e inevitável da perspectiva humana, pelo menos enquanto aguardamos o estabelecimento do reino de Deus nesta terra, que se dará por ocasião da segunda vinda de Cristo, onde a morte não mais existirá.

A palavra maldade está conectada à palavra desvarios, que enfatiza a corrupção radical do homem. Após a queda, todas as faculdades do homem [pensamento, sentimento e vontade] foram corrompidas pelo pecado. No entanto, é importante ressaltar que a “depravação total” não significa que o homem é completamente corrupto pelo pecado, ao ponto de não poder manifestar nenhum ato de bondade. Não! Antes, a “depravação total” mostra que o homem é extensivamente, e não totalmente corrupto.

Duane Edward Spencer elucida:

Depravação Total, portanto, não significa que o homem seja incapaz de realizar algum bem humano. Todos nós sabemos que o mais perverso dos homens é capaz de algum bem humano. A doutrina reformada da "Depravação Total" não afirma que, no homem, não há bem algum. Quando o homem se mede pelo homem, ele é sempre capaz de encontrar algum bem em si mesmo ou nos outros (Ef 2.2-3).

A Depravação Total significa que o homem, em seu estado natural, é incapaz de fazer qualquer coisa ou desejar qualquer coisa que agrade a Deus. Enquanto ele não nascer de novo, por obra do Espírito Santo, e enquanto o seu espírito não for vivificado pela graça de Deus, o homem é escravo de Satanás ("O príncipe do poder do ar"), que o leva a satisfazer todos os desejos da carne, que são inimizades contra Deus. Aos olhos de Deus, o "melhor dos homens" só alimenta pensamentos maus, porque os homens são orientados a fazer apenas o bem humano, para a glória de si mesmos ou para a glória de Satanás, mas nunca para a glória do Criador (Gn 6.5; Jr 17.9).[6]   
   
Salomão confere a maldade ao coração de todos os homens. O coração é a natureza interior do homem. Logo, os homens são alienados de Deus por toda a vida (7.29). Após a morte, eles são conduzidos ao estado intermediário, onde aguardam o “acerto de contas” com Deus, que acontecerá no julgamento final, com o retorno de Cristo (11.9; 12.7).  

Warren Wiersbe escreve:

“O coração dos homens está cheio de maldade” e, mais cedo ou mais tarde, essa maldade vem à tona. As pessoas fazem quase qualquer coisa, exceto se arrepender, a fim de escapar da realidade da morte. Embebedam-se, brigam com os parentes, dirigem sem qualquer cuidado, esbanjam seu dinheiro com coisas inúteis e mergulham de cabeça numa sucessão de prazeres sem sentido, tudo para manter afastada a realidade da morte. Porém, suas tentativas tão custosas não encerram a guerra, mas apenas as distraem da batalha, pois o "último inimigo" [a morte] continua presente.[7]   
             
d) Um adágio oportuno (vs.4)

Tendo em vista que a realidade da morte atinge a todos, e que coisas boas e más acontecem com todos (vs.2-3), Salomão afirma que há esperança para os que vivem, isto é, existem fatos para acontecer em nossas vidas que aguardamos com expectativa. Para completar o seu argumento, o pregador enseja um provérbio geral: porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. Salomão está dizendo que, a despeito da realidade da morte e da imparcialidade da vida, os homens apegam-se à esperança como a última coisa que morrerá, e presumem que é melhor um cachorro vivo do que um leão morto. O leão, o animal mais forte, era muito admirado no mundo antigo (Pv 30.30). O cachorro, por outro lado, era um animal desprezado por seu desasseio (Pv 26.11) e por se alimentar de carniça (Êx 22.31; 1Rs 14.11). 

Champlin realça:

O pregador nada acrescenta a essa declaração, como se, realmente, nela houvesse alguma esperança. Ele estava apenas observando quão tolamente os homens continuam esperando, a despeito das infelizes evidências contrárias. O leão era o rei dos animais, temido e honrado pelos homens e pelos animais irracionais. O cão selvagem do Oriente (lá não se criavam cães como animais domésticos) era um predador imundo e desprezado. Mas um cão daquela natureza desprezível se estivesse vivo, seria melhor que um nobre leão em adiantado estado de putrefação.[8]  
     
A esperança dos homens sem Deus é uma esperança limitada, pois se baseia nos prazeres efêmeros da vida terrena, como o prazer na comida, nos momentos de interação, no casamento e no trabalho (vs.7-10). “A esperança alicerçada em fatores humanos e terrenos é tragicamente mal orientada”.[9]

Todavia, o relato de Salomão nos leva a refletir sobre uma “esperança equilibrada”. Em primeiro lugar, nossa esperança deve ser em Deus. Em segundo lugar, nos prazeres que Ele nos conferiu para desfrutarmos nessa vida (vs.7-10). Os prazeres foram dados para que nos alegremos neles visando o Deus que os proporcionou. Experimentamos a verdadeira felicidade quando glorificamos a Deus através dos prazeres da vida (1Co 10.31).
            
e) Uma reflexão sobre a morte (vs.5-6)

O pregador relata que a morte alcançará a todos, e declara também a inatividade dos que já morreram. Num momento de inquietude, Salomão ufanou os que já haviam morrido mais dos que ainda vivem (4.2). Porém, tendo em vista os benefícios da vida na preparação para a morte, e a garantia de uma vida deveras melhor, o pregador esboça outra opinião.
      
A esperança no versículo 4 se explica pela oportunidade que esta vida atual nos apresenta, a fim de considerarmos a morte como fato inevitável, como Salomão tem insistido tanto, e a fim de avaliarmos a vida corretamente. Não se dá qualquer descrição de uma vida além do túmulo; apenas uma advertência de que haverá um julgamento e a lembrança negativa de que cessam todas as experiências terrenas.[10]

Matthew Henry acentua:

Enquanto há vida, há uma oportunidade de preparação para a morte: Os vivos sabem aquilo de que os mortos não têm conhecimento algum, particularmente eles sabem que hão de morrer, e são, ou podem ser, por meio disso, influenciados para se prepararem para a grande mudança que certamente virá, e pode vir repentinamente. [...] Os mortos não sabem coisa nenhuma sobre aqueles com quem eles, enquanto viveram, estavam intimamente familiarizados. Não parece que eles sabem qualquer coisa acerca do que é feito por aqueles que eles deixam para trás. [...] Há um fim para os seus nomes. São poucos aqueles cujos nomes sobrevivem por muito tempo; o túmulo é uma terra de esquecimento, pois a memória daqueles que estão ali é logo entregue ao esquecimento; sua terra não os conhece mais, nem as terras às quais eles deram seus próprios nomes.[11]

Em seguida, o pregador salienta que os mortos são incapazes de relacionar-se com os vivos. Os mortos estão impossibilitados de expressar amor, ódio e inveja pelos que ainda se encontram na terra (vs.6). A morte cessa a participação que as pessoas tinham em desfrutar dos relacionamentos interpessoais e dos sentimentos que eles produzem [amor, ódio e inveja]. A expressão para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol enfatiza a perda da vida neste mundo.

Matthew Henry completa:

Há um fim para as suas afeições, suas amizades e inimigos: O seu amor, o seu ódio e a sua inveja já pereceram; as coisas boas que eles amaram, as coisas ruins que eles odiaram, a prosperidade dos outros que eles invejaram, têm um fim com eles. A morte separa aqueles que amam um ao outro, e põe um fim na amizade deles, e aqueles que odeiam um ao outro também, e põe um fim nas brigas deles. [...] Aquelas coisas que agora nos afetam, nos satisfazem, nos causam tanta preocupação e provocam tanto ciúme, terão um fim.[12]
        
2. Desfrutando integramente dos prazeres da vida (9.7-10)

Na perícope anterior (vs.1-6), Salomão descreveu uma melancólica reflexão sobre a inevitabilidade da morte; agora, ele articula cinco imperativos que devem ser observados. O pregador admoesta a usufruirmos de forma honrosa dos “prazeres do mundo” enquanto tivermos vida, os quais foram proporcionados por Deus para a nossa felicidade (2.24-26; 3.12-13,22; 5.18-20).

Salomão pecou abusando dos “prazeres do mundo”; mesmo assim, ele não os proíbe, mas orienta-nos a fazer uso deles de forma equilibrada para que Deus seja glorificado. Podemos e devemos lograr dos prazeres, mas não pecar, abusando deles. O pregador exibe um catálogo de quatro experiências comuns da vida familiar. Primeiro, as refeições (vs.7); segundo, as comemorações (vs.8); terceiro, um casamento fiel e amoroso (vs.9); quarto, o trabalho árduo (vs.10). Vejamos, pois, os ditames que o pregador elenca para nós:
               
a) Desfrute de sua alimentação (vs.7)

As famílias israelitas começavam o dia com um lanche pela manhã e uma refeição leve entre dez horas e meio-dia (um "brunch"), e só voltavam a se reunir para comer depois do pôr-do-sol. Quando terminavam o trabalho, reuniam-se para a refeição mais importante do dia, composta principalmente de pão e vinho, com alguns legumes e frutas da estação e, às vezes, peixe. A carne era cara, e era costume servi-la apenas em ocasiões especiais. O jantar era uma refeição simples, feita para alimentar o corpo e também o espírito, pois "repartir o pão" era um ato comunitário de amizade e de compromisso.

A coisa mais importante do cardápio é o amor da família, pois o amor transforma uma refeição comum num banquete. Quando as crianças preferem comer na casa dos amigos a trazer os amigos para sua casa para experimentar a comida de sua mãe, é hora de fazer uma reavaliação daquilo que acontece ao redor da mesa.13

 b) Desfrute de cada momento (vs.8)

Nos lares, de um modo geral, a vida era difícil, mas toda família sabia desfrutar as ocasiões especiais, como casamentos e encontros. Era nesses dias que usavam roupas brancas e se ungiam com perfumes caros, em vez do costumeiro azeite de oliva. Essas ocasiões eram raras, de modo que todos as aproveitavam ao máximo.
       
Porém, Salomão aconselha o povo a sempre vestir roupas brancas e a sempre se ungir com perfumes especiais. É evidente que seus ouvintes não interpretaram essas palavras ao pé da letra, pois sabiam o que ele estava dizendo: façam de toda ocasião uma ocasião especial, mesmo que seja algo rotineiro. Não devemos expressar nossa gratidão e alegria apenas quando estamos comemorando acontecimentos especiais. Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos (Fp 4.4).[14]

c) Desfrute do seu casamento (vs.9) 

Salomão não tinha conhecimento algum dos conceitos de "viver junto" e de "casamento experimental". Para ele, a esposa era uma dadiva de Deus (Pv 18.22; 19.14), e o casamento era um compromisso amoroso para toda a vida. Por mais difícil que seja a vida, há sempre alegria no lar do homem e da mulher que se amam e que são fieis a seus votos matrimoniais.
       
O pregador não viveu de acordo com os próprios ideais. Deixou de lado os padrões de Deus para o casamento e permitiu que suas muitas esposas o seduzissem para longe do Senhor (1Rs 11.1 -8). Se o rei escreveu Eclesiastes mais perto do fim de sua vida, como acredito ser o caso, então o versículo 9 é a sua confissão: "Agora entendo!"[15] 
      
O casamento é uma instituição de divina, sendo algo bom e recomendável (Gn 2.18, 24). Aqui, Salomão enumera três requisitos indispensáveis para o casamento bem sucedido. Portanto, deve haver no casamento:

i. Alegria (vs.9a)
ii. Demonstração de amor (vs.9b; Ef 5.25)
iii. Perseverança na alegria e no amor (vs.9c)
iii. Responsabilidade para com os deveres do lar (vs.9d)

Devemos usufruir do matrimônio baseados no padrão estabelecido pelas Escrituras (1Co 7.1-16; Ef 5.22-31), sabendo que a vida é demasiadamente insegura e transitória, e que o casamento é uma “parte” dos prazeres terrenos que Deus se agradou em nos proporcionar, a fim de o glorificarmos.

d) Desfrute do seu trabalho (vs.10)

Salomão faz um convite para o trabalho ativo enquanto estamos vivos, pois, na morte, não há atividade alguma. O pregador admoesta a nos entregarmos ao prazer que o trabalho proporciona nesta vida. Adiante, vemos que Salomão pinta um quadro negativo do além, que é o “lugar dos mortos”. Ele afirma que nesse lugar não há oportunidades para a vida terrena. O povo de Israel não considerava o trabalho uma espécie de maldição, mas uma incumbência recebida de Deus. Até mesmo os rabinos aprendiam um ofício (Paulo fazia tendas) e lembravam: "Aquele que não ensina o filho a trabalhar, o ensina a roubar". Nas palavras de Paulo, se alguém não quer trabalhar, também não coma (2Ts 3.10).[16]

Se pautarmos nossa vida na Palavra de Deus, não iremos fugir da vida ou, então, “suportá-la”, vivendo entenebrecidos. Pelo contrário, desfrutaremos de todos os prazeres que Deus nos concedeu para vivermos felizes. Tais prazeres são uma dádiva do Senhor, que deve ser glorificado em cada um deles. 
   
3. A imprevisibilidade da vida (9.11-18)

Tendo discorrido sobre a realidade inevitável da morte, Salomão nos encorajou a usufruirmos de maneira íntegra dos prazeres que Deus nos proporcionou, pois esta vida é passageira (vs.7-10). Dessa vez, o pregador deixa de falar da morte para falar da incerteza da vida. Salomão expressa a contingência dos acontecimentos futuros e como eles contrariam nossas expectativas. O pregador nos ensina através de três ilustrações que não devemos ficar confiantes do sucesso, porquanto a vida é imprevisível. Salomão ainda mostra a importância de termos sabedoria para lidarmos nas diversas esferas da vida, as quais são suscetíveis às adversidades. Desse modo, Salomão enfatiza cinco atividades que não garantem o sucesso:  

1. O corredor pode perder uma maratona (vs.11)
2. A potência militar não garante a vitória na batalha (vs.11)
3. De igual modo, a sabedoria não garante o sucesso e o reconhecimento (vs.13-16)
4. A sabedoria associada à pobreza é geralmente desprezada (vs.15-16)
5. A justiça e o reconhecimento não são garantidos nesta vida (vs.13-16)

a) Nossas habilidades nem sempre garantem o sucesso (vs.11)

Salomão ensina que o homem sábio não deve empolgar-se demasiadamente com os prazeres a ponto de esquecer-se de outra realidade indubitável: “as frustrações”, as quais assomam repentinamente em nossas vidas. Através de uma ilustração, o pregador descreve a inconstância de uma vida bem sucedida. Em outras palavras, “nem sempre as coisas serão do jeito que esperamos”.

Apesar de ser verdade que, de um modo geral, os corredores mais rápidos vencem as corridas, os soldados mais fortes vencem as batalhas e os trabalhadores mais competentes conseguem os melhores empregos, também é verdade que essas mesmas pessoas talentosas podem sofrer grandes fracassos por conta de fatores fora de seu controle. As pessoas bem-sucedidas sabem como aproveitar ao máximo o tempo e o modo (8.5), mas somente o Senhor tem o controle do tempo e do acaso.[16]

A palavra acaso refere-se ao surgimento de um fato inesperado que não pode ser previsto, mas que foi planejado e executado por Deus através da sua providência neste mundo. Mesmo que o acaso ocorra fortuitamente, ele é real e frustra os planos dos homens outrora estabelecidos. O acaso não escapa do controle de Deus, pois faz parte dos seus decretos soberanos; e somente o que foi decretado irá acontecer. Não obstante, por meio dessas metáforas, três aplicações práticas são destacadas:  
   
i. Por mais capacitados que sejamos, nem sempre estaremos em primeiro lugar nas corridas da vida (vs.11a)
ii. Por mais capacitados que sejamos, nem sempre venceremos as batalhas da vida (vs.11b)
iii. Por mais capacitados que sejamos, nem sempre seremos prósperos nesta vida (vs.11c)
      
b) A tribulação desponta inesperadamente na vida das pessoas (vs.12)

O pregador acentua, por meio de outra ilustração, que as calamidades surgem repentinamente em nossa vida e malogram [estragam] nossos planos. Salomão “focaliza o fluxo de acontecimentos como trabalhando contra os objetivos e esperanças do homem”.[17] Quando menos esperam, os peixes são pegos numa rede e as aves são presas na armadilha. Assim também os homens são enredados no tempo da calamidade por acontecimentos inesperados fora de seu controle.[18] Os acontecimentos da vida retratam como realmente ela é – a saber – “imprevisível, inescapável e repentina”.   

Matthew Henry salienta:

O tempo e a sorte pertencem a todos. Uma Providência soberana rompe com as medidas dos homens, e destrói suas esperanças, e os ensina que o caminho do homem não está nele mesmo, mas sujeito a vontade divina. Nós devemos usar os meios, mas não confiar neles; se nós tivermos êxito, devemos louvar a Deus (Sl 44.3); se nós ficarmos “irritados”, devemos concordar com a vontade dele e tomar a nossa parte.[19] 
     
c) As oportunidades que temos na vida nem sempre garantem o nosso sucesso (vs.13-18)

Mais uma vez, Salomão relata uma observação. Adiante, baseado nessa observação, o pregador erige seus comentários. O termo usual vi, que aparece diversas vezes em Eclesiastes (veja 2.13,24; 3.16; 4.1,4,7,15; 5.13,18; 6.1; 7.15; 8.9-10,17; 9.11,13; 10.5,7), enfatiza acontecimentos reais que estimularam as reflexões de Salomão. Assim sendo, é bem provável que a terceira ilustração [uma parábola] que o pregador descreve não seja fictícia, mas uma experiência real. O tema deste trecho poderia ser resumido pela seguinte frase: “A sabedoria é poderosa, mas, por muitas vezes, é negligenciada e não recompensada”.

Salomão retrata a história de uma pequena cidade que fora sitiada pelo poderoso exército de um rei. Essa cidade era fraca, por ter poucos habitantes, e insignificante, quando comparada ao prestígio do rei e a força de seu exército. Não fica claro se o pobre homem sábio, que foi esquecido pelas pessoas, livrou ou não a cidade.  
      
Pessoalmente, acredito que a segunda hipótese é a mais provável; o pobre homem sábio foi esquecido, quando poderia ter salvado a cidade (vs.16-18). Embora as versões ARA, ARC, NVI e Almeida Século 21 deixem a impressão de que o sábio tenha livrado a cidade [... que a livrou pela sua sabedoria], a segunda interpretação se harmoniza melhor com o contexto imediato, que, por sinal, ratifica o entendimento de que o pobre homem sábio “poderia ter livrado a cidade” (GNB, NEB e NASV). Logo, essa parábola fornece duas aplicações práticas.
                 
i. Por mais grandiosas que sejam nossas intenções, nem sempre teremos a oportunidade de executá-las (vs.15a)

Michael A. Eaton ressalta que a sabedoria nem sempre é prestigiada. Embora ela possa livrar alguém das situações mais adversas, as circunstâncias pobres dos menos privilegiados depõem contra esses, e desprezam a sabedoria.[20] 

ii. Por mais sábios que sejamos, nem sempre seremos lembrados (vs.15b-16)

Ainda que a sabedoria sobrepuje a força, geralmente ela é desprezada! No mundo pós-moderno, onde a mediocridade intelectual e a deformação da arte imperam, a tolice predomina sobre a sabedoria. Mesmo que a sabedoria seja importante, não devemos fixar nossa esperança na sabedoria que temos, pois ela fenece com a morte (2.15-16).
             
d) A excelência da sabedoria (vs.17-18)

A cidadezinha havia sido sitiada e o sábio poderia tê-la livrado, mas ninguém prestou atenção a esse homem. O versículo 17 indica que um governante alardeador recebeu toda a atenção e conduziu o povo à derrota. O sábio falou calmamente e foi ignorado. Teve a oportunidade de chegar à grandeza, mas foi frustrado por um fanfarrão ignorante.[21] O pecado de Acã fomentou a derrota do exército de Israel na batalha (Js 7); o pecado de Davi gerou uma série de consequências para Israel (2Sm 24); e a revolta de Absalão provocou uma guerra civil (2Sm 15). É comum vermos um bom projeto que ocasionaria bem-estar público ser frustrado por um adversário sútil.
      
Matthew Henry expande:

Uma mente prudente, que é a honra de um homem, é preferível a um corpo robusto, em que muitas das criaturas brutas excedem os homens. Pela sua sabedoria, um homem pode promover aquilo que ele jamais poderia encontrar pela sua força, e pode superar aqueles que, pela trapaça, são capazes de dominá-lo. [...] A sabedoria ou a religião e a piedade (pois, aqui, o homem sábio é colocado em oposição a um pecador), é melhor do que todas as dotações e equipamentos militares, pois ela fará com que Deus se empenhe por nós, e então estaremos seguros contra os maiores riscos e seremos bem sucedidos nos maiores empreendimentos. Disso, ele observa a força de comando e o poder da sabedoria, ainda que trabalhe sobre desvantagens externas. [...] Daquilo que ele observou do grande bem que um homem sábio e virtuoso pode fazer, ele deduz o grande dano que um ímpio pode causar, e que ele pode ser o obstáculo para muitas coisas boas: Um só pecador destrói muitas coisas boas.[22]

Nossa sociedade honra a riqueza, a atratividade e o sucesso acima da sabedoria. Mesmo sendo um bem maior do que o poder, a sabedoria é muitas vezes negligenciada, sobretudo a dos pobres. Com essa parábola, podemos apreciar a sabedoria, não importa de que classe venha a pessoa que a manifeste.[23]  


CONCLUSÃO

Warren Wiersbe acentua:

Uma vez que a morte é inevitável e a vida é imprevisível, o único rumo que podemos seguir com segurança é nos entregarmos inteiramente nas mãos de Deus e andar pela fé, de acordo com sua Palavra. Não vivemos de explicações, mas de promessas. Não dependemos da sorte, mas da obra providencial de nosso Pai amoroso ao confiar em suas promessas e obedecer à sua vontade.[24] 

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NOTAS:
1. William McDonald. Comentário do Antigo Testamento, pág 611.
2. Heber Carlos de Campos. O Ser de Deus e seus atributos, pág.190.
3. Michael A. Eaton. Eclesiastes, introdução e comentário, pág 132-133.
4. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Antigo Testamento. Jó a Cantares, pág 938.
5. Duane Edward Spencer. TULIP, os Cinco Pontos do Calvinismo, pág 28-29.
6. Steven Lawson. Fundamentos da graça. Longa linha de vultos piedosos, pág 227.
7. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento. Volume 3 – Poéticos, pág 497.
8. Champlin. O Antigo Testamento Interpretado. Volume 4, pág 2731.  
9. Bíblia de Estudo Genebra. Notas de Rodapé, pág 863.
10. Michael A. Eaton. Eclesiastes, introdução e comentário, pág 134.
11. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Antigo Testamento. Jó a Cantares, pág 939.
12. Ibid.
13. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento. Volume 3 – Poéticos, pág 498.
14. Ibid, pág 498-499.
15. Ibid, pág 499.
16. Ibid.
17. Michael A. Eaton. Eclesiastes, introdução e comentário, pág 138.  
18. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento. Volume 3 – Poéticos, pág 500. 
19. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Antigo Testamento. Jó a Cantares, pág 941.
20. Michael A. Eaton. Eclesiastes, introdução e comentário, pág 139.
21. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento. Volume 3 – Poéticos, pág 500.
22. Matthew Henry. Comentário Bíblico do Antigo Testamento. Jó a Cantares, pág 942-943.
23. Bíblia de Estudo Aplicação pessoal. Notas de Rodapé, pág 884.
24. Warren Wiersbe. Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento. Volume 3 – Poéticos, pág 500.

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Autor: Leonardo Dâmaso
Fonte: Bereianos
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A quem Deus ama?

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Por Rev. Misael Nascimento


          “Três palavrinhas só
          Eu aprendi de cor:
          Deus é amor
          Tra-la-la-la-la-la-la-la-la!

A biblicidade desta letra é incontestável: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8).

Que Deus é amor é fato. A questão que se levanta é “a quem Deus ama?” Ao longo da história, tal pergunta tem recebido diversas respostas inadequadas, dentre as quais destaco cinco:

1 - Deus não se relaciona com a criação ao ponto de estabelecer vínculos de afeto. Ele criou o cosmos e se afastou dele. Este é o ponto de vista do deísmo.
2 - Deus não ama suas criaturas. Ele trata o universo caprichosamente, manipulando anjos e homens como fantoches. Isso é enfatizado em algumas correntes do satanismo. Ensina-se em tais círculos que Satanás é apenas uma pobre vítima dos atos arbitrários e injustos do Criador.
3 - O amor de Deus por tudo e todos sobrepuja sua justiça. Por amar, Deus não julga. Destarte, todos serão salvos. Define-se essa concepção como universalismo.
4 - Deus ama a todos os homens tanto como Criador quanto como Redentor e deseja que sejam todos salvos, mas o homem possui a capacidade de rejeitar o gracioso convite de Deus feito por meio de Cristo. Em suma, a vontade do homem pode impedir Deus de realizar seu propósito de salvação. Eis o Arminianismo — as denominações cristãs que creem dessa forma são chamadas arminianas, uma vez que esse ensino foi defendido por Jacó (James ou Thiago) Armínio, um teólogo do século 16 (1560-1609).
5 - Uma ala do calvinismo proclama que Deus ama somente aos eleitos. Os réprobos[1] são objeto unicamente da ira de Deus. O amor de Deus é entendido exclusivamente como seu favor concedido aos predestinados para a salvação, nada além disso.

Os três primeiros postulados são absolutamente contrários ao ensino da Escritura e rejeitados pela Igreja Cristã. O quarto não é abraçado pela Igreja Presbiteriana do Brasil e outras igrejas reformadas. Quanto ao quinto, é aceito por alguns calvinistas, mas eu a considero também inadequada.

Entendo que existe uma sexta resposta, mais fiel ao evangelho.

A essencialidade e unidade dos atributos divinos

Proponho uma ponderação sobre a harmonia essencial dos atributos divinos. Não se trata de nada sofisticado nem sustentado por dezenas de textos-prova. Eis o argumento:

Primeira premissa: Deus é amor e justiça.[2]
Segunda premissa: Se os atributos acima fazem parte da essência divina, e esta é indivisível, em Deus, amor e justiça jamais se separam.
Conclusão: Deus não deixa de ser amor quando se ira, nem deixa de ser justo quando ama.

Note que, na primeira premissa, utilizo a expressão “é” em lugar de “possui”. Além disso, entre os atributos, coloco um “e” e não um “ou”. Deus não apenas age com amor ou com justiça, mas amor e justiça fazem parte de sua essência. Uma vez que a essência de Deus é indivisível, nele, amor e justiça jamais se separam. Deus ama sendo justo e julga sendo amor. Amor e justiça coexistem no UM divino. Sendo assim, é plausível afirmar que o fato de os eleitos serem amados por Deus não significa que Deus não se ira com eles. Por conseguinte, o fato de Deus revelar-se irado contra os réprobos não quer dizer que ele não os ame.

Tal argumentação, estou certo disso, é contestável. Pode ser dito que a presença de um atributo não equivale à obrigatoriedade de sua manifestação em determinado contexto. Mesmo sendo amor, Deus pode demonstrar exclusivamente sua justiça aos réprobos ou vice-versa. Pode ser dito ainda que utilizo sem muita qualificação os termos “amor” e “ira”. Quem sabe eu descubra, para meu aperfeiçoamento, que alguém já assumiu tal posição no passado e foi corrigido de seu erro. Com humildade, porém, pretendo mantê-la como referência, pelo menos até o ponto de confirmá-la ou alterá-la, com base em mais leituras da Escritura e da Teologia.

Outra proposição, agora, sobre o cristão e o ódio

Convido você para acompanhar-me na reflexão sobre uma palavra de Jesus no sermão do monte:

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. […] Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (Mt 5.43-45, 48).

O cristão pode odiar seus inimigos? Cristo responde que não; é preciso amar até o mais cruel opositor. Como crianças espirituais questionamos a razão disso: Por que devemos amar nossos inimigos? A resposta do Redentor é dupla. Ele diz primeiramente que o amor ao inimigo é necessário “para que vocês se tornem filhos do Pai de vocês”.[3] Jesus estabelece uma ligação entre ser filho de Deus e amar aos inimigos.[4] A segunda parte da resposta é: Vocês devem amar aos inimigos porque Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (v. 45). Em suma, Cristo afirma que mesmo os piores seres humanos são objeto do amor providencial de Deus. A ideia é simples: Os inconversos são inimigos de Deus; mesmo assim Deus cuida deles com sua providência (sol e chuvas). Este amor providencial é o modelo para o amor que o cristão deve dispensar aos seus adversários.

Como explica Bavinck, “também, no lugar de perdição, há graus de punição e, consequentemente, chispas de sua misericórdia”[5] e ainda, “não é verdade que a justiça de Deus só pode ser manifesta na bem-aventurança dos eleitos, pois também no céu sua justiça e santidade estão radiantemente presentes, e até mesmo no inferno há alguma evidência de sua misericórdia e bondade”.[6] Por fim:

Os reprovados também recebem muitas bênçãos, que, como tais, não surgem do decreto da reprovação, mas da bondade e da graça de Deus. Eles recebem muitos dons naturais — vida, saúde, vigor, comida, bebida, bom ânimo e assim por diante (Mt 5.45; At 14.17; 17.27; Rm 1.19; Tg 1.17) — pois Deus não se permite ficar sem testemunho. Ele os suporta com muita paciência (Rm 9.22). Ele quer que o evangelho de sua graça seja proclamado a eles e não tem prazer em sua morte (Ez 18.23; 33.11; Mt 23.27; Lc 19.41; 24.47; Jo 3.16; At 17.30; Rm 11.32; 1Ts 5.9; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9).[7]

A palavra de Jesus em Mateus 5.43-48 deve ter soado estranha aos ouvidos dos judeus mais rigorosos porque estes sabiam, pelo AT, que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores (Sl 5.5).[8] Lemos que os “maus” e “injustos” são inimigos de Deus, destinados à condenação (Sl 11.4-7). O judeu mais espiritual podia afirmar como o salmista: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato” (Sl 139.21-22). Eis que, então, surge Jesus, Verbo de Deus, um com o Pai, ensinando que os “inimigos”, os “maus”, os “injustos” devem ser amados. E mais: A palavra traduzida por “amai” (agapaō) é a mesma que João usa com respeito ao amor de Deus pelos eleitos (Mt 5.44; Jo 3.16). Seria demais concluir que os discípulos devem amar aos “maus” e “injustos” assim como Deus, providencialmente, os ama?

O ensino é fechado nesses termos: Os discípulos, ao amarem os inimigos se tornam “perfeitos como perfeito é o […] Pai celeste” (v. 48). O adjetivo usado no original (teleioō) assegura o sentido de “genuíno”, “completo” ou “maduro”: “Sejam inteiros, indivisíveis em amor, assim como Deus é”,[9] ou como sugere Peterson: “Resumindo, o que quero dizer é: cresçam! Vocês são súditos do Reino; tratem de viver como tais. Assumam sua identidade, criada por Deus. Sejam generosos uns para com os outros, pois Deus age assim com vocês”.[10]

Uma leitura dos textos bíblicos que se referem ao ódio de Deus

Olhemos agora para alguns textos da Escritura que se referem ao ódio de Deus. Em Salmos 5.5, citado acima, consta que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores. Ele “abomina” os que amam a violência e “fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre”, além de “vento abrasador” (Sl 11.4-7). A situação é tão séria que, de acordo com Provérbios 3.33, “a maldição do Senhor habita na casa do perverso”.

O leitor certamente já ouviu a frase “Deus ama ao pecador e odeia o pecado”. Para alguns estudiosos sérios, essa afirmação é errada. Baseados nos textos acima (dentre outros), argumentam que Deus ama somente aos eleitos. Quanto aos ímpios, ele unicamente os odeia.[11] Afirmar o amor de Deus pelos réprobos — dizem — não apenas contradiz o ensino bíblico sobre a predestinação, mas também sobre a unidade divina (Deus não pode demonstrar dois amores, duas misericórdias), sua imutabilidade (Deus amaria os réprobos no tempo e os odiaria na eternidade), sua justiça (como é que Deus, que “não pode ver o mal”, amaria os que são completamente iníquos?). A ideia do amor de Deus pelos réprobos implicaria em uma noção incorreta de “amor temporário, limitado, mutável e injusto de Deus (fora de Jesus Cristo!)”.[12] Isso resultaria na destruição da antítese (Gn. 3.15), na amenização da depravação total, no comprometimento da expiação particular, na pregação do desejo de Deus de salvar o réprobo, no silenciamento e negação da eleição e reprovação incondicional, na recusa de condenação do arminianismo e seus mestres, e, finalmente, na permissão de comunhão com os arminianos.[13]

De fato aprecio respeitosamente a todos esses argumentos, que provêm de pessoas piedosas e teologicamente mais capazes do que eu. No entanto, proponho uma leitura diferenciada.

Primeiro, a fidelidade às Escrituras exige a pregação e o ensino de verdades aparentemente contraditórias. Sendo assim, o mestre e pregador fiel proclamará em alto e bom som e com toda a convicção, tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade do homem. Ele anunciará que Deus — Santo, Santo, Santo — odeia não apenas a transgressão, mas também ao transgressor. Ademais, afirmará ele que Deus é amor que se desdobra em atos benevolentes para com os inconversos.

Segundo, a afirmação do amor providencial de Deus pelos ímpios não fere a predestinação, pois deve ser dito que antes de os gêmeos nascessem, Deus escolheu a Jacó e odiou a Esaú (Rm 9.11-13). Por outro lado, Esaú subsistiu e prosperou graças à generosidade divina (Gn 33.9; cf. 1Cr 29.12). Se Isaque, o eleito, é o descendente “mediante a promessa” (Gl 4.23), Ismael, o inconverso filho da ”escrava” é tratado carinhosamente por Deus (Gn 21.8-21). Não é contestada a unidade divina: O mesmo Deus concede amor salvador aos eleitos e amor providencial àqueles que ele criou (sim, o fato de um réprobo existir e manter-se vivo é ato de misericórdia divina; Deus poderia não trazer tal indivíduo à luz ou mesmo matá-lo imediatamente após o seu nascimento). Não é atacada a imutabilidade divina pois é o mesmo Deus, rocha imutável, que no tempo faz chover sobre maus e bons, justos e injustos, e que na eternidade separa os salvos dos reprovados. Ao mesmo tempo, apregoa-se a justiça divina em amar a totalidade de sua criação e, ao mesmo tempo, derramar-se em ira sobre os que se recusam a ouvir ao evangelho.

Deus ama salvificamente aos eleitos e providencialmente a tudo o que criou. Discordo que essa seja uma noção incorreta do amor de Deus, nos termos apontados por Stewart. Trata-se de amor que sobrepuja nossa capacidade de entendimento. É amor que, afirmando a antítese, nos faz amar ao injusto, que declara a depravação total, mas enxerga no pagão Ciro (Is 45.1) um instrumento da bondade e justiça de Deus. Que crê e insiste na expiação particular e, ao mesmo tempo, declara que Deus ama ao mundo e salva a todo o que nele crê, que alardeia a eleição e reprovação incondicionais e firma-se na declaração de erro dos arminianos, ao mesmo tempo em que os ama. Sim, subscrevendo a condenação reformada ao Arminianismo do Sínodo de Dort, cremos na possibilidade de comunhão com aqueles que não têm um entendimento esclarecido dos chamados cinco pontos do Calvinismo (acróstico TULIP), pois é salvo aquele que está incluído no Pacto da Graça, que foi regenerado e creu em Cristo como Senhor e Salvador, mesmo que não saiba articular com maestria a doutrina (cf. At 18.24-28).

Eis o resumo da sexta posição: Descarto o universalismo; somente os que creem em Cristo como Senhor e Salvador serão salvos e os que não crerem serão eternamente condenados (Jo 5.24-29, 6.47). Rejeito também o Arminianismo; somente os eleitos recebem a dádiva da fé salvadora (Jo 6.65; At 13.48, 16.14; Rm 8.28-30, 9.6-18; Ef 1.3-14, 2.4-10). Não aceito ainda a proposição do amor divino unívoco — dispensado somente aos eleitos. Deus ama aos eleitos salvificamente, como Pai que os adota para íntima comunhão. Ao mesmo tempo ele possui um vínculo de amor providencial com toda a sua criação, o que inevitavelmente inclui os não-crentes. Esse último tipo de dispensação de amor não implica, necessariamente, em salvação, mas em criação e preservação. Não apenas isso: Deus até concede dons aos não-convertidos de modo que estes produzam coisas boas e belas, ainda que rebelando-se contra o Criador.

O escorregadio universo das palavras

Você aprendeu até aqui que todos os calvinistas concordam quanto ao amor de Deus pelos eleitos. Há uma divisão, porém, quando se fala do amor divino pelos réprobos. Um grupo diz que Deus só ama aos eleitos; o outro entende que ele ama a todas as suas criaturas, aos eleitos salvificamente e aos réprobos providencialmente. Eu me situo no segundo grupo.

O segundo grupo diz que Deus demonstra amor aos réprobos na graça comum. O primeiro argumenta — e prova biblicamente — que os termos “graça” e “misericórdia” só podem ser aplicados no contexto da aliança da salvação, da mediação de Cristo, da regeneração e do perdão de pecados. Tais palavras, dizem, não fazem sentido no contexto da criação. Eles citam teólogos do passado[14] e atuais que demonstram, pela Escritura, que o bem-estar e prosperidade dos ímpios não decorrem da benevolência divina e sim são como lugares escorregadios que os levam à “destruição” (Sl 73.18). Alguns desses teólogos chegam ao ponto de considerar como heresia a defesa da graça comum e propõem separação radical — impossibilidade de comunhão — entre os dois grupos, ou seja, para eles, o calvinismo puríssimo exige rompimento tanto com arminianos quanto com outros calvinistas que assumam a graça comum (ou o amilenismo, ou outros pontos de doutrina).

Os calvinistas da graça comum, por sua vez, admitem que nos primeiros quatro capítulos do livro de Gênesis não são encontradas as palavras “aliança” e “graça”; no entanto, ambas as ideias estão presentes, nos seguintes termos:

Na criação Deus estabeleceu um vínculo de amor e vida com tudo o que criou. Ele criou o universo e providenciou condições para o florescimento e manutenção da existência biológica. Criou o homem e deu-lhe ordenanças. A desobediência humana traria a morte como consequência. Todos os aspectos que compõem um pacto ou aliança estão presentes em Gênesis (as partes pactuantes, o vínculo de vida e amor e, por fim, privilégios e responsabilidades).[15]

Após a queda Deus podia simplesmente matar o primeiro casal, mas ele não fez isso. Pelo contrário, estabeleceu a antítese entre a descendência da serpente e o descendente da mulher (Cristo) e prometeu que este último esmagaria a cabeça do Tentador (Gn 3.15). Em seguida, cobriu a nudez do primeiro casal (Gn 3.21). Note que a palavra “graça” não se encontra no texto, mas a ideia está presente: Favor imerecido relacionado à salvação — a redenção dos eleitos de Deus.

Lemos em Gênesis 4 que Eva deu à luz a Caim que, ao matar seu irmão, demonstra pertencer à linhagem da serpente e tornou-se o primeiro ser humano amaldiçoado na Bíblia (Gn 4.1-8, 11; cf. 1Jo 3.12). Então, surpreendentemente, depois de amaldiçoar a Caim, Deus o marca a fim de preservar-lhe a vida física (Gn 4.15). Logo adiante, a descendência de Caim desenvolve pecuária, artes e siderurgia (cf. Gn 4.20-22). Deus dá a Caim, imerecidamente, condições para viver e desenvolver aspectos dos mandatos social e cultural, ainda que sob a égide do pecado, mui toscamente e para juízo. Isso se configura não como um favor para a salvação, mas providencial (Mt 5.45; cf. Ec 2.24-25) e torna possível falar do amor divino dirigido aos homens réprobos.

Perceba que ambos os grupos identificados como calvinistas abraçam a eleição, são conservadores em sua Teologia, entendem que Deus ama aos eleitos e trata a todos nesta vida — convertidos e inconversos — imerecidamente. A diferença é que, para o primeiro grupo, não podem ser usadas as palavras “misericórdia”, “graça” e “amor”, muito menos “graça comum”, quando se refere aos réprobos. O segundo grupo não vê problema no uso de tais termos.

Respeitando aos grandes teólogos do primeiro grupo, afirmo que, no escorregadio universo das palavras, dividimo-nos. “Você não pode usar a palavra graça nesse caso; os réprobos recebem uma benevolência divina que é diferente do amor”; ou “se você crê na graça comum não pode mais tomar santa ceia comigo”. Respeito quem pensa assim, mas discordo.

Mais: Por estranho que pareça, sou da opinião que a maior dificuldade do ser humano não é crer no ódio, e sim, no amor de Deus. Os réprobos descreem absolutamente e os eleitos, mesmo crendo, duvidam.[16] Ainda que eu pregue sem titubear que Deus julga (e condenará-castigará definitivamente) o Mal e os Maus, entendo que devo proclamar o amor divino revelado primeiramente na criação e providência e, de modo pleno e maravilhoso, em Cristo. Como Paulo no Areópago, proclamo aos ouvintes não-crentes que Deus “não está longe de cada um de nós”, nele “vivemos, e nos movemos, e existimos” e, por meio de Cristo há tanto redenção para os que crerem quanto juízo para os que não crerem (At 17.24-31). Os réprobos, quais réplicas de Satanás, já possuem de forma inata a certeza de que estão sob o juízo de Deus, e o odeiam por isso. Os eleitos, presos à sua estrutura pecaminosa, sabem que são pecadores, e afastam-se constrangidos de Deus. Cabe aos pregadores auxiliar as ovelhas do Senhor a beber nas águas da graça que perdoa, limpa e santifica e então, desafiá-las a demonstrar e anunciar a todos o amor de Deus que “excede todo entendimento” (Mt 5.43-48; Jo 3.16; Ef 3.14-21).

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Notas
[1] Ainda que sujeito a contestação, neste artigo eu utilizo o vocábulo eleito referindo-me ao indivíduo separado por Deus para ser dele, no desfrute de sua salvação. Os que são deixados no estado de depravação e, por conseguinte, serão condenados, são aqui denominados réprobos.
[2] Isso equivale a dizer que Deus é amor e santo (1Jo 4.8; cf. Is 6.3).
[3] Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).
[4] O termo usado no original grego denota finalidade: É preciso amar ao inimigo para tornar-se filho do Pai celestial. Essa condicionalidade é semelhante à encontrada na oração do Pai-Nosso: “Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam” (Mt 6.12 — NTLH).
[5] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Deus e a Criação. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 395. v. 2.
[6] BAVINCK, op. cit., p. 398.
[7] Ibid., p. 407.
[8] A tradução Revista e Atualizada (ARA) traduz como “aborreces” e “abomina”. Os termos na Bíblia Hebraica contêm a ideia de “ódio”.
[9] LOUW, J. P.; NIDA, E. A. Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains. 2. ed. New York: United Bible Societies, 1996, 88.100, p. 752–753.
[10] PETERSON, Eugene. Bíblia A Mensagem.
[11] Cf. BAKER, Kyle. O Ódio de Deus. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[12] STEWART, Angus. Graça Comum. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[13] Será que a “comunhão com os arminianos” é vedada aos crentes calvinistas? Eu não entendo que George Whitefield, um calvinista, pecou ao cultivar comunhão com o arminiano John Wesley.
[14] Especialmente VERMIGLI, Peter Martyr. Manual de Teologia Sistemática (cerca de 1656), citado por MOORE, Jonathan. É Novidade Negar a Graça Comum? Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[15] Cf. VAN GRONINGEN. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. v. 1.
[16] Ao ensinar os crentes sobre a correção divina, Calvino sublinha a necessidade de sermos confirmados na certeza de que Deus nos é propício, ou seja, nos ama infinitamente por meio de Cristo — CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. III.4.38. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 3).

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Fonte: Somente Pela Graça
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Deus é o autor do mal? O que dizem as nossas Confissões?

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Por Rev. Adriano Gama


Quando falamos do Mal não é sobre as catástrofes, doenças, guerras, desastres, crises, a morte física, etc. O Mal que consta na pergunta é o Mal Moral, ou seja, de onde veio os pecados tanto de Satanás como dos homens.

O tema sobre a questão da autoria do Mal foi levantado dentro de nossas congregações devido ao anúncio da suspensão de um dos nossos oficiais do exercício do seu ofício. Este oficial, dentre outras coisas, professou que cria que Deus é o Autor do Mal. A suspensão deixou a igreja triste e suscitou na mente de alguns irmãos indagações sobre a origem do Mal.

Esta palavra que coloco no Boletim não deve ser tomada como um estudo profundo sobre a origem do Mal e defesa da Fé Cristã. Mas, são orientações aos membros da Igreja, a fim de acalmar seus corações e estimulá-los a buscarem consolo e paz naquilo que eles professam à luz da Escritura.

De onde veio o Mal é uma pergunta que tem intrigado a mente de muitos cristãos há séculos. E as igrejas de Cristo na História tem tratado essa questão de modo cuidadoso e humilde.

E a Igreja de Cristo com cuidado e humildade buscou na Escritura responder as perguntas: Deus é soberano e sustenta e comanda tudo segundo Sua vontade? Então, como fica a questão das Quedas do diabo e do homem? Foi Deus o Autor destas quedas? De onde veio o orgulho, mentira e ódio de Satanás? De onde veio a ganância e insubmissão de Adão? Estas criaturas não foram criadas boas?

As igrejas de Cristo souberam responder essas indagações. E um exemplo muito lindo desse cuidado e da humildade bíblicos são as nossas Confissões de Fé. Essas Confissões não são a Palavra de Deus, mas ecoam a fiel doutrina da Escritura, incluindo o que a Palavra de Deus diz sobre a Origem do Mal.

Onde em nossas Confissões podemos aprender sobre a origem do Mal? Nos seguintes lugares (É de suma importância que você veja as bases bíblicas nas notas de suas Confissões):

         • Confissão de Fé Belga – Artigos: 1, 2, 7, 12, 13, 14, 15, 16, 17.
         • Catecismo de Heidelberg – Dias do Senhor 3 e 4.
         • Cânones de Dort  Cap I, Arts. 5-7; 15; Cap II, Art. 6; Caps. III/IV, 1,             2, 9, 16.

Estude estas passagens. Mas, é importante destacarmos a Confissão de Fé Belga no seu Artigo 13 sobre a Providência de Deus:

“Cremos que o bom Deus, depois de haver criado todas as coisas, não as abandonou nem as entregou ao destino ou acaso, mas segundo a Sua santa vontade Ele as rege e governa de tal modo que no mundo nada acontece sem a Sua determinação. Deus, contudo, não é autor nem é culpável dos pecados que se cometem, pois Seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis que Ele ordena e faz Sua obra de modo mais excelente e justíssimo, ainda que os demônios e os ímpios ajam com injustiça. E quanto àquilo que ele faz que ultrapassa o entendimento humano, não queremos investigar curiosamente além de nossa capacidade de entender. Mas adoramos com toda humildade e reverência os justos juízos de Deus, que nos estão ocultos. Contentamo-nos em ser discípulos de Cristo, que devem aprender apenas o que Ele nos ensina em Sua Palavra, sem transgredir esses limites. …”.

O Artigo 13, com base na Palavra de Deus, fala da Doutrina da Providência. Nele a Igreja confessa a Bondade e Soberania de Deus que sustenta e domina todas as coisas da sua criação “segundo a Sua santa vontade, Sua determinação”. E note que, ao mesmo tempo, na mesma doutrina, temos o cuidado de não fazer Deus o “autor e nem culpável dos pecados que se cometem pelos demônios e dos ímpios”. Na Confissão a Igreja justifica esta afirmação com base na grandiosidade do poder e da bondade de Deus revelada na Escritura, que mostra que Deus ordena e faz a “Sua obra de modo mais excelente e justíssimo, ainda que os demônios e os ímpios ajam com injustiça”.

Outro detalhe é que a nossa Confissão também manifesta a humildade cristã de se submeter a revelação da Escritura, quando nossas mentes limitadas não conseguem entender como se combina as ações soberanas, bondosas, excelentes, santas e justas de Deus e a responsabilidade dos demônios e pecadores quanto a Queda e seus pecados.

Saiba que muitos cristãos são mortos na Fé, pois são levados pelo diabo e por homens soberbos a usarem a lógica humana como um submarino que conseguirá levar o homem até às profundezas dos mistérios de Deus. A lógica tem o seu lugar como instrumento para aprofundar nosso conhecimento sobre Deus e suas obras. Porém, a lógica como um submarino pode falhar e tem um limite de profundidade para nos manter seguros no estudo dos mistérios de Deus. Esse limite é a Revelação da Escritura.

Se quisermos ultrapassar com a lógica os limites da Escritura, então, seremos esmagados e arrastados para a mais profunda morte. Por isso, o cristão se limita à Revelação da Escritura. Por esse motivo, humildemente, professamos que Deus “não é o autor nem é o culpável dos pecados que se cometem”. E, além disto, adoramos com toda humildade e reverência os justos juízos de Deus, que nos estão ocultos.”

Esta atitude humilde da Igreja aos limites da Revelação já é manifestada na sua crença que a Escritura é a Palavra de Deus e que ela foi preservada durante séculos, na Santíssima Trindade, na Encarnação do Verbo, no nascimento virginal de Cristo. Isto não pode ser diferente quanto a doutrina da Providência de Deus, que nos leva a ver que Deus é Soberano e ao mesmo tempo não é o autor nem o culpável dos pecados dos demônios e ímpios.

Portanto, com estas palavras chamo você a enfrentar esse momento de tristeza e desafio da Fé Cristã que estamos passando. Firme-se nas nossas Confissões que são Bíblicas. E ore para que você como membro da Igreja se contente em ser um discípulo (aluno) de Cristo, que deve aprender apenas o que Ele nos ensina em Sua Palavra, sem transgredir esses limites.

Sendo assim, continue firme e consolado com a Escritura quando se deparar com a profundidade da doutrina da providência e a questão do Mal, por isso continue confessando que: “Deus … não é autor nem é culpável dos pecados que se cometem, pois Seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis que Ele ordena e faz Sua obra de modo mais excelente e justíssimo, ainda que os demônios e os ímpios ajam com injustiça.” Que o Senhor abençoe e guarde você em Cristo Jesus pelo poder do Seu Espírito e da Palavra.

Meditação:

Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom Gn 1.31.

Pois Tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal” Sl 5.4

Ó profundidade da riqueza, tanto de sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminnhos!” Rm 11.33

Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a causa do pecado, as raízes do qual sempre reside no próprio pecador; não têm sua origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” Os 13.9

Leia também: João Calvino - Comentário da Carta Aos Romanos, pág. 71 – Editora Paracletos.

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Fonte: Bandeira da Graça
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