Expiação: universal ou limitada?

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Cristo não veio ao mundo e morreu na cruz para possibilitar a salvação dos homens e sim salvar os homens de seus pecados, sendo estes pecados o motivo de nossa destituição do Reino de Deus (Rm 3.10-12,23).


Não é difícil notar, no entanto, que as doutrinas humanistas não enxergam isso por pura dureza, porque nenhum ser humano consegue admitir que a sua "salvação depende exclusivamente da volição divina [de Deus] e não com suas próprias forças humanas". Se a salvação possui nossa participação, voltamos então para as heresias pelagianas e semi-pelagianas do Catolicismo Romano, isto é, da graça merecida, sendo que o dom de crer se torna uma "boa obra".

Cristo veio para salvar somente o seu povo, não encontro no texto de Mateus 1.21 a ideia de "possibilidade de salvação", o texto está "afirmando" um desígnio. E em Efésios 5.25,26, afirma que o próprio Cristo se entregou por sua noiva e verteu o seu sangue na cruz para salvá-la e redimi-la de seus pecados, para apresentá-la pura e imaculada. Portanto, o povo que Cristo veio salvar, este também que é conhecido como A noiva do Cordeiro, o Corpo de Cristo e Igreja, estes que compõem o "corpo", nada mais são do que aquelas pessoas que foram agraciadas com o dom da Fé para que possam crer, e isso não vem de nós mesmos, mas vem de Deus (Ef 2.8-10, cf At 13.48).

"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (João 1:12,13)

Torno novamente a dizer que "Cristo não morreu para possibilitar a salvação para o mundo," e sim, para salvar pecadores ímpios dignos de condenação, para que tenhamos agora paz com Deus e que passemos a estar firmes na graça. Não é difícil entender isso, está na Bíblia, basta ter acesso a ela (Romanos 5.1,2,7-11).

Cristo não veio para aplacar os pecados do mundo, mas para aplacar os pecados dos eleitos (pessoas de várias etnias, raças, tribos e nações) para que, em tempo oportuno, viessem a crer; o oposto da fé é a incredulidade, e se o sangue de Cristo serve para aplacar a ira de Deus contra o ímpio, por que ainda se prega o Evangelho, sendo que Cristo morreu por todo o mundo e, muitos não creem? Se Cristo levou sobre si os nossos pecados, e segundo os sinergistas "os pecados do mundo", sendo que também a incredulidade é um pecado, por que ninguém é salvo? 

Não consigo ver consistência nas doutrinas humanistas do "Livre-Arbítrio" sinérgico quando comparo tal declaração de "possibilidade salvífica ao mundo" a um pecado chamado incredulidade. Analisando Isaías 53.4-7, não consigo cogitar uma doutrina que faz caso do "Livre-arbítrio" humano, mas não toleram a liberdade de Deus quando quer escolher pecadores para serem salvos. Mas espere: ao tratar de salvação, o homem possui Livre-arbítrio e Deus “não”? E se o homem e Deus possuem o atributo de Livre-arbítrio (um juízo de escolha 100% livre de qualquer ação, influência e inclinação de outro agente externo) por que há a diferença de Deus, anjos e homens, criaturas, Reino Celestial e inferno? O Livre-arbítrio não deve ser respeitado quando homens não querem ser salvos e, quando os mesmos, mesmo na incredulidade, não querem ir ao inferno? Se há Livre-arbítrio, ele deve ser considerado em seu todo, se não seria prática de barganhas e infidelidades, uma dualidade divina inescrupulosa!

Portanto, fico com esta afirmativa; que Deus em seu amor e misericórdia, de seu bel prazer e soberana vontade, resolveu salvar pecadores e justifica-los em seu filho Cristo Jesus, e pecadores foram preteridos para o Juízo. Esse ato é a realização da misericórdia de Deus em seu infinito amor e, a execução do ato da justiça e a merecida punição do culpado. Não vejo acepção quando o mesmo Deus salva e condena "pecadores iníquos de mesma proporção".

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Autor: Klarystone P. Leal
Divulgação: Bereianos
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Resposta ao Silas Daniel - Ainda Sobre Luteranismo e Monergismo

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Silas Daniel publicou mais um texto em resposta às minhas postagens. Neste, não há nada de novo; o autor tenta clarificar algumas questões, especialmente sobre a relação de Lutero com o sinergismo de Melanchthon e alguns vocábulos empregados. Comento apenas as questões principais – já que o reverendo luterano Daniel Branco já respondeu ao texto com profundidade, numa nova postagem publicada na página da Congregação Luterana da Reforma.

Silas insiste no fato de Lutero, aparentemente, condescender com o sinergismo de Melanchthon (sem levar em conta que o sinergismo deste só se tornou explícito dois anos após a morte do primeiro), como se isso provasse que houve algum tipo de atenuação no monergismo do reformador alemão. Mas o autor não responde efetivamente às questões levantadas nos dois textos escritos por Daniel Blanco, nem as do meu último texto sobre Lutero, insistindo, a partir de uma opinião bem peculiar, baseada em inferências, que Lutero suavizou sua posição em Da vontade cativa. O leitor deve notar que estas afirmações da parte de Silas são feitas sem citação a nenhuma fonte primária que corrobore tal posição (e ele não cita nem uma vez obras de referência sobre a teologia da Reforma, como as obras de Henri Strohl, Timothy George ou Paul Althaus). De qualquer forma, um exemplo de fonte primária talvez baste para mostrar a fragilidade de sua posição: de forma completamente oposta ao que o autor opina, Lutero escreveu a Wolfgang Capito, em 9 de julho de 1537, que nenhum de seus livros mereceria ser preservado, com a exceção de seu Catecismo Menor e do De servo arbítrio (LW 50, p. 172-173).

Vou ficando com a impressão de que é muito mais fácil por parte dos arminianos afirmar, sem provas, que supostamente houve mudança ou abrandamento no pensamento do reformador alemão do que interagir com a vigorosa interpretação monergista que ele ofereceu ao texto bíblico, não só em Da vontade cativa, mas em suas preleções à Epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo aos Romanos e no Comentário à Epístola aos Gálatas. A propósito, o leitor pode conferir em minha última postagem, O luteranismo confessional e o monergismo (publicada no Bereianos), a citação inequívoca de Lutero sobre a predestinação soberana e graciosa, em seu prefácio à epístola aos Romanos, e publicada segundo a versão revisada no último ano de sua vida.

Como Silas Daniel parece não entender o princípio de igreja confessional, ele insiste em citar alguns escritores (me parece incorrendo no argumento ad verecundiam) para afirmar que a tradição luterana se afastou do monergismo do reformador – e, mais uma vez, é preciso destacar, tal conclusão se dá a partir da citação de fontes secundárias. Ele não cita nenhuma vez qualquer um dos documentos confessionais luteranos reunidos no Livro de Concórdia (o que fiz em O luteranismo confessional e o monergismo) para apoiar sua opinião sobre a tradição luterana.

Para tornar clara a questão: em igrejas confessionais, como as igrejas da tradição reformada, é perguntado aos candidatos ao ministério pastoral: “Recebeis e adotais sinceramente a Confissão de Fé e os Catecismos desta Igreja, como fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras?” Espera-se, como resposta, que estes afirmem solenemente “sua crença nas Escrituras Sagradas como a Palavra de Deus, bem como a sua lealdade à Confissão de Fé” e aos Catecismos como fiéis resumos do ensino bíblico – e que estes se mantenham firmes neste santo compromisso. Assim sendo, para as tradições confessionais, o que determina o que estas creem são seus documentos confessionais, não a posição de seus teólogos, mesmo dos mais representativos.

Por interpretar a história da controvérsia sobre a soteriologia em termos anacrônicos, reduzindo as alternativas em “calvinismo” e “arminianismo” (problema já tratado em detalhes em Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão, também publicado no Bereianos, e de passagem em O luteranismo confessional e o monergismo), o autor não consegue entender que a tradição luterana é uma terceira interpretação da soteriologia, mas não menos confessionalmente monergista que a tradição reformada.

Sobre o uso da expressão “mecânica da salvação”, minha crítica ao uso da mesma se dá por tal ideia sugerir a noção de graça ex opere operato, reduzindo a salvação a um sistema, ou ao recebimento mecânico da salvação (como na tradição pelagiana, com sua linguagem do tipo “aceitar a Jesus”, “tomar uma decisão por Cristo”, etc.). O fato da expressão “mecanismo da salvação” (e não “mecânica”) ter sido citada por Lloyd-Jones (uma única vez na palestra O que é um evangélico, em contraponto a “método de salvação”) é indiferente. Silas é livre para usar a expressão que lhe convier. A mim me parece que falar da livre graça de Deus é mais apropriado e bíblico (diga-se de passagem, esta última expressão é encontrada, de forma recorrente, em vários dos sermões de John Wesley).

Sobre o uso dos termos “semipelagianismo” e “semiagostinianismo”, deve-se afirmar que não atribuímos significado arbitrário a estes vocábulos, usando-os segundo nossas preferências. Eles devem ser referidos a partir dos dicionários teológicos e livros-textos consagrados, assim como de seu uso na história da teologia. Neste caso, referenciei tanto a diferença entre semipelagianismo e semiagostinianismo (que julgo importante, já que as duas interpretações pressupõem inícios diferentes para a salvação: a primeira, a partir da vontade, que será assistida por Deus; a segunda, atribuindo-a a Deus, que coopera com a vontade), como o fato de Agostinho e Próspero serem considerados autores “medievais”. Neste caso, o autor insiste na datação tradicional para se evadir de que houve de fato uma tradição monergista na Idade Média, e ela começou cedo. Para relembrar, Silas Daniel havia afirmado em seu texto publicado em O Obreiro Aprovado de que não teria havido ninguém que ensinou a doutrina da predestinação entre Agostinho e a Reforma, afirmação que ele corrigiu posteriormente. Ele, inclusive, afirmou naquela revista que os sínodos de Quiercy e Valença ensinaram “a predestinação pela presciência divina”, um óbvio equívoco de interpretação que fica evidente para aqueles que consultarem as fontes originais, na edição bilíngue de Denzinger-Hünerman (Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral), e citadas em meu ensaio Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão (onde o leitor encontrará também a citação dos artigos principais das decisões do Sínodo de Orange sobre a soteriologia).

Por fim, as várias citações de Próspero a favor daquilo que é chamado de “universalismo hipotético”, com que o autor encerra seu último texto, não provam nada. As citações não demonstram que tal posição é incompatível ou é uma ruptura com o monergismo que ele herdou de Agostinho, e do qual foi firme defensor; Próspero também foi a influência determinante no Sínodo de Orange (por meio da obra Sententiae ex Augustino delibatae), que condenou o pelagianismo e “algumas doutrinas semi-pelagianas típicas, como aquela da initium fidei humana”, e que adotou “uma forma atenuada de agostinianismo” (Justo Gonzalez, Uma história do pensamento cristão, v. 2, p. 60-61).

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

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Resposta ao Pr. Silas Daniel - Sobre arminianismo, calvinismo e o uso da história do pensamento cristão
O Luteranismo Confessional e o Monergismo
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O Luteranismo Confessional e o Monergismo

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Silas Daniel publicou na CPAD News sua quarta resposta, agora tratando de Martinho Lutero. Para relembrar o que já foi dito em meu último texto, neste texto o autor também tenta impor ao reformador alemão categorias interpretativas estranhas aos seus escritos, tais como “cinco pontos do calvinismo” ou do “arminianismo”, quando os eixos interpretativos devem ser monergismo e sinergismo, ou agostinianismo e pelagianismo (e suas gradações, semiagostinianismo e “semipelagianismo”).


Um irmão luterano, o reverendo Daniel Branco, preparou uma competente, respeitosa e muito bem escrita refutação em dez pontos ao quarto texto de Silas Daniel, que pode ser lida na página da Congregação Luterana da Reforma.

Neste artigo, já que a tradição luterana é confessional, serão feitas citações diretas de fontes primárias, os documentos reunidos no Livro de Concórdia, para mostrar que esta tradição é monergística, ainda que distinta e crítica da fé reformada. Tal esforço é importante e compensador. Silas Daniel cita uma impressionante lista de fontes secundárias – todas em inglês (até onde percebi), mesmo quando já traduzidas para o português, o que dificulta ao leitor sem domínio daquele idioma o acesso às mesmas para checar as fontes citadas. Um exemplo problemático é o uso que ele faz de H. Bavinck. Em seu texto “Em defesa do arminianismo” (publicado na revista Obreiro Aprovado Ano 36, nº 68), ele, se apoiando no teólogo holandês, afirmou que Lutero “abrandou a sua posição afirmada em De servo arbítrio” (cujo título nas Obras Selecionadas é Da vontade cativa). Na verdade, Bavinck afirma que “embora em suas polêmicas com os anabatistas [Lutero] tenha enfatizado cada vez mais a revelação de Deus na Palavra e nos sacramentos, ele nunca reverteu sua posição sobre predestinação” (Teologia Sistemática, v. 2, p. 364). Em seu novo texto, Silas, surpreendentemente, escreve que “quanto à afirmação de Bavinck de que os ‘verdadeiros luteranos’ [ibid, p. 364] rejeitaram o sinergismo de Melanchthon, trata-se de uma tremenda distorção da história”. A impressão que dá é que o autor mencionou Bavinck apenas quando a citação aparentemente favoreceu o seu argumento. 

Lembrando do princípio de que para tratar de temas teológicos controversos deve-se começar com o que afirmam as confissões de fé que resumem as posições das tradições estudadas, passemos às citações dos escritos confessionais luteranos contidos no Livro de Concórdia.

1. A tradição luterana é monergista. Isto pode ser conferido na Fórmula de Concórdia XI.1-14, no capítulo que trata “da eterna presciência e eleição de Deus”, que afirma que “sobre este artigo não ocorreu dissensão pública entre os teólogos da Confissão de Augsburgo”. E continua: “A presciência de Deus nenhuma outra coisa é senão isso que Deus sabe todas as coisas antes de elas acontecerem... (...) Se estende igualmente sobre os bons e os maus, não sendo, porém, causa do mal nem do pecado... (...) Também não é a causa da perdição dos homens, pela qual eles mesmos são culpados. A presciência de Deus apenas regula o mal e lhe fixa limite quanto à duração, fazendo com que tudo, não obstante seja mau em si mesmo, sirva à salvação de seus eleitos”. Por fim: “A predestinação ou eterna eleição de Deus, entretanto, diz respeito apenas aos piedosos, agradáveis filhos de Deus, sendo uma causa da salvação deles, a qual ele também provê, e ordena o que a ela pertence. Sobre ela, nossa salvação se funda de maneira tão firme que ‘as portas do inferno não prevalecerão contra ela’. (...) Com essa breve explicação da eterna eleição de Deus, dá-se a Deus sua honra inteira e plenamente, que ele, somente por sua pura misericórdia, sem qualquer mérito nosso, nos salva ‘segundo o propósito’ da sua vontade. Além disso, também não se dá a ninguém causa para pusilanimidade ou vida rude, desenfreada” (2-4, 14). Por meio de negativas, é rejeitada a ideia de uma dupla predestinação simétrica (predestinatio gemina). Na Declaração Sólida XI, “da eterna presciência e eleição de Deus”, tal posição é detalhadamente reafirmada. Um trecho basta:

“Essa é a extensão em que o mistério da predestinação nos é revelado na palavra de Deus. E se a isso nos restringimos e ativermos, deveras, é doutrina útil, salutar e confortadora, pois que mui poderosamente confirma o artigo de que somos justificados e salvos sem qualquer obra e mérito nosso, exclusivamente pela graça, tão-só por causa de Cristo. Antes do tempo do mundo, antes de existirmos, ‘antes da fundação do mundo’, quando, naturalmente, nada de bom poderíamos ter feito, fomos eleitos, por graça, em Cristo, para a salvação, ‘segundo o propósito de Deus’, Rm 9; 2 Tm 1. Isso também derruba todas as opiniones e doutrinas errôneas sobre os poderes de nossa vontade natural, porque, em seu conselho, Deus resolveu e decretou, antes do tempo do mundo, que, pelo poder de seu Santo Espírito, mediante a palavra, ele mesmo quer criar e operar em nós tudo o que pertence à nossa conversão”.

Portanto, aqueles familiarizados com a tradição confessional luterana sabem que esta, ainda que tendo agudas diferenças em relação à tradição reformada, é monergística (para uma exposição do pensamento de Lutero sobre a predestinação, cf. Paul Althaus, A teologia de Martinho Lutero, p. 291-303).

2. Por defender uma interpretação anacrônica da controvérsia soteriológica, o autor insiste que os Artigos de Esmacalde III.40-45 ensinariam a “crença de Lutero na possibilidade de um cristão genuíno cair da graça”, quando o luteranismo oferece outra possibilidade de compreensão da segurança da salvação. Os artigos ensinam:

“E esse arrependimento perdura nos cristãos até a morte, pois que briga com o pecado que remanesce na carne ao longo da vida toda, como S. Paulo testifica em Rm 7 que guerreia contra a lei de seus membros, etc. E isso não o faz mediante forças próprias, senão pelo dom do Espírito Santo, dom que se segue o perdão dos pecados. Esse dom purifica e varre diariamente os pecados remanescentes e opera no sentido de tornar o homem bem puro e santo. 
Disso nada sabem nem papa, nem teólogos, nem juristas, nem homem algum. É doutrina do céu, revelada pelo evangelho. E ela tem de suportar o ser chamado de heresia entre os santos ímpios.
Por outro lado, é possível que venham alguns espíritos sectários – e talvez já estejam presentes alguns, tais como os que no tempo da insurreição [a Guerra dos Camponeses, de 1525] me surgiram a mim mesmo diante dos olhos – e sustentem a seguinte opinião: Todos aqueles que alguma vez hajam recebido o Espírito ou o perdão dos pecados, ou que se hajam alguma vez tornado crentes, esses, caso pequem depois disso, mesmo assim permanecerão na fé, e tal pecado não lhes fará mal. E, de acordo com isso, berram: ‘Faze o que quiseres; se crês, nada importa; a fé extingue todo pecado’, etc. Dizem, além disso, que nunca teve de modo verdadeiro o Espírito e a fé aquele que peca depois da fé e do Espírito. Tais criaturas insanas têm-me aparecido muitas pela frente, e temo que esse demônio ainda esteja alojado em algumas.
Por isso é necessário saber e ensinar: pessoas santas ainda têm e sentem o pecado original e, diariamente, se arrependem e lutam contra ele. Se, à parte disso, lhes acontece caírem em pecado manifesto, como por exemplo, Davi, em adultério, em assassínio e em blasfêmia, então a fé e o Espírito estiveram ausentes. Pois o Espírito Santo não permite que o pecado governe e prevaleça, de modo que seja consumado, porém reprime e resiste, de forma que não pode fazer o que quer. Se, porém, fizer o que é de sua vontade, então o Espírito Santo e a fé não estão presentes. Porquanto São João diz: ‘Pois quem é nascido de Deus não peca e não pode pecar’. Contudo, também é verdade, conforme escreve o mesmo São João: ‘Se dissermos que não temos pecado nenhum, mentimos, e a verdade de Deus não está em nós’”.

Tal declaração deve ser lida em contexto, isto é, as controvérsias com os vários grupos anabatistas, chamados coletivamente pelos reformadores alemães de “entusiastas” (Schwärmer ou Schwärmertum, sinônimo de “fanáticos”). Numa nota de rodapé do Livro de Concórdia, comentando a frase “então o Espírito Santo e a fé não estão presentes”, cita-se Gottfried Noth, que afirmou que “M. Chemnitz repetidas vezes apela para esse passo dos Artigos de Esmacalde, interpretando-o, porém, mal, como se Lutero quisesse dizer que pecados grosseiros liquidam a fé”.

Para entender o que a tradição luterana confessional defende sobre a fé e a certeza da salvação, pode-se ir a John Theodore Mueller, Dogmática cristã, que escreve: “Se os papistas e protestantes romanizantes negam que o crente possa estar certo de sua salvação, é porque ensinam que a salvação, ao menos em parte, depende das boas obras do crente. (...) Todo aquele que crê em Cristo com sinceridade está seguro de seu estado de graça e salvação; pois o Espírito Santo, que nele gerou fé pelo Evangelho, por essa mesma fé lhe dá certeza de que é filho de Deus e herdeiro da vida eterna” (p. 320, 322). Mas, para Mueller, há que se fazer uma distinção entre a primeira conversão, e a conversão continuada, que “jamais está completa enquanto [a pessoa que crê em Cristo] vive no mundo”. Esta conversão continuada não é um processo de santificação interna, mas um viver na confiança na salvação obtida objetivamente na Palavra e nos sacramentos. Portanto, “o fato de aqueles que crêem em Cristo poderem cair da graça ou perder a fé constitui doutrina clara da Bíblia”, ainda que seja “preciso manter que podem se converter de novo (...) os que caíram na fé” (p. 341). Esse autor, em sua obra, critica o entendimento reformado da perseverança, pois esta nega “a gratia universalis”. Mas rejeita a compreensão sinergista da perseverança, pois esta nega “o sola gratia”, ensinando que “o pecador tem de entrar com a sua quota a bem de se tornar cristão, assim como também tem de cumprir com a sua parte para poder perseverar na fé”. De acordo com Mueller, “o monergismo divino é, também, responsável pela conservação para a salvação” (p. 413-417).

Para a tradição luterana, a santificação (que é interna) não pode ser a base da certeza da salvação, mas a segurança da salvação é dada externamente, na Palavra e nos sacramentos. Como Lutero afirmou no Catecismo Maior: “Assim, a fé se apega à água, crendo que é o batismo, em que há pura salvação e vida. (...) Não pela água, mas (...) porque está unida à palavra e ordem de Deus... (...) Se creio isso, em que outra coisa creio senão em Deus, como aquele que deu e implantou sua palavra no batismo... (...) De forma nenhuma se há de considerar o sacramento como se fosse coisa prejudicial, da qual cumprisse fugir, mas como medicina inteiramente salutar [ou salvadora] e consoladora, que te ajuda e te dá a vida tanto na alma quanto no corpo”.

3. Sobre Lutero, deve ser óbvio, a esta altura, que é muito mais fácil afirmar que supostamente houve mudança ou abrandamento no pensamento do reformador do que interagir com a vigorosa exegese que ele ofereceu ao texto bíblico, não só em Da vontade cativa, mas também em suas preleções à Epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo aos Romanos e no Comentário à Epístola aos Gálatas. Curiosamente, uma editora nacional publicou no Brasil a obra editada por E. Gordon Rupp e Philip S. Watson, Luther and Erasmus: Free Will and Salvation, sem o texto do reformador alemão (o título nacional é Erasmo: livre-arbítrio e salvação). Assim sendo, me parece apropriado encerrar com uma citação do Prefácio à Epístola de S. Paulo aos Romanos, escrita em 1522, e revisada e adaptada em 1546, ano da morte do reformador:

“Nos capítulos 9, 10 e 11, (...) [Paulo] ensina a eterna predeterminação de Deus. Desse conceito provém originalmente a distinção entre quem há de crer e quem não há, quem se pode livrar de pecados ou não. Com ele está de todo fora do nosso alcance e exclusivamente nas mãos de Deus, que nos tornemos retos. E isso é de suma necessidade. Pois somos tão fracos e inseguros que, se dependesse de nós, naturalmente nem uma pessoa sequer se salvaria e o diabo com certeza a todas sobrepujaria. Mas, como para Deus é certo que não falhará aquilo que ele predetermina, tampouco alguém o pode impedir, ainda temos esperança contra o pecado.
Entretanto, há que se pôr um limite aos espíritos injuriosos e arrogantes que, primeiro, dirigem seu raciocínio para este ponto, começam por pesquisar o abismo da predeterminação divina e se preocupam em vão com a pergunta, se estão predeterminados. Esses então têm que se humilhar a si mesmos de forma a desesperar ou a pôr tudo em jogo. Tu, porém, segue esta carta em sua sequência, ocupa-te primeiro com Cristo e o Evangelho. Nele, reconhecerás teu pecado e a graça do Evangelho. Em seguida, combate o pecado, como o ensinaram aqui os caps. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. Depois, tendo chegado ao 8º capítulo, sob cruz e sofrimento, isso te ensinará a entender tão bem a predeterminação nos cap. 9, 10 e 11. E como ela é consoladora! Pois, sem sofrimento, cruz e aflições de morte não se pode tratar da predeterminação, sem juízo e indignação oculta contra Deus. Por isso, o [velho] Adão precisa estar morto antes de suportar essa coisa e tomar o vinho forte. Toma cuidado, portanto, que não bebas vinho enquanto ainda és lactente. Todo ensinamento tem sua medida, tempo e idade” (OS 8, 139).

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Autor: Franklin Ferreira
Divulgação: Bereianos

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A santificação é Monergística ou Sinergista? Uma análise reformada

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Por Kevin DeYoung


Os termos monergismo e sinergismo se referem à obra de Deus na regeneração. Monergismo ensina que nós nascemos de novo somente através da obra de um (a palavra mono tem origem no grego e significa ‘um’, erg vem do grego e significa trabalho’). Sinergismo ensina que nós nascemos de novo através da cooperação humana com a graça de Deus (o prefixo sin vem do grego e significa “com”). Os reformadores se opuseram fortemente contra todo o conceito sinergístico para o novo nascimento. Eles acreditavam que dada a morte espiritual, a falha moral do homem, nossa regeneração é devido inteiramente a soberana obra de Deus. Nós não cooperamos e não contribuímos para nosso novo nascimento. Três vivas para o monergismo!

Mas o que nós deveríamos dizer sobre a santificação? Por um lado, cristãos reformados detestam a palavra sinergismo. Não queremos de maneira alguma sugerir que a graça de Deus é de algum modo desprezível na santificação. Nem queremos sugerir que o duro trabalho de crescimento em piedade não é um dom sobrenatural de Deus. Por outro lado, estamos em um terreno perigoso se afirmarmos que somos passivos na santificação da mesma forma que somos passivos na regeneração. Não queremos sugerir que Deus é o único agente ativo em nossa progressiva santificação. Então a questão é: A santificação é monergística ou sinergística?

Eu acho que é melhor ficar longe de ambos os termos. A distinção é muito útil (e muito importante) quando falamos acerca da regeneração, mas esses termos teológicos restritos confundem quando se fala acerca da santificação. Sinergismo soa como um palavrão para os reformados, então ninguém quer dizer isso. E ainda, monergismo também não é uma palavra adequada. Para transformá-la em uma palavra conveniente, nós temos que providenciar uma definição diferente da qual nós damos quando discutimos acerca do novo nascimento. O que significa dizer que regeneração e santificação são ambos monergísticos se nós estamos inteiramente passivos em um e ativos em outro?

Aqueles que dizem que santificação é monergística querem proteger a graça, a natureza sobrenatural da santificação. Aqueles que dizem que a ela é sinergística, querem enfatizar que devemos cooperar ativamente com a graça. Esses exemplos estão ambos corretos. Eu acredito ainda que é melhor defender esses dois pontos com uma cuidadosa explicação do que com termos que normalmente tem sido usados em polêmicas teológicas. Santificação é, ao mesmo tempo, um dom gracioso de Deus, e requer nossa ativa cooperação. Eu tentei mostrar em artigos anteriores que essas duas verdades são bíblicas. Nesse artigo eu quero mostrar que essas duas verdades são também notavelmente reformadas.

Deixe me dar alguns breves exemplos:

João Calvino (1509-64)

No Comentário de 2 Pedro 1:5 (“E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé…”), Calvino diz:

Visto que isso é um grande e árduo trabalho, eliminar a corrupção que há em nós, ele nos ordena a atacar e fazer todo o esforço possível para atingir esse propósito. Ele intima que não se deve dar lugar à preguiça, e que nós devemos obedecer ao chamado de Deus não brandamente ou descuidadosamente, mas que haja necessidade de diligência; conforme ele disse: “Empenhe todos os esforços, e faça seu zelo ser manifestado a todos.

Para Calvino, crescer em piedade é um trabalho difícil. Não há lugar para preguiça. Nós devemos nos esforçar para  obedecer com rapidez e diligência. O crente não é nada passivo na santificação.


Mas depois, enquanto comentava no mesmo verso, Calvino também adverte contra “o delírio” de que nós tornamos os movimentos de Deus eficazes, como se a obra de Deus não pudesse ser feita a menos que nós O permitíssemos fazer. Pelo contrário, “desejos santos são criados em nós por Deus, e são reproduzidos por Ele eficazmente.” Na verdade, “todo nosso progresso e perseverança provém de Deus.” Sabedoria, amor, paciência – todos eles são “dons de Deus e do Espírito”. Então, quando Pedro nos diz para empregar toda nossa diligência, “ele não está querendo dizer que [essas virtudes] são realizadas pelos nossos próprios esforços, mas somente mostra que devemos ter e que deve ser feito.

Francisco Turretini (1623-87)

Turretini emprega santificação como um termo teológico “usado estritamente para uma real e interna renovação do homem.” Nessa renovação, nós somos tanto receptores da graça de Deus quanto atores ativos dela.

[Santificação] segue a justificação e se inicia pela regeneração e é promovida pelo exercício da santidade e das boas obras, até que uma seja consumada na outra pela glória. Nesse sentido, ela é passiva, na medida em que é operada por Deus em nós, e em outro sentido é ativa, na medida em que deve ser feito por nós. Deus realiza seu trabalho em nós e através de nós. (Institutes of Elenctic Theology 2.17.1)

Quando se trata da graça de Deus na regeneração, Turrentini se opõe a “todos os sinergistas”. Ele tem em mente os Socinianos, Remonstrantes, Pelagianos, Semipelagianos, e especialmente os Católicos Romanos, que anatematizaram: “Eles dizem que o livre arbítrio do homem, movido e estimulado por Deus, coopera de alguma forma” no chamado eficaz (Concílio de Trento). Turrentini foi feliz em ser o tipo de monergista que foi contra Trento. Entretanto, ele faz um esclarecimento:

Esse assunto não diz respeito ao segundo estágio da conversão, em que é certo que o homem não é meramente passivo, mas coopera com Deus (ou melhor, opera em submissão a Ele). Na verdade, ele realmente acredita e se converte a Deus; se move ao exercício da nova vida. Antes, essa questão diz respeito ao primeiro momento quando ele é convertido e recebe nova vida na regeneração. Nós afirmamos que ele é meramente passivo nesse caso, como um sujeito que recebe e não como um princípio ativo (2.15.5).

Dada essa ressalva, é difícil pensar que Turrentini se sentisse confortável em dizer que santificação é monergística, embora ele certamente acreditasse que a santidade é trabalhada no crente por Deus.

Wilhelmus A Brakel (1635-1711)

Semelhantemente a Turrentini e Calvino, A Brakel deixa claro que a santificação é um trabalho de Deus. Somente Deus é sua causa” ele escreve: “Assim como o homem não pode contribuir para sua regeneração, fé e justificação, da mesma forma não pode contribuir para sua santificação” (The Christian’s Reasonable Service, 3.4). Isso pode soar como se fôssemos completamente passivos na santidade, mas não é o que A Brakel quer dizer:

Crentes odeiam o pecado, amam a Deus, e são obedientes, e fazem boas obras. Entretanto, eles não fazem isso por conta própria nem independentemente de Deus; antes, o Espírito Santo, tendo infundido vida neles na regeneração, Ele mantém essa vida pela Sua contínua influência, despertando, ativando e fazendo com que ela funcione em harmonia com sua natureza espiritual. (3.4)

Nós não contribuímos em nada para santificação, e o crescimento em piedade é um dom de Deus. No entanto, nós devemos ser ativos no exercício desse dom. A Brakel vai ainda além quando diz: “Homem, sendo assim movido pela influência do Espírito de Deus, age, santifica a si mesmo, se compromete na atividade a qual sua nova natureza deseja e na direção que ela está disposta, e faz o que ele sabe que é seu dever” (3.4, grifo do autor). É por isso que A Brakel depois exorta seus leitores a “fazer um diligente esforço para se purificar de toda contaminação da carne e da mente, aperfeiçoando sua santificação no temor a Deus. Permita me despertá-lo para a obra santa; incline seu ouvido e permita que essas exortações endereçadas a você entrem seu coração” (3.24). Então em um certo sentido (no nível da causa e da origem) nós não contribuímos em nada para santificação e em outro sentido (no nível da atividade e esforço) nós santificamos a nós mesmos.

Charles Hodge (1797-1878)

Nós achamos os mesmos temas – santificação como um dom e santificação como uma ativa cooperação – em um grande sistematizador de Princeton. Hodge enfatiza que a santificação é “sobrenatural” e que as santas virtudes na vida de um crente não podem “ser produzidas pelo poder da sua vontade”, ou por todos os recursos do homem, embora possam ser prolongadas no seu exercício. Elas são presentes de Deus, fruto do Espírito” (Systematic Theology, 3.215).

Entretanto, Hodge é rápido em acrescentar que essa obra sobrenatural da santificação não exclui “a cooperação como causa secundária” Ele explica:

Quando Cristo abriu os olhos dos cegos, nenhuma causa secundária se interpôs entre sua vontade e o efeito. Mas os homens desenvolvem sua própria salvação, enquanto Deus trabalha neles o querer e o fazer, de acordo com Sua própria vontade. No trabalho da regeneração, a alma é passiva. Ela não pode cooperar. Mas na conversão, o arrependimento, a fé, e o crescimento em graça, todos seus poderes são chamados a entrar em exercício. Quando, porém, os efeitos produzidos superam a eficiência de nossa natureza caída, isso se deve a atividade do Espírito, e a santificação não deixa de ser sobrenatural, ou uma obra da graça, porque a alma é ativa e coopera no processo (3.215).

Há muitas idéias importantes no resumo do Hodge. Primeiro, ele afirma que a santificação é uma obra da graça sobrenatural. Isso não é algo que vem de nós ou poderia ser efetuado por nós. Segundo, ele sugere que a alma é passiva (monergismo) na regeneração, mas não no restante de nossa vida espiritual (nota: “conversão” nesse trecho significa seguir Cristo, não se refere ao novo nascimento). Terceiro, ele não hesita em usar a linguagem da cooperação. Nós somos ativos no processo de santificação com Cristo enquanto Ele trabalha em nós.


Herman Bavinck (1854-1921)

Mais do que Hodge, e da mesma forma que Calvino, Bavinck enfatiza a natureza “em Cristo” da santificação. Ele quer que vejamos que não somos “santificados pelo que realizamos por nós mesmos”. Antes, a santificação evangélica “consiste na realidade de que, em Cristo, Deus também nos garante, junto com justiça, plena santificação, e não apenas atribui, mas também nos concede pela obra regeneradora e renovadora do Espírito Santo até que nós tenhamos sido completamente conformados à imagem de seu Filho” (Reformed Dogmatics, 4.248). Bavinck continua ao dizer que a doutrina romana da “justiça imputada” não está incorreta como tal. Os Crentes “realmente obtém a justiça de Cristo por imputação”. O problema é que Roma faz dessa justiça, um motivo para o perdão. A nós é dado o dom da justiça ( por Cristo “vindo habitar em nós pelo Espírito Santo e nos renovar a Sua imagem”), mas nós somos declarados justos somente pelo dom da justiça imputada (4.249).

Santificação, para Bavinck, é antes de tudo o que Deus faz em e por nós. Mas isso não é tudo que devemos dizer acerca da santificação:

É admitido, em primeiro lugar que [santificação] é uma obra e dom de Deus (Fp 1:5; 1Tess 5:23); um processo no qual se inicia na regeneração. Embora essa obra seja estabelecida nos homens, ela alcança, em segundo lugar, um sentido ativo, e as próprias pessoas são chamadas e capacitadas a santificar a si mesmas e a devotarem completamente suas vidas a Deus. (Rom. 12:1; 2 Cor. 7:1; 1 Tess. 4:3; Heb. 12:14; e assim por diante). (4.253)

Enquanto Bavinck pode estar mais decidido a enfatizar a natureza passiva da santificação do que usar a linguagem de cooperação, no final ele ataca os mesmos tópicos que nós vimos em Calvino, Turrentini, A Brakel, e Hodge. Bavinck não vê conflito “entre essa atividade de Deus realizada em graça e a busca da santificação pelos cristãos” (4.254). Ele exorta que os cristãos perdem o foco quando não conseguem conciliar esses dois significados. Santificação é um dom de Deus, e nós somos ativos nesse dom.

Louis Berkhof (1873-1857)

Nós percebemos em Berkhof a mesma tendência de se resguardar contra qualquer ideia de auto-ajuda por um lado e a inatividade humana por outro.

[Santificação] é uma obra sobrenatural de Deus. Alguns tem a ideia equivocada de que santificação consiste apenas no alongamento da nova vida, inserida na alma pela regeneração, apresentando motivos convincentes para o desejo. Mas isso não é verdade. Isso consiste fundamentalmente e principalmente em uma divina operação na alma, por meio da qual, uma santa disposição é originada na regeneração e fortalecida e as boas obras são aperfeiçoadas. (Systematic Theology, 532).

Em outras palavras, santificação é essencialmente uma obra de Deus. Embora seja também “uma obra no qual crentes cooperam.” Quando é dito que o homem participa na obra da santificação, isso não significa que o homem seja um agente independente nesse esforço, de forma que parte seria trabalho de Deus e parte do homem, mas significa apenas que Deus efetua a obra através do homem como um ser racional, requerendo dele uma cooperação piedosa e inteligente com o Espírito. (534)

Conclusão

Então o que vemos nessa breve análise de teólogos reformados. Para começar, não vimos exatamente as palavras monergismo ou sinergismo aplicada à santificação. Em segundo lugar, percebemos que, dadas certas restrições, cada termo pode ser usado com mérito.

“Monergismo” pode funcionar porque santificação é um dom de Deus, Sua obra sobrenatural atuando em nós.

“Sinergismo” também pode, pois nós cooperamos com Deus na santificação e ativamente nós esforçamos para crescer em piedade.

Em terceiro lugar, vemos nessa análise reformada a necessidade de sermos cautelosos com nossas palavras. Por exemplo, “passivo” pode descrever nosso papel na santificação, mas somente se nós também dissermos que há um sentido no qual somos ativos. Do mesmo modo, nós podemos usar a linguagem da cooperação desde que entendamos que santificação não depende fundamentalmente de nós. E se tudo isso parece confuso, você pode simplesmente dizer: nós desenvolvemos nossa santificação assim como Deus trabalha em nós (Fp 2:12-13). Essa são duas verdades que devemos proteger: o dom de Deus na santificação e a atividade do homem. Nós buscamos o dom, é como John Webster coloca. Eu atuo o milagre, é uma frase de Piper. Ambos estão dizendo a mesma coisa. Deus nos santifica e nós também santificamos a nós mesmos. Com certas restrições e definições, eu creio que Calvino, Turrentini, A Brakel, Hodge, Bavinck, e Berkhof concordariam plenamente.

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Fonte: The Gospel Coalition
Tradução: Henderson Fonteneles
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Falácias lógicas bíblicas dos Sinergistas

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Por John Hendryx


Os seguintes itens numerados são suposições comuns feitas por sinergistas em rejeitar a escravidão do arbítrio e a graça soberana de Deus na salvação.

Falácia #1. Deus não nos ordenaria a fazer o que não consigamos fazer.

Deus deu a Lei a Moisés, Os Dez Mandamentos, para revelar o que o homem não consegue fazer.

A. A Premissa #1 não é bíblica. Deus deu a Lei por duas razões: Para expor o pecado e para aumentá-lo para que o homem não pudesse ter escusa por declarar a sua própria justiça. Por quê? Porque no contexto, ele NÃO faz justiça. Como Martinho Lutero disse a Erasmo, quando você terminar com todos os seus mandamentos e exortações do Velho Testamento, eu escreverei Rm 3:20 por cima de tudo isso. Por que usar mandamentos e exortações do V.T. para mostrar o livre arbítrio quando estes [os dez mandamentos] foram dados para provar a pecaminosidade do homem? Estes existem para mostrar o que não conseguimos fazer ao invés do que conseguimos fazer. Portanto mandamentos e exortações não provam o livre arbítrio. Em nenhum lugar na escritura há alguma insinuação de que Deus dá mandamentos para homens naturais provarem que são capazes de cumpri-los.

[Aqui está a passagem que Lutero citou para Erasmo a fim de mostrar que o propósito da lei é para expor a nossa escravidão ao pecado, não para mostrar a nossa habilidade moral de guardá-la: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado”. Rom 3:19, 20] (colchetes inseridos pelo autor)

B. Essa premissa é irracional. Pode haver muitas razões para dar ordens à alguém para fazer algo, além da suposição de que ela consegue fazê-la. O propósito, como está acima, pode servir para mostrar à pessoa sua inabilidade de cumprir o mandamento. Assim, NADA pode ser deduzido acerca das habilidades por meio de um mero mandamento. Passagens que afirmam coisas como “Se você quiser” e “quem quer que creia” são ditas no modo subjuntivo (hipotético). Um gramático explicaria que isso é uma afirmação condicional que assevera nada indicativamente. Em tais passagens, o que nós “deveríamos” fazer não necessariamente implica o que “conseguimos[/podemos]” fazer.

C. As consequências da desobediência de Adão sobre os seus descendentes inclui impotência espiritual em várias áreas: a inabilidade do homem de entender a Deus (Salmo 50:21; Jó 11:7-8; Rom 3:11); de ver coisas espirituais (João 3:3); de conhecer o seu próprio coração (Jer 17:9); de direcionar os seu próprios passos no caminho da vida (Jeremias 10:23; Provérbios 14:12); de libertar a si mesmo da maldição da lei (Gálatas 3:10); de receber o Espírito Santo (João 14:17); de escutar, entender ou receber as palavras de Deus (João 8:47; 1 Corinthians 2:14); de se fazer nascer dentro da família de Deus (João 1:13, Romanos 9:15-16); de produzir arrependimento e fé em Jesus Cristo (Efésios 2:8-9; João 6:64, 65; 2 Tessalonicenses 3:2; Filipenses 1:29; 2 Timóteo 2:25); de vir a Cristo (João 10:26; João 6:44); e de agradar a Deus (Romanos 8:5, 8, 9).

Falácia #2. A menos que o nosso arbítrio seja livre, não somos responsáveis.

Ou, “Se não livre, então não responsável”. Isso significa que se não somos capazes de fazer uma escolha contrária, então os nossos arbítrios não são livres. Assim, se formos completamente presos em pecado de forma que não consigamos fazer mais nada além de pecar, então somos livres da responsabilidade destes pecados. Isso é irracional porque a suposição por detrás disso é a ideia da neutralidade.

A. A Bíblia não apresenta o conceito de liberdade desta maneira. De acordo com a Escritura, liberdade é descrita como santidade. A liberdade definitiva é a santidade absoluta. Se isso for verdade, então Deus é o ser mais livre de todo o universo. De outro modo, precisamos dizer que Deus é o ser mais escravizado no universo porque Ele é o menos neutro em questões morais. Ademais, Deus não é livre no sentido libertário para fazer algo contrário a Sua própria natureza. Por exemplo, Deus não pode mentir ou ser impuro ou Ele violaria a Sua própria essência e, portanto, não mais seria Deus (uma suposição impossível). Mas Ele é livre no sentido Bíblico…livre do pecado e da escravidão da corrupção… como será os santos no céu quando forem glorificados no último dia. Que eles não podem escolher do contrário [a pecar] quando forem glorificados não impede a liberdade destes, de acordo com a Bíblia, que fala destas pessoas com sendo as MAIS livres. (colchete inserido pelo autor)

B. Semelhantemente, se afirmarmos que a escravidão do pecado elimina a responsabilidade, então a melhor forma de evitar a responsabilidade de nossos pecados é ser o mais escravizado delas possível. O bêbado que é escravizado pelo alcoolismo não é, portanto, responsável por suas ações. Deveríamos encorajar as pessoas a pecarem o máximo então, para que estas não mais sejam responsáveis?

C. Toda a ideia da neutralidade do arbítrio é absurda. Se as decisões do arbítrio não são determinadas pela natureza interna da pessoa, então em quê sentido pode ser dito que estas decisões são os resultados de uma decisão da própria pessoa? Como, de fato, uma decisão possa ser verdadeiramente uma decisão moral se for moralmente neutra? Como pode a moralidade ser moralidade de alguma forma e ser neutra?

Falácia #3. Para o amor ser real, deve ter a possibilidade de ser rejeitado.

Deus quer que nós O amemos livremente, não por compulsão. Portanto, o homem caído deve ter a habilidade de amar a Deus. É que simplesmente ele escolhe amar outras coisas.

A. A Escritura ensina que o amor a Deus é um produto de Sua graça. 1Tm.1:14. Se a graça for necessária para fazer-nos amar a Deus, então segue-se que não tínhamos habilidade para amá-Lo antes da chegada da graça. Significa também que a graça não é dada porque escolhemos amar a Deus. Escolhemos amar a Deus porque a graça é dada. A graça, não a virtude no homem, toma a iniciativa.

B. Essa premissa é parecida com aquela que diz, “A escolha contrária é necessária para que a liberdade possa existir”. Deus periodicamente dá aos santos no céu uma oportunidade de odiá-lo para ser ‘justo’? Jesus tinha alguma habilidade para odiar o Pai? Ou era o Seu amor pelo Pai uma reflexão do que Ele próprio realmente é?

C. Se a fé for um dom da graça, como vimos acima, então por que é estranho pensar que o amor também não pode ser um dom da graça?

Falácia #4. Uma pessoa não pode ser punida por aquilo que ela não pode deixar de fazer.

Se isto for o caso, então um Cristão não pode ser recompensado por aquilo que a sua nova natureza o compele a fazer. Não vamos esquecer de que a natureza de uma pessoa não é algo que ela possui. É algo que ela é.

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Autor: John Hendryx, adaptado de um pequeno artigo do Roger Smalling
Tradução: Nathan Cazé
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Jesus ensina o “Calvinismo Extremado”

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Por James R. White


Se crer que o homem está “tão morto” [1] no pecado que ele é incapaz de vir a Cristo por si mesmo é “Calvinismo extremado”, então, o Senhor Jesus antecedeu em 1500 anos a Calvino com a Sua pregação na sinagoga em Cafarnaum, registrada em João 6. Aqui temos o Senhor ensinando quase tudo o que Norman Geisler identifica como “Calvinismo extremado”. Jesus ensina que Deus é soberano e age independentemente das "livres escolhas" dos homens. Ele, da mesma forma, ensina que o homem é incapaz de ter a fé salvadora, aparte da capacitação do Pai. Ele então limita este trazer [do Pai, João 6:44] aos mesmos indivíduos dados pelo Pai ao Filho. Ele então ensina a graça irresistível sobre os eleitos (não sobre os “dispostos”) quando Ele afirma que todos aqueles que são dados a Ele, virão a Ele. João 6:37-45 é a mais clara exposição na Bíblia do que EML [Eleitos, Mas Livres] chama de “Calvinismo extremado”. E ainda, EML ignora a maioria das passagens, oferece uma resposta ao versículo 44 que é simplesmente incompreensível, e oferece uma sentença em resposta ao versículo 45. Já vimos que João 6:37 é citado algumas vezes, mas nenhuma interpretação dele é oferecida.

Há uma boa razão porque EML tropeça neste ponto: não há nenhuma exegese não-reformada significante disponível sobre a passagem avaliada. Não obstante as inúmeras tentativas dos exegetas Arminianos de encontrar alguma solução para esses versículos, nem mesmo uma única solução plausível tem sido oferecida que não requeira uma completa desmantelação do texto, uma redefinição das palavras ou uma inserção de conceitos extremamente estranhos. Uma coisa é absolutamente certa: Jesus ensinou a completa soberania da graça às pessoas que estavam reunidas na sinagoga de Cafarnaum, há aproximadamente dois milênios. Se desejarmos honrar a Sua verdade, não podemos fazer menos do que disso.

Ouçamos Jesus ensinar o “Calvinismo extremado” quase 1500 anos antes de Calvino nascer, nas palavras do evangelho de João.

João 6:37-40

"Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia."

A despeito da riqueza dessa passagem, um esforço honesto será feito para que sejamos breve no comentário fornecido. [2] O cenário é importante: Jesus fala a uma multidão reunida na sinagoga de Cafarnaum. Eles tinham seguido-O após a alimentação dos cinco mil no dia anterior. Eles estavam buscando mais milagres, e mais alimento. Jesus não saciou as suas "necessidades físicas", mas foi diretamente ao assunto real: quem Ele era e como Ele é o centro da obra de redenção de Deus. Ele identifica-se como o "Pão da Vida" (v. 35), a fonte de todo alimento espiritual. Em nosso cenário moderno, podemos não sentir a força de Suas palavras como eles devem ter sentido naquela manhã. "Quem é este homem para falar dessa forma de Si mesmo?", eles devem ter pensado. Nem mesmo os maiores profetas de Israel instruíram as pessoas a ter fé neles mesmos! Nem mesmo um Abraão ou um Isaías desejaria reivindicar ter descido do céu, nem jamais diriam "aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede". Devemos tentar sentir o impacto impetuoso dessas palavras à medida que elas foram faladas.

O bendito Senhor foi totalmente duro com a Sua audiência. Ele sabia que eles não possuíam uma fé verdadeira. "Mas como já vos disse, vós me tendes visto, e contudo não credes" (v. 36). Eles tinham visto-O com os seus olhos, mas a menos que a visão física seja unida com a iluminação espiritual, ela não será de proveito algum. Freqüentemente a importância dessa declaração é negligenciada. O verso 36 é um ponto crítico no capítulo. Jesus agora explica a incredulidade deles. Como é que esses homens poderiam estar diante do próprio Filho de Deus, o Verbo feito carne, e não crer? Qualquer pessoa que não toma seriamente a morte do homem no pecado deveria contemplar essa cena. O próprio Criador em forma humana está diante de homens que eram bem versados nas Escrituras e aponta para a incredulidade deles. Ele então explica o porque e, todavia, pouquíssimos hoje ouvirão e crerão.

Todo o que o Pai me dá virá a mim”. Essas são as primeiras palavras que vieram do Senhor na explicação da incredulidade do homem. Não ousamos nos engajar na brincadeira de amarelinha em cima desse texto e ignorar a própria ordem do ensino que Ele provê. A primeira afirmativa é uma da completa soberania divina. Cada palavra diz muita coisa.

Todo o que o Pai me dá”. O Pai dá alguns a Cristo. Os eleitos são vistos como um todo singular [3] , dados pelo Pai ao Filho [4] . O Pai tem o direto de dar uma pessoa ao Filho. Ele é o soberano Rei, e esta é uma transação divina.

Todos os que são dados pelo Pai ao Filho vêm ao Filho. Não alguns, não muitos, mas todos.

Todos aqueles dados pelo Pai ao Filho virão ao Filho. É vital ver a verdade que é comunicada por essa frase: o ato do Pai dar ao Filho precede e determina a vinda da pessoa a Cristo. A ação de dar pelo Pai vem antes da ação de vir a Cristo pelo indivíduo. E visto que todos daqueles assim dados virão infalivelmente, temos aqui tanto a eleição condicional bem como a graça irresistível, e isto no espaço de nove palavras! Torna-se um óbvio exercício na eisegesis [interpretação pessoal de um texto (especialmente da Bíblia), usando suas próprias idéias; não confundir com exegese] dizer: "Bem, o que o Senhor realmente quis dizer é que todos que o Pai viu que creriam em Cristo, virão a Cristo". Esta é uma declaração sem sentido. Visto que o ato de vir é dependente da ação de dar, podemos ver que simplesmente não é exegeticamente possível dizer que não podemos determinar a relação entre as duas ações. O ato de dar de Deus resulta no vir do homem. A salvação é do Senhor.

Mas note também que é para o Filho que eles virão. Eles não virão para um sistema religioso. Eles virão a Cristo. Esse é um relacionamento pessoal, uma fé pessoal, e, visto que aqueles que vêm são descritos através de toda a passagem pelo particípio do tempo passivo, ela não é apenas uma vinda que acontece uma só vez. Essa é uma fé contínua, um olhar contínuo para Cristo como a fonte da vida espiritual. Os homens a quem o Senhor estavam falando "vieram" a Ele por um tempo: em breve eles O deixariam e não O seguiriam mais. O verdadeiro crente está vindo a Cristo sempre. Essa é a natureza da fé salvadora.

E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. O verdadeiro crente, aquele que "vem" a Cristo, tem essa promessa do Senhor: usando a forma mais forte de negação possível [5] , Jesus afirma a eterna segurança do crente. Jesus é Aquele que dá vida e levanta os Seus no último dia. Ele promete que não há qualquer possibilidade de que alguém que esteja vindo a Ele em verdadeira fé possa encontrá-Lo indisposto para salvá-lo. Mas essa tremenda promessa é a segunda metade de uma sentença. Ela é baseada sobre a verdade que foi primeiramente proclamada. Essa promessa é para aqueles que são dados pelo Pai ao Filho e a ninguém mais. Certamente, veremos no versículo 44 que ninguém senão aqueles que são assim dados, virão a Cristo em fé de qualquer jeito: mas há certamente aqueles que, como muitos daquela audiência em Cafarnaum, estão dispostos a seguir por um tempo, dispostos a crer por um tempo. Essa promessa não é deles.

A promessa aos eleitos, contudo, não pode ser mais preciosa. Visto que Cristo é capaz de salvar perfeitamente (Ele não depende da vontade ou da cooperação do homem), Sua promessa significa que o eleito jamais pode se perder. Visto que Ele não lançará fora, e que não há poder maior do que o Seu, aquele que vem a Cristo encontrará nEle um Salvador todo-suficiente e perfeito. Essa é a única base da "segurança eterna" ou da perseverança dos santos: eles olham para um Salvador que é capaz de salvar. E a capacidade de Cristo para salvar que significa que o redimido não pode se perder. De fato, se houvesse uma relação sinergística, não poderia haver nenhum fundamento para uma absoluta confiança e segurança.

Muitos param no verso 37 e perdem a tremenda revelação que somos privilegiados de receber nos versos seguintes. Por que Cristo nunca lançará fora aqueles que vêm a Ele? O verso 38 começa com uma conjunção que indica uma continuação do pensamento: o verso 38 e 39 explicam o verso 37. Cristo guarda todos aquele que vem a Ele porque Ele está cumprindo a vontade do Pai. “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. O Messias divino sempre faz a vontade do Pai. O capítulo precedente no Evangelho de João deixa isto muito claro. Há perfeita harmonia entre a obra do Pai e a do Filho.

E qual é a vontade do Pai para o Filho? Em termos simples, a vontade do Pai é que o Filho salve perfeitamente. “E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia”. É vital lembrar que isso continua a explicação do porque Ele não lança fora aquele que vem a Ele. Devemos ver isso, pois alguém pode ser tentado a dizer que o Pai confiou todas as coisas nas mãos do Filho, e que essa passagem não está dizendo nada mais de que o Filho agirá de forma apropriada com respeito àqueles que o Pai Lhe deu. Mas o contexto é claro: o verso 37 fala do pai "dando" os eleitos ao Filho, e o verso 39 continua o mesmo pensamento. Aqueles que são dados, infalivelmente virão ao Filho no verso 37, e são esses mesmos, os eleitos [6] , que são ressuscitados no último dia. Ressurreição é uma obra de Cristo, e nessa passagem, é comparada com o doar da vida eterna (veja v. 40). Cristo dá vida eterna a todos aqueles que são dados a Ele e que, como resultado, vêm a Ele.

Devemos perguntar ao Arminiano que promove a idéia de que uma pessoa verdadeiramente salva pode se perder: isto não significa que Cristo pode falhar em fazer a vontade do Pai? Se a vontade do Pai para o Filho é que Ele não perca nenhum daqueles que Lhe foram dados, não se segue inexoravelmente que Cristo é capaz de realizar a vontade do Pai? E isto não nos força a crer que o Filho é capaz de salvar sem a introdução da vontade do homem como autoridade final no assunto? Pode algum sinergista (alguém que ensina, como o Dr. Geisler o faz, que a graça de Deus opera "sinergisticamente" e que o livre-arbítrio do homem é uma parte vitalmente importante do processo da salvação, e que nenhum homem é salvo a menos que esse homem deseje isso) crer nessas palavras? Pode alguém que diz que Deus tenta salvar tantos quantos "possível", mas não pode salvar ninguém sem a cooperação do homem, crer no que esse verso ensina? Não é a vontade do Pai que Cristo tente salvar, mas que Ele salve perfeitamente um povo particular. Ele não perderá nenhum de todos aqueles que o Pai lhe deu. Como pode ser isso se, na verdade, a decisão final descansa com o homem, e não com Deus? É a vontade do Pai que resulta na ressurreição para a vida de qualquer indivíduo. Isso é eleição nos mais fortes termos, e ela é ensinada com clareza nas Escrituras.

O verso 39 começa com “A vontade daquele que me enviou é esta”, e o verso 40 faz o mesmo: “A vontade do Pai que me enviou é esta”. Mas no verso 39 temos a vontade do Pai para o Filho. Agora temos a vontade do Pai para o eleito. “Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”. Espantosamente, arrancam esse texto fora do seu contexto, se equivocam com a referência ao "todo aquele que vê...todo aquele que crê nEle", e dizem, "Veja, não há eleição divina aqui! Qualquer um pode fazer isso!". Mas é óbvio que, quando o texto é tomado como um todo, esta não é a intenção da passagem. Quem é aquele que "vê" o Filho e "crê" nEle? Ambos os termos estão no presente particípio, referindo-se a uma ação contínua, da mesma forma como vimos na "vinda de alguém" a Cristo no verso 37. Jesus ressuscitará no último dia todos aqueles que Lhe foram dados (v. 39) e todos aqueles que estão olhando e crendo nEle (v. 40). Devemos crer que há grupos diferentes? Certamente que não. Jesus ressuscita somente um grupo para a vida eterna. Mas visto que isso é assim, não se segue que todos aqueles dados a Ele olharão para Ele e crerão nEle? Mais do que certo que sim. A fé salvadora, então, é exercida por todos aqueles dados ao Filho pelo Pai (uma das razões pelas quais, como veremos, a Bíblia afirma claramente que a fé salvadora é um dom de Deus).

João 6:41-45

"Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu; e perguntavam: Não é Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz agora: Desci do céu? Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim."

Os judeus estavam murmurando por causa desse ponto no discurso: eles rejeitaram a Sua reivindicação de origem divina, assumindo em vez disso que Ele era apenas um mero homem, o filho de José. Jesus não se desvia de Sua apresentação por causa dos pensamentos e confusão vagueadoras deles. Ele os instrui a parar de murmurar (v. 43) e então explica a incredulidade persistente deles.

Ninguém pode vir a mim”. Literalmente Jesus diz: "Nenhum homem é capaz de vir a mim". Essas são palavras de incapacidade e elas são colocadas num contexto universal. Todos os homens compartilham isso em comum: eles são carentes da capacidade de vir a Cristo em e de si mesmos. A incapacidade compartilhada é devido a uma natureza caída compartilhada.  Isto é o "morto em pecado" (Efésios 2:1) e "incapaz de agradar a Deus" (Romanos 8:8) de Paulo. É a doutrina Reformada da depravação total: a incapacidade do homem ensinada pelo Senhor que conhece os corações de todos os homens. Se o texto terminasse aqui, não haveria nenhuma esperança, nenhuma boas novas. Mas ele não pára aqui.

"Ninguém pode vir a mim, a menos que o Pai que Me enviou, o traga" [versão do autor - New American Standard Version]. As boas novas é que há um "a menos" em João 6:44, assim como há um "Mas Deus" em Efésios 2:4. Em ambos os casos não é o livre-arbítrio do homem que vem para salvar, mas o livre-arbítrio de Deus. Todos os homens seriam deixados numa posição sem esperança de "incapacidade para vir" a menos que Deus aja, e Ele o faz trazendo os homens a Cristo. Fora desta capacitação divina (conforme 6:65) nenhum homem pode vir a Cristo. Nenhum homem pode "querer" vir a Cristo fora desse trazer divino.

Certamente, a resposta imediata de muitos é, "Sim, deveras, Deus deve prover algum tipo de graça preveniente, algum tipo de trazer, antes que alguém possa escolher crer". Mas é isto o que o texto está dizendo? Lembre-se que essas palavras vêm imediatamente após a afirmação de que todos que o Pai dá ao Filho, virão ao Filho (v. 37). Os eruditos Reformados afirmam que aqueles que são trazidos são aqueles que são dados pelo Pai ao Filho: isto é, os eleitos. Eles apontam para o contexto imediato que identifica aqueles que vêm a Cristo como os eleitos. Mas o resto do versículo 44 explica porque isso deve ser assim: "e Eu o ressuscitarei no último dia". Quem Jesus ressuscitará no último dia? O verso 39 diz que Ele ressuscitará todos aqueles dados a Ele pelo Pai; o verso 40 diz que Ele ressuscitará todos aqueles que estão olhando e crendo nEle; o verso 44 diz que Ele ressuscitará todos aqueles que são trazidos pelo Pai. A identidade daqueles ressuscitados no último dia para a vida eterna é absolutamente co-extensiva com a identidade daqueles que são trazidos! Se uma pessoa é trazida, ela será também ressuscitada para a vida eterna. Obviamente, então, não pode ser afirmado que Cristo, neste contexto, está dizendo que o Pai está trazendo todo ser humano em particular, porque 1) o contexto limita isto àqueles dados pelo Pai ao Filho, 2) esta passagem ainda está explicando a incredulidade dos Judeus, a qual não teria nenhum sentido se de fato o Pai está trazendo esses incrédulos a Jesus, e 2) se assim fosse, o universalismo seria o resultado, porque todos que são trazidos são da mesma forma ressuscitados no último dia.

João Calvino é admitido, até mesmo por seus inimigos, ter sido um tremendo exegeta das Escrituras. Claros e criteriosos, os comentários de Calvino continuam a ter nesses dias grande utilidade e benefício para o estudante das Escrituras. Aqui está seu comentário sobre João 6:44:

Vir a Cristo sendo aqui usado metaforicamente para crer, o Evangelista, a fim de colocar a metáfora na cláusula adequada, diz que as pessoas que são trazidas são aquelas cujos entendimentos Deus iluminou e cujos corações Ele dirigiu e transformou à obediência de Cristo. A declaração se resume nisto: que não devemos nos maravilhar se muitos recusam abraçar o Evangelho; porque nenhum homem jamais será de si mesmo capaz de vir a Cristo, mas Deus deve primeiro trazê-lo pelo Seu Espírito; e, portanto, segue-se que nem todos são trazidos, mas que Deus concede essa graça àqueles que Ele elegeu. É verdade, todavia, com respeito ao tipo desse trazer, que ele não é violento, de forma que compele os homens por uma força externa; mas ainda é um impulso poderoso do Espírito Santo, que faz com que os homens que anteriormente eram indispostos e relutantes, sejam dispostos. É uma falsa e profana afirmação, portanto, dizer que ninguém é trazido, senão aqueles que estão dispostos a serem trazidos, como se o homem por si mesmo se fizesse obediente a Deus por seus próprios esforços; porque a disposição com a qual os homens seguem a Deus é o que eles já tinham por si mesmos, que foi formada em seus corações para obedecê-Lo". [7]

Jesus continua esse pensamento no verso 45, citando uma profecia de Isaías, e diz: “Todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim”. Ouvir e aprender do Pai é paralelo com ser trazido no verso 44. Jesus usou o mesmo tipo de terminologia quando Ele ensinou que somente aqueles que "pertencem a Deus" podem ouvir Suas palavras (João 8:47).

Resumindo, então, Jesus certamente ensinou a absoluta soberania de Deus, a incapacidade do homem, a eleição incondicional de um povo para salvação, a graça eficiente de Deus que infalivelmente traz salvação aos eleitos e a perseverança final desses eleitos para a vida eterna. Esse é um dos textos chaves que apoiam a posição Reformada identificada como "Calvinismo extremado" em EML.

A Resposta de EML

Assim como com todas as outras passagens chaves (Romanos 8,9, Efésios 1 e João 6), EML não oferece nenhum exegese da passagem baseada contextualmente e cuidadosamente. Vimos na introdução que João 6:37, embora citado, nunca é discutido. Nada é dito sobre seu testemunho da eleição incondicional ou da graça irresistível. Ele é simplesmente ignorado. O livro é coberto de reivindicações de apresentar um estudo definido do assunto da soberania divina e do livre arbítrio. Tal estudo requereria uma obra extensiva sobre aquelas passagens chaves. Nada é oferecido, e o que é oferecido não é exegético em sua natureza.

Somente três argumentos são oferecidos no livro em resposta a João 6:44, e um a João 6:45. Visto que a relação ao restante da passagem não é nem mesmo mencionada, não é surpresa que as passagens não sejam analisadas exegeticamente dentro do seu contexto. De fato, pouco é dito sobre as reais palavras do texto. Em vez disso, o significado claro é explicado fazendo-se referências a outras passagens. Comecemos com João 6:44:

Em segundo lugar, João 12:32 deixa claro que a palavra "atrair" não pode significar "graça irresistível" sobre o eleito por uma simples razão: Jesus disse: "Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim". Nenhum calvinista autêntico crê que todos os homens serão salvos. [8]

Esta é a resposta mais comum: ao invés de seguirem o curso do sermão entregue por Jesus, os Arminianos imediatamente abandonam João 6 e citam João 12:32. O significado de "atrair" [ou "trazer" - no inglês a palavra usada em João 6:44 e João 12:32 é a mesma, ou seja, "draw"], totalmente discernível a partir do texto de João 6, é lida a partir de um significado assumido em João 12. Este é um método faltoso de exegese por muitos motivos. Mas mesmo aqui, a tentativa dos Arminianos falha, porque João 12:32 não ensina o universalismo mais do que João 6:44 o faz. Note o contexto da passagem:

"Ora, entre os que tinham subido a adorar na festa havia alguns gregos. Estes, pois, dirigiram-se a Felipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus. Felipe foi dizê-lo a André, e então André e Felipe foram dizê-lo a Jesus." (João 12:20-22)

João 12 narra os eventos finais do ministério público de Jesus. Depois desse incidente particular, o Senhor passaria um período de ministério privado aos Seus discípulos exatamente antes dEle ir a cruz. As palavras finais do ensino público do Senhor são estimuladas pela chegada dos gregos que estavam procurando Jesus. Essa importante mudança de eventos causa o ensino que se segue. Jesus está agora sendo procurado pelos não-judeus, os gentios. É quando Jesus é informado sobre isso que Ele diz, "É chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem."

Este, então, é o contexto que nos leva às palavras de Jesus no verso 32:

"Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas para isto vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome. Veio, então, do céu esta voz: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei. A multidão, pois, que ali estava, e que a ouvira, dizia ter havido um trovão; outros diziam: Um anjo lhe falou. Respondeu Jesus: Não veio esta voz por minha causa, mas por causa de vós. Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto dizia, significando de que modo havia de morrer." (João 12:27-33)

Há duas chaves para se entender porque o que os Arminianos entendem dessa passagem é extremamente indefensável: a primeira é que temos que ver que foi a chegada dos gregos procurando Jesus que ocasionou essas palavras. Os exegetas reformados crêem que "todos" se referem aos judeus e gentios, não a cada indivíduo particularmente, e o contexto aponta para essa direção. Mas mais devastadora para o entendimento Arminiano é uma simples questão: a cruz atrai todas as pessoas individualmente? É isso o que a Bíblia realmente ensina sobre a cruz? Certamente que não! A cruz é loucura para os gentios e uma pedra de tropeço para os judeus, como Paulo ensinou:

"Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é pedra de tropeço para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus." (1 Coríntios 1:22-24)

Paulo conhecia essa verdade da mesma forma como Jesus a ensinou: "para os que são chamados, tanto judeus como gregos... ". Para quem Cristo é o poder e a sabedoria de Deus? Para "os chamados". O que é a pregação da cruz para aqueles que são chamados? Algo que os atrai [ou traz], ou que os repele? A resposta é óbvia. A cruz de Cristo é loucura para o mundo. Essas considerações, juntamente com o contexto imediato dos gentios procurando Cristo, deixa claro que Jesus estava dizendo que se Ele fosse levantado na crucificação, Ele traria todos os homens, judeus e gentios, para si mesmo. Isso é o mesmo que dizer que havia ovelhas que não eram daquele rebanho (João 10:16), os gentios, que se tornaram um corpo em Cristo (Efésios 2:13-16).

Finalmente, se lemos essa errante interpretação de João 12:32 apoiada em João 6:44 (e para fazer assim, requere-se algum tipo de demonstração de que a simples palavra "atrair" [trazer] deve ter o mesmo exato significado e objetos em ambos os contextos, algo que EML nem mesmo tenta provar) faremos exatamente como Geisler afirma: criaremos o universalismo, mas não porque a visão Reformada é um erro. Já temos visto que todos que são trazidos são também ressuscitados no último dia. Ao invés de usar esse argumento para derrubar o claro ensinamento de 6:44, EML deveria ver que o grupo que está sendo traído não é cada indivíduo em particular, mas os eleitos (como indicado pelo contexto), e que o resultado é deveras a visão Reformada da graça irresistível:

Em terceiro lugar, a palavra "todos" não pode significar somente alguns homens em João 12.32. Pouco antes (João 2:24,25), quando Jesus afirmou conhecer a "todos", estava claro que não se referia apenas aos eleitos. Por que, então, deveria "todos" significar "alguns" em João 12:32? Se quisesse dizer "alguns", facilmente teria feito assim. [9]

Novamente, esse tipo de argumentação é completamente falaciosa. Primeiro, João diz que Jesus "conhecia todos os homens", não apenas "todos os homens pecaminosos". Essa é simplesmente uma leitura incorreta do texto. Em segundo lugar, EML não tenta provar que a frase "todos os homens" em João 2:24 é para ser entendida como sinônimo com o uso dela em João 12:32.

Finalmente, o fato de ser atraídos por Deus estava condicionado à fé. O contexto dessa atração (6:37) é "aquele que crê" (6:35) ou "todo o que nele crer" (6:40). Os que crêem que são capacitados por Deus para ser atraídos a Jesus. Jesus acrescenta: "É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai" (6:65). Um pouco depois, ele diz: "Se alguém decidir fazer a vontade de Deus, descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo" (João 7:17). Disso fica evidente que o entendimento que possuíam do ensino de Jesus e de serem atraídos ao Pai resultam da própria livre escolha deles.

Como vimos com Romanos 9:16, é simplesmente impressionante que uma passagem que é tão diretamente contraditória à teoria Arminiana do livre-arbítrio possa ser transformada numa afirmação de "livre escolha". De todas as declarações em EML, admitimos que esta é uma das mais difíceis de entender, porque ela tem a menor conexão possível com o assunto que supostamente está tratando. Lembre-se que esse verso começa com a frase, " Ninguém pode vir a mim", e todavia, a primeira linha da resposta é, "Finalmente, o fato de ser atraídos por Deus estava condicionado à fé." Esta afirmação sem fundamento não tem conexão com o texto, seja qual for, e a tentativa de prová-la somente compõe o erro eisegético. Dado que esta é uma passagem vital e a resposta tão indicativa da incapacidade dos escritores Arminianos de manuseá-lo, apontaremos cada erro como ele é apresentado:

O contexto dessa atração (6:37) é "aquele que crê" (6:35) ou "todo o que nele crer" (6:40).

Realmente, a palavra "trazer" não aparece em 6:37; ao invés disso, esse verso (que não recebe resposta em EML) diz que o Pai dá um povo ao Filho, e como resultado disso, aquele povo infalivelmente, sem fracasso, vem ao Filho. Esse verso definitivamente fornece um importante elemento do contexto: um ignorado por EML. Somos informados que esse contexto é "aquele que crê" (6:35) ou "todo o que crer" (6:40). Temos visto que aqueles que crêem assim o fazem, nesse texto, porque o Pai lhes deu ao Filho. Temos visto que Jesus está explicando porque esses homens não crêem (6:36). Esses elementos contextuais são ignorados por EML. Ao invés disso, a importantíssima afirmação do livre-arbítrio é inserida na passagem sem nenhuma tentativa de prover um fundamento para assim o fazer. Mas isso é seguido com a mais impressionante de todas as afirmações em EML:

Os que crêem que são capacitados por Deus para ser atraídos a Jesus.

Para ser honesto, essa sentença não faz nenhum sentido. Ela soa como se estivesse dizendo que ser "trazido" a Deus não é salvífico: isto é, é mais parecida com um "trazer para mais perto de Deus" em devoção ou alguma coisa semelhante. Em qualquer caso, o significado certamente não tem nada a ver com o texto: obviamente, vir a Cristo é crer nEle: eles são sinônimos em João. Assim, essa passagem não está dizendo que Deus "traz" crentes para uma relação mais íntima com Cristo. Pelo contrário, ela está dizendo que ninguém é capaz de vir a Cristo em fé, a menos que seja trazido pelo Pai, e que todos que são trazidos serão ressuscitados, porque todos que o Pai dá ao Filho, virão ao Filho com fé salvadora. Esta vinda é obviamente o ato da fé salvadora, porque Jesus diz que aquele que vir a Ele, Ele não lançará fora.

Além do mais, deve ser assinalado que não há nada na passagem sobre fé acontecendo antes do ser trazido: o trazer resulta em fé. Não há nada no texto sobre Deus capacitando dos homens a serem trazidos. Deus traz, ponto. Não podemos fazer nada, senão apontar quão completamente inversa a essa interpretação é a do texto real. Mas, continuemos:

"E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai". (João 6:65)

Esta é simplesmente uma redeclaração de 6:44 com a mudança de "dado" (NASB: "lhe concedido"; como na ARC e na ARA) por "trazido". Em ambos os casos a mesma verdade está sendo apresentada. O que é perdido na citação é o fato que Jesus "está dizendo" isto, usando o tempo perfeito, indicando que Ele estava repetindo isto. Os discípulos tinham ido embora, e Jesus explica a deserção e incredulidade da multidão da mesma forma como antes: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai. E já temos visto que o pai concede isto aos eleitos de Deus somente.

Um pouco depois Ele diz: "Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo". (João 7:17)

O contexto de João 7 é completamente diferente, e nenhuma tentativa é feita para explicar o porque os dois versos são relevantes um ao outro. Mas aparte disso, é evidente que a idéia é que pecadores podem "livremente" fazer a vontade de Deus. E justamente quem escolherá fazer isso? Aqueles que foram dados pelo Pai ao Filho. Aqueles que não são dos eleitos nem mesmo ouvem Suas palavras,

Disso fica evidente que o entendimento que possuíam do ensino de Jesus e de serem atraídos ao Pai resultam da própria livre-escolha deles.

Não temos idéia de como essa declaração pode ser logicamente conectada, mesmo através da mais tortuosa linha de raciocínio, com o texto que está sendo examinado. Como alguém pode partir de "ninguém pode" e chegar até "resultam da própria livre-escolha deles", não podemos dizer. Não podemos nem mesmo imaginar o que é se quer dizer por "entendimento que possuíam". Essa é uma referência a João 6 ou João 7? "Entender ensino" e "ser trazido" são duas coisas completamente diferentes de dois contextos completamente diferentes, todavia, eles são unidos impressionantemente numa conclusão confusa que brada a palavra "eisegese".

EML falha completamente em prover uma resposta a esta gloriosa passagem que ensina a graça soberana com grande simplicidade. E dado o mau uso de outras passagens já citados (Mateus 23:37, 1 Timóteo 2:4, 2 Pedro 3:9), pode verdadeiramente ser dito que EML não tem base exegética sobre a qual se fundamentar.

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Notas:

[1] Eleitos, Mas Livres , página 47.
[2] O leitor pode consultar minha breve obra, Trazido pelo Pai (Crowne Publications, 1991), para uma exegese mais completa desta tremenda passagem.
[3] A forma neutra é usada quando o grupo inteiro está em vista; quando cada pessoa individualmente está em vista com referência a sua resposta de fé, o masculino particípio é usado, mostrando o elemento pessoal da fé.
[4] Dois tempos são usados pelo Senhor nesta passagem: aqui o tempo presente é usado, "todo o que Pai me dá ..."No verso 39, contudo, o tempo perfeito é usado, "todos aqueles que Ele me deu..."
[5] Aqui ocorre o aoristo subjuntivo de forte negação,  "Eu nunca lançarei fora". A idéia é a negação enfática da possibilidade de um evento futuro.
[6] Jesus usa o neutro novamente para se referir aos eleitos como um grupo inteiro, embora o fato de que este grupo é formado de indivíduos seja visto em sua ressurreição para vida e na sua vinda individual a Cristo.
[7] João Calvino, Comentário sobre o Evangelho de João, A Coleção Completa de João Calvino (Ages Digital Library, 1998)
[8] Eleitos, Mas Livres , página 93.
[9] Ibid.

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Extraído e traduzido do livro A Liberdade do Oleiro [Uma Defesa da Reforma e uma Refutação de Eleitos, Mas Livres de Norman Geisler] - Capítulo 7.

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 29 de Maio de 2004.

Fonte: Monergismo
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