Confessionalidade na cultura da diversidade

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Como ser cristão confessional na cultura da diversidade?


Neste texto, “confessional” significa apegado às confissões doutrinais e, por conseguinte, éticas do Cristianismo que deflui da Reforma Protestante do século 16. Os cristãos reformados abraçam os credos ecumênicos (apostólico, niceno-constantinopolitano e atanasiano), a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster, a Primeira e Segunda Confissões Helvéticas, o Catecismo Belga, o Catecismo de Heidelberg e, mais recente, a Declaração de Cambridge. Incluo também, como “confessionais”, os que abraçam o novo calvinismo holandês preconizado por Herman Bavinck, Geerhardus Vos, Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd e Henderik Rookmaaker, e guardadas as devidas proporções, atualizado por Francis Schaeffer[1] e Nancy Pearcey. Tais confissões e proponentes formularam uma maneira de ler e interpretar a realidade consistente com a Bíblia e com as ciências e a cultura (com a vida prática). Minha convicção é de que, devidamente aplicado, este modo bíblico de lidar com as coisas que existem, abre espaço para a interação edificante com a diversidade.

Ética bíblica versus ética cultural

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A proposta da ética do mundo é manter o desfrute dos prazeres pecaminosos, eliminando suas consequências naturais. A pílula do dia seguinte mata o óvulo fecundado antes da nidação, que é sua fixação nas paredes do útero para desenvolvimento (algo que acontece cerca de dez dias após a relação sexual). Dizem que um óvulo nos primeiros dias após a fecundação não é um ser humano. Por conseguinte, não possui dignidade ou direitos humanos.

Biblicamente, o melhor modo de impedir uma gravidez indesejada é resguardar-se sexualmente para o casamento. Nossos atos acarretam resultados, isso se chama responsabilidade.

Quanto à legalização da prostituição, todas as pessoas devem ser tratadas com respeito e jamais rechaçadas por preconceito ou orgulho. Ademais, cabe ao Estado garantir aos cidadãos o acesso à saúde, educação, segurança e inclusão social. Até um criminoso deve ser tratado como gente, criatura de Deus. Mas não se pode concordar com a erotização cultural, a banalização do sexo e a comercialização do corpo. Essas práticas afetam tanto a vida física, quanto espiritual (1Co 6.9-20; 1Ts 4.1-8). Sendo assim, os cristãos discordam do estabelecimento da prostituição como profissão.

Resumindo, não é bom ou certo, aquilo que a Bíblia diz que é ruim e errado. Além disso, evitamos até mesmo aquelas coisas que não são necessariamente pecaminosas, mas podem gerar obstáculos ao testemunho e evangelização (1Co 9.16-27; 1Ts 55.22).

Dito de outro modo, há um sentido em que a fé bíblica é contracultural e parece antiquada. Orientados pela noção de que o ser e a autoridade de Deus devem ser percebidos em todas as áreas da vida, nos posicionamos a favor de qualquer proposição que, ao mesmo tempo, beneficie o ser humano e honre devidamente a Deus.

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Autor: Rev. Misael Nascimento
Fonte: IPB Rio Preto
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A falácia da liderança visionária

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O líder cristão é um visionário — um criador e articulador de visão. Ele é capacitado para formatar e comunicar uma visão com clareza. Ele sabe como motivar os crentes a assumir uma visão rumo a um alvo bíblico e desejável.

Esse é um paradigma difundido na literatura e em congressos cristãos. No contexto episcopal isso é acolhido quase que sem questionamento. O problema é abraçar e tentar implementar essa ideia no contexto de uma liderança bíblica conciliar.

Se a igreja é corpo sacerdotal e o pastoreio do povo de Deus é uma tarefa compartilhada, como imaginar a figura de um líder da visão?

Se, diferentemente dos tempos do Antigo Testamento, Deus “é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.6), por que a igreja precisa de um líder visionário?

Se o Novo Testamento apresenta as igrejas locais sendo governadas por presbíteros eleitos pelo povo, onde encontramos, em Atos ou em qualquer epístola apostólica, a figura do líder da visão — o líder que se sobressai, que está sobre os outros, como canal exclusivo da iluminação e direção divina?

Os colegas pastores concordarão que, enquanto caminhamos com a igreja, é tentador imaginar que podemos nos destacar sobre os demais, considerar o ministério (na Escritura um “ministro” é, literalmente, uma pessoa que trabalha em favor de outras) como uma posição de poder e confundir autoridade espiritual com superioridade hierárquica. Somos inclinados a nos esquecer de que fomos chamados para a cruz, e que a igreja é o instrumento divino para nossa santificação e trabalho humilde.

A igreja é, ainda, corpo comum, a comunhão dos santos. Nela eu sou abençoado pela graça divina ministrada por meus irmãos e irmãs. Nesses termos, os presbíteros regentes são coiguais (uma palavra preciosa, destilada da doutrina da Trindade) e os membros da igreja não são meus subordinados. Fui vocacionado para nutri-los com a Palavra e os sacramentos, enquanto sou por eles ajudado em vários aspectos de minha própria peregrinação cristã. Mais do que um líder genial, eu simplesmente busco discernir o que Deus está realizando em nosso meio, o que ele nos orienta pela Escritura e como devemos responder a ele, aqui e agora. Nesse processo, assumimos alvos e trabalhos juntos. Mais do que uma “liderança visionária”, trata-se de “liderança compartilhada”, orientada pela fé, ancorada na Bíblia e regada pela graça.

Nos negócios, a liderança visionária confere dinamismo às organizações que tem de adaptar-se ao mercado globalizado e mutável. Na esfera religiosa, a liderança visionária constrói estruturas “ministeriais” que crescem explosivamente, da noite para o dia. Atrai os holofotes e conquista espaço na mídia e no imaginário popular. A questão, porém, é se isso, de fato, corresponde à igreja do Novo Testamento.

Compreendo os que, de boa vontade, assumem esse paradigma. Eu mesmo já fiz parte dessas fileiras. Hoje a igreja onde sirvo a Deus busca simplesmente ser “uma família de discípulos de Jesus, fundamentada na Bíblia, comprometida com a Reforma, que proclama as boas-novas da salvação, atua na restauração de pessoas e coopera na edificação do Reino de Deus”. Nada mais. Abandonei de vez a falácia da liderança visionária. Oro para que Deus me mantenha firme, até o fim, ao modelo da liderança pastoral estabelecido pelo Senhor Jesus Cristo.

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Autor: Rev. Misael Nascimento
Fonte: Somente pela graça
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Os “sonhos” de Deus jamais vão morrer

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É comum ouvirmos que o Senhor está comprometido em “restaurar” nossos sonhos e, ao mesmo tempo, que “os sonhos de Deus jamais vão morrer”. Dedicarei este post para ponderar sobre esse assunto. Inicio fornecendo alguns significados do vocábulo “sonho”, a relação entre sonho e revelação e a evidência bíblica de que somente os seres humanos sonham. Em 2012 eu já avaliei o uso da palavra “sonho” no cântico Arde Outra Vez, de Thalles Roberto.

Algumas acepções da palavra “sonho”

Como podemos entender o vocábulo “sonho”? Sem entrar na abordagem psicanalítica, simplesmente consultando um dicionário, lemos que sonho é “um conjunto de imagens, de pensamentos ou de fantasias que se apresentam à mente durante o sono”.[1] Esta acepção apresenta o sonho como experiência ocorrida enquanto dormimos, algo meramente fisiológico e neutro.

Um segundo modo de entender define sonho como uma “sequência de ideias soltas ou incoerentes às quais o espírito se entrega, devaneio, fantasia […]; plano ou desejo absurdo, sem fundamento”.[2] Aqui o sonho é um fluxo de impulsos desconexos e nem sempre edificantes. Um “sonhador”, por esta ótica, é um tolo, alguém que não segue um caminho responsável e racional. É sobre esse tipo de sonho que se pronuncia o sábio em Eclesiastes 5.3 e 7.

O sonho pode ser entendido ainda como um “desejo vivo, intenso e constante, anseio”.[3] Não se trata aqui de algo sem fundamento, mas de uma expectativa até legítima, um objetivo que almejamos alcançar e que é precedido, via de regra, por um plantio: “Estudo porque meu sonho é tornar-me um profissional qualificado”, ou “estou guardando dinheiro para realizar o sonho de adquirir um imóvel”.

Sonho e revelação

Na Escritura, com exceção do exemplo citado acima, extraído de Eclesiastes, o sonho, juntamente com a visão, é normalmente um meio de divina revelação: “Então, disse: Ouvi, agora, as minhas palavras; se entre vós há profeta, eu, o Senhor, em visão a ele, me faço conhecer ou falo com ele em sonhos” (Números 12.6 — grifo nosso). Esse padrão se repete no restante do AT, que se encerra com a empolgante promessa proferida por Joel. O Espírito seria derramado de tal forma sobre o povo que os “filhos” e “filhas” profetizariam, os “velhos” sonhariam e os “jovens” teriam “visões” (Jl 2.28-29). O que se diz nesta profecia é simples: Nos últimos dias Deus concederia a plenitude de revelação sobre a vida e obra de Jesus — o Senhor daria a seu povo a revelação do NT (At 2.16-20; Hb 1.1-2).

Somente os seres humanos sonham

Sempre que sonhos são mencionados na Escritura, estão relacionados a uma atividade humana. Mesmo que, no caso de revelação, Deus seja o agente que revela mediante o sonho, o ser humano é quem sonha — sempre. Não há uma ocasião sequer em que Deus seja descrito sonhando. Se do ponto de vista fisiológico o sonho é uma atividade que ocorre enquanto dormimos, Deus não dorme (Sl 121.4). Se do ponto de vista psicológico o sonho é um anseio da alma, Deus tem “pensamentos”, “vontade” e um “propósito” para conosco (Jr 29.11; Sl 40.8; Rm 8.28). No entanto, a Bíblia evita com cuidado o uso de qualquer palavra que possa ser interpretada como “sonho” da parte de Deus. O uso de uma linguagem bíblica exige que abandonemos o uso da palavra sonho referindo-se a Deus e passemos a utilizar os termos bíblicos pertinentes — “plano”, “propósito” ou “vontade”. O Senhor não trabalha com possibilidades e sim com o cumprimento de seu decreto soberano (Is 46.9-11).

A redenção e os nossos sonhos

Depois de conhecer alguns significados do vocábulo “sonho”, a relação entre sonho e revelação e a evidência bíblica de que somente os seres humanos sonham, temos de pensar sobre a implicação da redenção para os nossos sonhos.

A obra de Jesus consiste em restaurar nossos sonhos? Essa é uma questão pertinente porque temos ouvido exatamente isso. Uma música evangélica muito tocada convoca-nos à confiança em Deus afirmando:

       Não desista, não pare de lutar, não pare de adorar;
       Levanta teus olhos e vê,
       Deus está restaurando teus sonhos e a tua visão.[4]


Eis o vídeo:



O que isso significa?

O ponto é: Não sabemos ao certo. Faça o teste; converse com dez pessoas sobre esta estrofe e prepare-se para receber uma dezena de respostas que, ainda que diferentes, revelam a absorção de uma interessante mensagem, algo como “não estou derrotado; Deus acredita em mim”, ou “posso levantar a cabeça e tocar em frente”, ou ainda “a coisa está feia, mas, vai melhorar!” e coisas semelhantes. O apresentador Faustão (no vídeo lincado nas notas) entendeu que se trata de uma mensagem sobre fraternidade entre as diferentes religiões e pessoas! O fato é que, sem um construto doutrinário sólido, afirma-se uma palavra de autoajuda, uma bênção psicológica de autoafirmação.

Entenda-se isso não como crítica maldosa, mas como convite a uma avaliação teológica respeitosa da música em questão. Eu mesmo, dado à melancolia, já me peguei chorando ouvindo esta canção; ela é indubitavelmente boa para elevar nosso ânimo e nos empurrar para o enfrentamento de desafios.

Observe-se que são unidos “sonho” e “visão”, dois vocábulos da profecia de Joel 2.28-29. O problema é que, como expliquei anteriormente, o sentido da profecia de Joel não é “Deus vai restaurar seus sonhos e visão” e sim “cumpriu-se a antiga promessa; chegou a hora de Deus descortinar plenamente o evangelho, a totalidade da revelação do NT”.

O propósito de Deus e os nossos sonhos

E o que diz o evangelho aos nossos sonhos?

Primeiro, o evangelho mata os sonhos como “sequência de ideias soltas ou incoerentes às quais o espírito se entrega, devaneio, fantasia […]; plano ou desejo absurdo, sem fundamento”.[5] A obra de Cristo produz a derrocada de nossas inconsistências psicológicas, existenciais, morais e volitivas. O processo que o Espírito Santo usa para produzir isso é denominado santidade prática. Um exemplo bíblico disso é encontrado no pedido de Tiago e João, registrado em Marcos 10.35-40. Ambos queriam desfrutar da honra de assentar-se à direita e esquerda do Redentor, por ocasião da manifestação definitiva de seu reino (reconheçamos que era um belo sonho!). Jesus afirmou-lhes que não era possível prometer-lhes isso e terminou por confirmá-los na comunhão de seu sofrimento. Deus nos ajuda a compreender o quão tolas e até mesmo perigosas são nossas fantasias e coloca-nos sob o seu governo, destruindo tudo aquilo que é danoso ao nosso bem-estar espiritual. Nesses termos, Deus não restaura nossos sonhos e sim os extingue.

Segundo, quanto aos sonhos como “desejo vivo, intenso e constante, anseio”, Deus os alinha ao seu propósito. Isso implica em profunda transformação. Certamente Pedro, como pescador, tinha suas aspirações. É possível que Paulo tivesse sonhos relacionados à sua carreira no judaísmo como fariseu respeitável e, pensando na história da igreja, lemos sobre um jovem, João Calvino, que viajava com destino a Estrasburgo, tencionando dedicar-se aos estudos e que foi forçado pela Providência a comprometer-se com o serviço divino em Genebra, até o fim de seus dias. E esses são apenas poucos exemplos. Uma olhada ainda que rápida na galeria dos crentes listados em Hebreus 11 ou nos anais da história evangélica revela um dado comum: Deus não “restaurou” os sonhos daqueles homens, mas alinhou-os ao seu querer.

Sendo assim, o que o evangelho faz? Sem dúvida, com base nas promessas de Deus, podemos dizer que o Senhor nos anima, nos levanta do pó, nos motiva a prosseguir com uma vida produtiva na qual constem projetos e boas realizações (Sl 113.7; cf. Sl 1.3, 37.3-6). Entendamos, porém, que o evangelho diz a cada um de nossos sonhos: Submeta-se a Deus ou morra, ou, nas palavras de Jesus, “[…] se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (Lc 9.23-24; cf. Pv 16.1).

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Notas:
[1] HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Sales. (Ed.). Sonho. In: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0. Editora Objetiva Ltda., 2009. CD-ROM).
[2] HOUAISS, op. cit., loc. cit.
[3] Ibid., loc. cit.
[4] FERBER, Ludmila. Recebe a Cura. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=aUeOLYonanY>. Acesso em: 21 mai. 2015. Grifo nosso.
[5] HOUAISS, op. cit., loc. cit.

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Autor: Rev. Misael nascimento
Fonte: Somente pela graça
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O pastorado é um ofício

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O pastorado é um dos ofícios listados em Efésios 4.11-12: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”.

A leitura reformada dessa passagem (Calvino, Owen, Hendriksen) considera os apóstolos, profetas e evangelistas como ofícios extraordinários e temporários, dados por Cristo à Igreja para o estabelecimento de seus fundamentos. Os pastores e mestres (ou pastores-mestres) são ofícios ordinários, concedidos à Igreja durante todo o tempo entre a primeira e segunda vindas do Senhor Jesus.

O termo ofício possui, no âmbito eclesiástico, um sentido especial: uma função relacionada ao governo e pastoreio da Igreja (daí os oficiais, presbíteros docentes, regentes e diáconos). Tal uso diferenciado é necessário mas pode gerar um mal-entendido. É possível sublimar tanto o significado desta palavra ao ponto de esquecer-se de seu sentido primordial.

Ofício é, essencial e primariamente, um lugar de atuação na sociedade, um serviço ou trabalho. Nesse sentido os antigos falavam do ofício de carpinteiro, de escrivão, de alferes ou de médico. Em suma, um ofício é aquilo que hoje denomina-se profissão.

A espiritualidade das profissões

O que é uma profissão? Um espaço para o cumprimento dos mandados da Criação. Uma profissão não aponta meramente para uma ocupação ou um emprego, mas para uma divina vocação. Assim sendo, todos os seres humanos — não apenas os ministros da Igreja — são vocacionados. No exercício dos diversos ofícios o Senhor é cultuado, o próximo é servido e a cultura é marcada pelo testemunho do Criador. Tais cogitações produzem, necessariamente, alguns desdobramentos.

Primeiro, o exercício de todas as profissões honestas é para a glória de Deus. Cada atividade na esfera dos trabalhos humanos pode ser empreendida como culto e evangelismo (1Co 10.31; Cl 3.22-24). Não são apenas os pastores, presbíteros e diáconos que prestarão contas pelo trabalho que realizaram no âmbito na Igreja. Todos os cristãos responderão pelo modo como desenvolveram suas atividades educacionais e profissionais, uma vez que, no sentido lato, todos possuem (ou pelo menos deveriam possuir) ofícios.

Segundo, o trabalho é, de fato, dádiva sublime e direito inalienável (Gn 2.15). Não possuir um ofício é uma aberração existencial. O desemprego é um pecado que afronta ao Criador. Governos agem de maneira ímpia quando, na condução de suas políticas econômicas, induzem juros altos, que sufocam novos empreendimentos, produzem recessão, aumentam o endividamento da população e empurram os trabalhadores para a informalidade. Deus é provocado à ira quando os habitantes de uma nação não têm acesso a educação de qualidade ou quando são promovidas políticas de crescimento desordenado das cidades, sem a necessária estrutura para absorção da nova massa de trabalhadores. Ao mesmo tempo, a iniciativa de ensinar ofícios é bíblica e nobre.

Terceiro, o pastorado é, na essência, um trabalho. O pastorado possui distinções transcendentes, altamente espirituais, mas, em suma, é um ofício, um serviço prestado a Deus que possui suas peculiaridades, assim como as outras profissões. Alguém poderá retrucar afirmando que o ministério pastoral se diferencia pelo fato de exaltar a doutrina divina e contribuir para a expansão do reino. Respondo dizendo que um juiz trabalhista, no desempenho honesto e destemido de sua vocação, também exalta ao Senhor, dá testemunho do poder do evangelho e confirma a presença do reino na cultura. A dignidade da função não é encontrada no ofício em si, mas no Senhor que concede os talentos e a vocação.

O trabalho não é o centro da vida

Há de considerar-se, nesse ponto, que todo ofício tem sua legitimidade e, ao mesmo tempo, suas limitações. Todo trabalho deve ser desenvolvido como parte do gracioso projeto de Deus para a vida humana, mas, simultaneamente, deve ser dito que ninguém encontra seu centro de satisfação no trabalho em si, mas em Deus que o concede. Essa é uma outra maneira de dizer que — mesmo nós pastores — devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

Deve ser lembrado que os ofícios são passageiros. Haverá o dia em que as forças faltarão, a própria Igreja exigirá — e com razão — um obreiro mais novo, os filhos sairão de casa e só restarão o pastor jubilado e sua esposa, ambos idosos, com uma parcela significativa de vida ainda pela frente. É a dificuldade em compreender isso que produz, nos profissionais das mais diversas áreas, a crise pós-aposentadoria ou, nos casais cujos filhos saíram recentemente de casa, a síndrome do “ninho vazio”.

Essa é a razão pela qual Deus estabeleceu um padrão de rotina vivencial demarcada por lacunas denominadas “descansos”. Um dia em cada sete foi separado para revigoramento da mente, corpo, emoções e fé (Gn 2.1-3; Êx 20.8-11). Isso indica que explodir a saúde, destruir os relacionamentos íntimos e familiares, isolar-se ao ponto de não desenvolver amizades profundas ou trabalhar exageradamente ao ponto de não ter tempo para a devoção, saudável diversão e oxigenação do corpo ou da alma — nada disso é prescrito por Deus nas Sagradas Escrituras. Tais coisas são valorizadas pela sociedade capitalista orientada para a produtividade ou pelo arremedo de Cristianismo centrado em mártires e heróis ascéticos, mas passam longe do padrão bíblico de vida com Deus.

O mito doentio do paladino da fé

Se isso é assim, não é errado o pastor trabalhar honesta, equilibrada, responsável, fervorosa e eficazmente, mas sem exageros ou heroísmos personalistas. O ideal do pastor que morre pelo trabalho eclesiástico é uma distorção da doutrina bíblica do ministério. Deus deseja que estejamos prontos a entregar nossas próprias vidas por ele e seu reino; não pelo trabalho.

Dentro do sistema de governo presbiteriano, pastores não são membros da igrejas locais, mas dos presbitérios. Nas igrejas locais, os pastores passam e os presbíteros permanecem. Se partirmos desse fato, o lógico seria pedir dos presbíteros que estivessem dispostos a anular-se a si mesmos e entregar-se fanaticamente aos trabalhos eclesiásticos, mas ninguém espera que um presbítero morra pelos trabalhos da igreja, mas espera-se — ainda que inconscientemente — isso do pastor. Um profissional de comunicação viciado em trabalho é submetido a um tratamento psicológico. Um pastor viciado em trabalho é celebrado como paladino da fé e ganha um prédio com o seu nome, após o seu falecimento (normalmente precoce). Isso não é bíblico nem saudável.

É claro que muitos dos apóstolos morreram martirizados. Mas não foram apenas os apóstolos; os cristãos de modo geral foram perseguidos nos primórdios da história da Igreja e também recentemente, nas experiências comunistas da antiga União Soviética e China, nos confrontos com os muçulmanos na Indonésia ou mesmo na evangelização de etnias animistas em campos missionários. O martírio é uma possibilidade a todo discípulo maduro de Jesus Cristo, mas isso não significa que a doença ou a morte prematura devam ser buscadas. Cristãos — e pastores estão incluídos aqui — devem ser bons mordomos de suas mentes, corpos, família e recursos, testemunhando sobre a libertação, transformação e santificação promovidas pela graça de Deus, demonstrando o que significa desfrutar da vida abundante prometida pelo Redentor.

Diversão, vida pessoal e trabalho

Se isso é assim, não é errado o pastor divertir-se. Ele pode dar risadas, aliviar o estresse, viajar, dedicar-se a passatempos, praticar esportes, ouvir música, passear com a família e relaxar. Pastores são seres humanos que precisam de refrigério.

Se isso é assim, não é errado o pastor saber dividir entre sua vida pessoal, familiar e as tarefas da Igreja, considerando-as dessa forma mesmo, como tarefas e não como o centro de sua vida.

Assim como é legítimo que um funcionário público tenha projetos pessoais fora do âmbito de sua repartição, é legítimo que o pastor desenvolva, com sabedoria e equilíbrio, projetos que não tenham necessariamente a ver com os trabalhos da Igreja. Destarte, é descabido exigir, para contratação ou permanência de um pastor em um campo, que ele abra mão de qualquer projeto pessoal e assuma como centro do universo somente as atividades e exigências da Igreja. Isso é antibíblico, cruel e desumano.

O pastor é, como todo trabalhador, um profissional que precisa desenvolver-se de acordo com a semelhança de Cristo. Isso não significa, porém, anulação da individualidade. O pastor possui vida pessoal, sonhos pessoais, anseios humanos normais que não se relacionam com as tarefas eclesiásticas.

Pastores são guias crentes e humanos

A liderança espiritual inclui-se no bojo do ofício pastoral. Pastores são guias de suas comunidades de fé. Eles assumem responsabilidades únicas e mui solenes. Daí a importância de termos o ministério pastoral em alta estima e elevada consideração.

Pastores lideram mostrando aos irmãos o que significa ser crente. Eles exemplificam a vida pela fé. Mas fazem isso não como titãs da espiritualidade e sim como homens. Eles demonstram como caminhar com Deus como seres humanos regenerados e santificados. Fazem isso vivendo a vida comum dos homens, não caminhando como gurus desligados das experiências, sentimentos, anseios e lutas cotidianas da congregação.

Nesse contexto, pastores demonstram como viver com Deus e para a glória de Deus; como trabalhar e descansar, como equilibrar as diversas demandas da existência depositando tudo nas mãos misericordiosas do Altíssimo. Pastores demonstram como seguir a Cristo com fé fervorosa, autêntica e, essencialmente, bíblica, ensinando a sã doutrina e corrigindo quaisquer distorções da fé e prática, inclusive os paradigmas errôneos acerca do próprio ministério pastoral.

Pastores fiéis repudiam o profissionalismo, que é a tendência de relacionar-se com a Igreja de forma mercantilista e gananciosa, ao mesmo tempo em que reconhecem que o pastorado é uma vocação entre outras, um ofício e uma profissão que deve ser exercida para a glória do Criador. Deus, não o trabalho da Igreja é o centro da vida do pastoral. Penso que o que passar disso não provém do Senhor.

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Autor: Rev. Misael Nascimento
Fonte: Somente pela graça
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A quem Deus ama?

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Por Rev. Misael Nascimento


          “Três palavrinhas só
          Eu aprendi de cor:
          Deus é amor
          Tra-la-la-la-la-la-la-la-la!

A biblicidade desta letra é incontestável: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8).

Que Deus é amor é fato. A questão que se levanta é “a quem Deus ama?” Ao longo da história, tal pergunta tem recebido diversas respostas inadequadas, dentre as quais destaco cinco:

1 - Deus não se relaciona com a criação ao ponto de estabelecer vínculos de afeto. Ele criou o cosmos e se afastou dele. Este é o ponto de vista do deísmo.
2 - Deus não ama suas criaturas. Ele trata o universo caprichosamente, manipulando anjos e homens como fantoches. Isso é enfatizado em algumas correntes do satanismo. Ensina-se em tais círculos que Satanás é apenas uma pobre vítima dos atos arbitrários e injustos do Criador.
3 - O amor de Deus por tudo e todos sobrepuja sua justiça. Por amar, Deus não julga. Destarte, todos serão salvos. Define-se essa concepção como universalismo.
4 - Deus ama a todos os homens tanto como Criador quanto como Redentor e deseja que sejam todos salvos, mas o homem possui a capacidade de rejeitar o gracioso convite de Deus feito por meio de Cristo. Em suma, a vontade do homem pode impedir Deus de realizar seu propósito de salvação. Eis o Arminianismo — as denominações cristãs que creem dessa forma são chamadas arminianas, uma vez que esse ensino foi defendido por Jacó (James ou Thiago) Armínio, um teólogo do século 16 (1560-1609).
5 - Uma ala do calvinismo proclama que Deus ama somente aos eleitos. Os réprobos[1] são objeto unicamente da ira de Deus. O amor de Deus é entendido exclusivamente como seu favor concedido aos predestinados para a salvação, nada além disso.

Os três primeiros postulados são absolutamente contrários ao ensino da Escritura e rejeitados pela Igreja Cristã. O quarto não é abraçado pela Igreja Presbiteriana do Brasil e outras igrejas reformadas. Quanto ao quinto, é aceito por alguns calvinistas, mas eu a considero também inadequada.

Entendo que existe uma sexta resposta, mais fiel ao evangelho.

A essencialidade e unidade dos atributos divinos

Proponho uma ponderação sobre a harmonia essencial dos atributos divinos. Não se trata de nada sofisticado nem sustentado por dezenas de textos-prova. Eis o argumento:

Primeira premissa: Deus é amor e justiça.[2]
Segunda premissa: Se os atributos acima fazem parte da essência divina, e esta é indivisível, em Deus, amor e justiça jamais se separam.
Conclusão: Deus não deixa de ser amor quando se ira, nem deixa de ser justo quando ama.

Note que, na primeira premissa, utilizo a expressão “é” em lugar de “possui”. Além disso, entre os atributos, coloco um “e” e não um “ou”. Deus não apenas age com amor ou com justiça, mas amor e justiça fazem parte de sua essência. Uma vez que a essência de Deus é indivisível, nele, amor e justiça jamais se separam. Deus ama sendo justo e julga sendo amor. Amor e justiça coexistem no UM divino. Sendo assim, é plausível afirmar que o fato de os eleitos serem amados por Deus não significa que Deus não se ira com eles. Por conseguinte, o fato de Deus revelar-se irado contra os réprobos não quer dizer que ele não os ame.

Tal argumentação, estou certo disso, é contestável. Pode ser dito que a presença de um atributo não equivale à obrigatoriedade de sua manifestação em determinado contexto. Mesmo sendo amor, Deus pode demonstrar exclusivamente sua justiça aos réprobos ou vice-versa. Pode ser dito ainda que utilizo sem muita qualificação os termos “amor” e “ira”. Quem sabe eu descubra, para meu aperfeiçoamento, que alguém já assumiu tal posição no passado e foi corrigido de seu erro. Com humildade, porém, pretendo mantê-la como referência, pelo menos até o ponto de confirmá-la ou alterá-la, com base em mais leituras da Escritura e da Teologia.

Outra proposição, agora, sobre o cristão e o ódio

Convido você para acompanhar-me na reflexão sobre uma palavra de Jesus no sermão do monte:

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. […] Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (Mt 5.43-45, 48).

O cristão pode odiar seus inimigos? Cristo responde que não; é preciso amar até o mais cruel opositor. Como crianças espirituais questionamos a razão disso: Por que devemos amar nossos inimigos? A resposta do Redentor é dupla. Ele diz primeiramente que o amor ao inimigo é necessário “para que vocês se tornem filhos do Pai de vocês”.[3] Jesus estabelece uma ligação entre ser filho de Deus e amar aos inimigos.[4] A segunda parte da resposta é: Vocês devem amar aos inimigos porque Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (v. 45). Em suma, Cristo afirma que mesmo os piores seres humanos são objeto do amor providencial de Deus. A ideia é simples: Os inconversos são inimigos de Deus; mesmo assim Deus cuida deles com sua providência (sol e chuvas). Este amor providencial é o modelo para o amor que o cristão deve dispensar aos seus adversários.

Como explica Bavinck, “também, no lugar de perdição, há graus de punição e, consequentemente, chispas de sua misericórdia”[5] e ainda, “não é verdade que a justiça de Deus só pode ser manifesta na bem-aventurança dos eleitos, pois também no céu sua justiça e santidade estão radiantemente presentes, e até mesmo no inferno há alguma evidência de sua misericórdia e bondade”.[6] Por fim:

Os reprovados também recebem muitas bênçãos, que, como tais, não surgem do decreto da reprovação, mas da bondade e da graça de Deus. Eles recebem muitos dons naturais — vida, saúde, vigor, comida, bebida, bom ânimo e assim por diante (Mt 5.45; At 14.17; 17.27; Rm 1.19; Tg 1.17) — pois Deus não se permite ficar sem testemunho. Ele os suporta com muita paciência (Rm 9.22). Ele quer que o evangelho de sua graça seja proclamado a eles e não tem prazer em sua morte (Ez 18.23; 33.11; Mt 23.27; Lc 19.41; 24.47; Jo 3.16; At 17.30; Rm 11.32; 1Ts 5.9; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9).[7]

A palavra de Jesus em Mateus 5.43-48 deve ter soado estranha aos ouvidos dos judeus mais rigorosos porque estes sabiam, pelo AT, que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores (Sl 5.5).[8] Lemos que os “maus” e “injustos” são inimigos de Deus, destinados à condenação (Sl 11.4-7). O judeu mais espiritual podia afirmar como o salmista: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de fato” (Sl 139.21-22). Eis que, então, surge Jesus, Verbo de Deus, um com o Pai, ensinando que os “inimigos”, os “maus”, os “injustos” devem ser amados. E mais: A palavra traduzida por “amai” (agapaō) é a mesma que João usa com respeito ao amor de Deus pelos eleitos (Mt 5.44; Jo 3.16). Seria demais concluir que os discípulos devem amar aos “maus” e “injustos” assim como Deus, providencialmente, os ama?

O ensino é fechado nesses termos: Os discípulos, ao amarem os inimigos se tornam “perfeitos como perfeito é o […] Pai celeste” (v. 48). O adjetivo usado no original (teleioō) assegura o sentido de “genuíno”, “completo” ou “maduro”: “Sejam inteiros, indivisíveis em amor, assim como Deus é”,[9] ou como sugere Peterson: “Resumindo, o que quero dizer é: cresçam! Vocês são súditos do Reino; tratem de viver como tais. Assumam sua identidade, criada por Deus. Sejam generosos uns para com os outros, pois Deus age assim com vocês”.[10]

Uma leitura dos textos bíblicos que se referem ao ódio de Deus

Olhemos agora para alguns textos da Escritura que se referem ao ódio de Deus. Em Salmos 5.5, citado acima, consta que Deus “não suporta” e “detesta” os pecadores. Ele “abomina” os que amam a violência e “fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre”, além de “vento abrasador” (Sl 11.4-7). A situação é tão séria que, de acordo com Provérbios 3.33, “a maldição do Senhor habita na casa do perverso”.

O leitor certamente já ouviu a frase “Deus ama ao pecador e odeia o pecado”. Para alguns estudiosos sérios, essa afirmação é errada. Baseados nos textos acima (dentre outros), argumentam que Deus ama somente aos eleitos. Quanto aos ímpios, ele unicamente os odeia.[11] Afirmar o amor de Deus pelos réprobos — dizem — não apenas contradiz o ensino bíblico sobre a predestinação, mas também sobre a unidade divina (Deus não pode demonstrar dois amores, duas misericórdias), sua imutabilidade (Deus amaria os réprobos no tempo e os odiaria na eternidade), sua justiça (como é que Deus, que “não pode ver o mal”, amaria os que são completamente iníquos?). A ideia do amor de Deus pelos réprobos implicaria em uma noção incorreta de “amor temporário, limitado, mutável e injusto de Deus (fora de Jesus Cristo!)”.[12] Isso resultaria na destruição da antítese (Gn. 3.15), na amenização da depravação total, no comprometimento da expiação particular, na pregação do desejo de Deus de salvar o réprobo, no silenciamento e negação da eleição e reprovação incondicional, na recusa de condenação do arminianismo e seus mestres, e, finalmente, na permissão de comunhão com os arminianos.[13]

De fato aprecio respeitosamente a todos esses argumentos, que provêm de pessoas piedosas e teologicamente mais capazes do que eu. No entanto, proponho uma leitura diferenciada.

Primeiro, a fidelidade às Escrituras exige a pregação e o ensino de verdades aparentemente contraditórias. Sendo assim, o mestre e pregador fiel proclamará em alto e bom som e com toda a convicção, tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade do homem. Ele anunciará que Deus — Santo, Santo, Santo — odeia não apenas a transgressão, mas também ao transgressor. Ademais, afirmará ele que Deus é amor que se desdobra em atos benevolentes para com os inconversos.

Segundo, a afirmação do amor providencial de Deus pelos ímpios não fere a predestinação, pois deve ser dito que antes de os gêmeos nascessem, Deus escolheu a Jacó e odiou a Esaú (Rm 9.11-13). Por outro lado, Esaú subsistiu e prosperou graças à generosidade divina (Gn 33.9; cf. 1Cr 29.12). Se Isaque, o eleito, é o descendente “mediante a promessa” (Gl 4.23), Ismael, o inconverso filho da ”escrava” é tratado carinhosamente por Deus (Gn 21.8-21). Não é contestada a unidade divina: O mesmo Deus concede amor salvador aos eleitos e amor providencial àqueles que ele criou (sim, o fato de um réprobo existir e manter-se vivo é ato de misericórdia divina; Deus poderia não trazer tal indivíduo à luz ou mesmo matá-lo imediatamente após o seu nascimento). Não é atacada a imutabilidade divina pois é o mesmo Deus, rocha imutável, que no tempo faz chover sobre maus e bons, justos e injustos, e que na eternidade separa os salvos dos reprovados. Ao mesmo tempo, apregoa-se a justiça divina em amar a totalidade de sua criação e, ao mesmo tempo, derramar-se em ira sobre os que se recusam a ouvir ao evangelho.

Deus ama salvificamente aos eleitos e providencialmente a tudo o que criou. Discordo que essa seja uma noção incorreta do amor de Deus, nos termos apontados por Stewart. Trata-se de amor que sobrepuja nossa capacidade de entendimento. É amor que, afirmando a antítese, nos faz amar ao injusto, que declara a depravação total, mas enxerga no pagão Ciro (Is 45.1) um instrumento da bondade e justiça de Deus. Que crê e insiste na expiação particular e, ao mesmo tempo, declara que Deus ama ao mundo e salva a todo o que nele crê, que alardeia a eleição e reprovação incondicionais e firma-se na declaração de erro dos arminianos, ao mesmo tempo em que os ama. Sim, subscrevendo a condenação reformada ao Arminianismo do Sínodo de Dort, cremos na possibilidade de comunhão com aqueles que não têm um entendimento esclarecido dos chamados cinco pontos do Calvinismo (acróstico TULIP), pois é salvo aquele que está incluído no Pacto da Graça, que foi regenerado e creu em Cristo como Senhor e Salvador, mesmo que não saiba articular com maestria a doutrina (cf. At 18.24-28).

Eis o resumo da sexta posição: Descarto o universalismo; somente os que creem em Cristo como Senhor e Salvador serão salvos e os que não crerem serão eternamente condenados (Jo 5.24-29, 6.47). Rejeito também o Arminianismo; somente os eleitos recebem a dádiva da fé salvadora (Jo 6.65; At 13.48, 16.14; Rm 8.28-30, 9.6-18; Ef 1.3-14, 2.4-10). Não aceito ainda a proposição do amor divino unívoco — dispensado somente aos eleitos. Deus ama aos eleitos salvificamente, como Pai que os adota para íntima comunhão. Ao mesmo tempo ele possui um vínculo de amor providencial com toda a sua criação, o que inevitavelmente inclui os não-crentes. Esse último tipo de dispensação de amor não implica, necessariamente, em salvação, mas em criação e preservação. Não apenas isso: Deus até concede dons aos não-convertidos de modo que estes produzam coisas boas e belas, ainda que rebelando-se contra o Criador.

O escorregadio universo das palavras

Você aprendeu até aqui que todos os calvinistas concordam quanto ao amor de Deus pelos eleitos. Há uma divisão, porém, quando se fala do amor divino pelos réprobos. Um grupo diz que Deus só ama aos eleitos; o outro entende que ele ama a todas as suas criaturas, aos eleitos salvificamente e aos réprobos providencialmente. Eu me situo no segundo grupo.

O segundo grupo diz que Deus demonstra amor aos réprobos na graça comum. O primeiro argumenta — e prova biblicamente — que os termos “graça” e “misericórdia” só podem ser aplicados no contexto da aliança da salvação, da mediação de Cristo, da regeneração e do perdão de pecados. Tais palavras, dizem, não fazem sentido no contexto da criação. Eles citam teólogos do passado[14] e atuais que demonstram, pela Escritura, que o bem-estar e prosperidade dos ímpios não decorrem da benevolência divina e sim são como lugares escorregadios que os levam à “destruição” (Sl 73.18). Alguns desses teólogos chegam ao ponto de considerar como heresia a defesa da graça comum e propõem separação radical — impossibilidade de comunhão — entre os dois grupos, ou seja, para eles, o calvinismo puríssimo exige rompimento tanto com arminianos quanto com outros calvinistas que assumam a graça comum (ou o amilenismo, ou outros pontos de doutrina).

Os calvinistas da graça comum, por sua vez, admitem que nos primeiros quatro capítulos do livro de Gênesis não são encontradas as palavras “aliança” e “graça”; no entanto, ambas as ideias estão presentes, nos seguintes termos:

Na criação Deus estabeleceu um vínculo de amor e vida com tudo o que criou. Ele criou o universo e providenciou condições para o florescimento e manutenção da existência biológica. Criou o homem e deu-lhe ordenanças. A desobediência humana traria a morte como consequência. Todos os aspectos que compõem um pacto ou aliança estão presentes em Gênesis (as partes pactuantes, o vínculo de vida e amor e, por fim, privilégios e responsabilidades).[15]

Após a queda Deus podia simplesmente matar o primeiro casal, mas ele não fez isso. Pelo contrário, estabeleceu a antítese entre a descendência da serpente e o descendente da mulher (Cristo) e prometeu que este último esmagaria a cabeça do Tentador (Gn 3.15). Em seguida, cobriu a nudez do primeiro casal (Gn 3.21). Note que a palavra “graça” não se encontra no texto, mas a ideia está presente: Favor imerecido relacionado à salvação — a redenção dos eleitos de Deus.

Lemos em Gênesis 4 que Eva deu à luz a Caim que, ao matar seu irmão, demonstra pertencer à linhagem da serpente e tornou-se o primeiro ser humano amaldiçoado na Bíblia (Gn 4.1-8, 11; cf. 1Jo 3.12). Então, surpreendentemente, depois de amaldiçoar a Caim, Deus o marca a fim de preservar-lhe a vida física (Gn 4.15). Logo adiante, a descendência de Caim desenvolve pecuária, artes e siderurgia (cf. Gn 4.20-22). Deus dá a Caim, imerecidamente, condições para viver e desenvolver aspectos dos mandatos social e cultural, ainda que sob a égide do pecado, mui toscamente e para juízo. Isso se configura não como um favor para a salvação, mas providencial (Mt 5.45; cf. Ec 2.24-25) e torna possível falar do amor divino dirigido aos homens réprobos.

Perceba que ambos os grupos identificados como calvinistas abraçam a eleição, são conservadores em sua Teologia, entendem que Deus ama aos eleitos e trata a todos nesta vida — convertidos e inconversos — imerecidamente. A diferença é que, para o primeiro grupo, não podem ser usadas as palavras “misericórdia”, “graça” e “amor”, muito menos “graça comum”, quando se refere aos réprobos. O segundo grupo não vê problema no uso de tais termos.

Respeitando aos grandes teólogos do primeiro grupo, afirmo que, no escorregadio universo das palavras, dividimo-nos. “Você não pode usar a palavra graça nesse caso; os réprobos recebem uma benevolência divina que é diferente do amor”; ou “se você crê na graça comum não pode mais tomar santa ceia comigo”. Respeito quem pensa assim, mas discordo.

Mais: Por estranho que pareça, sou da opinião que a maior dificuldade do ser humano não é crer no ódio, e sim, no amor de Deus. Os réprobos descreem absolutamente e os eleitos, mesmo crendo, duvidam.[16] Ainda que eu pregue sem titubear que Deus julga (e condenará-castigará definitivamente) o Mal e os Maus, entendo que devo proclamar o amor divino revelado primeiramente na criação e providência e, de modo pleno e maravilhoso, em Cristo. Como Paulo no Areópago, proclamo aos ouvintes não-crentes que Deus “não está longe de cada um de nós”, nele “vivemos, e nos movemos, e existimos” e, por meio de Cristo há tanto redenção para os que crerem quanto juízo para os que não crerem (At 17.24-31). Os réprobos, quais réplicas de Satanás, já possuem de forma inata a certeza de que estão sob o juízo de Deus, e o odeiam por isso. Os eleitos, presos à sua estrutura pecaminosa, sabem que são pecadores, e afastam-se constrangidos de Deus. Cabe aos pregadores auxiliar as ovelhas do Senhor a beber nas águas da graça que perdoa, limpa e santifica e então, desafiá-las a demonstrar e anunciar a todos o amor de Deus que “excede todo entendimento” (Mt 5.43-48; Jo 3.16; Ef 3.14-21).

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Notas
[1] Ainda que sujeito a contestação, neste artigo eu utilizo o vocábulo eleito referindo-me ao indivíduo separado por Deus para ser dele, no desfrute de sua salvação. Os que são deixados no estado de depravação e, por conseguinte, serão condenados, são aqui denominados réprobos.
[2] Isso equivale a dizer que Deus é amor e santo (1Jo 4.8; cf. Is 6.3).
[3] Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).
[4] O termo usado no original grego denota finalidade: É preciso amar ao inimigo para tornar-se filho do Pai celestial. Essa condicionalidade é semelhante à encontrada na oração do Pai-Nosso: “Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam” (Mt 6.12 — NTLH).
[5] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada: Deus e a Criação. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 395. v. 2.
[6] BAVINCK, op. cit., p. 398.
[7] Ibid., p. 407.
[8] A tradução Revista e Atualizada (ARA) traduz como “aborreces” e “abomina”. Os termos na Bíblia Hebraica contêm a ideia de “ódio”.
[9] LOUW, J. P.; NIDA, E. A. Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains. 2. ed. New York: United Bible Societies, 1996, 88.100, p. 752–753.
[10] PETERSON, Eugene. Bíblia A Mensagem.
[11] Cf. BAKER, Kyle. O Ódio de Deus. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[12] STEWART, Angus. Graça Comum. Em formato PDF. Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[13] Será que a “comunhão com os arminianos” é vedada aos crentes calvinistas? Eu não entendo que George Whitefield, um calvinista, pecou ao cultivar comunhão com o arminiano John Wesley.
[14] Especialmente VERMIGLI, Peter Martyr. Manual de Teologia Sistemática (cerca de 1656), citado por MOORE, Jonathan. É Novidade Negar a Graça Comum? Disponível aqui. Acesso em: 29 jan. 2015.
[15] Cf. VAN GRONINGEN. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. v. 1.
[16] Ao ensinar os crentes sobre a correção divina, Calvino sublinha a necessidade de sermos confirmados na certeza de que Deus nos é propício, ou seja, nos ama infinitamente por meio de Cristo — CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. III.4.38. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v. 3).

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Fonte: Somente Pela Graça
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O João Calvino dos calvinistas (parte 1)

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Por Rev. Misael Nascimento


Caminhamos para finalizar nossa análise do primeiro capítulo do livro Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez. Eu já mencionei que a obra apresenta dificuldades metodológicas para conceituar o Calvinismo. Além disso, critiquei pormenores do retrato “sombrio” de João Calvino apresentado no livro. Alister McGrath sugere que “os grandes estereótipos do passado, retratando Calvino como um ditador sanguinário e o Calvinismo como um rigorismo moral sem sentido, ficaram — apesar de serem ocasionalmente ressuscitados em escritos polêmicos — para trás”.[1] Calvinismo Recalcitrante ressuscita estes estereótipos e os assume como história ou fato.

Pretendo apresentar João Calvino como este é normalmente compreendido e acolhido pelos calvinistas. A ideia inicial era fazer isso em um único post, mas não consegui finalizar nesta semana a última seção, Um João Calvino Que Nem Todos Conhecem. Se Deus permitir, farei isso na semana que vem. Ademais, nos próximos dias eu provavelmente atualizarei o presente post, especialmente enriquecendo as referências bibliográficas. Um mal-estar físico prejudicou meu ritmo de leituras e estudos.

O perigo da calvinolatria

Escrevo como cristão bíblico, repudiando toda idolatria em torno da pessoa ou obra de João Calvino. Dito de outro modo, eu não sou calvinólatra. Calvino era cheio de falhas; ele não foi um “super-herói”, mas um pecador salvo pela graça. Louvo a Deus por sua vida, ao mesmo tempo em que enxergo o perigo da calvinolatria, ou da arminiolatria ou de qualquer outra “latria” que porventura ameace a sã doutrina, culto e serviço cristãos. Quando consideramos homens ou instituições infalíveis, o ajuntamento de “crentes” deixa de ser igreja de Cristo.

Digo isso para que se saiba que o presente post é escrito com honestidade e respeito. A imparcialidade é impossível porque escrevo discordando do retrato de João Calvino fornecido por Calvinismo Recalcitrante. O texto é honesto e respeitoso porque não há, de minha parte, qualquer falsidade ou espírito beligerante. Meu intuito não é brigar, mas discordar honesta e humildemente de Martinez, sempre disposto a mudar de posição caso sejam fornecidas fontes bibliográficas confiáveis (explicarei isso na próxima seção).

Opiniões e fontes divididas

A celeuma em torno de Calvino não é recente; o organizador da Reforma em Genebra sempre foi um divisor de opiniões. Como afirma Van Halsema, desde os tempos em que ele era ainda vivo, “as pessoas ou seguiam a sua liderança com entusiasmo ou o odiavam amargamente”.[2] Só pra termos ideia do grau desta resistência:

Na sua cidade Natal de Noyon, os cônegos da catedral organizaram uma procissão pública para celebrar sua morte, quando dela ouviram um rumor falso em 1551. Mais tarde, a residência da família Calvino na praça do mercado foi incendiada pela raiva de seus inimigos. [...] Na cidade francesa de Lyons, a notícia da morte de Calvino foi dada “mais de dez vezes”, tão ansiosos estavam os seus opositores de que fosse eliminado. A Igreja de Roma o considerava como seu maior inimigo.[3]

Alguns contemporâneos de Calvino que o odiavam escreveram sobre ele. Sebastião Castellio publicou “um livro denunciando a queima de Servetus”.[4] Foi Calvino quem nomeou o jovem Castellio como diretor do ginásio de Genebra.[5] Tudo ia bem até o momento em que este último escreveu uma tradução popular do Novo Testamento e pediu a Calvino que a recomendasse. Considerando a tradução “tosca e, em alguns pontos, inexata”[6] e sem tempo para discutir com Castellio cada ponto, Calvino recusou recomendá-la. Castellio irritou-se sobremaneira.

Para Gonzalez, Calvino fez Castellio ser expulso de Genebra porque este último interpretou o Cântico dos Cânticos “como um poema de amor”.[7] O problema foi muito mais sério. Castellio assumia uma concepção heterodoxa das Escrituras, afirmando que o Cântico dos Cânticos era apenas um escrito romântico, ou seja, “não era um livro inspirado da Bíblia”.[8] Ademais, Calvino não fez Castellio ser expulso de Genebra, como sugere Gonzalez. A expulsão de Castellio foi iniciativa do Pequeno Conselho.[9]

Além da concepção errada sobre a inspiração de Cântico dos Cânticos, havia outras discordâncias doutrinárias entre Castellio e não apenas Calvino, mas a ortodoxia abraçada por Genebra (como pastor fiel, Calvino era guardião da sã doutrina nas igrejas e cidade sob sua jurisdição). Castellio repudiava parte do Credo dos Apóstolos (“desceu ao Hades”), bem como a doutrina da eleição. Calvino tolerou tais desacordos até o momento em que Castellio pediu ao Pequeno Conselho para ser ordenado ao Sagrado Ministério, alegando “que o salário de diretor era baixo demais”.[10] O Pequeno Conselho aprovou, mas o conselho da igreja, liderado por Calvino, vetou a ordenação, ao mesmo tempo em que solicitou “aos conselhos da cidade que aumentassem o salário do diretor”.[11]

Com raiva pela recusa de sua admissão ao ministério, Castellio demitiu-se da direção do ginásio. Calvino ofereceu-lhe cartas de recomendação a Viret em Lausanne. “Estou verdadeiramente preocupado com ele”, escreveu Calvino. “Ajude-o no que for possível”.[12]

Não obtendo trabalho em Lausanne ou outra cidade, Castellio voltou a Genebra.

Numa tarde de 1544, apareceu numa reunião semanal de ministros e leigos [...]. [...] levantou-se de repente e interrompeu a palestra. Os ministros de Genebra não são como Paulo, disse sarcasticamente. [...] Calvino nada respondeu. Controlando-se, fechou a Bíblia e saiu da sala.[13]

Isso provocou uma reação no Pequeno Conselho, que decidiu expulsar Castellio de Genebra. “Saiu com cartas de recomendação de Calvino e dos ministros, os quais estavam prontos a recomendá-lo como professor embora não aprovassem sua admissão ao ministério”.[14] Tempos depois Castellio escreveu condenando Calvino pela queima de Servetus.

Uma busca rápida no Google revela que Castellio é tido atualmente como “reformado liberal”, “humanista” e “erudito”. Na obra A Ficção Cética, Gustavo Bernardo menciona elogiosamente seu legado, como segue:

A intolerância da Reforma se confirma quando Calvino, o sucessor de Lutero [isso não é historicamente exato; o sucessor de Lutero é Felipe Melanchton], ajuda a condenar o trinitário Miguel Servetus à morte na fogueira como herege [Servetus não era trinitário, pelo contrário, ele era antitrinitário]. O único defensor de Servetus entre os protestantes, o erudito Sebastião Castellio de Basileia, argumentou contra a condenação atacando a pretensão à certeza dos calvinistas. Em seu De Haereticis, escrito em 1554, Castellio mantinha, com base na obscuridade das Escrituras e no constante desacordo em torno delas, que ninguém pode estar tão certo da verdade em questões religiosas de modo que se justifique queimar alguém por isso.[15]

Eis Castellio, um ferrenho opositor contemporâneo de Calvino. Qualquer historiador que consultar suas obras obterá um retrato muito negativo do reformador de Genebra.

Um segundo opositor foi Jerome Bolsec, mencionado na longa citação de Dave Hunt, em Calvinismo Recalcitrante.[16] Hunt nos informa que Bolsec “ousou discordar [da] doutrina da predestinação de João Calvino. Ele [...] foi preso e banido de Genebra com a advertência [de] que se ele retornasse seria açoitado”.[17] Hunt é mais exato do que Suffert, que sugere o seguinte dado falso: “Bolsec, um ex-carmelita que recusa a doutrina de Calvino sobre a predestinação, é queimado em 1553”.[18]

O ataque da Bolsec à doutrina da predestinação é destituído de qualquer originalidade.

Transformais Deus num tirano. E se Deus decidiu tudo desde o princípio, ele mesmo é responsável pelo pecado. Esse Calvino, que vos ensinais tais coisas, é um impostor. Sois loucos se seguis sua liderança.[19]

Calvino refutou Bolsec e o Pequeno Conselho decidiu expulsá-lo de Genebra. Bolsec assumiu seu lugar na fila dos inimigos mortais de Calvino. Como nos informa Van Halsema:

Na sua velhice, e com o seu ligeiro contato com Calvino, Bolsec produziu um livro sobre a vida do reformador de Genebra. De todos os livros escritos pelos inimigos de Calvino, este é provavelmente o que está mais cheio de mentiras maliciosas, acusações e invencionices.[20]

De acordo com McGrath:

Calvino, de acordo com Bolsec, era irremediavelmente aborrecido, malicioso, violento e frustrado. Ele considerava suas próprias palavras como se fosse palavra de Deus e se permitia ser adorado como Deus. Além de, frequentemente, ser vítima de suas tendências homossexuais, ele tinha o hábito de flertar com qualquer mulher que se aproximasse dele. De acordo com Bolsec, Calvino abriu mão de seus benefícios, em Noyon, em razão de terem vindo a público suas atividades homossexuais. A biografia de Bolsec é uma leitura muito mais interessante do que as de Teodoro de Beza ou de Nicolas Colladon; no entanto, sua obra se baseia, predominantemente, em relatos orais, anônimos e inconsistentes, provenientes de “pessoas dignas de confiança” (personnes digne de foy), que pesquisas mais recentes consideraram de valor questionável. A despeito desse fato, a reconstituição de Calvino, traçada por Bolsec, tem influenciado muitas outras descrições, bastante desfavoráveis, a respeito da vida e das ações do Reformador, que apresentam uma linha divisória, cada vez mais nebulosa, entre fatos e ficção.[21]

McGrath menciona também Stephan Zweig, o escritor austríaco que morreu no Brasil, em 1942, e que descreveu Calvino — provavelmente em Castellio ou Contra Calvino: Uma Consciência Contra a Violência (1936) — como “o grande ditador de Genebra, [...] governando aquela cidade desafortunadamente com mãos de ferro”.[22] McGrath entende que a obra de Zweig:

[...] deve ser julgada pela ampla falta de qualquer fundamento histórico substancial como sendo, de modo geral, inconsistente com fortes evidências históricas e baseada em um entendimento inadequado a respeito das estruturas de poder e dos procedimentos de tomada de decisão operantes em Genebra.[23]

Deve ser ressaltado que exatamente Stephan Zweig, desconstruído por McGrath, é usado como fonte de pelo menos parte da citação de Dave Hunt, em Calvinismo Recalcitrante.[24]

Outro livro recente explica a Reforma em Genebra em uma seção intitulada A Reforma Pela Marreta,[25] ou seja, não faltam detratores da pessoa e obra de João Calvino em Genebra. Uma pesquisa nos escritos acerca de Calvino, do 16º século até agora, revelará opiniões e fontes divididas.

Isso significa que o leitor ou pesquisador tem de decidir: Qual fonte é confiável? Qual conjunto de dados ou informações — e qual leitura ou interpretação destes dados — corresponde aos fatos? Os favoráveis a Calvino sublinham que os escritos contrários (contemporâneos de Calvino) foram produzidos por pessoas que discordavam do seu ensino ou gestão em Genebra, especialmente que sentiram-se diminuídas, limitadas ou prejudicadas por ele. De modo geral, os calvinistas assumem como confiáveis os escritos doutrinários, os comentários bíblicos, os registros das atas dos conselhos de Genebra e as correspondências de Calvino. Também é tida como acreditável a biografia de Beza, sucessor de Calvino na liderança da igreja genebrina.

Não gostarão de Calvino aqueles que lerem sobre ele com os óculos do presente século. Especialmente no Brasil dominado pela cultura inclusiva, esquerdista-materialista e afetada pelo conceito “politicamente correto”. As ideias ou possibilidades de exclusão, de aplicação de disciplina social com base em convicções religiosas sobre uma minoria (rotulada pelos “detentores da autoridade religiosa” como “hereges”) são inconcebíveis no ideário compartilhado ocidental deste século. Basta folhear os escritos atuais para constatar que teólogos irenistas, tais como Erasmus de Roterdã — que abraçou o protestantismo, depois retornou à Igreja de Roma e era absolutamente contra qualquer uso de violência — são elogiados e academicamente recomendados.

Também não gostarão de Calvino os articuladores da supremacia da vontade humana, e aqui eu não me refiro estrita e necessariamente aos arminianos, pois conheço arminianos que ressaltam a soberania divina e respeitam João Calvino, considerando-o um homem de Deus, apesar de discordar dele em alguns pontos de doutrina. É o caso de Roger Olson, que apesar de refutar o Calvinismo[26] oferece também uma reconstituição séria e confiável da vida e ideias do reformador de Genebra.[27]

A estrutura de poder em Genebra

Calvino detinha poder absoluto sobre Genebra? Cabe a ele a designação de “déspota” ou “ditador” tanto da igreja quanto da cidade? McGrath nos informa com acerto:

A frase “A Genebra de Calvino” é carregada de implicações potencialmente enganosas, resultando, talvez, em interpretações incorretas acerca do status e do âmbito de liberdade de ação de que Calvino gozava em Genebra”.[28]

A “Genebra de Calvino” era regida por três conselhos. O primeiro, o Pequeno Conselho, era composto por vinte e cinco homens, dentre eles, “quatro síndicos, os mais importantes oficiais da cidade, porquanto eleitos pelo povo”[29] (tabela 01).

Tabela 01. O Pequeno Conselho

          • Principal instância de governo | 25 integrantes
          • 4 integrantes eleitos pelo povo — os síndicos, o tesoureiro da cidade
          • 20 integrantes eleitos pelo Conselho dos Duzentos

O segundo conselho era o Conselho dos Duzentos, eleito pelo Pequeno Conselho (tabela 02).[30]

Tabela 02. O Conselho dos Duzentos

          • Segunda instância de governo
          • Homens eleitos pelo Pequeno Conselho

O terceiro conselho “era o Conselho Geral, ao qual pertenciam todos os homens de Genebra. Este era convocado somente para assuntos de suma importância”[31] (tabela 03).

Tabela 03. O Conselho Geral

          • Terceira instância de governo
          • Todos os homens (cidadãos) de Genebra


Hunt, citado por Martinez, menciona Zweig, sugerindo que quase todo dia, antes de tomar uma decisão, o “Conselho da Cidade” consultava Calvino.[32] Isso é admissível se considerarmos a época de 1556 a 1564, mas em suas primeiras quase duas décadas em Genebra, Calvino sofreu contestação e até humilhação por parte dos Conselhos, nos quais constavam seus grandes opositores, denominados Libertinos.[33] Quando John Knox chegou a Genebra a fase mais difícil havia passado. Sua declaração, de que “existe aqui a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”,[34] só pode ser entendida no contexto de uma Genebra pacificada e reformada.

Mesmo depois de consolidada a Reforma, e por conseguinte, a influência de Calvino, este não agia como um “ditador”. Suas ideias tinham de ser aprovadas primeiramente pelo Conselho de Ministros, depois, pelos outros Conselhos genebrinos. Só pra exemplificar, a Academia de Genebra, “o sonho de Calvino”, só foi estabelecida em junho de 1550, dezoito anos depois do início da segunda fase de seu ministério.[35] O livro de cânticos da igreja, o Saltério de Genebra, só foi publicado em 1562, depois de vinte e um anos de ministério![36] Algumas propostas de Calvino eram acolhidas e acatadas. Outras não. Trocando em miúdos, ele trabalhou sob a autoridade de outros pastores e membros dos Conselhos de Genebra. Destarte, algumas coisas que são atribuídas a Calvino não ocorrem apenas por causa dele, de fato, em determinadas situações, ocorreram a despeito dele.

Outro detalhe a considerar é o ethos que conduz as cidades e reinos a aplicar a pena de morte no 16º século. Suffert explica que “em Genebra, condena-se à morte por motivo religioso”[37] — uma declaração anacrônica por desconsiderar o contexto histórico e cultural de Calvino. A pena de morte por questão religiosa era prática comum não apenas em Genebra, mas virtualmente em todas as culturas desde a antiguidade até a aurora renascentista. Politicamente, não havia nítida distinção entre Religião e Estado. A Europa Cristã (incluindo Genebra) abraçava e submetia-se ao “Codex de Justiniano, o livro legal padrão ainda seguido no Santo Império Romano”.[38] Apenas pra exemplificar, de acordo com o Codex, “pelo crime de negar a Trindade [...] a penalidade é a morte”.[39]

Quem não reconhece tais coisas extrapola os limites de poder de Calvino em Genebra e atribui a ele uma vileza injustificada. A compreensão adequada do ethos daquela época nos ajuda a compreender melhor muitas coisas, inclusive a execução de Servetus.

O episódio de Miguel Servetus

Olhemos mais de perto para a execução de Miguel Servetus, explicada laconicamente por Suffert, como segue:

Era um médico espanhol que residia em Lyon e negava a Trindade e a divindade de Cristo. Ele é denunciado, por intermédio de Calvino, à Inquisição católica de Lyon. Tratava-se de um sábio — sem dúvida, foi ele quem descobriu a circulação do sangue. Servet — que se correspondia há muitos anos com Calvino — fugiu de Lyon para Genebra. Reconhecido, ele é preso enquanto assiste a um sermão de Calvino. Este organiza o processo de seu amigo, manda condená-lo e queimá-lo em 1553.[40]

Servetus foi queimado na colina Champel com quarenta e dois anos de idade, em 27 de outubro de 1553, acorrentado a uma estaca e com um livro amarrado debaixo do braço.[41] Os calvinistas não celebram sua morte. Como registra Van Halsema:

Hoje existe uma pedra no lugar onde Servetus morreu. [...] Há uma inscrição francesa na pedra: “Como filhos reverentes e agradecidos de Calvino, nosso grande Reformador, repudiando seu erro, que foi o erro da sua época, e, de acordo com os verdadeiros princípios da Reforma e do Evangelho, apegando-nos à liberdade de consciência, erigimos este monumento de reconciliação neste 27º dia de outubro de 1903”. 
Olhando para trás, [...] lamenta-se que Calvino, na maneira de tratar Servetus, tenha agido como outros homens de seu tempo. Lamenta-se, especialmente, porquanto nos seus escritos e nos seus atos Calvino estava muito além da sua época, apontando o caminho para a tolerância e a liberdade, a separação entre a igreja e o estado, ao direito de cada homem crer em Deus conforme a sua consciência.
O milagre consiste em que Deus tenha usado um servo pecador como João Calvino de maneira tão poderosa para edificar sua igreja e influenciar seu mundo.[42]

E como Calvino agiu? Tentarei responder retornando à citação de Suffert que sugere um Calvino maligno, um “amigo” que se corresponde por muitos anos com Servetus e, no fim das contas, o trai e mata.[43]

Não é bem assim.

Desde os dezoito anos de idade, Miguel Servetus declara sua descrença na doutrina da Trindade. Para ele Jesus não é divino e o Espírito Santo não é um ser distinto. Seu primeiro livro com tais ideias é publicado quando ele tem apenas vinte anos de idade e é rejeitado tanto pelos líderes protestantes (os conselhos de Estrasburgo e Basel, bem como Lutero, Melanchton, Bucer, Bullinger e Zwinglio) quanto pelo Supremo Conselho da Inquisição Espanhola.[44]

Servetus altera seu nome para Michel de Villeneuve e dedica-se a muitas coisas. Aos vinte e dois anos de idade, marca um encontro com João Calvino em Paris, mas não comparece.[45] Naquela cidade ele edita “uma geografia do mundo”, estuda medicina (descobrindo como “o sangue circula nos pulmões”) e dá palestras “sobre geografia e astrologia”, aventurando-se “a prognosticar pelas estrelas” o que acontecerá “a homens e nações”. É julgado pelo parlamento francês por insolência a um professor. Consegue escapar e muda-se para Vienne, onde vive doze anos pacíficos, editando livros, praticando medicina, conquistando a amizade do arcebispo e fazendo-se de católico fiel a Roma.[46] Ali ele se dedica a outro livro que intitula As Restitutas, que considera uma “restauração” ou “resgate” do Cristianismo primitivo e puro.[47]

Assim que completa trinta e cinco anos (em 1546 e 1547) Servetus escreve a Calvino, que lhe responde com cortesia e envia-lhe “uma cópia de suas Institutas”. Servetus devolve a cópia “com anotações insultantes” e prossegue remetendo mais cartas longas, tratando Calvino com “condescendência e aspereza”. Considerando perda de tempo debater com ele, Calvino deixa de responder-lhe. Observe-se que Calvino, “apesar de saber a identidade real de Servetus, não tomou nenhuma providência para revelá-la às autoridades católico-romanas em Vienne”.[48]

Seis anos depois, as Restitutas são publicadas. “No lugar de seu nome Servetus usou somente as iniciais M. S. V. (Miguel Servetus Villeneuve) na página titular. Mas incluiu as trinta cartas a Calvino no apêndice do livro”.[49]

Na cidade vizinha, Lyon, cinco pastores protestantes são presos. Depois de um ano, em maio de 1553, eles são “acorrentados em grupo e queimados vivos”.[50] A situação provoca indignação nos protestantes. Entre a prisão e execução destes pastores, um morador de Genebra escreve a um primo que mora em Lyon, criticando-lhes porque estão maltratando verdadeiros servos de Deus, ao mesmo tempo em que suportam, próximo a eles, um “herege [...] que blasfema contra a Trindade e que acaba de escrever um novo livro cheio de heresias. [...] O herege de quem falo é Servetus, o espanhol, conhecido em Vienne como Miguel de Villeneuve”. Para comprovar, o protestante envia ao primo católico “as quatro primeiras páginas” do livro de Servetus.[51]

O primo católico-romano de Lyon foi logo às autoridades eclesiásticas com a notícia. Convocaram Servetus, o qual jurou por tudo que era somente Miguel de Villeneuve, um fidelíssimo seguidor de Roma. As autoridades precisavam de mais provas. Pediram ao primo católico-romano que escrevesse a Genebra solicitando-as.[52]

Este primo protestante é amigo de Calvino e pede que este lhe forneça algumas cartas de Servetus. Estas são enviadas ao primo católico-romano com uma observação: “Mas preciso dizer-lhe que não foi pouca a dificuldade em receber de Calvino o que lhe estou remetendo”.[53] Como prossegue Van Halsema:

Será que Calvino sabia que as cartas originais de Servetus seriam entregues às autoridades para serem usadas para Servetus? O próprio Calvino negou mais tarde que tivesse participado na entrega de Servetus à Igreja de Roma, e não temos motivo para duvidar da sua palavra. Mas as cartas, afinal de contas, tornaram-se as provas finais contundentes contra Servetus, não importando os motivos por que foram remetidas. Não adiantaram os esforços de Servetus para eximir-se da culpa. As provas estavam ali. Foi colocado na prisão em abril de 1553 para aguardar sentença.[54]

A prisão de Vienne não o segura. Servetus foge. As autoridades, indignadas, queimam solenemente uma efígie cheia de palha, representando-o.[55] Quatro meses depois, ei-lo em Genebra, hospedando-se na Estalagem da Rosa Dourada e encomendando “um barco para atravessar o lago em direção a Zurique”.[56]

No domingo seguinte, 13 de agosto, ele comparece a um culto. Alguém o reconhece e comunica Calvino, que pede aos conselhos que o prendam. Eis o que consta nas atas:

Miguel Servetus foi reconhecido por alguns irmãos, e parecia conveniente fazer dele um prisioneiro para que o mundo não mais fosse infectado pelas suas heresias e blasfêmias, porquanto é conhecido como incorrigível.[57]

Inicia-se um julgamento de dois meses e meio. Calvino escreve um documento com trinta e nove acusações e confronta Servetus face a face. É então que os Libertinos dos Conselhos — incluindo Ami Perrin, presidente do Pequeno Conselho — demonstram apoio a Servetus. Este percebe a oposição crescente a Calvino e o trata com insolência e desprezo,[58] chamando-o de “criminoso, assassino, desgraçado, mentiroso, anão ridículo, [...] acha que tem a capacidade de ensurdecer os ouvidos dos juízes com o seu latido de cão?”[59]

Calvino prossegue com sua argumentação — muitas vezes raivosa e áspera — consolidando doutrinariamente suas trinta e nove acusações e finalizando com a exigência de punição de Servetus, nos termos do Codex de Justiniano.[60]

A partir de então, a sentença tem de ser proferida pelo Pequeno Conselho que, como dissemos é presidido por um opositor de Calvino favorável a Servetus. Como afirma Van Halsema, “nunca foi tão pouca a influência de Calvino sobre o Conselho como nos meses em que Servetus esteve na prisão”.[61] De fato, paralelamente ao problema de Servetus ocorre uma celeuma em torno da excomunhão de Berthelier, o líder Libertino. O Pequeno Conselho assume o poder da igreja e, à revelia do Conselho de Ministros e desafio a Calvino, restaura Berthelier e o autoriza a participar da Santa Ceia.[62] O protesto de Calvino é veemente, mas rejeitado pelo presidente do Pequeno Conselho. No sábado anterior à Ceia ele diz aos vinte e cinco homens: “Assevero que prefiro morrer do que ver desonrada a Ceia do Senhor [...]. Preferia estar morto cem vezes do que cometer tão terrível escárnio contra Cristo”. No domingo seguinte, orientado pelo Pequeno Conselho, Berthelier não comparece ao culto de Ceia.[63]

Tudo disso deixa Servetus altivo e bem-humorado.

A sua ousadia chegara ao ponto de escrever ao Pequeno Conselho: “Portanto, meus senhores, exijo que o meu falso acusador seja punido, [...] que sua propriedade me seja outorgada em recompensa pela minha [...] e que seja ele conservado prisioneiro assim como eu até que o julgamento seja decidido pela sua morte ou por qualquer outra punição”. É interessante que mesmo Servetus esperava que o veredito do julgamento fosse a morte, mas não esperava que seria ele quem iria morrer.[64]

Ocorre um fato novo que muda tudo. Ao invés de proferir imediatamente sua sentença, o Pequeno Conselho decide consultar “igrejas e conselhos de representantes de quatro cidades suíças. [...] Apoiados por uma provável repetição de respostas moderadas, o Pequeno Conselho poderia então libertar Servetus”.[65]

[...] as respostas de Zurich, Bern, Basel e Schaffhausen foram surpreendentes — um abalo, mesmo, para o Libertinos. [...] Cada conselho e cada igreja denunciou Servetus, afirmando que as suas blasfêmias precisavam ser cortadas antes que pudessem prejudicar ainda mais a igreja de Cristo. Em nossa cidade, disse Bern, a penalidade seria a morte pelo fogo.[66]

Ami Perrin tergiversou, protelou a decisão e tentou passá-la ao Conselho dos Duzentos, onde haviam mais opositores de Calvino, mas o Pequeno Conselho entendeu que deveria proferir a sentença, condenando Servetus à morte pela fogueira.

Foi um veredito unânime porquanto até os Libertinos perceberam que não poderiam ignorar as opiniões de quatro influentes cidades. Calvino ouviu a sentença e imediatamente pediu ao Conselho que substituísse a estaca pela espada, porquanto a decapitação era mais misericordiosa do que a queima na estaca. Mas o Pequeno Conselho, rápido para recusá-lo, recusou-lhe esse pedido também.[67]

É interessante um registro deste incidente por Van Halsema:

Calvino foi visitá-lo. Servetus pediu-lhe perdão. Calvino respondeu [...]: “Creia-me, jamais tive a intenção de processá-lo por causa de alguma ofensa pessoal contra mim. Há dezenove anos, colocando em perigo a minha vida, quis encontrar-me com você em Paris para ganhá-lo para o nosso Senhor. E depois, quando você vivia como um fugitivo, quis novamente mostrar-lhe o caminho certo pelas minhas cartas até que você começou a odiar-me por causa de minha firmeza [...] Mas [...] peça perdão ao Deus perene que você blasfemou [...]. Seja reconciliado ao Filho de Deus [...] ao Salvador”.[68]

Farel também foi a Genebra e visitou Servetus, mas este permaneceu irredutível — apegado às suas crenças até o fim.[69]

Calvino foi responsável pela morte de Servetus? Do ponto de vista jurídico, a execução decorreu de uma deliberação do Pequeno Conselho influenciado pelos conselhos da regiões protestantes da Suíça. Na ocasião, o Pequeno Conselho não estava sob a influência de Calvino, pelo contrário, era-lhe oposto. No entanto, como afirma Van Halsema:

Calvino havia participado da morte de Servetus. Tinha pedido aos Conselhos que prendessem o espanhol. Tinha feito acusações contra ele. Tinha debatido perante o Pequeno Conselho para provar que as heresias deste homem estavam ameaçando a igreja de Cristo. E apesar de Calvino não ter participado na sentença, ele a aprovou, embora não pelo fogo.[70]

A fim de não incorrermos em anacronismo, entendamos que:

Outros líderes protestantes estavam a favor da pena de morte. O brando Melanchton, sempre inclinado à paz e à transigência, escreveu a Calvino: “A igreja de Cristo ficar-lhe-á grata. [...] O seu governo, de acordo com todas as leis, providenciou a morte desse blasfemo”. A época era de estacas, [...] quando os homens ainda acreditavam ser do seu dever julgar as crenças que outros tinham de Deus.[71]

Isso não confere a Calvino inocência, mas nos ajuda a compreendê-lo em seu contexto. O triste fato é que “a partir de então esse incidente se tornou o símbolo do dogmatismo rígido que reinava na Genebra de Calvino. E não há dúvida de que há muito de verdade nisso”.[72] Gonzalez prossegue afirmando que:

Em todo caso, depois da execução de Servetus, a autoridade de Calvino em Genebra não teve rival, sobretudo porque os teólogos de todas as demais regiões da Suíça protestante lhe tinham dado apoio, ao mesmo tempo em que seus opositores se colocaram na difícil situação de defender um herege condenado tanto pelos católicos como pelos protestantes da Suíça.[73]

O que se enxerga no episódio de Servetus? Os detratores de Calvino encontram um monstro. Os calvinistas encontram um homem que, como Moisés ou Davi, a despeito de seus pecados, não deixa de ser homem de Deus.

Notas biográficas e legado de João Calvino

Não pretendo alongar sobremaneira esta postagem. Eu imagino que somente uma minoria conspícua se dispõe a ler meus posts do início ao fim. Sendo assim, não é meu propósito (muito menos tenho capacidade para) fornecer uma biografia de João Calvino. Martinez já nos brinda com um resumo útil ao citar o texto sobre o reformador publicado no web site do Instituto Presbiteriano Mackenzie.[74] Ademais, os leitores interessados em mais informações serão beneficiados compulsando os livros e links mencionados nas notas deste post.

Cinco fases da vida de Calvino

Basicamente, a vida de Calvino pode ser dividida em cinco fases (tabela 04), sendo a primeira, sua infância e pré-adolescência, de 1509 a 1523, quando obteve status de menino clérigo de Noyon e destacou-se pela inteligência privilegiada, obediência aos pais, hábitos disciplinados e ares de aristocrata (devido ao convívio com amigos nobres).[75]

A fase seguinte é a de João Calvino antes de Genebra, de 1523 a 1536, abarcando sua mudança para Paris, sua iniciativa como escritor humanista, sua conversão, sua fuga de Paris, viagens sob perseguição, publicação da primeira edição das Institutas e primeiras experiências de pregação, ensino e serviço aos cristãos protestantes de fala francesa.[76]

A terceira fase remete ao primeiro tempo de Calvino em Genebra, de 1536 a 1538. Esta fase começa como uma tempestade (com o apelo dramático de Farel para que Calvino permaneça em Genebra) carregada de promessas e termina como um terremoto (a trágica expulsão de Calvino e seus amigos). Calvino é recebido festivamente e a cidade assume compromissos de Reforma, mas não deseja, de fato, implementá-las. No fim, Calvino, Farel e o cego Corault são escoltados para fora de Genebra, em 25 de abril de 1538.[77]

Segue-se a quarta fase da vida de Calvino, seu abençoado exílio em Estrasburgo, de 1538 a 1541. Ali ele amadurece teologicamente e na prática pastoral e se casa com Idelette de Bure. Ele não tem planos de sair da cidade, até ser novamente convocado a Genebra.[78] É quando inicia a quinta e última fase, que corresponde ao seu estabelecimento definitivo em Genebra, de 1541 até sua morte, em 1564. Esta fase pode ser subdividida em duas, um difícil período de consolidação (os primeiros quinze anos, de 1541 a 1556) e o ponto alto da reforma em Genebra, de 1556 a 1564.[79]

Tabela 04. Cinco fases da vida de João Calvino


Prosseguiremos no próximo post, quando aprenderemos sobre Um João Calvino Que Nem Todos Conhecem. Até lá. Fiquem na paz do Senhor.
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Notas:
[1] MCGRATH, Alister. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 13.
[2] VAN HALSEMA, Thea B. João Calvino Era Assim. São Paulo: Editora Vida Evangélica, 1968, p. 148. Enquanto eu preparava este post, descobri com alegria que há uma nova edição em português. Os dados atualizados são VAN HALSEMA, Thea B. João Calvino Era Assim. São Paulo: Editora Os Puritanos, [201-?]. Disponível em:<http://loja.livrariareformada.com.br/puritanos/joao-calvino-era-assim.html> Acesso em: 25 Set. 2014. As citações deste post correspondem à edição de 1968.
[3] VAN HALSEMA, op. cit., loc. cit. Grifo nosso.
[4] Ibid., p. 165.
[5] Ibid., p. 163.
[6] Ibid., p. 164.
[7] GONZALEZ, Justo L. E Até Os Confins da Terra: Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 116. v. 6.
[8] VAN HALSEMA, op. cit., loc. cit.
[9] Ibid., p. 165.
[10] Ibid., p. 164. Grifo nosso.
[11] Ibid., loc. cit.
[12] Ibid., loc. cit.
[13] Ibid., p. 164-165.
[14] Ibid., p. 165.
[15] GUSTAVO, Bernardo. A Ficção Cética. São Paulo: Editora Annablume, 2004, p. 146. Grifos nossos.
[16] HUNT, Dave. O Lado B do Calvinismo em Genebra. In: Instituto Teológico Gamaliel: Onde Cada Aluno é um Discípulo e Cada Discípulo é um Irmão. Disponível em:
<http://www.institutogamaliel.com/portaldateologia/o-lado-b-do-calvinismo-em-genebra/teologiaAcesso em: 18 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 23-28. Endereçamento de fonte corrigido.
[17] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 26.
[18] SUFFERT, Georges. Tu És Pedro: Santos, Papas, Profetas, Mártires, Guerreiros, Bandidos: A História dos Primeiros 20 Séculos da Igreja Fundada Por Jesus Cristo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 268.
[19] VAN HALSEMA, op. cit., p. 173.
[20] Ibid., p. 174. O título do livro é Histoire de La Vie, des Moeurs … De Jean Calvin, publicado em Lyon e Paris em 1577. A obra teve edições em Latim (1580) e alemão (1581).
[21] MCGRATH, op. cit., p. 33-34.
[22] Ibid., p. 13.
[23] Ibid., p. 13-14. Grifos nossos.
[24] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 25.
[25] FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe; WILSON, Derek. Reforma: O Cristianismo e o Mundo 1500-2000. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 144-147.
[26] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2013; OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
[27] OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas. São Paulo: Vida, 2001, p. 407-423.
[28] MCGRATH, op. cit., p. 13.
[29] VAN HALSEMA, op. cit., p. 79.
[30] Ibid., loc. cit.
[31] Ibid., loc. cit.
[32] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 25.
[33] VAN HALSEMA, op. cit., p. 163-190.
[34] Ibid., p. 191.
[35] Ibid., p. 193-197.
[36] Ibid., p. 193.
[37] SUFFERT, op. cit., loc. cit.
[38] VAN HALSEMA, op. cit., p. 183.
[39] Ibid., loc. cit.
[40] SUFFERT, op. cit., loc. cit.
[41] VAN HALSEMA, op. cit., p. 188.
[42] Ibid., p. 189.
[43] SUFFERT, op. cit., loc. cit.
[44] VAN HALSEMA, op. cit., p. 176-177.
[45] Ibid., p. 177.
[46] Ibid., loc. cit.
[47] Ibid., p. 177-178.
[48] Ibid., p. 178.
[49] Ibid., loc. cit.
[50] Ibid., p. 178-179.
[51] Ibid., p. 179.
[52] Ibid., loc. cit.
[53] Ibid., p. 180.
[54] Ibid., loc. cit.
[55] Ibid., p. 180-181.
[56] Ibid., p. 181.
[57] Ibid., loc. cit.
[58] Ibid., p. 182.
[59] Ibid., p. 183.
[60] Ibid., loc. cit.
[61] Ibidem.
[62] Ibidem.
[63] Ibid., p. 185.
[64] Ibid., p. 186.
[65] Ibid., p. 187.
[66] Ibid., loc. cit.
[67] Ibidem. Os mesmos fatos são mencionados, com menos detalhes, por GONZALEZ, op. cit., p. 116.
[68] Ibid., p. 188.
[69] Ibid., loc. cit.
[70] Ibidem.
[71] Ibid., p. 189.
[72] GONZALEZ, op. cit., loc. cit.
[73] Ibid., p. 117.
[74] MATOS, Alderi Souza de. João Calvino: Síntese Biográfica. Disponível em:<http://www.mackenzie.com.br/7034.html>. Acesso em: 25 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 20. Endereçamento de fonte corrigido.
[75] Os detalhes desta fase podem ser obtidos em VAN HASELMA, op. cit., p. 10-14.
[76] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 14-70: Formação em Paris, Orleans (conversão?) e Bourges. Novas amizades. Publicação de comentário sobre Sêneca. Fuga de Paris. Noyon, Angoulême e Nérac. Retorno a Noyon; em 21 de maio de 1534, abriu mão de seu benefício clerical. Reuniões secretas em Paris, visita à região dos urzais, próxima a Poitiers. Fuga para Angoulême e Orleans, viagem sob perseguição até a fronteira germânica. Desejo de ir até Estrasburgo. Estabelecimento em Basel. Primeira edição das Institutas com carta a Francisco I e viagem frustrante à Itália. Retorno a Paris nos seis meses de isenção aos protestantes, em 1536. Decisão para ir a Estrasburgo. Retorno passando por Genebra.
[77] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 70-93: Apelo de Farel. Aulas em Saint Pierre. Versão francesa das Institutas. Debate em Lausanne. Confissão de Fé. Pedido de quatro reformas ao Pequeno Conselho: (a) Celebração contínua da Ceia do Senhor e liberdade para a igreja aplicar a excomunhão (não é bem recebida pelo Conselho); (b) Estudo e atualização das leis matrimoniais de acordo com a Palavra de Deus; (c) Instrução das crianças utilizando-se um catecismo; (d) Que os Salmos sejam cantados na igreja. Debate com os anabatistas (Caroli). Imposição dos ritos de Bern, eliminados antes por Farel. O Pequeno Conselho e a população fazem oposição a Calvino, Farel e ao cego Corault. Estes se recusam a celebrar a Ceia do Senhor no culto de Páscoa. Na Igreja de Rive, homens desembainham espadas durante a pregação de Calvino. Os síndicos reúnem-se após o culto da noite e o Conselho dos Duzentos na manhã de segunda-feira. Decisão: Calvino, Farel e Corault devem ser imediatamente expulsos de Genebra.
[78] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 94-125: Calvino, Farel e Corault são ouvidos no sínodo em Zurich. Aceitam os ritos de Bern, mas sugerem uma separação da igreja (questões litúrgicas e poder de excomunhão pertencem à primeira e não ao segundo). Genebra insiste em não recebê-los de volta. Viagem até Basel. Farel vai pastorear em Neuchâtel. Calvino segue até Estrasburgo, retorna para Basel e daí, novamente para Estrasburgo. Em 8 de setembro de 1538, prega como pastor dos refugiados franceses. Torna-se amigo e é mentoreado por Martin Bucer. Amadurece teologicamente e na prática pastoral. Casa-se com Idelette de Bure. Firma amizade com Melanchton e escreve a Lutero. Publica o Pequeno Tratado Sobre a Santa Ceia do Nosso Senhor. Participa das dietas de Worms e, ali, recebe carta dos síndicos e conselhos de Genebra, convidando-o a retornar. Toma conhecimento de que Estrasburgo é tomada pela peste. Reluta em aceitar o pedido de Genebra. Viaja a Ratisbon, para nova dieta, que abandona ao perceber que não produzirá resultados. Mais uma vez admoestado por Farel, aceita o convite de Genebra, chegando à cidade em 13 de setembro de 1541.
[79] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 127-206: Período de consolidação; os primeiros quinze anos, de 1541 a 1556. Bem-recebido em Genebra. Presenteado com um toga de veludo preto. Instalado na casa na Rua do Canhão, perto da Catedral. Novo púlpito em Saint Pierre. Uma carruagem vai buscar Madame Calvino em Estrasburgo. Registra-se na ata do Pequeno Conselho: “Resolve-se conservar Calvino aqui para sempre”. Proposta de planos. Auxiliado por Viret. Escrita, aprovação e execução das Ordens Eclesiásticas da Igreja de Genebra — estabelecimento de quatro funções na igreja (ministro, professor, presbítero e diácono) e organização das atividades eclesiásticas (cultos, sermões, batismos, casamentos, Ceia do Senhor e visitações). As Ordens foram aprovadas em dois meses e demorou catorze difíceis anos para colocá-las em prática. Compilação das leis da cidade. Em 1542, o primeiro filho de Calvino, Jacques, morre duas semanas após o nascimento. Três anos depois nasce e falece uma filha. Dois anos adiante, espera-se uma terceira criança que morre ao nascer. Idellete adoece e morre em 29 de março de 1549. Embates com os Conselhos de Genebra, além de Sebastião Castellio, Pierre Ameaux, a família Favré, Philibert Berthelier, Pierre Vandel, Jacques Guet (Gruet), Bolsec, Zeraphin Trolliet e Miguel Servetus. Última tentativa de oposição dos Libertinos em 1555.

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Fonte: Somente pela Graça

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