Carta Aberta aos Grupos de Louvor

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Querido Grupo de Louvor,

Eu aprecio muito a sua disponibilidade e desejo de oferecer seus dons a Deus em adoração. Aprecio sua devoção e celebro sua fidelidade — arrastando-se para a igreja cedo, domingo após domingo, separando tempo para ensaiar durante a semana, aprendendo e escrevendo novas canções, e tantas coisas mais. Assim como aqueles artistas e artesãos que Deus usou para criar o tabernáculo (Êxodo 36), vocês são dispostos a dispor seus dons artísticos a serviço do Deus Triuno.

Portanto, por favor, recebam esta pequena carta no espírito que ela carrega: como um encorajamento a refletir sobre a prática de “conduzir a adoração”. A mim parece que vocês frequentemente simplesmente optaram por uma prática sem serem encorajados a refletir em sua lógica, sua “razão de ser”. Em outras palavras, a mim parece que vocês são frequentemente recrutados a “conduzir a adoração” sem muita oportunidade de parar e refletir na natureza da “adoração” e o que significaria “conduzir”.

Especificamente, minha preocupação é que nós, a igreja, tenhamos involuntariamente encorajado vocês a simplesmente importar práticas musicais para a adoração cristã que — ainda que elas possam ser apropriadas em outro lugar — sejam prejudiciais à adoração congregacional. Mais enfaticamente, usando a linguagem que eu empreguei primeiramente em Desiring the Kingdom¹, às vezes me preocupo de que tenhamos involuntariamente encorajado vocês a importar certas formas de execução que são, efetivamente, “liturgias seculares” e não apenas “métodos” neutros. Sem perceber, as práticas dominantes de execução nos treinam a relacionar com a música (e os músicos) de certa maneira: como algo para o nosso prazer, como entretenimento, como uma experiência predominantemente passiva. A função e o objetivo da música nestas “liturgias seculares” é bem diferente da função e o objetivo da música na adoração cristã.

Então deixe-me oferecer apenas alguns breves conceitos com a esperança de encorajar uma nova reflexão na prática da “condução da adoração”:

1. Se nós, a congregação, não conseguimos ouvir a nós mesmos, não é adoração. A adoração cristã não é um concerto. Em um concerto (uma particular “forma de execução”), nós frequentemente esperamos ser sobrepujados pelo som, particularmente em certos estilos de música. Em um concerto, nós acabamos esperando aquele estranho tipo de privação dos sentidos que acontece com a sobrecarga sensorial, quando o golpe do grave em nosso peito e o fluir da música sobre a multidão nos deixa com a sensação de uma certa vertigem auditiva. E não há nada de errado com concertos! Só que a adoração cristã não é um concerto. A adoração cristã é uma prática coletiva, pública e congregacional — e o som e a harmonia reunidos de uma congregação cantando em uníssono é essencial à prática da adoração. É uma maneira “desempenhar” a realidade de que, em Cristo, nós somos um corpo. Mas isso requer que nós na verdade sejamos capazes de ouvir a nós mesmos, e ouvir nossas irmãs e irmãos cantando ao nosso lado. Quando o som ampliado do grupo de louvor sobrepuja às vozes congregacionais, não podemos ouvir a nós mesmos cantando — então perdemos aquele aspecto de comunhão da congregação e somos encorajados a efetivamente nos tornarmos adoradores “privados” e passivos.

2. Se nós, a congregação, não podemos cantar juntos, não é adoração. Em outras formas de execução musical, os músicos e as bandas irão querer improvisar e “serem criativos”, oferecendo novas execuções e exibindo sua virtuosidade com todo tipo de diferentes trills e pausas e improvisações na melodia recebida. Novamente, isso pode ser um aspecto prazeroso de um concerto, mas na adoração cristã isso significa apenas que nós, a congregação, não conseguimos cantar junto. Então sua virtuosidade desperta nossa passividade; sua criatividade simplesmente encoraja nosso silêncio. E enquanto vocês possam estar adorando com sua criatividade, a mesma criatividade na verdade desliga a canção congregacional.

3. Se vocês, o grupo de louvor, são o centro da atenção, não é adoração. Eu sei que geralmente não é sua culpa que os tenhamos colocado na frente da igreja. E eu sei que vocês querem modelar a adoração para que nós imitemos. Mas por termos encorajado vocês a basicamente importar formas de execução do local do concerto para o santuário, podemos não perceber que também involuntariamente encorajamos a sensação de que vocês são o centro das atenções. E quando sua performance se torna uma exibição de sua virtuosidade — mesmo com as melhores das intenções — é difícil opor-se à tentação de fazer do grupo de louvor o foco de nossa atenção. Quando o grupo de louvor executa longos riffs, ainda que sua intenção seja “ofertá-los a Deus”, nós na congregação nos tornamos completamente passivos, e por termos adotado o hábito de relacionar a música com os Grammys e o local de concerto, nós involuntariamente fazemos de vocês o centro das atenções. Me pergunto se há alguma ligação intencional na localização (ao lado? conduzir de trás?) e na execução que possa nos ajudar a opor-nos contra estes hábitos que trazemos conosco para a adoração.

Por favor, considerem estes pontos com atenção e reconheçam o que eu não estou dizendo. Este não é apenas algum apelo pela adoração “tradicional” e uma crítica à adoração “contemporânea”. Não pense que isto é uma defesa aos órgãos de tubos e uma crítica às guitarras e baterias (ou banjos e bandolins). Minha preocupação não é com o estilo, mas com a forma: O que estamos tentando fazer quando “conduzimos a adoração?” Se temos a intenção que a adoração seja uma prática congregacional de comunhão que nos traz a um encontro dialógico com o Deus vivo — em que a adoração não seja meramente expressiva, mas também formativa² — então podemos fazer isso com violoncelos, guitarras, órgãos de tubos ou tambores africanos.

Muito, muito mais poderia ser dito. Mas deixe-me parar por aqui, e por favor receba esta carta como o encorajamento que ela foi feita para ser. Eu adoraria vê-los continuar a oferecer seus dons artísticos ao Deus Triuno que está nos ensinando uma nova canção.

Sinceramente,

Jamie

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Notas:
¹Desiring the Kingdom – Worship, Worldview, and Cultural Formation (Desejando o Reino – Adoração, Cosmovisão e Formação Cultural) [N. do T.]
² De acordo com o The Colossian Forum, a despeito de a adoração ser encarada hoje em dia apenas como algo que se vai em direção a Deus (expressão), ao longo da história ela sempre foi encarada também como a causadora de algo em nós (formação). “A adoração cristã é também uma prática formativa justamente porque a adoração também é um encontro ‘descendente’ no qual Deus é o atuante primário” (Fonte: http://www.colossianforum.org/2011/11/09/glossary-worship-expression-and-formation/). [N. do T.]

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Autor: James K.A. Smith
Fonte: Fors Clavigera
Tradução: Equipe Cante as Escrituras
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A Santa Ceia na Liturgia Cristã Reformada

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Resumo

Este artigo tem a intenção de fomentar a análise do momento apropriado para a celebração da Santa Ceia na igreja. Visa também tratar do modo incomum da celebração da Santa Ceia somente nas Escolas Bíblicas Dominicais, mostrando seus prejuízos aos membros, à igreja local e à proclamação do Evangelho aos visitantes da igreja. Por razão de não ser este modo claramente fiel ao que a História da Igreja nos mostra, também quanto às doutrinas bíblicas e teológicas reformadas, quanto a nossa Constituição Presbiteriana, nossos Princípios de Liturgia, Confissão de Fé (CFW), Catecismo Maior e Breve Catecismo etc., busco levar a liderança da igreja a uma análise mais aprofundada do tema, demonstrando que a Ceia deve estar presente em Culto Solene a Deus, sendo esta a correta ocasião para sua celebração, assim como o Sacramento do Batismo.

1. Introdução

Do Culto Religioso:

[...]“A leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela, em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos, com graças no coração, bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo - são partes do culto comum oferecido a Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, devem ser usados de um modo santo e religioso.”[2]

A Santa Ceia é uma parte importantíssima do culto cristão e é tido pelas igrejas reformadas como sendo um dos dois Sacramentos da igreja. Deste modo, ele é vital na doutrina cristã. Temos visto isso desde os tempos da reforma protestante com as grandes controvérsias, debates e confissões que têm sido desenvolvidas quanto a eucaristia. Por sua centralidade, não podemos deixar de lado tão grande doutrina na Igreja, e lidar com ela de modo impróprio no culto a Deus.

O Culto a Deus não é uma inovação, como muitas igrejas contemporâneas tem o tratado, modificando sua liturgia de acordo com suas vontades e concupiscências para agradar o maior número possível de pessoas. Deus mesmo é quem instituiu como deve ser feito o Culto e Adoração a Ele, não só no período neotestamentário, mas desde a Igreja no Éden[3]. As inovações e mudanças da ortodoxia da liturgia na Igreja devem ser fundamentadas profundamente na palavra de Deus, pois é a Deus que rendemos culto. Assim sendo, devemos tomar muito cuidado com as inovações que têm tomado lugar quanto a celebração da Ceia nos cultos de diversas igrejas no Brasil.

2. Memória do Sacrifício no Culto

O culto, como instituído por Deus, é memória do sacrifício vicário de Cristo, e nele o momento oportuno de louvor e adoração. Os sacrifícios no Antigo Testamento foram devidamente regulados por Deus na Antiga Aliança, assim como o é na Nova, em Cristo, sendo Jesus o verdadeiro e único sacrifício por nossos pecados. Seu corpo e sangue, na Santa Ceia do Senhor, como representação ou sinal, é parte integrante do Culto Solene a Deus e explícito nos Princípios de Liturgia da IPB:

O sacrifício no culto. Sem sacrifício não havia culto em Israel. O mesmo acontece com a Igreja e nela: A ideia de que o povo de Deus é fruto do sacrifício vicário de Cristo tem de, necessariamente, estar presente na liturgia comunitária, não somente na celebração da Santa Ceia, mas no culto em geral, mesmo quando não houver o ritual eucarístico. O culto existe porque, pelo derramamento de seu sangue expiador, o Cordeiro rasgou o véu do velho templo, dando acesso a todos os seus eleitos resgatados ao Santo dos santos, isto é, à adoração direta, sem intermediação, de seu augusto e inefável nome. Em nenhuma reunião cúltica autenticamente cristã o adorador pode olvidar a presença do efeito eficaz da imolação do Cordeiro imaculado em seu lugar e, como resultado desse reconhecimento, confessar os seus pecados. Culto sem contrição e confissão é incompleto e ineficaz como meio da graça. [...] [4]

Deste modo, a celebração da Ceia do Senhor não pode ser feita sem que seja em forma de Culto Solene a Deus, separando os elementos do vinho e do pão do uso comum, como comida ordinária, para o uso sagrado em Culto ao Senhor, em memória de Cristo e anunciando sua morte até que Ele volte:

“Nesta ordenança o Senhor Jesus constituiu seus ministros para declarar ao povo a sua palavra de instituição, orar, abençoar os elementos, pão e vinho, e assim separá-los do comum para um uso sagrado, tomar e partir o pão, tomar o cálice dele participando também e dar ambos os elementos aos comungantes e tão somente aos que se acharem presentes na congregação. Ref. Mar. 14:22-24; At. 20:7; I Cor. 11:20.”[5]

Assim sendo, a Santa Ceia deve ser um momento solene e sagrado, tendo sua devida explicação e compreensão daqueles que estão participando da mesa do Senhor. O pão e vinho não podem ser mal compreendidos, por exemplo, como sendo fisicamente o corpo e sangue de Cristo, como é feito na Igreja Romana. Tendo nosso país uma maioria Católica Romana, esta heresia é muito comum entre o povo, e se não for devidamente explicada e extirpada, leva a condenação divina e a contaminação da igreja de Deus. Do mesmo modo, a banalização da Santa Ceia é também condenável. Quando este Sacramento toma parte em ocasião qualquer sem a devida solenidade, ou tendo-a em pouca frequência, concedendo a Ceia do Senhor ao povo sem o devido culto a Deus, ou sem o devido caráter sagrado do sacramento, sem a compreensão de todo o seu caráter especial, também não é desejável na igreja.

Em nosso Culto a Deus na IPB, temos elementos que são essenciais e devem estar sempre presentes, como nos mostra os Princípios de Liturgia e o Catecismo Maior de Westminster. Entre eles está claramente delineado a presença “essencial” da Santa Ceia no Culto a Deus:

Elementos do culto. O culto tem elementos essenciais, estruturais, e constitutivos.
Elementos essenciais: A) - Palavra de Deus: lida e proclamada com autenticidade e fidelidade. B) - Oração comunitária, [...] C) - Santa Ceia, celebrada conforme instituída por Cristo Jesus, sem acréscimos e sem inovações. [...]” [6]
“P. 108. Quais são os deveres exigidos no segundo mandamento? R. Os deveres exigidos no segundo mandamento são - o receber, observar e guardar, puros e inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra, especialmente a oração e ações de graças em nome de Cristo; a leitura, a prédica, e o ouvir da Palavra; a administração e a recepção dos sacramentos; [...]” [7]

Assim, o Culto Solene, como sacrifício agradável a Deus, tem como parte essencial e integrante a Santa Ceia, a qual deve ser celebrada com toda reverencia no Culto, e somente extraordinariamente em outras reuniões:

“Resumo: Todo culto deve conter basicamente:
[...] c - Sacrifício, memorizado e recapitulado cerimonialmente na Santa Ceia. [...]” [8]


3. A Importância da Ceia do Senhor

A Santa Ceia. A Santa Ceia deve ser celebrada com simplicidade, mas reverência. Ao pastor compete levar a Igreja a um estado de contrição e introspecção, para que haja ambiente propício ao pleno entendimento do seu conteúdo e significado. O ritual da Ceia do Senhor emana da sua instituição por Jesus Cristo, conforme narrada nos evangelhos. Nada de inovação, de querer “melhorar” o que o divino Mestre deixou em atos e termos claríssimos. O pão previamente partido e o vinho distribuído em cálices individuais, atendendo às necessidades atuais de higiene e praticidade, não devem levar a Igreja ao entendimento de que a Ceia de Cristo seja individualizada. Ela é uma “refeição espiritual comunitária” tanto quanto sua antecessora, a Páscoa, o foi: uma comunhão da família de Cristo. No contexto da comunidade ou corpo de Cristo, cada comungante recebe das mãos de um presbítero o pão, deglutindo-o reflexiva e reverentemente, com a mente voltada para o Calvário, onde Cristo foi sacrificado por ele. O mesmo fazendo com o cálice, contendo o vinho, ingerindo-o com o pensamento voltado para o pacto da graça, realizado pelo Cordeiro mediante o derramamento de seu sangue.” [9]

A importância a Santa Ceia é indiscutível em todo o cristianismo e presente em toda sua história, e principalmente em nossa igreja. Mas seu significado para cada membro e visitante da igreja é muitas vezes superestimado.

A Ceia do Senhor tem grande significado e importância, como vimos, não sendo simples sua compreensão. Dada sua grande importância espiritual para cada participante da mesa, não se pode esquecer da grande oportunidade de, por meio da pregação da Palavra e da explicação do sacramento, declarar e expor detalhadamente o caráter e doutrinas presentes neste sacramento. Como por exemplo a morte de Cristo; o novo pacto em Seu sangue; os beneficiários desta expiação; a nova aliança; a operação do Espirito Santo sobre os crentes para sua salvação. Todas estas doutrinas são importantíssimas e vitais ao crente e inerentes à este sacramento, e devem ser pregadas, não só para os que participam da mesa do Senhor, (para que não participem indignamente), mas também para os não-crentes e visitantes. Assim neste sacramento pastor tem ocasião oportuna e devida de pregar o evangelho em sua completude.

Vemos também que por meio dos Sacramentos, o Senhor Jesus nos deixou novas leis cerimoniais que substituem antigas leis para a Igreja de Cristo. Eles são símbolos valiosos que exteriormente mostram os que são da família da fé e também anunciam a fé em Cristo Jesus e sua morte até Ele volte. Assim sendo, todos estes símbolos servem não somente à Igreja de Cristo, mas também ao mundo todo, à todas as pessoas, como testemunho. Assim sendo eles não devem ser celebrados em secreto, vetando a presença de pessoas de fora, (a não ser em caso de perseguição que impossibilitem sua realização), mas antes devem ser meios da pregação do Evangelho de Cristo ao mundo. Sua importância é evidente e declarada em nosso Princípio de Liturgia quanto a Santa Ceia:

Importância da Santa Ceia. A Ceia do Senhor é um poderoso “meio de graça”, quando entendida e avaliada corretamente. Ela representa, rememora ou revive os dois fundamentos mais importantes da fé cristã: A morte vicária de Cristo (o pão partido), e o novo pacto selado pelo imaculado sangue do Cordeiro (o cálice de vinho). Quem é beneficiário da expiação e da nova aliança tem de, necessariamente, estar à Mesa do Senhor, não por imposição do Conselho, mas por impulso do Espírito Santo. Deus não afasta da Mesa Eucarística o verdadeiro crente, pois a sua “alimentação espiritual” é imprescindível ao crescimento na fé e na graça.” [10]

Fica clara a importância da Ceia do Senhor na vida dos crentes, e como é essencial para o conselho assegurar que ninguém seja omitido neste Sacramento. É aconselhado que a Ceia esteja disponível aos enfermos e idosos, levando da Ceia celebrada no Culto anterior a eles.


3.1. A Solenidade da Ceia e do Culto

Na distribuição da Santa Ceia é necessária solenidade, que aqui é relacionada diretamente a própria solenidade do Culto a Deus. Sem a necessária solenidade, perde-se facilmente o foco da importância da Santa Ceia, o que incorre necessariamente em uma possível banalização do Sacramento, que deve rigorosamente ser evitado. Para isso se requer a exortação pastoral, que está presente no Culto a Deus pela pregação da Palavra, e em seguida havendo a distribuição solene dos elementos da Ceia, de modo que não faça perder o grande valor teológico e significativo deste Sacramento, como fica claro na Constituição da IPB:

Distribuição da Ceia. Um dos momentos mais sublimes e de maior visibilidade do Presbítero é o da distribuição da Santa Ceia. O pastor ministra e o presbítero distribui, devendo cumprir tal ato ministerial com solenidade, reverência, dignidade e respeito. A Igreja precisa sentir o valor teológico, o peso significativo e o sentido místico da eucaristia.” [11]

3.2. Participação na Ceia do Senhor

“Art. 14 - O Conselho deve cuidar de que os membros professos da Igreja não se ausentem da Mesa do Senhor e velar para que não participem dela os que se encontram sob disciplina.” [12]

Neste artigo 14 do Princípio de Liturgia da IPB, vemos que o Conselho deve assegurar que os membros em plena comunhão não se ausentem da Ceia do Senhor. Fica também implícito que o conselho não pode dificultar ou negar esse Sacramento aos membros professos e que não estão sob disciplina e que tem comunhão no Culto Solene a Deus. Deste modo, um possível argumento de tentar usar a Santa Ceia como meio de “coagir” os membros a participarem de reuniões (EBD), que não o próprio Culto Solene[13] a Deus na Igreja, não é correto. Esta ação acaba sendo puramente pragmática, não tendo base bíblica, teológica, nem mesmo em nossa Constituição, Princípio de Liturgia e Símbolos de fé da IPB, mas aparentemente visaria somente números, prejudicando a devida celebração do Sacramento.


Em nosso Catecismo temos as exigências para que um crente participe da mesa da Ceia do Senhor, e o modo que ele deve ser celebrado. Também nos mostra a importância da correta administração do Sacramento e da necessidade da exposição da Palavra de Deus quanto às implicações da Ceia. Tendo em vista a vastidão das doutrinas presentes nela e a compreensão dos ouvintes, não se pode negligenciar a ponto de que a Ceia e as doutrinas não sejam Pregadas Expositivamente pelo Ministro do Evangelho pelo menos na ocasião de sua celebração, uma vez ao mês, educando assim o povo de Deus e evitando que a Ceia seja tomada indignamente:

“P. 97. Que se exige para participar dignamente da Ceia do Senhor?
R. Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examine sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência; para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação. Ref. 1Co 11.27; 31-32; Rm 6.17-18.”[14]

Já quanto aos visitantes, e quanto ao argumento de que eles possivelmente não podem participar da Ceia do Senhor, tendo no Brasil várias seitas que doutrinariamente diferem de nossa igreja, o pastor deve ser prudente em oferecer a estes a Ceia, mas de forma alguma significa que o pastor ou o conselho deva evitar que a Santa Ceia seja celebrada no Culto Solene, (pensando haver no culto alguns visitantes não-crentes, o que não é caso comum na EBD), simplesmente pela presença de visitantes. O Santa Ceia deve sim ser celebrada no Culto Solene; e o pastor deve levar a igreja a um estado de contrição e introspecção, para que assim não incorra o pastor, a igreja e os visitantes em pecado. Não por meio da limitação da Ceia do Senhor para que ocorra somente na EBD:

Ceia a visitantes. Diante da promiscuidade de seitas supostamente evangélicas, o mais prudente é o pastor não oferecer a Ceia a visitantes de outras igrejas, para não correr o risco da oferta a indignos, que não saibam distinguir o verdadeiro significado comunitário e espiritual, não apenas ritual, da Ceia do Senhor. Além do mais, a Ceia é comunitária, não individual. Visitante, embora membro de outra denominação, não se integra na comunidade, não se arrola na família comungante específica. ‘Plena comunhão’ em outra denominação, qualquer delas com divergências doutrinárias com a nossa, não equivale à ‘plena comunhão’ na Igreja Presbiteriana do Brasil. Se o visitante estender a mão, apropriando-se da Ceia, a responsabilidade é dele, não do ministro oficiante ou do presbítero distribuidor. Se o faz indignamente, responderá por sua indignidade, segundo 1 Co 11. 27-29).” [15]

4. As Origens da EBD


A EBD é uma inovação da Igreja Protestante, não tendo sido parte da vida da Igreja por mais de 17 séculos. [16] Sua função principal é educar o povo e em seus primórdios tinha intenção de ensinar crianças a ler e escrever junto com instruções bíblicas. No modelo atual, há somente a intenção de preparar os neófitos no conhecimento das verdades bíblicas, tanto doutrinárias como teológicas, para que possam conhecer a Deus por meio das Escrituras, e estarem aptos para fazerem a boa confissão de fé, pura e verdadeira, e para adorarem a Deus de modo aceitável.

Em tudo isto podemos ver uma boa atitude da igreja, buscando educar o povo para serem fieis e sãos na fé ortodoxa. Mas fica claro também que a EBD de forma alguma substitui o Culto Solene a Deus ou pode ser igualado a ele, pois os dois têm funções totalmente diferentes. Assim sendo, uma pessoa não pode deixar de ter comunhão no Culto Solene tendo em vistas que participou da EBD anteriormente. Antes, deve participar do Culto Solene pois participou também da EBD, e entendeu a importância do Culto a Deus. O que as Escrituras claramente nos ensinam é a importância do Culto Solene a Deus, em comunhão com os santos, para louvor e adoração a Deus, proclamação da Palavra de Deus e seus Sacramentos.

Rev. Alderi Souza de Matos deixa muito claro as origens da EBD, seu foco principal inicial, tirando qualquer dúvida de que a EBD tenha a mesma importância solene do Culto a Deus ou que possa ser tida como meio principal de celebração da Santa Ceia:

“A moderna instituição conhecida como “escola dominical” teve como seu principal fundador o jornalista inglês Robert Raikes (1735-1811). Ele era natural da cidade de Gloucester e em 1757, aos vinte e dois anos, sucedeu o pai como editor do Gloucester Journal, um periódico voltado para a reforma das prisões. Nessa época, estava ocorrendo na Inglaterra o extraordinário avivamento evangélico, com sua forte ênfase social. Inspirado por outras pessoas, Raikes iniciou uma escola em sua paróquia em 1780. Ele ensinava crianças pobres de 6 a 14 anos a ler e escrever e dava-lhes instrução bíblica. [...]”. “Os primeiros dirigentes em geral eram leigos e líderes comunitários; o texto usado era a Bíblia e as matérias incluíam leitura, redação e valores cívicos e morais. Essas escolas dominicais prepararam o caminho para a criação de escolas públicas. [...]”. “A partir de 1800, os propósitos das escolas dominicais americanas passaram a ser instrução e evangelismo; elas transmitiam valores cristãos e o espírito democrático da nova nação. Era um trabalho não-denominacional ou, como se dizia na época, uma “associação voluntária”, reunindo pessoas de diferentes igrejas. [...]”. “Um evento comum em muitas igrejas presbiterianas brasileiras nas primeiras décadas do século 20 era o ‘Dia do rumo à escola dominical’, quando se fazia um esforço especial para trazer um grande número de visitantes. [...]” [17]

5. Conclusão – Momento Apropriado para Celebração da Santa Ceia


Depois de tudo isso, não se pode ver qualquer outra razão para a celebração da Santa Ceia do Senhor, se não em caráter extraordinário, em reuniões, EBDs etc., que não no próprio Culto Solene a Deus. Ocasião esta a mais correta para a sua celebração, pois a Ceia é parte integrante do Culto a Deus.

Assim, argumentos que sejam somente pragmáticos, que visem somente obter resultados numéricos em reuniões na igreja, ou somente motivados pelo número de presentes na Escola Bíblica, ou mesmo para fazer com que os crentes participem mais das atividades, não pode de forma alguma ocorrer por meio de coação, principalmente usando-se do Sacramento da Santa Ceia.

A igreja não pode se deixar seduzir, buscando inovações e métodos pragmáticos, comuns em muitas igrejas evangélicas, para obter seus resultados. O resultado vem de Deus; cabe a nós sermos fieis a Deus e à Sua obra. Pois como é óbvio a todos nós que estamos em Cristo, não se pode haver coação pragmática sobre os membros da igreja em nenhum sentido, mas antes oração e o convencimento do coração dos crentes que vem como obra do próprio Espirito Santo, operando também pela pregação do evangelho e pela admoestação. Além disso, nosso Princípio de Liturgia também deixa bem definida a ocasião correta para a celebração da Santa Ceia:

Quando celebrar. O Conselho determinará um domingo fixo do mês para a celebração da Ceia do Senhor, que tanto pode ser no culto público matinal como no vespertino. Algumas igrejas das grandes metrópoles celebram-na duas vezes por mês, uma de manhã e outra à noite, porque muitos irmãos, que podem frequentar os cultos matinais, não podem estar presentes nos vespertinos.”[18]

Logo, a Ceia do Senhor deve ser parte integrante do Culto Solene, não só por seu simbolismo e espiritualidade; sua solenidade, sacralidade e importância; mas também por ela ser inseparável do Culto a Deus, símbolo da morte vicária de Cristo, que nos deu vida, e um poderoso “meio de graça”[19] ao povo de Deus, (assim como para os visitantes, que não tomando parte na mesa, ainda assim podem ver Cristo neste Sacramento), pois em Cristo nos tornamos aptos a render Culto que agrade a Deus.


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Bibliografia:
• SANTOS, Daniel. A Plantação da Igreja no Éden, FIDES REFORMATA, v. XIX, No. 1, p. 49, Editora Mackenzie, 2014.
Confissão de Fé de Westminster, Cap. XXVIII, parágrafo III., Capítulo XXI, parágrafo V.
Catecismo Maior de Westminster, pergunta 108.
• Catecismo Breve de Westminster, pergunta 97.
• IPB, Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 40, Art. 31, a)., p. 71, Art. 54, a).
• IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 14., Art. 17., Art. 13, Cap. 3 (Culto Público) Art. 8, p. 
• 165., Apêndice (Praticas Ministeriais), Pastoreio da Igreja, XV. 15.
• Sunday School, Autor: Anônimo. Disponível em:
<http://en.wikipedia.org/wiki/Sunday_school>. Acessado em: 9 de dez. 2014.
• Pequena História da Escola Dominical. Autor: Rev. Alderi Souza de Matos. 
Disponível em: <http://www.mackenzie.br/6980.html>. Acesso em: 30 de nov. 2014.

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Notas:
[1] Escola Bíblica Dominical, o mesmo para todas as outras siglas EBD.
[2] Confissão de Fé de Westminster, Capítulo XXI, V. (Ênfase minha)
[3] Cf. SANTOS, Daniel. A Plantação da Igreja no Éden, FIDES REFORMATA, v. XIX, No. 1, p. 49, Editora Mackenzie, 2014.
[4] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 3 (Culto Público) Art. 8, p. 165.
[5] Confissão de Fé de Westminster, Cap. 28, parágrafo III. (Ênfase minha)
[6] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 3 (Culto Público) Art. 8, p. 165. (Ênfase minha)
[7] Catecismo Maior de Westminster, pergunta 108.
[8] IPB, Princípios de Liturgia, Apêndice (Praticas Ministeriais), Pastoreio da Igreja, XV. 15.
[9] IPB, Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 40, Art. 31, a).
[10] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 13, p. 174.
[11] IPB, Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, p. 71, Art. 54, a).
[12] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 14.
[13] IPB, Princípios de Liturgia, p. 175, Art. 17.
[14] Catecismo Breve de Westminster, pergunta 97.
[15] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 13, p. 175
[16] Sunday School, Autor: Anônimo. Disponível em:
<http://en.wikipedia.org/wiki/Sunday_school>. Acessado em: 9 de dez. 2014.
[17] Pequena História da Escola Dominical. Autor: Rev. Alderi Souza de Matos. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/6980.html>. Acesso em: 30 de nov. 2014.
[18] IPB, Princípios de Liturgia, p. 175, Art. 17.
[19] IPB, Princípios de Liturgia, Cap. 7, Art. 13, p. 174.

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Autor: Bruno Luiz Silva Rodrighero é Seminarista pela Igreja Presbiteriana do Brasil, no Seminário Presbiteriano Brasil Central – Extensão Rondônia. Está cursando seu segundo ano e faz estágio na 2ª IPB de Ji-Paraná, RO.
Divulgação: Bereianos
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A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (Parte 2)

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A inversão axial da relação culto/cultura

Podemos afirmar ousadamente que aqueles que não cumprem o Princípio Regulador do Culto, ou que, no afã aparentemente louvável de diluir os elementos do culto na cultura local, alteram suas liturgias, são não apenas idólatras e insinceros, mas também solapam quaisquer tentativas de redenção cultural.

Ora, Kuyper já havia dito que uma cultura pode subsistir sem a arte (o que a empobrece, evidentemente), porém não sem a religião. Russel Kirk já atentara para o fato de que toda cultura (como a própria etimologia aponta) provém de um cultus. Dito de outro modo, a religião é o embrião de toda civilização, assim como o cimento que coere seus indivíduos organicamente. Não cabe aqui explorar todos as nuances e complexidades dessa questão – Christopher Dawson, o grande historiador católico, já estabeleceu e explorou tais princípios em seu livro Progresso e religião.

Destarte, se a cultura procede de um culto, aqueles que buscam moldar seu culto segundo a cultura estão efetivamente invertendo a ordem lógica e até mesmo antropológica da questão. Não estamos afirmando que a liturgia é um elemento abstrato e desencarnado que exige a supressão (impossível) de nossas tradições e costumes. Pelo contrário, o cristianismo é encarnacional: diferentemente do islamismo, ele não suprime a cultura “receptora”, antes, a redime. Isso é evidente ao longo de toda a história da Igreja – a Escola de Alexandria, dada a influência mística dos sábios que ali habitavam, praticavam uma exegese mais alegórica e espiritualizada, ao passo que a Escola de Antioquia, na Síria, também devido às influências, apresentava uma hermenêutica mais literalista. Até mesmo dentro de uma mesma tradição, há diferenças cruciais; basta compararmos as igrejas reformadas escocesas e as holandesas. Portanto, não reivindicamos a supressão de traços culturais dentro dos cultos, todavia, protestamos resolutamente contra a primazia da cultura sobre a liturgia.

Conforme dito, Deus, com efeito, deu ao homem aquilo que os neocalvinistas chamaram de Mandato Cultural, ordenado desde a criação do homem: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28). A criação está prenhe de possibilidades e potencialidades (At 14:17), que devem ser exploradas e descobertas pelo homem, desenvolvidas segundo os princípios normativos de Sua Lei e direcionados à glória de Deus (1 Co 10:31-33). Ora, estruturalmente toda a criação é boa, conforme assevera o relato de Gênesis, entretanto, nas palavras de Albert Wolters, o homem pode conduzi-la segundo uma direção transgressora da lei divina e corruptora de sua (da criação) bondade intrínseca. É interessante notar que logo após o relato da descoberta da música – “o nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta” (Gn 4:21) –, o livro de Gênesis nos apresenta de forma quase imediata os efeitos da depravação, que se estendem até mesmo a essas potencialidades que o SENHOR embutiu na Sua criação:

E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4:23-24).

Lameque, com seu coração pervertido pelo pecado, conspurca a musicalidade, criando para si um cântico que exalta uma retaliação totalmente desproporcional à injúria sofrida.


A cultura, embora se fundamente, em última instância, na revelação, caso não seja direcionada segundo as diretrizes proposicionais da lei de Deus, certamente será deturpada pela pecaminosidade humana. Ora, nesse sentido, o Princípio Regulador do Culto se configura como um parâmetro objetivo, que nos resguarda das alterações e deformações do culto dedicado a Deus. Nas palavras de Michael Bushell, citado por Brian Schwartley, “de modo particular, o Princípio Regulador do Culto pode ser visto como uma inferência natural da doutrina da depravação total [...] Qualquer obra das mãos do próprio homem, que ele presume oferecer a Deus em adoração, é poluída pelo pecado e é, por essa razão, totalmente inaceitável” (SCHWARTLEY, Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, p. 42).

Em Êxodo 20:25, o SENHOR dá instruções tão precisas e concisas relativas à construção do altar dedicado ao Seu nome, que o simples desvio era, por si só, considerado profanação:

Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois, se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás (Êxodo 20:25, ARA).

Um dos possíveis motivos dessa prescrição (que também pode ser vista em Deuteronômio 27:5-6) é a diferenciação que se pretende traçar entre o altar israelitas e os altares pagãos. Os santuários das nações vizinhas estavam repletos de desenhos e entalhes minuciosos idólatras e não raro eróticos (Ezequiel 8:5-18). Dessa forma, a simplicidade e rusticidade do altar do SENHOR seriam um nítido contraponto com as demais religiões. Além disso, o fato de não poderem cortar as pedras com instrumentos de ferro demonstra que os israelitas (que naquela época não dominavam a técnica da metalurgia) não deveriam depender de nenhuma nação pagã circunvizinha (os cananeus, por exemplo, eram mestres na siderurgia) para auxiliá-los na adoração a Deus.


Ora, ademais, o altar bruto nos ensina que nossa cultura, por mais refinada que seja, não deve aparar, ornamentar, burilar ou remoldar o culto a Deus. Pelo contrário, a simplicidade do culto é a condição essencial para a restauração e evolução cultural. O meio reformado se encontra premido por dois posicionamentos – primeiramente, aquilo que já abordamos na primeira parte deste artigo, a saber, o gramscianismo que se quer passar por kuyperianismo, “valorizando” e acolhendo em suas comunidades todos os tipos de monstruosidades teológicas e estéticas que se querem fazer passar por música ou arte cristãs. Alguns chegam ao ponto de elencar o brilhante Schaeffer como seu mestre e orientador, como se esse grande pensador cristão, admirador da alta cultura e da cosmovisão bíblica, fosse admitir que a mentalidade reformada fosse conspurcada por elementos como DJ’s, cultos jovens, apresentações teatrais, motoclube, etc.

Em segundo lugar, o meio reformado enfrenta também o perigo do empobrecimento cultural e artístico, como no caso da ala neopuritana, a qual chega a proibir até mesmo as representações iconográficas de Jesus Cristo, com o argumento de que se constituem como transgressão do segundo mandamento. Creio que, ainda que essa mentalidade dominasse inteiramente nosso Ocidente, seus defensores teriam certa dificuldade em incinerar e arruinar a vasta quantidade de quadros, representações, mosaicos, afrescos, telas, etc., que estão presentes nos grandes museus da Europa e Américas, movidos por uma estranha espécie de futurismo puritanista, no afã de apagar a história, que passa a ser concebida como uma simples sequência de eventos idólatras, ao invés do locus da Providência. Tudo isso, podemos dizer, para que, ao fim de seu esforço iconoclasta, percebam aquilo que Nathaniel Hawthorne, brilhante escritor puritano, já havia entrevisto em seu conto Earth’s Holocaust [O Holocausto da Terra], no qual as pessoas se reúnem perante uma grande fogueira, uma espécie de conflagração cósmica, a fim de lançar ao fogo todos os livros, pinturas, objetos, etc. que os lembrassem do passado – a conclusão do conto:

“O Coração – o Coração – havia ainda essa pequena mas ilimitada esfera, na qual subsiste o erro primordial, do qual o crime e a miséria deste mundo visível são simplesmente tipos. Purifique essa esfera interna; e as várias formas de mal que assombram o exterior, e que presentemente aparentam ser a quase totalidade de nossas realidades, tornar-se-ão em meros espectros sombrios, desparecendo por contra própria” (Nathaniel Hawthorne, Tales & Sketches, p. 906, tradução nossa).

Ora, a religião, e em especial um de seus elementos, a liturgia, não devem castrar a arte – isso é confusão de esferas de soberania, e, portanto, transgressão das leis criacionais de Deus. Como já disse Rookmaaker, “a arte não precisa de justificativa”. Tal afirmação, no entanto, não implica na autonomia da arte ou seu desprezo pela cosmovisão bíblica; pelo contrário, toda e qualquer esfera somente realiza e concretiza suas potencialidades quando se encontra pautada nos pressupostos bíblicos, levando em consideração os pilares do macrodrama da história salvífica: Criação, Queda, Redenção e Consumação. Portanto, afirmarmos de fato que o Princípio Regulador do Culto deve exercer sua autoridade e vigilância de forma intransigente – mas na área que lhe cabe: o culto público e privado (no lar e na devoção particular). Jamais deve transgredir os limites de sua própria esfera, com o risco de se tornar pietismo ou iconoclastia gnóstica. Em suma, não se pode negar, todavia, o excelente trabalho litúrgico, incluindo a publicação de obras teológicas que enfatizam e explanam o Princípio Regulador do Culto, livros que se fazem extremamente necessários nesse nosso contexto eclesiástico sincrético e idolátrico, que efetivamente precisa ser purificado por uma nova reforma direcionada pelo Espírito de Deus.


Herman Bavinck, em uma de suas palestras sobre a relação entre Revelação e cultura, lança as bases de um pensamento que se apresenta como uma alternativa ao atual dilema do meio reformado. Para o teólogo holandês, a religião não é o cão de guarda da cultura, e esta, por sua vez, não é autônoma nem livre para conceber uma ética alheia à Lei de Deus. Nas palavras de Bavinck:

A ciência, arte e moralidade são cognatas em origem, essência e sentido à religião, pois todas se baseiam na crença num mundo ideal, cuja realidade é assegurada e garantida somente pela religião, isto é, da parte de Deus por meio da revelação. 
Indubitavelmente tem havido um empenho para tornar a cultura ética independente da religião. Todavia, tal tentativa é ainda nova e restrita a um pequeno círculo e provavelmente há de ter pouco êxito. É sem dúvida uma desonra para a religião servir como um agente policial ou como um cão de guarda da moralidade. Religião e moralidade não estão unidas nesse modo externo e mecânico, mas estão em aliança entre si de forma orgânica, por causa de suas naturezas íntimas. O amor a Deus inclui o amor ao nosso próximo, e este se reflete naquele, pois o bem se apresenta a todos nós, desde nossa tenra idade, na forma de um mandamento. Nem a ética autônoma nem a ética evolucionista podem mudar algo nisso. A criança não cria gradualmente leis morais por meio do instinto ou reflexão, antes, ela cresce num círculo que possuía anteriormente essas leis e que as impõe sobre ela com autoridade. À medida que olhamos para as nações e examinamos a história da humanidade, testemunhamos muita hesitação e variedade, no entanto, sempre encontramos, por toda parte, um fundo de leis morais. Todo homem reconhece que, na moralidade, existe uma lei que lhe é sobreposta, obrigando-o, em sua consciência, à obediência. Se de fato é assim, então, nesse surpreendente fenômeno, estamos lidando ou com uma ilusão, ou com um sonho, ou como uma fantasia da humanidade, ou, ainda, com uma realidade que se eleva bem acima do mundo empírico e nos preenche com a mais profunda reverência (BAVINCK, Philosophy of Revelation, p. 260-261, tradução nossa).

Se queremos de fato
renovar a nossa cultura já degradada, será necessário primeiramente desistir de nossas pretensões idolátricas de renovação do culto. Um culto que não se sustenta sobre as firmes bases das Escrituras, deixando espaço para a autonomia humana, produzirá eventualmente uma cultura também autônoma, que se opõe a tudo que está relacionado à Lei de Deus.

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Autor: Fabrício Tavares
Fonte: Bereianos

Leia também: A gnose no contexto eclesiástico brasileiro (parte 1)
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Algumas objeções contemporâneas no âmbito do Culto consideradas e refutadas - 2/4

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3. Argumento de que “O Princípio Regulador do Culto Aplica-se apenas ao Templo”.

Um outro argumento popular contra o princípio regulador do culto baseia-se na ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao culto no tabernáculo e no templo. Esta ideia baseia-se no contexto da citação clássica do princípio regulador, Dt 12:32, e na noção de que Deus era muito exigente com o culto do tabernáculo/templo apenas porque o serviço do templo tipificava a pessoa e a obra de Jesus Cristo. Se este argumento for aceito, pode-se concluir que: (1) O culto descentralizado em Israel que ocorria na sinagoga não era estritamente regulado. Em outras palavras, os israelitas podiam fazer o que bem desejassem no culto desde que não violasse o ensinamento expresso da Escritura (esta é essencialmente a concepção episcopal-luterana do culto aceitável); (2) O princípio regulador foi ab-rogado com a morte de Cristo quando o Seu sacrifício perfeito tornou desnecessário o culto do templo; (3) Portanto, a igreja da nova aliança não tem nada a ver com o princípio regulador e tem a liberdade para criar ritos, cerimônias e dias santos conforme desejar, desde que as invenções humanas não violem ou contradigam a Palavra de Deus.

A ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao serviço do santuário central deve ser rejeitada por várias razões. Primeira, a noção de que Dt 12:32, pelo fato de ser dado numa seção que trata primariamente do tabernáculo, aplica-se apenas ao tabernáculo é simplesmente adotada sem comprovação exegética. É-nos dito em alguma parte do capítulo 12, ou em qualquer outro lugar em todo Velho ou Novo Testamentos, que o princípio de acrescentar ou subtrair está limitado ao tabernáculo ou templo? Não, não nos é dito. Mas, será que não podemos inferir do contexto que este princípio extremamente explícito aplicava-se apenas ao tabernáculo/templo? Não. Na verdade, o contexto prova exatamente o oposto. Conquanto é verdade que o capítulo 12 contém uma extensa discussão sobre o santuário central (em particular sobre a necessidade de se oferecer sacrifícios e oferendas no santuário central) o contexto de Dt 12:32 fala também da repressão à idolatria e ao sincretismo com o culto pagão que podem ocorrer não apenas no tabernáculo, mas em toda a terra de Israel. Observe o contexto imediato da passagem:


Quando o SENHOR, teu Deus, eliminar de diante de ti as nações, para as quais vais para possuí-las, e as desapossares e habitares na sua terra, guarda-te, não te enlaces com imitá-las, após terem sido destruídas diante de ti; e que não indagues acerca dos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações aos seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Não farás assim ao SENHOR, teu Deus, porque tudo o que é abominável ao SENHOR e que ele odeia fizeram eles a seus deuses, pois até seus filhos e suas filhas queimaram aos seus deuses. Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás (Dt 12:29-32).

A passagem aplica-se não apenas ao comportamento no tabernáculo, mas às praticas de culto em toda a terra de Israel. Se Dt 12:32 aplicava-se apenas ao santuário central, por que razão seria ele usado como texto fundamental para suprimir a idolatria pagã em todo o país? O culto pagão cananeu era descentralizado, com ídolos do lar, sítios pagãos, lugares altos e bosques sagrados. Será que devemos crer que Dt 12:32 preocupa-se apenas com o sincretismo dentro do tabernáculo? O versículo 31 preocupa-se apenas em suprimir o sacrifício de crianças dentro do tabernáculo? É claro que não! O contexto de Dt. 12:32 prova que ele não está restrito apenas ao tabernáculo/templo.


A segunda razão é que Dt 12:32 não pode ser interpretado à parte de passagens virtualmente idênticas, que afirmam sola scriptura, que se aplicam não apenas ao tabernáculo/templo, mas à vida como um todo. As passagens de sola scriptura ensinam que a igreja não tem autonomia ou autoridade legislativa quanto a ordenanças de doutrina, ética ou culto. Observe as seguintes passagens: ―Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando (Dt 4:2). Toda palavra de Deus é pura... Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso (Pv 30:5-6).

Já chamamos a atenção, na nossa discussão de Dt 4:2, que é pecaminoso para o homem criar as suas próprias regras éticas. Os membros da igreja ficariam justamente irados e ultrajados se seu pastor ou conselho decretasse que comer carne às sextas-feiras, ou usar jeans, ou andar de bicicleta era agora pecaminoso e merecedor de censura eclesiástica. Deuteronômio 4:2 também proíbe as autoridades da igreja de fazerem subtrações ou acréscimos ao culto prescrito na Escritura. A única forma de Dt 4:2 ser contornado pelos opositores do princípio regulador é pretextar que o culto a Deus não é assunto prescrito da lei, mas que pertence à esfera das coisas indiferentes (adiaforia). A ideia de que o culto a Jeová (o dever mais sagrado e importante da igreja) é adiafórico é impossível por dois motivos. Primeiro, a adiaforia refere-se apenas aos assuntos indiferentes que não são ordenados nem proibidos, que não são diretamente regulados pela Escritura. O culto, entretanto, é ordenado por Deus. Segundo, as áreas da adiaforia são opcionais. O culto não é opcional. Dt 12:32, que é virtualmente idêntico a 4:2, é dado no contexto do culto para enfatizar: (1) a autoridade exclusiva da Escritura sobre o culto, (2) a falta de autoridade legislativa do povo da aliança para determinar ou criar o seu próprio culto e (3) a necessidade de ater-se estritamente ao que diz a Palavra de Deus para evitar os acréscimos humanos que, por causa da depravação humana herdada, levam ao sincretismo e ao pecado. O princípio regulador é simplesmente o sola scriptura aplicado à esfera do culto. Aqueles que aplicam Dt 12:32 apenas ao templo, fazem-no somente porque não entendem Dt 4:2 e a completa aplicação da sola scriptura.

Terceira razão, a ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao templo ignora o fato de que o culto no tabernáculo/templo continha ordenanças cerimoniais e não cerimoniais. O sacrifício de animais, a queima de incenso e o uso sacerdotal e levítico de instrumentos durante o sacrifício eram cerimoniais. Mas a leitura da Escritura (1Ts 5:27; Cl 4:16; 1Tm 4:13), a oração (Mt 6:9; 1Ts 5:17; At 4:31; 1Co 11:13-15; Fp 4:7; Tg 1:5) e o cântico de louvor (Mt 26:30; At 16:25; 1Co 14:26; Ef 5:19; Cl 3:16; Hb 13:15; Tg 5:13) não eram cerimoniais. Tal afirmação prova-se pelo fato de que a leitura da Escritura, a oração e o cântico de louvor são, todos eles, aspectos integrais do culto cristão após a dissolução do templo e a ab-rogação das ordenanças cerimoniais. Por isso, é extremamente simplista e exegeticamente falaz argumentar que o princípio regulador foi anulado juntamente com a ordem cerimonial. Se o princípio regulador aplicava-se ao culto do templo, então, ele regulava o culto não cerimonial que lá ocorria.

Aqueles que argumentam que o princípio regulador aplicava-se somente ao templo que foi, portanto, ab-rogado com a lei cerimonial, são culpados de fazerem uma antítese total entre o culto no templo e o culto público na sinagoga/culto público cristão. Não se pode negar que o culto no templo tipificava Cristo e Sua obra. Não se deve, entretanto, subestimar o fato de que o templo era também um lugar de culto (Jo 4:21) e oração (Mt 21:13). Alguns dos elementos cruciais do culto público cristão foram praticados primeiramente no templo. Bushell escreve:

Para o judeu do Velho Testamento o ritual do templo era a imagem viva da adoração e todos os exercícios de piedade estavam, de uma forma ou de outra, atrelados àquela fonte. As práticas litúrgicas na sinagoga correspondiam, em muitos casos, diretamente às do templo. A oração, por exemplo, era oferecida na sinagoga no mesmo momento das oferendas do templo. Fora deste lugar de culto, a oração era sempre feita com a face voltada para o Templo, ou Jerusalém. As sinagogas eram consideradas santuários em miniatura, a ponto de sua mobília (tais como a arca e o candelabro de sete braços) ser calcada na do templo. Por isso, considerando a importância do templo até mesmo para o culto fora de Jerusalém, seria razoável postular um grau maior de continuidade entre a prática do culto cristão e certos aspectos da liturgia do templo; uma continuidade maior do que grande parte das autoridades está disposta a admitir. A escassez de referências na literatura quanto à influência da liturgia do templo no culto cristão é uma situação desequilibrada que precisa muito ser corrigida. É nossa opinião que o templo, e não a sinagoga, é a referência final para certos aspectos mais importantes no culto cristão. O fato de que muitos desses aspectos podem ter sido intermediados pela sinagoga está além da questão, pelo menos até onde vai a nossa preocupação com o assunto. [78]

Apesar de serem feitas certas tentativas de se limitar o princípio regulador ao templo, elas não têm absolutamente qualquer fundamento na Escritura. O culto do templo prova em si mesmo que o princípio regulador não pode estar restrito às ordenanças cerimoniais.

Quarta razão, há algumas passagens que aplicam o princípio regulador fora da esfera do culto do tabernáculo/templo. Se existir na Escritura pelo menos uma palavra que aplique o princípio regulador fora do culto do tabernáculo/templo, então a afirmativa de que o princípio regulador aplica-se apenas ao templo cai por terra. Vamos examinar três passagens.  

Em Mt 15:1-3 Jesus condenou os fariseus por acrescentarem a lavagem ritualística, que ocorria em casa e não no templo, à lei. Então, vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, lhes respondeu: Por que transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Esta passagem constitui um sério problema para aqueles que ensinam que o princípio regulador aplicava-se apenas ao templo, e que as tradições criadas pelos homens são permitidas desde que não violem o claro ensinamento da Escritura. Onde, na Palavra de Deus, condena-se a lavagem das mãos? Se os acréscimos humanos são permitidos na esfera religiosa, o que poderia ser mais inocente, útil e prático do que um simples lavar de mãos? Entretanto o nosso Senhor não apenas recusou submeter-se a esse ritual religioso criado pelo homem como também repreendeu vigorosamente os fariseus por adicionarem uma regra humana à Palavra de Deus. Lavar as mãos é algo bem apropriado; pode-se desejar que fosse sempre praticado; mas elevá-lo à condição de ritual religioso é estultícia e pecado[79]. Os discípulos de Cristo foram bem treinados, pois sabiam que qualquer tradição humana, não importa quão boa e inocente, não deve ser observada quando recebe do homem, sem a sanção divina, status e significado religioso. Observe, as imposições ilegais [tradições humanas no culto] ficarão sob a responsabilidade dos que as sustentam, defendem, e as fazem vigorar, tanto quanto dos que primeiramente as inventaram e delas gozaram[80]. A antiguidade e os Pais [da Igreja] sem a Escritura são a velha cartilha dos supersticiosos formalistas... Daqui aprende-se que Deus em sabedoria põe em discussão as cerimônias dos homens para que sejam refutadas e condenadas.[81]

Jesus é um ardente defensor do princípio regulador. Ele rejeita a mais inofensiva das tradições religiosas e mostra-nos também como as tradições e leis humanas desviam e, portanto, invalidam a sentença sobre aquilo que Deus condenou. Rutherford escreve:

Os fariseus criticaram quando viram alguns dos discípulos comendo pão com as mãos sem lavar. Exigia-se a justificativa para a omissão de um ritual exterior, visível aos olhos. Essas tradições, entretanto, não são condenadas por Cristo por serem contrárias à Palavra de Deus ou por serem ímpias, mas por não serem ordenadas. Eles não acusavam os discípulos de Cristo da impiedade de qualquer sentimento perverso quanto a essas tradições, ou de crítica íntima ao ritual religioso de lavar as mãos, nem disputavam com eles sobre se as tradições dos anciãos deveriam, ou não, ser estimadas como a essência e a totalidade de todas as religiões, como disse Vasquez*, mas altercavam tão somente sobre a concordância externa em seguir, ou não seguir, a tradição dos anciãos, como está mais do que claro no texto. Cristo, na verdade, desaprovou o fato de terem maior consideração às tradições dos homens do que aos mandamentos de Deus, como os papistas e os formalistas o fazem; mas não era esse o ponto em questão entre os discípulos de Cristo e os fariseus. Cristo rejeita tais tradições com o argumento da falta de um Autor legal, quando as chama de preceitos de homens em oposição aos mandamentos de Deus.[82]  

As pessoas que se opõem ao princípio regulador tentam, frequentemente, contornar a importância óbvia dessas passagens apelando para o contexto. Dizem que o exemplo apresentado por Cristo nos versículos 4 e 5 (de alguém que segue a tradição para esquivar-se de sustentar seus pais na velhice) nos informa que Cristo tinha na mente apenas as tradições negativas, isto é, as tradições que anulavam, abandonavam ou contradiziam à Palavra de Deus. O problema dessa interpretação é que ela ignora completamente o versículo 2, o confronto original que resultou na respostas de Jesus nos versículos de 3 a 9. Jesus exemplifica por que é errado acrescentar exigências humanas à Palavra de Deus. Elas terminam por suplantar a Palavra de Deus. (Quem conhece o judaísmo ou a história da igreja sabe que o ensinamento de nosso Senhor é verdadeiro). O fato de Cristo dar tal exemplo não minimiza jamais o verso 2, onde a mais inocente e aparentemente inofensiva das tradições humanas (lavar as mãos) é considerada totalmente imprópria. Como é que o fato de alguém lavar as mãos pode contradizer, violar, ou pôr de lado a Palavra de Deus? Jesus condena os fariseus por presumirem (ao contrário da Palavra de Deus) que os líderes religiosos têm autoridade legislativa na igreja. Quando tais líderes atribuem a si mesmos a autoridade de inventarem doutrinas ou mandamentos, o resultado final é decadência e mesmo apostasia. Observe que nos versículo 9 Jesus condena claramente todas as doutrinas e mandamentos humanos na religião. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens (Mt 15:9; cf. Is 29:13).

Além disso, a passagem paralela de Marcos 7 põe termo ao assunto definindo-o, porque nessa narrativa Jesus identifica explicitamente as tradições que Ele condena, como inclusive as lavagens religiosas[83]. Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens, como o lavar dos jarros e dos copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição (Mc 7:6-9). É tão fácil destruir a autoridade da Palavra de Deus pelo acréscimo quanto o é pela subtração, tanto soterrando-a sob as invenções humanas quanto negando a sua verdade. A Bíblia toda, e nada a não ser a Bíblia, tem de ser a nossa regra de fé — sem acréscimos ou amputações.[84] O nosso Senhor não só condena as tradições humanas negativas, más ou contraditórias, mas a todas elas sem exceção. Spurgeon escreve:

A religião baseada na autoridade humana é inútil; devemos adorar ao verdadeiro Deus da maneira que Ele mesmo determina, ou não estaremos adorando-O jamais. Doutrinas e mandamentos só devem ser aceitos quando têm a sustentação da Palavra, e só por esta razão é que serão aceitos. A forma mais meticulosa de devoção será vã adoração, se for regulamentada por ordenanças humanas à parte dos próprios mandamentos de Deus.[85]  

Após um breve exame do ensinamento de Cristo no contexto só se pode concluir que o argumento de que nosso Senhor está condenando apenas certas tradições religiosas perniciosas, e não a toda e qualquer tradição humana, é "eisegesis" da pior qualidade. A tentativa de se burlar passagens que provam o princípio regulador, como Mateus 15:2-9, não são novas, mas são (de forma geral) reedições de antigos argumentos papistas e de lideranças eclesiásticas há muito rejeitados pelas igrejas reformadas. Observe as palavras de Zacarias Ursinus (escritas na década de 1570 e publicadas pela primeira vez na década de 1580):

Alguns há que se opõem ao que dissemos aqui, afirmando, como apoio à pretensa religiosidade, que as passagens que citamos condenando-a referem-se apenas às cerimônias instituídas por Moisés e aos mandamentos humanos ilegítimos que não fazem parte do culto a Deus, e não aos preceitos sancionados pela igreja, e bispos que nada ordenam contrário à Palavra de Deus. Mas a falsidade deste argumento pode ser provada por certas declarações, análogas às passagens da Escritura que citamos, que também rejeitam àquelas leis humanas, que, em sua própria autoridade, nada prescrevem com referência ao culto divino que Deus não tenha ordenado, embora, em si mesma, a coisa não seja pecaminosa nem proibida por Deus. Embora não fosse pecaminosa em si mesma, Cristo rejeita a tradição dos judeus quanto ao lavar as mãos, pois associavam a ela a ideia de culto divino, dizendo assim: Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem e Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! (Mt 15:11; 23:25). O mesmo se aplica ao celibato e à discriminação entre dias e tipos de carnes, ao que Ele chama de doutrinas de demônios, embora sejam intrinsecamente legítimas ao piedoso, como Ele ensina noutra parte. Por isso, aquelas coisas que são em si mesmas indiferentes, que não são ordenadas nem proibidas por Deus, se forem prescritas e realizadas como culto a Deus, ou se delas se supor que Deus seja honrado quando as executamos e desonrado quando as negligenciamos, é claramente manifesto que a Escritura as condena, nestas e em outras referências.[86]

Outra passagem da Escritura que desaprova a teoria do apenas ao templo é Cl 2:20-23: Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. O apóstolo Paulo, escrevendo sob a inspiração do Espírito Santo, vários anos após o princípio regulador ter sido supostamente abolido, impôs rigorosamente o princípio regulador.

Paulo diz que qualquer adição ao que Deus ordenou ou autorizou é religião auto-imposta, ou como diz a versão do rei Tiago, culto da vontade [ou culto de si mesmo, ARA ou pretensa religiosidade, NVI]. A palavra grega usada por Paulo (ethelothreskeia) significa culto que se origina da própria vontade do homem. Este não é o culto ordenado por Deus, mas que brota da própria ingenuidade do homem; é devoção não autorizada... O referido culto não é solicitado nem aceito. É superstição...[87]

O essencial é que essas ordenanças são formas de culto ou de ato religioso escolhido pelo homem, conforme a vontade do homem, não significa escolhidos por Deus. Este é o cerne do culto corrupto: quando os homens procuram estabelecer as suas próprias formas de culto. Podemos chamá-lo de culto tipo livre escolha, pois os advogados do culto feito pelo homem alegam que o homem tem o direito (ou a liberdade) de instituir meios aceitáveis para adorar a Deus.[88] 

Paulo diz que fazer acréscimos à Palavra de Deus é uma demonstração de falsa humildade. Será que o homem é capaz de melhorar a adoração e o ato de culto que Deus instituiu? É o ápice da arrogância e da estupidez pensar que o homem pecador pode melhorar as ordenanças de Deus. É provocar a Deus, pois isso recai sobre a Sua honra, como se Ele não fosse sábio o suficiente para determinar o modo do Seu próprio culto. Ele odeia todo fogo estranho oferecido em Seu templo. Lv 10:11. Uma cerimônia [qualquer] pode a um tempo [qualquer] levar a um crucifixo. Aqueles que defendem o uso do sinal da cruz no batismo, por que não defendem também o óleo, o sal e o creme?[89] Como diz Paulo: a regras e regulamentos feitos pelo homem não têm valor algum para o que crer (Cl 2:23).

Os oponentes do princípio regulador tentam contornar o ensinamento de Colossenses de modo semelhante à passagem de Mt 15:2. Eles pretendem que Paulo não está condenando a todas as tradições humanas, mas que só está preocupado com a eliminação de certos tipos de ascetismo. Em outras palavras, é errado criar regras que proíbam comer carne e outros alimentos, mas é inteiramente aceitável inventar práticas de culto, dias santos e rituais.

Há uma série de razões pelas quais a condenação de Paulo aos preceitos humanos não pode estar limitada a certas práticas ascéticas. Primeira, o amplo contexto da passagem indica que Paulo rejeita enfaticamente todas as tradições humanas na esfera religiosa, e não meramente leis dietéticas ascéticas. O provável problema na igreja de Colossos era a influência de uma forma primitiva de ascetismo gnóstico. Paulo, no capítulo 2, condena enfaticamente o legalismo gnóstico. Entretanto, ao condenar esta filosofia em particular, e ao falso sistema ético que dela deriva, Paulo condena todas as formas de filosofia não cristã e todo culto e ética fundamentados na filosofia e tradição de homens. Nesta epístola, Paulo primeiro aponta Jesus Cristo aos colossenses. Os crentes colossenses precisam trazer à memória que Cristo é preeminente (1:18); que em Cristo, que é o Cabeça de todos, eles estão completos (2:10); que alguns não têm se mantido fiéis à Cabeça (2:19); que em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (2:3). Cristo, sozinho, é Rei e Cabeça da igreja. Somente Ele é a nossa santificação. Somente através de Cristo e da Sua palavra-lei procede justa doutrina, propósito e ética. Por isso Paulo escreve: Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo (Cl 2:8). Calvino escreve:

Conforme a tradição dos homens. Ele [Paulo] aponta mais precisamente qual é o tipo de filosofia que reprova, e ao mesmo tempo condena-a duplamente como inútil: porque não é segundo Cristo, mas conforme as inclinações dos homens; e porque consiste dos rudimentos do mundo. Note, entretanto, que ele opõe Cristo aos rudimentos do mundo, e igualmente, às tradições dos homens; com isso, o que ele quer dizer realmente é que, qualquer coisa produzida pela imaginação do homem não está de acordo com Cristo, a quem o Pai designou como nosso único mestre, para que Ele nos guarde na simplicidade do Seu evangelho, que se corrompe até mesmo pela menor partícula do fermento das tradições humanas. Ele também quer dizer que são estranhas a Cristo todas as doutrinas que tornam o culto a Deus — que, segundo a lei de Cristo, sabemos ser espiritual — em rudimentos do mundo, e que, como tais, escravizam as mentes dos homens com ninharias e frivolidades, ao passo que Cristo chama-nos diretamente para Ele.[90]

É universal, a condenação de Paulo à filosofia conforme as tradições dos homens. Não se pode argumentar que, nessa passagem, Paulo condena apenas o ascetismo gnóstico e não condene as filosofias de Kant, Hegel, Schleiermacher, Marx e Dewey. Para Paulo não existe neutralidade filosófica ou ética. Uma doutrina ou prática ou está, ou não está, em concordância com Cristo. E se não estiver, ela procede, então, da imaginação autônoma do homem e é (segundo Paulo) uma tradição de homens. Por isso, quando em 2:20-23 Paulo condena os preceitos humanos, ele usa a mesma linguagem universal. No versículo 20 Paulo pergunta àqueles que estão em erro em Colossos o seguinte (numa paráfrase): Por que é que vocês agem como pessoas perdidas que continuam a viver sob uma visão pagã e sujeitando-se assim a preceitos humanos? E então, no versículo 21, Paulo dá exemplos específicos. Seriam os preceitos humanos, mencionados no versículo 21, as únicas tradições humanas que Paulo proíbe? Não. Por causa da condenação universal da filosofia e tradição humanas, que tanto precedem quanto sucedem o versículo 21, os preceitos humanos desse versículo devem ser vistos como uns poucos exemplos tirados da categoria universal das filosofias e tradições humanas. Não há como limitar a assertiva de Paulo no versículo 22 segundo os preceitos e doutrinas dos homens apenas aos preceitos do ascetismo gnóstico, tanto quanto a condenação da filosofia humana no versículo 8 não pode ser restrita a uma única comunidade grega. Além disso, a declaração do versículo 22, segundo os preceitos e doutrinas dos homens, espelha a condenação às tradições judaicas quanto à doutrina e a ética encontradas em Is 19:13 e Mt 15:2-9. A Bíblia condena os acréscimos e os preceitos criados pelo homem, na doutrina, na ética e no culto, sejam eles judaicos, gregos, persas, romanos, alemães, ingleses ou americanos.

Segundo, a interpretação que diz que Paulo proíbe o acréscimo de algumas filosofias e tradições humanas à doutrina, ética e culto da igreja, mas permite outras tradições humanas, viola o padrão ortodoxo dos métodos de interpretação protestante. Um estudo tanto do Velho quanto do Novo Testamentos prova, sem qualquer sombra de dúvida, que Deus proíbe acréscimos ou subtrações à doutrina, ética e culto estabelecidos na divina revelação (Dt 4:2; 12:32; Pv 30:6; Gn 4:3-5; Lv 10:1-2; 2Sm. 6:3-7; 1Cr 15:13-15; Jr 7:24,31; 19:5; Is 29:13; Nm 15:39-40; Mt 15:2-9; Jo 4:24; Ap 2:18, 19; etc.). Essa afirmação é simplesmente o entendimento confessional reformado de sola scriptura que tem sido discutido nas partes anteriores desse estudo. A tentativa de fazer de Paulo um bom episcopal, luterano, ou católico, quanto às tradições humanas, envolve a ignorância proposital de todo o ensinamento da Escritura. O coração do homem é tão enganoso que, pelo autoengano e sutilezas da razão humana, ele cria onde não existe brecha para a autonomia humana. Por isso, a nossa única esperança em manter a pureza na doutrina, na ética e no culto está em adotar e obedecer estritamente aos mandamentos de Deus sem se desviar para direita ou esquerda.

Outra passagem que desaprova a teoria do apenas ao templo é Jo 4:21-24: Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.

Quando Jesus discutiu sobre adoração com a mulher samaritana e contrastou o culto da velha aliança com o da nova, Ele ensinou que em ambas as dispensações o culto deveria ser realizado sob os mesmos princípios. Observe a frase: mas vem a hora e já chegou (v. 23). Embora a morte de Cristo tenha eliminado todos os aspectos e cerimônias típicas do culto da velha aliança, a necessidade de adorar a Deus em espírito e em verdade não era um princípio novo, pois já vigorava quando Jesus disse essas palavras. Segundo Jesus, Deus deve ser adorado em espírito e em verdade, não porque o templo represente a Cristo e ao evangelho, mas devido à natureza e ao caráter de Deus. Bushell escreve:

O Espírito, que é a fonte da vida eterna, precisa ser também a fonte da verdadeira adoração. Se admitirmos que o Espírito apenas opera em e através da Sua Palavra, tal princípio tem por justa inferência que todo o culto verdadeiro deve estar fundamentado nas Sagradas Escrituras... O culto aceitável precisa ser conforme o caráter de Deus, como nos está revelado nas Escrituras, e em conformidade com tal e suficiente regra, em todos os seus aspectos. Somente o culto que procede em última instância do Espírito através da Sua Palavra é agradável a Deus.[91] 

Essa passagem da Escritura refuta por si mesma a ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao templo, porque quando Jesus começa essa discussão, fica claro que Ele falava do culto no templo em Jerusalém (v. 21). Portanto, quando Ele diz que o mesmo princípio de adoração em espírito e em verdade‖, que está em vigor agora na era da velha aliança, estará também em vigor na era da nova aliança, Ele está ligando à igreja da nova aliança o rígido princípio de adoração que regulamentava o templo. Se os crentes tanto da velha quanto da nova aliança querem adorar adequadamente a Deus, eles só podem fazê-lo em conformidade com a Sua natureza e caráter. E a única forma de aproximar-se de Deus num modo que O agrade é achegar-se a Ele nos Seus próprios termos conforme as Sua próprias regras. Isso significa que o culto tem de ser prescrito pela Escritura e não por homens pecadores. Deus que é em si mesmo a verdade tem de ser adorado conforme a verdade e não segundo a imaginação do homem. O Catecismo Maior de Westminster diz: “Os pecados proibidos no segundo mandamento são: o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus mesmo”... (Catecismo Maior de Westminster, resposta 109). A ideia de que o princípio regulador aplicava-se apenas ao culto do tabernáculo/templo não tem respaldo bíblico, contradiz o óbvio ensino da Escritura e, portanto, tem de ser rejeitado.

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NOTAS: 
[78] Michael Bushell. The Songs of Zion, pág 71-72.
[79] Charles Haddon Spurgeon. The Gospel of Matthew (Grand Rapids: Revell, 1987), 201.
[80] Matthew Henry. Commentary (McLean, VA: MacDonald, s.d.), 5:210-211.
[81] David Dickson. Mathew (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1987 [1647]), 207.
* Gabriel Vasquez (1549-1604). Filósofo e teólogo jesuíta, também conhecido como ―Bellomontanus. Sua obra mais importante é Commentari ac Disputationes sobre a Summa Theologica de Tomás de Aquino.
[82] Samuel Rutherford, The Divine Right of Church Government and Excommunication (London: John Field, 1647), 138.
[83] A segunda metade do versículo 8, que começa com ― o lavar dos, não foi incluída nas edições críticas modernas do Novo Testamento grego (e.g., 3a. edição do Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas; 26a. edição do Novo Testamento Grego Nestle-Aland). A maioria das traduções modernas em inglês (ASV, RSV, NASB, NEB, JB, NIV) refletem a crítica textual moderna deixando fora a segunda metade do versículo 8 [Em português o mesmo ocorre com ARA, NVI e BLH]. A versão ampliada do versículo 8 encontra-se no Textus Receptus (ou Texto Recebido) e no Texto Majoritário (ou bizantino/texto tradicional). As versões KJV (Versão do Rei Tiago) e NKJV (Nova Versão do Rei Tiago) têm por base o Textus Receptus. Em síntese, as edições críticas do Novo Testamento grego (em que estão baseadas virtualmente todas as traduções modernas) dependem primariamente de uns poucos manuscritos mais antigos que foram descobertos principalmente entre o final do século XIX e começo do século XX (e.g., o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus). Os textos majoritários não são tão antigos quanto os utilizados nas edições críticas, mas são bem mais numerosos e são usados pela igreja de Cristo aproximadamente desde os primórdios do quinto século, no mínimo. O conhecimento erudito moderno dos textos majoritários (i.é, a arqueologia, a verificação de várias versões de papiros mais antigos, versões e citações dos primitivos pais da igreja [e.g., por exemplo, o polêmico texto final de Marcos foi aceito como canônico lá pelo segundo século d.C.]), sérios problemas com as pressuposições e metodologia dos primeiros mestres da crítica, como Wescott e Hort, e as grandes diferenças entre os manuscritos Vaticanus e Sinaiticus, fizeram muitos cristãos apontarem de volta o Texto Majoritário como superior ao texto da crítica moderna. Este autor considera que as versões da KJV e da NKJV para Marcos 7:8 refletem as verdadeiras palavras de Jesus. Entretanto, a aceitação do princípio regulador não depende da aceitação da versão do Texto Majoritário para Marcos 7:8.
[84] J. C. Ryle. Expository Thoughts on the Gospels: Mark (Wheaton, IL: Crossway Books, 1993), 101-102. Não obstante sejam verdadeiros seus comentários sobre Marcos, citados acima, Ryle (1816-1900) foi ministro anglicano e bispo (de Liverpool) e, portanto, não adotava o princípio regulador.
[85] Spurgeon. Matthew, 203.
[86] Zacarias Ursinus. Commentary on the Heidelberg Catechism (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, s.d. [de uma edição de 1852]), 518-519.
[87] John Eadie. Commentary on the Greek Text of the Epistle of Paul to the Colossians (Grand Rapids: Baker, 1979 [1884]), 199-200.
[88] Kevin Reed. Biblical Worship (Dallas: Presbyterian Heritage, 1995), 56.
[89] Thomas Watson. The Ten Commandments (Edinburgh: Banner of Truth, 1986 [1692]), 63.
[90] John Calvin. Commentary on the Epistle to the Colossians (Grand Rapids: Baker, 1981), 181.
[91] Michael Bushell. The Songs of Zion, 149, 151-152.

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Autor: Brian Schwertley
Fonte: 
Sola Scriptura e o Princípio Regulador do culto, pág 76-89. Editora Os puritanos

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