Escravidão e o Velho Testamento

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Muitas tentativas tem sido feitas para associar, de alguma forma, a escravidão no Antigo Testamento com a escravidão no Ocidente Moderno. Através de uma análise histórica, mostraremos porque isso é falho.

Os historiadores abandonaram o uso (até então comum) do termo “escravidão” na descrição das diversas formas de relação entre mestre e servo manifestas no mundo antigo. Existiram poucas sociedades escravistas no mundo antigo (com Roma e Grécia sendo duas das maiores), e a nação antiga de Israel parece estar fora dessa classificação (em legislação, não em prática).


Um exemplo recente aparece na discussão sobre a cultura hitita:

“Guberbock menciona ‘escravos no sentido mais estrito’, aparentemente se referindo a escravos fiduciários como aqueles da antiguidade clássica. Essa caracterização pode ser verdadeira para escravos domésticos cujos mestres poderiam tratá-los como bem entendessem ao eles cometerem algum erro, mas essa opção é menos provável, já que eles eram capazes de ter propriedades e pagar dotes de noivado. O significado de ‘servo’ parece mais apropriado, ou talvez a designação de ‘escravo semi-livre’. Enquadra toda e qualquer pessoa que está sujeita a ordens ou dependentes de outro mas que, ainda assim, tem algum independência dentro de sua própria esfera de atividades.” (1.632) [1]

Estudiosos de Antropologia Cultural são ainda mais sensíveis quanto a isso, e apontam que a escravidão do Novo Mundo era de certa forma única, historicamente falando:

“Os estudiosos discordam entre si na definição de ‘escravidão’. O termo tem sido usado várias vezes para um ampla variedade de instituições, incluindo a escravidão para plantação, o trabalho forçado, o trabalho penoso de confeitarias e fábricas, o trabalho infantil, a prostituição semi-voluntária, o casamento por dotes, a adoção de crianças por pagamento e também a barriga de aluguel. […] Um problema similar ocorre quando olhamos para outras culturas. […] Essas características são geralmente derivadas da experiência ocidental mais recente de escravidão, aquela dos EUA e da América Latina. A imagem ocidental atual de escravidão foi construída atropeladamente das representações dessa experiência nas obras abolicionistas de literatura do século XIX. […] De uma perspectiva mais inter-cultural e histórica, no entanto, a escravidão no Novo Mundo foi uma conjunção única de características. […] Em resumo, a maior parte dos tipos de escravidão não exibiam os três elementos que foram dominantes no Novo Mundo: escravos como propriedades e comodidades; seu uso exclusivo ao trabalho; e sua falta de liberdade…” (4:1190f) [2]

Portanto, antes de alguém associar a palavra “escravidão” presente no VT com o que aconteceu no Ocidente, seria melhor definir o que consideramos “escravidão” hoje e comparar com o que se chama por “escravidão” no VT.


Com isso em mente, vamos destacar os elementos básicos associados a escravidão histórica, como praticada nos EUA antes da Guerra Civil Americana, e mostrar a diferença com os tipos de escravidão do mundo mais antigo.


Diferença 1 – Motivação: A escravidão no Ocidente recente foi motivada pela vantagem econômica da elite.


Esse não era o caso da escravidão antes da Era Comum. A motivação dominante (estatisticamente falando) era o alívio econômico da pobreza. Isto é, a “escravidão” era iniciada pelo escravo (não pelo dono) e o uso primário era puramente doméstico (exceto em casos de escravidão Estatal, onde os indivíduos eram usados para construir projetos).


A obra definitiva sobre a legislação antes da Era Comum está em History of Ancient Near Eastern Law. Ela indica claramente que o propósito da escravidão no Mundo antigo era “em favor do pobre” ao invés de “em favor do rico”.[3] Segue uma lista de citações mostrando isso:

“A maioria dos escravos que pertenciam aos assírios em Assur e Anatólia parecem ter sido (originalmente) escravos através de dívidas – indivíduos livres que eram vendidos como escravos por um pai, um marido, uma irmã mais velha, ou por eles mesmos.” (1.149)
“A venda de esposas, filhos, parentes, ou de si mesmo devido a dificuldades financeiras era uma cena sócio-econômica caracteristicamente recorrente em Nuzi ... Um caso um pouco diferente acontecia com estrangeiros tanto do sexo masculino quanto feminino, chamados Hapiru (imigrantes) que se voluntariavam a escravidão a indivíduos ou à administração do palácio. A pobreza era a principal causa destes acordos …” (1.585)
“A maioria dos casos registrados da entrada de pessoas livres na escravidão [em Emar] aconteceram em razão da dívida ou da fome, ou ambos ... A prática comum era um financiador para pagar vários credores em troca de o devedor se tornar seu escravo.” (1.664f)
“Por outro lado, faz-se menção de pessoas livres que eram vendidas como escravos como resultado das condições de fome e a crítica situação econômica das populações [Canaã]. Filhos e filhas eram vendidos para provisões” (1.741)
“O método mais frequentemente mencionado de escravidão [Neo-sumeriana, UR III] é a venda de crianças por seus pais. A maioria eram mulheres, evidentemente as viúvas, que vendiam uma filha; em uma ocasião ou outra uma mãe e uma avó vendiam um menino … Há também exemplos de auto-venda. Todos estes casos claramente surgiam da pobreza; não é explicado, no entanto, se a dívida estava especificamente no centro da questão.” (1.199)

Diferença 2 – 
Entrada: No Ocidente a escravidão foi esmagadoramente involuntária. Seres humanos eram capturados a força e vendidos por comerciantes.


Na Antiga Era (e especialmente no VT), acontecia exatamente o oposto. Isto já deveria estar óbvio a partir do aspecto MOTIVO (que já discutimos) – as escolhas eram feitas pelos empobrecidos, entrando nesse estado de dependência em troca de segurança econômica e proteção. Alguns contratos de escravidão, de fato, enfatizavam esse aspecto voluntário:

“Uma pessoa entrava na escravidão vendendo a si mesmo ou sendo vendido por um dos pais ou parentes. Pessoas vendiam suas esposas, netos, irmãos (com suas esposas e filhos), irmãs, cunhadas, afilhadas, sobrinhos e sobrinhas ... Muitos dos documentos enfatizavam que a transação era voluntária. Isto aplica-se não somente à auto-venda, mas também aqueles que eram vendidos, embora o seu consentimento deve ter sido, por muitas vezes, fictício (como no caso de um lactente).” (1.665) [4]

Isto também pode ser visto a partir do fato de que a guerra e a violência não eram fontes de escravos ‘reais’ na Antiga Era (nem no VT). Por exemplo, embora houvesse um grande número de prisioneiros de guerra na Antiga Era, eles geralmente não eram transformados em escravos, mas sim em cultivadores, servos:

“Dentro de todos os períodos da antiguidade, egípcios, mesopotâmicos, hititas, persas e outros governos líderes orientais conseguiam um grande número de cativos de suas batalhas vitoriosas. Mas apenas uma parte insignificante deles era transformado em escravos; todos os outros se ajustavam nessas terras, servindo nos palácios e templos. A pergunta que surge é: Por que esse grande número de prisioneiros de guerra não eram escravizados. A escravidão era a forma ideal de dependência, e muitas vezes não havia escassez de prisioneiros capturados na guerra. Além disso, não existiam normas legais ou éticas que impedissem esses prisioneiros de serem transformados em escravos. Mas isso aconteceu apenas com uma porcentagem insignificante de casos, enquanto a esmagadora maioria foram assentadas em lugares especialmente reservados para eles, pagavam impostos reais, e realizavam obrigações, incluindo o serviço militar.” [5]
“A guerra é mencionada como fonte de escravos apenas para as instituições públicas. O método de escravização mais frequentemente mencionado é a venda de crianças por seus pais, a maioria sendo mulheres, evidentemente viúvas, vendendo uma filha;… Há também exemplos de auto-venda.” (1.199) [6]

O mesmo, é claro, pode ser dito de Israel. Mesmo em guerras em solo estrangeiro (por exemplo, Dt 20.10,11), se a cidade se rendesse, tornava-se um estado vassalo de Israel, com a população tornando-se serva (mas), não escrava (
ebedamah). Eles realizariam o que é chamado de ‘corvéia’ (desenhos e projetos especiais de trabalho, como os israelitas mais tarde fizeram com Masim sob o Reino de Salomão, 1 Reis 5.27). Isso era análogo à práxis da Antiga Era, em que os prisioneiros de guerra não eram escravizados, mas convertidos em grupos de vassalos:

“As nações submetidas pelos israelitas eram consideradas escravas. No entanto, elas não eram escravas no sentido próprio do termo, apesar de terem sido obrigadas a pagar impostos reais e a realizar obras públicas.” [7]

E já que a escravidão era feita através de auto-venda ou venda pela família, ela era igualmente voluntária (pelo menos voluntário a medida que a pobreza permitia), cf. Lv 25,44 em que os verbos retratam ‘adquirir’ e não ‘tomar’ ou ‘conquistar’, etc.


Diferença 3 – Tratamento: No Ocidente os escravos eram frequentemente mal-tratados (de acordo com os padrões modernos) e as punições eram extremas.


Basta mencionar aqui que Ex 21:21 restringe o tratamento do dono ao escravo a não ser mais grave do que o que a comunidade (ou os anciãos) poderiam fazer com um cidadão livre qualquer. Esta restrição sobre o proprietário deve fazer-nos perguntar o que é que a palavra “propriedade” significa nesse contexto!


Na Antiga Era, os escravos eram geralmente protegidos contra abusos (em condições normais, fugitivos eram um problema, como veremos):

“Os escravos eram geralmente protegidos contra o castigo físico excessivo. Mesmo escravos fiduciários parecem ter se beneficiado de alguma forma desta proteção”(1:43) [8]

E todos os registros do período parecem indicar um tratamento humano:

“Primeiro, vamos separar os escravos – o espólio de guerra, ou de servidão por várias razões – que por definição eram totalmente dependentes de seus mestres, embora os últimos parece ter sido tratados de maneira justa e com humanidade, mais como se fossem empregados domésticos.” (114) [9]

Diferença 4 – 
Moradia: No Ocidente os escravos viviam em separação radical de seus proprietários e não participavam de muitos “benefícios” de seus proprietários.

“Além disso, em geral, havia apenas uns poucos em cada domicílio [Israel] – não há nenhuma indicação, por exemplo, que grandes grupos de escravos estivessem trabalhando em condições deploráveis, cultivando grandes propriedades, como no posterior mundo romano” (111) [10]

Diferença 5 – Saída: No Ocidente, a escravidão era perpétua. Nunca houve qualquer meio de obtenção de liberdade que estivesse previsto no contrato. No caso de um proprietário garantir liberdade, nenhuma propriedade saía com o homem livre.

Na Antiga Era, embora algumas culturas tivessem um “período suficiente para quitação da dívida” (6 anos em Israel), a alforria com “bens móveis” era rara porque ela geralmente não era requisitada. As questões de segurança econômica e das relações quase que familiares que se desenvolviam dentro da unidade familiar, criavam pouco incentivo para que o servo se tornasse “independente”:

“Geralmente, a autonomia individual significava exposição ao perigo e a predação; a segurança estava justamente na proteção conferida pela dependência dos escravos a seus patrões. O que era desejável não era a liberdade, mas o pertencimento.” (4.1191) [11]

Conclusão


Concluímos, portanto, que qualquer tentativa de assimilar a escravidão descrita no VT com a escravidão que ocorreu no Ocidente Moderno se dá por pura falta de conhecimento da história da Era Antiga e do que está relatado na Bíblia.


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Referências:
1 – “A History of Ancient Near Eastern Law” Vol.1, pg 632. Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
2 – Encyclopedia of Cultural Anthropology Vol. 4,pg 1190f David Levinson and Melvin Ember (eds), HenryHolt:1996.
3 – “A History of Ancient Near Eastern Law” Vol.2, pg 632. Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
4 - Ibidem.
5 – Anchor Bible Dictionary, David Noel Freedman (main ed.), DoubleDay:1992
6 - A History of Ancient Near Eastern Law” Vol.2, pg 632. Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
7 - Anchor Bible Dictionary, David Noel Freedman (main ed.), DoubleDay:1992
8 - A History of Ancient Near Eastern Law (2 vols). Raymond Westbrook (ed). Brill:2003.
9 – Everyday in Ancient Mesopotamia. Jean Bottero (Antonia Nevill, trans). JohnsHopkins:1992/2001.

10 - The Israelites, B.S.J. Isserlin, Thames and Hudson:1998.
11 – Encyclopedia of Cultural Anthropology (4 vols), David Levinson and Melvin Ember (eds), HenryHolt:1996.

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Autor: Glenn M. Miller
Fonte: Christian Think Tank
Adaptado e traduzido por: Erving Ximendes
Via: Olhai e Vivei

[Nota do editor] Para uma análise mais profunda, leia também: 
• FRAME, John. A Doutrina da Vida Cristã, São Paulo - Ed. Cultura Cristã. Págs. 622-630 (Sobre Escravidão).
• BERTI, Marcelo>A Escravidão, a Escritura e a Hermenêutica. Acesso em 28/03/2016.
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Graças a Deus pelo neo-ateísmo

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Por Alister McGrath


"Já era tempo de se livrar do lixo em nossos sótãos intelectual e cultural. A crença em Deus não passava de uma curiosa e obsoleta relíquia."

A sensação de novidade do neo-ateísmo garante sua repercussão na mídia. É claro que praticamente todos seus argumentos são requentados e reciclados. A novidade em si tem mais a ver com seu imenso prazer em ridicularizar a religião e seus respectivos crentes. Um tabu cultural foi quebrado.

Antigas formas de ateísmo, que apelavam para argumentos baseados em evidências e insistiam no respeito pela crença religiosa, foram colocados de lado. Conforme observa o blogger ateu P. Z. Meyers, “a velha escola do ateísmo é muito, muito chata”. Para Myers, quanto mais ultrajante for a mensagem, melhor. Só assim ela será percebida.

É fácil perceber porque a “velha escola” ateísta está preocupada. Os slogans marotos e informais do neo-ateísmo simplesmente dissimulam seu déficit de evidências e raciocínio. Mais cedo ou mais tarde, alguém perceberá que esses slogans simplistas não batem com a realidade. E eles estão certos em ficar apreensivos.

A conversa agora avançou para além da elaboração de slogans. A conversa fiada acabou, abrindo caminho para um olhar crítico aos argumentos e evidências. E é aí que as coisas começaram a ficar interessantes novamente.

Se o neo-ateísmo quisesse organizar um debate, certamente conseguiria. De repente, todo mundo ficou interessado em falar sobre Deus. Na Grã-Bretanha, a influente revista Economist, que já foi “tão confiante no falecimento do Todo-Poderoso que nós publicamos Seu obituário em nossa edição do milênio”, viu-se inconvenientemente obrigada a publicar uma correção em 2007.

A religião estava proeminentemente de volta à vida e às discussões públicas. Dois jornalistas da mesma Economist acabaram publicando um bestseller em 2009 batizado de (adivinha?) “Deus está de volta: Como o renascimento da fé está mudando o mundo”.

Tanto eu como muitos outros demos as boas-vindas a este debate. O neo-ateísmo levantou questões de fundamental importância, tais como a racionalidade da fé, a relação entre religião e ciência, as possíveis ligações entre fé e violência e o papel da religião na sociedade ocidental. Eles iniciaram uma fascinante conversa. E é uma conversa que ainda tem um longo caminho a percorrer.

Onde alguns acreditavam que os intitulados “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” [foto] finalmente colocariam uma pedra sobre a questão Divina, o oposto na verdade parece ter acontecido. O interesse cultural em Deus e na religião ressurgiu e as discussões não estão levando às conclusões que o neo-ateísmo tinha em mente. É um clássico exemplo da lei das consequências não pretendidas. E há um bocado de coisas que ainda precisam ser ditas.

Permitam-me então começar agradecendo a Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens por provocar este novo interesse cultural em Deus e na religião. Suas campanhas de alto impacto contra a fé reabriram tanto a curiosidade como a discussão sobre as grandes questões da vida. Encanta-me tê-los visto fazer isso.

Não tenho tanta certeza de que eles serão felizes com o resultado. Em vez de pôr fim ao debate, eles o iniciaram. Nunca foi tão fácil falar a respeito de Deus ou encontrar um público interessado por questões como crença, sentido e significância última.

Isto me lembra dos ferozes ataques de T. S. Eliot contra o trabalho do poeta do século XVII, John Milton, na década de 1930. Ele criticou duramente o estilo de Milton em “Paraíso Perdido”, ponto após ponto. O status de Eliot como poeta e crítico assegurava que suas opiniões fossem recebidas e que circulassem na mídia e entre os formadores de opinião. Milton foi tachado por muitos na mídia como antiquado e obsceno.

Curiosamente – e, ao que parece, um tanto involuntariamente – a força das diatribes de Eliot criaram um novo interesse em Milton. Charles Williams iniciou seu prefácio à edição de poemas de Milton “World Classics” com a observação: “Nós fomos felizes o bastante por viver em uma época em que a reputação de John Milton tem sido seriamente atacada”.

Williams agradeceu a Eliot por colocar o debate em curso. Mas ele não tinha dúvida a respeito dos resultados deste debate. O novo interesse em Milton estava levando todos a lê-lo novamente. E os veredictos de Eliot pareciam agora sem ligação com a realidade. Os alicerces para a reconstrução da honra de Milton no pós-guerra foram lançados – curiosamente, por seu maior crítico.

É difícil ignorar o paralelo com o neo-ateísmo. O interesse cultural na questão Divina aumentou grandemente. O papel da religião na sociedade tornou-se um tema extremamente relevante. Tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, há novamente um enorme interesse no papel de organizações religiosas (sigla FBO, em inglês) quanto à promoção do bem-estar e coesão social.

Não é de admirar que tantos escritores religiosos – inclusive eu – comecem suas palestras falando do ressurgimento do interesse em Deus agradecendo a Richard Dawkins por levantar um novo interesse nessas questões. Eles deram início à conversa. Mas esta conversa se moveu em outras direções.

Interessantemente, algumas das mais pungentes críticas ao neo-ateísmo vêm de escritores seculares, alarmados com a estridência e o evidente exagero de suas declarações, bem como a tendência de ridicularizar ao invés de argumentos baseados em evidências.

Em 2009, o ateu Julian Baggini, autor do excelente “A Very Short Introduction to Atheism” (“Uma breve introdução ao Ateísmo”), publicou um artigo em uma revista humanista norueguesa intitulado “O movimento do neo-ateísmo é destrutivo”. Baggini compôs duas fundamentais críticas ao neo-ateísmo e propôs um retorno às abordagens profundas e esclarecidas que costumavam ser típicas do ateísmo anterior a Dawkins e Hitchens.

Em primeiro lugar, o neo-ateísmo caracteriza-se pelos seus ataques à religião e não considera os aspectos positivos dela. Baggini percebeu esta desencorajadora tendência em particular nas afirmações de Dawkins onde “há um caminho lógico na fé religiosa que leva a más ações”.

Para Baggini, isto tão somente reforça o mito de que “um ateu sem um sacerdote para bater é como um peixe sem água”. De fato, ele argumenta, é pior que isso: simplesmente confirma a suspeita de que muitos ateus “precisam de um inimigo que lhes dê sua identidade”.

Em segundo lugar, o neo-ateísmo chama para si o monopólio da razão de forma arrogante. “Com sua conversa de ‘encantos’ e ‘delírios’ ele dá a impressão de que apenas pela estupidez ou um enorme desinteresse pela razão alguém poderia ser algo além de um ateu”.

Baggini argumenta que é essencial conhecer os limites da razão, bem como aceitar que razão e evidências não são estranhos à crença religiosa. A indelicada definição de fé de Dawkins como uma “fuga” ou um “pretexto para evadir-se da necessidade de pensar e avaliar as evidências” é simplesmente “arrogante e atribui à razão um poder que ela não tem”. Não seria o caso de os neo-ateus serem um pouco mais céticos a respeito da razão e reconhecer a obviedade de seus limites?

Talvez um dois mais involuntários debates provocados pelos neo-ateus está tomando corpo dentro dos círculos ateístas e secularistas sobre os futuros rumos do movimento. Coberturas da mídia falam abertamente em uma “cisão” entre os círculos ateístas e secularistas desde o fim de 2009.

Paul Kurtz, por exemplo, proeminente humanista secular, protestou contra esta nova “fase agressiva e militante” na história do ateísmo, na esperança de que ele fracassasse antes de causar danos permanentes ao movimento.

Não há dúvida, portanto, de que um grande debate está em curso. O “neo-ateísmo” disparou uma discussão dentro das igrejas, da sociedade e até mesmo no próprio movimento secularista, sobre o lugar da religião e da crença tanto na vida pessoal como na cultura em geral. Precisamos levar isso mais longe e mais fundo.

A discussão mudou nos cinco anos desde 2006, quando o neo-ateísmo alcançou fama. Estamos em um novo e mais interessante território agora. Slogans simples – tais como “Deus é um delírio” ou “a religião mata” – já tiveram sua vez. É hora de uma discussão séria sobre as questões.

No próximo texto desta série sobre as questões levantadas pelo neo-ateísmo, refletirei sobre a natureza da fé. Longe de ser algo que se limita a pessoas religiosas, vou sugerir que ela é simplesmente uma rotina e um aspecto necessário da existência humana, incluindo as ciências naturais.

O neo-ateísmo apresenta-se como um movimento sem qualquer fé ou crenças. Para citar mais um slogan maroto e superficial do neo-ateísmo: “Nossa crença não é uma crença” (Christopher Hitchens). Mas isso simplesmente não é por aí. É muito mais interessante, como espero mostrar.

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Sobre o autor: Alister McGrath (ex-ateu) é presidente do Oxford Centre for Evangelism and Apologetics [Centro para Evangelismo e Apologética em Oxford] e professor de Teologia Histórica na Universidade de Oxford. É autor de diversos livros.

Fonte: ABC - Religion and Ethics
Tradução: Ronaldo Berchol
Revisão: 
Jonathan Silveira
Via: Tuporém
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O relativismo destrói a família!

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Por Pr. Julio Quirino


"A homossexualidade não é o desenho original de Deus para a raça humana e não ajuda no desenvolvimento da humanidade" - Tim Keller

Vejam neste vídeo a tática dos ateus e liberais, na tentativa de redefinir o que família significa. O que está por trás deste debate? Primeiro, eles ridicularizam quem não aprova a homossexualidade e afirmam que tudo deve ser resumido ao amor. O relativismo se torna a "regra absoluta". De acordo com eles, o propósito do casamento e da vida humana se resume somente em "tentar ser feliz". A regra deles é simples, se Deus ou o sagrado está te impedindo de "ser feliz", então, remova a ideia de Deus da sua vida. Neste modelo, o individualismo se torna a força motriz de uma sociedade.

Se Deus ou o sagrado já não ditam mais as regras da sociedade, um outro "deus" tomará o seu lugar. O nome deste deus é "EU". Tudo o que EU quero fazer devera se tornar LEI.

Se o meu sentimento (o amor) é o que define uma família, então, se um indivíduo se apaixonar por um animal e, por exemplo, quiser se casar com o seu "cachorro, cavalo ou bode", eles seriam uma família? E se um homem ama uma criança de 4, 7 ou 9 anos? E se um homem ama 4 ou 10 mulheres ao mesmo tempo? ou se uma mulher ama 10 homens ao mesmo tempo? Ou se um gay ama 20 gays ao mesmo tempo? "Swing" poderia ser uma forma normal de se viver a vida? Seriam todos considerados "família"? Quem poderia provar que não existe amor entre eles? Quem poderia restringir estas demonstrações de "amor" e dizer que elas são erradas?

Quais seriam as consequências desastrosas da confusão psicológica e emocional nos filhos adotados por casais gays? E se estes casais gays se divorciam, quantos pais ou mães gays a criança terá? 4? Estamos dispostos a sacrificar estas crianças e usá-las como cobaias por causa de uma experiência social?

O que os defensores dos direitos gays querem dizer é que a humanidade estaria muito melhor se nos parássemos de insistir que a família é constituída somente de um homem, uma mulher e seus filhos (de acordo com o plano de Deus) e que nós deveríamos adotar o conceito deles (sem deus) de família na qual poderia incluir qualquer coisa.

Eles estão dizendo que o conceito deles é melhor do que o nosso. Eles estão querendo nos "converter" para a "religião" deles, que não tem um Deus, nem moral ou ética especifica. Neste modelo, você decide o que é melhor para a sua vida. Nesta religião ateísta, você se torna o seu próprio deus, o seu próprio salvador e você decide o seu próprio destino.

Qual o propósito da vida? Ser meu próprio deus ou encontrar ao único e verdadeiro Deus? Jesus disse que aqueles que querem "ser felizes" (salvar a sua própria vida) irão perde-la: "Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Marcos 8:35-36)

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Sobre o autor: Julio Quirino é pastor Batista e missionário no Quênia/África, onde faz um importante trabalho evangelístico - principalmente de muçulmanos - naquele país há quase 15 anos. Contatos: comunicacao@miaf.org.br

Fonte: Perfil do autor no Facebook
Divulgação: Bereianos
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Pela fé que foi entregue aos santos

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Por Rev. Dorisvan Cunha


Uma das maiores necessidades da igreja de nossos dias é batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.

No versículo 3 de sua epístola, Judas alerta a igreja do perigo que esta corre diante de um mundo de lobos vorazes. O autor Bíblico exorta veementemente a igreja para que entre no campo de batalha e lute pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Qual a nossa missão perante o conteúdo do Evangelho?

É o que o Pr. Dorisvan mostrará neste vídeo. Assista:




Transcrição:

Uma das maiores necessidades da igreja de nossos dias é batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.

No versículo 3 de sua epístola, Judas alerta a igreja do perigo que corre diante de um mundo de falsos mestres e de lobos vorazes. Por esta razão o autor bíblico exorta veementemente a igreja para que entre no campo de batalha e lute pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. 

Mas, a pergunta que logo nos vem à mente é: o que seria essa fé que foi entregue aos santos e porque deveríamos batalhar por ela?

Para início de conversa, é importante notar que a palavra fé aqui em Judas não significa simplesmente um sentimento subjetivo de confiança em Cristo. Judas está usando esse termo para se referir ao corpo de doutrinas ensinadas pelos apóstolos. A fé que foi entregue aos santos, portanto, significa o arcabouço doutrinário que Deus entregou à sua igreja por meio dos apóstolos e dos profetas. Este é o chamado “fundamento dos apóstolos”.

O apóstolo Paulo afirma que a igreja do Senhor está “edificada sobre este fundamento” (Ef 2.20), e ninguém pode “lançar outro fundamento, além do que já foi posto, o qual é Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 3.10-11).

Agora, vale dizer que este Evangelho ensinado pelos apóstolos não foi produto da arte e imaginação humana. Paulo diz: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.” (Gl 1.11-12). 

Deus mesmo revelou o evangelho aos apóstolos. Então, o que Paulo está dizendo é: eu preguei o evangelho, mas eu não inventei o evangelho. Foi-me dado por revelação de Jesus Cristo.

Deus revelou sua vontade aos profetas e apóstolos, e estes, por inspiração do Espírito Santo, registraram com fidelidade, aquilo que receberam da parte de Deus. Sendo assim, “toda Escritura é inspirada por Deus...” (2 Tm 3.16), pois “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.

Sendo assim, a fonte da autoridade suprema da Igreja, não está na igreja, não está no indivíduo, não está nos papas católicos romanos ou nos líderes neopentecostais: a fonte da autoridade suprema está em Cristo Jesus e no que a Bíblia testifica a Seu respeito. Esta é a verdade do evangelho.

Agora, o que devemos saber como Igreja do Senhor é que, pelo fato de ter sido dado por Deus, o conteúdo do Evangelho não pode ser falsificado. É por esta razão que o apóstolo Paulo diz a Timóteo: Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste...guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós (2 Timóteo 1. 13 e 14).

Veja que Paulo chama o Evangelho Apostólico de um padrão de sãs palavras. Isso significa que O evangelho é o ensino correto, a sã doutrina, a ortodoxia. Essa doutrina precisa ser mantida, precisa ser preservada. Então, cabe à igreja do Senhor se colocar em guarda e defender este precioso tesouro.

Obviamente, hoje, no século 21 nós não temos mais apóstolos. No entanto, mesmo não tendo apóstolos hoje, nós temos a tradição apostólica, a verdade do Evangelho que se encontra na Palavra de Deus.

Pense comigo: todos sabemos que a vida de Jesus durou pouco mais de trinta anos e nós não estávamos lá para ver o que aconteceu. Então, como, os fatos sobre Cristo poderiam beneficiar as gerações vindouras e não se perder nas névoas da antiguidade? 

A resposta encontra-se nos apóstolos. Eles foram escolhidos por Deus e capacitados para registrar e explicar o que Deus fez e o que Deus disse através de Jesus Cristo. Somente assim as outras pessoas poderiam ter acesso à obra consumada de Cristo. Sendo assim, o único Cristo verdadeiro é o Cristo da Bíblia por que este é o único relato autorizado da parte de Deus.

E nossa missão perante esta verdade é árdua: Temos o dever de repassar esta mensagem intacta a geração seguinte. 

Certamente, essa não é uma tarefa fácil. Lá fora há hereges querendo corromper o tesouro do evangelho. Paulo disse que de dentro da própria igreja se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles (Atos 20). 

Trata-se, portanto, de uma batalha muito séria. Tal conteúdo não pode ser danificado. Por esta razão Paulo exorta às Igrejas da Galácia dizendo que “ainda que nós (os apóstolos) ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gal 1.8).

Ninguém pode ir além daquilo que os Apóstolos nos legaram e que se encontra na Palavra da Verdade do Evangelho.

Veja que para Paulo a autoridade do verdadeiro evangelho é tão grande que não só as autoridades humanas e apostólicas estão sujeitas a ele: até mesmo os anjos devem se render a Fé que Foi entregue aos santos. Nas palavras de Martinho Lutero, “Paulo preferia ver um anjo caindo em desgraça do que ver o conteúdo do evangelho corrompido.”

Sendo assim, mesmo se um anjo bom descer do céu e pregar outro evangelho, não é correto acreditar nele. E sabe por quê? Porque os artigos da fé não mudam: Deus os revelou, eles foram escriturados e agora permanecem inalterados para sempre. O conteúdo do evangelho já está completo. O cânon está concluído. Por esta razão, a norma e o critério pelo qual todos os sistemas e opiniões humanas devem ser testados, é o Antigo evangelho dos apóstolos de Nosso Senhor. Qualquer “outro” sistema “que vá além” ou que “seja diferente” desse padrão deve ser rejeitado e reputado como falso.

Aqui caem seitas como os adventistas do Sétimo dia que têm os Escritos de Ellen White em pé de igualdade com a Palavra dos apóstolos. Aqui caem os Mórmons que carregam o outro testamento de Jesus Cristo. Aqui caem as testemunhas de Jeová que falsificaram a tradução da Bíblia Sagrada. Aqui cai a Igreja Católica Romana que tem a tradição da igreja como fonte autorizada da parte de Deus. Enfim, aqui caem todos os falsos apóstolos, paipóstolos, patriarcas ou qualquer outro líder carismático que reivindique novas revelações do Espírito Santo em nossos dias. Todos estes devem ser reputados como falsos.

Nós não podemos esquecer que o conteúdo da Fé Apostólica foi preservado à custa do sangue de milhares de mártires. Agora, nesse exato momento, a fé cristã encontra oposição por toda parte: a Bíblia  é ridicularizada nos campos universitários. A apostasia nas igrejas históricas é crescente e assustadora. Muitos de nossa geração estão abandonando a fé de nossos antepassados. E o pior: muitos dos lobos que pervertem a fé apostólica são indivíduos que se declaram crentes e são líderes de igreja.

Mas, sabe, não podemos temer nesta hora tão dramática! Devemos crer que Deus nunca permitirá que a luz do evangelho apostólico se apague em difinitivo. E foi para isso que ele nos convocou: para batalharmos pela fé e para participarmos dos sofrimentos, a favor do Evangelho de Jesus Cristo (2 Tm 1.8). 

Paulo nos alertou que os homens desses últimos dias não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos... e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas (vs. 3-4). Mas, diante de um cenário como este ele diz a Tímoteo: Prega a Palavra.

Os apóstolos e os reformadores se mostraram dispostos a morrer por esta Verdade. Nós precisamos obter este mesmo sentimento e lutar com todas as forças pela preservação desta Fé que nos foi outorgada. 

E a igreja do Senhor precisa lembrar que o dever de batalhar pela fé não pertence exclusivamente aos pastores e aos presbíteros. Batalhar pela fé é o dever de todo crente verdadeiro. E se hoje não entendermos isso e se não formos fiéis a palavra da verdade, todas as gerações futuras serão contaminadas e prejudicadas por nossa covardia em relação ao evangelho. 

Portanto, ouçamos a exortação de Chales Spurgeon que diz: “nós que recebemos o evangelho da mão dos mártires não ousamos tratá-lo como ninharia, e jamais nos assentemos ao lado de traidores que o negam... e que o Senhor graciosamente purifique sua igreja de toda doutrina falsa, de todos os falsos pregadores e de todos os que são traidores no arraial de Cristo!

E que nós, herdeiros dos santos mártires, não negociemos o conteúdo do evangelho apostólico, mesmo que isso implique na destruição de nossa vida aqui na terra. 

Avante, jovens de Cristo! Nós estamos do lado da Verdade.

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Divulgação: Bereianos
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A onipotência de Deus e o "dilema da pedra"

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Por Rafael de Lima


É provável que alguma vez na vida você já tenha se deparado, ou vá se deparar, com a seguinte indagação: "Deus pode fazer uma pedra tão pesada que Ele mesmo não possa movê-la?". Essa pergunta tem sido feita por céticos que se acham muito espertos e que tentam, com ela, embaraçar e constranger os cristãos. A ideia é colocar em xeque o atributo da onipotência de Deus e, posteriormente, questionar a sua existência.

De fato, a pergunta soa como um dilema, visto que, se a resposta para o questionamento é que Deus pode criar a pedra, Ele não poderá movê-la, caso Ele não possa criá-la, da mesma forma haverá algo que Ele não pode fazer.

Vejamos porque este é um falso dilema que falha tanto teologicamente quanto logicamente.

Primeiramente, o referido questionamento falha em termos teológicos. O falso “dilema da pedra” se baseia em um conceito errado do que seria a onipotência divina. De fato, para o senso comum (e para a esmagadora maioria dos cristãos), dizer que Deus é onipotente equivale a dizer que Ele pode fazer tudo. Todavia, isto não passa de um equívoco teológico, visto que, claramente existem coisas que Deus não pode fazer. Don Fortner enumera uma lista de sete coisas que Deus não pode fazer: Deus não pode mudar ou ser mudado (Ml 3:6; Tg 1:17); Deus não pode mentir (Tt 1:2); Deus não salva um pecador sem um sacrifício agradável (Hb 9:22); Deus não pode levar para o céu alguém que não seja perfeitamente justo à Sua vista (Mt 5:20; Hb 12:14); Deus não pode mandar para o inferno alguém por quem Cristo sofreu e morreu no Calvário (Is 53:11; Rm 8:33,34); Deus não pode salvar um pastor aparte da pregação do evangelho (1Co 1:21-24; Tg 1:18; 2Pe 1:23-25); Deus não pode falhar em salvar qualquer pecador que confie no Senhor Jesus Cristo, seu Filho amado (Jo 3:16,36)[1]. Recomendamos a leitura integral do artigo para uma melhor elucidação.

Sproul define qual seria o conceito teológico correto para onipotência: “Como termo teológico [...] onipotência não significa que Deus pode fazer qualquer coisa [...] O que onipotência realmente significa é que Deus mantém poder absoluto sobre sua criação”.[2]

Teologicamente falando a resposta para o falso dilema da pedra seria: Não. Deus não pode fazer a pedra, pois ele estaria criando algo sobre o qual não teria domínio e, desta forma, anulando a sua onipotência.

Um segundo erro seria de ordem lógica. Ainda que abandonássemos a definição teológica de onipotência e adotássemos a ideia (incorreta) de que afirmar que Deus é onipotente é afirmar que Ele pode fazer tudo, o “dilema da pedra” falharia em termos lógicos.

Nas palavras de Phillip R. Johnson, a lei mais fundamental da lógica, chamada lei da contradição (ou não contradição), pode ser definida da seguinte maneira:

A lei da contradição significa que duas proposições antitéticas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e no mesmo sentido. X não pode ser não-X. Uma coisa não pode ser e não ser simultaneamente. E nada que é verdade pode ser auto-contraditório ou inconsistente com qualquer outra verdade.[3]

O falso dilema da pedra tenta propor justamente isto, que Deus possa e não possa ao mesmo tempo e no mesmo contexto. Sproul propõe um dilema análogo ao da pedra que nos ajuda a perceber a falácia:

O que acontece quando uma força irresistível se choca contra um objeto irremovível? Podemos conceber uma força irresistível. Podemos, igualmente, conceber um objeto irremovível. O que não podemos conceber é a coexistência dos dois. Se uma força irresistível encontra um objeto irremovível, e o objeto se mover, o mesmo não poderia mais ser chamado com propriedade de irremovível. Se o objeto não se mover, então nossa força "irresistível" não poderia mais ser chamada, com propriedade, irresistível. Portanto, vemos que a realidade não pode conter uma força irresistível e um objeto irremovível.[4]

Assim, concluímos que o “dilema da pedra” falha tanto na sua perspectiva teológica, quanto na sua base lógica, se demonstrando apenas como mais uma falácia, sendo, portanto, um falso dilema.

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Notas
[1] FORTNER, Don. Sete coisas que Deus não pode fazer. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/atributos_deus/sete_coisas_deus_nao_pode.htm>. Acesso em: 10 set. 2014.
[2] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 1º caderno. 3ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 38.
[3] JOHNSON, Phillip R. A Lei da Contradição. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Lei_Contradicao_Phillip.pdf>. Acesso em: 10 set. 2014.
[4] SPROUL, R. C. Op. cit., p. 38. 

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Fonte: Cosmovisão Cristã
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A cosmovisão cristã, a cosmovisão ateísta e a lógica

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Por Matt Slick


Pode uma ateísta apresentar uma razão lógica de como sua cosmovisão pode dar satisfações para as abstratas leis da lógica? Eu penso que não. Mas, a cosmovisão Cristã pode. A cosmovisão cristã declara que Deus é o autor da verdade, lógica, leis físicas etc. Ateístas mantêm que leis físicas são propriedades da matéria, e que a verdade e lógica são convenções relativas (princípios consentidos). Isto é logicamente defensável? Apresento este esboço na esperança de esclarecer o assunto e apresentar, o que eu considero, um problema insuperável da cosmovisão ateísta. Eu hesito declarar que isto seja uma prova que Deus existe, mas eu creio isto seja uma evidência da absoluta natureza de Deus. Este argumento é adaptado do Argumento Transcendental defendido por Greg Bahnsen.

Como os cristãos descrevem as Leis da Lógica?

A cosmovisão cristã declara que Deus é absoluto e o padrão da verdade.

Então, as leis absolutas da lógica existem porque refletem a natureza absoluta de Deus. 

Deus não criou as leis da lógica. Elas não foram trazidas à existência, desde que elas refletem os pensamentos de Deus. Desde que Deus é eterno, as leis da lógica também são. [1]

O Homem, ser criado à imagem de Deus, é capaz de descobrir essas leis da lógica. Ele não as inventou.

Então, o Cristão pode declarar a existência das leis da lógica por reconhecer sua origem em Deus e que o Homem é único capaz de descobri-las.

Apesar disso, o Ateísta pode dizer que esta resposta é simplista e conveniente. Pode ser, porém, pelo menos a cosmovisão cristã pode explicar a existência da lógica e si mesma.

Exemplos da Leis da Lógicas

Lei da Identidade – algo é o que é. As coisas que existem tem uma natureza definida.
Lei da Não Contradição – algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo, na mesma forma e no mesmo sentido.
Lei do Terceiro Excluído – uma proposição ou é verdadeira ou falsa. Assim, a declaração “uma proposição ou é verdadeira ou falsa” é verdadeira ou falsa.

Como o Ateísta descreve as Leis da Lógica.

Se o Ateísta declara que as leis da lógica são convenções (mutuamente combinada sob conclusão), então as leis da lógica não são absolutas porque elas são sujeitas ao “voto”.

As leis da Lógica não são dependentes das mentes de pessoas diferentes, desde que pessoas são diferentes. Então, elas não podem ser baseadas no pensamento do homem, pois os pensamentos dos homens são frequentemente contraditórios.

Se o Ateísta declara que as leis da lógica são derivadas por observar princípios naturais encontrados na natureza, então ele está confundindo a mente com o universo.

Nós descobrimos leis da física por observar e analisar o comportamento das coisas em nosso redor. As leis da lógicas não são resultados de comportamento observável dos objetos ou ações.

Por exemplo, na natureza não se ver nada que seja e não-seja ao mesmo tempo.

Por que? Porque nós só podemos observar fenômenos que existem, não um que não existe. Se algo não é, então não existe. Como pode, então, as características de algo não existente serem observadas? Elas não podem.

Então, nós não descobrimos a lei da lógica pela observação, mas pelo pensamento.

Ou, onde na natureza nós observamos que alguma não pode trazer em si mesma à existência se ela não já existe?

Você não pode fazer observações sobre como alguma coisa que não ocorre se ela não existe. Você não deveria, principalmente, observar coisa alguma, e, como pode qualquer lei da lógica ser aplicada ou derivada, nada observando?

As leis da lógica são realidades conceituais. Elas apenas existem na mente e elas não descrevem o comportamento físico das coisas porque comportamento é ação, e leis da lógica não são descrições de ação, mas de verdade.

Em outras palavras, leis da lógica não são ações. Elas não são declarações sobre conceituais de pensamentos padrão. Embora alguém pudesse dizer que a lei da física (i.e, o anglo da reflexão é igual ao anglo da incidência) é uma declaração que seja conceitual, isto é uma declaração que descreve um ato físico e comportamento observável. Mas, lógica absoluta não é observável e não descreve comportamento ou ação das coisas, desde que ela reside completamente na mente.

Nós não observamos as leis da lógica ocorrerem na matéria. Você não observa um objeto trazendo à existência se ele não existe. Então, nenhuma lei da lógica pode ser observável por não vê-las.

Se o Ateísta apela para o método cientifico para explicar as leis da lógica, então ele está usando uma argumentação circular porque o método científico é dependente da lógica; ou seja, raciocinou pensando aplicar a observação.

Se a lógica não é absoluta, então nenhum argumento lógico para ou contra a existência de Deus pode ser levantado, e o Ateísta não tem nada a fazer com isso.

Se a lógica não é absoluta, então a lógica não pode ser usada para provar ou negar o que quer que seja.

Ateístas usarão a lógica para negar a existência de Deus, mas fazendo isto eles estão assumindo o absoluto das leis absolutas e emprestando da Cosmovisão Cristã.

A cosmovisão cristã mantém que as leis da lógica são absolutas porque elas vêm de Deus, que é absoluto em si mesmo.

Mas a cosmovisão ateísta não tem um Deus absoluto.

Então, perguntamos, “como pode leis absolutas, conceituais, abstratas serem derivadas de um universo de matéria, energia e movimento?”

Em outras palavras, “como pode um ateísta com uma pressuposição naturalista explicar a existência da lógica absoluta quando lógica absoluta é conceitual por natureza e não física, energia ou ação?”

Conclusão

A cosmovisão teísta cristã pode explicar as leis da lógica por afirmar que elas foram criadas por Deus.

Deus é transcendente; quer dizer, Ele está além do universo material, sendo seu criador.

Deus deu origem às leis da Lógica porque elas refletem sua natureza.

As leis da lógica são absolutas.

Elas são absolutas porque existe um Deus absoluto.

A cosmovisão ateísta não pode explicar as leis da lógica/absolutas, e deve pegar emprestado da cosmovisão cristã a fim de argumentar racionalmente.

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Nota:
[1] Há, entre os Apologetas e Filósofos Reformados, divergências quanto a esta questão. Alguns, de fato, acreditam que as Leis da Lógica são criadas por Deus(p.e. Herman Dooyeweerd). Aguarde a tradução do artigo do Richard Pratt “Does God Observe the Law of Contradiction? . . . Should We?” (Third Millenium Ministries). Também é preciso afirmar que há, entre os estudiosos da lógica, divergência acerca da Lei da Não-Contradição. Como demonstra Pratt, a visão de Aristóteles tem sido desafiada por inúmeros pensadores modernos como Frege, Ayers, Russell, Einstein, Whitehead, Heisenberg, Lukasiewicz, Zadeh e Kosko. Veja o post anterior.(Nota do tradutor)

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Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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