Pode Deus ser soberano e, ao mesmo tempo, exigir obediência de suas criaturas?

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Por Paulo Ribeiro


"Se Deus pré destinasse as ações humanas não seriam necessárias exortações, e a Bíblia está repleta delas!".

Essa é uma afirmação que ouço frequentemente de quem não gosta da doutrina dos decretos segundo o pensamento reformado, de quem não a entende ou de quem simplesmente se incomoda com a existência de um Deus que interage com sua criação dirigindo-a segundo o seu propósito ao invés de deixá-la movimentar-se ao impulso da contingência. 

Muitos dos que afirmam frases como essa também não gostam de pensar em um Deus deste tipo pois este modus operandi faria dele um Deus "controlador", transgressor do arbítrio humano, e isso é inconcebível para muitos. Um Deus que rege sua criação DETERMINANDO o curso de cada uma das partes dela e, inclusive, as vontades de suas criaturas inteligentes, pode assemelhar-se a um "deus violador" (me desculpem a força do termo, mas estou amenizando o peso da analogia que já ouvi) e o resultado de tal ação imanente pode igualar-se ao que os filósofos chamam de fatalismo.

A doutrina dos decretos de Deus afirma, em poucas palavras, que Deus decretou todas as coisas, inclusive o mal, desde a eternidade; não somente os acontecimentos finais que se conformem à Sua vontade última, mas cada meio e processo pelos quais o Senhor atua em sua criação, conduzindo-a segundo seu propósito soberano. Os decretos são imutáveis pois erguem-se a partir de um Deus imutável, e compõem, em última análise, um só decreto eterno que engloba todas as coisas. Deus diz em Isaías: "... Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará" (Is 14.24) e Paulo afirma que Deus "faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Textos bíblicos como estes, entre tantos outros por toda a Escritura, apontam e elucidam a doutrina pela qual afirmamos a absoluta soberania de Deus e seu absoluto controle sobre sua criação.

Diante disso, confesso minha dificuldade em entender o repúdio dos referidos inquiridores pelo ensino de que a soberania de Deus atinge completamente a todas as coisas. Também acho difícil conceber que alguém se oponha à verdade bíblica de que não pode haver outra forma plausível por meio da qual Deus se relaciona com sua criação senão através de uma direção positiva, deliberada, poderosa, teleológica (que visa a propósitos pré-definidos) e soberanamente controladora; sim, controladora. Porém, tentarei elencar algumas objeções trazidas à doutrina bíblica de que Deus decreta não somente o curso da história como opera nas vontades de suas criaturas racionais, persuadindo-as segundo o beneplácito de sua soberana vontade.

Uma das objeções, como antecipamos, é a de que uma influência absolutamente controladora como esta que defendemos resultaria em um "fatalismo teísta". Mas isso é totalmente falso e facilmente refutado. Na doutrina filosófica do fatalismo, o que determina o curso da história é o acaso ou uma certa "inteligência" cega e impessoal. Na doutrina bíblica, Deus, um Ser pessoal, poderoso, amoroso e inteligente é quem determina os rumos da história de acordo com seus propósitos (Sl 33.9; Jó 23.13,14). No fatalismo, somente os fins são considerados. Na doutrina bíblica, Deus não somente decreta os fins, mas os meios pelos quais os Seus fins são levados à cabo (Ef 1.11) - isso será muito importante logo adiante. Dessa forma, a doutrina dos decretos em nada se assemelha a uma interpretação fatalista sobre a influência de Deus na história. E afirmar o contrário é blasfêmia.

Outra objeção comum que se faz à doutrina reformada dos decretos é que o substrato de suas proposições é incoerente com o livre-arbítrio do homem e faz de Deus o autor do pecado. Com efeito, essa objeção também pode ser refutada. Em primeiro lugar, a Bíblia não afirma que o homem possui livre-arbítrio. Pelo contrário, a Sagrada Escritura mostra claramente o homem como escravo de suas paixões pecaminosas (Ef 2.1-3; Rm 7.14-21). Em segundo, se procurássemos compreender a extensão plena dos decretos divinos em fusão à livre-agência dos homens (qualidade intelectual de o homem tomar decisões, sempre dentro das capacidades e limitações de sua natureza), arrogaríamos nada além de frustração para nós mesmos. Nosso intelecto é finito e imperfeito, e sofre com o que Alvin Platinga chamou de "efeitos noéticos do pecado". Portanto, não podemos enquadrar a ação divina concebendo-a ou descrevendo-a segundo nossa limitada percepção, mas devemos nos submeter ao que o Senhor nos revela em sua Palavra, e Ele nos mostra que, ao mesmo tempo em que opera nas vontades de suas criaturas racionais (Êx 7.3; Is 6.9,10; At 2.23; 4.28; Rm 9.18), a elas é atribuída a responsabilidade por seus atos, precisamente pelo fato de serem racionais! Lucas, em Atos 2.23 diz que Jesus morreu pelo desígnio eterno de Deus embora a culpa pelo assassinato de Jesus tenha sido atribuída aos judeus (At 3.15), e Tiago 1.13 diz que Deus não tenta ninguém. Em suma, a doutrina dos decretos divinos não interfere no suposto livre-arbítrio humano simplesmente porque este livre-arbítrio não existe; e tal doutrina não torna Deus o autor do pecado porque o mal é operado por agentes morais, racionais e que têm diante de si um amplo testemunho da existência de Deus pelo qual eles são indesculpáveis (Rm 1.20). Se não conseguimos entender de que maneira Deus pode ter decretado todas as coisas e, ao mesmo tempo, não poder ser culpado pelo pecado, devemos calar-nos diante da Escritura e não sucumbir ao desejo de reduzir seu ensinamento às categorias de nosso entendimento.

Há ainda outra objeção à doutrina dos decretos conforme a Bíblia a expõe, e é precisamente aquela que abre a discussão deste artigo: "Se Deus decretasse de antemão todas as ações dos homens, não seriam necessárias as incontáveis passagens bíblicas que nos exortam a tomar esta ou aquela medida, esta ou aquela decisão ou escolher entre este ou aquele caminho". Ora, mais uma vez a própria Escritura responde a esta objeção. Quanto às exortações divinas gerais, dirigidas a todos os homens (eleitos e não-eleitos), Deus aponta sua vontade simplesmente porque lhe é servido (I) reivindicar seus direitos reais e soberanos sobre o pecador, (II) revelar seus atributos e propósitos de uma forma mais específica, translúcida, clara e persuasiva, (III) chamar pecadores ao arrependimento e à fé e (IV) acentuar sua justiça e a condenação dos que, tendo ouvido a pregação da Palavra, rejeitarem o chamado à salvação, ficando ainda mais expostos à ira escatológica de Nosso Senhor.

Contudo, a Palavra de Deus desempenha um papel especial no coração dos regenerados. Ela é instrumento de seu Santo Espírito na santificação, consolo, encorajamento e direcionamento do povo da aliança. Paulo, aos Tessalonicenses, afirma que a Palavra de Deus atua eficazmente nos que creem (1Ts 2.13). Pedro mostra enfaticamente a instrumentalidade da Palavra na transformação do caráter dos crentes (2Pe 1.4). Hebreus nos prova que a Palavra é a única luz objetiva mediante a qual uma pessoa, pela atuação poderosa do Espírito, discerne a si mesma e os fatos de sua existência. Finalmente, Efésios 6.17 diz que a Palavra de Deus é o instrumento pelo qual o Espírito atua em nós. Assim, vemos que não há incongruência alguma entre a realidade dos decretos soberanos e exaustivos de Deus e a existência de constantes apelos e exortações em Sua Palavra. Conforme sublinhamos, Deus decreta não somente os fins, mas os meios pelos quais seus fins são cumpridos. Destarte, podemos afirmar com certeza: Deus decreta todas as coisas e, simultaneamente, nos convoca a obedecê-lo, sendo a própria convocação do Senhor, como Palavra de Sua boca, um instrumento pelo qual Ele opera em nós o querer e o efetuar, segundo sua boa vontade (Fp 2.13). As constantes exortações do Senhor ao seu povo não se antagonizam ao fato de que Ele decretou todas as coisas. São, na verdade, a ferramenta por meio da qual Deus cumpre o seu decreto eterno.

A doutrina dos decretos de Deus, conforme a Bíblia nô-la apresenta, é tremendamente gloriosa e ultrapassa a capacidade humana de perscrutá-la ou sintetizá-la para que se adeque às suas categorias. A postura legitimamente cristã diante desta doutrina deve ser a de afirmar o que diz a Bíblia, ainda que a compreensão acerca dela se mostre limitada e insatisfeita. Como o apóstolo Paulo, digamos apenas: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33).

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Sobre o autor: Teólogo, professor, articulista e apologeta do cristianismo. Durante anos trabalhou profissionalmete como músico até iniciar formalmente seus estudos na área teológica. Graduou-se em Teologia e realizou diversos cursos nas áreas de interpretação bíblica e homilética. Atualmente dá continuidade a seus estudos em nível de pós-graduação no CPAJ - Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, braço exclusivo da Universidade Mackenzie para o enfoque em Teologia. No ministério de ensino, organiza periodicamente open classes de apologética cristã preparando discípulos de Cristo para responder às objeções e ataques que se faz às doutrinas critãs. É professor da Escola de Formação Teológica Coram Deo.

Fonte: Teologia Expressa
Divulgação: Bereianos
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A doutrina inibe o agir do Espírito?

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Por Paulo Ribeiro


Hoje, ouvi de uma pessoa - muito simpática, atenciosa e certamente seguidora de Cristo - o seguinte comentário a respeito de um culto por que participamos durante a manhã: "Aqui há uma boa valorização da Palavra e da doutrina, mas a liturgia é muito 'fechada' e o Espírito Santo não tem liberdade para agir" (parafraseando). Estávamos em uma paróquia protestante.

Essa declaração me fez recordar as inúmeras semelhantes que já ouvi, geralmente, de irmãos carismáticos. "Este culto é muito mecânico", "tanta doutrina atrapalha o agir do Espírito Santo", "aqui não há espaço para o Espírito trabalhar", etc. Mas será que essas declarações estão corretas à luz da Escritura? Será que tais afirmações são portadoras de uma compreensão acurada sobre o Espírito de Deus, sobre a instrumentalidade da Palavra e sobre a teologia do culto? A resposta é: não. E eis algumas razões que justificam meu parecer.

Primeiramente, Deus é um ser todo-poderoso. Ele é onipotente. Nada e ninguém pode limitá-lo, cerceá-lo, restringi-lo, manietá-lo, conduzi-lo, impedi-lo, atrasá-lo ou influenciar sua operação de qualquer maneira, em qualquer nível. Isaías 46.10 diz: "... Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo o que me agrada.", e no v. 11 completa: "Do oriente convoco uma ave de rapina; de uma terra bem distante, um homem para cumprir o meu propósito. O que eu disse, isso eu farei acontecer; o que planejei, isso farei.". E Deus diz, em Isaías 43.13: "Agindo eu, quem o pode desfazer?”. Diante desses poderosos testemunhos bíblicos e, lembrando que o Espírito Santo é Deus, resta ainda algum espaço para defendermos uma posição na qual o Espírito - o próprio Deus - está limitado por alguma situação em particular? É claro que não! Como poderia o Deus criador de todas as coisas, inclusive da nova vida aos pecadores espiritualmente mortos, ver-se "limitado" por qualquer coisa? Uma obra muito mais difícil de ser concebida pela mente humana, a de dar nova vida a pessoas mortas em seus pecados e delitos (Ef 2.1), nós conseguimos aceitar pela fé, por que não haveríamos de aceitar o fato de que nada pode impedir e nem mesmo dificultar a operação do Santo Espírito de Deus? Segue-se que o Espírito opera quando quer, como quer, independentemente de nossa permissão [1]. Liturgias mais elaboradas e menos "intuitivas" não restringem o agir do Espírito Santo de maneira alguma. Nem circunstancialmente nem ontologicamente o Espírito do Senhor é ou pode ser limitado.

Em segundo, a Palavra de Deus, bem como a doutrina por ela revelada são os principais e maiores instrumentos de santificação do qual o Espírito se vale para operar nos corações e mentes dos regenerados. Jesus, em João 15.3 diz: "Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado". O texto de Efésios 6.17 nos diz que a Palavra é a espada do Espírito, o instrumento empregado por Ele. A segunda carta de Pedro diz: "Dessa maneira, ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça" (1.4); e sabemos que as mencionadas promessas, neste contexto, são figuras para toda a Palavra de Deus. Pedro também diz: "Agora que vocês purificaram a sua vida pela obediência à verdade..." (1Pe 1.22); lembrando também que a verdade objetiva só pode ser encontrada na Escritura Sagrada, como revelação especial de Deus para nós. Portanto, uma conclusão é inevitável aqui: a Palavra de Deus não somente NÃO atrapalha o agir do Espírito Santo como, justamente ao contrário, o consolida e torna eficaz. Um crente só é santificado pela instrumentalidade da Palavra sob a operação do Espírito. Um crente só é aperfeiçoado na consciência do evangelho mediante a Palavra de Deus, que imprime significado e promove contraste objetivo na interpretação dos fatos e conceitos. Logo, a carga doutrinária de um culto está diretamente ligada às possibilidades de transformação VERDADEIRA de caráter nas pessoas. Um culto repleto de atividade musical, manifestações emotivas e participações livres e espontâneas podem agradar a uns que carecem de uma maior "interatividade", por assim dizer, mas não são eficientes para a operação de santificação dos salvos e, portanto, não podem ser considerados como verdadeiros cultos a Cristo. Uma verdadeira e transformadora reunião precisa ser, do início ao fim, pautada e imbuída na Palavra do Senhor, com forte conteúdo doutrinário e sólido ensino na sã doutrina.

Portanto, voltando à afirmação de que um culto bem organizado liturgicamente e fundamentado no ensino inibe o agir do Espírito Santo, concluímos que tal assertiva é deveras equivocada. Com efeito, essas características não apenas não podem limitar a operação do Espírito Santo como são os verdadeiros conduintes da ação santificadora da Terceira Pessoa. Correndo o risco de me repetir, reafirmo algo em que venho insistido: não existe vida espiritual à parte da Escritura como ferramenta de aperfeiçoamento empregada pelo Espírito.

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Notas

1. O fato de o Espírito Santo ser soberano em seu agir não significa que não exista um modus operandi passível de identificação em suas operações, segundo a Escritura. Deus é absolutamente soberano, porém, revelou a nós as formas usuais pelas quais opera.

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