A cultura “cult”, o relativismo e a igreja

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Por Pedro Franco


No texto anterior falei sobre o crente insensível ao pecado que habita em abundância nossas igrejas. Agora, no segundo texto da série, desejo falar sobre o o crente “cult” à luz de Ap. 2.1-7. 

Antes de tudo, creio ser importante deixar claro o que quero dizer por crente “cult”. Uso esse termo para definir aquela pessoa que, para “ficar bem com todo mundo”, relativiza a verdade. O meu objetivo é mostrar que a origem desse pensamento está no coração do homem, mostrar o quanto o relativismo é destrutivo para a igreja e sociedade e apresentar uma sugestão de como podemos combate-lo. 

Contexto histórico

O texto que veremos hoje é uma carta de Cristo à igreja em Éfeso. Considero relevante apresentar um pouco do contexto histórico da cidade e igreja para que tenhamos uma melhor compreensão da passagem. 

Segundo o Rev. Hernandes Dias Lopes¹ a cidade de Éfeso era a maior, mais rica e importante cidade da Ásia Menor. Lá havia um teatro com capacidade para mais de 24 mil pessoas, o mais importante porto turístico da região e o templo da deusa Diana (ou Ártemis), que era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Éfeso era, portanto, uma cidade grande e muito importante. Porém, o Rev. Hernandes também acrescenta que ela era uma cidade imoral, mística, cheia de superstição e idolatria.

A igreja de Éfeso, por sua vez, era diferente. Os crentes se mantiveram puros na doutrina apostólica, não cedendo às diversas falsas mensagens que surgiam na época, em especial o ensino herético dos Nicolaítas.

Até mesmo por conta da discrepância entre a cultura da cidade, extremamente idólatra, e a cultura da igreja, essencialmente cristã, os crentes sofriam perseguição. Todavia, como o próprio Cristo ressalta, a igreja se mantinha fiel à doutrina e, por consequência, mantinha uma moral cristã.

Análise bíblica

Ao anjo da igreja em Éfeso escreva: Estas são as palavras daquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro. Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores. Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido. Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do seu lugar. Mas há uma coisa a seu favor: você odeia as práticas dos nicolaítas, como eu também as odeio. Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.” Apocalipse 2:1-7 (NVI).

Agora que já vimos um pouco do contexto histórico podemos entender o texto com maior facilidade. Como em todas as demais cartas, Cristo se apresenta e afirma que Ele conhece as obras da igreja. Todavia, diferentemente do que acontece na carta à Laodicéia, Cristo faz alguns elogios. Ele elogia a perseverança, as obras e o trabalho árduo da igreja que, como mencionei acima, sofria diversos ataques no campo doutrinário e moral, mas se mantinha firme. 

O elogio à firmeza doutrinária e ao trabalho árduo me leva a um paralelo entre a igreja de Éfeso e as igrejas históricas brasileiras. Em primeiro lugar, a doutrina histórica é mantida, mesmo sob constantes ataques. É verdade que já evidenciamos uma considerável perda nesse quesito, mas, no geral, o escopo doutrinário ainda resiste. Além disso, o trabalho assistencial da igreja é mantido, muito por conta de sua organização que permite o sustento de asilos, orfanatos, hospitais, escolas e etc. Assim, ela consegue ser relevante no campo moral e social da sociedade, papel que exerce há anos. 

Porém, se tem observado nos últimos anos um déficit no conhecimento bíblico dos crentes dessas igrejas. Aos poucos a Bíblia foi sendo largada de lado para dar lugar a “estratégias” de gestão que visavam solucionar o problema da falta de crescimento delas. Programações “atrativas” precisaram ser pensadas para as diferentes faixas etárias, a pregação bíblica histórica foi sendo levemente substituída pelo mundo paralelo da teologia carismática e a escola bíblica dominical, que para mim deve ser uma prioridade em qualquer igreja, foi constantemente reduzida e, em alguns casos, até mesmo eliminada. Isso tudo resultou na atração de pessoas que estavam mais interessadas nas coisas que podem obter de Deus do que no próprio Deus em si. Elas iam à igreja porque a programação era “legal”, porque a pregação não era “muito pesada” e porque muitas vezes era pregado somente o que o povo queria ouvir e não aquilo que ele tinha de ouvir.

Retornando a Éfeso vemos que apesar dos elogios, Cristo deixa uma crítica. Segundo ele a igreja abandonara “o seu primeiro amor” e, por conta disso, precisaria se arrepender e se converter. Há quem diga que essa expressão se refira ao amor sacrificial entre os santos e quem defenda que ela se refira à relação entre a igreja e Cristo. Seja como for, identifico aqui um problema no coração da igreja, i.e., um problema no mais íntimo recanto do homem, no seu interior. É como se o desejo de agradar a Deus com suas ações, dedicar suas vidas a Ele, o buscar em oração e se deleitar na sua palavra estivesse aos poucos perdendo espaço no coração dos crentes de Éfeso.

Essa crítica é relevante para nós hoje porque eu acredito que a igreja brasileira tem vivenciado o mesmo problema e a evidência disso é a busca de soluções humanas, como citei acima, para corrigir um problema espiritual, a falta de crescimento. Ao invés de se arrepender e voltar ao “ponto de onde parou”, ela abraçou a ideia de que o evangelho por si só não era mais suficiente e, por isso, estratégias de marketing deveriam tomar o seu lugar. Abandonou-se a concepção de que o verdadeiro mover do Espírito de Deus se dá por meio da pregação do Cristo crucificado, do ensino da palavra e da transformação real de vidas. Aparentemente, pregar a respeito do Cristo e da verdade da cruz perdeu o seu efeito e Deus precisou de um “empurrãozinho” humano, uma adaptação da verdade para os dias de hoje para que as igrejas voltassem a ficar cheias. Mas, se estava pensando em igrejas cheias de gente e não cheias do Espírito; se estava idolatrando um crescimento numérico ao invés de haver preocupação com o crescimento espiritual. Como consequência tivemos um crescimento numérico inicial acompanhado de uma devastação no campo espiritual, doutrinário e moral. 

Vemos, portanto, que a relativização da verdade bíblica visando o enchimento numérico das igrejas é um sintoma do problema no coração da igreja. Na verdade, o abandono do “primeiro amor” e o abandono da doutrina bíblica geralmente caminham lado a lado. E quando se entra por esse caminho, a menos que Deus intervenha, um futuro sombrio é aguardado.

Ao olhar para a carta de Éfeso vejo Cristo preocupado com o futuro da igreja porque ele enxergava o problema em seu coração, que, eventualmente, levaria a problemas maiores. É como se esse fosse o aviso: “vocês ainda conservam a doutrina e resistem a cultura idólatra que bate incessantemente as suas portas. Todavia o seu coração está afetado, vocês abandonaram o seu primeiro amor. E isso pode os levar a uma relativização doutrinaria e, por fim, a uma relativização moral de maneira que tanto a virtude de se conservar fiel à doutrina apostólica quanto a virtude de resistir à cultura idólatra se perderão”. 

Vimos, então, como o problema no coração afeta a igreja, mas qual é a relação disso com a sociedade? Bom, é importante lembrar que há uma relação entre o coração do homem, o conhecimento bíblico e a sua cultura, i.e., a forma como o homem interage com o mundo secular. Há quem diga que o cristão deva viver completamente isolado da sociedade ou que exista uma separação entre o lado cristão e o lado cidadão do indivíduo. Eu, entretanto, tenho imensa dificuldade em separar a santidade cristã das demais esferas da vida. Para mim o cristão que ora, lê a Bíblia e é transformado pelo Espírito Santo diariamente influenciará todos ao seu redor, não somente a sua igreja. Para mim não é possível que alguém busque a santidade e não evidencie igualmente os frutos na igreja, no trabalho, no casamento e nas atividades sociais. Não acho possível separar um indivíduo em dois: um que seja santo para os assuntos relacionados à religião e outro que seja carnal para os assuntos seculares. O indivíduo é um só e, se ele é santo, ele é santo nas duas esferas. Henry Van Til defende que na visão calvinista o homem não pode distanciar o seu chamado para ser santo (1 Pe 1.14-16) do seu chamado para governar a terra (Gn 1.27-30).² A famosa frase de A. Kuyper apresenta esse conceito de forma brilhante: “Não há nem um centímetro em toda a área da existência humana da qual Cristo, o soberano de tudo, não proclame: ‘Isso é meu’”. Em outras palavras, a nossa santidade nos influencia como um todo e, por isso, naturalmente deve influenciar a maneira que nos relacionamos com o mundo secular, a nossa cultura.

Então, quando olhamos para a cultura brasileira, recheada de imoralidade, chegamos a conclusão de que a maioria de seus constituintes não pode ser cristã. O paradoxo é que as “igrejas evangélicas” se multiplicam país a fora e já vi duas ou três pesquisas afirmando que em pouco tempo a nação brasileira terá maioria cristã. Como assim “maioria cristã”? Há algo de errado nisso e, a meu ver, o que resolve essa equação são os crentes “cult”, frutos do problema no coração da igreja. 

A presença deles em nosso meio é para mim um sinal de que a igreja nacional está num estágio mais avançado do que a igreja de Éfeso, no que se refere a “abandonar o seu primeiro amor”. É compreensível que os indivíduos carnais apresentem o tal problema no coração, mas quando isso chega dentro da igreja é um sinal de que estamos em maus lençóis. Por exemplo, temos no meio cristão pessoas que defendem o sexo livre, o aborto, o comunismo, o uso de drogas, a completa destituição da autoridade paternal, a destruição da família e o relacionamento homossexual. Todas essas pautas são claramente anti-bíblicas e, por lógica simples, não faz sentido um cristão defende-las, a menos que haja algum problema no coração e/ou no ensino doutrinário da igreja (como vimos esses dois caminham lado a lado).

Para compreendermos melhor esse problema, precisamos olhar para a forma como vemos o mundo, a nossa cosmovisão. A cultura ocidental hoje não tem mais uma cosmovisão cristã. Pelo contrário, ela enxerga o mundo sob a ótica da completa inexistência de uma verdade objetiva no universo, o que John Piper define como Relativismo. Segundo ele a essência do pensamento relativista é que nenhum padrão de verdadeiro e falso, certo e errado, bom e mau, ou belo e feio pode ser válido para todos.³ E isso, obviamente, afasta completamente a ideia de que Deus é a verdade objetiva do universo, que podemos conhecer sua vontade santa através de sua palavra e que sua vontade deve ser o padrão de nossas vidas, inclusive na moral. É por isso que nos dias de hoje ideias como “cada um tem a sua verdade” são tão fortes a ponto de fazer alguém que defenda que “a tua Palavra é a verdade” (Jo 17.17) ser visto como totalitário, fundamentalista religioso ou fascista.

Eu sei que fui bem longe nesse texto, então, me permita resumir o que disse até aqui. Minha afirmação é que nós enfrentamos tantos problemas morais no Brasil porque há um problema no coração, i.e., no cerne, na raiz da sociedade e da igreja. Esse problema afeta a nossa cultura, i.e., a maneira como interagimos com o mundo secular. Agora vem o agravante: buscamos abraçar o máximo possível o relativismo para fugirmos do confronto e das acusações. Com medo de afirmar que a palavra de Deus é a verdade, que nos guiamos por ela e que ela se opõe às demandas mundanas nós nos tornamos “cult” e relativizamos a Palavra. Preferimos agradar a todos ao invés de agradar a Deus.

Por isso, concluo essa análise dizendo que o pensamento do crente “cult”, que deseja ser bem-visto por todos e para isso negocia fácil e abertamente a verdade, é um mal, fruto de um problema no coração da igreja, que precisa ser combatido com urgência. Precisamos abandonar o relativismo e novamente reconhecer que somos santificados pela palavra de Deus que é A verdade (Jo 17.17). Mas para isso é preciso que voltemos ao primeiro amor, que nos lembremos de onde caímos, nos arrependamos e voltemos a praticar as primeiras obras.

Aplicação e Conclusão

Mas como podemos fazer isso? Em primeiro lugar é preciso ter em mente que essa ação não é nossa, mas do Espírito de Deus. É ele quem nos convence do nosso pecado e quem nos guia no processo de santificação. Entretanto, isso não significa que não possamos fazer alguma coisa. A nossa parte é criar uma disciplina de oração e leitura bíblica. Se assim fizermos podemos confiar que Deus cumprirá a promessa de nos dar um só coração e um só caminho para que o temamos (Jr 32.39). 

Entrando, em termos práticos, deixo algumas sugestões para te ajudar a fazer isso: em primeiro lugar, tenha sempre um lápis e um caderno de anotações com você quando for estudar a Bíblia. Faça a interpretação do texto, escrevendo o que você entendeu da passagem e, ao final, escrevendo como ela se aplica a sua vida. Em segundo lugar, não foque na leitura de somente um dos testamentos. O que para mim funciona melhor é alternar as leituras entre o novo e o antigo testamentos. Em terceiro lugar, adquira materiais de apoio como Bíblias de estudo, por exemplo a Bíblia de Genebra; livros devocionais, por exemplo a série lançado pelo Rev. John Stott nos anos 90; e comentários sobre livros específicos da Bíblia, como os famosos comentários de João Calvino. Em quarto lugar, priorize a qualidade ao invés da quantidade. Evite aqueles programinhas de ler a Bíblia inteira em 3 ou 6 meses, pois é muito melhor que você leve 2 anos, mas absorva o conteúdo e seja transformado por ele do que ler a Bíblia rápido e não entender nada. Em quinto lugar, tenha uma vida de oração regular e peça a Deus para te ajudar a combater o relativismo.

Por fim, há mais uma coisa que você pode fazer para deixar de ser um crente “cult”. E é bem simples: não tenha medo de defender os valores cristãos; não se preocupe em agradar as pessoas ao seu redor, mas se preocupe em agradar tão somente a Deus. Ainda, se você se deparar com um crente “cult” não permita que o relativismo dele seja ouvido sozinho. Apresente a verdade objetiva da Bíblia e faça a sua parte. Precisamos voltar ao evangelho e pedir a Deus que solucione o problema de nossos corações, mas precisamos também fazer o nosso papel e batalhar contra o relativismo que tenta se apossar da igreja.

Que Deus nos abençoe! 

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Referências

1. Hernandes Dias Lopes. Ouça o que o Espírito diz às igrejas, 2010. Editora Hagnos.
2. Henry R. Van Til. O conceito calvinista de cultura, 2010. Editora Cultura Cristã.
3. John Piper. Think. The life of the mind and the love of God, 2010. Editora Inter-varsity press.

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Sobre o autor: Pedro Franco, 23 anos, é estudante de farmácia pela UFRJ e diácono na Igreja Presbiteriana Adonai (RJ).

Divulgação: Bereianos
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O que Cristo diz sobre a apatia da igreja?

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Por Pedro Franco


As cartas dirigidas as sete igrejas da Ásia (Ap 2.1 – 3.22) contém ensinamentos valiosíssimos para a igreja brasileira, sobretudo no atual momento. Acredito ser possível estudar especificamente as cartas à Laodicéia, Éfeso e Esmirna e aplicar o conteúdo central da mensagem numa análise dos três tipos de “crentes” que temos hoje, a saber: o crente insensível ao pecado; o crente “cult”; e o crente fiel e verdadeiro. O meu objetivo neste primeiro texto é olhar para a carta à igreja de Laodicéia (Ap 3.14-22) e fazer um paralelo com o crente insensível ao pecado que povoa em abundância nossas igrejas.

Contexto histórico

Em seu livro “Ouça o que o Espírito diz às igrejas” [1] o Rev. Hernandes Dias Lopes comenta que Laodicéia era uma cidade importante por ficar no meio de importantes rotas comerciais da época. Segundo ele, era ainda uma cidade rica e soberba. Um exemplo em especial nos ajuda a ter dimensão de sua riqueza. Em 61 d.C. ela foi devastada por um terremoto, mas foi inteiramente reconstruída pela população, sem a ajuda do imperador. Imagine, por exemplo, que uma cidade seja inteiramente destruída por um terremoto como o que recentemente afetou o Nepal e consiga se reerguer sem nenhuma ajuda do governo nacional ou de agentes internacionais; somente por sua riqueza. Seria um feito considerável, não? Aliás, isso nos ajuda a compreender uma característica do povo da cidade. Era uma nação que se orgulhava demais de sua própria capacidade e riqueza. 

Além disso, o Rev. Hernandes nos conta que lá se produzia uma espécie de lã especial que era mundialmente famosa e dois unguentos para ouvidos e olhos que eram quase milagrosos e contribuíam para Laodicéia ser vista como um centro médico importante. Em suma, a cidade era muito importante e famosa cuja população era bastante rica e capaz.

Todavia, a grande frustração da cidade eram suas águas. Laodicéia ficava entre Colossos e Hierápolis. Colossos possuía águas frias e Hierápolis, águas quentes. Ambas eram terapêuticas, mas as águas mornas de Laodicéia eram intragáveis. 

Análise bíblica

Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas são as palavras do Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o soberano da criação de Deus. Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca. Você diz: Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e que está nu. Dou-lhe este aconselho: Compre de mim ouro refinado no fogo e você se tornará rico; compre roupas brancas e vista-se para cobrir a sua vergonhosa nudez; e compre colírio para ungir os seus olhos e poder enxergar. Repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se. Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo. Ao vencedor darei o direito de sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e sentei-me com meu Pai em seu trono. Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas.” Apocalipse 3:14-22 (NVI).

Tendo entendido o contexto histórico podemos fazer agora uma análise bíblica mais assertiva. Inicialmente Cristo se apresenta e demonstra que Ele está presente na comunhão dos crentes ao afirmar que conhece as obras da igreja. Como profundo conhecedor o diagnóstico que Cristo faz é preciso e tenebroso. Fazendo menção às águas terapêuticas ele diz à igreja que ela era tão insossa e inútil quanto as águas de sua cidade. A água fria de Colossos servia para  trazer refrigério ao cansado e a quente de Hierápolis, para trazer cura ao doente. Todavia, as águas mornas de Laodicéia não serviam para nada – assim como a própria igreja. 

Então, Cristo faz a crítica de maneira bem direta. A igreja achava que tudo estava bem, que ela tinha tudo de que necessitava, que era rica e abastada. Mas Ele afirma que ela estava cega e, por conta disso, não conseguia enxergar a própria condição. Paulo descreve essa cegueira espiritual em 1Co 2.14 ao dizer que quem não tem o Espírito não consegue discernir as coisas espirituais, pois elas “lhes são loucura” e em 2Co 4.3-4 ao dizer que o pecado cega o entendimento dos incrédulos para que eles não possam ver “a luz do evangelho da glória de Cristo”. É como o perverso citado nos provérbios que caminha orgulhoso para um abismo “sem se dar conta” de que está em um caminho de morte (Pv 9.16-18; 10. 14,16, 23-25). No caso de Laodicéia não era diferente. A igreja estava muito mal. Pela severidade da crítica de Cristo, enxergo um cenário onde não havia diferença entre a moral da igreja e dos demais cidadãos da cidade e onde não havia preocupação pessoal em combater pecados. Pelo contrário, a igreja estava completamente insensível a eles, achando que tudo caminhava muito bem.

Na minha limitada imaginação, penso que tal igreja era somente um local onde todos se reuniam eventualmente. Era um clube social como muitos que temos hoje. Os crentes conversavam sobre seus negócios, a pregação da palavra era insossa – talvez focada somente na ação social como vemos com frequência na Europa – e não havia nenhum tipo de incômodo com o pecado ou nenhum tipo de sofrimento por conta dele. O Rev. Paul Washer em seu livro “O chamado ao evangelho e a verdadeira conversão” diz que “a vida cristã é uma luta titânica do novo homem contra a carne, o mundo e o diabo, mas é justamente essa nossa luta contra o pecado, nosso quebrantamento em meio ao fracasso, e nosso esforço por continuar apesar de nosso desvio, que provam que Deus opera em nós". Não havia nada disso na igreja de Laodicéia e, não por acaso, Cristo não relata nenhum tipo de perseguição à essa igreja. Ela era completamente igual ao mundo, plenamente acomodada com a situação ao seu redor. Por que uma igreja assim haveria de sofrer perseguição?

Olhe para as igrejas brasileiras e veja quantas estão exatamente assim! Olhe para a sociedade brasileira e veja o estado em que nos encontramos! Caminhamos a passos largos para o mundanismo, abraçamos abertamente o relativismo moral, a cada dia aparece uma nova “bizarrice gospel”, cantamos músicas que não falam de Deus, fazemos orações que dão ordens a Deus e tratamos Cristo como um curandeiro espiritual ou um gênio da lâmpada, que só existe para nos curar ou fazer “prosperar” materialmente. Ainda, o pior nisso tudo é que a larga maioria da igreja, ao invés de se posicionar contra esses absurdos e travar o debate público, ou se mostra a favor dessas pautas ou se mostra covarde e incapaz de protestar – o que em termos práticos “dá no mesmo”. É urgente que acordemos para a realidade, despertemos em nossos corações uma sede verdadeira pelo evangelho e passemos a viver como cristãos que dependem única e exclusivamente de Cristo.

Caminhando para o final do texto, vemos que Cristo traz exatamente essa palavra aos crentes de Laodicéia. Ele diz que a verdadeira riqueza está Nele, as vestes mais belas se encontram Nele e o melhor remédio para a cegueira espiritual está Nele. Ainda hoje o conselho de Cristo segue o mesmo: busquem a minha presença e eu os responderei! 

Aplicação e Conclusão

Agora que compreendemos a mensagem de Cristo, precisamos entender o “como”. Como podemos busca-lo mais ao ponto de ter uma vida de total dependência Dele? Como podemos ter uma vida cristã tal que impacte a nossa família, nossa igreja, nosso bairro e nosso país? 

Respondendo à primeira pergunta, entendo que o caminho é fazer o mais simples e óbvio, i.e., dedicar pelo menos 30 min. do seu dia para devocional diária, pautada em oração e estudo bíblico. E, por estudo bíblico, me refiro a ler, entender e escrever um resumo do que absorveu do texto. Por mais que você não consiga ler mais de meio capítulo por dia, se esforce para compreender o que está lendo. Procure o contexto, pois isso o ajudará a entender melhor a mensagem e no final ore novamente agradecendo a Deus pelo ensino, pedindo que ele fortifique o seu relacionamento com Ele. 

E para a segunda pergunta, acredito que a resposta seja esta: após ter uma vida devocional estabelecida e em crescente desenvolvimento, posicione-se contra as pautas imorais que são levantadas na sociedade e até mesmo dentro da igreja. Os cristãos não podem confundir bondade e mansidão com covardia. Não peço a ninguém que fique “batendo boca” e arrumando confusão na rua ou em redes sociais, mas peço sim que não deixem de se posicionar. Uma boa estratégia é defender o oposto do que o mundanismo defende. Por exemplo, é crescente na sociedade a defesa do sexo livre e do aborto. Como podemos lutar contra isso? Podemos defender o sexo dentro do casamento e o direito inegável à vida. Por mais que não seja travado um embate direto, é importante que disseminemos os valores cristãos na sociedade.

Que a mensagem de Cristo à Laodicéia desperte a igreja brasileira. Que tenhamos mais cristãos genuínos que reconhecem a voz do bom pastor, buscam sinceramente a santificação e são agentes transformadores do meio onde estão inseridos!

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Notas: 
1. Hernandes Dias Lopes. Ouça o que o Espírito diz às igrejas, 2010. Editora Hagnos.
2. Paul Washer. O chamado ao evangelho e a verdadeira conversão, 2014. Editora Fiel.

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Sobre o autor: Pedro Franco, 23 anos, é estudante de farmácia pela UFRJ e diácono na Igreja Presbiteriana Adonai (RJ).

Divulgação: Bereianos
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