A cosmovisão cristã, a cosmovisão ateísta e a lógica

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Por Matt Slick


Pode uma ateísta apresentar uma razão lógica de como sua cosmovisão pode dar satisfações para as abstratas leis da lógica? Eu penso que não. Mas, a cosmovisão Cristã pode. A cosmovisão cristã declara que Deus é o autor da verdade, lógica, leis físicas etc. Ateístas mantêm que leis físicas são propriedades da matéria, e que a verdade e lógica são convenções relativas (princípios consentidos). Isto é logicamente defensável? Apresento este esboço na esperança de esclarecer o assunto e apresentar, o que eu considero, um problema insuperável da cosmovisão ateísta. Eu hesito declarar que isto seja uma prova que Deus existe, mas eu creio isto seja uma evidência da absoluta natureza de Deus. Este argumento é adaptado do Argumento Transcendental defendido por Greg Bahnsen.

Como os cristãos descrevem as Leis da Lógica?

A cosmovisão cristã declara que Deus é absoluto e o padrão da verdade.

Então, as leis absolutas da lógica existem porque refletem a natureza absoluta de Deus. 

Deus não criou as leis da lógica. Elas não foram trazidas à existência, desde que elas refletem os pensamentos de Deus. Desde que Deus é eterno, as leis da lógica também são. [1]

O Homem, ser criado à imagem de Deus, é capaz de descobrir essas leis da lógica. Ele não as inventou.

Então, o Cristão pode declarar a existência das leis da lógica por reconhecer sua origem em Deus e que o Homem é único capaz de descobri-las.

Apesar disso, o Ateísta pode dizer que esta resposta é simplista e conveniente. Pode ser, porém, pelo menos a cosmovisão cristã pode explicar a existência da lógica e si mesma.

Exemplos da Leis da Lógicas

Lei da Identidade – algo é o que é. As coisas que existem tem uma natureza definida.
Lei da Não Contradição – algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo, na mesma forma e no mesmo sentido.
Lei do Terceiro Excluído – uma proposição ou é verdadeira ou falsa. Assim, a declaração “uma proposição ou é verdadeira ou falsa” é verdadeira ou falsa.

Como o Ateísta descreve as Leis da Lógica.

Se o Ateísta declara que as leis da lógica são convenções (mutuamente combinada sob conclusão), então as leis da lógica não são absolutas porque elas são sujeitas ao “voto”.

As leis da Lógica não são dependentes das mentes de pessoas diferentes, desde que pessoas são diferentes. Então, elas não podem ser baseadas no pensamento do homem, pois os pensamentos dos homens são frequentemente contraditórios.

Se o Ateísta declara que as leis da lógica são derivadas por observar princípios naturais encontrados na natureza, então ele está confundindo a mente com o universo.

Nós descobrimos leis da física por observar e analisar o comportamento das coisas em nosso redor. As leis da lógicas não são resultados de comportamento observável dos objetos ou ações.

Por exemplo, na natureza não se ver nada que seja e não-seja ao mesmo tempo.

Por que? Porque nós só podemos observar fenômenos que existem, não um que não existe. Se algo não é, então não existe. Como pode, então, as características de algo não existente serem observadas? Elas não podem.

Então, nós não descobrimos a lei da lógica pela observação, mas pelo pensamento.

Ou, onde na natureza nós observamos que alguma não pode trazer em si mesma à existência se ela não já existe?

Você não pode fazer observações sobre como alguma coisa que não ocorre se ela não existe. Você não deveria, principalmente, observar coisa alguma, e, como pode qualquer lei da lógica ser aplicada ou derivada, nada observando?

As leis da lógica são realidades conceituais. Elas apenas existem na mente e elas não descrevem o comportamento físico das coisas porque comportamento é ação, e leis da lógica não são descrições de ação, mas de verdade.

Em outras palavras, leis da lógica não são ações. Elas não são declarações sobre conceituais de pensamentos padrão. Embora alguém pudesse dizer que a lei da física (i.e, o anglo da reflexão é igual ao anglo da incidência) é uma declaração que seja conceitual, isto é uma declaração que descreve um ato físico e comportamento observável. Mas, lógica absoluta não é observável e não descreve comportamento ou ação das coisas, desde que ela reside completamente na mente.

Nós não observamos as leis da lógica ocorrerem na matéria. Você não observa um objeto trazendo à existência se ele não existe. Então, nenhuma lei da lógica pode ser observável por não vê-las.

Se o Ateísta apela para o método cientifico para explicar as leis da lógica, então ele está usando uma argumentação circular porque o método científico é dependente da lógica; ou seja, raciocinou pensando aplicar a observação.

Se a lógica não é absoluta, então nenhum argumento lógico para ou contra a existência de Deus pode ser levantado, e o Ateísta não tem nada a fazer com isso.

Se a lógica não é absoluta, então a lógica não pode ser usada para provar ou negar o que quer que seja.

Ateístas usarão a lógica para negar a existência de Deus, mas fazendo isto eles estão assumindo o absoluto das leis absolutas e emprestando da Cosmovisão Cristã.

A cosmovisão cristã mantém que as leis da lógica são absolutas porque elas vêm de Deus, que é absoluto em si mesmo.

Mas a cosmovisão ateísta não tem um Deus absoluto.

Então, perguntamos, “como pode leis absolutas, conceituais, abstratas serem derivadas de um universo de matéria, energia e movimento?”

Em outras palavras, “como pode um ateísta com uma pressuposição naturalista explicar a existência da lógica absoluta quando lógica absoluta é conceitual por natureza e não física, energia ou ação?”

Conclusão

A cosmovisão teísta cristã pode explicar as leis da lógica por afirmar que elas foram criadas por Deus.

Deus é transcendente; quer dizer, Ele está além do universo material, sendo seu criador.

Deus deu origem às leis da Lógica porque elas refletem sua natureza.

As leis da lógica são absolutas.

Elas são absolutas porque existe um Deus absoluto.

A cosmovisão ateísta não pode explicar as leis da lógica/absolutas, e deve pegar emprestado da cosmovisão cristã a fim de argumentar racionalmente.

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Nota:
[1] Há, entre os Apologetas e Filósofos Reformados, divergências quanto a esta questão. Alguns, de fato, acreditam que as Leis da Lógica são criadas por Deus(p.e. Herman Dooyeweerd). Aguarde a tradução do artigo do Richard Pratt “Does God Observe the Law of Contradiction? . . . Should We?” (Third Millenium Ministries). Também é preciso afirmar que há, entre os estudiosos da lógica, divergência acerca da Lei da Não-Contradição. Como demonstra Pratt, a visão de Aristóteles tem sido desafiada por inúmeros pensadores modernos como Frege, Ayers, Russell, Einstein, Whitehead, Heisenberg, Lukasiewicz, Zadeh e Kosko. Veja o post anterior.(Nota do tradutor)

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Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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Uma teoria teísta cristã da realidade

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Por Cornelius Van Til


Vimos, anteriormente, que a primeira e principal pedra angular de uma verdadeira filosofia é uma teoria do conhecimento que esteja relacionada com a concepção de um Deus que conhece todas as coisas.

Devemos agora notar que a segunda pedra angular é, mais uma vez, a concepção de um Deus absolutamente autoconsciente. Imediatamente alguém levanta uma objeção e afirma que há, então, não duas, mas apenas uma pedra angular. Exatamente – as duas convergem em uma só. As duas são apenas uma. A razão para isso é que, em Deus, conhecimento e realidade são idênticos. Este ponto é fundamental, como veremos. Notemos que devido a essa identidade, uma verdadeira teoria do conhecimento implica numa verdadeira teoria da realidade e vice-versa.

Por outro lado, uma falsa teoria do conhecimento não é um brinquedo inocente, antes envolve uma falsa teoria da realidade e vice-versa. O ponto a partir do qual você inicia seu raciocínio faz pouquíssima diferença, contanto que você tome Deus em consideração desde o princípio. Um Deus absolutamente autoconsciente é a pressuposição de uma filosofia de vida verdadeiramente teísta. A razão pela qual devemos pressupor Deus é que não podemos tê-Lo de outra maneira. Apenas para se certificar: você pode ter um deus que não seja tomado como pressuposto, no entanto, ele não será mais do que um deus finito. A “espécie” de Deus que necessitamos deve ser pressuposta. Caso você seja demasiado “científico”, você não pode se dar ao luxo de começar com uma pressuposição. Contudo, eu não posso me dar ao luxo de estar desprovido de um Deus absoluto. Essas duas posições são semelhantes a dois homens, um dos quais preferem utilizar seu dinheiro para adquirir uma casa e o outro um carro? De modo nenhum – nós devemos raciocinar juntos até à morte. Eu continuarei mantendo que sua posição termina no inferno e a minha no céu. Ajo assim ousadamente porque o faço humildemente, como alguém que recebeu pela graça.

Deus

Na teologia, nós tratamos acerca dos atributos de Deus. Se tomarmos, agora, todos estes atributos juntos e direcioná-los para um único pensamento concentrado, nós podemos considerar tal pensamento como a pedra angular de nossa teoria da realidade. Esse pensamento, em si mesmo, não pode ser expresso em outra palavra a não ser Deus. Em nossa teoria da realidade, o elemento mais importante a ser mantido é que Deus tem a realidade de Si mesmo. Nós sempre ouvimos sobre a “realidade última”. Deus é nossa realidade última. Como tal, Ele deve ser eterno e, por sua vez, tudo que é temporal é derivado. Como realidade última, Ele deve ser completamente autoconsciente, e tudo aquilo que não é completamente autoconsciente é derivado. De semelhante modo, Ele deve ser autossuficiente; e tudo aquilo que não é autossuficiente é derivado.

O universo

O termo “universo” é frequentemente tomado como se incluísse Deus e o mundo. Nós o utilizamos como referência a toda a realidade não idêntica a Deus. O teísmo afirma que o universo é temporal. Assim, para um teísmo genuíno, o termo “dependência”, quando aplicado ao universo, não significa apenas “dependência lógica”. Antes, implica a temporalidade inerente do universo em distinção da eternidade de Deus. Roma talvez esteja satisfeita em dizer que, filosoficamente, nós não precisamos nem podemos manter algo além da “dependência lógica”; todavia, nós, como Protestantes, não podemos fazer outra coisa a não ser sustentar que a doutrina da criação temporal é um elemento do teísmo cristão. A relação entre tempo e eternidade é insondável para nós. Como teístas cristãos nós admitimos francamente este fato. Se alguém julga que não pode aceitar uma filosofia a menos que compreenda plenamente todos os seus conceitos, tal pessoa não pode se tornar um teísta cristão. Nossa única resposta a ela é que não podemos prescindir de Deus. Se não podemos manter duas posições simultaneamente, é preferível manter aquela que nos é imprescindível[1]. Mas nossos oponentes desprezam nossa inabilidade de prescindir de Deus. Eles pensam nisso como “uma prova de perdição”[2] intelectual. Para eles, nossa visão de criação temporal é a marca d’água de incompetência mental. Vejamos o que eles dizem.
  
O Deus do antiteísmo

Eles dizem que nosso Deus é tão inútil como (segundo o dito) o é um ministro numa pensão. É dito acerca de nosso Deus que Ele não possui “valor” algum para a “consciência religiosa”. Pelo contrário, Ele extrai uma grande quantidade de energia dos homens, que seria mais bem direcionada na melhoria das favelas. Eles substituem nosso Deus “inútil” por um deus útil. Para ser realmente útil, um deus não deve estar “afastado” do mundo. Ele deve ser um “Deus que suja suas mãos”. Ele não deve estar assentado, como um monarca oriental, mas deve ser “o Presidente da grande comunidade”. Desse modo, Ele é colocado no seu cargo mediante voto popular; Ele deve ser “a vontade comum idealizada” e “o Democrata”. Um deus dessa “espécie” é realmente útil porque ele fará tudo que puder para nos ajudar, bem como a si mesmo; ele é “o grande trabalhador”. Se nos sentimos desencorajados, ele está ao nosso lado, e se ele, por seu turno, também está desencorajado, talvez possa “extrair de nossa fidelidade força vital e um aumento de seu bem-estar”. Este deus é extremamente sociável. Ele não é aquele “monopolista rixoso que afirma:‘não terás outros deuses além de Mim’”, sobre o qual lemos nas Escrituras. O deus “útil” permitir-nos-á sermos “científicos”. Ele mesmo é realmente um cientista pioneiro – uma verdadeira “mente aberta”, sempre em busca de novos fatos. Sua juventude é constante renovada como a da águia[3]. “Atualmente, a deidade é sempre a qualidade empírica superior em relação à qualidade presentemente evoluída”. Ele é uma “variante” ao invés de uma constante. Ele é o produto de um Vir-a-ser ao invés da Fonte do Ser. Está intimamente unido ao fluxo universal das coisas. Portanto, Ele pode ser (e de fato é) o verdadeiro cientista.
  
O universo do antiteísmo

Para nós, Deus é a fonte do universo. Para nossos oponentes, o universo é a fonte de Deus. Para eles, o Espaço-tempo precede a Divindade; o Processo é anterior à Realidade. Deus "é, stricto sensu, uma criatura, e não um Criador”. Ou, novamente, talvez seja preferível dizer que Deus é um aspecto ao invés de um produto do processo do universo. Ele é “apenas a tendência ideal nas coisas”. Em cada caso, o universo é mais original do que Deus; Ele e os homens são cidadãos no universo que existe independentemente de ambos. Acerca da origem do universo, ninguém sabe nada efetivamente. Mas isso não importa. Acidentes acontecerão. Se você colocar seis macacos datilografando várias máquinas de escrever, eles eventualmente produzirão todos os livros do Museu Britânico. O racional, de alguma forma, procede do não-racional; o maior, de alguma maneira, procede do menor; a mais escassa possibilidade, de algum modo, produz a realidade.

O futuro deste universo é igualmente uma questão de sorte. Talvez haja propósito no mundo, mas caso haja, tal propósito é, de qualquer maneira, autogerado; Deus não o colocou ali. Em suma, devemos afirmar que o universo “adquiriu” Deus e anunciou publicamente a fusão empresarial. Enquanto a transição está sendo efetuada, os homens podem ainda assinar cheques no antigo banco e serão honrados pelo novo. Em breve, contudo, novas cédulas serão impressas e o comércio dos homens religiosos continuará exclusivamente com o universo. Então, por que não comprar algumas ações na nova “especulação da fé”? A religião não precisa do Deus antigo. Por enquanto, você pode pensar que sim – você se acostumou com o seu Deus antigo da mesma maneira que se acostumou com seu chapéu antigo. E, assim como você se habituará ao seu novo chapéu após usá-lo por um tempo, você se habituará ao seu novo Deus. Ele, de fato, tem uma aparência melhor do que o anterior – ele vai durar mais tempo. É hora de mudança.

Conclusão

Acaso fizemos uma caricatura da posição de nossos oponentes? Não, de modo nenhum. Há vários filósofos que acreditam num Deus tal como descrevemos. Não é necessário buscar em livros empoeirados, mas nas listas das obras mais populares para encontrar o tipo de deus e de universo que abordamos. Sendo assim, não é injustiça afirmar que a representação que se faz de Deus é o deus de grande parte da literatura atual. É verdade que há pensadores idealistas que não usariam a terminologia grosseira de seus irmãos mais pragmáticos. Contudo, se eles levassem a cabo as implicações de sua própria posição – até o amargo fim delas –, eles terminariam exatamente onde o Pragmatismo termina. Os Idealistas, assim como os Pragmatistas, admitem, logo no princípio de seu raciocínio, que o “universo” (ou, como eles constantemente se referem, a “realidade”) é um conceito fundamental mais extenso e mais fundamental do que o conceito de Deus. Podem não afirmar com estas palavras, mas o sentido é equivalente. Eles incluem Deus e o homem no seu termo “realidade”. Portanto, desde o princípio, a posição deles se configura como monista[4].

E se Deus está, desse modo, confinado ao universo, Ele deve se tornar um deus em evolução ou temporal, uma vez que o universo é temporal. Quando um se move, o outro também o faz, tal como as rodas da visão de Ezequiel. Podemos concluir que o Deus que esboçamos acima é a única alternativa para o Deus que servimos. Você deve servir um desses dois Deuses. Todo ser humano, na verdade, serve a um ou ao outro. A completude e a exclusividade desta alternativa deveriam ser apontadas em tempo oportuno e em tempo não oportuno. Josué afirmou que pouco importava quais deuses, dentre todos disponíveis, o povo serviria. Todos os ídolos, ele descreve, eram em última análise o mesmo, não importa quais eram seus nomes ou formas. Josué também não tentou ocultar do povo estes deuses. Ele apresentou todos os ídolos perante os olhos dos jovens e lhes disse para fazer uma escolha. Sua política era exibir todos estes ídolos a fim de que sua vacuidade pudesse vir à tona. Essa é uma política perigosa? Certamente, mas todas as outras são mais perigosas. Não se pode encontrar segurança tentando esconder de nossa juventude aquilo que está acontecendo no mundo. Eles descobrirão de qualquer modo. A única questão diz respeito ao modo como encontrarão, seja conosco e sob nossa orientação, seja por si mesmos. Portanto, devemos buscar, no desenvolvimento de uma filosofia verdadeiramente cristã, mostrar aos nossos jovens homens e mulheres que todas as posições, com exceção do teísmo, conduzem à total e final destruição de toda experiência humana. Se formos fiéis nisso, nesta nossa tarefa, podemos confiadamente esperar que o Espírito de Deus usar-nos-á como instrumentos para o estabelecimento de Seu reino nos corações dos homens.

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Notas:
[1] No original o autor realiza um jogo de palavras, baseado em uma expressão idiomática, praticamente intraduzível para o Português: “If we cannot have both cake and bread we would rather have bread than to have neither of the two”.
[2] Referência a Filipenses 1:28.
[3] Referência a Isaías 40:31.
[4] Monismo (do grego  μόνος, único, sozinho) é concepção filosófica segundo a qual a multiplicidade e variedade dos entes podem ser explicadas em termos de uma única realidade ou substância. Dito de outra forma, existe apenas uma substância da qual todos os entes são derivados. Dentre os pré-socráticos, Tales e Heráclito foram um dos principais adeptos dessa corrente e, séculos depois, Plotino, o principal Neoplatônico da Antiguidade, advogava a existência de um deus transcendental e inefável, denominado “O Uno”, a primeira hipóstase, de cuja natureza indivisível derivavam três outras hipóstases; são elas: o Nous (νους), o Pensamento, a Inteligência Divina; a Psyché (ψυχή), a Alma Cósmica; e, finalmente, o Cosmos (κόσμος), mundo em toda a sua ordem e harmonia.

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Fonte: Presuppositionalism 101Cornelius Van Til - Collection of Articles From 1920–1939. The Christian Theistic Theory of Reality - The Banner, 1931, Volume 66, Pages 1032ff
Tradução: Fabrício Moraes
Divulgação: Bereianos
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Acautelai-vos da Apologética!

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Por Rev. Gaspar de Souza


O título acima é uma paródia do artigo do dr. Greg Bahnsen sobre a vã filosofia.[1] Naquele texto, expondo Colossenses 2.8, o dr. Bahnsen alerta contra “um determinado tipo de filosofia” que não é “segundo Cristo”, pois rouba você de todos os tesouros da sabedoria e da ciência que estão depositados em Cristo. 

Porém, contrário que possa parecer, o dr. Bahnsen não está se posicionando contra o estudo da filosofia. Pelo contrário, ele está defendendo que a melhor maneira de acautelar-se da filosofia é estudando-a. Em razão disto é que Paulo “adverte contra o potencial destrutivo da filosofia”. Para tanto, contra a má filosofia, apenas a boa filosofia, e esta é segundo Cristo “em quem estão todos os tesouros da sabedoria”(Cl 2.3). Em outras palavras, o melhor remédio contra uma “vã filosofia” é aquela em que Jesus Cristo seja não apenas a conclusão, mas também o ponto de partida do pensamento. 

Ora, o cristão não deve ter outro compromisso exceto o de submeter-se ao Cristo revelado nas Escrituras. Jesus Cristo é a autoridade primeira em matéria de filosofia cristã. Assim, ao estudarmos filosofia, fazemo-lo para cumprir a ordem paulina com maior clareza e eficiência. Nas palavras do dr. Bahnsen:

Estudamos filosofia para certificarmos de que nossos pressupostos sobre a realidade, conhecimento e ética são verdadeiramente pressupostos que honram de Cristo. Estudamos filosofia para identificar quais tipos de pensamento podem nos tornar presas fáceis em nossa cultura. Em suma, estudamos filosofia acautelando-nos de pensar equivocado e comprometermo-nos a pensar a verdade sobre o homem e o mundo.

Apologética Segundo Cristo: suaviter in modo, fortiter in re

Agora, no tocante à Apologética, tenho a dizer o mesmo. Na iminência de concluir um mestrado Teologia Filosófica, com ênfase em Apologética e Exegese, fui descobrindo como é necessário ter cuidado com a Apologética. Em contato com autores de renome na área da Teologia Filosófica, Exegese e Apologética, descobri inúmeras advertências para que a nossa apologética seja “segundo Cristo”. E embora  não tenha conhecido pessoalmente quase nenhum dos autores que li, pude presenciar a aplicação destes princípios na postura de meu próprio orientador, o dr. Davi Charles Gomes, e de meus mestres – Prof. Fabiano Oliveira, Filipe Fontes, Tarcízio Carvalho, João Alves e outros. 

O  dr. Davi Gomes, orientador de outros mestres, encarnou a máxima do dr. Cornelius Van Til, suaviter in modo, fortiter in re (gentil na maneira de agir, mas forte na resposta). E penso que esta frase reflete exatamente as palavras do apóstolo Pedro no texto que é considerado a base da apologética (1Pe 3.15). Aliás, ouvi no Seminário Presbiteriano do Norte (novembro de 2008), o dr. Davi fazer uma exposição deste texto e, como aplicação, ter trabalhado os “seis inimigos da Apologética”.

É curioso que enquanto muitos envolvidos com apologética consigam recitar com segurança a parte do verso que diz “estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”, alguns têm imensa dificuldade com o verso seguinte (na ARA): “fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência...”(v. 16), isso sem contar que as palavras de Pedro para exercitar tal mandato iniciam como “santificai ao Senhor Deus em vossos corações”(ACF). Assim, Apologética começa com santificação de nossos corações a Cristo e opera respondendo com mansidão e temor aos que nos perguntam de nossa esperança. 

Apologética Humilde, mas não Fraca

John G. Stackhouse,[2] em seu Humble Apologetics, faz a seguinte advertência sobre a Apologética. 

Apologética é um trabalho perigoso. Em uma época em que as vozes de vários lados relembram-nos de qual problemático são as reivindicações humanas para o conhecimento; em uma cultura que resiste cada vez mais e se ressente de que pede a conversão do outro; e em uma atividade cujo estereótipo é de vaidade racionalista e intimidação intelectual – que pessoa consciente e inteligente gostaria de se envolver em apologética? Se estamos a defender e recomendar a nossa fé, devemos fazê-lo em um novo modo: com uma voz diferente e em uma postura diferente. Nossa apologética deve ser humilde. Ela deve ser humilde por diversas razões, mas a principal entre elas é que Deus mesmo veio a nós em humildade, buscando o nosso amor e nos atraindo a ele. O Senhor Jesus Cristo é nosso modelo de humildade; o Espírito Santo de Deus é nosso companheiro humilde que nos ajuda a seguir o exemplo de Cristo como também a proclamarmos a mensagem de Cristo.

Apologética humilde não significa uma apologética fraca, “em que alguém deve, digamos assim, perder um argumento e ganhar uma alma”.[3]  Falamos do reconhecimento que apologética é ferramenta cujo fim não é a vitória sobre outro, mas sim anular sofismas e levar pensamentos cativos a Cristo. Deixe-me apresentar um exemplo que o pastor John Burke conta em seu livro:[4]  

Lembro-me de ter assistido a um debate na Willow Creek entre um conhecido ateísta e um apologista do cristianismo. Havíamos acabado de iniciar o ministério Axis em nossa igreja, e muitos de nossos líderes jovens haviam convidado amigos céticos para o debate. Do ponto de vista intelectual, o cristão destruiu os argumentos do ateísta e venceu claramente o debate. Entretanto, interrogando depois os líderes do Axis, descobrimos que seus amigos céticos concordaram que o cristão havia vencido a discussão, mas a maioria ficou tão desgostosa com sua atitude depreciativa para com o oponente que aquilo os convenceu ainda mais de que não queriam ser cristãos.

Infelizmente, alguns pensam que Apologética é uma ferramenta a ser usada como porrete para bater nos outros. O fato de a apologética servir para responder e atacar o incrédulo não significa que ela seja para brigar com todos. O silêncio, às vezes, é também uma resposta. Se até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio, muito mais o experiente que fecha os seus lábios em tempo certo, visto que ao servo do Senhor não convém contender. Joshua Harris e Eric Stanford  acertam o alvo quando afirmam que “precisamos ser corajosos em nossa posição em favor da verdade bíblica. Mas também precisamos demonstrar graça em nossas palavras e em nossas interações com as pessoas [...]. Um dos erros frequentemente cometidos por nós cristãos é que aprendemos a repreender como Jesus, mas não a amar como Jesus”.[5] 

Sempre que a Apologética não cumprir seu papel “com mansidão e temor” ela não estará sendo “segundo Cristo”. Portanto é contra este tipo de apologética que precisamos lutar, porque ela rouba a beleza dos tesouros de Cristo e coloca a Criatura no lugar do Criador, uma vez que a glória de Deus é desviada para outro lugar: para o próprio apologista ou para longe do Evangelho. Francis Schaeffer, magistralmente, encontra o lugar da apologética: “o propósito da ‘apologética’ não é meramente ganhar uma disputa ou uma discussão, mas que as pessoas com as quais estamos lidando tornem-se cristãs que realmente colocam a sua vida sob o senhorio de Cristo, deixando-o tomar conta de toda a sua vida”.[6] Isso  leva-me a considerar que a razão do “porrete apologético” encontra-se na separação da Apologética do Evangelho. Em outras palavras, quando alguns apologistas, especialmente os das novas mídias e redes sociais, veem a apologética como somente, eu disse somente, uma disciplina acadêmica, de vencer debates e demonstrar que têm argumentos, o resultado é um conhecimento que apenas incha. Você pode ver isto, além dos “debates facebookeanos”, também nos compêndios de Apologética. Estes são espécies de “manuais científicos” e, praticamente, voltados para o ambiente acadêmico. Aqueles “manuais Schopenhaureano” de como humilhar o oponente. Pode-se até parecer que a apologética não se aplica realmente ao dia a dia das pessoas comuns. 

Não estou advogando uma apologética simplória, mas uma apologética simples, que o sapateiro ou o aluno na oitava série possam apresentá-la como bons discípulos de Cristos. 

Como expressão desta “apologética academicista”, cito abaixo um exímio apologista cristão. Em seu livro Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time,[7] o dr. Craig faz a seguinte declaração: 

Alguns dos leitores de meu estudo da onisciência divina, The Only Wise God, ficaram surpresos acerca de minha observação de que alguém que deseje aprender mais sobre o atributo da onisciência de Deus seria mais bem aconselhado ler as obras dos filósofos Cristãos em vez dos teólogos Cristãos. Não apenas essa observação foi verdadeira, mas sustento o mesmo para a eternidade divina (grifos meus).

Em outro lugar, diz o autor: “Se você quiser praticar uma apologética eficaz, precisa ser treinado na filosofia analítica [...]. Seja qual for a área de especialização, você estará mais bem qualificado como apologista se tiver recebido treinamento em filosofia analítica”.[8] Neste sentido, não custa perguntar com Tertuliano: “Quid ergo Athenis et Hierosolymis? (O que tem a ver Atenas e Jerusalém?).

A despeito de sua inquestionável habilidade e piedade, dr. Craig aproxima a Apologética de um campo do saber que está além da maioria dos cristãos. O resultado é que, exceto pelos acadêmicos, a apologética entre os leigos é, na maioria das vezes, péssima caricatura da boa defesa da fé.

Apologética, Teologia e Discipulado

A Apologética é uma disciplina eminentemente bíblica, por isso deveríamos esperar maior interação da disciplina com outras que relacionam com a Teologia ou com a “Enciclopédia Teológica”,[9] onde fica cada vez mais claro que a “Teologia Sistemática tem uma relação mais próxima com Apologética do que com qualquer outra disciplina”.[10] O dr. Oliphint, em uma crítica ao dr. Craig, nos diz que, 

Se alguém quer saber sobre a onisciência de Deus ou sua eternidade; se alguém quer pensar profundamente sobre Deus e seu relacionamento com o Mundo; se alguém quer fazer apologética, o primeiro lugar para olhar é para Escritura, e, depois, para aqueles teólogos que fielmente articularam seus ensinos. A Filosofia, mesmo a filosofia Cristã, tem uma longa e resoluta história de virar suas costas para a consistente Teologia Reformada. Portanto, ela não foi muito positiva com respeito às discussões Teológicas (ou filosófico-teológica).[11] 

Especialmente diante da Grande Comissão (Mt. 28.18–20),[12] o cristão deverá anunciar “todas as coisas” que foram ensinadas pelo Senhor Jesus em sua missão de fazer discípulos. Isso não seria uma tarefa fácil. Pode-se falar dessa tarefa na forma que o Senhor disse: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (Mt. 10.16).

Os discípulos, em suas idas para transmitir o Evangelho, depararam-se com diversos desafios a fim de comunicar o Evangelho. Pedro e João perante o Sinédrio; Paulo perante os filósofos estoicos e epicureus; Paulo e Barnabé perante os sacerdotes de Listras; Paulo nas sinagogas dos Judeus arrazoando constantemente com eles demonstrando que Jesus é o Cristo etc. Mas também eles encontraram uma Lídia, uma vendedora de púrpura, que estava à beira do rio; responderam à pergunta do Carcereiro; Paulo defendeu a fé perante o povo (At. 21.72 – 22.21); e ensinou a todos que o visitavam na prisão domiciliar.

Pode-se dizer, portanto, que a base da apologética é o mandato de fazer discípulos. Nesse fazer discípulos, estão envolvidas algumas pressuposições: 1) que haveria necessidade de comunicar o Evangelho de modo eficaz; 2) que haveria necessidade de explicar o Evangelho aos contradizentes (Tt. 1.10); 3) que haveria a necessidade de justificar a crença no Evangelho; 4) que haveria a necessidade de confirmar a fé dos já crentes e; 5) que haveria a necessidade de desafiar os incrédulos no confronto com suas crenças.

Ora, na apologética somos, portanto, discípulos de Jesus Cristo. Por isso, devemos refletir seu caráter. O apologista deve ser gentil, paciente, cortês e não beligerante.

Estas qualidades dificilmente aparecem a muitos que sustentam fortes posições doutrinárias e que são prontos a defender suas posições. É fácil tornar-se teimoso e fervoroso para dominar seu oponente. Todavia, é a atitude oposta, que é pacífica e gentil, que demonstra que nossa sabedoria vem de cima (Tiago 3.13 – 17).[13] 

Como  disse acima, na palestra do dr. Davi Gomes  no Seminário Presbiteriano do Norte, sobre “seis inimigos do compromisso apologético”. Ele tomou por base, entre outros, o texto do dr. Douglas Groothius, professor de filosofia e apologética no Denver Seminary, “Six Enimies of Apologetics Engagement”.[14] Ambos concordam que, “no outro extremo do espectro de erro, está a arrogância do ‘apologista sabe-tudo’ que está mais interessado em mostrar seu arsenal de argumentos do que defender a verdade de maneira piedosa”. Certamente, este é o pecado que tenazmente nos assedia: o orgulho intelectual. E ele deve ser evitado a todo custo – lembra-se? Santificai a Cristo em vossos corações... – pois a verdade que temos nos veio como um dom da graça de Deus. “Nós desenvolvemos nossas habilidades apologéticas ao santificarmos na verdade, ao ganhar almas para Cristo e glorificar a Deus. Devemos ‘falar a verdade em amor’ (Ef. 4.15). Verdade sem amor é arrogância. Amor sem verdade é sentimentalismo”.[15] 

Conclusão

Apologética é de suma importância ao cristão e todos os cristãos estão envolvidos, de um modo ou de outro, com apologética. Mas a apologética pode se degenerar em “vã apologética”, a apologética que não é “segundo Cristo”. E contra este tipo de apologética, uma boa apologética bíblica é o remédio. O apologista cristão precisa ter claro diante de si que sua resposta e desafio ao pensamento incrédulo devem ser feitos “com mansidão e temor”, santificando a Cristo em seu coração. Ele deverá oferecer a Deus  seu coração, pronto e sincero, como está escrito no selo de Calvino.

McGrath afirma que a “apologética corre o risco de passar a impressão de que basta mostrar que a fé é racional”.[16] Sim, a fé cristã é racional, mas não basta apenas mostrar isso ao incrédulo. Não basta apresentar todas as premissas, as inferências ou provas, nem mesmo os mais elaborados silogismos e retórica. É preciso oferecer a Cristo o que Ele mesmo tem nos dado. Na construção do Templo do Senhor, todo o povo de Israel, juntamente com seus líderes e príncipes, “voluntariamente contribuíram” para a construção da Casa de Deus. Então, Davi louvou ao Senhor, reconhecendo que Deus mesmo, o Eterno, é o dono de todas as coisas nos céus e na terra. Então, o Rei perguntou: “Pois quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos oferecer voluntariamente coisas semelhantes? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos [...]. SENHOR, nosso Deus, toda esta abundância, que preparamos, para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão, e é toda tua” (1Cr. 29.1 – 16). O que tem o apologista cristão que não tenha recebido?

C.S. Lewis certa vez descrevendo o perigo que o apologista corre, disse: 

Não tenho encontrado nada mais perigoso para a fé de alguém do que a tarefa de um apologista. Nenhuma doutrina da fé parece para mim tão espectral, tão maravilhosa do que aquela que acabei de defender em um debate público. Por um momento, veja você, ela parecia repousar sobre si mesmo: como um resultado, quando você se vai do debate, já não parece tão forte quanto o fraco pilar. É por isto que nós, apologistas, tomamos nossas vidas em nossas mãos e podemos ser salvos apenas por retroceder continuamente das redes de nossos argumentos, de nossa reação intelectual, para a Realidade – da apologética Cristã para o próprio Cristo. Também é por isso que precisamos da ajuda um dos outros – oremus pro invicem (Oremos uns pelos outros).[17] 

O apologista pode até se gloriar por sua brilhante atuação, seus elaborados argumentos irrefutáveis, “mas autoglorificação nunca é uma coisa espiritualmente saudável”,[18] e ele estará colocando-se em terreno escorregadio, uma vez que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Pv. 16.18). E, por absolutizar a própria apologética, o apologista estará reduzindo a própria fé ao argumento em si, fazendo da apologética a sua tábua de salvação, ou seja, um ídolo.

O que disse acima não significa que eu não corra o mesmo risco. Pelo contrário, luto diariamente em apresentar uma defesa da fé cristã que seja tal como os diálogos de Jesus Cristo. Procuro lembrar-me de suas palavras: “sem mim, nada podeis fazer” (Jo. 15.5). De minha maneira de argumentar em algumas ocasiões mais acirradas, alguns amigos cunharam meus argumentos de ad tratorium (risos). Estou sempre ciente de que o Evangelho é sempre ofensivo ao incrédulo. Mas nem por isso devemos fazer de nossa apologética a palmatória, pois a única cruz a ser apresentada é a de Cristo, que é em si mesma escândalos para os incrédulos.

Certa vez, o dr. Van Til, advertindo acerca dos ídolos, disse: 

Pela graça você é salvo. Você não foi mais sábio do que outros homens. Não é você quem tem escolhido a Cristo como seu Salvador. É Cristo, o Salvador, quem tem escolhido você para ser sua testemunha. Não é você, pela psicologia profunda, tem descoberto a verdadeira necessidade do homem; é Cristo que, através de seu servo João, diz a você que o mundo inteiro já no maligno.[19] 

Mais uma vez afirmamos que humildade apologética não quer dizer abrir mãos das questões da verdade que cremos e defendendo dos incrédulos. O dr. Van Til dizia que a apologética deveria ser perseguida com uma “humildade ousada”. O dr. Bahnsen explica isso dizendo que “isto não quer dizer abrir mão nem mesmo um centímetro das questões da verdade sobre as quais discordamos com os incrédulos. Mas, isto quer dizer [...] que nós continuemos a pagar o próximo cafezinho para nosso oponente”.[20]  

Esteja sempre preparado para responder a quem pedir a razão da esperança que há em você. Mas faça-o com mansidão e temor. Continue a pagar o próximo cafezinho. Mas lembre-se: Acautelai-vos da Apologética!

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Notas:
[2] STACKHOUSE, John G. Humble Apologetics: Defending the Faith Today. Oxford University Press, 2002, p. 227.
[3] SIRE, James. W. Why Good Arguments Often Fail: Making a More Persuasive Case for Christ. Downer Grove. Ill: IVP Books, 2006, p. 165.
[4] BURKE, John. Proibida a Entrada de Pessoas Perfeitas – um chamado à tolerância na igreja. São Paulo: Vida Acadêmica, 2007, p. 213.
[5] HARRIS, Joshua; STANFORD, Eric. Ortodoxia Humilde – defendendo as verdades bíblicas sem ferir as pessoas. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 20, 22.
[6] SCHAEFFER, Francis. O Deus que se Revela. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 214. 
[7] CRAIG, William Lane. Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time. Wheaton, Ill: Crossway, 2001, p. 11.
[8] CRAIG, William Lane. Conselhos aos Apologistas Cristãos. Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/conselhos-aos-apologistas-cristaeos. (grifos meus)
[9] VAN TIL, Cornelius. Apologética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p.21.
[10] Idem.
[11] OLIPHINT, Scott R.; TIPTON, Lane G. Revelation and Reason – New Essays in Reformed Apologetic. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2007. p. 3 (Grifos meus).
[12] Não é por uma preferência apenas do texto da Grande Comissão que ele é tomado aqui, mas por lembrar-nos de que em nossa missão temos a responsabilidade de anunciar “todas as coisas” que o Senhor Jesus tem ensinado.
[13] BAHNSEN, Greg L. Always Ready – directions for defending the faith. Atlanta, Georgia: American Vision, 1996, p. 64.
[15] Idem.
[16] MCGRATH, Alister. Apologética Pura e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 17.
[17] Apud STACKHOUSE, idem, p. 230.
[18] Idem.
[19] VAN TIL, Cornelius. Keep Yourself from Idols. Presbyterian Guardian, n.34, vo. 6 (jul/ago, 1965).
[20] BAHNSEN, Greg L. Van Til´s Apologetic: Readings and Analysis. Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 1998, p.32.

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Apologética - A Questão da Taxonomia

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Por Steven B. Cowan


Embora os Apologistas concordem com a definição e objetivos básicos da apologética, eles podem diferir significativamente sobre a metodologia apropriada da apologética. Ou seja, eles discordam sobre como o apologista realiza sua tarefa – acerca de tipos de argumentos que podem e deveriam ser usados e sobre a maneira que o apologista envolve o incrédulo no debate apologético. Para usar uma analogia militar, existem diferenças de opinião sobre a melhor estratégia para usá-la na defesa da fé. Essas diferenças na estratégia apologética geralmente dependem de desacordos mais fundamentais a respeito de importantes assuntos teológicos e filosóficos. E isto me leva à questão da taxonomia.[1]

Como podemos esboçar as diferentes abordagens à Apologética? De todos os livros de metodologia apologética, nem mesmo dois deles classificam os vários métodos exatamente da mesma maneira. Por exemplo, Gordon Lewis classifica os métodos apologéticos de acordo com suas respectivas epistemologias religiosas.[2] Ele distingue-os por aquilo que cada uma considera ser a relação correta para aquisição de conhecimento das verdades religiosas. Com base nisso, ele diferencia seis métodos apologéticos.[3]

A Epistemologia Religiosa pode ser um fator decisivo em distinguir um método apologético de outro. Por exemplo, dois dos métodos distinguidos por Lewis são o Empirismo Puro, defendido por J. Oliver Buswell Jr.[4] e o Racionalismo, defendido por Gordon H. Clark.[5] A metodologia de Buswell requer que façamos observações do mundo e façamos inferências causais a partir dessas observações, que ele acredita vai conduzir o observador objetivo a crer em Deus e na Verdade da fé Cristã. Ele usa os argumentos teístas clássicos e apela às evidências históricas para a ressurreição de Jesus. [Gordon] Clark, por outro lado, repudia o uso de tais argumentos e evidências, em grande parte por razões epistemológicas. Além do mais, ele argumenta que o apologista deve começar com as Escrituras com um primeiro princípio. Ou seja, a Escritura serve como um axioma racional por meio da qual todas as outras reivindicações da verdade são testadas. Clark, então, afirma que o Cristianismo é o único sistema coerente, [e] todas as outras cosmovisões são logicamente inconsistentes. Então, a epistemologia religiosa destes dois apologistas leva-os a diferentes abordagens apologéticas.

Não há dúvida de que a epistemologia religiosa pode servir para demarcar diferentes métodos apologéticos. Mas, é igualmente evidente que epistemologia religiosa não pode sempre distinguir os métodos apologéticos. Tomemos novamente o Empirismo Puro de Buswell, mas desta vez comparemos com o que Lewis chama Empirismo Racional, atribuído a Stuart C. Hackett.[6] A epistemologia de Buswell segue Locke e Hume, que criam que todo conhecimento surge a partir da experiência. Hackett é um kantiano, que sintetiza racionalismo e empirismo. Como Kant, ele acredita que o conhecimento começa com os dados brutos da experiência, mas que estes dados são organizados e estruturados por categorias a priori da mente.

Estudantes de epistemologia sabem que estas abordagens do conhecimento são significativamente diferentes, mas as abordagens apologéticas derivadas destas epistemologias, para fins práticos, não diferem.[7] Se compararmos o que Buswell realmente faz por meio de seus argumentos apologéticos, com o que Hackett faz, vamos discernir pouca ou nenhuma variação. Hackett usa os argumentos teístas para estabelecer a verdade da cosmovisão teísta. Ele, então, como Buswell, apela às evidências históricas para estabelecer a ressurreição e divindade de Cristo.

Assim, novamente, enquanto a epistemologia religiosa seja certamente importante e possa desempenhar um papel importante em distinguir um método apologético de outro, ela não é suficiente (em todo caso) para distinguir um método de outro. Este sentimento é fortemente ecoado por mais de um dos colaboradores deste volume. Gary Harbemas, por exemplo, argumenta que sua abordagem evidencialista da apologética “pode ser favorecida por qualquer dos diversos pontos de vista epistêmicos”(p. 93).

Bernard Ramm, outro autor que escreveu um livro sobre metodologia apologética, apresenta uma abordagem taxonômica mais promissora à apologética.[8] Ele distingue três famílias de sistemas apologéticos.

1. Sistemas que enfatizam a singularidade da Experiência Cristã da Graça. Ramm descreve várias características distintivas desta abordagem apologética, mas chama a atenção para a ênfase colocada sobre a experiência religiosa subjetiva. A ênfase recai aqui por causa de ênfases correlativas, tanto na transcendência de Deus quanto no efeito noético do pecado. Desde que o pecado cega a mente humana, e desde que Deus é tão diferente dos seres humanos, Deus pode ser conhecido apenas através de alguma experiência supra-racional, talvez até mesmo paradoxal, ou “encontro existencial”. Consequentemente, esta abordagem tem pouco uso para a teologia natural ou evidências cristãs. A “experiência” individual “da religião é tão profunda ou exclusiva ou auto-confirmada que a experiência em si é sua própria prova”.[9] Ramm lista Pascal, Kierkegaard e Brunner como membros desta família.

2. Sistemas que enfatizam a teologia natural como o ponto do qual o apologista começa. Aqueles que seguem esta escola, deposita grande confiança na razão humana para descoberta do conhecimento religioso. Consequentemente, existe menos ênfase no efeito noético do pecado e na transcendência de Deus. As verdades religiosas podem ser conhecidas e verificadas da mesma maneira que proposições científicas podem ser conhecidas e verificadas. Entre aqueles que seguem este método, se encontrará uso extensivo dos argumentos teístas e evidências históricas para demonstrar a verdade do Cristianismo. Aquino, Buswell e Tennant são proponentes tomados por Ramm como paradigma desta abordagem apologética.

3. Sistemas que enfatizam a revelação como fundamento sobre o qual a apologética deve ser construída. Ramm descreve esta abordagem como correspondendo, de certa forma, entre as duas primeiras. Como ele coloca, “a escola revelacional acredita que a primeira escola é subjetivista demais... [e] critica a segunda escola por não avaliar seriamente a depravação do homem”.[10] Em vez de começar com o subjetivismo da experiência religiosa ou o racionalismo da teologia natural, esta terceira escola começa com a verdade objetiva da revelada Palavra de Deus. A razão tem um papel nesta abordagem, mas a razão é fundamentada sobre fé na revelação de Deus e busca entender a revelação de Deus. A razão não pode colocar-se como juiz da revelação de Deus. Esta abordagem põe grande ênfase no efeito noético do pecado, mas talvez não tanto na transcendência de Deus. Deus é capaz de revelar-se em forma proposicional ao ser humano através de uma revelação escrita (i.e, a Bíblia) e pela obra do Espírito Santo é capaz de diminuir os efeitos da cegueira do pecado na mente do crente. Esta escola concentra-se na apologética negativa, embora exista algum uso limitado de argumentos teístas e evidências históricas.[11] Ramm indica Agostinho, Calvino e Kuyper como defensores desta escola apologética.[12]

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Notas:

[1] In: GUNDRY, Stanley N. ;COWAN, Steven B. Five Views on Apologetics. Zondervan Counterpoints Collection. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2000, p.9 – 12.
[2] Gordon R. Lewis, Testing Christianity’s Truth Claims (Chigago: Moody Press, 1976).
[3] Os seis métodos/epistemologias são (1) Empirismo Puro, exemplificado no século vinte por J. Ollver Buswell Jr; (2) Empirismo Racional, que Lewis atribui a Stuart C. Hackett; (3) Racionalismo, que, de acordo com Lewis, é a epistemologia e o método de Gordon H. Clark; (4) Absolutismo Bíblico, advogado por Cornelius Van Til; (5) Misticismo, exemplificado pela obra de Earl E. Barret e; (6) Verificacionismo, que é o que Lewis atribui a E.J. Carnell.
[4] Veja o A Christian View of Being and  Knowing (Grand Rapids: Zondervan, 1960), de Buswell.
[5] Algumas obras de Clark incluem A Christian View of Men and Things (Grand Rapids: Eerdmans, 1952) e Three Types of Religious Philosophy (Nutley, N.J: Craig, 1973). Nota do Tradutor: Ambos os livros encontram-se traduzidos para o português, sob os respectivos títulos:  Uma Visão Cristã dos Homens e do Mundo (Brasília, DF: Editora Monergismo, 2013) e Três Tipos de Filosofia Religiosa (Brasília, DF: Editora Monergismo, 2013). Visite o site: www.editoramonergismo.com.br
[6] O método e epistemologia de Hackett podem ser encontrados em The Reconstruction of the Christian Revelation Claim: A Philosophical and Critical Apologetic (Grand Rapids :Baker, 1984)
[7] Este ponto, claro, é baseado na suposição de que metodologia apologética tem algo a ver com a forma como alguém faz apologética.
[8] Bernard Ramm, Varieties of Christian Apologetics (Grand Rapids: Baker, 1961), 14 – 7.
[9] Ibidem, 15.
[10] Ibidem, 16.
[11] De fato, esta Escola não menospreza o uso dos Argumentos Teístas e Evidências Históricas como alguns equivocadamente afirmam. Porém, tais argumentos não são vistos neutramente, mas dentro de uma estrutura epistemologicamente bíblica. Cf. Cornelius Van Til, Christian Theistic Evidences (In Defense of the Faith, vol. 6). Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 1978. [Nota do Tradutor]
[12] Em um a edição mais antiga de seu livro (Types of Apologetics Systems[Wheaton: Van Kampen, 1953]), Ramm lista Cornelius Van Til e E.J. Carnell como seguidores desta abordagem.

Nota do Tradutor: Certamente é um equívoco colocar Van Til e Carnell na mesma Escola, e isso a partir do próprio ponto de vista do Dr. Van Til, que embora reconhecesse o valor da obra do Dr. Carnell, o considerava um apologista reformado inconsistente. Diz Van Til: “O falecido Edward John Carnell, autor de An Introduction to Christian Apologetics, e professor de apologética do Fuller Theological Seminary, foi o escritor da série [de artigos no Moody Monthly Magazine]. Os escritos de Carnell estavam entre os melhores dos que apareciam nos círculos evangélicos. De fato, em seu livro sobre apologética, Carnell com frequência argumenta como esperaríamos de um apologista reformado. Contudo, em toda a extensão, ele representa o método arminiano, em vez de o método da apologética reformada” (VAN TIL, Cornelius. O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2010, p.44)(grifos meus). 

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Fonte: COWAN, Steven B. Five Views on Apologetics. Zondervan Counterpoints Collection. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2000, p.9 – 12.
Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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Pressuposicionalismo – Cornelius Van Til

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Por Morgana Mendonça dos Santos¹


Resumo

Van Til em sua originalidade concentra um desenvolvimento numa apologética centrada em Deus, sem transigir, continuando sua comunicação com os incrédulos e vivendo um cristianismo autentico. Sendo seu objetivo centrado na ideia pressuposicional, seu alvo era mostrar que a cosmovisão cristã é a única racional e objetivamente válida. O cerne da abordagem e conceito da apologética de Van Til possui duas características: o apologista para argumentar e provar que as reivindicações não são coerentes devem assim dominar o terreno do incrédulo. Em segundo lugar, o apologista convida, oferece ao incrédulo uma cosmovisão bíblica, o incrédulo reconhece o terreno cristão, então os argumentos são provados por um significado bíblico e assim são estabelecidos de forma coerente com as Escrituras.

Introdução

Cornelius Van Til (1895-1987), um dos apologistas mais originais e brilhantes do século 20, nasceu em Grootegast, Holanda (1895) e emigrou com a família para os Estados Unidos em 1905. Filósofo cristão e teólogo reformado, pastor da Christian Reformed Church e um dos professores fundadores do Westminster Seminary, em setembro de 1929, onde lecionou apologética até aposentar-se, em 1974. Ao longo da sua vida publicou 30 obras, entre as quais The Reformed Pastor and Modern Thought (1971), lançado no Brasil pela Cultura Cristã com o título O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno (2010).

No tocante à disciplina, ele foi reformador, passando boa parte de seu tempo em desafiar as escolas existentes e articular a abordagem apologética que se tornou conhecida como “pressuposicionalismo”. Van Til sucintamente estabelece toda a sua filosofia em termos simples, mais profundos: "Hoje, de fato, estou convencido de que toda a história e a civilização seriam ininteligíveis para mim, não fosse pela minha crença em Deus. Isso é tão verdade, que me proponho a argumentar que se Deus não estiver na base de tudo, não se pode encontrar sentido em nada” [2].

Pressuposicionalismo – Cornelius Van Til

A verdade é que existe um abismo que separa as duas visões de mundo, entendendo essa distancia, incluindo que não há como estabelecer um terreno comum. A pergunta que nos resta a fazer é: Como então manter para a defesa da fé uma comunicação com os incrédulos? Que não tenha que recuar as exigências da sua própria posição? É nesse ponto que Van Til nos oferece uma linha que permite o dialogo apologético sem abrir mão de qualquer antítese das cosmovisões opostas.

Ele desenvolveu uma apologética que inicia em Deus, causando assim a comunicação com os incrédulos sem deturpar os conceitos firmados. De forma tão original e verdadeiramente teísta, foi acusado de fideísmo, se referido a uma visão que é conseqüência de uma atitude de fé, sem nenhum apoio de justificativas racionais ou evidencias. Tinha a critica das pessoas, como aquele que não podia discutir racionalmente em favor da fé cristã. Porém, isso não é coerente com esse apologista, nunca afirmou que os argumentos apologéticos, por si só pudesse conduzir alguém do ceticismo a fé. Não há como haver argumentos isolados e evidentes por si mesmo, fatos irracionais ou qualquer outra prova, pois ele acredita tudo isso pertencer a uma estrutura maior.

Denominando sua abordagem de "método indireto", afirmando que uma pessoa não pode ir direto aos fatos, como se fossem auto-evidentes. Van Til acredita que é preciso reconhecer seu fundamento e seguir a partir dele. É exigido que todas as idéias e argumentos sejam reconhecidos, partindo de uma idéia básica, uma estrutura que faz sentido. Sujeito a todo tipo de contestação quando essa estrutura não está em conformidade com a verdade das escrituras. Um dos exemplos preferidos de Van Til é a ideia que os incrédulos usam "óculos cor-de-rosa" para vê seu mundo, sendo assim visto por uma lente, através dela. Impossível a neutralidade, pois tudo em nossa consciência resulta de algum tipo de pressuposição, Van Til acredita com firmeza em fatos, provas, evidências, porém não de forma isolada.

Van til, em Christian Apologetics[3], diz: "O ponto de partida, o método e a conclusão estão sempre implicados em no outro". Ao ouvir isso temos uma antítese, a questão diante disso será essa: seria possível construir essa ponte, uma comunicação em que podemos concordar com algum ponto, mesmo tendo nossas estruturas opostas com os incrédulos? Van til faz uma de suas contribuições e afirma que a nossa constituição como imagem e semelhança de Deus, como a revelação natural que nos cerca, temos, portanto uma consciência de Deus. João Calvino chamou isso de "semente da religião[4]" que Deus semeou em todos os homens.

Para Van til, isso é significado por um ponto que temos de “imediato contato" com os incrédulos. "No fundo da sua mente todo homem sabe que é uma criatura de Deus e é responsável perante Deus" [5]. Então entendemos que é possível uma apelação para um profundo conceito de verdade sobre o conhecimento de Deus, no intimo de cada um, sem ceder a um terreno neutro comum.

Tudo se torna evidencia para a cosmovisão cristã, de acordo com a abordagem de Van Til, uma vez que tudo na criação proclama a obra de Deus, até nossa autoconsciência está enraizado no conhecimento de Deus. Essa abordagem é chamada "pressuposicional" porque procura ir além da superfície e desnudar as precondições do ponto de vista do outro, podemos concluir então que a pressuposição e evidencias constituem junto um argumento poderoso de evangelização para a verdade da revelação de Deus.

A fé subjetiva não é defendida por Van Til, nem o direito de ser diferente, porém a verdade objetiva, demonstrável é a mais coerente. Significando, portanto a visão de Van Til que é simplesmente bíblica, não é nem moderna nem pós-moderna. Quando olhamos a abordagem de Van Til do conhecimento, percebemos que não se inicia com noções filosóficas abstratas, o ponto de partida tem inicio com a teologia sistemática, destinada a ser uma estrutura das doutrinas bíblicas sobre Deus, a humanidade, a criação, a queda e a redenção em Cristo.

Van Til é justamente reconhecido por muitas idéias sensacionais, que perdem seu efeito se forem isoladas da grande ênfase dada à redenção, que permeia sua obra. Sua grande ênfase na antítese entre crença e descrença, o lugar da graça comum, sua oposição à “metodologia casamata” (construindo um caso, um passo de cada vez, do reino da “razão” para o reino da “fé”), esses elementos não podem se sustentar sozinhos. A história do evangelho contém todos esses elementos e torna-se uma forma solícita para evangelização o que de fato é apologética para Van Til.

Na sua cosmovisão cristã o que emana é o cristianismo bíblico, partindo de uma teologia reformada, com todos os argumentos pautados e referidos biblicamente. A crença de Van Til de que a “Apologética defende o cristianismo tomando como um todo”; o fato de que a “Apologética deveria ser perseguida numa forma aprendida”; o ensino que a “Apologética e Teologia são interdependente”; e que “Teologia e Filosofia não podem ser severamente separadas” (como oposto ao dogma Católico Romano); seu compromisso com a máxima Agostiniana de que “Razão e Fé estão ambas unidas em submissão pactual à Escritura”; sua alegada aderência ao testemunho reformado (como expresso na CFW) de que a “Escritura carrega sua própria evidência em si mesma”; sua afirmação da “impossibilidade da neutralidade” entre o cristianismo e outras cosmovisões; e suas “comparações e criticas dos métodos apologéticos”. Van Til analisa a afinidade da apologética com os principais conceitos da fé reformada, sobretudo, da teologia sistemática (teontologia, antropologia, cristologia, soteriologia, eclesiologia e escatoloia), pois é a disciplina que mais interage com a apologética. Ele observa que a cosmovisão cristã reformada é completamente distinta das demais, visto que é a única capaz de alcançar pleno significado para a vida. De acordo com Van Til, existem ofensas e equívocos nas teologias rivais e teorias não cristãs.

A cosmovisão cristã reformada tem para Van Til uma rica aproximação com a “filosofia cristã”, ainda que em um esboço genérico. Abas com a necessidade de apresentar uma visão da vida e do mundo de forma completa. Do mesmo modo que, a ciência e teologia estão associadas, de fato, sem as bases das pressuposições cristãs a ciência se torna inadequada, sendo assim, tanto a ciência como a filosofia dependem de pré-requisitos fornecidos pelo cristianismo para a correta interpretação do mundo e dos fatos da existência.

No centro da apologética “vantiliana”, há duas direções, dois princípios. Chamamos o primeiro de “método indireto”. Impossibilitando o dialogo com aqueles que na estão sob a mesma realidade de visão. Uma teologia natural para Van Til não é base para pressupostos, não tem como construir uma base em cima de uma teologia racional, deve-se ser revelacional. O segundo ponto é o da analogia. Para Van Til significa uma expressão que resume um modo de pensar que quer permanecer fiel a Deus o criador. Não existe a possibilidade de interpretar a realidade se não for pela revelação de Deus. Evitar a idéia que podemos raciocinar com a lógica exclusivamente humana. De acordo com Van Til, no entanto, à luz do principio da analogia, você pode aceitar esta aparente contradição sem cair no irracionalismo, porque nosso conhecimento de Deus depende disso e não é autônomo. Van Til pondera sobre como fazer para defender essa cosmovisão diante dos incrédulos, para isso, ensina e analisa o “ponto de contato” adotado por outras teologias e conclui com a posição Cristã reformada.

Esse “senso da divindade” para Van Til faz toda a diferença, recorrer para a afirmação bíblica acerca do conhecimento de Deus disponibilizado na criação e também implantado no homem natural. È posto como ponto de contato por excelência, o homem. Pelo fato de que é criada a imagem de Deus, de forma que para o pensamento vantiliano, esse ponto de contato é o único que “escapa ao dilema da ignorância absoluta ou onisciência absoluta”. Conclui então que a mente humana é “inerentemente revelacional”, não auto-suficiente nem totalmente capaz de conhecer.

É interessante também afirmar a abordagem apologética utilizada por Van Til no que discerne em conduzir o homem ao conhecimento da verdade, para ele, não há como o apologeta de confissão reformada concordar com a metodologia do incrédulo, pois o método cristão-reformado defende a cosmovisão proveniente do cristianismo como realmente é. Empregado um método da argumentação por pressuposição, Deus pela sua soberania e conselho dirigiu todos os fatos à verdade sob seu regulamento. É destacado o método “indireto de raciocínio por pressuposição”, uma vez que discorda do homem natural e não recorre a uma discussão direta de “fatos” e “leis”. 

A questão da autoridade e razão, Van Til afirma que o homem natural entende e posiciona a autoridade. Principio de autoridade conforme as Escrituras, para o apologista, a Escritura afirma a sua autoridade absoluta como a única luz para interpretar os fatos da realidade e fornecer a sua real relação com a plenitude da existência, de forma alguma a sujeitando sobre a razão. Dando conta da idéia, de que é a própria razão que deve achar a sua função à luz das Escrituras. Afinal, o homem não é autônomo e sua razão, sofreu os efeitos noéticos da queda, fazendo assim à sujeição a verdade absoluta, à revelação sobrenatural de Deus, as Escrituras Sagradas.

Enfim, notamos a supremacia do pressuposcionalismo, como forma de abordagem apologética integral, nossa fé exige que “estamos sempre prontos” (1Pe3.15) para responder as perguntas que nos cercam. O pressuposicionalismo, portanto, surge como uma voz diferente do racionalismo e da desconstrução. Conhecer e buscar entender a vontade de Deus, expressa e expandida em Sua Palavra. A aplicação da apologética vantiliana é aqui relevante e original.

             
REFERÊNCIAS

VAN TIL, Cornelius. Apologética cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. Original em inglês: Christian apologetics. 2. Ed. Org. William Edgar. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2003.

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[1] A autora do artigo é aluna do STPN, Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, Recife, Pernambuco.
[2] Cornelius Van Til, Why I Believe in God - Filadélfia: Committee no Christian Education of the Orthodox Presbyterian Church, s.d., 3.
[3] (nutley, Nj.: Presbyterian ano Reformed,1976) 97
[4] Institutas da religião cristã 1.4.1
[5] Christian Apologetics.

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