O “João Calvino” de Calvinismo Recalcitrante

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Por Rev. Misael Nascimento


Desde semana passada analisamos a primeira seção do livro Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez, intitulada Panorama Geral do Calvinismo. No post anterior eu pontuei algumas dificuldades metodológicas da pesquisa. Agora olharemos para o retrato de João Calvino fornecido (ou melhor, compilado) por Martinez.

Eis como D. M. Lloyd-Jones iniciou uma palestra radiofônica para a BBC de Gales, em 25 de junho de 1944:

Até há quase vinte anos, dava-se pouca atenção a João Calvino, e quando alguém falava dele era para amontoar insultos sobre ele, com desprezo. Ele era visto como uma pessoa cruel, dominadora e dura. Quanto à sua obra, dizia-se que ele foi autor do sistema teológico mais opressivo e ferrenho que já se viu. Segundo essa crença, os principais efeitos da obra que ele realizou no campo da religião foram colocar e manter as pessoas num estado de escravidão espiritual e, numa esfera mais ampla, abrir o caminho para o capitalismo. Acreditava-se, pois, que a sua influência foi totalmente nociva e que ele não era de nenhum interesse palpável para o mundo, exceto o fato de ser um espécime, se não um monstro, no museu da teologia e da religião.[1]

Lloyd-Jones testemunhou duas ondas, uma de desinteresse ou desprezo e outra de revitalização do interesse e admiração por João Calvino. Atualmente, depois de um período de franco florescimento calvinista (rotulado de “novo calvinismo”), renova-se a oposição ao reformador intransigente de Genebra.


O “João Calvino” de Calvinismo Recalcitrante

As palavras de Lloyd-Jones são adequadas para resumir o modo como Calvinismo Recalcitrante descreve João Calvino. Logo após citar um resumo biográfico extraído do web site do Instituto Mackenzie,[2] Martinez segue Edward Burns identificando Calvino como um dos personagens “mais sombrios da história”,[3] sublinhando que “nos quatro primeiros anos depois que Calvino passou a governar Genebra, houve nada menos que 58 execuções (religiosas)”.[4]

O passo seguinte de Martinez é citar o web site História Livre.[5] A referida citação afirma, dentre outras coisas, que a doutrina da predestinação ensinada por Calvino foi “influenciada” pela “crença grega do destino”.[6] Além disso, “de acordo com Calvino, a fé não era o caminho para a salvação, para ele, a fé era o sinal de que o fiel estava predestinado à salvação”.[7] Ainda, que “mesmo contrariando a Lutero, a Doutrina da Predestinação se tornou muito popular na Suíça”.[8] Por fim, segundo Calvino:

A garantia de que alguém havia sido predestinado por Deus à salvação estava em seu sucesso pessoal, ou seja, uma pessoa próspera e bem sucedida (profissão, saúde, família, etc.) demonstrava o favor de Deus para com ela. Portanto, o próspero tinha a garantia de sua salvação, pois onde a planta de seus pés pisasse iria prosperar.[9]

O que mais é informado por Martinez sobre o reformador de Genebra? Que ele tentou criar uma “teocracia”[10] e, dentre outras coisas, perseguiu opositores e defendeu a execução de hereges.[11]


O retrato de João Calvino é finalizado com duas últimas pinceladas. Primeiro, aludindo ao web site Cristianismo Wiki, Martinez sugere que a doutrina da predestinação de Calvino é “fatalista” e originada no “estoicismo pagão”.[12] O texto do Cristianismo Wiki, porém, apenas registra que a obra escrita por Calvino em Paris, De Clementia, “reflete o estoicismo de Sêneca e a predestinação no sentido estoico”.[13]

A última pincelada é a longa colagem extraída do artigo O Lado B do Cristianismo [em Genebra], de Dave Hunt.[14] O artigo sugere que Calvino “forçou” a doutrina da graça irresistível “sobre os cidadãos de Genebra. [...] o que ele impôs e a maneira como ele impôs estavam longe da graça e dos ensinos e exemplos de Cristo”.[15] Hunt assegura que “a opressão de Genebra não teria vindo sob a direção do Espírito Santo [...] Calvino exerceu autoridade como o papado que ele desprezou”.[16] Ele “utilizou a força civil para impor suas doutrinas particulares sobre os cidadãos de Genebra”[17] exercendo “controle ditatorial sobre a população”,[18] sendo denominado “‘O Papa Protestante’ e ‘O Ditador Genebrino’”.[19] Ele ainda aprovou “o uso de tortura para ‘extrair’ confissões”,[20] seguindo “os princípios de punição, coerção e morte que Agostinho advogou. [...] “ninguém jamais teve tanto êxito em uma imposição totalitária da ‘divindade’ sobre uma sociedade completa do que João Calvino”.[21] Concluindo, Calvino ignorava que “uma escolha genuína é essencial se o homem quer amar e obedecer a Deus ou mostrar uma compaixão real ao seus companheiros”.[22]

Martinez introduz a primeira seção de seu livro dizendo que revelará “como foi o processo de sua participação no governo de Genebra [...] e se tais procedimentos foram cristocêntricos”.[23] Ademais, “entender o caráter deste personagem é relevante para termos uma noção da sua doutrina e epistemologia”.[24] Ele afirma que usará “fontes não religiosas e [...] autores polemistas evangélicos que se debruçaram sobre a temática na tentativa de aguçar uma cosmovisão mais equilibrada”.[25]

Eu não estou certo de que o resultado biográfico apresentado em Calvinismo Recalcitrante aguce “uma cosmovisão mais equilibrada”. Me pergunto em que sentido nossa visão cristã da realidade (este é o sentido da palavra cosmovisão) é aprimorada com esta colagem de acusações contra João Calvino. A primeira seção da obra de Martinez não é muito diferente daquilo que é oferecido por alguns professores de ensino médio no Brasil, que não enxergam em Calvino nada mais do que um opressor fundamentalista que fomentou o capitalismo selvagem. Como nos mostra Lloyd-Jones, citado no início deste post, tal leitura negativa de Calvino é datada.

Argumentum ad hominem e fontes parciais

Leitores podem sugerir a existência, na compilação de Martinez, de um argumentum ad hominem, como segue:

A frase argumentum ad hominem é literalmente traduzida como “argumento dirigido contra o homem”. [...] Assim, por exemplo, poder-se-ia arguir que a filosofia de Bacon é indigna de confiança, porque ele foi demitido do seu cargo de Chanceler por desonestidade. Este argumento é falaz, porque o caráter pessoal de um homem é logicamente irrelevante para determinar a verdade ou falsidade do que ele diz ou a correção ou incorreção de seu raciocínio. [...] O modo como, por vezes, este argumento falaz pode persuadir é através do processo psicológico de transferência. Se pode ser provocada uma atitude de desaprovação em relação a uma pessoa, essa atitude terá possibilidades de tender para transbordar do campo estritamente emocional e converter-se em desacordo com o que essa pessoa diz. Mas esta conexão é só psicológica, não lógica.[26]

Se aquilo que diz Calvinismo Recalcitrante for verdade, é possível questionar até se João Calvino foi cristão. Estaríamos diante não de um reformador da igreja, e sim, de um déspota e impostor impiedoso. Seria possível a verdade ser pronunciada por um “monstro moral”? Um “falso teólogo” contaminado pelo paganismo deve ser conhecido e ouvido pelos discípulos de Jesus Cristo (argumentum ad hominem)?


Cabe aqui uma primeira observação: Nenhum calvinista considera a pessoa de João Calvino infalível ou perfeita. Calvinistas não confiam em João Calvino, mas unicamente em Jesus Cristo. Calvinistas têm como regra de fé e prática somente a Bíblia (sola Scriptura) e não os escritos de João Calvino (ou Agostinho, como sugere Martinez). Como bem afirma o Rev. Dr. Elias Medeiros, preletor do 4º Encontro da Fé Reformada na IPB Rio Preto, calvinistas entendem que João Calvino está certo quando João Calvino é fiel às Sagradas Escrituras; nada além disso. A verdade ou certeza encontra-se na Bíblia e não em Lutero, Zuínglio, Calvino ou qualquer dos reformadores. A glória não é de nenhum reformador ou teólogo reformado. A glória pertence somente a Deus (soli Deo gloria).

Há espaço para uma segunda observação: É preciso saber ler as evidências da história, pois relatos históricos não são neutros. Como diz Adler e Van Doren:

Claro que um bom historiador não inventa o passado. Ele se considera obrigado de modo responsável por algum conceito ou critério de precisão factual. Ainda assim, é importante lembrar que o historiador sempre tem de inventar alguma coisa. Ele tem de encontrar um padrão geral nos eventos ou então impor-lhes um padrão; ele tem de presumir que sabe por que as pessoas em sua história fizeram as coisas que fizeram. [...] É essencial reconhecer o modo de operar do historiador que você está lendo.[27]

Então é isso. Ao escolher “fontes não religiosas” e “autores polemistas evangélicos” contrários a João Calvino e ao Calvinismo, Martinez privilegia um ponto de vista em detrimento de outro. Como instruem Adler e Van Doren, para obter informações históricas mais precisas, o ideal é ler “mais de um texto sobre um evento ou período”.[28]


O perigo do anacronismo histórico

Se isso não bastasse, o leitor deve cuidar para, a partir do sumário de Martinez, não incorrer em anacronismo histórico. O que é anacronismo histórico?

O termo, às vezes substituído por anticronismo, é usado para designar a utilização de conceitos e pensamentos de uma época para analisar fatos ocorridos em outro tempo. O anacronismo é considerado um erro, pois através dele tentamos avaliar uma determinada época histórica nos pautando em valores e ideologias que não pertencem a este contexto.[29]

Olhar para João Calvino (ou outro personagem do passado) com as lentes do século 21 não é intelectualmente honesto. É como usar os óculos do feminismo para ler a instrução sobre o uso do véu, em 1Coríntios 11.2-16. As conclusões obtidas de semelhante interpretação não seriam confiáveis. Trocando em miúdos, Calvino deve ser entendido em seu próprio contexto tempo e lugar. Desconsiderar isso produz uma caricatura, ao invés de um retrato verossímil.


O Calvino “sombrio” de Calvinismo Recalcitrante

Edward Burns, citado por Martinez, considera João Calvino “sombrio” e “teimosamente” convencido “da verdade de suas ideias”.[30] Tal observação não é surpreendente à luz do temperamento e convicções doutrinárias de Calvino (eu falo sobre isso no próximo post, O João Calvino dos Calvinistas). O problema está em anexar esta anotação (sobre temperamento e convicções) a uma estatística de execuções nos anos iniciais do trabalho de Calvino em Genebra. O leitor fica com a impressão de que as execuções ocorreram devido ao caráter “sombrio” ou “teimosia” de João Calvino (retornarei a este ponto no próximo post).

Há problemas também em quatro afirmações de Marcos E. E. Faber, também corroboradas por Martinez. Primeiro, não é íntegro dizer que a doutrina da predestinação ensinada por Calvino foi “influenciada” pela “crença grega do destino”.[31] Se Deus permitir, retornarei a este ponto quando comentar o próximo capítulo de Calvinismo Recalcitrante, intitulado O Fatalismo Condenável. Por ora, apenas registro o que o historiador Bruce L. Shelley escreveu, ao explicar o modo como João Calvino entendia a soberania de Deus:

A Bíblia ensina a direção particular de Deus na vida dos indivíduos. Nela, lemos que nada acontece sem o consentimento do Pai. Lemos também que ele deu filhos a algumas mulheres e os negou a outras. Tais acontecimentos não representam um fatalismo implacável na natureza, mas decretos pessoais do Deus Todo-Poderoso que fazem os homens percorrerem seus caminhos.[32]

Segundo, Faber incorre em outro erro ao dizer que, “de acordo com Calvino, a fé não era o caminho para a salvação, para ele, a fé era o sinal de que o fiel estava predestinado à salvação”.[33] Mesmo uma leitura superficial das obras de Calvino é suficiente para informar-nos que, para o reformador de Genebra, a justificação é pela graça mediante a fé. “Não somos justificados de alguma outra forma, senão pela fé; ou o que significa a mesma coisa: somos justificados somente por meio da fé”.[34] O fato simples é que João Calvino ensina (de acordo com sua convicção do sentido das Sagradas Escrituras) que a fé salvadora é dada exclusivamente aos eleitos (se Deus permitir, retornarei a isso quando analisar o quarto capítulo da obra de Martinez, O Que é a TULIP?). Sugerir que a segunda afirmação (a fé é sinal, ou melhor, evidência, de que o fiel é predestinado à salvação) exige a desconsideração da primeira (a fé é caminho, ou melhor, meio para salvação, pois para o calvinista o “Caminho” é só Cristo) é interpretar mal João Calvino.


Terceiro, Faber estabelece uma polaridade inexistente entre Calvino e Lutero, ao sugerir que “mesmo contrariando a Lutero, a Doutrina da Predestinação se tornou muito popular na Suíça”.[35] O leitor é levado a entender que Calvino e Lutero divergiam quanto à predestinação. A fragilidade de tal argumento é atestada por outro historiador, Justo L. Gonzalez, como segue:

Durante este primeiro período a marca característica dos “calvinistas” ou “reformados” não era sua doutrina da predestinação, mas sua opinião com respeito à comunhão. [...] Enquanto vivos não havia essa divisão pois tanto Lutero quanto Calvino afirmavam a predestinação.[36]

Finalmente, Faber carrega nas tintas sugerindo um disparate que não se encontra em qualquer escrito de João Calvino: “A garantia de que alguém havia sido predestinado por Deus à salvação estava em seu sucesso pessoal”.[37] Pelo menos este autor nunca encontrou tal sugestão nos escritos de Calvino. Serei grato a Martinez se ele fornecer-me a fonte primária — uma obra de Calvino no qual ele ensine que “o próspero tem a garantia de sua salvação”.[38] Quem escreve isso parece desconhecer que João Calvino não foi rico e deixou pouquíssimos bens após sua morte.[39]


A respeito dos poucos bens terrenos que Deus me deu aqui para dispô-los, eu nomeio e indico como o meu único herdeiro, meu amado irmão Antony Calvino, mas somente como honrado herdeiro, concedendo-lhe o direito de possuir nada mais, senão a taça que ganhei de Monsieur de Varennes,[40] e suplico-lhe que fique satisfeito com isto, como eu estou bem certo de que ele será, pois ele sabe que fiz isto por nenhuma outra razão, senão que o pouco que deixo possa permanecer para os seus filhos. Em seguida, deixo para a Academia dez moedas de cinco xelins, e para o tesouro dos pobres estrangeiros a mesma soma.[41] Igualmente, para Jane, filha de Charles Costan e minha meia-irmã,[42] por assim dizer, por parte de pai, a soma de dez moedas de cinco xelins; e ainda, para cada um de meus sobrinhos, Samuel e João, filhos de meu supracitado irmão,[43] quarenta moedas de cinco xelins; e para cada uma de minhas sobrinhas, Anne, Susannah e Dorothy deixo trinta moedas de cinco xelins. Também para o meu sobrinho David e seu irmão, pois ele tem sido imprudente e inseguro, deixo-lhe, porém, vinte e cinco moedas de cinco xelins como uma punição.[44] Este é o total de todos os bens que Deus me deu, de acordo com o que fui capaz de avaliar e estimá-los, quer sejam em livros,[45] mobília,[46] objetos de prata, ou qualquer outra coisa. De qualquer modo, é possível que o resultado da venda remonte a alguma coisa mais, entendo que poderia ser distribuído entre meus citados sobrinhos e sobrinhas, sem excluir David, se Deus tiver lhe concedido graça para ser mais moderado e sério. Mas, creio que a respeito deste assunto não haverá dificuldade, especialmente quanto as minhas dívidas que serão pagas, como tenho encarregado a meu irmão em quem confio, nomeando-o executor deste testamento junto ao respeitável Laurence de Normandie, concedendo-lhes poderes e autoridade para fazer um inventário sem qualquer forma judicial, e negociar minha mobília para levantar dinheiro dela de modo a consumar as orientações deste testamento como ele está aqui firmado por escrito, neste dia 25 de Abril de 1564. Testemunho com a minha mão, João Calvino.

Quanto à tentativa de Calvino estabelecer uma “teocracia” e sua perseguição e defesa de execução de hereges[47] eu discorrerei no próximo post, O João Calvino dos Calvinistas. Por ora, basta afirmar que o entendimento de tais eventos exige a atenção ao tempo e lugar, para não incorrermos em anacronismo histórico.


A ideia sugerida pelo site Cristianismo Wiki, de que a doutrina da predestinação de Calvino é “fatalista” e originada no “estoicismo pagão”[48] é rebatida com aquilo que eu argumentei sobre a primeira afirmação equivocada de Faber. Calvino não crê ou propaga nenhum tipo de fatalismo, muito menos é influenciado por crenças pagãs. O que ele ensina sobre a soberania e, por conseguinte, providência de Deus, ele extrai exclusivamente das Sagradas Escrituras. Mesmo quando Calvino cita uma fonte externa, esta passa sempre pelo crivo da Palavra de Deus (cf. minha análise do segundo capítulo de Calvinismo Recalcitrante, se Deus permitir).

Quase terminando, o leitor merece outra apresentação da pessoa e obra de João Calvino, distinta da fornecida por Dave Hunt. Aprecio alguns escritos de Hunt e o considero um servo de Deus comprometido com a fidelidade da igreja cristã, mas rejeito sua leitura de Calvino e do Calvinismo. Hunt é particularmente infeliz ao dizer que Calvino ignorava que “uma escolha genuína é essencial se o homem quer amar e obedecer a Deus ou mostrar uma compaixão real ao seus companheiros”.[49] Isso simplesmente não corresponde ao ensino de João Calvino. Eu não me deterei nesta questão aqui. Se nosso Senhor quiser, espero abordá-la em minha análise do terceiro capítulo de Calvinismo Recalcitrante.

No próximo post, se Deus permitir, apresentarei um retrato diferente de João Calvino.

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Notas:
[1] LLOYD-JONES, D. M. Discernindo os Tempos: Palestras Proferidas Entre 1942 e 1977. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 42.
[2] MARTINEZ, João Flávio. Calvinismo Recalcitrante. São José do Rio Preto: Martinez Publicações, 2014, p. 20.
[3] MARTINEZ, op. cit., p. 21.
[4] BURNS, Edward Mcnall. História da Civilização Ocidental. 9. ed. São Paulo: Editora Globo, p. 389, apud MARTINEZ, op. cit., loc. cit. Endereçamento de fonte corrigido.
[5] FABER, Marcos Emílio Ekman. João Calvino e o Calvinismo. In: História Livre. Disponível em: <http://www.historialivre.com/moderna/calvino.htm>. Acesso em: 18 set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., loc. cit. Endereçamento de fonte corrigido.
[6] Ibid., loc. cit.
[7] Ibid., loc. cit.
[8] Ibid., loc. cit.
[9] Ibid., p. 22.
[10] ALMEIDA, Yuri. Calvino, João. In: História Crítica. Disponível em: <http://bloghistoriacritica.blogspot.com.br/2009/11/calvino-joao.html>. Acesso em: 18 set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., loc. cit. Endereçamento de fonte corrigido.
[11] Ibid., loc. cit.
[12] Cristianismo Wiki. Disponível em: <http://cristianismo.wikia.com/wiki/João_Calvino>. Acesso em: 18 set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 23. Endereçamento de fonte corrigido.
[13] Ibid., loc. cit.
[14] HUNT, Dave. O Lado B do Calvinismo em Genebra. In: Instituto Teológico Gamaliel: Onde Cada Aluno é um Discípulo e Cada Discípulo é um Irmão. Disponível em: <http://www.institutogamaliel.com/portaldateologia/o-lado-b-do-calvinismo-em-genebra/teologia>. Acesso em: 18 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 23-28. Endereçamento de fonte corrigido.
[15] Ibid., p. 24.
[16] Ibid., loc. cit.
[17] Ibid., p. 25.
[18] Ibid., loc. cit.
[19] Ibid., loc. cit.
[20] Ibid., p. 26.
[21] Ibid., p. 27.
[22] Ibid., p. 28.
[23] Ibid., p. 13.
[24] Ibid., loc. cit.
[25] Ibid., loc. cit.
[26] COPI, Irving M. Introdução à Lógica. 3. ed. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1981, p. 75. Grifos nossos.
[27] ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros: O Guia Clássico Para a Leitura Inteligente. 2a. Impressão. São Paulo: É Realizações Editora, Livraria e Distribuidora Ltda., 2011, p. 247. Grifos nossos.
[28] ADLER; VAN DOREN, op. cit., p. 250.
[29] PORTAL ZUN. Anacronismo O Que é? Disponível em: . Acesso em: 18 Set. 2014.
[30] BURNS, apud MARTINEZ, op. cit., p. 21.
[31] FABER, apud MARTINEZ, op. cit., loc. cit.
[32] SHELLEY, Bruce L. História do Cristianismo Ao Alcance de Todos: Uma Narrativa do Desenvolvimento da Igreja Cristã Através dos Séculos. São Paulo: Shedd Publicações, 2004, p. 290.
[33] FABER, apud MARTINEZ, op. cit., loc. cit.
[34] CALVINO, João. Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013. eBook Kindle, posição 1288 de 12639. (Série Comentários Bíblicos).
[35] FABER, apud MARTINEZ, op. cit., loc. cit.
[36] GONZALEZ, Justo L. E Até Os Confins da Terra: Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 119. v. 6. Grifo nosso.
[37] FABER, apud MARTINEZ, op. cit., p. 22.
[38] Ibid., loc. cit.
[39] Extraído de CALVIN, John. Letters of John Calvin: Select From The Bonnet Edition With an Introductory Biographical Sketch. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1980, p. 249-253. Tradução livre do Rev. Ewerton B. Tokashiki. Disponível em: <http://www.iglesiareformada.com/testamentoCalvino.doc>. Acesso em: 05 Jul. 2009. As notas relativas ao Testamento de Calvino pertencem ao texto original.
[40] Nota do editor: Guilhaume de Trie, Lorde de Varennes. Ele morreu em 1562, deixando a guarda de seus filhos à Calvino.
[41] Nota do tradutor: Este “tesouro dos pobres estrangeiros” era um fundo de reserva que a cidade de Genebra tinha para socorrer os refugiados, que por motivos políticos ou teológicos eram expulsos de suas pátrias, e procuravam acolhida nesta cidade. Durante o retorno de João Calvino para Genebra esta cidade em pouco tempo tornou-se não somente um local de referência para a Reforma teológica, mas também para o pensamento econômico, político e social. O próprio Calvino sabia o que era andar errante como um “pobre estrangeiro”.
[42] Nota do editor: Mary, filha de um segundo casamento de Gérard Calvino. Ela deixou Noyon em 1536, para acompanhar os seus irmãos, João e Antony para a Suíça.
[43] Nota do editor: Antony Calvino teve com a sua primeira esposa dois filhos, Samuel e Davi, e duas filhas, Anne e Susannah; com a segunda, um filho, João, que morreu sem deixar posteridade em 1601, e três filhas, Dorothy, Judith e Mary, que morreram da praga em 1574.
[44] Nota do editor: Este David, bem como o seu irmão Samuel, foram deserdados por Antony Calvino, por causa de sua “desobediência”.
[45] Nota do editor: Os livros de Calvino foram comprados após a sua morte pelo lorde, como podemos ver nos registros do concílio do dia 8 de Julho de 1564: “Resolvido comprar para a república os tais livros do senhor Calvino, como o senhor Beza melhor julgar”.
[46] Nota do editor: Uma parte da mobília pertencia a república de Genebra, como é provado pelo inventário preservado nos arquivos (No. 1426). Extraímos desta lista os artigos emprestados para o reformador, do dia 27 de Dezembro de 1548, e devolvidos ao lorde após a sua morte.
[47] ALMEIDA, apud MARTINEZ, op. cit., p. 22-23.
[48] Cristianismo Wiki, apud MARTINEZ, op. cit., p. 23.
[49] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 28.

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Fonte: Somente pela Graça

Leia também: 
Sobre a obra Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez
Calvinismo Recalcitrante: Desafios metodológicos do conceito de Calvinismo
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Calvinismo Recalcitrante: Desafios metodológicos do conceito de Calvinismo

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Por Rev. Misael Nascimento


O livro Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez contém quatro blocos principais de argumentação, intitulados Panorama Geral do Calvinismo, O Fatalismo Condenável, O que á a TULIP? e Refutando Algumas Ideias Estranhas. Constam ainda uma introdução e conclusão, apêndices e um glossário. A primeira grande seção da obra, Panorama Geral do Calvinismo, fornece definições e conceito do Calvinismo, bem como informações sobre quem foi João Calvino.

Este post menciona uma curiosidade sobre o título do livro, bem como analisa as definições e conceitos do Calvinismo providos por Martinez. No próximo post, escreverei sobre o retrato que ele fornece de João Calvino.

Sobre o título Calvinismo recalcitrante

Martinez escreve: “Recentemente tenho observado o recrudescimento e o endurecimento do calvinismo e, devido a isso, concluímos que o melhor nome para o livro seria ‘Calvinismo Recalcitrante’”.[1] Coincidente e curiosamente, a expressão “calvinismo recalcitrante” é também utilizada pelo pregador pentecostal nicaraguano Dr. Antonio Bolainez, em uma palestra intitulada Tres Armas Que Pueden Dañar a La Iglesia.[2] “A primeira arma [...] é o Calvinismo recalcitrante, que com suas afirmações e questionamentos acerca da predestinação e salvação, podem confundir o crente, desmotivando-o de perseverar na fé”.[3] Parece que, para ambos os autores, o Calvinismo pode prejudicar a perseverança em santidade do cristão (se Deus permitir, abordarei esta questão ao analisar a seção O Que É TULIP?).

Sobre a ausência de dicionários e (confiáveis) enciclopédias teológicas

Antes de prosseguir é importante registrar que, do ponto de vista metodológico, é recomendável que definições e conceitos sejam buscados em dicionários. Especialmente quando lidamos com Teologia, o procedimento indicado é, primeiramente, consultar um Dicionário da Língua Portuguesa, a fim de obter a compreensão do vocábulo segundo a cultura vigente. O segundo passo é consultar um Dicionário de Filosofia, a fim de verificar o entendimento da ideia sob o escrutínio humanista-racional, ou seja, a maneira como os acadêmicos em geral concebem e articulam a matéria. Por fim, a fim de obter a compreensão cristã, bíblica e teológica do termo, é importante checar Dicionários e Enciclopédias de Teologia.

Aplicando tal método ao vocábulo “Calvinismo”, eis o que encontramos. O Dicionário Aurélio define Calvinismo como “sistema teológico da Reforma protestante, exposto e defendido por Calvino (1509-1564)”.[4] Para o Dicionário Oxford, Calvinismo é:

Forma rigorosa de protestantismo que se distingue pela crença na Bíblia como critério de fé, pela negação da liberdade humana desde o pecado original e pelo destaque particular que dá à predestinação arbitrária da salvação de uns e da condenação, para outros. O Calvinismo era o credo dos huguenotes, e teve bom acolhimento na Escócia.[5]

Ambos os conceitos exigem expansão e detalhamentos, fornecidos por dicionários e enciclopédias de Teologia. A Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã sugere que o Calvinismo enfatiza, quanto às Escrituras, o princípio “sola Scriptura (‘somente a Escritura’). A rigor, Calvino era primariamente um teólogo bíblico. Treinado nas técnicas de exegese gramático-histórica pelos seus estudos humanistas e jurídicos, dirigiu-se às Escrituras para ver com clareza o que realmente diziam”.[6]

Um segundo aspecto do sistema denominado Calvinismo é seu entendimento do ser de Deus, subscrevendo-se “a doutrina histórica do Deus Trino e Uno, que é Pai, Filho e Espírito Santo, os mesmos em substância e iguais em poder e glória. Além disso, enfatizou grandemente o fato de que Deus é soberano [...] perfeito em todos os aspectos, detentor de todo poder, justiça e santidade”.[7] De modo específico, Deus “não está sujeito nem ao tempo nem a quaisquer outros seres, nem pode ser reduzido a categorias espaciais e temporais na compreensão e análise humanas. Para suas criaturas, Deus sempre deve ser misterioso, a não ser à medida que ele se revela a elas”.[8] Um dos desdobramentos disso é que “assim como Deus sustenta de modo soberano toda a sua criação, ele também, na providência, a governa e guia para a realização dos seus propósitos finais, a fim de que todas as coisas sejam somente para a glória de Deus (soli Deo gloria)”.[9]

O terceiro aspecto do Calvinismo, conforme Reid, é o homem que, “tendo a imagem de Deus, também tinha livre-arbítrio, o que significa que possuía a capacidade de livremente obedecer ou desobedecer aos mandamentos de Deus”.[10] A queda representou, no entanto, uma declaração de “independência do Deus soberano”,[11] uma adoração da criatura ao invés do Criador e, consequentemente, não apenas colocou o homem “sob condenação divina”,[12] mas também tornou-o “totalmente corrupto, transmitindo esta corrupção aos seus descendentes no decurso da história”.[13]

Reid prossegue:

O Deus soberano, no entanto, não permitiu que seus planos e propósitos fossem frustrados. Já na eternidade, como parte de seu plano secreto, ele tinha escolhido para si mesmo um grande número das suas criaturas caídas, para serem reconciliadas com ele. Deus nunca revelou por que agiu assim; diz, apenas, que ele escolheu fazer assim na sua misericórdia, porque, com toda justiça, poderia ter rejeitado a totalidade da raça humana pelos seus pecados. Na execução deste plano e propósito de redenção, o Pai enviou ao mundo o Filho, a segunda Pessoa da Trindade, a fim de receber a pena pelos pecados dos eleitos e cumprir a favor deles a justiça completa da lei de Deus.[14]

A estes escolhidos “é enviado o Espírito Santo, não somente para iluminá-los para entenderem o evangelho [...], como também para capacitá-los a aceitar a promessa do perdão divino. Mediante esta ‘chamada eficaz’ vêm a ter fé em Cristo como Redentor”.[15] Dito de outro modo, “é [...] pela fé somente (sola fidei) que são salvos, mediante o poder regenerador do Espírito Santo”.[16] Qual o resultado prático desta fé? “A partir de então, [...] devem viver vidas que, embora nunca sejam perfeitamente santas, devem manifestar de que são o seu povo, procurando [...] glorificá-lo nos pensamentos, palavras e ações”.[17]

Um quarto aspecto destacado relaciona-se com a organização da igreja. Concorda-se geralmente “que a igreja deve ser governada por presbíteros [...] eleitos pela igreja. Alguns, porém, creem que uma forma episcopal de governo eclesiástico é a forma correta, ou pelo menos permissível, de organização”.[18] Ademais, leva-se “em conta a pluralidade de formas da igreja”,[19] reconhecendo-se “que ela não é perfeita”[20] e insistindo-se “em que deve haver uma uniformidade ou congruência básica de doutrina”.[21]

Reid finaliza pontuando as contribuições de Calvino e do Calvinismo para “o desenvolvimento da democracia [...], as artes, [...] as ciências, as atividades econômicas e a reforma social”.[22]

O Novo Dicionário de Teologia sublinha como principais características da Teologia Reformada e, por conseguinte, o Calvinismo, a “centralidade de Deus”,[23] a “Cristocentricidade”[24] e a “pluriformidade”.[25] Concluindo sua exposição cuidadosa, Letham assevera:

A teologia reformada mostra uma capacidade contínua para a autocrítica e uma renovação que apresenta promissor prognóstico futuro, pois, conforme argumenta Warfield, o futuro do Cristianismo é inseparável do bom êxito da fé reformada. Seu interesse em um teocentrismo consistente, sua abrangente cosmovisão e sua Cristocentricidade, pelo menos implícita, exemplificam sua rigorosa exploração teológica do evangelho, sua busca de “fé procurando entendimento” e seu movimento em direção à integração da criação com a redenção em Cristo. Na verdade, onde quer que uma oração seja feita, há provavelmente uma igreja protestante se engajando na teologia reformada.[26]

Eis duas menções do Calvinismo, em uma Enciclopédia de História e Teologia, e em um Dicionário de Teologia contemporâneos. Observe-se, porém, que nove das dez citações da primeira parte do capítulo inicial de Calvinismo Recalcitrante de Martinez são oriundas de web sites. Observe-se ainda que, no endereçamento destas fontes da Internet, não são fornecidas as URLs completas. Os links de Martinez nos remetem à páginas iniciais dos sites, requerendo trabalho adicional para encontrar os textos mencionados. De fato, somente uma citação provém de um livro (no caso, um sermão de Spurgeon). Na conceituação do Calvinismo, Martinez não recorre a qualquer dicionário ou enciclopédia academicamente reconhecida.

Sobre o endereçamento e objetividade das fontes

A citação de uma fonte serve para corroborar um argumento ou a apresentação de um fato ou ideia. Literalmente, corresponde a recorrer a uma testemunha, autor confiável, especialista, autoridade ou representante reconhecido de determinado grupo ou escola de pensamento. Por isso, é fundamental que:

1 - As fontes sejam devidamente endereçadas, permitindo ao leitor acessar a bibliografia pertinente e ler o texto em seu contexto original.
2 - As citações sejam objetivas ou imparciais. Quando é mencionado um autor que afirma uma opinião contestada (que não é unanimemente aceita por todos os estudiosos do assunto), a citação deve deixar claro que trata-se de um ponto de vista que é rebatido por alguns. O melhor, inclusive, é mencionar as ideias contrárias, para que o leitor tenha como decidir (uma das palavras prediletas dos arminianos) pela interpretação que considere melhor ou mais consistente.

Martinez nem sempre atenta para o endereçamento das fontes. Pelo contrário, em sua primeira citação do capítulo, ele menciona a Wikipédia que, por sua vez, registra uma longa citação das Institutas, sem endereçamento.[27] Trata-se de uma citação de Institutas, IV.XVI.32, mas o leitor que não é versado em Calvino fica “perdido”, sem saber onde encontrar o texto referido. Esta prática é repetida em Calvinismo Recalcitrante, como indicarei em outros posts.

Quanto à objetividade das fontes, Martinez cita O Outro Lado do Calvinismo, de L. Vance, cuja definição do Calvinismo é contestada por alguns estudiosos bíblicos. Primeiro, lemos que “a Expiação Limitada é o ensino que Jesus Cristo, por sua morte na cruz, somente fez expiação pelo grupo de homens previamente eleitos para salvação [Deus não amou o mundo todo, negando Jo 3.16]”.[28] Independentemente da parte entre colchetes ser do próprio Vance ou de Martinez, afirmar que o Calvinismo nega João 3.16 é passível de contestação, pelos seguintes motivos:

Primeiro, o próprio João Calvino, em nenhum lugar de seus escritos nega João 3.16. Ao ensinar que a encarnação de Cristo não teve outro propósito, senão nossa redenção, Calvino cita João 3.16 da seguinte forma:

Quando ouvimos ser Cristo particularmente devotado por Deus para levar ajuda a míseros pecadores, todo aquele que vai além destes limites incorre em curiosidade demasiado estulta. Quando ele apareceu pessoalmente, afirmou ser esta a causa de sua vinda: que, sendo Deus aplacado, conduzisse ele da morte para a vida. Os apóstolos atestaram o mesmo a respeito. Assim, antes de ensinar que a Palavra se fez carne [Jo 1.14], João narra a rebelião do homem [Jo 1.9-11]. Mas é melhor que o ouçamos pessoalmente a sentenciar acerca de seu encargo: “Deus assim amou o mundo”, diz ele, “que deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça. Pelo contrário, tenha a vida eterna” [Jo 3.16]. De igual modo: “A hora vem em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” [Jo 5.25]. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” [Jo 11.25]. Também: “O Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido” [Mt 18.11]. Ainda: “Os sãos não têm necessidade de médico” [Mt 9.12]. Não haveria limite, se eu quisesse mencionar todos os textos pertinentes.[29]

Em outro lugar, ao explicar a inter-relação dos atributos das naturezas humana e divina de Cristo, Calvino novamente cita João 3.16 afirmando que “João ensina que Deus deu sua vida por nós [Jo 3.16]”.[30] Logo adiante ele assevera que “a despeito de nosso pecado e rebeldia, que lhe excitariam a ira, Deus jamais deixou de nos amar”[31] e, como prova, dentre outros textos, propõe João 3.16, como segue, “nisto Deus manifestou seu amor para conosco: que o Filho Unigênito foi entregue à morte [Jo 3.16]”.[32]

E não apenas isso. Calvino inicia sua explicação sobre a ação mútua do mérito de Cristo e da graça de Deus deste modo:

Esta diferenciação entre a graça de Deus e o mérito de Cristo se deduz de muitas passagens da Escritura. “Assim amou Deus ao mundo que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça” [Jo 3.16]. Vemos como o amor de Deus mantém o primeiro lugar, como a causa suprema e a origem; a ele segue a fé em Cristo, como a causa segunda e mais próxima.[33]

No mesmo capítulo, combatendo uma sugestão de Lombardo e dos escolásticos (de que Cristo, em sua morte, adquiriu mérito para si mesmo), Calvino apregoa: “Ora, o Pai não diz ter granjeado provento para o Filho nos méritos deste; ao contrário, que o entregou à morte, não o poupou [Rm 8.32], porque amava o mundo [Jo 3.16]”.[34]

No terceiro volume de suas Institutas, Calvino sustenta que “todas as causas de nossa alvação estão postas na graça, não nas obras”.[35] Neste contexto, João 3.16 é citado magistralmente:

Se, porém, atentarmos para as quatro modalidades de causas que os filósofos preceituam que se deve considerar na efetuação das coisas, nenhuma delas acharemos que se ajuste às obras para que nossa salvação se consuma. Pois, a Escritura, por toda parte, proclama que a misericórdia do Pai celeste e seu gracioso amor para conosco são a causa eficiente para adquirir-nos a vida eterna; a causa material é por meio de Cristo com sua obediência, mediante a qual adquiriu justiça para nós; e qual diremos ser a causa formal, ou também instrumental, senão a fé? E João compreende estas três, a um tempo, em uma sentença, quando diz “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” [Jo 3.16].[36]

Ademais, Calvino faz uso de João 3.16 como Palavra de Deus que nos revela que a eleição se baseia, se efetua e se assegura somente em Cristo.[37] Nestes termos:

Portanto, que semelhantes exemplos [dos que se dizem crentes, mas revelam que jamais foram convertidos] não nos alterem nem nos impeçam de descansar confiados na promessa do Senhor, quando diz que o Pai lhe deu [a Cristo] a todos aqueles que com verdadeira fé o recebem, dos quais nem um sequer perecerá por ser ele seu guardião e pastor [Jo 3.16; 6.39].[38]

Finalmente, comentando o Evangelho de João (especialmente 3.16), o reformador de Genebra escreve que “nossas mentes não conseguem encontrar calmo repouso, até que chegamos ao amor gratuito de Deus”.[39] O amor de Deus pelo “mundo” é explicado assumindo-se que a fé em Cristo traz vida a todos, e que Cristo trouxe vida, porque o Pai Celestial ama a raça humana, e deseja que eles não se percam”.[40]

E como devemos entender “todos”, “raça humana” e “eles”, neste comentário de Calvino? Primeiro ele destaca que “Cristo falou desta maneira, a fim de atrair os homens a partir da contemplação de si a olhar para a misericórdia de Deus”.[41]

Segundo, João 3.16 revela “que, até que Cristo conceda a sua ajuda em resgatar os perdidos, todos estão destinados à destruição eterna”.[42]

Terceiro, a fé correta abandona toda ideia de mérito próprio para a salvação e apoia-se unicamente na morte de Cristo como evidência do amor divino.[43]

Quarto, em João 3.16 temos aquilo que os teólogos calvinistas posteriores denominarão chamado externo do evangelho, ou seja, Deus “convida todos os homens, sem exceção, à fé de Cristo, que é nada mais do que uma entrada para a vida”.[44]

Quinto, “enquanto a vida é prometida universalmente para todos os que creem em Cristo, ainda a fé não é comum a todos”.[45] E porque nem todos creem? Calvino responde que “Cristo é dado a conhecer [...] à vista de todos, mas [os da] eleição [...] são aqueles cujos olhos Deus abre, para que possam procurá-lo pela fé”.[46]

Outro detalhe da citação de Vince, também entre colchetes, abordando a Graça Irresistível, é que o Calvinismo ensina que “o homem não é tocado pelo amor de Deus, mas recebe salvação pela imposição divina”.[47] Eu não conheço qualquer escrito do Calvinismo que afirme que o eleito “recebe salvação pela imposição divina”. Para o Calvinismo, Deus não força a vontade a fim de conceder salvação, e sim a restaura e renova mediante a regeneração. Como afirma Turretini, “que disposição pode haver em um homem morto para viver, em um cego para ver, em uma pedra para sentir?”[48] E prossegue: “se requer antecipadamente a cura da faculdade prejudicada a fim de que possa apreender corretamente o objeto e firmar seu próprio ato”.[49] Dito de outro modo, a alma curada pela regeneração é capacitada a enxergar Cristo e responder ao amor de Deus com arrependimento e fé. Se Deus permitir, retornarei a este ponto ao analisar a seção O Que é TULIP? (p. 35-73) da obra de Martinez.

Voltando à questão metodológica, as duas afirmações entre colchetes, inseridas na citação de Vince, na p. 16 de Calvinismo Recalcitrante, exigem informações adicionais. Para que a citação possa ser compreendida como objetiva ou imparcial, ao registrar, entre colchetes, que o Calvinismo afirma que “Deus não amou o mundo, negando Jo 3.16”, o correto seria afirmar que o Calvinismo interpreta João 3.16 diferente do Arminianismo. Seria útil ainda informar o leitor sobre o modo como a passagem é entendida pelo próprio João Calvino. Além disso, ao sugerir que, no Calvinismo, “o homem não é tocado pelo amor de Deus, mas recebe salvação pela imposição divina”, o correto seria mostrar a opinião contrária, dando ao leitor “liberdade de escolha” entre os argumentos do Calvinismo e Arminianismo.

Concluindo: Calvinismo Recalcitrante descreve um “Calvinismo” reduzido

Quatro das citações (a da Wikipédia, p. 13-14; a do site Calvinismo.com, p. 15; a de Vance, p. 15-16 e a do web site da Covenant Protestant Reformed Church)[50] destacam a TULIP ou as doutrinas da graça. Uma citação parece apenas sugerir que Calvino disseminou “outra compreensão sobre as questões de fé levantadas por Martinho Lutero”.[51] Outra, que o Calvinismo “hoje tem grande rejeição no meio evangélico”,[52] ou que ele (Spurgeon, ao dizer que “o Calvinismo é o Evangelho”) sinaliza uma “ufania teológica”.[53] Uma citação é mencionada apenas para ser qualificada como “opinião estranha”.[54] Duas citações (de Olson e Hunt, p. 18-19) consideram a retórica do Calvinismo como sendo “de exclusão” e a identificação do Calvinismo com a Reforma como “reivindicação presunçosa”. Tais citações de definições e conceito do Calvinismo, fornecidas por Martinez, ao invés de expor o Calvinismo de modo amplo e imparcial, sugerem um “Calvinismo” reduzido.

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Notas:

[1] MARTINEZ, João Flávio. Calvinismo Recalcitrante. São José do Rio Preto: Martinez Publicações, 2014, p. 9.
[2] BOLAINEZ MINISTRIES INC. Tres Armas Que Pueden Dañar a La Iglesia. Disponível em: <http://www.bolainezproductions.com/p234/Tres-armas-que-pueden-da%C3%B1ar-a-la-Iglesia/product_info.html>. Acesso em: 10 Set. 2014.
[3] BOLAINEZ MINISTRIES INC., op. cit., loc. cit. Tradução nossa.
[4] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Calvinismo. In: Dicionário Aurélio Eletrônico 7.0. Curitiba: Editora Positivo, 2009. CD-ROM.
[5] BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, p. 50.
[6] REID, W. S. Calvinismo. In: ELWELL, Walter. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 225. v. 1 A — D.
[7] REID, op. cit., p. 226.
[8] Ibid., loc. cit.
[9] Ibid., loc. cit.
[10] Ibid., loc. cit.
[11] Ibid., p. 227.
[12] Ibid., loc. cit.
[13] Ibid., loc. cit.
[14] Ibid., loc. cit.
[15] Ibid., loc. cit.
[16] Ibid., loc. cit.
[17] Ibid., loc. cit.
[18] Ibid., loc. cit.
[19] Ibid., loc. cit.
[20] Ibid., p. 228.
[21] Ibid., loc. cit.
[22] Ibid., loc. cit.
[23] LETHAM, R. W. A. Teologia Reformada. In: FERGUSON, Sinclair R.; WRIGHT, David F. (Ed.). Novo Dicionário de Teologia. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 1134-1136.
[24] LETHAM, op. cit., p. 1136.
[25] Ibid., p. 1136-1138.
[26] Ibid., p. 1138.
[27] MARTINEZ, João Flávio. Calvinismo Recalcitrante. São José do Rio Preto: Martinez Publicações, 2014, p. 14. Há um problema adicional aqui. Por ser livremente editável, a Wikipédia, assim como qualquer outra fonte de dados baseada na plataforma wiki, não possui credibilidade para pesquisas acadêmicas.
[28] MARTINEZ, op. cit., p. 16.
[29] CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica, doravante denominada Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, II.XII.4, p. 223-224.
[30] CALVINO, Institutas, II.XIV.2, p. 239.
[31] Ibid., II.XVI.4, p. 260.
[32] Ibid., loc. cit.
[33] Ibid., II.XVII.2, p. 280. Grifos do autor.
[34] Ibid., II.XVII.6, p. 284.
[35] CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, III.XIV.17, p. 253.
[36] CALVINO, Institutas, loc. cit.
[37] Ibid., III.XXIV.5, p. 431. Grifo nosso.
[38] Ibid., III.XXIV.7, p. 433.
[39] CALVIN, John. Commentary on the Gospel According to John. Bellingham, WA: Logos Bible software, 2010, p. 122–123. v. 1. Tradução nossa.
[40] CALVIN, op. cit., p. 123.
[41] Ibid., loc. cit.
[42] Ibid., loc. cit.
[43] Ibid., loc. cit.
[44] Ibid., p. 125.
[45] Ibid., loc. cit.
[46] Ibid., loc. cit.
[47] MARTINEZ, op. cit., p. 16. Grifo nosso.
[48] TURRETINI, François. Compêndio de Teologia Apologética. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, loc. 15.6.VIII, p. 657. v. 2.
[49] TURRETINI, op. cit., loc. cit.
[50] MARTINEZ, op. cit., p. 17.
[51] BRASIL ESCOLA. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/>. Acesso em: 26 mai. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 15.
[52] Ibid., p. 17.
[53] Ibid., p. 17-18.
[54] Refiro-me a PALMER, Edwin H., apud ARMINIANISMO.COM. Disponível em: <http://www.arminianismo.com/>. Acesso em: 17 mai. 2014, apud ibid., p. 19.

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Sobre o autor: Rev. Misael Nascimento é pastor efetivo da Igreja Presbiteriana Central de São José do Rio Preto (IPB Rio Preto) desde janeiro de 2010. Doutorado em Ministério no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ) - São Paulo-SP e Reformed Theological Seminary (RTS), Jackson, Mississipi. Módulos cursados na sede do CPAJ, em São Paulo, 2008. Graduação em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Mackenzie (EST), 2006. Especialização Lato Sensu em Teologia Prática na Faculdade Teológica Batista de Brasília (FTBB), 2001. Graduação em Teologia. Faculdade Teológica Batista de Brasília (FTBB), concentração em ministério pastoral, 1996.

Fonte: Somente pela Graça

Leia também: Sobre a obra Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez
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Sobre a obra Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez

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Por Rev. Misael Nascimento


Comecei a leitura de Calvinismo Recalcitrante, livro recentemente publicado por João Flávio Martinez, querido irmão, colega de ministério e Diretor do Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP). Martinez é um estudioso sincero das Sagradas Escrituras e contribui significativamente para o esclarecimento dos cristãos sobre seitas e heresias de nosso tempo.

Fui apresentado a esse autor em uma reunião do Conselho de Pastores de São José do Rio Preto, em 2011. Desde então, cultivamos uma relação fraterna e respeitosa. Martinez e os alunos do CACP participaram das primeiras três edições do Encontro da Fé Reformada em São José do Rio Preto, de 2011 a 2013. Em cada uma das edições, ele tem me dito que tal evento é uma bênção para as igrejas e pastores de nossa cidade e região.

Digo isso para que se entenda que não escrevo para contender com o Pr. Martinez. Oro para que o tom de meus textos sobre Calvinismo Recalcitrante seja cristão e pastoral. Meu objetivo principal é esclarecer e firmar posição consistente com as Sagradas Escrituras, sob a iluminação do Espírito Santo, no amor de Jesus Cristo, para glória de Deus Pai e edificação da Igreja Cristã. Faço isso pensando não na pessoa de Martinez, nem nos que, como ele, rejeitam o Calvinismo (o Calvinismo nunca foi abraçado por todos). Minha preocupação é com os cristãos verdadeiramente calvinistas e reformados, pois Martinez argumenta com convicção. Ele sequer define o Calvinismo como sistema teológico viável. Para ele o Calvinismo sequer deve ser considerado uma leitura possível da Bíblia. Pelo contrário, Calvinismo Recalcitrante inicia, prossegue e finaliza golpeando duramente Agostinho, João Calvino e os Cinco Pontos do Calvinismo. No fim, o leitor vê-se diante de uma única conclusão. Para ser fiel às Escrituras é necessário rejeitar o Calvinismo.

Algumas ponderações da obra de Martinez são dignas de atenção. Nós, calvinistas e reformados, precisamos atentar para determinadas afirmações e posicionamentos que, com acerto, Martinez julga inconsistentes com o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Por outro lado, Martinez sobrecarrega e confunde o leitor com citações não confiáveis, é parcial na exposição de dados de sua pesquisa e deixa a desejar na interpretação de algumas passagens bíblicas por ele mencionadas. Sua obra impressiona pela contundência da argumentação, mas não pode ser considerado um estudo verdadeiramente profundo e consistente do Calvinismo.

O autor inicia afirmando que leu “‘As Institutas’ e outros onze livros de comentários bíblicos escritos por João Calvino” (p. 9). Ele prossegue:

Também pesquisei muitos outros de Teologia Sistemática e História da Igreja, além do conhecimento que agrego devido a minha formação — sou bacharel em História e Geografia. Nossa biblioteca tem mais de seis mil livros e muitos dos compêndios teológicos são escritos por calvinistas célebres como Berkhof, Hodge e Spurgeon, além do mais famoso em apologética calvinista, do autor Turretini. Digo isso apenas para explicar que sei bem do que estou discordando (loc. cit.).

O problema é que, como explicarei nesta série de artigos, algumas afirmações de Martinez não correspondem ao Calvinismo. Como veremos, em determinadas partes de sua obra ele ataca não o Calvinismo, mas sim uma caricatura do Calvinismo. Isso significa que não basta ter acesso à literatura calvinista. As Institutas, por exemplo, exigem mais de uma leitura, apenas para que nos adaptemos à fraseologia de Calvino. E o Compêndio de Teologia Apologética de Turretini, obra clássica do escolasticismo protestante, é ainda mais difícil de compreender que as Institutas de Calvino. Ademais, mesmo dizendo que leu todas estas obras de Calvino e do Calvinismo, a citação das mesmas é econômica. Martinez cita abundantemente detratores do Calvinismo, sem mencionar suficientemente os escritos do próprio Calvino e dos reformados posteriores.

O autor considera “audacioso” (loc. cit.) e jactancioso (p. 10) considerar o Calvinismo equivalente ao “evangelho”. Daí sugere fontes para pesquisa adicional (p. 10-11) e admite “defender uma Soteriologia que é encontrada anterior ao bispo de Hipona, Santo Agostinho” (p. 11). Daí, assume, como “ortodoxas”, seis declarações do “Sínodo de Arles (353 d.C.)” (loc. cit.). Ele diz ainda que seu livro “tem por objetivo trazer ao público cristão uma visão mais dialética, ou seja, mostrar todos os lados da questão envolvendo a temática”.

Ocorre, porém, que Martinez termina por “tentar” demolir o Calvinismo, mostrando-o como antibíblico e, por conseguinte, herético. Suas fontes para pesquisa adicional são úteis, mas parciais. Melhor do que buscar a soteriologia do Sínodo de Arles, é expor a Soteriologia da Bíblia. Calvinismo Recalcitrante, a partir de seu título, não fornece uma visão dialética. Trata-se, ao invés disso, de um ataque — nem sempre sereno ou bem ponderado — ao Calvinismo.

Nas próximas semanas, caminharemos pelos capítulos de Calvinismo Recalcitrante, analisando cada argumento de Martinez. “Julgaremos” esta obra “retendo o que é bom” e, ao mesmo tempo, abstendo-nos de “toda forma de mal” (1Ts 5.21-22).

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Sobre o autor: Rev. Misael Nascimento é pastor efetivo da Igreja Presbiteriana Central de São José do Rio Preto (IPB Rio Preto) desde janeiro de 2010. Doutorado em Ministério no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ) - São Paulo-SP e Reformed Theological Seminary (RTS), Jackson, Mississipi. Módulos cursados na sede do CPAJ, em São Paulo, 2008. Graduação em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Mackenzie (EST), 2006. Especialização Lato Sensu em Teologia Prática na Faculdade Teológica Batista de Brasília (FTBB), 2001. Graduação em Teologia. Faculdade Teológica Batista de Brasília (FTBB), concentração em ministério pastoral, 1996.

Fonte: Somente Pela Graça
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A torre de babel de Rob Bell

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Os leitores de Veja (edição 2297, de 28 de novembro, p. 19, 22-23) tiveram a oportunidade de conhecer algumas ideias do pastor Rob Bell, autor do livro "O Amor Vence" e fundador da Mars Hill Bible Church (marshill.org), uma das maiores igrejas dos Estados Unidos, sediada em Grandville, e que não deve ser confundida com a Mars Hill Bible Church (marshill.com), sediada em Seattle e pastoreada por Mark Driscoll.

O pastor Bell é apresentado como um líder ascendente e que tem enfurecido a igreja ao questionar alguns dogmas. Ele defende uma noção radical do amor divino que culmina no universalismo, a ideia que Deus salvará a todas as pessoas, mesmo aquelas que não acreditam nele. Bell parece considerar suas posições como parte de “uma mudança radical no cristianismo. Algo equivalente a uma nova reforma” (p. 22). Ele afirma que:

O movimento de Jesus se perdeu em algumas categorias-chave. Para muitas pessoas, a palavra salvação significa que Jesus virá nos salvar, que Jesus vai nos tirar daqui quando morrermos. Ou seja: é sempre sobre como ir para outro lugar em outro tempo. A palavra salvação precisa ser entendida num contexto holístico. A razão de tantos ocidentais fazerem ioga está no fato de que ioga quer dizer integração. Somos seres integrados. Acho que estamos na linha de frente de algo massivo, que vai mudar tudo (loc. cit.).

O entusiasmo e sinceridade de Bell são evidentes. Ele acerta ao dizer que o cristianismo deve ir além das questões tidas normalmente como “espirituais” e abranger todas as áreas da vida. Também é louvável sua sensibilidade ao sofrimento humano e, especialmente, sua preocupação com a lacuna existente na igreja, entre o que se prega e o que, de fato, se crê e faz. Destaca-se ainda o seu apreço ao universo observável (seu deslumbramento diante da física quântica) e sua discrição ao relatar seus “encontros profundos, [...] pessoais, com o amor de Deus” (p. 23). Tudo isso contribui para torná-lo atrativo como guia espiritual.

Alguns detalhes, porém, devem chamar nossa atenção, dois deles (o primeiro e o último), de omissão, os outros, de menção.

O modo como Rob Bell articula seu argumento sugere ao leitor uma caricatura do cristianismo preconizado pelas igrejas bíblicas e conservadoras. Fica a impressão de que as igrejas tradicionais não ensinam que Deus é amor, não trabalham para reduzir o sofrimento na terra, são preconceituosas, pregam uma mensagem que divide e fragmenta, desconhecem o verdadeiro ser de Deus, são contrárias à liberdade e felicidade do homem e, por fim, inventaram o dogma do inferno. Em suma, Bell omite que há igrejas apegadas à sã doutrina, contemporâneas quanto ao ministério e fiéis ao cumprimento dos mandatos espiritual, social e cultural. Esta omissão é grave por sugerir ao leitor a ideia de que todo o cristianismo “pré-Bell” está deformado e comprometido.

Bell critica a mensagem evangelizadora da igreja. Por dois mil anos a igreja apegada ao Novo Testamento pregou que o homem precisa “nascer de novo” (ser regenerado por Deus), arrepender-se de seus pecados e crer em Cristo como seu único e suficiente Salvador. Os crentes em Cristo servem a Deus como “luz do mundo”, são aperfeiçoados em santidade pelo Espírito Santo e desfrutarão eternamente da glória celestial e da ressurreição para a vida. Bell sugere que a igreja que crê e ensina assim subsiste numa “subcultura exclusivista” (p. 22).

Historicamente, a igreja sempre creu em um Deus no qual se equilibram perfeitamente o Amor e a Justiça. A igreja sempre anunciou que “Deus é amor”. Bell, porém, entende que Deus é somente amor, ou melhor, sua ideia de amor exclui absolutamente a disciplina ou o juízo: “O Deus sobre o qual Jesus falou não seria capaz de ferir alguém” (p. 23).

O resultado lógico desta posição — acuradamente percebido por André Petry, entrevistador de Veja — é o aprisionamento dos homens a Deus. Mesmo a pessoa que não quiser Deus será “condenada” ao Paraíso (p. 23). A esta questão Bell responde dizendo que é possível haver “algum estado de rejeição ou resistência. Talvez seja esse estado que muitas pessoas chamam de ‘inferno’” (loc. cit.). Ao fim, depois de garantir que Gandhi está com Deus mesmo sem ser cristão, Bell não consegue explicar a contento a situação eterna de Hitler (loc. cit.).

Destaco ainda o pragmatismo de Bell revelado por sua indiferença à Teologia. Após discorrer sobre suas experiências pré-cognitivas com Deus, ele diz: “Por isso, nunca fiquei preocupado com sistema doutrinário, com essa ou aquela denominação, nunca me empenhei em ter a comprovação do meu dogma. Isso não me preocupa”. Dito de outro modo, ele formula seus próprios dogmas enquanto questiona os dogmas da igreja. E isso desconsiderando toda e qualquer elaboração sistêmica de doutrina.

Como é que nós consideraríamos um indivíduo que se diz médico havendo jogado fora todos os construtos da Medicina? Como é que nós avaliaríamos alguém que se apresenta como matemático sem articular os axiomas fundamentais da Matemática? Eis o que temos: Um pastor que descarta a Lógica e a Teologia e, em seu lugar, apresenta uma formulação inconsistente sobre Deus e seu modo de lidar com os homens. Suas explicações, ao invés de esclarecer confundem e estabelecem uma “Torre de Babel” nos âmbitos do ministério e do testemunho cristão.

Por fim, os posicionamentos de Bell quanto ao Juízo de Deus e casamento homossexual revelam seu descaso para com as Sagradas Escrituras. Pastor relevante, engajado em atos de compaixão pelos pobres e marginalizados, pregador do universalismo e de uma espiritualidade holística. Tudo isso sem demonstrar apreço pela Bíblia como Escritura inspirada, infalível, inerrante e suficiente. De fato, ele está “na linha de frente de algo massivo que vai mudar tudo” (p. 22). Eu só não entendo que esta seja uma mudança para o bem.

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