Deixando “R.I.P.” descansar em paz

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Eu tenho grande admiração pelos não cristãos que contribuíram para a melhoria da sociedade através das suas invenções, produção, liderança, literatura e arte. Recentemente, minha esposa e eu estávamos refletindo a respeito das notáveis maneiras pelas quais os trabalhos de Steve Jobs ajudaram a mudar o mundo em que vivemos. Eu amo muitas das belas obras de arte e música que foram produzidas por artistas seculares e, eu não quero, nem por um segundo, crer que devemos nos isolar do uso e desfrute das contribuições dos autodeclarados descrentes no mundo que nos cerca. Caso contrário, como declarou o apóstolo Paulo, teríamos “de sair do mundo” (1Co 5.10). Existe um princípio de graça comum em ação no mundo, pelo qual Deus permite que homens beneficiem uns aos outros, tornando a vida neste mundo caído um pouco menos dolorosa do que, de outra forma, ela seria.

Dito isto, tenho notado uma tendência preocupante nos últimos anos. Trata-se da maneira pela qual os crentes falam a respeito dos indivíduos que causam impacto na cultura com as suas mortes. Em vez de simplesmente expressarem apreço por suas vidas e realizações, tornou-se lugar-comum para os cristãos usar nas redes sociais a abreviatura R.I.P (“Rest In Peace”), ao falar sobre a morte desses indivíduos – em cujas vidas não houve evidência de graça salvífica. Correndo o risco de parecer mal-humorado, gostaria de expor algumas razões pelas quais estou preocupado com essa tendência.

Primeiro, quando empregamos a abreviatura R.I.P., estamos, inevitavelmente, admitindo uma condição ou estado inseparavelmente ligado à ideia de vida após a morte. Não estamos falando de algo indiferente à verdade do porvir. Alguém poderia retroceder neste ponto, sugerindo que R.I.P. nada mais é do que uma maneira de expressar apreço pelas realizações de uma pessoa. Contudo, enquanto certas palavras e frases podem ser fluidas em seu significado (por exemplo, “adeus” assumiu um significado diferente do seu antigo sentido em inglês: “Deus esteja com você”), “descanse em paz” dá a sensação de que o falecido está “num lugar melhor” – um lugar de descanso e paz. Se nos preocupamos com a salvação eterna dos homens, e se eles estão ou não confiando em Cristo somente para a vida eterna, então, devemos evitar, cuidadosamente, dar a impressão de que acreditamos em qualquer forma de universalismo.

Segundo, como cristãos, devemos nos revoltar com a ideia de “orar pelos mortos”, uma vez que não há uma única gota de apoio bíblico para tal ideia. Quando dizemos “descanse em paz”, corremos o risco de dar a impressão de que estamos orando pelo falecido – seja por autodenominados incrédulos ou por crentes autodeclarados. Por si só, isso deveria nos fazer dar uma pausa para decidirmos abandonar a prática.

Terceiro, as Escrituras ensinam, de maneira muito clara, a natureza onerosa tanto da paz como do descanso. A narrativa bíblica é sobre o descanso redentivo que Deus prometeu conceder através da vida, morte, ressurreição, ascensão, intercessão e retorno de Cristo (Mt 11.28-30; Hb 4.1-10). O descanso escatológico que Jesus adquiriu para os crentes lhe custou o preço do seu sangue (1Co 6.20; 1Pe 1.19). Além disso, as Escrituras são claras sobre não haver paz para os perversos (Is 48.22; 57.21). O Senhor advertiu através dos profetas, a respeito da mensagem dos falsos profetas: “Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6.14; 8.11). As Escrituras deixam bem claro que Deus comprou a paz apenas “pelo sangue da sua cruz” (Cl 1.20). O descanso e a paz pelos quais devemos passar – tanto para nós como para os que nos rodeiam – estão fundamentados na natureza da Pessoa e morte expiatória de Jesus. Se os homens passaram a vida rejeitando o Evangelho e não professaram a fé em Jesus, não deveríamos lhes oferecer paz e descanso póstumos. Isso coloca em risco a natureza da exclusividade de Jesus e do Evangelho – mesmo que esta não seja a nossa intenção.

Isto não quer dizer que os crentes devem ser apressados ou sem caridade na maneira como falam da morte daqueles que, provavelmente, morreram em incredulidade – ou que devemos falar de tal maneira que indique que sabemos com certeza aonde alguém foi quando morreu. Seguramente, temos consolo e alegria quando alguém que professou fé em Cristo – e em cuja vida houve fruto de que ele estava em Cristo (Mt 7.16,20), deixou esta vida. É o grande conforto dos crentes saber que os seus irmãos estão agora “descansando em paz”, que eles “descansam em Jesus” (1Ts 4.14). O Antigo Testamento fala dos crentes como sendo “reunidos ao seu povo” na hora da morte (Gn 25.8,17; 35.29; 49.29,33). Isto é reservado apenas para os crentes. Isto está em contraste com o modo como as Escrituras falam dos incrédulos em suas mortes. No entanto, quando perguntados sobre aqueles que nunca professaram fé em Cristo – alguém que passou a maior parte de sua vida aderindo a alguma religião falsa em particular – devemos lembrar que nenhum de nós conhece o que Deus, o Espírito Santo, faz nos corações de homens e mulheres momentos antes das suas mortes. Nenhum de nós sabe se a graça regeneradora de Deus veio no momento final; e, portanto, devemos apenas procurar, agora, alertar os vivos a respeito da ira, com o objetivo de manter a esperança da graça redentiva em Cristo.

Em dias nos quais a doutrina bíblica do inferno desapareceu virtualmente dos púlpitos em todo lugar, e as convenções sociais do nosso tempo exigem uma linguagem aparentemente mais agradável do que aquela que as Escrituras exemplificam e exigem, devemos proceder com um grande exame pessoal do que estamos dizendo e a razão de estarmos dizendo o que estamos dizendo. Devemos pesar as implicações do nosso discurso, tanto na forma verbal e escrita, lembrando que o mesmo Jesus que disse “vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11.28-29), também disse, “que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36).

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Autor: Nick Batzig
Fonte: Reformation 21
Tradução: Rev. Alan Rennê
Divulgação: Bereianos
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Porque Abandonei a Igreja Sensível ao que Busca

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Comecei a pastorear em setembro de 1994 - bem no meio da loucura do movimento “seeker-sensitive” (sensível ao que busca). As duas primeiras igrejas em que trabalhei estavam 100% comprometidas com o programa. Nós éramos contemporâneos, tínhamos foco, boa sinalização e todos os nossos valores centrais começavam com a letra "G"¹ - éramos tão amigos dos interessados quanto era humanamente possível.


Ambas as igrejas fecharam e o próprio movimento parece estar em declínio terminal.

“Eu sigo Cristo e não religião!” Como assim?

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O ser humano adora clichês – e falar em relacionamento com Cristo e em não ter religião é um dos que mais encontrou eco na nossa geração. Mas esse é um clichê vazio de significado. Na verdade é uma tolice que virou mantra.

A igreja, pastor, cristão... que oferece aos homens “um relacionamento com Cristo” – estão atrasados e fora da realidade.

A palavra religião se tornou completamente pejorativa na boca de muitos pregadores de hoje, e como se era óbvio de esperar, se espalhou pelos bancos das igrejas e redes sociais. Pregadores, bem intencionados ou não – sei lá – se dispuseram a fazer um trabalho duro e muito longo para retratar religião como uma roupa negra de regulamentos e regras. Então, Cristo é apresentado como uma alternativa completamente nova a tudo o que a vilania da religião representa. Então, um clichê quase virou um versículo bíblico: “Cristianismo não é religião, é relacionamento!”

Toda a ideia é um tanto superficial. Você não tem que fazer rituais estranhos, raspar a cabeça, se vestir estranho, usar gravata... para ser “religioso” – Um grupo de pessoas – não importa como eles sejam, abraçando um determinado conjunto de crenças qualifica-se como religião. Na verdade, todas as pessoas são religiosas de alguma maneira.

Ateus, por exemplo, são muito mais religiosos do que supostamente “racionais – em sua fé obstinada de incredulidade em algo, quando abraçam a fé em outras determinadas coisas e pressupostos – insistindo no nada racional – “o nada criou tudo!”

Não se engane, você é religioso quando repete a crença de um grupo que inventou um clichê, e que repete junto que não é religioso, mas que tem um relacionamento. Você é religioso, mesmo quando nega enfaticamente que é religioso. Na verdade, Paulo diz em Romanos 1 que todos os homens estão adorando e cultuando algo.

A questão primordial, na verdade, é se a religião – não importa se agora você odeia o nome – que você abraça é verdadeira ou falsa. Se ela glorifica a Deus ou o ofende. Se lhe dá glória ou “rouba” Sua glória.

A Bíblia lança luz sobre isso o tempo todo – definindo uma religião pura que reflete o correto relacionamento com Deus. A Bíblia não se furta em dizer: “A religião pura e imaculada é esta...

O Cristianismo bíblico, ou a religião divina, é uma questão de tendo sido regenerado e levado a Cristo pelo Espírito, ser levado a uma vida de santa obediência à Palavra de Deus – que é refletida em um enfrentamento com honestidade do que nós somos – moralmente falidos e dependentes da Graça soberana, que chama, regenera, dá o arrependimento, santifica... nosso interesse pela igreja de Cristo e pelo próximo é uma posição espiritual e moral intransigente em relação ao mundo e sua cultura que religiosamente adora a tantos deuses quanto é possível o homem criar.

A religião pura – que Tiago descreve, por exemplo – é o transbordar de um coração humano regenerado e por isso, em correta relação com o Deus único e Verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo. Portando, sendo levado pelo amor que esse novo coração tem pela Nova Aliança, a obediência alegre e cheia de deleite à Sua Palavra.

A ideia de que o cristianismo não é religião, mais um relacionamento – essa frase – não faz nenhum sentido. É vazia.

A religião que um homem pratica (e todo homem pratica) depende, e é um reflexo do nosso relacionamento com o Deus verdadeiro. (E todo homem tem um).

Como dissemos no início, a igreja, pastor, cristão... que oferece aos homens “um relacionamento com Cristo” – estão atrasados demais e fora da realidade.

O ponto claro e evidente que parece que os repetidores de clichês evangélicos perderam, é que todos os homens estão num relacionamento com Deus, com Jesus... A questão apenas é se é um relacionamento bom ou ruim... todas as criaturas estão num relacionamento com Deus para o bem ou para o mal.

No que diz respeito aos homens, a Bíblia define o relacionamento do homem com Deus em duas categorias:
  1. Aqueles que são seu inimigos.
  2. Aqueles que eram inimigos e foram reconciliados por Graça Soberana.

Alguém me perguntou: “Como alguém pode ter um relacionamento com alguém que não conhece?” - Paulo responde: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.” - Romanos 1:19-21 - (Deus! Pai, Filho e Espírito Santo!)

A Regeneração, Chamado Eficaz, arrependimento e conversão é a transição entre estar num relacionamento com Ele ou no outro.

Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação.” - Romanos 5:10,11

Você vê – antes de sermos chamados, não estávamos sem um “relacionamento” com Deus... vivendo uma vida neutra... estávamos nos relacionando com Ele... como inimigos. E sendo religiosos, como todo ser humano, de forma errada – expressando nossa inimizade e desprezo a Ele.

Em Adão todos nascemos rebeldes contra Deus – nos relacionamos com Ele como Caim se relacionava... e todos os homens que já nasceram. Essa relação pessoal era tal, que estávamos debaixo da Ira infinita de Deus. Cada coisa que você fazia em toda a sua vida fora de Cristo se relacionava a Deus e era feita num relacionamento de inimizade contra Ele. Toda a obra de salvação cai num vazio, quando a reduzimos a um convite simplesmente a um “relacionamento”.

O problema humano JAMAIS FOI UMA FALTA DE RELACIONAMENTO COM DEUS! O problema era um relacionamento hostil – de nossa parte, e da parte d'Ele em relação a nós. É isso que torna a Graça Soberana tão surpreendente: “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.” - Efésios 2:3

Então o problema era o tipo de relacionamento pessoal que tínhamos com Ele – inimigos e hostis! – E esse é o estado ainda de todo homem que está fora de Cristo – debaixo da Ira infinita, neste relacionamento inevitável com Deus.

É por isso que a pregação não é descrita como formar um relacionamento, mas como uma mudança de relacionamento. Nosso ministério não é o ministério de relacionamento – pois relacionamento já existe – nosso ministério é “o ministério da reconciliação” ( 2 Co 5.18 ) – Através da expiação e propiciação o status do relacionamento pode ser mudado.

Se você falar que o cristianismo não é uma religião, mas um relacionamento, você criou uma dicotomia totalmente falsa e enganadora. Porque o que você está oferecendo é a escolha entre religião ou um relacionamento. Mas a divisão que existe é entre falsa e verdadeira religião, e um relacionamento reconciliado pela expiação e propiciação e um relacionamento de inimigos debaixo da Ira.

Quando o homem é reconciliado pela obra soberana de Cristo, então a religião pura e imaculada começa.

Essa é a tragédia em andarmos por clichês, eles obscurecem a verdade. Para diferenciar coisas, precisamos de profundas raízes bíblicas e perspicaz discernimento da Palavra. Clichês são “boas ideias” (assim achamos quando os inventamos) – que soa tão bem exatamente por seu distanciamento da verdade – a mente natural logo os começa a reproduzir – enquanto que normalmente acha difícil e não gosta das profundas definições bíblicas.

Os clichês se tornam populares da mesma forma que as falsas promessas de políticos, falsos pregadores, falsos profetas... não são verdade, mas nós já queríamos acreditar naquilo... então acreditamos quando alguém diz o que queríamos que fosse dito.

Precisamos pensar tão somente e claramente em termos bíblicos – Sem novos insights, clichês ou frases de efeito. A Palavra basta. Sola Scriptura!!

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Autor: Josemar Bessa
Fonte: Site do autor
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Série Credo Apostólico - Parte 8: A Santa Igreja Universal

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INTRODUÇÃO

“Creio... Na santa Igreja universal, a comunhão dos santos”.

Depois de firmar o credo na Trindade, o símbolo de fé passa então a falar da obra do Deus triúno, começando por afirmar a crença de que a Igreja é universal, palavra que passamos a usar para substituir o termo “católica”. Mas, embora muitos evangélicos torçam o nariz para a palavra, devemos reafirmar o conceito de catolicidade, algo que os próprios reformadores reafirmaram. Assim sendo, o que devemos ter em mente quando dizemos crer na Igreja católica ou universal?

O conceito de catolicidade evoca a união da igreja que transcende o tempo e a geografia. Esta Igreja por quem Cristo morreu é composta de pessoas de todos os tempos e vindas de muitos lugares distintos, vinculadas uns aos outros pelo sangue de Jesus. Nesta massa de gerações e culturas diferentes, por uma ação sobrenatural do Espírito, existe unidade, que devemos nos esforçar para preservar, como nos diz o texto sagrado:

Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos”. - Efésios 4:3-6

Outro aspecto da catolicidade - ou universalidade – da Igreja é que a sua membresia é diversificada no que diz respeito a idade, gênero e posição socioeconômica, mesmo assim, o Espírito de Cristo produz unidade na diversidade, operando em nós a fé salvífica depositada no Filho de Deus. “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Portanto, é de extrema importância pôr em prática este postulado do Credo, pois, a Igreja é o povo de Deus, comprado e remido por Cristo, que se ajunta solenemente em adoração ao seu SENHOR. É neste ajuntamento que Deus se manifesta, e por meio dele opera neste mundo caído.

DESIGREJADO, ISSO PODE?

Existe um movimento que está crescendo nos últimos anos. São os desigrejados, ou os “sem-igreja”. Estes saíram da Igreja por focarem nos problemas institucionais, por terem sido machucados em alguma congregação e até mesmo por nutrir uma visão romântica (e deturpada) da igreja primitiva. Eles parecem não se dar conta de que uma igreja como a que havia em Corinto também faz parte deste período, e nem por isso estava isenta de problemas.

Não devemos deixar de congregar (Hb 10:25). Como disse o teólogo Michael Horton: “A igreja não é apenas para onde vão os discípulos; é o lugar onde são feitos os discípulos”. É na convivência com pessoas diferentes – e algumas delas até não cristãs, embora pareçam ser (lembre-se da parábola do joio e do trigo), que exercitamos a ética do reino: amando o próximo, servindo-o com nossos dons, perdoando quando somos ofendidos e confessando nossos pecados uns aos outros, na disposição de sermos mentoriados. Também é na igreja que recebemos os sacramentos (batismo e ceia) e a partir deles somos identificados como o povo da aliança, desfrutando da fidelidade do Senhor, estando debaixo de suas bênçãos pactuais.

E AS DENOMINAÇÕES?

Dando uma volta a pé ou de carro pela avenida de qualquer cidade grande no Brasil, veremos mais de uma igreja, algumas quase coladas umas às outras. E cada uma portando um nome diferente. A pergunta é: o denominacionalismo não fere a catolicidade da Igreja?

Em algum sentido, as muitas denominações demonstram mais divisão do que união, e isso deve ser lamentado. Pois, as explosões de novas igrejas surgiram de questões que são secundárias (isso entre os séculos XVII e XIX), e o espírito sectário fez com que o caminho mais fácil, queé a divisão ao invés da reconciliação, promovesse esta enxurrada de igrejas distintas. Mas não advoguemos o fim das denominações. Ao invés disso, vejamos como pode ser possível manter a unidade em meio desta miscelânea de igrejas que pensam diferente em algumas questões.

VISÍVEL E INVISÍVEL

A Igreja católica, que é una, geralmente é chamada de igreja invisível. Este termo reflete a questão de que somente Deus conhece aqueles que são seus e os mantém perseverantes até o dia final. Desta igreja há gente de toda língua, tribo e nação (Ap 5.9), todos arrebanhados por Cristo, ligados uns aos outros como membros de um só corpo. Veremos esta igreja, tal como ela é, apenas no Reino dos Céus, após a volta de Cristo que vem para julgar as nações, mas também buscar a sua amada igreja para estar com ele na eternidade.

Já o que chamamos de igreja visível é esta que vemos atuando na terra. As congregações locais e as várias denominações contêm pessoas que são verdadeiramente cristãs e outras não. Lembremos da advertência de Jesus ao dizer que "Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus” (Mt 7:21). Na parábola do trigo e do joio, ambos crescem juntos e serão separados apenas na colheita. Quando Jesus explica a parábola, vemos que a colheita refere-se ao dia do juízo final, assim, só neste evento que serão separados os verdadeiros dos falsos membros da Igreja.

Na presente era, a igreja será imperfeita e as pessoas vão se deparar com pessoas dentro dela que nem regeneradas são. E até mesmo os cristãos, ainda em processo de santificação irão falhar nas relações interpessoais. Mas lembremos que o laço que nos une vem do SENHOR. Por isso podemos superar as nossas diferenças e, mesmo com nossas particularidades, alcançamos a unidade por estarmos debaixo do mesmo pacto.

Engraçado é que olhando para a história, vemos que todo o grupo que se levantou contra as denominações acabou criando uma nova, logo, não é a abolição do denominacionalismo que vai nos garantir unidade, mas podemos nos aproximarmos cientes de que aquilo que nos une é maior do que o que nos separa. Batistas, Presbiterianos, Anglicanos, Congregacionais, Livres e outros podem somar esforços para promover os valores cristãos que são inegociáveis, evitando que questões secundárias sirvam de empecilho para trabalharmos juntos na promoção do Reino.

BASTA DE IGREJAS SEGMENTADAS

Outra frente de batalha para manter firme a catolicidade da Igreja de Cristo é evitar segmenta-la. Recentemente, influenciados pelo modelo de mercado, muitos líderes acabam desmembrando suas igrejas, focalizando determinados nichos para tentar alavancar o número de membros. Com isso surgiram diversas igrejas que focalizam os jovens e fazem com que a sua agenda gravite em torno de muito entretenimento para seduzir o seu público alvo. Outros segmentam o que já está segmentado, e daí temos a igreja dos surfistas, dos skatistas, dos universitários, dos tatuados, dos solteiros e etc.

A Igreja é a composição de velhos e novos, ricos e pobres, homens e mulheres, com tantas diferenças que se não fosse obra divina, seria impossível de se conviver. Todavia, é assim que Deus quer que nos ajuntemos para adorá-lo. Basta de igrejas segmentadas, sejamos unidos em meio as nossas peculiaridades.

UM POVO SANTO

Um dos papéis distintivos da Igreja nesse mundo é que ela remete a santidade de Deus. A Igreja é santa e esta santidade não é propriamente nossa. Assim como a luz que faz a lua brilhar vem do sol, somos santos porque o Deus que nos arregimentou é santo. Pedro nos diz, em carta:

Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. - 1 Pedro 2:9

Portanto, é necessário nos portarmos de maneira digna, como requer a nossa vocação para a santidade. A Igreja precisa manter a distinção do mundo e deve perseverar para manter-se pura em meio a uma geração corrompida. A santidade aqui não significa perfeição, ela é gradativa, embora, posicionalmente, já somos santos em Cristo, pois Ele nos santificou quando nos lavou com seu sangue na cruz.

Deus em sua infinita sabedoria, fez da Igreja o local ideal para o desenvolvimento de nossa santificação. Os meios de graça, que são a pregação da Palavra mais a administração dos sacramentos, nos santificam. E na administração destes meios, o nosso Sumo Pastor separou co-pastores para servir as suas ovelhas diligentemente. É dever destes pastores inculcar nos fiéis, pela pregação e pelo exemplo, o estilo de vida santificado. Daí a importância de fazer parte de uma igreja local, se submetendo a liderança que o próprio SENHOR instituiu para dar conta da disciplina na Igreja.

CONCLUSÃO

A Igreja é o Israel de Deus, seu povo santo, que não é mais uma etnia, como na antiga aliança. As fronteiras foram enlanguescidas e não há mais a distinção entre judeus e gentios, pois dos dois povos o Senhor fez um só rebanho (Ef 2.14).

Por sermos povo, não caiamos na tentação da individualidade. A igreja é como se fosse o ecossistema de Deus. É preciso uma relação de interdependência, de modo que todo cristão individualmente precisa estar inserido numa igreja local para desenvolver a sua fé. Assim como determinados seres não se reproduziriam se não houvesse os elementos que compõem o seu ecossistema, não há desenvolvimento de fé no cristão que se exclui - por vontade própria - do ajuntamento dos santos.

O reformador João Calvino costumava dizer que a Igreja é a mãe de todos os crentes, visto que pela Palavra de Deus, ela nos conduz ao novo nascimento, nos educando e nutrindo, através no ministério pastoral ordinário. A Igreja é a coluna da verdade (1 Tm 3.15), pois por meio de seu trabalho evangelístico no mundo, chegamos a conhecer a Cristo, verdadeiro Deus e salvador dos que nele depositam sua fé.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação
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O Evangelho de Satanás

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O evangelho de Satanás não é um sistema de princípios revolucionários, nem ainda é um programa de anarquia. Ele não promove a luta e a guerra, mas objetiva a paz e a unidade. Ele não busca colocar a mãe contra sua filha, nem o pai contra seu filho, mas busca nutrir o espírito de fraternidade, por meio do qual a raça humana deve ser considerada como uma grande "irmandade". Ele não procura deprimir o homem natural, mas aperfeiçoá-lo e erguê-lo. Ele advoga a educação e a cultura e apela para "o melhor que está em nosso interior" - Ele objetiva fazer deste mundo uma habitação tão confortável e apropriada, que a ausência de Cristo não seria sentida, e Deus não seria necessário. Ele se esforça para deixar o homem tão ocupado com este mundo, que não tem tempo ou disposição para pensar no mundo que está por vir. Ele propaga os princípios do auto-sacrifício, da caridade, e da boa-vontade, e nos ensina a viver para o bem dos outros, e a sermos gentis para com todos. Ele tem um forte apelo para a mente carnal, e é popular com as massas, porque deixa de lado o fato gravíssimo de que, por natureza, o homem é uma criatura caída, apartada da vida com Deus, e morta em ofensas e pecados, e que sua única esperança reside em nascer novamente. 

Contradizendo o Evangelho de Cristo, o evangelho de Satanás ensina a salvação pelas obras. Ele inculca a justificação diante de Deus em termos de méritos humanos. Sua frase sacramental é "Seja bom e faça o bem"; mas ele deixa de reconhecer que lá na carne não reside nenhuma boa coisa. Ele anuncia a salvação pelo caráter, o que inverte a ordem da Palavra de Deus - o caráter como fruto da salvação. São muitas as suas várias ramificações e organizações: Temperança, Movimentos de Restauração, Ligas Socialistas Cristãs, Sociedades de Cultura Ética, Congresso da Paz estão todos empenhados (talvez inconscientemente) em proclamar o evangelho de Satanás - a salvação pelas obras. O cartão da seguridade social substitui Cristo: pureza social substitui regeneração individual, e, política e filosofia substituem doutrina e santidade. A melhoria do velho homem é considerada mais prática que a criação de um novo homem em Cristo Jesus; enquanto a paz universal é buscada sem que haja a intervenção e o retorno do Príncipe da Paz.

Os apóstolos de Satanás não são taberneiros e traficantes de escravas brancas, mas são em sua maioria ministros do evangelho ordenados. Milhares dos que ocupam nossos modernos púlpitos não estão mais engajados em apresentar os fundamentos da Fé Cristã, mas têm se desviado da Verdade e têm dado ouvidos às fábulas. Ao invés de magnificar a enormidade do pecado e estabelecer suas eternas consequências, o minimizam ao declarar que o pecado é meramente ignorância ou ausência do bem. Ao invés de alertar seus ouvintes para "escapar da ira futura", fazem de Deus um mentiroso ao declarar que Ele é por demais amoroso e misericordioso para enviar quaisquer de Suas próprias criaturas ao tormento eterno. Ao invés de declarar que "sem derramamento de sangue não há remissão", eles meramente apresentam Cristo como o grande Exemplo e exortam seus ouvintes a "seguir os Seus passos". Deles é preciso que seja dito: "Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus" (Rm 10:3). A mensagem deles pode soar muito plausível e seu objetivo parece muito louvável, mas, ainda sobre eles nós lemos: "Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras" (2 Co 11:13-15).

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Autor: Arthur W. Pink (1886-1952)
Fonte: www.pbministries.org
Tradução: Pr. Walter Campelo
Via: Jornal Reforma Hoje, 2ª edição 2012, página 03.
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Ortodoxia & Ortopraxia

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Introdução:

No último artigo refletimos sobre a necessidade de piedade e um bom preparo para o Ministro da Palavra. O pastor/mestre é alguém santo e douto, santo porque é regenerado e chamado ao ministério sagrado e douto porque serve à Igreja de Deus por meio da Palavra no exercício da docência. Somente isso seria suficiente para que a prática ministerial se desenvolvesse “como Deus quer”, porém a influência do praticismo pietista e do pragmatismo moderno no protestantismo brasileiro exige uma reflexão sobre a ORTOPRAXIA.

Alimentando as ovelhas ou divertindo os bodes?

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Existe um mal entre os que professam pertencer aos arraiais de Cristo, um mal tão grosseiro em sua imprudência, que a maioria dos que possuem pouca visão espiritual dificilmente deixará de perceber. Durante as últimas décadas, esse mal tem se desenvolvido em proporções anormais. Tem agido como o fermento, até que toda a massa fique levedada. O diabo raramente criou algo mais perspicaz do que sugerir à igreja que sua missão consiste em prover entretenimento para as pessoas, tendo em vista ganhá-las para Cristo. A igreja abandonou a pregação ousada, como a dos puritanos; em seguida, ela gradualmente amenizou seu testemunho; depois, passou a aceitar e justificar as frivolidades que estavam em voga no mundo, e no passo seguinte, começou a tolerá-las em suas fronteiras; agora, a igreja as adotou sob o pretexto de ganhar as multidões.

Minha primeira contenção é esta: as Escrituras não afirmam, em nenhuma de suas passagens, que prover entretenimento para as pessoas é uma função da igreja. Se esta é uma obra cristã, por que o Senhor Jesus não falou sobre ela? “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15) — isso é bastante claro. Se Ele tivesse acrescentado: “E oferecei entretenimento para aqueles que não gostam do evangelho”, assim teria acontecido. No entanto, tais palavras não se encontram na Bíblia. Sequer ocorreram à mente do Senhor Jesus. E mais: “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11). Onde aparecem nesse versículo os que providenciariam entretenimento? O Espírito Santo silenciou a respeito deles. Os profetas foram perseguidos porque divertiam as pessoas ou porque recusavam-se a fazê-lo? Os concertos de música não têm um rol de mártires.

Novamente, prover entretenimento está em direto antagonismo ao ensino e à vida de Cristo e de seus apóstolos. Qual era a atitude da igreja em relação ao mundo? “Vós sois o sal”, não o “docinho”, algo que o mundo desprezará. Pungente e curta foi a afirmação de nosso Senhor: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos” (Lc 9.60). Ele estava falando com terrível seriedade!

Se Cristo houvesse introduzido mais elementos brilhantes e agradáveis em seu ministério, teria sido mais popular em seus resultados, porque seus ensinos eram perscrutadores. Não O vejo dizendo: “Pedro, vá atrás do povo e diga-lhe que teremos um culto diferente amanhã, algo atraente e breve, com pouca pregação. Teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que com certeza realizaremos esse tipo de culto. Vá logo, Pedro, temos de ganhar as pessoas de alguma maneira!”. Jesus teve compaixão dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca procurou diverti-los. Em vão, pesquisaremos as cartas do Novo Testamento a fim de encontrar qualquer indício de um evangelho de entretenimento. A mensagem das cartas é: “Retirai-vos, separai-vos e purificai-vos!”. Qualquer coisa que tinha a aparência de brincadeira evidentemente foi deixado fora das cartas. Os apóstolos tinham confiança irrestrita no evangelho e não utilizavam outros instrumentos. Depois que Pedro e João foram encarcerados por pregarem o evangelho, a igreja se reuniu para orar, mas não suplicaram: “Senhor, concede aos teus servos que, por meio do prudente e discriminado uso da recreação legítima, mostremos a essas pessoas quão felizes nós somos”. Eles não pararam de pregar a Cristo, por isso não tinham tempo para arranjar entretenimento para seus ouvintes. Espalhados por causa da perseguição, foram a muitos lugares pregando o evangelho. Eles “transtornaram o mundo”. Essa é a única diferença! Senhor, limpe a igreja de todo o lixo e baboseira que o diabo impôs sobre ela e traga-nos de volta aos métodos dos apóstolos.

Por último, a missão de prover entretenimento falha em conseguir os resultados desejados. Causa danos entre os novos convertidos. Permitam que falem os negligentes e zombadores, que foram alcançados por um evangelho parcial; que falem os cansados e oprimidos que buscaram paz através de um concerto musical. Levante-se e fale o alcoólatra para quem o entretenimento na forma de drama foi um elo no processo de sua conversão! A resposta é óbvia: a missão de prover entretenimento não produz convertidos verdadeiros. A necessidade atual para o ministro do evangelho é uma instrução bíblica fiel, bem como ardente espiritualidade; uma resulta da outra, assim como o fruto procede da raiz. A necessidade de nossa época é a doutrina bíblica, entendida e experimentada de tal modo, que produz devoção verdadeira no íntimo dos convertidos.

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Autor: Charles H. Spurgeon
Fonte: Monergismo
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Ministro da Palavra: Santo e Douto

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A Bíblia revela que há um conselho de líderes que são responsáveis pelo governo e o bom andamento espiritual do rebanho de Deus. Esse conselho é chamado de presbíteros, sempre no plural e com algumas características essenciais para a função (1Tm 5.17; Tt 1.7; 1 Pe 5.1-2; 1Tm 3.2; 2Tm 4.2; Tt 1.9; At 20.17, 28-31; Tg 5.14; At 15.16).

Dentre esses presbíteros há alguns que são chamados para se afadigarem na Palavra, seguindo mais de perto a decisão dos apóstolos e sucedendo o ministério apostólico como Ministros da Palavra (At 6.4; 1Tm 5.17). Normalmente esses presbíteros que ministram e ensinam são chamados de pastores, isso se deve ao fato de Efésios atribuir à docência aos pastores (Ef 4.11).

Por essas razões, o Pastor é mestre e um verdadeiro Ministro. Tem como sua principal função pregar e ensinar, tanto pela sã doutrina, como pelo exemplo de vida – na espiritualidade e piedade. Pensando nessas questões de piedade e docência é que lanço mão de dois deveres do Ministro: Ser irrepreensível e apto a ensinar (Tt 1.6; 1Tm 3.2). Por isso, o Ministro da Palavra (Pastor) precisa ser um homem santo[1] e douto[2] (culto), pois sem santidade não agrada a Deus e nem verá sua presença (Hb 12.14) e sem a Palavra conduzirá o povo a destruição e miséria espiritual (Pv 29.18; Os 4.6).

A História demonstra que o esforço para nomear ministros menos capacitados e com mais habilidade política e “prática” causou igrejas mais mundanizadas, secularizadas e acostumadas com modismos. A ênfase na prática em detrimento do conhecimento profundo tem produzido doutrinas controvertidas, heréticas e até práticas seitarias nos cultos públicos. Também vê-se que o predomínio de ministros leigos em algumas denominações promovem divisões sem fim e é a bandeira do movimento neopentecostal, com suas esquisitices.

A crise atual da Igreja no contexto religioso brasileiro é acima de tudo teológica/doutrinária, por isso, o que precisamos na verdade é de ministros do evangelho mais santos e doutos. Homens piedosos, que servem de joelhos com os olhos ao alto e ao mesmo tempo são conhecedores profundos das ciências bíblicas e gerais, verdadeiros teólogos; exercendo seu conhecimento na pregação das Escrituras, na visitação do rebanho, no auxílio aos necessitados e na defesa do evangelho que foi entregue aos santos.

Um Ministro não santo governa a igreja com libertinagem e escandaliza o evangelho do Senhor. Não se submete a ninguém e muito menos a disciplina, seu poder e domínio é absoluto e sua administração é déspota. Não segue a Escritura e se apega ao alegorismo e múltiplas interpretações para justificar seus demandos e libertinagem. É visível homens assim na atualidade, assim como era na Igreja Medieval. Um Ministro não douto (alguns se orgulham da prática) leva a igreja para inovações, sem reflexão e nem razão de ser. A quantidade de ministros aderindo ao neopentecostalismo ou ao movimento de crescimento de igreja é enorme; hoje é comum encontrar em igrejas e até mesmo de minha denominação práticas católicas, superstições, estruturas secularizadas, mensagens de auto-ajuda, interpretações relativizadas da Bíblia, entre outras coisas.

Quero dedicar algumas linhas para expor dois movimentos (modismos) que vem crescendo no Brasil e já entrou sorrateiramente em muitas igrejas históricas. O primeiro é profano e blasfemo, o chamado “Caminho da Graça”. Seu principal tema é a graça; fundado por um lunático que desdém das Escrituras e da Igreja de Cristo. Esse movimento é moralmente orientado pela inclusão e tolerância pós-modernas, rejeitam os ensinos da Bíblia sobre a Igreja e as doutrinas e super valorizam a informalidade (ex: o culto para eles é reunião de amigos ao redor da mesa, a pregação é conversa sobre qualquer coisa). Não vou gastar mais tempo com esse grupo, basta acessar sites e youtube para conhecê-los, é público.

Outro movimento é o chamado MDA (movimento de discipulado apostólico). No link a seguir você pode conferir a história e perceber que começou com novas visões do Espírito e não pela Bíblia, também há uma forte ênfase pragmática (a igreja tem que crescer) - https://www.youtube.com/watch?v=zVSv3wJ7DME. Os princípios de discipulado são bíblicos e acredito que devem ser considerados, os problemas estão nas práticas. Eu mesmo participei de uma conferência em São Paulo e me lembro bem das ênfases em restauração de todos os dons, curas, crescimento numérico, pregação temática e desejo de ser como a igreja primitiva.

Tenho em mãos um documento de uma igreja ligada ao MDA, onde diz que seus discipulandos devem “submissão total”. O ponto onde descrevem essa submissão é posterior a explicação do MDA, onde se afirma que o discipulado se desenvolve com o conceito de paternidade e na questão da submissão, o discipulando deve se submeter ao discipulador da mesma forma como a seus pais. Me lembro recentemente de visitar uma igreja ligada a esse movimento e um pastor auxiliar chamava o pastor presidente de “meu pai”.

Outra questão é que no ponto quatro do material dizem que o discipulando precisa “pensar igual ao discipulador”. É uma corrente de manipulação e subtraem a liberdade de consciência do indivíduo, fazendo acreditar que o movimento é de Deus e o único capaz de retornar a igreja nos moldes primitivos.

Recentemente conversei com um importante pastor batista que entrou e saiu deste movimento, ele me relatou: “Glauco, nós saímos porque percebi que nossas práticas mudaram muito e todas as igrejas de minha região que aderiram ao movimento se tornaram neopentecostais”. Se não bastasse, no mesmo documento citado acima, no ponto 5, pede-se ao discípulo “lealdade plena”. Conforme testemunhas que participaram do movimento “quem discordar das práticas desses grupos é considerado rebelde por seus líderes”.

Para esses movimentos de crescimento de igreja não há liberdade e a tradição deve ser rejeitada e colocada de lado. Concluo esse ponto com a fala de um pastor no culto público sobre sua tradição e denominação: “Eu quero que a convenção b... vá as favas, não quero nem saber, nossa igreja será como a igreja primitiva”. Um pastor me testemunhou que ouviu do mesmo líder: “Faço qualquer negócio para minha igreja crescer”. Lembro-me bem da febre “Igreja com Propósitos”, depois “Vineyard”, Willow Creek”, “MDA”, “Igreja Emergente” e qual será o próximo?

O Ministro santo e douto é importante porque todas as práticas estranhas ao Evangelho de Cristo ou são introduzidas pelo Ministro ou autorizadas por ele. Sendo assim, um Ministro não douto produz leigos ignorantes ao Evangelho, suscetíveis ao erro e uma igreja distante da vontade de Deus e sensível a todo vento de doutrinas e inovações sem fim. Meu apelo é que a Igreja Cristã Protestante invista e motive seus obreiros ordenados e leigos a uma vida piedosa e estudiosa das Escrituras e da teologia bíblica, sistemática e prática. O verdadeiro Ministro da Palavra busca a santidade e simplicidade, assim como busca ser um teólogo para o pastoreio, evangelização mundial e qualidade da sua igreja local.

Que o Deus da nossa vocação nos ajude para sua própria glória!

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Notas:
[1] Santo: Alguém separado para uma vida de piedade e de acordo com a vontade de Deus, separado do mundo.
[2] Douto: Alguém muito instruído, sábio, inteligente, estudioso e doutrinado

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Autor: Pr. Glauco Pereira
Fonte: Pastor Reformado
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A Metáfora do Cabelo Pintado

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Está na moda pintar os cabelos com cores diferentes da cor natural. É moda entre os adolescentes, entre as mulheres e principalmente, entre as pessoas da terceira idade. Os motivos que as levam a pintar são os mais diversos: contestação, necessidade de mudança, beleza estética, esconder a velhice dos cabelos brancos etc.

No ambiente evangélico, chama-nos a atenção o grande número de crentes que aderiram a moda de tingir os cabelos. Ironicamente, em metáfora e símile, os cabelos pintados artificialmente denotam a religião de teatro, isto é, aquela que se preocupa apenas com a aparência. Jesus Cristo, na época do seu ministério, ao combater esse tipo de religião, utilizou-se de uma metáfora semelhante: sepulcros caiados. Podemos, então afirmar que os cabelos pintados denotam a religião teatro ou o farisaísmo no novo milênio.

Quais os sinais da religião teatro? Quais os sinais que identificam os fariseus do novo milênio?

O primeiro sinal é o do discurso desligado do exemplo. Dizem e não fazem. Disse Jesus: "Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem". (Mt 23.3). Infelizmente, alguns que se acham grandes líderes na igreja, poderiam ser enquadrados nesta premissa: façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.

O segundo sinal é o das exigências legais somente para os outros. Legislam, mas não cumprem. Disse Jesus: "Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (Mt 23.4). É como disse um colega: Na igreja, para os amigos tudo, para os inimigos a lei. Os códigos e as leis religiosas são usadas parcialmente, conforme o interesse de quem legisla ou interpreta. Muitas injustiças são cometidas dentro da legalidade. 

O terceiro sinal é o da ostentação. Fazem para aparecer. Disse Jesus: "Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens" (Mt 23.5). A ostentação se manifesta através do exibicionismo, busca frenética pelos lugares de honra ou a luta política pela manutenção dos primeiros lugares, adoração pelo reconhecimento público (saudações) e paixão pelos títulos honoríficos. O marketing eclesiástico tem sido um instrumento poderoso na mão dos atores religiosos.

Na figura dos cabelos pintados temos a mudança apenas do exterior. Enquanto, o visual se apresenta novo, a raiz é velha. A partir dessa raiz antiga, dá-se a matiz que desejar. É a figura do líder espiritual que apresenta um discurso antigo com aparências de novo. E assim como se muda a coloração da tinta, esse líder muda o seu discurso conforme os seus interesses e espectadores. Eis os sepulcros caiados do novo milênio!

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Autor: Rev. Arival Dias Casimiro
Fonte: Resistindo a Secularização, SOCEP 2002. Págs. 46-47.
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Amados falsos mestres!

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Falsos mestres com uma língua comum – com heresias óbvias, não são os mais perigosos. O problema está no falso mestre que tem uma língua bifurcada. Ela é capaz de discursos díspares, já que mistura coisas que mostram “amor”, “interesse ao próximo”, “o social”... com os mais sutis e devastadores desvios. Em toda a história da igreja homens que propagaram heresias destruidoras eram amáveis... Os teólogos liberais sempre foram diligentes estudantes do espírito da época.

Mais que um espectador

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Eu amo ver futebol. Acredite ou não, isso é algo que me dá prazer. E antes que você goze de mim, lembre que bilhões de pessoas no mundo gostam também. Eu amo dizer ao técnico do meu time sobre as decisões erradas que ele está tomando. Eu amo compartilhar minha opinião com o juiz sobre suas habilidades de tomar decisões ou sua necessidade de ir ao oftalmologista o mais rápido possível. É muito difícil para mim ficar calado quando estou vendo meu time jogar. O único problema com isso tudo é que ninguém pode me ouvir. Bem, talvez meus vizinhos possam. Mas aqueles realmente envolvidos no jogo não conseguem. O técnico, os jogadores e o juiz não têm a menor ideia que existe um cara, a milhares de quilômetros de distância, gritando com eles por meio da tela da televisão.

Essa mentalidade de espectador é o que vemos muitas igrejas. Muitas pessoas aparecem pensando que a Igreja está lá para servi-las. Na verdade, se formos honestos, admitiremos que  todos nós pensamos assim naturalmente. Todos nós nascemos achando que o mundo existe por nossa causa. Muitos jovens pastores, como eu, realmente encorajam isso. Eles organizam a igreja para que ela pareça um show de rock, com um mini sermão ali no meio, que dificilmente durará mais que 20 minutos. A Bíblia é deixada de lado e o culto parece ter sido feito para que os não crentes se sentissem bem-vindos e confortáveis.

O autor de Hebreus pensava diferente. Ele estava convencido que ser parte da Igreja significa ser mais que um espectador. Na verdade, ele incentiva que todos os crentes sejam participantes ativos. Em Hebreus 10.24-25, nós achamos uma famosa passagem, a qual nós, usualmente, corremos para ela quando achamos alguém que se diz cristão, porém não frequenta a igreja. Apesar de ela ser, certamente, uma passagem que diz “não falte a igreja”, ela é muito mais. Em apenas dois versos curtos, nós temos cinco mandamentos, os quais podem mudar radicalmente o nosso domingo.

A primeira coisa que devemos fazer é nos PREPARAMOS para o domingo

Consideremos-nos…”

A palavra “considerar”, no verso 24, implica que nossa mente precisa estar engajada no domingo. Isso significa que nossas mentes precisam estar alertas. Isso significa que devemos estar em forma. Não acho que seja exagero dizer que nós não estaremos totalmente alertas no domingo de manhã, se não tivermos uma boa noite de sono. É por isso que dizem que o domingo de manhã começa no sábado à noite. Nós precisamos estar descansados. Não só para sermos bons ouvintes do sermão, mas porque estaremos mais alertas e dispostos a servir e a encorajar os outros. Isso implica que devemos estar preparados para a Igreja. Significa que nós não estamos lutando para que tudo esteja pronto na porta no domingo de manhã. Talvez deixar o almoço pronto, as roupas já escolhidas, as bíblias e computadores já no carro, no sábado à noite podem prevenir o drama de manhã. Outro aspecto chave é manter nossa mente pensando no Senhor e nos outros, em vez de pensar nas coisas mundanas. Fazer uma maratona na Netflix antes de ir para a igreja provavelmente não é uma boa escolha. Nós, provavelmente, iremos ficar pensando no que acontecerá com nossos personagens favoritos, em vez de pensarmos em como podemos servir nossos irmãos e irmãs.

Na palavra “considerar”, também está implicado o fato que não pensaremos no próximo naturalmente. Para isso, é preciso preparação. Precisamos nos lembrar de fazer isso. Devemos treinar nossas mentes a pensar sobre o próximo quando vamos à igreja. Isso significa em sobre como Deus pode nos usar. Enquanto estamos dirigindo para o culto, nós devemos pensar e nos relembrarmos de que estamos prestes a fazer algo muito importante. Talvez a coisa mais importante que devemos fazer. Devemos celebrar a ressurreição de Cristo, nos submeter à pregação da Palavra de Deus e participar do crescimento da igreja local. Você pensa em como você pode abençoar seus irmãos e irmãs, enquanto você se dirige à igreja?

Somos instruídos a constantemente PRATICAR o pensar sobre o próximo

consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras…”

O autor de Hebreus diz que devemos considerar como devemos estimular uns aos outros. A palavra “como” está carregada. Isso não é simplesmente aparecer na igreja e despejar o que aprendemos durante a semana em nosso tempo com o Senhor. É exatamente essa a consideração que nossos amigos precisam. Isso varia de pessoa para pessoa. Nós realmente devemos conhecer as pessoas ao nosso redor e saber como podemos encorajá-los. Quando o meu time de basquete no ensino médio se preparava para um jogo, nós assistíamos a um jogo gravado e tentávamos encontrar o ponto fraco dos outros times. Se eles eram muito rápidos, nós iríamos passar a bola para nossos jogadores altos. Se eles fossem altos, porém devagar, nós iríamos nos por em guarda e ditar o ritmo do jogo. Se eles fossem altos e rápidos, bem, aí seríamos esmagados. Mas você entendeu o ponto. Nós não tratávamos nossos oponentes da mesma forma. Muitas vezes, como cristãos, nós estamos tão focados em nós mesmos que não temos a menor ideia de como incentivar as pessoas em nossa volta à piedade. Tessalonicenses 5.14 capta essa ideia perfeitamente. Além de nos dizer que devemos ser pacientes sempre, ele também nos ensina a tratarmos as pessoas de maneira diferente, baseados em suas necessidades. Nós devemos estar ativamente estudando e cuidado das pessoas ao nosso redor, para que possamos cuidar apropriadamente de suas almas.

Devemos buscar uns aos outros

consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras…”

A palavra “estimular” é normalmente usada no negativo. É algo provocativo. É desafiar alguém a ir a algum lugar onde ele, naturalmente, não quer ir. Na carne, naturalmente nós não fazemos boas obras. Somos todos propensos a vaguear. Nós precisamos procurar uns aos outros e nos incentivarmos a sermos piedosos. Por conta própria, você pode aprender mais sobre Deus, você pode crescer em seu amor por Deus, mas, ao mesmo tempo, você precisa perceber que você não consegue ver tudo sozinho. Todos nós tempos pontos cego. É por isso que ser monge não funciona. Para crescermos na vida cristã, você não deve só gastar tempo com o Senhor, mas, também, estar envolto por crentes. Você precisa deles. E adivinha? Eles precisam de você! Eles precisam que você esteja em forma. Se estamos abrigando pecados em nossas vidas, mesmo em nossas vidas privadas, então, definitivamente, não estamos crescendo em nossa caminhada. E se não estamos crescendo em nossa caminhada, nós não seremos capazes de estimular  o nosso próximo a terem boas obras. Além disso, abrigar pecados faz com que sejamos egoístas e diminuamos as chances de nos apresentarmos prontos para nos reunirmos e servimos uns aos outros.

Somos ordenados a priorizar o encontro

Não deixemos de congregar-nos, como é de costume de alguns…”

Claro, nada disso importa, a não ser que saiamos de nossas camas para irmos à igreja. E parece que a igreja primitiva também lutava com isso. Mas, diferentemente de nós, o impedimento deles não era por besteira, mas por perseguição. Hebreus 10.33-34 nos diz que as pessoas a quem o autor estava escrevendo estavam sofrendo sérias perseguições. Alguns perderam suas casas, outros, a vida. Então a tentação de ficar em casa era algo muito forte. Ainda assim, com esse cenário, o autor de Hebreus os alerta para que não deixem de se congregar. A despeito do fato de estarem sofrendo sérias perseguições, eles eram menos propensos a faltarem a igreja do que a maioria dos americanos! Isso é incompreensível. Devemos lutar por nosso tempo com nossos irmãos e irmãs. É uma loucura faltar a igreja. Você tem um pastor que passou várias horas estudando a passagem da Escritura com o propósito de fazer você mais piedoso! E, espero, você possui vários irmãos indo à igreja considerando as formas pelas quais eles podem estimulá-lo e encorajá-lo a amar e obedecer mais a Cristo! Onde você prefere estar?

Somos chamados a ajudarmos uns aos outros

antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima

É muito interessante como o autor conclui com um chamado a encorajarmos uns aos outros. A palavra “incentivar” não deixa de lado a verdade. Mas ao falar a verdade, faça com mansidão, lembrando-vos uns aos outros sobre as promessas de Deus. É fascinante notar que isso deve crescer com o passar dos dias. É interessante que em Hebreus 10.25 ele conecta isso com a segunda vida. A cada dia que estamos mais perto do dia do retorno do Senhor, devemos crescer no nosso encorajamento mútuo.  O mundo está ficando cada vez mais hostil ao evangelho. A igreja deve ser um oásis para o crente. E nós devemos passar nosso tempo estimulando e exortando uns aos outros a buscarmos Cristo. É interessante como, além de sermos menos propensos a irmos à igreja que os cristãos primitivos, apesar de sofremos menos perseguições, somos menos propensos a pensarmos na volta do Senhor, apesar de estarmos 2 mil anos mais perto disso acontecer. Toda manhã que acordamos, não estamos apenas mais um dia perto de nossa morte, mas, também, estamos um dia mais perto da volta de Cristo.

O autor de Hebreus acredita que pensamos mais no próximo quando vamos à igreja. Ele acredita que se formos fiéis em nossa preparação, prática, busca, priorização e ajuda mútua, seremos fiéis a Cristo e participantes ativos no que Cristo tem feito por meio das igrejas locais de todos os lugares.

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Autor: Jordan Standridge
Fonte: The Cripplegate
Tradução: Victor Bimbato
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Somos uma igreja reformada

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O que é ser um cristão reformado? Talvez, essa definição não seja tão fácil devido à forma tão elástica como alguns desejam dar à identidade reformada.[1] A fim de apresentarmos quem somos não é suficiente apenas descrevermos que historicamente descendemos da Reforma do século XVI. A genealogia da família reformada teve vários desdobramentos, alguns deles se apostataram da teologia reformada, mas Deus preservou uma linhagem fiel. Para provarmos a nossa identidade reformada precisamos justificar o nosso vínculo com o pensamento calvinista original.[2] Creio que podemos aceitar a definição de Joel R. Beeke em dizer que “ser reformado significa enfatizar o abrangente, soberano e amoroso senhorio de Deus sobre todas as coisas: cada área da criação, todos os esforços das criaturas e cada aspecto da vida do crente”.[3] Como cristãos reformados cremos que o nosso Deus criou tudo o que existe, governa todos os eventos pela sua providência, realiza eficazmente a salvação, e conduz tudo para o cumprimento do seu eterno propósito, de modo, que nada foge ao seu absoluto controle. Por isso, todas as demais doutrinas estão centradas em Deus.

O cristão reformado é alguém que vive sob a influência de que a Escritura é a sua única fonte e norma de fé e prática. H. Henry Meeter observa que

o calvinista sustenta que a autoridade da Bíblia é absoluta. Não considera a Bíblia simplesmente como um livro de bons conselhos que o homem pode adotar livremente, se assim o considera conveniente, ou rejeitar se assim lhe parece mais oportuno. A Bíblia é para o calvinista uma norma absoluta à que deve submeter-se totalmente. A Bíblia lhe dita o que deve crer e o que deve fazer; fala com força imperativa. Calvino era muito enfático neste ponto. Se a Bíblia fala, somente há uma alternativa: obedecer.[4]

O cristão reformado não é alguém que cegamente se submete a liderança de homens, instituições ou a movimentos. A sua submissão é ao Senhor Deus que revelou a sua vontade na Escritura Sagrada. Ele somente é sujeito a qualquer autoridade, desde que ela esteja de acordo com a Palavra de Deus. Alguns princípios norteiam o cristão calvinista em relação a Deus, ao próximo e a sua percepção da realidade ao derredor:[5]

  1. Ele mantém uma mentalidade teocêntrica.
  2. Possui um estado de espírito de contrição e de dependência.
  3. É movido por um coração grato dominado pelo contentamento.
  4. Suporta todas as coisas com uma vontade submissa.
  5. Persevera na santidade pela obediência da lei moral.
  6. Visa o propósito de glorificarmos a Deus em todas as esferas da sua vida.

É sempre relevante instruir que somos cristãos reformados e não meros evangélicos. Em meio à atual confusão, bem como as tendências pluralistas e inclusivas do evangelicalismo, precisamos nos distinguir. Vivemos um momento crítico de impureza doutrinária, e vemos ensinos nocivos se infiltrando até nas igrejas de origem reformada. Embora descrevendo o contexto das igrejas evangélicas nos EUA, James M. Boice e Philip G. Ryken diagnosticaram o que também parece ser a tendência do evangelicalismo brasileiro. Mas, infelizmente esta parece ser uma situação que começa a ser a realidade de algumas igrejas presbiterianas no Brasil. Eles denunciaram que

o que uma vez foi falado das igrejas liberais precisa ser dito das igrejas evangélicas: elas buscam a sabedoria do mundo, creem na teologia do mundo, seguem a agenda do mundo, e adotam os métodos do mundo. De acordo com os padrões da sabedoria mundana, a Bíblia torna-se incapaz de alimentar as exigências da vida nestes tempos pós-modernos. Por si mesma, a Palavra de Deus seria insuficiente de alcançar pessoas para Cristo, promover crescimento espiritual, prover um guia prático, ou transformar a sociedade. Deste modo, igrejas acrescentam ao simples ensino da Escritura algum tipo de entretenimento, grupo de terapia, ativismo político, sinais e maravilhosas – ou, qualquer promessa apelando aos consumidores religiosos. De acordo com a teologia do mundo, pecado é meramente uma disfunção e salvação significa desfrutar de uma melhor autoestima. Quando esta teologia adentra a igreja, ela coloca dificuldades em doutrinas essenciais como a propiciação da ira de Deus, substituindo-a por técnicas e práticas de auto-aceitação. A agenda do mundo é a felicidade pessoal, assim, o evangelho é apresentado como um plano para a realização pessoal, em vez de ser a caminhada de um comprometido discipulado. Para terminar, vemos que os métodos do mundo nesta agenda egocêntrica são necessariamente pragmáticos, sendo que as igrejas evangélicas estão se esforçando a todo o custo em refletir o modo como elas operam. Este mundanismo tem produzido o “novo pragmatismo” evangélico.[6]

Somos evangélicos no sentido de crermos no evangelho, todavia, preferimos não ser identificados no uso comum do termo. E, isto pelo simples motivo: para que não sejamos confundidos com esta tendência de desvio do antigo evangelho de Jesus. Os cultos de muitas igrejas evangélicas estão cheios de elementos estranhos, práticas místicas que se assemelham às seitas espíritas, doutrinas de homens e uma ausência da fiel exposição da Escritura, da correta ministração da ceia do Senhor, bem como da zelosa aplicação da disciplina bíblica. Essas comunidades por causa de sua infidelidade ao ensino da Escritura estão se tornando cada vez menos puras.


Mas, por que conhecer a própria identidade? Transcrevo aqui o sábio conselho de Beeke em que ele adverte que

se não conhecermos nossa herança reformada, a ignorância levará à indiferença, e a indiferença ao abandono. Aconselho-o a que estude o pensamento reformado. Mergulhe nos escritos de calvinistas firmes e renomados. [...] Se não apreciarmos a nossa herança reformada, a nossa fé perderá a autenticidade. Ninguém sentirá interesse pelo calvinismo, porque nos faltará paz, alegria e humildade verdadeiras. E, se não vivermos nossa herança reformada, não seremos sal na terra. Quando o sal perde a sua salinidade, não presta para nada, exceto para ser lançado fora e ser pisado pelos homens (Mt 5:13).[7]

Quando vivemos a tradição reformada honramos os milhares de servos que Deus usou para forjá-la. Não adoramos a tradição em si, mas cremos que ela é útil para identificar as nossas origens. Ela tem o papel de preservar a herança que recebemos dos reformadores. Quando subscrevemos estes documentos estendemos a nossa destra para irmãos de diferentes períodos e países que viveram pela fé reformada, e ao lado deles glorificamos ao soberano Deus.


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Notas:
[1] Por exemplo, refiro-me ao que fez John Leith agregando à tradição reformada homens e mulheres, bem como denominações e movimentos doutrinários bem pluralistas que negam a nossa tradição confessional reformada. Veja John Leith, A tradição reformada – uma maneira de ser a comunidade cristã (São Paulo, Associação Evangélica Literária Pendão Real, 1996).
[2] Holmes Rolston III afirmou um afastamento de Calvino e os teólogos de Westminster dizendo que “inovações teológicas eram a obra de seus sucessores” in: John Calvin versus the Westminster Confession (1972), p. 23 citado por Paul Helm, “Calvin and the Covenant: Unity and Continuity” in: The Evangelical Quarterly, p. 66. Entretanto, o que Joel R. Beeke declarou acerca da doutrina da segurança da salvação, também podemos concluir das demais áreas teológicas, que a diferença entre Calvino e o calvinistas posteriores, especialmente os teólogos de Westminster, em relação ao desdobramento teológico da teologia reformada é quantitativamente além, mas não qualitativamente contraditória às de Calvino. Veja Joel R. Beeke, A Busca da Plena Segurança – O Legado de Calvino e Seus Sucessores (São Paulo, Editora Os Puritanos, 1999), pp. 19-20.
[3] Joel R. Beeke, Vivendo para a glória de Deus – uma introdução à fé reformada (São José dos Campos, Editora Fiel, 2010), p. 57.
[4] H. Henry Meeter, The basic ideas of Calvinism (Grand Rapids, Baker Books, 6a.ed. rev., 1990), p. 28.
[5] Adaptado de James M. Boice & Philip G. Ryken, The doctrines of grace – rediscovering the evangelical gospel (Wheaton, Crossway Books, 2002), pp. 179-199.
[6] James M. Boice & Philip G. Ryken, The doctrines of grace – rediscovering the evangelical gospel, pp. 20-21.
[7] Joel R. Beeke, “Prefácio” in: Vivendo para a glória de Deus – uma introdução à fé reformada, p. 16.

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Autor: Rev. Ewerton B. Tokashiki
Fonte: Estudantes de Teologia
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