Série Credo Apostólico - Parte 7: O Espírito Santo em Ação

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INTRODUÇÃO

Creio no Espírito Santo”.

O Espírito Santo vem sendo mal compreendido em inúmeros arraiais evangélicos, tanto a sua pessoa como a sua atuação se resumem a demonstração de um mover que não encontra base na Escritura Sagrada. Enquanto que outros setores do evangelicalismo parecem ignorar a atuação do Espírito em nossos dias.

Para evitar este desequilíbrio, precisamos mergulhar nas páginas da Bíblia para dela tirar um conceito legítimo sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. É bem verdade que no Antigo Testamento, ao fazermos uma leitura superficial, parece que nada há em seu conteúdo que nos mostre o Espírito em ação. Mas, ao fazer um estudo mais apurado, veremos que Ele se revela desde o relato da criação. Afinal, é o próprio Espírito de Deus que conduz o processo de escrituração, e graças a Ele temos em mãos o livro sagrado. Assim sendo, difícil seria se Ele não revelasse a si mesmo.

O objetivo deste texto é fazer com que entendamos que o Espírito é Deus, sendo um componente da Santíssima Trindade. E também veremos a sua atuação por todo registro da Escritura.

O ESPÍRITO NO ANTIGO TESTAMENTO

Percorrendo o Antigo e o Novo Testamento, o conteúdo traz luz sobre a atuação daquele que é comumente chamado na teologia de a “terceira pessoa da Trindade”, pois, muitos estão apenas familiarizados com os outros dois componentes da Santa Tríade que são Deus-Pai e Jesus Cristo, Deus-Filho. No início da revelação, o termo hebraico ruach é usado para designar o Espírito Santo no Antigo Testamento. Energia e poder ativo seriam as palavras que melhor se aproximam da ideia concernente a ruach. A conotação do termo não enfatiza a imaterialidade, mas sim a presença poderosa do Espírito que ao descer sobre os indivíduos faz com que os mesmos adquiram uma energia não natural, isto é, sobrenatural (Jz 14.6). A primeira aparição do termo está em Gênesis 1.2. Em outras 107 ocorrências, ruach vai se referir à atividade de Deus (Elohim) no mundo. Só que há um erro frequente de achar que o Espírito Santo é apenas uma energia. A ideia que ruach traz consigo é a de Deus envolvendo-se pessoalmente com a sua criação, por isso que as Escrituras tratam o Espírito como um agente criador, presente em toda a etapa da construção do cosmos. Isso coloca o Espírito Santo ao lado dos demais componentes da Trindade realizando a obra de criar o mundo ex nihilo, dando sentido assim a expressão que se encontra no plural em Gênesis 1.26: “façamos”.

O Espírito de Deus é responsável por dar ordem a matéria criada, tal como ele foi o sustentador do povo escolhido, isto é, Israel, lhes concedendo leis justas e um governo para que seu povo não emergisse no caos. Moisés, Josué e outros líderes tinham o Espírito do SENHOR (Nm 11.16-17 e 27.18). Também foi de sua incumbência conceder dons artísticos aos homens (Ex 31.2-6). Ele é o Espírito da ordem e da beleza. Além de criador, o Santo Espírito também é recriador, pois, Ele atua no homem caído, regenerando-o e dando-lhe um norteamento moral, isto é, santificador. Ele é quem aplica a salvação pela graça no coração do homem. Como está escrito em Ezequiel 11.19-20: "E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne; Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus".

O ESPÍRITO NO NOVO TESTAMENTO

Em todo o Antigo Testamento a atuação distinta do Espírito não ficou muito clara para o povo de Israel. Toda ação divina era atribuída a Adonai, o SENHOR. Embora Ele tenha atuado intensamente, inclusive na inspiração dos autores que formariam o cânon bíblico, é apenas no Novo Testamento que o povo eleito passa a ter informações mais precisas acerca do seu ser e de sua obra. Na revelação neotestamentária, o Espírito é o parakletos, apresentado pelo próprio Cristo (Jo 14.16). Ele seria a testemunha em prol de Jesus. Testemunha melhor não há, uma vez que o Espírito se fez presente em todo o momento do ministério messiânico. Da concepção até a morte na Cruz, o Espírito Santo testificou que aquele homem vindo de Nazaré era o Filho de Deus prometido em todo o Antigo Testamento - desde Gênesis 3.15.

Já no momento da chegada do Cristo ao mundo, Maria concebeu virgem, milagrosamente, pela obra do Espírito. A presença do Espírito Santo neste momento é de suma importância para referendar a profecia de que a glória de Deus no segundo templo seria maior (Ag 2.7-9). A glória do antigo templo era o próprio Espírito Santo - a fumaça que envolvia o sumo-sacerdote no lugar Santíssimo. Quando Cristo nasce dessa concepção sobrenatural realizada pelo Espírito, a glória maior profetizada por Ageu se cumpre. Além disso, o Espírito teve como função preservar a santidade do Deus que se encarnava, sustentando a sua impecabilidade.

No Batismo (Mt 3.16-17), a voz audível do Pai e o Espírito Santo em sua aparição na forma de uma pomba selam o início do ministério de Jesus, endossando-o como um profeta enviado pelo próprio Deus para apregoar as boas novas (Lc 4.18). Após ser batizado, Cristo é levado pelo Espírito a ser tentado no deserto por Satanás (Lc 4.1). Diferente de Adão, Jesus resiste e derrota o diabo, confirmando-o como o segundo Adão, capaz de redimir a humanidade caída. Foi o Espírito Santo quem preservou Jesus nos momentos de aflição antes da sua morte terrível para expiar os pecados. Ele conduziu o Cristo até a cruz, mesmo quando Satanás tentou de várias maneiras fazer com que Jesus não a encontrasse. E embora a ressurreição e ascensão sejam obras atribuídas ao Pai, podemos afirmar que existe a atuação poderosa e efetiva do Santo Espírito também nestas coisas, pois, é em Seu poder ativo que os milagres acontecem.

O ESPÍRITO E O POVO DO LIVRO

A Igreja é capacitada pelo Espírito para apregoar o Evangelho. Jesus é quem diz isso antes de subir aos céus (1.8). E em pentecostes (Atos 2), vemos que a Igreja que era um grupo de centenas, passa a ter três mil pessoas inclusas após o Espírito Santo descer sobre o seus. É a era da plenitude do Espírito. O apóstolo Paulo fala claramente que o Evangelho é a pregação resultante do poder do Santo Espírito (1 Ts 1.5), e o Parakletos mata o velho homem e faz com que o mesmo viva agora em novidade de vida. As Escrituras atestam que é Ele quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), fazendo com que o mesmo vá até Cristo para salvar-se do inferno.

Ademais, aquilo que foi registrado no Novo Testamento são Palavras do próprio Espírito Santo, trazendo a revelação messiânica a todos os povos. Ele que lembraria aos escritores do NT as palavras de Jesus e ensinaria também o que haveriam de escrever (Jo 14.26). Para a Teologia isto é chamado de doutrina da inspiração. Pedro e Paulo  atestam a inspiração de toda a Escritura em suas cartas (1Tm 3.16 e 1Pd 1.21). Por isso não há fonte mais apropriada do que a Bíblia para conhecermos o Espírito Santo, o Pai e o Filho, que formam a Santíssima Trindade, a divindade cristã.

O povo de Deus, isto é, a igreja, pode ser chamada de “povo do Livro”, pois é na Escritura que baseiam o seu estilo de vida. Cabe ao Espírito ajuntar este rebanho do SENHOR e fazê-los santos a partir do entendimento e da aplicação do conteúdo bíblico. Conteúdo que, como já foi dito, é inspirado - e neste processo de inspiração – o Espírito Santo conduziu os escritores canônicos a não cometerem nenhum erro na redação da palavra revelada.

Quanto a isso, vejamos o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 1, artigo V:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.
I Tim. 3:15; I João 2:20,27; João 16:13-14; I Cor. 2:10-12.

CONCLUSÃO

Para sermos computados como cristãos, é necessário crer que o Espírito Santo é Deus. É uma pessoa, com atributos eternos e imutáveis. Assim diz o Credo de Atanásio:

O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. (...) Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus. Portanto o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. Contudo, não há três Senhores, mas um só Senhor. Porque, assim como compelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa separadamente como Deus e Senhor; assim também somos proibidos pela religião universal de dizer que há três Deuses ou Senhores.

Soli Deo Gloria

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Autor: Pr. Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos


Leia também:
Série Credo Apostólico - Parte 1: Um Símbolo da Fé Cristã
Série Credo Apostólico - Parte 2: Pai, Todo Poderoso, Criador
Série Credo Apostólico - Parte 3: Jesus Cristo é o Senhor
Série Credo Apostólico - Parte 4: O Redentor no Espaço-Tempo
Série Credo Apostólico - Parte 5: O Padecimento do Cristo
Série Credo Apostólico - Parte 6: A Vitória do Cristo

O selo escatológico do Espírito: uma experiência posterior?

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Este artigo é uma exposição exegética e apologética de Efésios 1.13 que diz:

“... no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. 

Há três principais interpretações desse texto: 1. O selo do Espírito como sendo o batismo cristão; 2. O selo do Espírito como sendo uma experiência pós-conversão (após crer); 3. O selo do Espírito como algo feito simultaneamente com a conversão. 


Irei defender a terceira interpretação em oposição à segunda. A primeira interpretação não será refutada aqui, visto que não é muito defendida nem conhecida, carece totalmente de apoio contextual e já fora refutada várias vezes por defensores da segunda e terceira interpretação.

1. O selo do Espírito: significado e background

O conceito do selo é tanto antigo como comum. Na antiguidade, era costume selar gados, escravos, documentos e outras propriedades.[1] Na esfera religiosa, homens identificavam a si mesmos como propriedades de suas divindades imprimindo sobre si os seus selos.[2] No judaísmo, a circuncisão era chamada de “o selo de Abraão” ou o selo da “santa aliança”.[3] No Antigo Testamento, Deus selou seus escolhidos para distingui-los como Sua propriedade e para livrá-los da destruição (Ez. 9.4-6).

Portanto, selo pode significar possessão, autenticação e segurança. Como o contexto fala sobre o resgate da possessão de Deus (1.14), esse significado está em vista aqui. Entretanto, possessão implica autenticação e segurança e esses três elementos são verdadeiros em Ef, 1.13, uma vez que o Espírito marca os cristãos como posses de Deus, autentica que um cristão é verdadeiro (pois quem não tem o Espírito de Cristo não é de Cristo: Rm. 8.9) e é o Espírito que assegura a salvação final de todo cristão.

2. A crença e o selo: questões gramaticais

Os defensores da interpretação que diz que o selo do Espírito é posterior à conversão apontam para uma questão gramatical. O texto diz: “ ...e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (καὶ πιστεύσαντες ἐσφραγίσθητε τῷ Πνεύματι τῆς ἐπαγγελίας τῷ Ἁγίῳ). O particípio aoristo “crido” antecede o verbo principal “fostes selados” (aoristo passivo). Essa antecedência pode ser tanto causal (o crer causa a selagem) ou temporal (o crer antecede temporalmente o selo). Entretanto, nesse contexto a relação dessas duas palavras é mais bem entendida como sendo coincidentes/simultâneos.[4] Como observado por S. E. Porter, há algumas exceções na regra que diz que o particípio aoristo antecedendo o verbo principal tem a tendência de expressar ação antecedente, e Efésios 1.13 é uma dessas exceções.[5] 

3. O selo do Espírito e o Espírito da promessa

O texto diz que os cristãos são “... selados com o Espírito Santo da promessa”. Provavelmente um semitismo para “O Espírito que fora prometido”. Alguns textos do AT que prometem o derramamento do Espírito são: Ezequiel 36.26-27; 37.14; Joel 2.28-30, etc. A marca distintiva desse derramamento escatológico do Espírito é que Ele seria derramado em todas as pessoas da comunidade da aliança (do povo de Deus). Semelhantemente, Gálatas 3.14 diz que os gentios recebem pela fé a promessa do Espírito, cumprindo as promessas feitas a Abraão. Portanto, quem não tem o Espírito prometido não faz parte do povo escatológico de Deus.

4. O selo do Espírito e a falácia da autoridade

Um conhecido e respeitado defensor de que o selo do Espírito é uma experiência posterior à fé é o Dr. Martin Lloyd Jones. Em sua exposição de Efésios 1.13, Lloyd Jones “consubstancia sua opinião” citando nomes de peso, como os puritanos Thomas Goodwin e John Owen, e de Charles Simeon e Charles Hodge. Entretanto, nas palavras de D. A. Carson, “o máximo de contribuição que isso pode dar a um argumento é o empréstimo da reputação geral da autoridade para apoiá-lo”.[6] Ainda que devamos aprender com todas as “autoridades” dos estudos bíblicos, nossa fonte de suprema autoridade é a própria Escritura.

5. A dimensão escatológica do selo do Espírito

Concluo meus argumentos apontando para a dimensão escatológica do Selo do Espírito. O próximo verso (Ef. 1.14) diz: “...o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para o louvor da sua glória”. Semelhantemente em Ef. 4.30: “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção”, e em 2Co. 1.21: “...o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações”. O Espírito é o penhor, o pagamento antecipado da redenção final dos cristãos. Os paralelos com o livro apócrifo “Salmos de Salomão” (15.6-13) são instrutivos[7]: 1. Em ambas as passagens há dois tipos de pessoas, em Sl. Sal. 15 temos os justos e os pecadores (15.6-13) e em Efésios temos os crentes e os filhos da desobediência (Ef. 1.13; 2.2; 5.3). 2. Ambos os grupos são distinguidos por uma marca ou sinal. Em Sl. Sal. os justos são marcados por Deus com a marca da salvação e os pecadores são marcados com o sinal da destruição (Sl. Sal. 15.6-9), em Efésios os crentes são marcados com o Espírito (1.13; 4.30); 3. Os dois grupos terão destinos diferentes. Um grupo receberá salvação e o outro herdará a destruição (Sl. Sal. 15. 6-13, Ef. 1:13-14; 5:5-6, 6:9); 4. Eles encontrarão seus respectivos destinos em um dia particular. Em Sl. Sal. será o dia de misericórdia para os justos e o dia do julgamento para os pecadores (Sl. Sal. 15.12-13) e em Efésios será o dia da redenção para os cristãos e o dia da ira para os filhos da desobediência (Ef. 2.2-3; 5.6).[8] As imagens apocalípticas de Ef. 1.13 e 4.30 já são uma realidade. Isso é normalmente denominado de “escatologia inaugurada”. Os cristãos já foram resgatados, mas ainda aguardam o resgate final. Portanto, excluir alguns cristãos dessa realidade é excluí-los do esquema escatológico paulino do “já e ainda não”.

Conclusão

Nas palavras de Gordon Fee, crer e ser selado com o Espírito são dois lados do mesmo evento.[9] Para Paulo, O Espírito sempre é sine qua non para a existência cristã.[10] O selo do Espírito não é algo meramente empírico, onde um cristão experimenta alguma segurança, mas sim é algo ontológico e funcional, ou seja, Deus efetivamente sela os seus (Deus indicado pelo passivo divino de Ef. 1.13). Portanto a incoerência de dizer que o selo do Espírito é posterior ao crer (e a conversão) se dá nos seguintes pontos: 1. Se isso for realidade, então há cristãos genuínos que não são propriedades de Deus, nem são autênticos (contradição explícita) nem possuem segurança de sua salvação (conforme os significados de selo do ponto 1; 2. Como o Espírito é prometido à todo o povo de Deus, então é possível ser um cristão genuíno e não fazer parte do povo de Deus. Se o “Espírito da promessa” significar “O Espírito que nos promete” a futura redenção (como alguns exegetas apontam), então há cristãos que não possuem a promessa da vida eterna.

Nenhum desses dois pontos possui respaldo bíblico, pelo contrário, todo o NT aponta para direções opostas. Não devemos confundir os ministérios e as operações do Espírito. Ser selado é um ato instantâneo e irrevogável. Entretanto, o enchimento com o Espírito é algo que devemos sempre buscar. Paulo posteriormente em Efésios diz: Enchei-vos do Espírito! (Ef. 5.18). Mas ele nunca diz para buscarmos constantemente o selo do Espírito, pois essa selagem é um ato único de Deus somente no momento da conversão de todos os cristãos.

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Notas:
[1] Archie Wang Do HUI, The Concept of the Holy Spirit in Ephesians and its Relation to the Pneumatologies of Luke and Paul, pp. 181-187.
[2] Ibid.
[3] Betz, TDNT, 7.662.
[4] Peter O´Brien, Ephesians (PCNT) p. 118.
[5] S. E. Porter, verbal aspects, pp. 383-85.
[6] D. A. Carson, perigos da interpretação Bíblica, p. 115.
[7] Archie Wang Do HUI, pp. 181-187.
[8] C. Arnold, Ephesians, p. 113, 157.
[9] Gordon Fee, God´s Empowering Presence, pp. 669-670.
[10] Ibid.

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos
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Creio no Espírito Santo

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Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.


Chegamos à parte final do Credo, que tem como “Creio” a terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo. O Credo, de forma lógica, após tratar da ascensão de Cristo, mostra agora a pessoa do Espírito Santo no estabelecimento da Igreja, a comunhão dos santos que estão espalhados pelo mundo entre povos, línguas e nações, a remissão de pecados, a nossa ressurreição no último dia e a entrada na vida eterna como parte de sua confissão. 

1. O Espírito Santo

A divindade e a personalidade do Espírito Santo

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Por Francisco Alison Silva Aquino


As discussões em torno da pessoa do Espírito Santo, a princípio, foram um pouco negligenciadas nos primeiros séculos da igreja cristã. Isto se deve principalmente ao fato de que a pessoa de Cristo é que era alvo de controvérsias teológicas. O credo de Nicéia (325), por exemplo, embora cite a expressão “Espírito Santo”, não faz nenhuma descrição mais detalhada quanto a Ele. No credo Niceno diz: “... e novamente virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo.” 

No entanto, algumas descrições quanto à pessoa do Espírito foram sendo feitas no decorrer da história. No credo niceno-constantinopolitano (381), o qual constitui uma ratificação do credo niceno com alguns pormenores a mais, diz: “... e se encarnou [do Espírito Santo...]”. Em outra parte afirma: “E no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do pai e do Filho, o que juntamente com o pai e o filho é adorado e glorificado, o que falou através dos profetas;”. Aqui nós temos uma descrição um pouco mais ampla da pessoa do Espírito. Já no credo atanasiano (c.500), várias vezes é mencionada a pessoa do Espírito Santo. Nele é enfatizado que o Espírito Santo também é Deus juntamente com as duas outras pessoas da trindade: o Pai e o Filho. O credo usa expressões tais como: “o Espírito Santo eterno”, “Espírito Santo onipotente”, “o Espírito Santo é Deus”, “o Espírito Santo é Senhor”, etc.

A ortodoxia enfatiza a divindade plena do Espírito em igualdade com o Pai e o Filho. No entanto, existe outro aspecto a respeito do Espírito, além da sua divindade, digno de ser tratado com bastante diligência, a saber, a sua personalidade. Uma vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas e um único Deus, iguais em essência, e sendo o Pai e o Filho seres pessoais, também o Espírito o é. 

Estes dois aspectos (divindade e personalidade) do Espírito Santo tem sido negados por algumas seitas e religiões. Enquanto determinadas religiões, como o islamismo, uma vez que este nega a unidade absoluta de Deus, negam o primeiro, geralmente seitas (ex. As Testemunhas de Jeová) negam o segundo, embora nós possamos dizer que em muitos casos negar um aspecto implica em negar o outro. Assim sendo, analisemos então o que as Escrituras dizem a respeito destes dois aspectos intrínsecos à pessoa do Espírito Santo.

Quanto à divindade do Espírito, as Escrituras são claras ao atribuir a estes atributos pertencentes somente a Deus. Logo em Gênesis nós vemos uma indicação de um desses atributos quando lemos que “o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. Ou seja, o Espírito participou da atividade criadora da terra, atividade esta realizada pelas pessoas da trindade. Em outras palavras, o Espírito estava presente na obra da criação, demonstrando assim o atributo da onipotência que o caracteriza como ser divino. Jó também atribuiu sua criação ao Espírito: “O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida.” (Jó 33.4).

Outro atributo concedido ao Espírito Santo é a onipresença: “Para onde me irei do teu ESPÍRITO, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.” (Salmos 139.7-10). 

O texto de Isaías 40.13-14 demonstra o atributo da onisciência: “Quem guiou o ESPÍRITO do Senhor, ou como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento?” (Isaías 40.13-14).

Além dos versículos que demonstram os atributos divinos do Espírito, há outras passagens da Escritura que claramente afirmam que o Espírito Santo é Deus. Talvez o texto mais claro quanto a isso seja o de Atos 5.3-4 que diz: “Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao ESPÍRITO SANTO, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a DEUS.” (Atos 5:3-4). Em outras palavras, a passagem nos diz que mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus, uma vez que aquele também compartilha da essência divina.

Quanto à personalidade do Espírito, as Escrituras são ainda mais claras ao tratar o Espírito como um ser pessoal. A palavra para “Espírito” no grego é pneuma. Esta palavra é neutra, porém quando usada para o Espírito possui um artigo masculino. Um fato que indica que o Espírito Santo é uma pessoa é que ele, como Consolador (parakletos, João 14.26; 15.26), é colocado ao lado de Cristo como o consolador que estava para partir. Além disso, a Escritura também confere ao Espírito atributos pessoais. Vejamos alguns deles.

João 14.26 indica o atributo da inteligência: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ENSINARÁ todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”. O papel do Espírito em nos ensinar toda a verdade aponta para o aspecto pessoal do Espírito. Uma força impessoal não poderia fazer isso. 

O texto de Atos 16.7 mostra que o Espírito Santo tem vontade: “E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito não lho PERMITIU.”. Mais claro ainda é o texto de I Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um COMO QUER.” Uma força impessoal obviamente não tem vontade. 

Outros textos mostram que o Espírito também tem sentimentos (emoções). Isaías 63.10 diz: “Mas eles foram rebeldes, e CONTRISTARAM o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.” (Isaías 63:10). Também o texto de Efésios 4.30: “E não ENTRISTEÇAIS o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” (Efésios 4.30). Uma mera influência ou força não pode se entristecer.

Além de todos estes textos que comprovam a personalidade do Espírito, outras passagens demonstram que o Espírito realiza atos próprios de uma pessoa como falar, sondar, testificar, revelar, ordenar, interceder, entre outros. Quem realiza todos estes atos só pode ser um ser pessoal, não pode ser uma mera influência, poder ou força impessoal.

Como afirma Erickson: “Todas essas considerações levam a uma conclusão. O Espírito Santo é uma pessoa, não uma força, e tal pessoa é Deus, na mesma dimensão e da mesma forma que o Pai e o Filho”. 

Aqueles que negam que o Espírito é Deus e aqueles que negam sua personalidade, afirmando que Ele é apenas uma força, incorrem no erro gravíssimo de ofendê-lo. É necessário que tais pessoas tenham seus olhos abertos para contemplarem a maravilha da pessoa e da obra do Espírito Santo como um ser divino e pessoal. 

O erro da própria igreja cristã tem sido esquecer a pessoa do Espírito. Como afirma Franklin Ferreira e Alan Myatt: “Devemos dar ao Espírito Santo, que é plenamente divino, a mesma glória que damos ao Pai e ao Filho. Agir de outra forma é cair em algum tipo de subordinacionismo.” O Espírito Santo deve ser adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho como nos diz o credo de Constantinopla: 'no Espírito Santo, Senhor e vivificador, o qual procede do Pai e do Filho; que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado'”.

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Notas:
[1] Millard J. Erickson, Introdução a Teologia Sistemática, p.349.
[2] Franklin Ferreira & Allan Myatt, Teologia sistemática, p. 340-341.

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Divulgação: Bereianos
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Batismo no Espírito Santo: uma segunda bênção?

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Por Paulo Ribeiro


A doutrina bíblica do batismo com ou no Espírito Santo é maravilhosa e aponta para uma realidade que sintetiza a mensagem do evangelho: a de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões (2Co 5.19). Esta doutrina, a do batismo, mostra que Deus opera em seus eleitos a ação de purificá-los do pecado, de uma só vez, aspergindo-lhes o Espírito Santo em uma aplicação individual da obra expiatória de Cristo em favor deles. O resultado pode ser descrito conforme 1Pe 1.2: fomos eleitos...em santificação do Espírito (neste contexto, um termo equivalente à justificação)...para a aspersão do sangue de Jesus Cristo.

Porém, esta doutrina sofreu algumas reinterpretações ao longo dos últimos séculos e, em tempos mais recentes, Charles Fox Parham (1873 - 1929) efetuou uma releitura desta doutrina explicando que ela, na verdade, seria uma segunda bênção, distinta da conversão e justificação do crente. O cristão primeiro se converteria (isso mesmo: o próprio cristão SE converteria, mas deixo este problema para outro artigo) e, então, estaria unido a Cristo e perdoado. Mas, ele precisaria receber uma bênção posterior - o batismo com o Espírito - para receber poder para o testemunho, dons especiais, etc.

Para deixar a doutrina ainda mais confusa, o ramo cristão que se erigiu a partir de Parham, ramo que chamamos de "pentecostalismo", associou o que entenderam como uma segunda bênção ao anacrônico dom de línguas, dizendo que a glossolália, portanto, seria evidência do batismo no Espírito. E o texto bíblico de Atos 2 serviu como o selo de que as coisas são realmente assim. Os discípulos receberam o Espírito Santo no pentecostes; os discípulos falaram em línguas "estranhas" (volto nisso em outro artigo); logo, quem é batizado no Espírito, fala em línguas.

Entretanto, seria realmente o batismo no Espírito Santo uma bênção posterior e distinta da conversão? Quais seriam as implicações de adotarmos esta ideia? Ela teria alguma implicação para a soteriologia? E para a bibliologia? Certamente teria implicações dramáticas para a práxis cristã. Mas o mais importante aqui é: seria esta interpretação correta?

O que diz a doutrina

Frases que mencionam um certo batismo com/no/do Espírito Santo ocorrem poucas vezes no Novo Testamento (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33; At 1.5; 11.16; 1Co 12.13), embora diversas outras passagens aludam à esta mesma operação empregando termos diferentes. Algumas vezes a sentença parece indicar que o Espírito é o agente e a igreja é o meio com o qual os crentes são batizados (frases que dizem "batismo do Espírito") e outras a sentença parece mostrar que Cristo é o agente e o Espírito é o meio com o qual as pessoas são batizadas (frases que dizem "batismo com o Espírito"). Contudo, a sadia interpretação deve considerar o princípio da analogia da fé, pelo qual determinado ensino deve ser observado segundo a totalidade da revelação bíblica, e em virtude do qual uma passagem deve lançar luz hermenêutica sobre outra.

Assim, se observarmos todas as passagens que, de alguma maneira, mencionam o batismo no/com/pelo Espírito Santo, constataremos que se trata de uma mesma e única operação divina, que ocorre concomitantemente à regeneração. E três grandes razões nos levam a afirmar isso:

(I) O texto de 1Co 12.13 diz que todos os cristãos foram batizados. Considerando o fato de que na igreja de Corinto havia cristãos em pecado e de que, segundo o ensino pentecostal, uma pessoa, para receber o batismo, precisa santificar-se muito [1], somos levados a constatar que o batismo recebido pelos coríntios não foi o batismo especial e distinto da conversão preconizado pelos pentecostais. Antes, foi a obra de Deus que regenera seus eleitos, os converte e justifica.

(II) Não há, na Escritura inteira, uma só exortação para que os crentes (os que realmente foram salvos) busquem uma bênção posterior e adicional que, supostamente, os capacitaria para o testemunho. Devemos nos perguntar se uma operação paracletológica aparentemente tão importante como esta não deveria ser alvo de constantes (ou ao menos de um!) encorajamento apostólico para que os crentes a buscassem. Se o suposto "batismo pentecostal" fosse realmente algo tão importante e necessário, não deveríamos encontrar nas epístolas alguma exortação do tipo: "Vocês, que já creem, busquem com afinco receber esta outra bênção porque vocês precisam de poder para testemunhar do evangelho!"? Mas não encontramos. Na verdade, o principal texto-base sobre o qual o pentecostalismo se apoia na formulação desta doutrina (o de Atos 2) é um texto descritivo, reconhecidamente o tipo de texto a partir do qual NÃO DEVEMOS formular doutrinas.

(III) O texto de Ef 4.5, aparentemente e quase certamente se refere ao batismo do Espírito. Se isso for certo, temos então uma declaração explícita de que não existe um batismo posterior e distinto, afinal, "há um só Senhor, uma só fé e um só batismo".

Mas e quanto às diferenças nos termos? Às vezes a Bíblia fala em batismo com o Espírito e outras vezes em batismo pelo Espírito. A isso respondemos que, caso acepções rígidas de termos devam ser uma pauta interpretativa, então deveríamos considerar como substâncias distintas os termos "coração", "alma" e "entendimento" em Mateus 22.37; porém, sabemos que esses termos não indicam substâncias diferentes, antes, todos apontam para o aspecto interior do ser humano, sua mente e afeições. Segundo Charles C. Ryrie, é "mais provável que essa frase, usada de maneira pouco frequente e aparentemente técnica, em todas as ocorrências se referisse à mesma atividade [2]". Eu apenas retiraria o "provável" da afirmação de Ryrie para dizer que CERTAMENTE essa frase, em todas as suas ocorrências, se refere à mesma coisa. O literalismo na interpretação bíblica, com efeito, tem conduzido a graves distorções doutrinárias no pensamento cristão.

Portanto, vemos que o batismo no Espírito é uma bênção comum (1Co 12.13; Ef 4.5), gratuita (1Co 2.12; Ef 2.8,9) e definitiva (2Co 1.21,22; Ef 4.30). Ele posiciona o crente no corpo místico de Cristo e o capacita para o testemunho (At 1.8; 1Co 2.4), para a edificação da igreja (1Co 12.12-20; Ef 2.22) e, gradativamente, restaura no cristão a imagem de Deus para a sua glória (2Co 3.18; Ef 4.24; Cl 3.10).

Implicações da formulação pentecostal da doutrina

Além de a interpretação pentecostal acerca do batismo no Espírito ser essencialmente falha, ela traz algumas implicações perturbadoras para a doutrina cristã.

A primeira delas seria na eclesiologia. Afirmar que existem dois batismos diferentes, um deles comum a todos os crentes e outro reservado a quem o busca com todos os critérios - empíricos - da cartilha pentecostal é pontuar uma linha divisória na única operação divina que visa a união dos que creem em um só corpo. Tendo em mente a figura do Templo de Salomão, Paulo diz:

"Assim, pois, não sois mais estrangeiros, nem forasteiros, antes sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito" (Ef 2.19-22).

O batismo no Espírito é precisamente aquilo que nos une mutuamente como cristãos. Neste ponto, algum defensor do pentecostalismo poderia afirmar que sua doutrina não divide a igreja, pois um dos batismos coloca o crente neste corpo. Entretanto, na visão pentecostal, permanece o fato de que, neste corpo, alguns são receptáculos de uma bênção especial e posterior enquanto todos os outros, ou são carnais porque não estão buscando este batismo, ou são carnais porque o estão buscando mas não o receberam ainda por não estarem suficientemente santificados. E para piorar, os que já receberam este batismo, têm o poder para testemunhar de Cristo enquanto os outros não. Devemos ignorar que o único fundamento legítimo para o testemunho cristão é a ressurreição de nosso Senhor (1Co 15.14), e que, uma vez que quem está lendo este artigo não viu o Cristo ressurreto com os próprios olhos mas crê como se tivesse visto, não tem o poder necessário para evangelizar? Devemos estranhar o apóstolo Pedro dizendo aos seus destinatários que mesmo eles não havendo visto Cristo, eles o amavam e nele confiavam exultando com alegria indizível e cheia de glória (1Pe 1.8)? É certo que não! Mas de acordo com a perspectiva pentecostal eles ainda não receberam a "segunda bênção". Eles creem em Cristo e a ressurreição do Senhor deu novo significado às suas vidas. Mas eles ainda lhes falta algo; eles estão quase lá...!

A segunda implicação desta doutrina pentecostal se dá em uma perigosa afirmação da contemporaneidade dos dons revelatórios ou extraordinários do Espírito Santo. A doutrina pentecostal ensina que, juntamente com o batismo no Espírito, alguns dons são dados ao cristão. E também ensina que dentre esses dons bem podem estar aqueles de natureza revelatória, assim como exibidos pelos apóstolos. Eu deixarei a questão da contemporaneidade para outro artigo, mas aqui é preciso adiantar algo. Ou os dons revelatórios ainda existem e o cânon cristão não está fechado, ou nossa Bíblia está completa, a revelação especial de Deus a nós foi bem-sucedida e, assim, os dons revelatórios cessaram. As duas posições são concorrentes e não podem coexistir. Se Deus, pelo Espírito Santo, ainda fala com seu povo por novas palavras e revelações, então a Escritura não está fechada.

Certo dia, um continuísta, argumentando comigo, disse que as profecias ainda aconteciam, mas consistiam de exortações pessoais e particulares, e jamais traziam novas verdades religiosas ou doutrinais. Ele estava tentando preservar a suficiência da Escritura. Em resposta, eu disse a ele que não importava o conteúdo da profecia, mas o autor. Se é o próprio Deus quem está falando, então as palavras que estamos a ouvir são palavras de Deus. E se são palavras de Deus, então devemos acrescentá-las às nossas Bíblias, e segue-se que nossas Bíblias não estão prontas ainda.

Contudo, a Escritura parece mostrar o contrário. Entre inúmeros textos e uma teologia bem amarrada, eu destaco a passagem de 2Pe 1.3,4:

"Visto como o seu divino poder nos tem dado tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou por sua própria glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado as suas preciosas e grandíssimas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo."

Portanto, uma vez que o testemunho de Jesus Cristo é dado pela Escritura (Jo 5.39), é justo dizer que ela é suficiente para a nossa vida e, por consequência, cessaram aqueles dons revelatórios amplamente necessários no primeiro século, quando o cânon cristão não estava ainda fechado.

Finalmente, uma terceira implicação da doutrina pentecostal dos dois batismos, e talvez a mais grave delas, é de natureza soteriológica. No exato momento em que preconizarmos a necessidade de uma segunda bênção, estamos afirmando a insuficiência da obra de nosso Senhor. Observe isto: a obra de Cristo foi determinada na eternidade (Ap 13.8). Na eternidade, Deus se agradou em glorificar seu nome decretando a salvação de alguns por causa dos seus pecados. Deus quis salvar pecadores de sua própria ira escatológica e foi isso que, soberanamente, ele fez, e o fez por meio de Cristo. Isso faz com que o sacrifício de Cristo e sua glória resultante seja nada menos que o CENTRO DA MENTE E DOS PROPÓSITOS ETERNOS DE DEUS! Pela obra expiatória de Cristo um eleito seria salvo. Ele seria salvo! Isso não é pouca coisa! A magnitude da obra de Cristo e a grandeza incontornável da consequência dessa obra para o pecador que foi salvo deveria nos fazer rejeitar qualquer ensino que pregue a necessidade de algo a mais para cristão. Um pecador que foi salvo e, assim, batizado no Espírito Santo, já recebeu tudo! Não há mais nada para ele pelo simples fato de que não há nada maior a ser recebido do que o perdão de Deus e sua amizade. Justamente por isso o apóstolo Paulo foi capaz de dizer aos efésios: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo" (Ef 1.3). Deus não apenas nos abençoou em Cristo, mas [já] abençoou com TODAS as bênçãos espirituais naquele que nos comprou para sermos seus.

Isso significa que não há uma "segunda bênção" a ser desejada pelo cristão. Que outra bênção ele poderia querer além da amizade com Deus? Dizer que fomos regenerados, mas precisamos de algo a mais é escarnecer da obra de Cristo, que foi toda suficiente. Nele recebemos todas as bênçãos espirituais. Não há outra a ser almejada.

Assim, podemos concluir que a doutrina pentecostal do batismo no Espírito como uma segunda bênção deve ser enfaticamente rejeitada. É certo que o pentecostalismo não fere nenhuma doutrina cardeal do cristianismo. É certo que há muitos pentecostais (entre os quais alguns são amigos meus) piedosos e verdadeiramente servos de Cristo. É também certo que o pentecostalismo está, gradativamente, gerando expoentes inteligentes, canais para a promoção de uma perspectiva mais saudável e cristocêntrica de sua fé [3]. Mesmo assim, a doutrina pentecostal dos dois batismos é deveras débil e, visto que trás implicações ruins para a teologia cristã, deve ser rechaçada.

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Notas
1. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 1627
2. RYRIE, Charles C. Teologia Básica. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 422
3. Um destes expoentes, que alegremente menciono, é o Gutierres Fernandes Siqueira, do site Teologia Pentecostal.

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Fonte: Teologia Expressa
Divulgação: Bereianos
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O trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra

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Por Leonardo Dâmaso


Texto base: Salmo 33.6; 104.30

INTRODUÇÃO

Ao dissecar sobre a obra da trindade na criação de todas as coisas, o bom estudante das Escrituras se depara com assuntos que, por um lado, são incríveis e, por outro, são pouco conhecidos pela maioria esmagadora da igreja evangélica brasileira. Dentre estes assuntos pouco abordados, temos o papel que o Espírito Santo exerceu no passado, continua exercendo no presente, e ainda exercerá no futuro [na terra restaurada] na criação. 

Sendo assim, para que possamos compreender adequadamente como foi o trabalho do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, conforme o relato de Gênesis 1 e 2, e de várias outras passagens da Escritura, é imprescindível esboçarmos uma distinção importante. 


Deus Pai é o criador – aquele que trouxe a existência os céus e a terra pela sua infinita sabedoria e poder. Deus Filho é o coordenador – aquele que organizou todo o processo da criação; que pôs em ordem todas as coisas. E, finalmente, Deus Espírito Santo é o aperfeiçoador – aquele que concluiu e preserva toda a criação em ordem.


Tendo observado o papel de cada pessoa da divindade no processo de criação, é importante ressaltar ainda mais detalhes específicos sobre o papel do Espírito Santo na criação dos céus e da terra, o que veremos a seguir.




EXPLANAÇÃO

1. A uniformidade do papel da divindade na criação

O trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação dos céus e da terra não foi algo realizado em estágios sucessivos, onde Deus Pai planejou, Deus Filho executou e o Espírito Santo completou. A obra da criação não foi uma divisão de tarefas, pois, se fosse assim, não seria um trabalho apenas, mas três trabalhos distintos realizados por três pessoas separadamente. 


Não! Antes, o trabalho de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no processo da criação foi uma distribuição de tarefas de um mesmo trabalho executado por ambos.  

  
Por exemplo, na construção de uma casa ou apartamento, não temos duas ou mais obras a serem realizadas, mas apenas uma obra com distribuições de tarefas. Deixe-me elucidar ainda mais este exemplo. No processo de uma construção, o primeiro passo é o planejamento, ou seja, arquitetar a construção. 

Após o projeto de uma casa ou apartamento já estar feito, o segundo passo é a contratação dos pedreiros para começar a construção. E o terceiro passo é a decoração da casa ou apartamento, que geralmente é feita também pelos pedreiros, porém existem algumas exceções, onde decoradores específicos são designados para tarefas específicas. 


Na criação de todas as coisas, podemos notar semelhanças com o exemplo supracitado. Deus Pai foi o “arquiteto” da criação – aquele que planejou todos os detalhes. Deus Filho foi o “executor” da criação – aquele que esteve presente trabalhando em todo o processo. E Deus Espírito Santo foi o “decorador” da criação – poeticamente falando, aquele que “embelezou” os céus e a terra e tudo que nela há com a sua glória. Portanto, a criação dos céus e da terra foi um trabalho da divindade, porém com diferentes tarefas para Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. 

  
2. A peculiaridade do papel do Espírito Santo na criação 

Conforme vimos, o Espírito Santo teve a sua participação na criação, e suas atividades estavam intimamente relacionadas com as atividades de Deus Pai e Deus Filho em todo o processo. Contudo, sua atividade principal começou somente depois da criação da matéria pela palavra de Deus, onde Ele deu origem à vida. 


Gênesis 1.2 demonstra primeiro a criação de toda a matéria, a animação e, por fim, a preservação da mesma, a qual é obra do Espírito Santo. Desse modo, senão vejamos alguns aspectos do trabalho específico da terceira pessoa da trindade na criação dos céus e da terra.


a) Pairava sobre a desordem 


Antes da criação da terra estar completa e em ordem para ser habitável, o Espírito Santo já estava presente desde o início em todo o processo. Em Gênesis 1.2, é dito que o Espírito de Deus ou o Espírito Santo pairava sobre a face das “águas”, ou, literalmente, do abismo. 


“O texto hebraico mostra que o trabalho do Espírito Santo se movendo sobre a face das águas era semelhante àquele de uma ave que, com as asas estendidas, paira sobre seus filhotes para cobri-los e afagá-lo. A figura implica que não apenas a terra existia, mas também os germes de vida estavam nela e que, o Espírito Santo, impregnando esses germes, fez com que a vida existisse, a fim de conduzi-la ao seu destino”.[1]   

   
b) Criou e dispôs os céus e a terra

No Salmo 33.6, vemos descrito que o Espírito Santo criou os céus e o exército deles. A primeira expressão do versículo diz: Os céus por sua palavra se fizeram; e a segunda afirma: ... e, pelo sopro [Espírito] de sua boca, o exército deles [sol, lua e estrelas]


Na poesia hebraica, expressões paralelas denotam o mesmo sentido, porém de maneiras diferentes. Desse modo, nessa passagem, os termos palavra e Espírito (sopro), possuem o mesmo significado. O termo Espírito, no entanto, enfatiza apenas a peculiaridade do trabalho do Espírito Santo na criação. 


Refere-se não à criação da matéria da qual o sol, a lua e as estrelas foram compostos, mas da glória que eles refletem. Esta glória é obra do Espírito Santo. Assim, o Salmo 33.6 aborda a criação, a natureza dos céus e, por conseguinte, o seu desenvolvimento, o qual é realizado pelo Espírito Santo.


c) Proporcionou vida à criação animal 


Gênesis 1.24-25 relata a criação dos animais e suas diferentes espécies. Foi obra do Espírito Santo outorgar vida aos animais. Foi Ele que produziu vida aos animais domésticos, como cães e gatos; aos répteis, aos animais selváticos, dentre outros. 


d) Chamou o homem à existência  


Sabemos que as três pessoas da divindade estavam presentes em todo o processo da criação dos céus e da terra. Entretanto, produzir vida ao homem foi tarefa essencial do Espírito Santo. Gênesis 2.7 salienta que após criar o homem Adão do pó da terra, Deus soprou em suas narinas o fôlego de vida. Esta vida, portanto, é a vida biológica que o Espírito Santo insuflou em Adão. 


Não obstante, Jó 33.4 e o Salmo 104.30 destacam mais claramente o trabalho do Espírito Santo na criação. Jó afirma que o Espírito Santo teve um papel específico na formação do homem. O Salmo 104.30, por sua vez, declara que Ele realizou um trabalho similar na criação dos animais em geral. 


A expressão envias o teu Espírito, eles são criados, não faz alusão aos homens, mas a diversidade dos animais que foram criados, os quais são mencionados nos versículos 25-29. Logo, o salmista está se referindo aos animais e sua preservação, e não à criação e preservação dos homens. 


O Salmo 104.30 acentua que, apesar da matéria e o modelo do qual os animais foram criados já estivessem em pauta no conselho trinitariano, ainda assim era indispensável o trabalho do Espírito Santo para ocasionar a existência deles. Todavia, para melhor compreensão do assunto em voga, é importante demarcar a seguinte observação: 


Jó, no capítulo 33.4, não sinaliza a criação do primeiro homem, Adão, mas simplesmente a criação de um homem. De modo semelhante, no Salmo 104.30, o salmista também não enfatiza a primeira criação dos animais; antes, ele se referiu aos animais que nadavam no mar no momento em que compunha o Salmo. É bem provável que o salmista estivesse na beira do mar nessa ocasião em uma introspecção. 



CONCLUSÃO
   
Diante de tudo o que foi proposto, entendemos que o Espírito Santo teve um papel singular na obra da criação. Sendo assim, três considerações finais precisam ser destacadas acerca do caráter da obra do Espírito Santo na criação dos céus e da terra. 

1) O ato do Espírito pairar sobre a terra vazia, descrito em Gênesis 1.2, aponta que o seu trabalho era trazer à existência a vida escondida na terra ainda inabitável e inacabada, ou seja, transmitir vida à toda matéria que seria criada, como o homem, os animais, as plantas, os luminares, e outros.


2) Além de trazer à existência a vida secreta, o caráter do trabalho do Espírito Santo na criação consiste em fazer com que a beleza da glória divina escondida se revele em toda a criação, ativando, assim, a capacidade da criação de se reproduzir. Podemos utilizar como exemplo de reprodução da beleza divina as plantas, os animais, os luminares, as estações do ano, etc. 


3) Não existe uma tricotomia na obra da criação. Não podemos fazer uma separação de trabalho. Juntamente com Deus Pai e Deus filho, o Espírito Santo também planejou, geriu e coordenou toda a obra da criação.  


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Nota:
[1] Abraham Kuyper. A obra do Espírito Santo, pág 66-67.         

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Fonte: Bereianos
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Atos simbólicos do Espírito?

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Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Não faz muito tempo Ana Paula Valadão provocou uma polêmica no meio evangélico ao se colocar de quatro no palco, durante um show em Anápolis, e começar a andar tentando imitar um leão. Enquanto isto, os membros da banda faziam gestos de “leão” ou de olhos fechados e mãos erguidas “abençoavam” a plateia, que gritava em delírio. O vídeo está no Youtube. Não quero voltar a este episódio, já tão batido, mas usá-lo como gancho para entender o quadro maior.

Isto de se imitar animais no palco sob a "unção" do Espírito Santo parece ter começado em 1995, na igreja do Aeroporto de Toronto, famosa por ter sido o berço da “bênção do riso santo”. Escrevi um artigo sobre isto em 1996. Naquele ano, um pastor chinês, líder das Igrejas chinesas cantonesas de Vancouver, Canadá, durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. O pastor da Igreja, John Arnott, estava ausente do país, e foi chamado às pressas de volta, para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento bizarro do pastor chinês era do Espírito Santo.

Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião, e para surpresa de todos, ele caiu sobre as mãos e os pés, e começou a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro, e gritando "Deixem ir meu povo, deixem ir meu povo!". Ao voltar ao normal, o pastor chinês explicou que durante anos seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas agora o leão de Judá haveria de libertá-los. A igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se que aquilo vinha realmente do Espírito de Deus. Isto acabou provocando o desligamento desta igreja da sua denominação, a Vineyard Fellowship, que discordou que aquilo vinha de Deus. Mas, parece que a moda pegou.

A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da "bênção de Toronto." Houve casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como a águia, mugindo como o boi, e gritando gritos de guerra como um guerreiro. Para Arnott, estes sons eram "profecias encenadas", em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.

Acredito que o argumento para “profecias encenadas” ou “atos proféticos” tão em voga hoje nos shows e cultos do movimento gospel e do pentecostalismo sincrético é que, no passado, Deus mandou seus servos transmitirem mensagens ao povo usando objetos e dramatizando a mensagem. Não é difícil achar exemplos disto no Antigo Testamento. Deus mandou que Jeremias atasse canzis (cangas) ao pescoço como símbolo do cativeiro do povo de Israel (Jer 27:2); mandou que comprasse um cinto de linho e o enterrasse às margens do Eufrates até que apodrecesse, como símbolo também da futura deportação dos judeus para a Babilônia (Jer 13:1-11); determinou que ele comprasse uma botija de barro e quebrasse na presença do povo, para simbolizar a mesma coisa (Jer 19:1-11). O Senhor mandou que Isaías andasse nú e descalço por três anos, como símbolo do castigo de Deus contra o Egito e a Etiópia (Is 20:3-4). Há outros exemplos de profetas que poderiam ser citados.

No Novo Testamento, o único exemplo de um profeta falando a Palavra de Deus e ilustrando-a com um ato simbólico é o do profeta Ágabo, que usando um cinto, amarrou seus próprios pés e mãos para simbolizar a prisão de Paulo (At 21:10-11).

Ao tentarmos entender a “teologia” dos atos proféticos da Bíblia percebemos alguns traços comuns a todas as ocorrências.

  • Elas foram determinadas a profetas de Deus, como Isaías e Jeremias, os quais foram levantados por Deus para profetizar sobre o futuro da nação de Israel e a vinda do Messias. Ou seja, tais atos tinham a ver com a história da salvação, o registro dos atos salvadores de Deus na história.
  • Estes atos simbólicos ilustravam revelações diretas de Deus para o seu povo através dos profetas. No caso de Ágabo, tratava-se de uma revelação sobre a vida do apóstolo Paulo, homem inspirado por Deus, que o Senhor haveria de usar para escrever a maior parte do Novo Testamento. Portanto, a mensagem de todos aqueles atos proféticos se cumpriu literalmente, como os profetas disseram que haveria de acontecer.
  • Sem revelação direta, infalível e inerrante da parte de Deus, não há atos simbólicos. Eles eram ilustrações destas revelações. Uma vez que não temos mais profetas e apóstolos, que eram os canais destas revelações infalíveis, não temos mais estes atos proféticos que acompanhavam ocasionalmente tais revelações.
  • Nesta compreensão vai o autor de Hebreus, que relega ao passado aqueles modos de Deus falar ao seu povo. Agora, Deus nos fala pela sua dramatização maior e suprema, a encarnação em Jesus Cristo (Hb 1:1-3).
  • Tanto assim, que os únicos atos simbólicos que o Senhor Jesus determinou ao seu povo, e cuja mensagem é fixa e imutável, foi que batizassem os discípulos com água e comessem pão e bebessem vinho em memória dele. Tais atos ilustram e simbolizam nossa união com o Salvador. Fora disto, não encontramos qualquer outra recomendação do uso de atos simbólicos para transmitir a mensagem do Senhor.

Portanto, para mim, estes “atos proféticos” atuais e profecias encenadas nada mais são que uma tentativa inútil – para não ser crítico demais - de imitar os profetas e apóstolos, na mesma linha destes que hoje reivindicam, em vão, serem capazes de fazer a mesma coisa que aqueles fizeram.

Após Deus ter se revelado em Jesus Cristo, ter estado entre nós e transmitido ao vivo a sua Palavra, após os apóstolos terem registrado esta mensagem de maneira infalível e suficiente nas Escrituras, pergunto qual a necessidade de profecias encenadas e atos simbólicos para que Deus nos fale através deles. Se alguém não entende a fala de Deus registrada claramente na Bíblia vai entender através do simbolismo ambíguo de gestos e encenações de gente que alega falar no nome dele? Sola Scriptura!

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Fonte: O Tempora! O Mores!
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